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Eliane Trindade na Folha de S.Paulo

Ele desembarcou em São Paulo em 1º de agosto após 18 horas de viagem desde Foz do Iguaçu em um ônibus de sacoleiros. Trazia na bagagem o diploma em Letras pela Unila (Universidade Federal de Integração Latino Americana ) e os sonhos, definidos como “fumaça na penumbra, belos e efêmeros”.

Bruno Eliezer Melo Martins, 27, logo descobriu que sonhar na Pauliceia, para um rapaz “latino americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior” como ele, é tarefa quixotesca.

Tal qual Dom Quixote de la Mancha, do romance de 1605 de Miguel de Cervantes, o mineiro de Poços de Caldas tenta vencer seus moinhos de ventos, enquanto busca emprego como mediador cultural, tradutor (de espanhol e francês), revisor ou educador.

Nas entrevistas de emprego, ele usa o terno comprado no Paraguai com dinheiro emprestado por um amigo para fazer bonito na cerimônia de colação de grau em julho.

Um outro amigo descolou a casa na qual ficou alojado nos primeiros 20 dias em Sampa. A aclimatação à metrópole inóspita foi em meio aos livros da sortida biblioteca da família em viagem aos Estados Unidos.

“Creio que nesse período li uns 15 livros. Tenho uma meta de, copiando o exemplo de José Mindlin [bibliófilo], ler ao menos dois por semana”, diz o recém-formado bacharel, filho de um serralheiro e de uma dona de casa.

Leu tanto (de Samuel Beckett a Julio Cortázar, passando por José Lezama Lima, autor pelo qual se apaixonou na graduação), que “na solidão de uma casa de artista até pensei que poderia ser feliz ali.”

Com a volta dos donos, Bruno foi parar numa ocupação do Movimento dos Sem-Teto no centro de São Paulo. Pesadelo que durou dez dias.

“Não gosto nem de lembrar, fiquei doente, vi gente passando fome, tentei organizar qualquer coisa e não consegui diálogo, assembleias todos os dias, vi gente usando muita droga, pessoas enfermas e em estado degradante. Ainda é difícil falar de tudo que vi e vivi ali. Foi duro, triste.”

De lá saiu para um quartinho, com um beliche e uma cama, sobre a qual abriga seus livros, um guarda-roupa e uma pequena mesa. Aluga o cômodo no apartamento de uma senhora simpática, que o faz lembrar da dona de pensão do conto “As Formigas”, de Lygia Fagundes Telles.

É dali que pesquisa sobre possibilidades de empregos, envia currículos. “Não para poetas, mas qualquer vaga.” Ele conta que dia desses foi à avenida Paulista ler poemas de Manuel Bandeira: Estrela da Manhã, Pasárgada.

“Mas os pedintes pareciam receber mais moedas que eu. Percebi que recitar Bandeira e não ser escutado era um desrespeito com o próprio. Poesia não pede esmola, tampouco a literatura precisa disso.”

O recém-formado também desbrava a riqueza cultural de uma São Paulo cosmopolita e cara. “A cidade oferece muitas opções e dentro das minhas possibilidades tenho participado, algumas (a maioria, na verdade) são pagas, os cursos são caríssimos e nem todos oferecem bolsas ou descontos”, lamenta, mas se joga nas bibliotecas públicas e em cursos gratuitos que garimpa.

Sua preocupação maior, admite, é a absoluta falta de recursos financeiros. “Meu salário é o pouco do cheque especial que ainda tenho. A situação é de completa pindaíba, as contas chegam, sei que em breve conseguirei algo, mas penso quase com desespero neste momento.”

Em meio ao “ciclo vicioso dos desprovidos de recursos”, Bruno relata como é duro saber que sem um tostão não se pode nada. “Porém sigo como um Quixote inabalável em busca do literário, da paixão, da vida, dessa busca pela dignidade através do poema, da cultura, da beleza.”

“Não sou um sujeito revoltado, mas a minha intensidade da busca pela cultura é uma grande forma de protesto frente ao capital agressivo, ao imediato, à causa e ao efeito.”

A seguir, trechos das “Quixotadas Paulistanas”, o diário que o bacharel em letras, está escrevendo sobre suas vivências na Pauliceia, embrião do primeiro romance de um jovem sonhador.

“O que quero mesmo é escrever não sobre o que me passa, mas sobre a ficção prazerosa da própria vida. Não sei que será do futuro, como se dará minha vida. Às vezes, a única certeza é a incerteza. Mas nessa incerteza há também um prazer incontido de estar vivo e acreditar, por mais que digam o contrário, que o sonho é o caminho mais belo para a realidade.”

QUIXOTADAS PAULISTANAS

Prestes a completar dois meses em São Paulo e na antevéspera de seus 27 anos, nosso personagem vai a uma reunião que definiria seus rumos.

Na verdade, sua reunião era mais do que uma simples entrevista de emprego marcada pela recrutadora para cumprir sua meta diária de entrevistas, era a primeira vez em todo o período de sua estada em São Paulo que lhe convocavam para uma reunião/entrevista.

O dia de nosso personagem e candidato começou com uma parcimoniosa preparação com o requinte de um primeiro dia de trabalho, colocando aquele seu melhor terno e chamuscando a si com o restinho do perfume almiscarado, presente de tantos anos, de um amigo rico.

Nosso personagem tinha certeza de que a vaga seria sua, tinha confiança e pensava que seria um presente do céu que viria para sanar suas relações com cruéis credores e mercenários bancos.

Não viu problema em tomar um café numa boa cafeteria, comer dois croissants, pedir geleia de damasco e mais um expresso, para pagar, usou elegantemente seu cartão de crédito cujo limite foi atingido com aquela última compra.

Marcada para às 10h da manhã, lá vai o nosso candidato à vaga de professor em uma escola particular.

No prédio em que fica o escritório da agência de empregos, na rua Sete de Abril, é muito cordialmente recebido pelo porteiro que lhe indicou o sétimo andar na sala 107.

Por alguma razão, nosso candidato se sentiu oprimido por tantos setes e até se lembrou do sétimo pecado na lista dos dez melhores mandamentos, não roubarás, lembrou-se então de que não cometeria nenhum deslize e jamais mentiria em uma entrevista.

A sala 107 estava repleta de todas as pessoas, na recepção após pedirem-lhe a carteira de identidade, mandaram-no aguardar. Sentiu-se um pouco incomodado por ter um tratamento tão padrão, mas não deu muita importância a isso. Queria mesmo é falar de literatura e dos romances que já lera.

Possivelmente o candidato observou todas as outras pessoas e imaginou histórias, todos eles estavam como ele, desempregados e inservíveis, fora das engrenagens, nas margens da população economicamente ativa, sem dinheiro para pagar as contas mais básicas e comendo no crédito.

Nosso candidato pensou na dureza da vida e nos nãos que todos aqueles poderiam ouvir, mas para si, visualizava em sua primeira entrevista um glorioso sim e começaria a trabalhar como professor de literatura com um modesto salário, mas que seria o suficiente para vida digna, isto é, com as contas pagas.

Quando foi chamado, nosso candidato falou muitas coisas interessantes e que serviam para a vida, falou até de Dom Quixote resumindo a história para a entrevistadora que disse não conhecer, um cúmulo para o entrevistado.

Em resumo, disse a ela, Dom Quixote é a aventura de um leitor fascinado.

No final, a entrevistadora agradeceu muito a disponibilidade do candidato, mas não poderia dar prosseguimento ao processo seletivo, sem explicar o porquê, ela desejou-lhe boa sorte.

Nosso candidato não exigiu explicações, preferiu aceitar dignamente seu primeiro não e sair de cabeça bem erguida e também sorrindo para disfarçar que bem dentro de si ocorria uma tormenta que faziam os olhos marejar daquilo que chamam de decepção.

QUIXOTADAS NÚMERO 2

Nosso candidato, ao sair de seu primeiro e sonoro não, caminhou pelas ruas desconhecidas até uma casa de velas.

Velas e alfazema, mesmo sem ter o que comemorar não resistiu e comprou um robusto, se não para fumar, ao menos para guardar, marcando esse dia. Pagou o charuto com as moedas e as notinhas amassadas que ainda restavam em seus bolsos.

Sentiu as alfazemas como um perfume que lhe traria boas notícias, fechou os olhos e respirou profundamente o ar a loja de produtos esotéricos e saiu com o havano no bolso e ainda sem rumo.

É muito difícil saber o que realmente se passa com nosso candidato, um sujeito de tanto maravilhamento, mas também meio triste com a vida, com as coisas e com os sem rumos de seu itinerário.

Seus pés querem leva-lo em várias direções e por isso, parado espera para pensar para onde poderia ir. Vê uma banca de doces, se pudesse compraria um pé-de-moleque, já não há dinheiro.

Vê um viaduto, e do outro lado da calçada, um antiquário. Resolve caminhar até lá para conhecer um pouco das histórias de pessoas tão desconhecidas que um dia usaram aquelas quinquilharias.

O candidato viu um divã e ficou impressionado com seu formato, nada que fugisse as regras de um divã convencional, mas os pés eram dourados e era revestido por couro branco. Se possuísse um studio poderia comprar aquele divã e nele leria as obras completas de Freud e Lacan.

A dona do antiquário acompanhada de sua cadeira giratória observa todos os passos do candidato, muito provavelmente sabendo que não conseguirá dele nenhum tostão.

O candidato sai, continua sem rumo, mas, mesmo sem querer encontra um caminho conhecido, seus pés que o querem em todas as direções encaminha-o para o quarto alugado.

Sem pretensões entra no quarto, tira o calçado, deita e olha a luminária de duas lâmpadas, mas que só tem uma. Não sabemos que pensa o candidato. Mas é possível perceber que ele ainda sonha em trabalhar, talvez como poeta.

QUIXOTADA NÚMERO 3

De como passou o candidato uma manhã fria, sem ter onde ir.

É na brisa empoeirada da manhã que nosso candidato se debate em pensamentos de ternura para com seu primeiro emprego imaginário.

Sonha acordar cedo, preparar a valise com cadernos e canetas, tomar o café preparado por ele mesmo e sair para labutar os versos da vida.

Pensar na vida enquanto lavra as réstias de um equilibrado poema sobre a desventura de viver nesse tempo….

Nosso candidato caminha ainda com o comércio fechado, observando os pictogramas nas portas sem identificar qualquer coisa de compreensível…

Caminhava olhando atentamente o chão com a sujeira e os paralelepípedos semi soltos, fixava o olhar em bitucas de cigarro procurando identificar a marca, recolhia algum pedaço de papel para ler, pensando ser um trecho de algum poema.

Nosso preocupado candidato corria os olhos nas placas, nos stands, nos vendedores de bolos e cafés que se acumulam nas calçadas. Pensou que poderia fumar, mas não havia cigarros e se lembrou que havia deixado de fumar.

O sal do suor frio que lhe descia nas pestanas e a respiração ofegante de uma manhã de caminhos apressados para lugar algum conferiam ao nosso candidato o sono do desalento de suas aventuras.

Não poderia ser diferente, a busca por emprego era um segredo só seu e permitir que os outros soubessem de sua falta de ocupação corresponderia a reconhecer o fracasso de tantos anos.

Por isso, nosso candidato mantém uma série atividades como sair apressado pela segunda-feira e procurar em todos os lugares, inclusive embaixo das pedras e nos bancos indicativas de empregos quaisquer.

Nesse momento o candidato pensou até na vaga de pedinte, porém, sabemos que nosso candidato tem muito orgulho e, caso recebesse essa oferta, recusaria tal vaga.

O varredor, que varria a rua pela qual passava o candidato, sorria cantando uma trova muito alegre, mas o cantante não fez mais que aumentar a tristeza de nosso candidato.

Nesse meio tempo já se passara mais da metade da manhã e muito cansado o candidato resolveu se sentar próximo a uma praça. Sem querer adormeceu e não teve nenhum sonho. Mas foi acordado por um carinhoso vendedor de amendoim.

UM PEQUENO ROMANCE

Conheci o autor das “Quixotadas” por indicação de um amigo comum, que vive na Espanha, e pediu que o recebesse para uma conversa, na qual sugeri que Bruno escrevesse crônicas sobre as tantas histórias relatadas no almoço.

Dois dias depois, ele me enviava os primeiros textos, transcritos em parte acima. Neste domingo, o recém-formado candidato ao primeiro emprego enviou também o primeiro capítulo do que chama de “romanceto”.

“Estou escrevendo um livro novo, minha amiga desconhecida. O título provisório é ‘São Paulo, me Abrace’. Estou me sentindo afogado pela fumaça desse elegante tabaco que me consome a vida. Estou me sentindo perdido e imóvel, estou vendo minha vida passar nas gretas do vazio.”