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No Facebook, aluno conta ‘dramas’ da vida universitária em charges

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Estudante usa charges para compartilhar dramas da vida universitária

Estudante usa charges para compartilhar dramas da vida universitária

Cristiane Capuchinho, no UOL

Gastos com xerox, falta de dinheiro, filas do restaurante universitário, fim de semestre. Os problemas do cotidiano de um estudante são a fonte de inspiração para as charges da página Drama Universitário. A página, que começou como uma brincadeira entre amigos, já tem mais de 136 mil seguidores no Facebook e diverte universitários pelo país inteiro.

Aluno de letras, Lucas Carvalho, 19, criou a página em dezembro de 2012, quando ainda estava no primeiro semestre do curso. A rotina se tornou fonte inesgotável de problemas, críticas e piadas. “A universidade tem muita coisa diferente, tem gente de todo tipo e todo tipo de problema e de situação engraçada”, comenta.

Da população felina do campus da UFC (Universidade Federal do Ceará), onde estuda, surgiu seu principal personagem: o gato Sofrêncio Xerox. É ele quem comenta fotos e situações esdrúxulas compartilhadas por Lucas e por muitos de seus seguidores, que sugerem novos desenhos diariamente.

Há um pouco de tudo: insetos na comida do bandejão, filas imensas para tirar xerox, noites insones antes de provas ou entregas de trabalho, professores que faltam, custo da vida estudantil. Mas nem tudo são problemas, festas e namoros também estão ali representados.

Estudante de universidade pública
Os dramas do estudante Lucas começaram já no vestibular. Sem muita certeza do curso que gostaria de seguir, começou a estudar no curso de Tecnologia em Saneamento Ambiental, no IFCE (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará).

“Queria desistir no primeiro mês. Tinha muita matéria de exatas, aulas de cálculo. Sempre fui de humanas, fui para lá por causa da nota de corte no Sisu [processo seletivo]”, lembra.

No processo seletivo de inverno conseguiu uma vaga na Federal do Ceará para o curso de letras. Mas a universidade passava por uma longa greve, que o deixou em casa à espera por meses até o início das aulas.

Mas seu principal drama é o transporte, diz. Morador de Cascavel (a 64 km de Fortaleza), o universitário passa mais de três horas por dia no transporte público para chegar à faculdade. “É muito tempo, o ônibus é cheio. Às vezes é mais cansativo que as aulas”, conta.

Mudar-se para Fortaleza não é uma opção. A falta de dinheiro é outro drama universitário comum. Por enquanto, o tempo é usado para bolar os desenhos que serão postados no dia seguinte.

Agora, Lucas Carvalho pensa em transformar o hobby em trabalho. A exemplo do desenhista Carlos Ruas, da página Um Sábado Qualquer, Lucas quer ampliar o número de personagens e fazer produtos para venda, como camisetas. Como forma de tranquilizar a família, garante: “Se não der certo, terei concluído a faculdade e vou ter uma profissão”.

Gastos com xerox, falta de dinheiro, filas do restaurante universitário, fim de semestre. Os problemas do cotidiano de um estudante são a fonte de inspiração para as charges da página Drama Universitário. A página, que começou como uma brincadeira entre amigos, já tem mais de 136 mil seguidores no Facebook e diverte universitários pelo país inteiro.

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O custo das mensalidades do ensino superior é um dos temas abordados pelo cartunista e estudante Lucas Carvalho em suas charges. A página de Facebook Drama Universitário já tem mais de 136 mil seguidores.

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O cansaço é um dos “dramas universitários” ironizados por Lucas Carvalho em sua página. Aluno de letras, Lucas criou a página em dezembro de 2012, quando ainda estava no primeiro semestre do curso e já tem mais de 136 mil seguidores. A rotina se tornou fonte inesgotável de problemas, críticas e piadas. “A universidade tem muita coisa diferente, tem gente de todo tipo e todo tipo de problema e de situação engraçada”, comenta.

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A dificuldade em chegar à universidade é o principal “drama universitário” da vida do estudante e cartunista Lucas Carvalho. Morador de Cascavel (a 64 km de Fortaleza), o universitário passa mais de três horas por dia no transporte público para chegar à faculdade. “É muito tempo, o ônibus é cheio. Às vezes é mais cansativo que as aulas”, conta.

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Gastos com xerox, falta de dinheiro, filas do restaurante universitário, fim de semestre. Os problemas do cotidiano de um estudante são a fonte de inspiração para as charges da página Drama Universitário. A página, que começou como uma brincadeira entre amigos, já tem mais de 136 mil seguidores no Facebook e diverte universitários pelo país inteiro.

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Falta de segurança é um dos problemas enfrentados por estudantes do país. Os problemas do cotidiano de um estudante são a fonte de inspiração para as charges da página Drama Universitário. A página, que começou como uma brincadeira entre amigos, já tem mais de 136 mil seguidores no Facebook e diverte universitários pelo país inteiro

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Alunos da UFRRJ denunciam no Facebook crimes no campus

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Criada em maio, página ‘Abusos cotidianos – UFRRJ’ já reúne 22 relatos, como uma tentativa de estupro sofrida por uma estudante
Diretor de vigilância diz que precisa de um efetivo três vezes maior para dar conta de toda a área da Rural

Página no Facebook para denunciar crimes no campus já conta com mais de 1.200 “curtidas”

Página no Facebook para denunciar crimes no campus já conta com mais de 1.200 “curtidas”

Eduardo Vanini, em O Globo

RIO – Agressões, tentativa de estupro e assédio são alguns dos problemas que compõem uma extensa lista de reclamações feita por alunos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) que começa a se formar na internet. Diante do quadro de insegurança instaurado no interior do campus, em Seropédica, eles criaram a página “Abusos cotidianos – UFRRJ” no Facebook. Lá as vítimas podem fazer denúncias sem que sejam identificadas. A maior parte dos casos é de assédio a alunas.

Aberta em maio deste ano, a comunidade já reúne 22 relatos (veja alguns trechos abaixo) e mais de 1.200 “curtidas”. Um dos casos mais graves é de uma tentativa de estupro que teria ocorrido em 19 de maio. Na ocasião, uma estudante teria sido atacada por um homem desconhecido que teria agredido e rasgado a roupa da vítima. Mas, ao notar que uma viatura de segurança do campus se aproximava do local, ele acabou fugindo.

A aluna do 2º período de psicologia Ellen Mariane, de 20 anos, é uma das criadoras da página. Ela conta que a combinação de um campus que se estende por mais de três mil hectares e um efetivo de apenas 62 guardas torna a universidade um ambiente propício a essas práticas. Além disso, segundo ela, há a falta de cuidados e de manutenção das instalações que se repetem ao longo de anos.

– Havíamos chegado a um ponto em que não conseguíamos enxergar o chão, devido à falta de iluminação – diz.
Sobre a quantidade de assédios, ela conta que boa parte vem dos próprios profissionais que atuam no campus.

– Por conta do Reuni (Programa de Apoio ao Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), há muitas obras aqui. É comum os homens que trabalham nessas construções mexerem com as garotas. Por isso, já criamos até um abaixo-assinado para que as empresas responsáveis pelos trabalhos capacitem seus funcionários.

Todo esse quadro acabou forçando os alunos a mudarem seus hábitos. Ellen conta que há casos de pessoas que pensam em trancar a faculdade por medo da falta de segurança e outros que deixaram de assistir aulas à noite.

Segundo a estudante, a página já garantiu alguns resultados positivos, como a restauração da iluminação do campus. Além disso, a visibilidade aos fatos também transformou a postura dos próprios alunos.

– Resolvemos dar mais visibilidade aos fatos justamente para forçar a direção tomar providências. Agora, isso está começando a acontecer. Também percebemos que os próprios alunos estão mais conscientes e participam com mais afinco das mobilizações e dos atos – nota.

Para o diretor da Divisão de Guarda e Vigilância (DGV) da UFRRJ, Renan Canuto, o efetivo reduzido e a grande extensão do campus de Seropédica prejudicam os trabalhos de segurança no local. Sem dar números concretos, Canuto afirmou que o ideal seria um contingente três vezes maior do que o atual.

Segundo ele, a universidade já abriu licitação para instalar um sistema de câmeras de vigilância e adquirir mais duas pickups, além de fazer o restabelecimento da iluminação da área. Canuco argumentou ainda que algumas denúncias dos estudantes seriam “infundadas, e aproveitou para pedir que casos de crimes também sejam comunicados a delegacias, e não somente no Facebook:

– Eles denunciam no Facebook, mas (os casos) têm que estar na delegacia, né? Cada um põe o que quer na rede. Para mim, algumas denúncias são infundadas. Se fossem verdadeiras, a delegacia de Seropédica estaria lotada de registros de ocorrência, o que não é verdade.

Veja alguns relatos que estão na página, reproduzidos da mesma maneira que foram escritos:

“Era noite já e não tinha nenhuma iluminação (um problema que temos enfrentado aqui no campus), quando de repente me deparei com um indivíduo na minha frente. Ele me mandou parar, obedecer tudo que ele falasse ou eu sofreria as conseqüências. Eu não tinha reação. Eu não conseguia me mover. Diante disso ele irritado me deu um tapa no rosto, mandou eu tirar a blusa. Diante da minha negativa ele tentou puxar minha calça causando um rasgo nela. (…) Da onde estávamos dava pra ver a guarda universitária do campus, foi quando percebi um carro da guarda saindo e subindo a rua, olhei assustada pro carro e ao perceber a movimentação o indivíduo se assustou, me largou e disse pra eu ir andando disfarçadamente pra onde eu estava indo, sem falar com ninguém, sem pedir ajuda, ou ele iria atrás de mim, porque sabia meu nome e onde eu morava. (…) Diante disso, hoje, eu me encontro em total pavor.”

“Me sinto abusada,invadida por não poder caminhar com segurança dentro da universidade…Assim como eu,já vi várias meninas sendo abordadas por esses caras que trabalham nas obras da Rural. O problema é essa cultura de achar que ”ah,foi só uma cantada mais grosseira,é normal!’”

“(…) Já fui assediada por professores desta universidade, com propostas indecentes, desde aqueles que foram diretos e chamaram para um jantarzinho mais intimo aos indiretos que chamam para uma cervejinha fora da rural (…) te prometem vantagens (…) e quando vc se recusa e rejeita a proposta é perseguida, ja tive muita vontade de abandonar meu curso por causa dessas coisas (…)”

“Numa tarde, a caminho do bandex, passei por um grupo de aproximadamente 10 funcionários e ouvi insultos de todos, um deles ainda ousou aproximar o rosto do meu ouvido para sussurrar asneiras; ao me manifestar, me afastando e rebatendo o que ouvia, tentando me manter firme, eles começaram a me ofender e hostilizar mais ainda, só que dessa vez num tom ameaçador, me deixando extremamente assustada e indignada.”

Especialistas tentam explicar sucesso de “50 Tons” em congresso de neurociência

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50-tons-de-cinza

Publicado no UOL

Qual a justificativa para o sucesso dos livros “50 Tons de Cinza”? A trilogia (que vai até virar filme) atraiu tanta gente por que sugere práticas sexuais que podem apimentar relações, ou por que reflete uma tendência que ganhou espaço na população? O tema, picante, foi discutido por neurocientistas no 9º Congresso Brasileiro de Cérebro Comportamento e Emoções, que termina neste sábado (29), em São Paulo.

Para a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do ProSex – Projeto de Sexualidade do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, o fenômeno pode contribuir, sim, para tornar um comportamento que antes considerado alternativo como algo convencional, mas isso só deve acontecer se o sucesso de “50 Tons” sair das páginas e chegar, por exemplo, às novelas.

Ela ressalta que, não por acaso, a última versão do DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, na sigla em inglês) amenizou a descrição do sadomasoquismo e deixa claro que nem toda prática sexual “diferente” representa um problema que deva ser tratado.

Diferentemente das edições anteriores da  “bíblia” da psiquiatria, a quinta edição do DSM aponta critérios específicos para que o prazer em causar ou sentir dor seja classificado como transtorno. Em resumo, um sadomasoquista só deve buscar tratamento se essa preferência sexual estiver causando algum prejuízo para sua vida ou para a de terceiros. Em outras palavras, se a prática for consensual e segura, como pregam os praticantes, não há por que ser considerada doentia.

“Mas isso é diferente da pessoa que é prisioneira dessa situação”, comenta Abdo. Quem só consegue obter algum tipo de prazer por meio da dor provavelmente foi vítima de abuso ou presenciou formas de violência na infância – pelo menos essa é a hipótese mais aceita por especialistas.

O geneticista Renato Zamora Flores, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, outro palestrante do congresso, afirma que essa associação foi confirmada em muitos estudos. Mas ele  também chama atenção para o fato de que dor e prazer estão juntas em algumas áreas do cérebro. “A dor controlada pode servir para ‘acordar’ o cérebro porque estimula o sistema límbico”, explica. Ele, contudo, acredita que o sadomasoquismo de “50 Tons” não passa de um modismo.

Vale lembrar que, em 1952, o DSM classificou oficialmente a homossexualidade como transtorno mental. Após críticas durante a década seguinte, a orientação sexual deixou de ser considerada doença, contanto que o indivíduo não tivesse conflitos em relação a isso – o que foi chamado de “homossexualidade egodistônica”. Só em 1987 é que a homossexualidade saiu da “bíblia” dos psiquiatras. E, em 1990, deixou de ser considerada doença para a Organização Mundial da Saúde (OMS).

UFC estuda possibilidade de mudar sigla por causa de torneio de MMA

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Segundo reitor, sigla da universidade é confundida com a do campeonato
Sites de busca trazem páginas do torneio à frente da universidade.

Publicado por G1

Universidade Federal do Ceará (Foto: Divulgação)

Universidade Federal do Ceará (Foto: Divulgação)

A Universidade Federal do Ceará, conhecida como UFC, estuda a possibilidade de mudar a sigla da instituição para UFCE. Segundo o reitor Jejualdo Farias, há um “incômodo” gerado pelas pesquisas na internet que acabam por colocar à frente da universidade o Ultimate Fighting Championship (UFC), marca de entidade mundial que organiza lutas de MMA (artes marciais mistas, na sigla em inglês). “[Esse incômodo] surgiu mais fora do que dentro da instituição”, afirma Farias.

De acordo com o reitor, a universidade tem a marca UFC registrada no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) até 2018. Considerando a proximidade da data, a instituição pretende abrir espaço para debater o problema com os conselhos e unidades acadêmicas. “A tendência seria até manter o nome. Mas vai continuar incomodando porque [o Ultimate Fighting Championship] é uma atividade muito distante do referencial da universidade”, explica.

Até 2018, conforme o reitor, o setor jurídico da instituição de ensino deve trabalhar resguardando a sigla da Universidade Federal do Ceará. “Quando estiver mais próximo da data, vamos perguntar à comunidade o que ela deseja”, destaca. Caso a proposta seja aceita, a UFC passará a seguir o padrão adotado pelas demais universidades federais localizadas em outros estados do país. Ou seja, o ”UF” virá seguido da sigla do estado, CE.

Esquizofrênico registra em livro a experiência de enlouquecer

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Cláudia Collucci, na Folha de S.Paulo

Ex-aluno de física e de filosofia da USP, Jorge Cândido de Assis carrega no corpo das marcas da esquizofrenia. Aos 21, durante uma crise, ele se jogou contra um trem do metrô e perdeu uma perna.

Hoje, aos 49 anos, cinco crises psicóticas, ele dá aulas sobre estigma em um curso de psiquiatria e acaba de lançar um livro no qual descreve a experiência de enlouquecer. “Entre a Razão e a Ilusão” (Artmed Editora) foi escrito em parceria com o psiquiatra Rodrigo Bressan e com a terapeuta Cecilia Cruz Villares, da Unifesp.

Leia o depoimento dele.

*

“Tive uma infância tranquila, jogando bola na rua. Aos 14 anos, entrei na escola técnica e já sabia trabalhar com eletricidade. Adorava física.

Em 1982, prestei vestibular para física na USP e não passei. Em 1983, fiz cursinho, prestei de novo e não passei.

Consegui uma bolsa no cursinho, passei perto e não entrei de novo. Foi um ano depressivo para mim. Eram os primeiros sinais da esquizofrenia, mas eu não sabia.

Eu me isolei, tinha delírios. O desfecho foi trágico. Numa manhã de domingo, entrei na estação do metrô Liberdade. Escutei uma voz: “Por que você não se mata?”. Me joguei na frente do trem.

Acordei três dias depois no hospital sem a minha perna direita. Tinha 21 anos.

Foi bem sofrido, mas coloquei toda minha energia e determinação na reabilitação. Quatro meses depois, já estava com a prótese.

Sozinho, voltei a estudar para o vestibular e passei em física e fisioterapia na Universidade Federal de São Carlos. Meu sonho era desenvolver uma prótese melhor e mais barata do que as versões que existiam naquela época.

Jorge Cândido de Assis, 49, no departamento de psiquiatria da Unifesp, em São Paulo / Danilo Verpa/Folhapress

Jorge Cândido de Assis, 49, no departamento de psiquiatria da Unifesp, em São Paulo / Danilo Verpa/Folhapress

Um dia, em 1987, cheguei em casa e ela havia sido arrombada. Tive que ir até a delegacia dar queixa e reconhecer os objetos furtados.
Isso desencadeou a segunda crise psicótica. Tinha delírios de grandeza, alucinação, mania de perseguição.

Fui internado em Itapira durante um mês. Saí de lá com diagnóstico de esquizofrenia, medicado mas sem encaminhamento. Um dos remédios causava enrijecimento da musculatura e eu não conseguia escrever. Então parei de tomar a medicação e comecei a fazer tratamento em centro espírita.

Voltei a estudar em São Carlos. Depois da crise, perdi muitos amigos por puro estigma. Comecei a trabalhar, paralelamente aos estudos, mas ficou pesado demais. Preferi desistir do curso.

Em 1993, prestei vestibular na USP e passei. Foi mágico, a realização de um sonho. Continuei trabalhando, mas cheguei num ponto de saturação e desisti do curso.

Minha vida foi perdendo o sentido, vivia por viver. Me sentia vazio de emoções.

Nesse período, fazia parte de um grupo de pesquisa na USP. Mas, por uma série de divergências, o grupo se desfez. Ao mesmo tempo, meu namoro acabou. Esses dois fatores desencadearam minha terceira crise.

Foi uma crise também com delírios, alucinações, isolamento. Fiquei um mês internado. Foi aí que comecei a me tratar de esquizofrenia de fato. Além das medicações, fazia psicoterapia, terapia ocupacional e prestei vestibular para filosofia na USP. Passei. Sentia-me tão bem que disse: “Superei a esquizofrenia. Vou parar com os remédios”.

Minha mãe morreu em 2002 e, em seguida, tive a minha quarta crise, que também foi controlada com remédios. É como começar do zero.

Entre 2003 e 2007, participei de um grupo de pacientes com esquizofrenia em que discutíamos a doença, as vivências, as formas de comunicação. Em 2005, o [psiquiatra] Rodrigo Bressan me convidou para participar das aulas dele contando a minha experiência pessoal, sobre o estigma. Em 2007, surgiu o projeto do livro sobre direitos de pacientes com esquizofrenia.

Foi um processo de criação intenso durante 18 meses. Em 2008, o Rodrigo me convidou para deixar de ser paciente e entrar para a equipe dele. Foi uma grande oportunidade.

No início do ano passado, fui palestrar em Londres sobre o nosso trabalho. Quando estava voltando, fizemos uma escala em Madri.

Sentia muita dor na perna e pedi uma cadeira de rodas. Esperei e nada.

Tirei a perna mecânica, coloquei na bolsa e fui pulando até a sala de embarque. Todo esse estresse me levou à quinta crise. Ela foi rapidamente controlada, mas é um processo difícil retomar a rotina anterior, ressignificar as coisas para que a vida faça sentido.

Depois das crises, tenho que renascer das cinzas. Muitas pessoas desistem. Precisa de uma grande dose de esforço para reconstruir a vida.

A medicação ajuda, mas não é garantia. Consigo lidar com as demandas da vida, mas nunca sei se o que sinto é ou não da doença.

Não ouço mais vozes, mas tenho autorreferência. Penso que tudo ao meu redor tem a ver comigo. Se ouço um barulhinho lá fora, acho que pode ter câmera escondida.

Se as pessoas estão conversando no corredor, acho que estão falando sobre mim.

O delírio é inquestionável, você acredita nele. Mas tenho clareza do que é autorreferência, deixo para lá.

Tenho que saber os meus limites. O referencial para a gente é o mundo exterior, a relação das pessoas.

Muitas vezes, o início das crises não é percebido. Por isso é importante dividir com o médico, com a família.

O estigma também é muito prejudicial. Ser apontado como o louco ou ser desacreditado só piora. A esquizofrenia é uma doença crônica, que afeta as emoções, os relacionamentos, as vontades.

Tenho sorte de ter uma família unida, que me apoia. Isso dá sentido à minha vida.

Olho para trás e confesso que me sinto frustrado por ter começado duas vezes física, em duas das melhores universidades, e não ter concluído.

Mas fico feliz com o trabalho de poder ajudar outras pessoas com a minha história. As pessoas sofrem no Brasil pela falta de locais para a troca de informações.

Minha meta agora é construir uma rede de associações de apoio a pacientes com esquizofrenia.

Eu não sou só a doença, e a doença não me define.

Tenho que lidar com a esquizofrenia, mas ela não é a parte mais fundamental da minha vida.”

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