Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged Universidade Federal

É fácil ser autor. Difícil é escrever

0

Os jornalistas estão adotando a primeira pessoa na narrativa, mas ainda não acharam seu verdadeiro eu lírico

Luis Antonio Giron, na Época

Como o tempo muda e nada acontece! Antigamente, o iniciante no jornalismo, chamado de “foca”, comparecia humildemente à redação para seu primeiro dia de emprego disposto a aprender com os mais velhos. Ouvia calado até um dia poder falar. Hoje, o “foca” se apresenta ao chefe na redação de uma revista ou um jornal já botando banca: “Foca é a sua mãe”, diz, enchendo o peito. “Eu sou autor!” Mas as coisas continuam iguais. Hoje ele apenas exterioriza aquilo que seu tímido antecessor apenas calava fundo.

No jornalismo atual, é como se o autor precedesse o estilo, ao passo que o inverso parece ainda ser real. Vivemos a epidemia da “autoralidade”, esta palavra monstruosa cuja tradução teria de ser “autoria”, porém é muito simples para fazer bonito. Pensei nesse assunto durante um exaltado debate em torno do tema “como encontrar a voz do repórter” de que participei no último Fórum das Letras de Ouro Preto, na semana passada, em um painel promovido por ÉPOCA e a Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). A plateia, formada em sua maioria por estudantes e iniciantes, queria saber como manter a “autoralidade” em tempos de hiperinformação, fragmentação do ego, redes sociais e o diabo digital que nos carregue. O que dizer aos jovens sonhadores sem acordá-los de seu recorrente autoengano? Como construir um estilo e se transformar em autor?

Sempre tive pudor de usar a primeira pessoa do singular, embora a esteja usando agora que está tudo liberado e não tenho nenhuma reputação a perder. Muita gente imagina que basta escrever “eu” para virar autor, repórter, articulista, crítico, ensaísta. Talvez eu tenha passado a pensar assim também, embora sem muita convicção. Talvez eu me veja também como membro do clero do “jornalismo literário” – outra expressão imprecisa que mais exalta certos indivíduos do que diz a verdade. Dessa forma, o clamor do estilo não sai mais apenas da garganta dos escritores, como também dos jornalistas – que nunca foram considerados dignos de receber a alcunha de escritores sabe-se lá por que – e de seus atuais sucedâneos, blogueiros e tuiteiros.

Todo mundo quer ser alguém na vida da escrita – e migrar seus textos da blogosfera ou do papel perecível para a presumível eternidade do livro. A consequência é o perigo da hiperpopulação de egos no mundo da comunicação. Todos escrevem qualquer coisa, mas poucos merecem ser chamados de autores. O problema é que, em um mundo onde o joio virou o trigo, bons e maus autores estão cada vez mais misturados e indistinguíveis.

Como se não bastasse, os meios de comunicação digital incentivaram a aparição do gigantesco coral de bilhões de vozes. O Twitter é o maior transmissor de opiniões e notícias irrelevantes jamais cogitado. O Facebook forneceu identidade e deu eco a muita gente que, felizmente, prefere ficar nos games da rede social. Antigamente evitava-se dar voz ao imbecil. Hoje, imbecis ou não, todos possuem um meio de expressão e de autopromoção. O imbecil é o herói emergente da autoralidade…

Então, para que servem o jornalista propriamente dito, o jornalista pré-literário, diante de tantas mudanças? Ele diferia até pouco tempo atrás do autor porque ele era um apanhador de fatos. transformava-os em notícia, de acordo com os vários subgêneros jornalísticos: entrevista, reportagem, artigo, resenha etc. O tema impunha o gênero a ser adotado. As redações eram as melhores escolas de estilo e escrita criativa. Agora os registros de linguagem e de veracidade se confundem, e é impossível distinguir um ficcionista de um não-ficcionista, um romancista de um repórter. Os cursos universitários de ficção criativa talvez sejam responsáveis pela lambança. Afinal, acadêmicos odeiam jornalista. Para eles, não passam de subliteratos. E agora com a internet, o veículo primordial da transmissão de notícias, a verificação da realidade se tornou impraticável.

É fácil ser autor. Difícil é escrever. As festas literárias o comprovam.

O jornalismo, por isso, talvez seja um profissão fadada à extinção – pelo menos o jornalismo que conhecemos até o final dos anos 1990. Por enquanto, agoniza mas não morre, como o samba segundo Nelson Sargento. Alguns jornalistas poderão sobreviver. Para tanto, precisam se dar conta de pelo menos três fatos. Em primeiro lugar, não há mais diferença entre textos online e offline, entre papel e internet. A versão em papel se tornou uma espécie de produto nobre, que surge no ambiente universal da internet. Em segundo, a influência dos meios de comunicação tradicionais – jornal, revista, televisão – ainda é efetiva, mas está diminuindo, à medida que os fóruns de opinião se organizam em “trend topics” e os anúncios se transferem para a internet. Por fim, bem ou mal, hoje todo mundo comenta notícias instantaneamente, a concorrência só aumenta.

Para vencer em mundo tão turbulento, o jornalista precisa se antecipar aos “trend topics” e, se não consegue o furo, lidar com a notícias de modo a surpreender o leitor para despertá-lo da letargia em que está enredado pelo excesso de mensagens. É se transformar em uma espécie de autor de verdade (não um arremedo) com voz própria que, além de ser original, se faça ouvir. Ele tem que apurar, conferir, editar e ilustrar uma notícia, mas sobretudo precisa se reinventar e reinventar a forma de elaborar a notícia. Deve inovar de acordo com os novos meios – por que não, por exemplo, escrever uma grande reportagem nos 140 caracteres de um tuite? E tem que ser rigoroso e relevante, e ser lembrado no ambiente hiperveloz de informações que logo caem no esquecimento.

O jornalista não pode cair na tentação de virar um autor de ficção. Deve contentar-se em escrever romances de não-ficção, termo forjado por Truman Capote em 1966, com o hoje clásssico A sangue frio. Seu dever é mostrar ao leitor e ao público que o mundo real continua a existir – e que a realidade é mais complexa do que a vida online faz crer.

‘Me sinto uma rainha’, diz brasileira professora no país nº 1 em educação

6
Luciana Pölönen dá aulas de português em Espoo, na Finlândia (Foto: Arquivo pessoal)

Luciana Pölönen dá aulas de português em Espoo, na Finlândia (Foto: Arquivo pessoal)

Vanessa Fajardo, no G1

País com a melhor educação do mundo, a Finlândia tem entre os seus professores da rede pública uma brasileira. Luciana Pölönen, de 26 anos, nasceu em Salvador (BA), é formada em letras pela Universidade Federal de Bahia (UFBA) e se mudou para Finlândia em 2008, com objetivo de fazer mestrado. Desde 2010, compõe o corpo docente finlandês. No país do Norte da Europa, mais do que emprego, ela encontrou a valorização da profissão de lecionar.

“Eu me sinto como uma rainha ensinando aqui. Ser professor na Finlândia é ser respeitado diariamente, tanto quanto qualquer outro profissional!”, afirma a brasileira, que se casou com um finlandês, tem uma filha de três anos, Eeva Cecilia, e está grávida à espera de um menino. “Aqui na Finlândia o sistema é outro, o professor é o pilar da sociedade.”

A comparação com sua experiência escolar no Brasil é inevitável. “No Brasil só dei aulas em cursos, mas estudei em escola pública, sei como é. Sofria bullying, apanhava porque falava o que via de errado e os professores não tinham o respeito dos pais”, diz Luciana.

A professora Luciana com seu diário de classe finlandês (Foto: Arquivo pessoal/Luciana Pölönen)

A professora Luciana com seu diário de classe
finlandês (Foto: Arquivo pessoal/Luciana Pölönen)

Por quatro anos consecutivos, a Finlândia ficou entre os primeiros lugares no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), que mede a qualidade de ensino. Durante visita em São Paulo, na semana passada, a diretora do Ministério da Educação e Cultura, Jaana Palojärvi, disse que o segredo do sucesso do sistema finlandês de ensino não tem nada a ver com métodos pedagógicos revolucionários, uso da tecnologia em sala de aula ou avaliações nacionais. O lema é treinar o professor e dar liberdade para ele trabalhar.

Luciana aprova o método. Há dois anos dá aulas na Escola Europeia de Helsinque, capital da Finlândia, de nível fundamental e médio e há um ano leciona português em uma escola de ensino fundamental em Espoo, cidade próxima à capital. “Dou aula de português porque toda criança falante de duas línguas tem o direito ao ensino de uma língua estrangeira na escola. Ou seja, todos os filhos de brasileiros têm direito ao ensino de português como língua mãe.”

Para conseguir a vaga, a brasileira passou por avaliação do histórico escolar da universidade, enviou uma carta pessoal em que expôs suas intenções, e enfrentou uma entrevista, uma espécie de prova oral feita em inglês.

Com o trabalho nas duas escolas, Luciana ganha 2.500 euros, o equivalente a R$ 6.500. Luciana tem contrato temporário porque ainda não finalizou o mestrado, termina a dissertação no fim do ano, por isso há uma redução no salário de 15% e de tarefas extras.

“Tenho total liberdade para avaliar meu aluno, tenho a lista de coisas de que ele tem de aprender até o fim do ano, mas como vou fazer fica a meu critério. Não preciso aplicar prova a toda hora, nem justificar nada para o coordenador”, afirma. “Temos cursos de aperfeiçoamento sem custo, descontos em vários lugares com o cartão de professor, seguro viagem, entre outros.”

Para Luciana, os alunos aprendem porque há um comprometimento deles, dos pais e da comunidade. “Eles aprendem o respeito desde pequenos, a honestidade vem em primeiro lugar. As pessoas acreditam umas nas outras e não é necessário mentir. Um professor quando adoece pode se ausentar até três dias. Funciona muito bem.”

mapa-finlandiaTradução e aula particular
Logo chegou à Finlândia, Luciana trabalhou como analista de mídia. Depois, em 2010, antes de atuar na rede de ensino pública, conciliava trabalhos de tradução e de professora particular. “Se aparecesse um trabalho para fazer limpeza, eu toparia sem problemas, desde que fosse honesto. Mandava currículo para algumas empresas, mas nunca era chamada. Pensei em omitir minha formação [em letras, pela UFBA], caso não arrumasse nada.”

Luciana voltou a trabalhar quando a filha tinha apenas um mês. Era um trabalho de tradução que às vezes fazia de casa ou ia até a empresa que ficava próxima à sua casa. Escapava para amamentar no intervalo do café. “Aqui a licença maternidade dura três anos, as pessoas achavam um absurdo eu trabalhar com uma filha de um mês. Na verdade faz parte da educação deles, hoje eu entendo mais.”

O respeito pelo próximo também é algo muito enraizado na cultura do finlandês. Luciana diz que diferente do Brasil, nunca sentiu preconceito na Finlândia por ser negra ou estrangeira. “Aqui as pessoas não parecem notar a cor de pele do outro contanto que exista respeito mútuo.”

Casos de violência ou bullying são muito raros nas escolas. “Foram cinco casos de violência no ano, mas para eles é um absurdo, não deveria acontecer. Eles sempre têm um plano para cada tipo de aluno, não é uma única forma para a classe inteira. No final, todos alcançam o mesmo objetivo.”

Diferenças
Na Finlândia, o professor é proibido por lei de encostar no aluno. Nem mesmo para dar um abraço. Luciana soube disso durante a aula de inglês, no estágio, em uma atividade onde alunos precisam demonstrar sentimentos numa espécie de encenação teatral e ela “relou” em uma aluna. A classe toda ficou estática, espantada.

Hoje, Luciana se acostumou à cultura.  “Acho que acostumei, nunca gostei muito de abraçar as pessoas se não houvesse um motivo muito importante para isso. Talvez esse seja o motivo de eu ter me acostumado aqui.” O frio também não lhe causa incômodo, nem mesmo a temperatura de 25 graus negativos que já encarou. Para a baiana, não há problemas desde que esteja com a roupa apropriada para manter o corpo aquecido.

Planos para o Brasil
No fim do ano, Luciana vai aproveitar as férias para voltar ao Brasil para visitar a família. Durante a temporada de dois meses pretende fazer workshops em escolas sobre o sistema de educação finlandês. “Gostaria de ajudar os professores de alguma forma, com treinamento, é o que eu devo para o meu país. Minha parte é tentar ajudar da maneira que eu posso.”

Para ela, a receita da Finlândia para ter uma educação nota 10, baseada na simplicidade, daria certo no Brasil se “as pessoas parassem de esperar ações do governo e agissem com as próprias mãos.” “Gostaria que minha filha visse meu país diferente e eu não tivesse de pagar uma mensalidade de 2 a 3 mil reais [caso morasse no Brasil] em uma escola particular para oferecer a ela uma educação de qualidade.”

Se o abraço tão habitual no Brasil não lhe faz falta e o frio não a incomoda, Luciana sente saudades de gargalhar com os amigos, de se deliciar com a comida da minha mãe, conversar a avó, escutar músicas com a tia e assistir Fórmula 1 com o pai. “Matamos as saudades via Skype ou quando alguns parentes visitam a Finlândia.”

Luciana Polonen é destaque em blog voltado para a comunidade acadêmica da Finlândia (Foto: Reprodução)

Luciana Polonen é destaque em blog voltado para a comunidade acadêmica da Finlândia (Foto: Reprodução)

Brincadeiras com texto acima dos 3 anos melhoram capacidade de leitura

0

Cristiane Capuchinho, no UOL

Incluir exercícios com letras e números na educação de crianças a partir dos três anos melhora o desenvolvimento na alfabetização, afirmam especialistas. A prática, conhecida como letramento, não é novidade em escolas particulares. No entanto, na rede pública, a educação infantil ainda se resume ao cuidado e a brincadeiras sem intenção didática.

A proposta não é a de transformar creches em escolas, mas a de colocar as crianças em contato com textos, letras e conceitos como preparação para a alfabetização, explica a psicóloga Tarciana de Almeida, especialista em psicologia cognitiva.

DESIGUALDADE

As crianças que moram em casas em que os pais têm o hábito de leitura já saem na vantagem e a escola pública não ajuda a mudar esse quadro

ANGELA DANNEMANN, diretora da Fundação Victor Civita

“Assim as crianças podem chegar ao final do 3º ano [do ensino fundamental] como leitoras, escritoras e falantes de sua língua cada vez mais competentes”, afirma a pedagoga Patrícia Moura Pinho, professora da Universidade Federal do Pampa.

“É a escola pública que não faz isso com a alegação de que se está ‘escolarizando’ a educação infantil. Isso só aumenta a desigualdade, estamos reduzindo as chances dos alunos de escola pública”, pontua Angela Dannemann, diretora executiva da Fundação Victor Civita.

Para as especialistas, as críticas ao letramento infantil não são pertinentes. “Desde sempre a criança está inserida no mundo da escrita. Tudo depende de como a questão for trabalhada, podemos, por exemplo, trabalhar textos de forma muito rica, sem que a criança seja necessariamente alfabetizada”, considera Tarciana.

Confira nove brincadeiras que melhoram a capacidade de leitura

Especialistas afirmam que o estímulo de brincadeiras com palavras, textos e histórias contribui com a capacidade de leitura das crianças a partir dos três anos de idade. Os enredos inventados e as brincadeiras dão liberdade ao pensamento infantil e motivam seus processos criativos, possibilitando o aprendizado efetivo da leitura e da escrita. Confira nove atividades, retiradas e adaptadas do livro "Corpo, atividades criadoras e letramento", da editora Summus Editorial, escrito por Marina Teixeira Mendes de Souza Costa, Daniele Nunes Henrique Silva e Flavia Faissal de Souza iStockphoto

Especialistas afirmam que o estímulo de brincadeiras com palavras, textos e histórias contribui com a capacidade de leitura das crianças a partir dos três anos de idade. Os enredos inventados e as brincadeiras dão liberdade ao pensamento infantil e motivam seus processos criativos, possibilitando o aprendizado efetivo da leitura e da escrita. Confira nove atividades, retiradas e adaptadas do livro “Corpo, atividades criadoras e letramento”, da editora Summus Editorial, escrito por Marina Teixeira Mendes de Souza Costa, Daniele Nunes Henrique Silva e Flavia Faissal de Souza iStockphoto

1Ampliando horizontes
De maneira lúdica, os professores podem tornar familiar as letras, diferentes formas de apresentação de texto ou conceitos. “A comparação entre tamanhos de sapatos ou alturas pode ajudá-las a entender o sistema métrico e até mesmo a compreender dezenas e centenas”, exemplifica Angela.

A leitura de diferentes tipos de textos, como livros, cartas e jornais, apresenta a diversidade de registros possíveis para a escrita. “Esta é uma forma de trabalhar linguagem em uso real e não descontextualizada e sem sentido, como a escola costuma fazer” acrescenta Tarciana.

Os pais têm importante papel na introdução das crianças ao mundo das letras, lendo histórias e apresentando os diferentes mundos da escrita. No entanto, é também aí que mora o problema. “As crianças que moram em casas em que os pais têm o hábito de leitura já saem na vantagem e a escola pública não ajuda a mudar esse quadro”, critica Angela.

Educação infantil no país
Em 2012, a educação infantil reunia 7,3 milhões de crianças matriculadas no Brasil, segundo o Censo da Educação Básica. Dessas, 4,7 milhões estavam na pré-escola e os outros 2,5 milhões em creches.

Para inserir o letramento nesse período escolar, no entanto, é necessária a capacitação dos professores, que “não têm conhecimento didático”, afirma Angela. Segundo o Censo Escolar de 2012, 35% dos professores da educação infantil têm apenas o ensino médio.

DESEMPENHO

53,4% dos alunos do 3° ano do fundamental apresentaram conhecimento adequado de escrita
56,1% dos estudantes do 3° ano liam de maneira adequada para sua fase escolar
Fonte: Prova ABC 2011/Todos pela Educação

Idade certa
O Senado aprovou o Pnaic (Pacto Nacional para a Alfabetização na Idade Certa), que prevê uma série de ações envolvendo União, Estados e municípios para garantir a alfabetização dos alunos da rede pública de ensino até os 8 anos de idade até 2022.

O Pnaic prevê o apoio do governo federal para financiar a formação continuada dos professores; as bolsas oferecidas aos profissionais e outras atividades voltadas ao cumprimento dos objetivos do pacto. A estimativa é que sejam investidos cerca de R$ 3 bilhões até 2014.

Dica do Chicco Sal

Professor da UFMS defende fim de cursos “formadores de bichonas”

0
Publicação feita pelo professor da UFMS no Facebook

Publicação feita pelo professor da UFMS no Facebook

Luiz Felipe Fernandes, no UOL

Um professor da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) causou polêmica ao publicar, em seu perfil do Facebook, uma mensagem em que chama os homossexuais de “viados” e defende o fechamento de “cursos de gente colorida” e “formadores de bichonas”.

O texto, publicado na última sexta-feira (24), já foi retirado da página. Nele, Kleber Kruger, 24, professor substituto do curso de ciência da computação e sistemas de informação, critica pichações feitas em paredes da universidade, que fica em Campo Grande.

“Hoje cheguei na Federal e encontrei algumas paredes dos cursos de computação e engenharia pichadas com frases como: ‘O amor homo é lindo’, ‘Homosexualismo é lindo!’, ‘Fora machismo’… aaah, se fu***, seus viados fila da p***!!!”, diz o texto publicado pelo professor.

Na mensagem, Kleber diz que “tá na moda defender homossexualismo” e que a onda de raiva aos homossexuais é provocada por eles mesmos. Em um comentário na própria postagem, o professor considera que a pichação das paredes da universidade foi uma “provocação”. “Depois eles tomam uma surra, morre um viado lá no Campus, sai no jornal e pronto!”, finaliza.

O jornalista Guilherme Cavalcante, 27, que é aluno de mestrado na UFMS, afirma que ficou surpreso ao ler o texto e considera que a mensagem publicada por Kleber revela despreparo do professor. “Espero que ele reflita sobre o que falou, que entenda que o mundo é diverso e que o professor também tem uma função social”.

Demissão

Na internet, uma petição virtual recolhe assinaturas para pressionar a UFMS a demitir o professor, que tem um contrato temporário com a instituição. O documento, direcionado à reitora Célia Maria Silva Correa Oliveira, alega que “nenhum estudante gay deve continuar a ser submetido ao constrangimento de ter aulas e de ser avaliado por pessoa homofóbica”.

A petição pede o afastamento do profissional e substituição “por um professor mentalmente equilibrado”. O documento virtual foi criado no domingo (26) e já foi assinado por 318 pessoas.

A assessoria de comunicação da UFMS informou que o conteúdo da mensagem publicada pelo professor será analisado pela administração superior, que vai decidir se abre um procedimento administrativo ou encaminha o caso para a comissão de ética da universidade.

As penalidades vão desde uma advertência até o rompimento do contrato e afastamento do professor. Não há prazo definido para a conclusão dessa análise.

Arrependimento

Ao UOL, o professor disse que está arrependido e que lamenta o que considera ter sido um “mal entendido”. “Foi um momento em que não pensei para falar. Estou envergonhado e muito arrependido”.

Kleber explicou que a mensagem foi um desabafo pessoal contra as pessoas que picharam as paredes da universidade e comparou os xingamentos às reações de torcedores que agridem verbalmente os adversários. “É como se eu, que sou são paulino, xingasse um corintiano depois de perder um jogo”.

Kleber também fez questão de deixar claro que não fez o comentário como professor da UFMS e garantiu não ter preconceito contra homossexuais. “Sei de pessoas que sofrem muito com isso, que têm pais que não aceitam”.

Surpreso com a repercussão causada pelo texto, o professor disse que, se tivesse oportunidade, pediria desculpas às pessoas que se sentiram ofendidas.

Dica do Chicco Sal

Mãe que fez o 1º Enem, há 15 anos, apoia filho que fará o exame em 2013

0

‘Era tudo novo e difícil’, diz Divina Aguiar, que fez a primeira prova em 1998.
Exame começou com 150 mil inscritos; em 2013, pode chegar a 6 milhões.

Vanessa Fajardo, no G1

Divina Aguiar com seu filho Renato que fará Enem 15 anos depois dela (Foto: Divulgação/Farias Brito)

Divina Aguiar com seu filho Renato que fará Enem
15 anos depois dela (Foto: Divulgação/Farias Brito)

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) faz 15 anos e sua evolução pode ser contada por meio da história de vida de uma analista de sistema e seu filho que moram em Fortaleza (CE). Divina Maria Penha de Aguiar, de 36 anos, fez a primeira edição do Enem, em 1998, quando o exame foi criado para avaliar o aprendizado dos alunos do ensino médio e ela nem sabia muito bem qual era a proposta. Na época, o filho dela, Renato Lopes de Aguiar, era um bebê de dois anos, e o Enem “engatinhava” com pouco mais de 150 mil inscritos. Agora, 15 anos depois, tanto Renato quanto o Enem cresceram muito.

O rapaz de 17 anos vai fazer pela primeira vez a prova do Ministério da Educação para conseguir uma vaga no curso de engenharia civil de uma universidade federal. De preferência, no Ceará. Ele já se inscreveu para a prova que poderá ter mais de 6 milhões de candidatos. As inscrições para o Enem podem ser feitas até às 23h59 desta segunda-feira (27). As provas serão dias 26 e 27 de outubro.

Em 15 anos, o Enem mudou muito. Da primeira versão de 1998, quase nada se manteve. A prova tinha 63 questões e uma redação e era aplicada em um só dia. Na estreia, 115,6 mil pessoas fizeram a prova, depois de uma abstenção de 23% do total de inscritos. O Enem foi criado com a proposta de mensurar o aprendizado dos estudantes ao final do ensino médio, que já dava sinais de fracasso.

“A gente não tinha conhecimento do que era o Enem, não sabíamos como era a prova, era tudo novo e foi muito difícil. As questões eram extensas, o tempo curto e não tinha prova naquele estilo”, afirma Divina.

A versão conhecida hoje, com o formato de quatro provas com 45 questões cada, aplicada em dois dias, chegou em 2009. Hoje 101 universidades e institutos federais utilizam o exame de alguma forma no processo de seleção. Muitos substituíram o vestibular pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu).

5

“Estudo de manhã e fico à tarde na escola para estudar por conta própria com amigos. Quero uma vaga em engenharia civil na Universidade Federal do Ceará. A nota de corte é alta, quero muito passar e estudo para isso”, diz Renato, que estuda no Colégio Farias Brito, em Fortaleza. O estudante fez o Enem no ano passado, como treineiro, para conhecer o estilo da prova. “Acho uma boa proposta, é uma forma mais justa e ampla de testar conhecimento.”

A mãe de Renato, Divina diz que apesar das dificuldades, foi bem no Enem, tirou uma boa nota, mas não pode aproveitá-lo para entrar na faculdade. Na ocasião, aos 18 anos, seu filho já tinha 2 anos, e como ela não conseguiu passar no vestibular – queria estudar direito – desistiu dos estudos para cuidar do filho. Foram dez anos assim, longe da escola.

“Voltei porque tinha o sonho de me formar. Em 2005 prestei vestibular em uma universidade particular e fui fazer ciência da computação. Eu trabalhava 8h como supervisora de telemarketing, estudava à noite, e tinha meu filho, minha casa para cuidar, por isso só fiz três disciplinas por semestre [no tempo regular, seriam cinco] e demorei mais tempo para me formar”, afirma.

A formatura foi em 2011, e em fevereiro deste ano, Divina já emendou um curso de MBA na área de gerenciamento de projetos paralelamente as aulas de inglês. O objetivo é conseguir ocupar melhores posições na empresa em que trabalha. Em casa, Divina não precisa explicar a importância da educação ao filho.

“Renato estuda sozinho à tarde na escola, eu nem me preocupo. Ele namora, joga viodegame, não deixa de fazer nada, mas sabe se organizar e planejar.” Ela incentivou Renato a fazer o Enem no ano passado, como treineiro quando estava no segundo ano do ensino médio. “Ele sempre esteve entre os melhores alunos, sempre foi bom em redação, é bom de lógica, pega rápido, mas era importante conhecer a prova, eu tive muita dificuldade por não conhecer o exame.”

Divina afirma que nem de longe imaginou que o desconhecido Enem de 1998 pudesse virar este exame tão importante. “Foi uma surpresa, não imaginava que iria tomar essa proporção. É uma excelente ideia, se o Enem já existisse nesse formato, poderia ter entrado na faculdade.”

Se antes, a gravidez na adolescência a preocupou e mudou os planos de sua vida, hoje, Divina agradece ter sido mãe muito jovem. “É um orgulho, malhamos na mesma academia, conversamos muito, trocamos dica de estudo. Agradeço ele ter vindo antes da hora, somos amigos. Ninguém acredita que ele é meu filho.”

Novo Enem para medicina

Mãe e filha também fizeram o mesmo exame, porém, completamente diferentes em Maricá, no interior do Rio de Janeiro. Glória Ludimila Salles da Silva, de 53 anos, prestou a prova em 2003, e sua filha Ludimila, de 21 anos, fará neste ano o exame pela quarta vez.

Ludimila (a filha) sempre estudou em escola pública e em 2011, depois de muito estudo e dedicação, conseguiu pelo Enem uma vaga no curso de enfermagem da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Deixou a casa da família e foi morar perto da universidade. Já se foi um ano de curso e ela resolveu mudar os planos, vai fazer o Enem novamente para estudar medicina.

Ludimila Silva Salles de Sá, de 21 anos,e a mãe Glória, de 56 anos, que fez a prova em 2003 (Foto: Arquivo pessoal)

Ludimila Silva Salles de Sá, de 21 anos,e a mãe
Glória, de 56 anos, que fez a prova em 2003
(Foto: Arquivo pessoal)

“O curso de enfermagem é muito bom, os professores são excelentes, ganhei muita experiência. Mas eu ainda estou sentido falta de estar em outro curso”, diz Ludimila. Para conseguir atingir a meta, se matriculou em um cursinho preparatório e trancou algumas disciplinas para poder se dedicar às aulas do Curso Progressão Autêntico, na Ilha do Governador. “Estou estudando muito para o Enem, quero realmente cursar medicina. Pretendo me especializar em neurocirugia, nas aulas de anatomia vi que tinha aptidão para isso.”

O Enem foi um progresso para o país, mas é necessário encontrar um meio de não haver problemas, como com a correção das redações que foi uma catástrofe no ano passado”
Ludimila Salles, de 21 anos, que fará o exame pela quarta vez

Ludimila cogita a possibilidade de deixar o Rio de Janeiro e aproveitar a mobilidade oferecida pelo Sisu. A estudante aprova o modelo do Enem, mas com ressalvas. “Queria que ele fosse mais conteudista e acho que o tempo de prova é insuficiente. É cansativo, são questões longas. Também é preciso melhorar a correção da redação, que neste ano vai mudar. Mas é através do Enem que estou na UFRJ, reconheço que as vantagens.”
Glória, a mãe de Ludimila, fez o Enem em 2003 com objetivo de melhorar a pontuação e conseguir passar no vestibular para o curso de pedagogia. Ela lembra que foi bem na prova, mas não conseguiu se matricular em nenhuma universidade, porque teve um problema de saúde e ficou hospitalizada por bastante tempo.

Hoje, com a saúde restabelecida, ela pensa em fazer o Enem novamente, incentivada pela filha. “Tenho vontade de fazer faculdade de pedagogia, acho muito interessante repassar a sabedoria. Já fui professora, adorei lecionar.” Para ela, o Enem significa oportunidade para muitos alunos. “Foi um progresso para o país, mas é necessário encontrar um meio de não haver problemas, como com a correção das redações que foi uma catástrofe no ano passado. Não pode haver esses erros. A ideia em si foi muito bem formada, mas a parte educacional ainda está se desenvolvendo aos poucos.”

Arthur, de 17 anos, e a mãe, Cristiane Saito: ele vai fazer o Enem em outubro, ela fez o exame em 2004 (Foto: Arquivo pessoal/Cristiane Saito)

Arthur, de 17 anos, e a mãe, Cristiane Saito: ele vai
fazer o Enem em outubro, ela fez o exame em 2004
(Foto: Arquivo pessoal/Cristiane Saito)

Filho treineiro

Primeiro a mãe, depois o filho. A história se repete em Socorro, no interior de São Paulo. A administradora Cristiane Gomes Saito, de 46 anos, fez o Enem em 2004, seu filho Arthur, de 16, fará a prova neste ano como treineiro.

Cristiane ficou 11 anos sem estudar, morou quatro anos no Japão para trabalhar e voltou em 1996, pois estava grávida, e queria ter o filho no Brasil. Anos depois, de volta à terra natal também retomou os estudou.

Concluiu o ensino médio e no mesmo ano chegou a passar na primeira fase da Fuvest, no curso de oceanografia, mas segundo ela, o “lado mãe” falou mais alto, e não se dedicou o suficiente para conquistar a vaga. Quando viu que não tinha sido aprovada na segunda etapa, sentiu até um certo “alívio”, nas palavras dela, já que o filho, na época, com 6 anos, e precisava da sua atenção. Se tivesse sido classificada, teria de mudar de cidade, pois o campus da USP que oferece oceanografia fica em São Paulo.

Em 2004, foi fazer cursinho pré-vestibular no Colégio Objetivo de Socorro e prestou o Enem. “Era uma prova longa, até dava dor no pescoço. Mas lembro que já era diferente em relação aos vestibulares. Para testar o conhecimento foi maravilhoso, mas não foi pelo Enem que entrei na faculdade”, diz. Cristiane optou por um curso semi-presencial de administração e utiliza os conhecimentos para tocar seu próprio negócio, uma padaria. Agora pretende fazer uma pós-graduação na área do mercado financeiro.

Era uma prova longa, até dava dor no pescoço. Mas lembro que já era diferente em relação aos vestibulares. Para testar o conhecimento foi maravilhoso, mas não foi pelo Enem que entrei na faculdade”
Cristiane Gomes, de 46 anos, administradora; fez o Enem em 2004

“Acho que o Enem é uma forma bacana de democratizar o ingresso na universidade, mas tem de cobrar conhecimento geral completo para que a pessoa tenha condições de ocupar a vaga na universidade.”
Para Arthur, filho de Cristiane, o Enem 2013 vai servir como treino. Ele ainda tem dúvidas se quer ingressar na faculdade de engenharia da computação ou seguir a carreira militar, assim como dois de seus tios. “Quero ver como é o Enem para ficar mais esperto, já fiz alguns simulados, mas é diferente fazer a prova de verdade.”

Erros e falhas

Nem só boas notícias fazem parte da história de 15 anos do Enem. No primeiro ano, em 2009, na estreia do novo formato, provas do Enem foram furtadas de uma gráfica em São Paulo, e o exame teve de ser remarcado às vésperas. Em 2010, houve falha na impressão dos cadernos amarelos com questões repetidas e algumas ausentes e na folhas de resposta, os cabeçalhos estavam trocados. Em 2011, vazaram perguntas do pré-teste aplicado em um colégio de Fortaleza.

Na edição do ano passado, a principal polêmica girou em torno da correção das redações. Estudaram ‘testaram’ os corretores colocando a receita de um macarrão instantâneo e do hino de um time de futebol no meio do texto. Mesmo assim as redações não tiraram nota zero. Neste ano, o MEC anunciou novas regras para a correção.

Go to Top