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Sem estudar há 28 anos, homem supera vício e é aprovado na Ufes

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Ângelo Corrêa, de 47 anos, comemorou a aprovação no VestUfes (Foto: Ângelo Corrêa/ Arquivo Pessoal)

Ângelo Corrêa, de 47 anos, comemorou a aprovação no VestUfes (Foto: Ângelo Corrêa/ Arquivo Pessoal)

Ângelo Corrêa, de 47 anos, foi aprovado para o curso de Biblioteconomia.
Apaixonado por leitura, ele ainda quer escrever livro e abrir biblioteca.

Viviane Machado, no G1

Aos 47 anos e sem estudar há 28, o repositor de supermercados Ângelo Corrêa realizou o sonho de passar no vestibular da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), nesta quarta-feira (28). Alcoólatra em processo de desintoxicação, Ângelo ficou surpreso ao ser aprovado para o curso de Biblioteconomia. “Queria dar esse orgulho à minha mãe, que tem Alzheimer em estado terminal. Vai ser uma mudança radical de vida. Não quero parar de estudar mais e um dia ainda vou escrever um livro sobre a minha história”, disse.

O repositor nunca havia tentado o vestibular, mas resolveu arriscar. “Inicialmente eu me inscrevi no Enem só para saber como era a prova. Minha sobrinha ficou insistindo para eu tentar. Não esperava ter a pontuação que tive. Parei de estudar há 28 anos e desde então não tinha visto mais nada. Achei a prova fácil, apesar de todos esses anos parado”, contou.

Apaixonado por literatura e bibliotecas, Ângelo ficou empolgado com o Enem e resolveu se inscrever no vestibular da Ufes para o curso de Biblioteconomia. “Desde pequeno eu gosto do lado artístico, de leitura. Tenho paixão por cultura e há falta desses profissionais no mercado. Eu sempre frequentei bibliotecas e é um mundo mágico. É um lugar que ninguém consegue te perturbar. Gosto de estar entre os livros, de restauração da parte de arquivos. Estou muito feliz com essa escolha”, falou.

“A melhor coisa que aconteceu na minha vida”
Para Ângelo, a aprovação no vestibular representa uma mudança radical de vida. Há quatro anos, ele largou o vício do álcool e está em processo de desintoxicação. “A melhor coisa que aconteceu na minha vida. Estava sem estudar há muito tempo e sou um dependente em recuperação. É como se eu tivesse tirado o maior prêmio da minha vida. Esse resultado eu sinto. Já chorei, já comemorei. Foi emocionante para mim e para toda a minha família”, afirmou.

O recém-aprovado já está ansioso com o início das aulas. Ângelo disse que está se sentindo como um jovem de 18 anos com a conquista. “Estou feliz, alegre e não vejo a hora de estar na sala de aula. Estou pensando nisso o tempo todo. Sei que estudar não é fácil, mas quero passar por isso como todo mundo”.

A alegria foi tanta, que Ângelo resolveu fazer como a maior parte dos jovens aprovados – ele raspou a cabeça para comemorar. “Quando a gente passa, tem que fazer como manda o figurino. Eu mesmo fui até o barbeiro e pedi para ele raspar a minha cabeça. Quem passa no vestibular faz isso e se alguém vê uma cabeça raspada na rua sabe que aquela pessoa foi aprovada”, falou.

Futuro
Embora tenha tentado o vestibular aos 47 anos, Ângelo não poupou nos planos para o futuro. Ele quer realizar um outro sonho, o de construir uma biblioteca em sua casa e abrir o espaço para as crianças carentes do bairro onde mora, em Aribiri, Vila Velha.
“Muita gente já me doou livros e estou reunindo todo o material. Tenho um acervo aqui em casa, onde estou organizando. Eu quero fazer da minha casa um centro cultural. Somos carentes de espaços assim aqui no bairro. Não tem um lugar onde as pessoas possam ouvir uma música e ler um bom livro”, disse.

Assim que ficar pronta para ser inaugurada, o futuro universitário planeja dar ao espaço o nome de sua mãe, Maria Isaura Gorza Corrêa. “Eu vou dar o nome da minha mãe, porque ela sempre foi apaixonada por cultura e incentivou muito os filhos a estudarem. Hoje, ela tem Mal de Alzheimer aos 90 anos. Está na fase final, mas conseguiu me ouvir dizendo que passei no vestibular. Foi emocionante, porque essa também é uma conquista para ela”, completou.

Quando terminar o curso, Ângelo ainda quer escrever um livro para contar sobre a sua história. “Daqui a uns tempos, e são planos bem para o futuro, pretendo escrever o meu próprio livro. Vou contar sobre como entrei no álcool, como eu saí e como consegui apesar disso tudo entrar na faculdade”, finalizou.

Ângelo quer abrir sua casa para que crianças carentes possam estudar (Foto: Ângelo Corrêa/ Arquivo Pessoal)

Ângelo quer abrir sua casa para que crianças carentes possam estudar (Foto: Ângelo Corrêa/ Arquivo Pessoal)

Professor universitário debocha de negros e cotistas em sala de aula

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Professor da UFES disse que cotistas são “pretos, pobres, sem cultura, sem leitura e analfabetos funcionais” e afirmou ainda que “detestaria ser atendido por um médico ou advogado negro”

Estudantes protestam contra professor da Ufes Manoel Luiz Malaguti [esq] – Pragmatismo Político

Estudantes protestam contra professor da Ufes Manoel Luiz Malaguti [esq] – Pragmatismo Político

Marcos Sacramento, no Pragmatismo Político

Estudantes da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) denunciaram um professor por manifestar racismo durante uma aula da turma do 2º período do curso de Ciências Sociais.

Professor do Departamento de Economia, Manoel Luiz Malaguti cravou que “o nível da educação está tão baixo que o professor não precisa se qualificar mais para dar aula, já que a maioria dos cotistas são negros, pobres, sem cultura e sem leitura, são analfabetos funcionais”.

Ainda afirmou que “detestaria ser atendido por um médico ou advogado negro”. Um dos que presenciaram a explanação racista foi João Victor Santos, de 20 anos, cotista pelos critérios de raça e renda.

“Ele foi questionado por um aluno sobre o valor do trabalho de um professor, se era justo, e aproveitou a deixa para falar de educação. Ele aproveitou para fazer uma crítica ao sistema e falar que a ingressão de cotistas na universidade diminuiu o nível da universidade”, disse João Victor.

O discurso durou aproximadamente uma hora e foi concluído com a afirmação de que ele “detestaria ser atendido por um médico ou advogado negro”. No começo da aula havia cerca de 20 pessoas, mas à medida que o professor falava os alunos foram se retirando, alguns nervosos e chorando.

Os estudantes registraram uma queixa na ouvidoria da universidade e fizeram uma manifestação exigindo punição.

Primeiro desembargador negro do Espírito Santo, Willian Silva ofereceu representação criminal ao Ministério Público Federal. “Sinto-me com a dignidade e o decoro ofendidos na condição de jurista negro, proveniente de família pobre, advogado atuante por vários anos antes do ingresso na carreira da magistratura, e hoje o primeiro desembargador negro capixaba”, falou.

Doutor em Teoria Econômica pela Universidade de Picardie, na França, Malaguti é professor da Ufes desde 1995. Em entrevista ao portal Gazeta Online, ele se defendeu.

“No meio de uma discussão sobre cotas e o sistema educacional, eu coloquei que se eu tivesse que escolher entre dois médicos, um branco e um negro, com o mesmo currículo, eu escolheria o branco. Por que que eu escolheria o branco? Os negros, em média, vêm de sociedades, de comunidades menos privilegiadas, para a gente não usar um termo mais forte, e nesse sentido eles não têm uma socialização primária na família que os tornem receptivos aos trâmites da universidade, à forma de atuação da universidade, aos objetivos da universidade. Eles têm muito mais dificuldades para acompanhar determinadas exposições. Eu não acho que é uma visão preconceituosa, acho que é bastante realista”, disse.

“Então eu dei o exemplo do médico, mas não nesses termos que eu detestaria, nunca falaria algo parecido. Eu diria simplesmente e reafirmo que dois médicos com o mesmo currículo, com a mesma experiência, só que um negro e um branco, em função da possibilidade estatística desse médico branco ter tido uma formação mais preciosa, mais cultivada, eu escolheria um médico branco. Mas como um exemplo do que a sociedade faz.”

O discurso é ainda mais pérfido por vir do servidor de uma instituição de ensino pública. A opinião de Malaguti mostra que o ingresso na universidade é só uma das muitas barreiras que os alunos cotistas enfrentam no decorrer do curso.

João Victor participa de um grupo que pesquisa o preconceito sofrido por cotistas na Ufes. Ele disse que há relatos de professores que dividem a turma entre não cotistas e cotistas, chegando ao absurdo de dar aulas em dias diferentes para cada grupo, e lembra que há outras formas de discriminação mais difíceis de detectar. É comum, por exemplo, acontecer confraternizações entre os alunos e os cotistas não serem convidados.

A Ufes passou a adotar o sistema de cotas sociais em 2008 e desde 2013 adota também as cotas raciais.

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