Posts tagged Universidade Federal

Dois sucos e a conta com Manoel Andrade

0

O sertanejo que está revolucionando o ensino no interior do Ceará

O sertanejo que está revolucionando o ensino no interior do Ceará Hélio Sousa / Divulgação

O sertanejo que está revolucionando o ensino no interior do Ceará Hélio Sousa / Divulgação

Mauro Ventura em O Globo

Tudo começou em 1994, com sete jovens — seis rapazes e uma moça — estudando numa casa de farinha desativada ou debaixo de pés de juazeiro, sentados em cadeiras velhas. Moravam em Cipó, comunidade rural de apenas dez famílias a mais de cem quilômetros de Fortaleza, no Ceará. Hoje eles são milhares e estão provocando uma pequena revolução educacional no estado. É o Prece, o Programa de Educação em Células Cooperativas, que em 2014 completa 20 anos. Por trás de tudo está Manoel Andrade, de 53 anos, doutor em Química da Universidade Federal do Ceará (UFC). Um dos dez filhos de um casal de agricultores, o pai mal sabia ler e a mãe tinha apenas a quarta série primária. Como em seu lugarejo não havia escola, Manoel foi aos 9 anos morar com os avós em Fortaleza para estudar. Quando começou a pós-graduação, passou a voltar todo fim de semana a Cipó, onde teve a ideia do Prece. No programa, não há professor. Cada estudante ensina aos demais sua disciplina favorita. Juntos, esses alunos do interior compartilham conhecimentos, apoiam-se mutuamente, superam deficiências de aprendizagem e passam no vestibular.

O GLOBO: Quem eram esses sete estudantes pioneiros?
MANOEL ANDRADE:
Eram todos excluídos educacionalmente e hoje, dos sete, só um abandonou os estudos. Os demais se graduaram. Um que na época havia parado na quarta série e estava com 20 anos virou doutor em Química e pesquisador na Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Outro que tinha 20 anos e cursava a sexta série está terminando o doutorado em Fitopatologia. Tem ainda um agrônomo, uma professora de História, um mestre em Educação e um graduado em Teologia.

Na época, houve reação dos pais dos jovens da região?
Sim. Os pais eram agricultores analfabetos. Na visão deles, os filhos precisavam trabalhar para ajudar a sustentar a família. Como aqueles jovens, que liam e escreviam de forma precária, entrariam na universidade? Mas, dois anos depois, um dos estudantes, Francisco Antônio, o Toinho, foi aprovado em primeiro lugar no vestibular de Pedagogia da Universidade Federal do Ceará (UFC). Seis meses depois, outro também passou. Em 1988, eram quatro na UFC. O sucesso deles atraiu outros jovens.

Como surgiu a ideia do Prece?
Tem origem num episódio que me ocorreu aos 16 anos. Um jovem, Flávio Tabosa Barroso, me convidou para participar de um grupo de estudos. Perguntou o que mais eu gostava de estudar. “Biologia.” E ele: “Então você vai nos ensinar Biologia.” Cada um ensinava aquilo de que mais gostava. Foi uma revolução na minha vida. Quando comecei a voltar a Cipó, resolvi repetir a experiência. Eu botava os meninos para estudar juntos e os levava no meu carro para conhecer a universidade. Eles se animavam ao ver que alguém da região teve sucesso graças ao estudo.

O que essa metodologia de aprendizagem em grupo mostra?
A experiência dos grupos de estudo (também chamados de células de aprendizagem cooperativa) deu certo. Não pode ser só o professor dando aula, uma transferência impositiva de um lado para o outro. Você aprende muito mais interagindo, cooperando, compartilhando conhecimentos e trocando saberes com os outros do que apenas recebendo informação.

Aqueles sete iniciais hoje são milhares…
Estamos influenciando a rede pública do Ceará. A secretaria de Educação do estado me chamou para montar um programa para cada escola estadual. Já preparamos cerca de 2.500 estudantes para organizarem grupos de estudo. Eles estão se proliferando por todo o estado e já há um programa em Mato Grosso inspirado no nosso. Graças ao Prece, cerca de 500 jovens de origem popular entraram na universidade. E mais de 30 cursam ou já cursaram a pós. E não é um êxodo rural, porque, ao ingressarem na universidade, eles passam a retornar às suas comunidades e fundam novos grupos de estudo no interior, transformando a realidade de suas regiões. Nossa utopia é contribuir para a construção de uma escola pública de qualidade.

Nordeste é região com mais bolsas do governo federal

0

Ciência sem Fronteiras concedeu, até agosto, 547 bolsas para cada 100 mil universitários nordestinos, contra 509 no Sudeste. Especialistas acreditam que medida ajudará a internacionalização das universidades locais e incrementará o repertório

Victor Vieira, no Estadão

Historicamente menos prestigiado nas políticas de ensino superior, o Nordeste enviou o maior número de graduandos para o exterior pelo programa Ciência Sem Fronteiras, em relação ao número de estudantes da região. Até agosto, o governo concedeu 547 bolsas para cada 100 mil universitários nordestinos, contra 509 no Sudeste. As bolsas oferecidas pelo Brasil somam quase 37,8 mil – das 101 mil prometidas até 2015.

Especialistas apontam que ainda é cedo para determinar impactos no desenvolvimento científico-tecnológico das instituições nordestinas. A expectativa mais imediata é de que as bolsas favoreçam a internacionalização das universidades locais e incrementem o repertório dos estudantes.

“Não dá para quantificar os resultados. Mas é uma mudança que amplia os horizontes dos alunos, com um custo que não é alto”, avalia Cláudio de Moura Castro, especialista em Educação.

Para o professor de Economia da Universidade de Brasília, Jorge Nogueira, é razoável atender Estados que concentram menos recursos. “A tendência de redistribuição do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) começou há quase 40 anos. Se considerarmos somente o número de pesquisadores e publicações científicas, o eixo Rio-Minas-São Paulo leva a maioria dos incentivos.”

Outra aposta é que a vivência dos estudantes no exterior qualifique o mercado de trabalho regional. “Eles se formarão como profissionais mais competitivos”, prevê a diretora de relações internacionais da Universidade Federal de Pernambuco, Maria Leonor Maia.

Oportunidades. Aluna de Engenharia de Materiais na Universidade Federal do Sergipe (UFS), Silmara Caldas, de 23 anos, ficou seis meses nos EUA. “A UFS não oferecia muitas bolsas antes do Ciência Sem Fronteiras e viajar por conta própria seria complicado.” Ela gostou tanto do intercâmbio que pretende repetir a dose: se inscreveu em outro edital do programa para uma pós em Bioengenharia.

Recém-chegado da Holanda, Clécio Santos, de 22 anos, também elogia a experiência. “Comparando o que existe lá com nossa realidade, ficamos com vontade de fazer mais pelo País, de mexer na sociedade”, diz o estudante de Ciência da Computação da Universidade Federal da Bahia, que também cogita um mestrado no exterior.

Ressalvas. O físico Martin Makler, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, afirma que a falta de critérios na seleção das universidades estrangeiras participantes pode reduzir os benefícios para a região. “É melhor enviar o aluno para a USP do que para uma instituição estrangeira medíocre”, defende.

Procurados, o CNPq e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), órgãos responsáveis pelo programa, não informaram se há critérios que privilegiam a concessão de bolsas em alguns Estados.

Alunos da UFPI assistem aula em almoxarifado por falta de salas

0

Campus de Parnaíba é o segundo maior da Universidade Federal do Piauí.
As 740 turmas do próximo período contam com 33 salas de aula.

Patrícia Andrade, no G1

Alunos e professores do Campus Universitário de Parnaíba, no Litoral do Piauí, denunciam a falta de estrutura para as atividades de ensino, pesquisa e extensão. No segundo maior campus da Universidade Federal do Piauí, os mais de 4.300 alunos estão com número reduzido de salas de aulas, acervo bibliográfico e material pedagógico insuficiente. Alunos do curso de Psicologia estão assistindo aula no almoxarifado. Outras turmas chegaram a ser improvisadas no auditório e em salas do Departamento de Recursos Humanos.

Alunos do curso de Psicologia assistem aula em almoxarifado, local improvisado (Foto: Patrícia Andrade/G1)

Alunos do curso de Psicologia assistem aula em almoxarifado, local improvisado (Foto: Patrícia Andrade/G1)

Os professores e alunos disputam três datas show disponibilizados pela universidade. Não há ônibus suficiente para atender as atividades de campo. “Precisamos de um ônibus semana passada para uma atividade de campo e não conseguimos. A atividade será feita porque o prefeito disponibilizou um veículo”, disse a estudante Janaína Leocadio, do 6º bloco do curso de Turismo.

Nos 11 cursos de graduação ofertados no campus de Parnaíba há pelo menos 740 turmas formadas para o início do próximo período letivo em outubro. A direção tem feito uma verdadeira manobra para distribuir as turmas em apenas 33 salas de aulas.
O Diretório Central dos Estudantes chegou a elaborar uma carta aberta à toda comunidade relatando todos os problemas na universidade.

De acordo com o diretor do campus, Prof. Alexandre Marinho, o processo com todas as necessidades do campus foram enviadas ainda em fevereiro para a administração superior, inclusive, com a demanda real das salas, mas até agora o projeto não foi executado. Segundo ele, às segundas-feiras há 65 turmas das 20h às 22h para serem distribuídas em 33 salas e nos demais dias da semana a situação não chega a ser diferente.

Diretor do campus diz que todas as necessidades do campus foram enviadas à administração superior (Foto: Patrícia Andrade/G1)

Diretor do campus diz que todas as necessidades
do campus foram enviadas à administração
superior (Foto: Patrícia Andrade/G1)

“Nós mandamos todo o planejamento previsto para o campus e suas necessidades. No processo que foi enviado para a reitoria pedimos 73 terceirizados e no edital da licitação foram colocados apenas 59. A área do campus, que é de 45.340 m², foi colocada no edital como apenas 13 mil m². Está claro que há um boicote ao campus de Parnaíba com editais nesse formato para minar a gestão”, desabafou o diretor.

O analista de sistema Daniel Rocha, presidente do Sindicato dos Servidores Técnicos da UFPI em Parnaíba, questiona o formato dos contratos com as empresas terceirizadas e a falta de concurso público para atender o déficit de servidores efetivos.

“Estamos assistindo o sucateamento do campus. Foram feitos dois aditivos no contrato com a empresa anterior a essa que está atualmente. Então há todo um formato estranho que não dá para entender. É como se houvesse uma proteção a essas empresas”, disse Daniel.

José Arimatéia Dantas Lopes, reitor da UFPI, diz que projeto para novas salas está em andamento (Foto: Patrícia Andrade/G1)

José Arimatéia Dantas Lopes, reitor da UFPI, diz que
projeto para novas salas está em andamento
(Foto: Patrícia Andrade/G1)

Procurada pela G1, a administração superior da universidade disse que não há diferenciação entre os campi e que pelo menos 50% dos processos enviados pelo Campus Universitário de Parnaíba já foram atendidos. O reitor da UFPI, José Arimatéria Dantas, disse que todos os processos cumprem os procedimentos previstos na legislação.

Sobre a construção de novas salas de aula, o reitor disse que o projeto está em fase de finalização para que seja licitado, mas não deu prazos para a execução das obras. Já sobre a terceirização de alguns serviços, o reitor disse que as empresas são contratadas para atender a demanda de cargos que já foram extintos como servente de limpeza, cozinheiro e motorista.

A administração superior da UFPI disse ainda que entregará, no próximo mês, quatro ônibus para os Campi de Parnaíba, Picos, Floriano e Bom Jesus.

Unidade de pisicultura permanece fechada e alunos fazem estágio no CE (Foto: Janaina Leocadio)

Unidade de pisicultura permanece fechada e alunos
fazem estágio no CE (Foto: Janaina Leocadio)

A Unidade de Piscicultura está desativada e segundo o diretor Alexandro Marinho está faltando equipamento para os laboratórios e ainda a ativação dos tanques. O espaço seria uma extensão para o curso Engenharia de Pesca, que só é ofertado no Campus de Parnaíba. “Os estudantes estão fazendo as atividades de estágio em Pentecoste, no Ceará, a mais de 400 quilômetros e custeando as despesas da viagem porque a unidade não tem condições ainda”, disse.

O reitor José Arimatéia Dantas disse que o local está pronto e equipado para receber as atividades.

Paralisação de serviços
Uma recente paralisação dos servidores terceirizados deixou a instituição sem manutenção e limpeza. Os trabalhadores contratados por meio da empresa Mafra Manutenção Serviços de Conservação e Limpeza Ltda estão com as atividades paralisadas há mais de uma semana. Eles alegam que há dois meses não recebem os salários, equipamentos de proteção individual e que a empresa não tem depositado o FGTS e pago outros benefícios como salário família, ticket alimentação e vale transporte.

Estudantes fizeram a limpeza de alguns espaços do campus (Foto: Reprodução/Facebook)

Estudantes fizeram a limpeza de alguns espaços do campus (Foto: Reprodução/Facebook)

Com a suspensão dos serviços, o Restaurante Universitário permanece fechado. Banheiros e salas estão sem limpeza há vários dias. Por uma semana, o Campus também ficou sem água porque a bomba do reservatório queimou.

O G1 esteve no campus e constatou a sujeira espalhada pela instituição e banheiros sujos. Alguns laboratórios para o ensino de Microbiologia e Fisiologia Humana estavam sem manutenção e com diversos materiais de alto risco de contaminação expostos. A limpeza foi suspensa com a paralisação dos servidores terceirizados.

Lixo dos laboratórios ficaram expostos durante a paralisação dos servidores (Foto: Patrícia Andrade/G1)

Lixo dos laboratórios ficaram expostos durante a paralisação dos servidores (Foto: Patrícia Andrade/G1)

O atendimento na Clínica de Fisioterapia também ficou comprometido. Pelo menos 200 pessoas são atendidas no espaço que é uma extensão para as atividades do curso de Fisioterapia que é ofertado apenas no Campus de Parnaíba.

“Algumas estagiárias da clinica estão apenas recolhendo o lixo e mantendo os setores organizados. Como não tem ninguém na recepção, os estagiários ficam se revezando nos horários livres e ficam lá porque sempre aparece alguém querendo informação ou colocar o nome na lista de espera”, relatou a estudante Luiza Couto, aluna do 9º período do curso de Fisioterapia.

Sobre a paralisação, a administração superior da UFPI disse que a empresa Mafra Manutenção Serviços de Conservação e Limpeza Ltda pagou um dos meses em atraso e foi multada por descumprir alguns pontos do contrato. A UFPI também disse que já está em andamento um novo processo licitatório para a substituição da empresa.

O G1 tentou contato por telefone e e-mail com a empresa Mafra Manutenção Serviços de Conservação e Limpeza Ltda, mas não obtivemos retorno.

Segundo o reitor José Arimatéria Dantas, todos os funcionários dos Restaurantes Universitários serão contratados por uma nova empresa, a Servfaz-Serviços e Mão de Obra Ltda. No entanto, o Ministério Público Federal já abriu procedimento administrativo para averiguar a ocorrência de irregularidades na condução do pregão eletrônico nº 115/2013, feito para contratar os serviços terceirizados.

Por ano, 3.000 professores desistem de dar aula em SP

0

Oito professores concursados pedem exoneração da rede estadual por dia

Salários baixos e pouca perspectiva estão entre os motivos que levam professores a abandondar a rede estadual (Thinkstock)

Salários baixos e pouca perspectiva estão entre os motivos que levam professores a abandondar a rede estadual (Thinkstock)

Publicado por Veja

A cada dia, oito professores concursados desistem de dar aula nas escolas estaduais de São Paulo e se demitem. Entre 2008 e 2012, a média de pedidos de exoneração foi de 3.000 por ano. Salários baixos, pouca perspectiva e más condições de trabalho estão entre os motivos para o abandono de carreira. Os dados são inéditos e foram obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação.

A rede estadual tem 232.000 professores — 120.800 concursados, 63.000 contratados com estabilidade e 49.000 temporários.

A fuga de professores também é registrada na rede municipal de São Paulo. As escolas paulistanas têm média de 782 exonerações por ano desde 2008. Proporcionalmente ao tamanho das redes, o índice no estado é duas vezes maior. Além disso, a capital conseguiu ao longo dos anos ampliar em 12% o número de efetivos, enquanto a rede estadual tem 10.000 concursados a menos do que em 2008.

Os docentes que abandonaram o estado migraram para escolas particulares, redes municipais ou deram adeus definitivo às salas de aula. Este foi o caso do bacharel em educação física Marco Antonio Uzunian, de 30 anos.

Apenas um ano em uma escola estadual na Vila Carrão, na zona leste da capital, foi suficiente para ele desistir. Uzunian é um dos 2.969 efetivos que pediram exoneração em 2012. “Na escola eu não conseguia tocar um projeto de verdade, não há apoio nem companheirismo”, diz ele.

Crise — Nem a estabilidade do funcionalismo público tem impedido as demissões. Formado em matemática pela Universidade Federal do Paraná, Fabrício Caliani ingressou na rede estadual em 2004 e abandonou em 2009 para lecionar apenas na rede particular. “Escolhi ser professor por vocação e faço meu trabalho bem feito. Mas o que eu ganhava não compensava”, diz ele, que dava aula em Bastos, no interior paulista.

Mesmo sem ter emprego em vista, Eduardo Amaral, de 39 anos, pediu exoneração em abril de 2012 — depois de 8 anos na rede. “Além da questão do salário, da jornada e das condições de trabalho adversas, tem o próprio dia a dia da escola. É um ambiente hostil”, afirma ele, que hoje trabalha na Câmara Municipal de São Paulo.

Professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), Romualdo Portella considera os dados muito altos. “Temos reconhecido que a questão-chave da educação é o professor. Precisamos ter atratividade de carreira, boa formação, retenção e avaliação”, diz.

A Secretaria da Educação defendeu que o número de exonerações representa somente 1,63% do total de efetivos. Em relação à diminuição do número de efetivados, a pasta argumentou que aposentadorias, mudanças e mortes devem ser levados em conta. O governo não informou quantos concursos realizou desde 2008.

Como escolas podem transformar alunos em bons leitores

0

Pesquisadora investiga instituições que têm estudantes com maiores notas em leitura na avaliação internacional Pisa. Ela aponta cinco razões para o sucesso

Publicado na revista Veja

"Leitura o eixo de todas as disciplinas", afirma Suley Corradini

“Leitura é o eixo de todas as disciplinas”, afirma Suely Corradini (Thinkstock). Lecticia Maggi

Boa gestão, definição de metas e formação de professores são alguns dos fatores que influenciam a capacitação dos alunos para a leitura. A conclusão é da tese de doutoramento de Suely Nercessian Corradini, pesquisadora e diretora pedagógica do colégio Vital Brasil, em São Paulo.

O estudo, realizado na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), analisou as práticas desenvolvidas por três instituições — duas particulares e uma pública — que estão entre as que obtiveram a melhor avaliação no exame internacional Pisa em 2009. Coordenado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Pisa é uma das avaliações educacionais mais respeitadas do mundo: realizada a cada três anos, pretende aferir a qualidade do ensino em nações que pertencem à OCDE, as mais desenvolvidas do planeta, além de países convidados, caso do Brasil.

A prova é aplicada a estudantes com 15 anos de idade, não importando a série escolar que eles frequentam. A prova avalia a competência dos alunos em leitura, matemática e ciências — havendo, a cada edição, ênfase em um dos componentes. Em 2009, edição analisada pela pesquisadora brasileira, o foco foi leitura.

“A capacidade de leitura não está atrelada apenas ao conhecimento de língua portuguesa. Ao contrário, é o eixo de todas as disciplinas”, diz Suely. “O jovem que não consegue ler e interpretar um texto, não consegue assimilar nenhum outro conteúdo curricular.” Confira a seguir cinco características comuns das escolas em que os alunos apresentaram bom desempenho em leitura.

Cinco características das escolas bem avaliadas no Pisa

Fonte: Suely Nercessian Corradini, pesquisadora e diretora pedagógica do colégio Vital Brasil

Diretor preparado

A importância do diretor escolar é inquestionável. Nas unidades de ensino analisadas, a pesquisadora encontrou gestores bem preparados e que acompanham de perto o plano de ensino dos professores e sua aplicação em sala de aula.

“Os diretores entrevistados possuem formação acadêmica sólida, com curso de mestrado ou de aperfeiçoamento, conhecem bem a escola e os alunos e são referência para os professores. Em uma das unidades chamou a atenção o fato de a diretora ter conversado com alunos, pais e docentes sobre a importância da avaliação Pisa. Ela explicou que, ainda que não conte pontos no boletim escolar, a prova deveria ser realizada com seriedade, já que seu resultado é importante para avaliar o ensino no Brasil.”

Metas de ensino definidas

Explicitar à equipe docente qual é a proposta pedagógica da escola e o que deve ser feito para atingi-la é um fator fundamental, segundo a pesquisadora.

“Todas as ações e decisões devem ser coerentes com a proposta pedagógica e a filosofia da instituição. Ter clareza de objetivos auxilia no trabalho do corpo docente. Uma das escolas que visitei, por exemplo, é totalmente focada no vestibular. Não vejo isso como um problema, desde que fique claro a alunos, pais e professores que fazer com que os estudantes ingressem no ensino superior é a meta principal.”

Estímulo ao aprendizado extracurricular

O bom desempenho dos alunos em leitura é determinado também, segundo a pesquisa, pela exposição dos estudantes a conteúdos que extrapolam o currículo escolar. A ideia é que o aluno se depare com situações que exigem pesquisa por conta própria.

“Ir além do currículo acadêmico é essencial. O professor deve lançar desafios intelectuais a seus alunos e estimulá-los a buscar conhecimento para, a partir deles, pensar de forma crítica. As escolas pesquisadas trabalham com projetos e possuem práticas de estímulo à leitura, além de nível de proficiência elevado em todo o grupo. Esta é prática mais recomendada: estabelecer metas altas para toda a classe.”

Investimento na capacitação de professores

Tanto na escola pública como nas particulares, a principal queixa dos professores está relacionada à indisciplina dos alunos. Nesse ponto, segundo a pesquisadora, quanto mais bem preparado e capacitado é o docente, mais controle ele tem sobre a turma. Capacitação, vale lembrar, não se resume a conhecimentos acadêmicos: a aprendizagem proveniente da experiência conta pontos importantes.

“O professor com boa formação tem condição de desafiar os alunos, bem como de perceber as principais dificuldades enfrentadas por eles. Um método frutífero é a aprendizagem colaborativa: por ela, um professor é convidado a assistir à aula de outro – mesmo que não tenha nenhuma relação com a matéria que leciona – para trocar experiência e aprender práticas pedagógicas eficientes.”

Reforço escolar

Tão importante quanto reconhecer as dificuldades dos alunos é organizar programas de apoio e recuperação que possam ajudá-los. Dessa forma, os estudantes são capazes de superar defasagens e acompanhar o restante do grupo.

“As escolas que tiveram bom desempenho em leitura têm programas de recuperação e, principalmente, gestão de resultados. Isso é muito importante: não adianta colocar o aluno em uma sala nas horas vagas e considerar que ele está aprendendo. É preciso verificar se a aula de reforço está, de fato, suprindo as carências daquele aluno. Se ele não está aprendendo, algo está falhando: metodologia, conteúdo, professor. A gestão de resultados deve ser contínua no processo de ensino e aprendizagem.”

Go to Top