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Pesquisador descobre livro de Machado de Assis ignorado por um século e meio e nunca publicado

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Aos 25 anos. O escritor à época em que sairia seu planejado volume de poemas

Aos 25 anos. O escritor à época em que sairia seu planejado volume de poemas

 

Wilton Marques, da UFScar, encontrou menções a ‘Livro dos Vinte Anos’ enquanto pesquisava a relação de literatos com periódicos; não se sabe, porém, por que Machado desistiu da obra

Publicado no Estadão

Crisálidas (1864) foi o primeiro livro de poemas de Machado de Assis (1839-1908) – mas quase não foi. Duas notas publicadas no Correio Mercantil em 1858 e em 1860 e um anúncio veiculado no Correio da Tarde também em 1860 mostram que ele se preparava para lançar o Livro dos Vinte Anos. Essa informação, descoberta agora pelo professor Wilton Marques, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e divulgada com exclusividade para o Estado, nunca foi incluída em suas biografias, e especialistas contemporâneos dizem nunca ter ouvido falar no tal livro de poemas.

Tudo começou com uma outra descoberta – a do poema O Grito do Ipiranga que Machado de Assis publicou no Correio Mercantil em 1856. O professor quis, então, escrever um livro sobre esse texto, mas achou que precisava ampliar sua pesquisa para dar corpo à obra.

Iniciou, assim, uma investigação sobre a presença de literatos em jornais. Estava debruçado sobre os arquivos do Correio Mercantil na Hemeroteca Digital Brasileira, lendo os textos de Macedo, Gonçalves Dias, Manuel Antonio de Almeida, José de Alencar e Machado de Assis, quando se deparou com a seguinte nota na primeira página: “Mais um volume de versos se anuncia, e podemos já dizer mais um poeta se vai revelar. Modesto e muito jovem são, além de felizes inspirações, qualidades bastantes para recomendarem o nome do Sr. Machado de Assis, autor do livro cuja publicação se nos anuncia”. Machado era, então, um garoto de 19 anos.

Um ano e meio depois sem que nada tivesse ocorrido, outra menção ao volume, em janeiro de 1860. Agora, com mais detalhes: “Vai publicar-se uma coleção de versos com o título de Livro dos Vinte Anos. O autor é um moço que enceta apenas a carreira das letras. Talento viçoso e original, o Sr. Machado de Assis promete mais um poeta e um prosador distinto no país. Nas poesias ligeiras ou ensaios de prosa que tem publicado até hoje, revela o Sr. Assis qualidades notáveis que recomendam o seu nome. O público receberá sem dúvida o seu livro como merece o talento do autor, que tem tanto de real como de modesto. Na atualidade é uma associação rara”.

'Correio Mercantil', 19 de janeiro de 1860

‘Correio Mercantil’, 19 de janeiro de 1860

 

Lá se vai mais um mês e um anúncio no Correio da Tarde traz novidades mais concretas. Ele diz: Livro dos Vinte Anos por Machado de Assis. Um volume de 200 a 240 páginas; 2$. Assina-se nas lojas de costume e na tipografia do Sr. Paula Brito, onde é impresso.

E, então, fez-se um silêncio que dura até hoje, 156 anos depois. Por que o livro nunca foi lançado? O número de assinantes não foi suficiente para bancar a impressão nesta espécie de crowdfunding do século 19? Machado não gostou do resultado do trabalho? Brigou com o editor? Por que nunca se falou nesta obra?

Wilton Marques fica com a hipótese da consciência literária de Machado e da mudança de interesse. “Tem uma expressão de Jean-Michel Massa que diz que Machado tinha uma autocrítica vigilante muito forte. Exigia muito do texto na busca de um comprometimento com o dado estético, com a formalidade do texto literário. E por isso ele jogava muita coisa fora”, comenta o professor. Vale lembrar que quando organizou Poesias Completas (1901) – porque, como disse em carta ao editor Garnier, queria deixar esta obra como sua bagagem poética –, ele excluiu muitos poemas de outros títulos que ele mesmo tinha organizado. “Esse exercício de autocrítica é muito forte e mais um indício de que ele abandonou o livro.”

'Correio da Tarde', 20 de fevereiro de 1860

‘Correio da Tarde’, 20 de fevereiro de 1860

Fora isso, Marques diz que os poemas do Livro dos Vinte Anos seriam da fase romântica de Machado – e ele discordava de seus ideais. E que àquela altura o autor estava totalmente dedicado ao teatro – foi com peças, aliás, que ele estreou na literatura.

A hipótese de que os poemas do malogrado livro, como o professor escreve no artigo que será publicado na revista Machado em Linha até dezembro, tenham sido incluídos em títulos posteriores também está fora de cogitação. Ele lembra que o escritor datava seus textos e em Crisálidas (1864), por exemplo, só um dos poemas é de antes de 1860.

José Luiz Passos, escritor, professor de literatura brasileira da Universidade da Califórnia (Ucla) e autor de Machado de Assis: Romance Entre Pessoas, não conhecia essa referência, mas imagina que o livro talvez não tenha valido a pena para Machado, e, por isso, ele teria abortado a publicação. “Às vezes, ele apostava numa capacidade de produção muito maior que as condições reais que ele tinha de execução”, comenta Passos.

Isso, sem contar com o compromisso e a tentativa de agradar – neste caso, mais tarde – a seu editor Garnier, para quem prometeu, e nunca entregou, O Manuscrito do Licenciado Gaspar e Histórias de Meia-noite. Passos comenta também sobre um libreto de ópera que ele teria escrito, mas que nunca apareceu.

“Esses livros não realizados são mais um exemplo da capacidade de produção imaginativa dele, dessa ambição de colocar para fora, de publicar cada vez mais”, diz. E como boa parte de sua produção era em jornais, o professor acredita que ainda há muito a ser revelado. “A cada vez que se organiza uma coletânea dos contos de Machado, sempre aparece algum texto – principalmente porque ele também escrevia sob mais de 20 pseudônimos”, explica.

Passos, no entanto, não conhece tantos anúncios da natureza dos encontrados por Wilton Marques. “Esse Livro dos Vinte Anos foi uma surpresa e é mais uma evidência de alguém que está tentando tudo – de contratos com editores a colaboração em periódicos.” E Machado tinha ambição. Segundo o professor, ele queria ser um autor clássico. “Ele se coloca ao pé dos grandes e não faz literatura de ocasião.” Mais um motivo para se livrar dos poemas românticos?

O crítico Silviano Santiago, que acaba de entregar o manuscrito de Machado, romance sobre os últimos quatro anos de vida do escritor, também nunca ouviu falar do livro. “Mas como Carlos Drummond que não publicou o manuscrito que enviou em 1925 a Mário de Andrade, e esperou 1930 chegar para publicar o volume Alguma Poesia, Machado também deve ser elogiado por não ter tido a coragem de publicar esse livro. Realmente, ambos os escritores não começam bem em matéria de escrita poética. Pensando nesse tipo de carreira literária é que talvez se possa entender melhor a célebre alegoria de Machado, que começa por dizer que “Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, etc.”, comenta.

Obra rara

Um volume da primeira edição de Crisálidas, o primeiro livro de poemas de Machado, foi incorporado ao acervo da Estante Virtual este ano. A relíquia custa R$ 4.748. Há outras 30 obras raras no portal que reúne sebos de todo o País.

Aluna da UFSCar encontra poemas ‘inéditos’ de Drummond

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Estudante encontrou poemas inéditos de Carlos Drummond de Andrade (Foto: Wilson Aiello/EPTV)

Estudante encontrou poemas inéditos de Carlos Drummond de Andrade (Foto: Wilson Aiello/EPTV)

 

Obras foram publicadas em edição da revista Raça, em São Carlos, SP.
Trechos podem ajudar na compreensão do processo criativo do escritor.

Publicado no G1

A estudante Mayra Fontebasso, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), descobriu três peças importantes no mundo literário: poemas ‘inéditos’ de Carlos Drummond de Andrade. Publicados em uma revista de São Carlos (SP) em 1929, os trechos nunca foram estudados e pertencem à fase jovem do escritor. “São inéditos pelo fato de não terem sido catalogados. Eles foram publicados em revista, mas nunca foram recolhidos em livros e nem estudados”, explicou o professor de literatura Wilton Marques, que coordena a pesquisa. (Veja as obras no fim do texto).

Os “poemas perdidos”, como são intitulados, foram encontrados em um exemplar da revista Raça doado pela família Damiano. Na época, o jornalista Carlos Damiano era o editor responsável pelas publicações. Agora, o acervo pertence à Fundação Pró-Memória.

Segundo Marques, as características dos textos correspondem a uma época desconhecida da vida de Drummond, de quando ele tinha cerca de 20 anos, e por isso eles se tornaram relíquias. “Ainda é um Drummond jovem e excitante literariamente, mas que já apresenta um tipo de poema que vai caminhar para a modernidade depois”.

Até então desconhecidos, os achados são considerados ‘inéditos’ porque não fazem parte do conjunto principal de sua obra e mostram um modo diferente do acostumado modernismo de Drummond.

“A gente percebeu que não só é inédito em livros, como nenhum estudioso nunca se debruçou sobre eles porque, provavelmente, por ser uma revista local, nunca foi alvo de estudos da área de literatura, são pedras preciosíssimas”, afirmou a universitária, aluna do último ano do curso de graduação em letras.

História
Drummond nasceu em Minas Gerais em 1902 e é considerado um dos poetas mais influentes do século 20. Seus primeiros poemas são marcados pela individualidade do autor, que, ao longo o tempo, começa a jornada pelo modernismo, onde deixa sua marca registrada.

Mas as descobertas podem alterar essa linha. “Primeiro eu desconfiei muito desses poemas porque não tinham a assinatura completa do autor, ele assinava só como Carlos Drummond. Esses são poemas que não são parecidos com o Drummond que a gente conhece, o Drummond famoso e modernista”, disse Mayra.

Os achados serão estudados pelos pesquisadores para a melhor compreensão do processo criativo do escritor e também farão parte de uma antologia da Revista Raça, editada na cidade entre 1927 e 1934, com circulação tanto na região quanto na capital paulista.

“Agora eu espero encontrar outras pedras no meio do meu caminho, no meio dessa minha pesquisa, e provavelmente há textos inéditos de outros escritores, não só do Drummond”, finalizou Mayra. Veja abaixo os poemas encontrados.

O poema das mãos soluçantes, que se erguem num desejo e numa súplica
Como são belas as tuas mãos, como são belas as tuas mãos pálidas como uma canção em surdina…
As tuas mãos dançam a dança incerta do desejo, e afagam, e beijam e apertam…
As tuas mãos procuram no alto a lâmpada invisível, a lâmpada que nunca será tocada…
As tuas mãos procuram no alto a flor silenciosa, a flor que nunca será colhida…
Como é bela a volúpia inútil de teus dedos…

O poema das mãos que não terão outras mãos numa tarde fria de Junho
Pobres das mãos viúvas, mãos compridas e desoladas, que procuram em vão, desejam em vão…
Há em torno a elas a tristeza infinita de qualquer coisa que se perdeu para sempre…
E as mãos viúvas se encarquilham, trêmulas, cheias de rugas, vazias de outras mãos…
E as mãos viúvas tateiam, insones, as friorentas mãos viúvas…

O poema dos olhos que adormeceram vendo a beleza da terra
Tudo eles viram, viram as águas quietas e suaves, as águas inquietas e sombrias…
E viram a alma das paisagens sob o outono, o voo dos pássaros vadios, e os crepúsculos sanguejantes…
E viram toda a beleza da terra, esparsa nas flores e nas nuvens, nos recantos de sombra e no dorso voluptuoso das colinas…
E a beleza da terra se fechou sobre eles e adormeceram vendo a beleza da terra…

CARLOS DRUMMOND.

Professora é a 1ª surda a defender o doutorado no Estado de São Paulo

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Banca foi realizada na tarde desta quinta-feira na UFSCar, em São Carlos.
Apresentação contou com videoconferência e diversos intérpretes de Libras.

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Publicado no G1

A professora Mariana de Lima Isaac Leandro Campos se tornou nesta quinta-feira (27) a primeira pessoa surda a defender o doutorado no Estado de São Paulo, segundo a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), onde ocorreu a banca.

“Me sinto aliviada e também sinto a responsabilidade como representante do povo surdo”, contou por meio da Língua Brasileira de Sinais (Libras). “É um momento de mostrar a capacidade do surdo, me sinto um modelo mostrando que é possível estudar”.

Professora da disciplina “introdução à Língua Brasileira de Sinais” na universidade, Mariana defendeu a tese “O processo de ensino-aprendizagem de Libras por meio do Moodle da UAB-UFSCar” e contou com três bancas: uma de avaliadoras presenciais, uma virtual e outra de intérpretes. Ela foi aprovada.

As professoras Ana Cláudia Balieiro Lodi, Cláudia Raimundo Reyes, Isamara Alves Carvalhoa e a orientadora, Cristina Broglia Feitosa de Lacerda, compuseram a banca tradicional. Do outro lado da tela, por videoconferência com interpretação para o português, a docente Marianne Rossi Stumpf, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que também é surda, completou o quadro. E, responsáveis por fazer a ponte entre o português e a Libras, estavam os intérpretes Vinícius Nascimento, Samantha Daroque, Lara dos Santos, Diléia Martins, Sarah Diniz e Joyce Cristina Souza Almeida, integrantes do grupo de pesquisa Surdez e Abordagem Bilíngue e amigos de Mariana.

Pesquisa
No estudo, orientado pela pesquisadora Cristina Broglia Feitosa de Lacerda, foram analisadas as ferramentas disponibilizadas para o ensino de língua no ambiente virtual e como alunos, tutores e docentes dos cursos de pedagogia e educação musical a distância percebiam esse aprendizado.

Como conclusão, notou, entre outros pontos, que ferramentas como os chats precisam ser melhoradas, a necessidade de encontros presenciais dos alunos para o uso da Libras e também a importância de mais espaço para o ensino da língua junto aos futuros professores.

“Minha tese me deu muita segurança de entender esse aluno, agora posso voltar para o ambiente virtual e lutar para estender a carga horária da disciplina”.

Primeiros anos
Mãe de Mariana, a médica Myriam de Lima Isaac contou que teve rubéola quando estava no primeiro mês da gestação e que a filha foi diagnosticada com perda profunda da audição quando completou oito meses de vida.

Na época, as cirurgias e aparelhos não estavam tão desenvolvidos e, com orientação da fonoaudióloga Regina Sampaio e do professor Mauro Spinelli, Myriam começou a buscar recursos para que Mariana aprendesse a se comunicar. “Quando soube da perda, minha preocupação foi ‘o que vou fazer para que ela tenha um bom aprendizado?’”.

Ainda pequena, Mariana foi exposta à comunicação total, aprendeu português e Libras. “Ela é bilíngue”, resumiu Myriam, contando que, na família, nem todos usam a língua de sinais. “Nos comunicamos por leitura orofacial e pela fala, ela não é muda”.

Nascida em Ribeirão Preto, a pesquisadora sempre estudou em escolas regulares – era a única estudante surda do colégio – e contou com a receptividade da direção e do corpo docente. “A direção permitia que a fonoaudióloga fosse orientar os professores”, lembrou Myriam. “Isso é um fator muito importante, ela sempre foi incluída onde estudou e isso é fundamental”, completou a mãe, que não escondeu o orgulho do percurso percorrido.

“A defesa é o fechamento de uma jornada cheia de trabalho dela, de determinação, vontade, metas, disciplina. Tenho orgulho, é um avanço para a educação de outros surdos por mostrar que são capazes”.

Faculdade
Mariana é graduada em ciência da computação, mas optou por mudar de rumo. “Achava que ia ficar só no computador, mas estava enganada. Comecei a trabalhar e ter limitações, precisava falar, ficava muito tensa em reuniões. Pensava: ‘Como será? Como vou viver tensa?’. Aí comecei a migrar para a educação”, explicou.

Ela fez o mestrado em Santa Catarina, passou em um concurso em São Carlos e, desde então, viu o espaço para Libras na universidade crescer. “A língua foi reconhecida por lei em 2002”, explicou Diléia. Com isso, começaram a surgir cursos e oportunidades.

Mas ainda há muito a construir, segundo Mariana. “Estamos vivendo um momento político. Há grupos que apóiam o ensino bilíngue e grupos a favor da inclusão, são abordagens diferentes. É importante ter o bilíngue e depois, a partir do 5º ano do ensino fundamental, ter o ensino regular. Gostaria muito que fosse assim, a criança precisa aprender na sua língua”, defendeu.

Autodidata que deixou a escola aos 14 anos ganha prêmio de Stanford

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Rogerio entrou na UFSCar pelo Enem, que também certifica a conclusão do Ensino Médio (Foto: Javier Ceballos)

Rogerio entrou na UFSCar pelo Enem, que também certifica a conclusão do Ensino Médio (Foto: Javier Ceballos)

Rogerio Pedrosa Ruivo hoje cursa engenharia de computação na UFSCar.
Ele achou falha em “The Art of Computer Programming”, de Donald Knuth.

Stefhanie Piovezan, no G1

Um estudante da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) foi premiado pelo professor Donald Knuth, da Universidade de Stanford, por encontrar um erro no volume I da série de livros “The Art of Computer Programming”. A recompensa, um cheque simbólico de 0 x $ 1,00 do fictício Bank of San Serriffe, é umas mais desejadas no mundo da computação, área que sempre atraiu o autodidata Rogerio Pedrosa Ruivo e sobre a qual ele se debruçou depois dos 14 anos, quando deixou a escola.
“Sempre gostei de estudar, mas nunca tive afinidade com a escola convencional. Considerava perda de tempo o conteúdo e a forma como eram ensinadas as matérias. Isso desde criança. Quando tomei a decisão de não ir mais à escola, minha família ficou chocada, mas depois entendeu que eu segui um caminho alternativo como autodidata e me apoiou”, contou o jovem de 29 anos, aluno de engenharia de computação em São Carlos (SP).

Foi justamente pela família que ele ficou sabendo que tinha recebido o prêmio. “Foi uma baita surpresa quando minha mãe me telefonou dizendo que havia um envelope de Stanford na caixa de correio”. Sem conter a ansiedade, Ruivo pediu para o pai abrir a carta com todo o cuidado, mas a ficha só caiu com o tempo. “Não entenderam nada. Só depois que a notícia foi divulgada pela universidade que eles perceberam a importância. Fui parabenizado por vários professores”.

Cheque do professor Knuth é um dos prêmios mais almejados da área  (Foto: Rogerio Ruivo/Arquivo Pessoal)

Cheque do professor Knuth é um dos prêmios mais almejados da área (Foto: Rogerio Ruivo/Arquivo Pessoal)

A divulgação e as congratulações tinham motivo: o prêmio já foi oferecido a pesquisadores como Thomas Cormen, do MIT, e é concedido sobre uma obra listada pela revista “American Scientist” entre as melhores do século, juntamente com títulos como “The Meaning of Relativity”, de Albert Einstein.

“Essa obra me fez ingressar na universidade. Eu fiquei sabendo sobre ela na internet e fiquei intrigado pelo que diziam dela, até Bill Gates reverenciava esse livro”, disse Ruivo. Curioso, ele adquiriu a série e, em 2014, descobriu a falha, que passou despercebida desde 1968, quando foi lançada a 1ª edição.

“O erro localizado diz respeito a uma inconsistência na descrição das convenções da linguagem de programação conhecida como ‘MMIXAL’, que é uma linguagem adotada para um computador teórico, que não foi construído fisicamente, mas apenas utilizado como modelo no livro”, explicou. “Na programação é assim, às vezes, uma pessoa detecta um erro num programa que já foi verificado mil vezes por outras pessoas. Por ser muito complexo, um olhar de outro ângulo pode revelar erros que muitos não perceberam antes”, completou.

Da percepção da falha à postagem do cheque, cerca de um ano se passou e, nesse período, Ruivo sabia que sua colocação estava sendo verificada criteriosamente, daí a surpresa com a chegada da carta. “Fiquei muito feliz, pois sou fã do Knuth”, contou o futuro engenheiro, que já definiu que vai enquadrar o prêmio, seu “tijolo” no “edifício” da computação.

Indígena diz que 19 de abril não existe: ‘Estamos na história todos os dias’

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Luciano Ariabo Kezo vai integrar a comissão brasileira em fórum da ONU.
Aluno da UFSCar fez livro que ensina umutina-balatiponé, tida como extinta.

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Publicado no G1

Aos 25 anos, o indígena Luciano Ariabo Kezo vai concluir em 2015 o curso de letras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e quer fazer mestrado. Em 2012, escreveu um livro que ajuda a ensinar a língua umutina-balatiponé, relatada pela Unesco como “extinta”, e programa a segunda obra. Na próxima semana, vai integrar a comissão brasileira no Fórum Permanente sobre Questões Indígenas da ONU, no qual discursará em inglês e espanhol sobre o direito dos povos indígenas no Brasil e no mundo, abordando problemas como o suicídio e a automutilação, e desconstrói estereótipos.

Ele concedeu a entrevista ao G1 durante a I Semana dos Estudantes Indígenas da UFSCar, em São Carlos (SP), realizada como contraposição ao 19 de abril. “Queríamos aproveitar esse momento, em que as escolas estão chamando, e mostrar que não existe ‘Dia do Índio’. Parece que só somos lembrados nessa data. Estamos na história do Brasil até hoje, todos os dias. Vê-se o índio no pretérito. Para ser índio, tem que ser o que era no século 16, e essa imagem do passado também é uma construção”.

Sentado ao lado da quadra de esportes em que ocorria o encerramento do evento, ele mostrou objetos e adornos. Um instrumento feito de casco de anta se sobressaía no cesto e Ariabo contou que a carne do animal é consumida na reserva de onde veio, em Barra do Bugres (MT), a 1.459 km de São Carlos (SP), onde hoje vive com a companheira e os dois filhos. “Minha vó fazia na brasa, retirava pedaços aos poucos e amassava no pilão para fazer uma paçoca com farinha”, disse ele, que sente falta da comida e das pessoas.

Desde que entrou na universidade, em 2010, Ariabo vai para a casa da mãe apenas nas férias de fim de ano e tem vontade de voltar, como muitos indígenas que deixam suas aldeias. Nos eventos, esses jovens que saíram de casa se conhecem, estudam propostas para o ensino superior e se fortalecem politicamente. “Muitos entram, chegam para atender necessidades do povo, adquirir as armas do sistema para defender e preservar”, explicou. Para a professora Roseli de Mello, que também representará o Brasil no Fórum da ONU, “hoje a universidade é muito mais bonita e inteligente, e o papel indígena é fundamental nisso”. Mas a aceitação é recente. “Perguntavam o que o índio iria fazer aqui na UFSCar. Diziam que um índio que estuda não é mais índio”, contou em sua palestra na Semana.

Na aldeia Bacalana, uma das duas que compõem a reserva no Mato Grosso, a média é de um a dois universitários por família, segundo Ariabo. Apenas na casa dele, na aldeia Umutina, a mãe pode se orgulhar de ter dois filhos formados, três cursando a universidade e dois sobrinhos e duas noras também no ensino superior, em cursos de biblioteconomia a agroecologia. Ter parte da família por perto na própria UFSCar ajudou Ariabo a superar a perda do pai, em 2012, e o tratamento da filha mais nova, que nasceu com uma cardiopatia.

“Ela se chama Isabele Ine. Ine quer dizer solidez. Para os umutinas, o primeiro nome está relacionado ao sonho e o segundo nome vem depois, com as aptidões. A criança vai adquirindo experiências e superando desafios. O nome vem do desafio”, contou. No caso de Ariabo, a família vem de um clã que adotava a cosmologia, algo externo à Terra, para nomear. “Ari” pode ser entendido como Lua e “Boropo” como esfera celeste, o céu no sentido material.

Clãs, porém, não são mais comuns. Existiam quando a população umutina ocupava um amplo território. Hoje, na reserva, há cerca de 600 descendentes de uma época em que restaram apenas 23 adultos, além de órfãos e anciãos.

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História
“Os umutinas dominavam uma grande área, mas havia o extrativismo de poaia e, quando os extrativistas e o povo se encontravam, havia combate e fugitivos. Por fatores externos como esse, eles ficaram confinados entre os rios Bugre e Paraguai, mas havia contato com pessoas pacíficas e o sarampo, a coqueluche e a tuberculose se espalharam. Eles não tinham anticorpos, os remédios naturais não tinham efeito, e quase desapareceram”, contou Ariabo.

No início do século 20, houve a interferência do Marechal Cândido Rondon e, a partir da década de 1930, o Serviço de Proteção aos Índios começa a levar outros povos, como os paresi, para residirem na aldeia, que corria risco de perder território por conta da queda populacional. Atualmente, são nove povos que, mesmo com origens diferentes, se identificam como umutina-balatiponé.

“É o aldeamento. O SPI ‘acolhe’ os órfãos e velhos que ficaram após as doenças e oferece remédios industrializados, leva outros povos para formarem famílias. Minha avó era da primeira turma de transferidos e até a morte falava o paresi, mas não era o mais comum”, afirmou Ariabo.

Ele explicou que os não-indígenas tentavam imprimir sua cultura e proibiam o uso de adornos. “Achavam que a forma como nos comportávamos era de animais. Havia também a questão da virilidade. Os homens do nosso povo costumavam usar o cabelo bem longo e quem trabalhava pela desconstrução afirmava que isso era característico das mulheres”, disse. Os brancos também queriam estabelecer o português e, como os que chegavam não sabiam a língua dos que estavam estabelecidos, e vice-versa, ele acabou se transformando no idioma usado no âmbito social.

Os 23 adultos sadios que fugiram do aldeamento, contudo, conseguiram preservar os costumes. E foi com um deles, Julá Paré, que Ariabo conheceu parte dessa história. “Ele integrou o grupo. Saiu de lá adolescente. Tinha perdido o irmão, o pai e a mãe. Achou que se afastar aliviaria a dor. Trabalhou, viveu na cidade, voltou e teve uma casa afastada e depois se instalou mais próximo da minha família”.

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No começo, Julá não gostava da ideia de repassar os conhecimentos. “Uma das características dos umutinas é o sentimentalismo e falar faria ele lembrar das perdas. Minha mãe conversava, falava que era importante ele passar para os mais jovens, aí ele começou a transferir”, disse Ariabo.

Com o ancião, o jovem aprendeu músicas, danças, detalhes da língua. Tudo a seu tempo. E o conhecimento não ficou restrito a ele. Julá participou de encontros do grupo de jovens criado em 2000 pelo cacique Valdomiro Kalomezoré para resgatar a cultura dos umutinas.

O grupo ganhou força com a expansão da primeira escola da reserva. Até 2003, ela oferecia apenas de 1ª a 4ª série, e, quando passou a oferecer o ensino fundamental completo e o ensino médio, virou lugar de concentração, propiciando a busca por identidade de uma forma mais organizada.

“O cacique levava referências de estudiosos como Harald Schultz e o Julá contava quando estavam errados. O grupo recuperou 17 cerimoniais, pintura corporal, cantos, narrativas. Eventos criados para as práticas foram gerando o interesse do povo. Era como se fosse um jogo de futebol. Havia os participantes e atraía a atenção. Era novidade, e os velhos se emocionavam porque imaginavam que não veriam mais”.

Com o grupo e os estudos, os mais jovens perceberam que a cultura – incluindo estruturas sociais, agricultura, pesca – nunca desapareceu e que mesmo a língua materna, o umitina-balatiponé, declarado “extinto” pela Unesco, estava vivo. “Por isso que o termo mais apropriado é revalorização da língua, e não revitalização, porque ela não morreu”.

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Livro
A língua estava viva, mas como era usada? Foi isso que Ariabo tentou especificar na sua primeira pesquisa, apoiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). No estudo, ele verificou que existia a disciplina “língua materna” na estrutura curricular de sua antiga escola e se debruçou sobre o material disponível. “Havia iniciativas, mas sem apoio, lá não há muitos programas de financiamento e isso desestimulava os professores. Encontrei na universidade essa condição”.

Da pesquisa inicial surgiu uma nova bolsa, dessa vez da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e um livro piloto, de 40 páginas, com uma proposta metodológica e ortográfica para o umutina-balatiponé. “Ele traz expressões, palavras do cotidiano das crianças. Muitas falam no dia a dia, mas não sabem ler e escrever”.

Nesse momento da entrevista, ele tirou o livro da bolsa. “Deixo na mochila porque sempre tem alguém que quer conhecer”, explicou. O material foi ilustrado pelo próprio Ariabo e, como não podia ser diferente, está repleto de significados. Mesmo os desenhos nas laterais remetem a algo. Um deles, como detalhou o autor, vem de um peixe e inspira a pintura corporal. Em outro, na unidade sobre animais, há espécies sagradas, como o gavião real. Tem também o pacu. “Só de ver já dá vontade de comer. É muito consumido”.

Foram impressos 180 exemplares. Eles foram distribuídos nas duas escolas, uma em cada aldeia, e devem gerar um material mais amplo nos próximos anos. “Eu fiz a distância e apenas em alguns momentos tive a opinião do povo, dos professores. Fiquei preocupado em criar algo não condizente com o dia a dia das aulas e não estava lá para acompanhar o uso da língua, ver se a metodologia escolhida era adequada ou não. Com o retorno do povo, dos professores, das crianças, quero fazer oficinas, coletar ilustrações, trabalhar de uma forma mais interativa, colaborativa, criar um novo material em conjunto”, disse.

Ainda assim, não se perde a importância do produto inicial. “São três sujeitos: o professor, o mais velho e a criança. E a criança é o mais importante. Ela vai ser estimulada a saber mais sobre a cultura e a história. O adulto já tem a mente bastante carregada de informações, a criança está no início de tudo, a mente não está carregada, ela aprende, assimila mais facilmente. E é esse público que vai dar continuidade ao processo. Gostaria de ter feito de início o material final, mas eu não fui professor, não sou, tenho que respeitar esse sujeito, não atropelar a metodologia dele. Não queria correr o risco de desestabilizar, queria respeitar o que eles já produziram”.

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E respeito foi uma palavra-chave da conversa. Ariabo fez questão de ressaltar que, além da influência de Julá Paré e do trabalho do grupo, aprendeu com outros anciãos, que continuam sendo uma referência para a tribo. Entre eles, mencionou o avô, Antônio Bacalana. “Não é uma construção só minha, o mérito não é só meu. Há a comunidade, os professores. Sou um dos jovens, mas há outros que também produziram material. Há um conjunto trabalhando para garantir a identidade”, resumiu.

A valorização do conjunto está relacionada à riqueza das experiências individuais, muitas das quais só vêm com o tempo. “O aprendizado nem sempre é linear, às vezes é preciso regressar, ouvir de novo. Primeiro a vivência. Só o tempo vai trazer a compreensão. Para entender o que é ser mãe, só sendo mãe. Quando se é pai, as responsabilidades trazem mais sabedoria, dão base para outros conhecimentos”.

O mesmo vale para cargos. Ariabo é cantor nas cerimônias reintroduzidas, mas isso não é comum. “Fui autorizado pelos mais velhos”, disse antes de perguntar se gostaria de ouvir uma música que compôs. E, na língua materna, cantou “Eu um dia vou andar nos caminhos do céu. Cantando e dançando em língua umutina com guerreiros valentes do meu povo umutina-balatiponéni”.

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