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Quando estudar em Harvard não é o melhor para você

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Flâmulas da Universidade de Harvard (Foto: Getty Images/Arquivo)

Flâmulas da Universidade de Harvard (Foto: Getty Images/Arquivo)

 

Enquanto há estudantes que de fato tirarão o máximo de proveito de um ambiente como de uma universidade de ponta, é possível se desenvolver de outras maneiras em escolas menos prestigiadas

Publicado na Época Negócios

Diferente do que o senso comum pode indicar, estudar em Harvard (ou em universidades de elite em geral, líderes nos rankings internacionais) não é um indicativo de sucesso. E nem de realização. Isto porque, enquanto há estudantes que de fato tirarão o máximo de proveito de um ambiente como de uma universidade de ponta, é possível se desenvolver de outras maneiras em escolas menos prestigiadas.

Um estudo conhecido, publicado em 1999, apontou que estudantes que se candidataram às Ivy League e acabaram optando por outra escola de menos renome tiveram o mesmo nível de rendimento futuro que os colegas que frequentaram as de mais prestígio. A conclusão do estudo é que estudantes que se candidatam a estas universidades em geral possuem certas características – como determinação e disciplina – que serão benéficas para o seu futuro, independentemente de qual escola emitiu seu diploma. Em outras palavras, os pesquisadores Krueger e Dale concluíram que “o estudante, não a escola, era responsável pelo seu sucesso”.

Naturalmente, o prestígio destas instituições não existe à toa. Para algumas áreas (como mercado financeiro ou economia), o networking de uma Ivy League pode ser relevante; para outras, o contato com determinado grupo de pesquisa pode ser essencial para quem deseja seguir carreira acadêmica. Mas, dependendo do seu objetivo, outras escolas tão boas quanto Harvard (embora menos famosas) poderão oferecer uma experiência melhor para o estudante.

Artur Ávila – “Sorte” de não ter ido para as mais renomadas
É o caso do matemático Artur Ávila, brasileiro ganhador da Medalha Fields, que afirmou em um evento da Fundação Estudar, em 2016, que sua sorte foi não ter ido para Harvard ou Princeton. Ele, que optou por estudar no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro, acredita que teve, assim, mais tempo para desenvolver confiança e adquirir conhecimento. “No IMPA, eu sentia medo, claro, mas não estava em um ambiente que podia me esmagar. Tinha pouco conhecimento, mas fazia uma coisa de cada vez.”

Ter estudado em uma instituição de menor renome internacional, portanto, não apenas não prejudicou a carreira do matemático como também colaborou para o seu amadurecimento. Assim, quando para o seu pós-doutorado ele optou por estudar na França, já estava mais adaptado para enfrentar “aquele mundo”: “Cheguei mais confiante, trabalhando nas linhas que já havia começado, indo sem desespero e com consciência de que eu sabia, de fato, muito pouco” afirmou.

Como avaliar se universidades de elite são a melhor opção para você
Em geral, candidatos tentem a considerar apenas se eles são inteligentes o suficiente para serem aprovados em uma universidade de elite. Raramente se considera se estas instituições são as melhores para eles em outros aspectos da vida universitária.

Para isso, autoconhecimento é a chave. O estudante não pode deixar de considerar qual é o seu estilo de estudos; como ele lida com situações de pressão e quais são suas expectativas para os quatro anos de faculdade. De acordo com avaliações enviadas pelos próprios estudantes no portal Unigo, o candidato deve sempre considerar os seguintes fatores:

Carga de Trabalho

Universidades de elite exigem muito trabalho. Além de uma carga grande de leitura, mesmo os estudantes mais preguiçosos não conseguem se livrar de escrever ao menos um essay por semana – e geralmente bem mais que isso.

Estilo de Ensino e Avaliação

Algumas universidades favorecem o debate oral – é o caso, por exemplo, da maior parte das instituições da Ivy League, que têm aulas em formato de seminário e discussão de cases. Assim, estudantes brilhantes, mas que tenham melhor desempenho escrito podem ser ofuscados pelos mais desenvoltos na oratória.

Estilo de Envolvimento Acadêmico

Muitas universidades de elite assumem que boa parte do seu aprendizado se dará através de atividades extracurriculares – seja através de envolvimento com esportes, clubes, trabalho voluntário ou projetos particulares. Claro, você também encontrará espaço se a sua melhor opção de lazer (ou de estudo) for uma biblioteca silenciosa – mas definitivamente não estará explorando o máximo que estas instituições oferecem.

Estilo dos estudantes (elas não são “cool”!)

Universidades de elite são, sim, um espaço para diversidade e jovens engajados nas mais diversas causas. Um espaço onde se podem encontrar jovens confiantes, carismáticos, divertidos e sagazes, críticos e questionadores. Porém, em geral não são o lugar para estudantes “descolados” – no estilo mais tradicional da palavra, de Jack Kerouac, caracterizada por desprezo às carreiras mais tradicionais e “engessadas”. De fato, muitos dos estudantes estão nestas universidades justamente para se tornar este profissional tradicional.

A pressão

Estudantes que não conseguem lidar com a pressão de estarem constantemente cercados de conquistas e sucessos passarão tempos difíceis em escolas de elite. Estas instituições não são o lugar para você se você pensa que tem que ser o melhor em tudo – porque invariavelmente você não será. Gustavo Torres, que está em seu terceiro ano em Stanford, afirmou que um dos seus maiores aprendizados por lá foi “Não dá pra ser o melhor em tudo”. “O negócio é também tentar ser o melhor em algo, aprender com as outras pessoas e tentar construir algo com elas”, afirma.

A liberdade

Instituições como estas geralmente assumem que os estudantes são automotivados e que correrão atrás dos seus objetivos de forma independente. Ninguém – nem professores, nem advisors, sem seus colegas – vão lhe dizer o que fazer (embora lhe ofereçam todos os meios para ajuda-lo se você já souber o que quer). Da mesma forma, se você parar de comparecer às aulas ou não entregar trabalhos, ninguém vai lhe cobrar, até que seja tarde demais.

Estes questionamentos são polêmicos e muitas vezes exigem que o candidato quebre preconceitos e reveja sua própria autoimagem. Mais do que questionar a nossa capacidade de ser aceito por uma destas instituições, devemos nos perguntar: será que tenho a disposição/a humildade/a resiliência/a energia para ter um bom desempenho em uma universidade de elite? Será que serei feliz lá?

No fim, é melhor fazer estes questionamentos com calma e antecedência do que seguir o nome famoso da instituição e passar os quatro anos que deveriam ser os melhores da sua vida se perguntando se não havia outro lugar melhor para você.

Estudante descobre sozinha desvio de bolsas dentro de universidade

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(FOTO: WIKIPEDIA/MORIO)

(FOTO: WIKIPEDIA/MORIO)

 

Júlio Viana, na Galileu

Uma estudante de jornalismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR) descobriu sozinha um sistema que desviava dinheiro destinado a bolsas universitárias. Débora Sögur Hous, de 25 anos, iniciou sua pesquisa no final de 2014, utilizando os dados disponibilizados no portal de transparência da universidade, e passou, em janeiro, as informações coletadas para o jornal Gazeta do Povo, de Curitiba.

A operação, batizada de Research (“pesquisa” em inglês), foi deflagrada pela Polícia Federal (PF) no dia 15 de fevereiro e já prendeu 27 pessoas suspeitas de participarem do esquema que, segundo a PF, o TCU e a Controladoria-Geral da União chegou a desviar quase 7,3 milhões de reais em recursos para bolsas.

Os desvios teriam ocorrido entre os anos de 2013 e 2016. A polícia e o TCU chegaram a classificar como grosseiras as ilegalidades ocorridas na receita da universidade. A UFPR afirma, porém, que já havia inciado as apurações assim que o TCU encaminhou as denúncias para a instituição, em outubro.

Esquema revelado
Débora passou pelo menos dois anos entrando no site da UFPR, tentando entender os números ali apresentados. Tudo começou quando ela fazia parte do centro acadêmico da faculdade. A estudante entrou no sistema pela primeira vez, no fim de 2014, em busca de informações sobre a remuneração de um professor que não estava dando aulas. Interessada, ela começou a explorar o sistema e acabou parando na aba de discriminação de bolsas-auxílio, para monitorar o próprio recebimento de benefício.

Ela explica que demorou um pouco para entender como o esquema de pagamentos era feito. Mas conseguiu compreender, baseando-se na própria experiência, que os depósitos eram sempre feitos ao mesmo tempo. Ou seja, uma bolsa-auxílio para estudantes de 400 reais, por exemplo, era sempre dada para mil a duas mil pessoas de uma só vez.

Débora notou, porém, que alguns benefícios de valor anormal eram pagos apenas para algumas pessoas em particular. Alguns chegavam ao valor de 14 a 17 mil reais por mês, sendo que a maioria das bolsas para estudantes ou pesquisadores chegava no máximo a dois mil reais. Foi quando ela ficou curiosa e iniciou as investigações.

“A princípio, eu não encarava aquilo como irregularidade. Eu imaginava que era algo do serviço público, algum tipo de erro”, explica Débora à GALILEU. Ela começou então a verificar os nomes das pessoas que recebiam os benefícios. Alguns realmente possuíam pesquisas, mas outros nada tinham a ver com a UFPR.

Débora então foi atrás dessas pessoas, buscando-as no Google e no Facebook. Foi nessas pesquisas que começou a comprovar cada vez mais que algo estava errado. Alguns dos investigados não viviam no Paraná, outros não tinham ensino superior. O mais curioso porém era a ligação que alguns deles pareciam ter. “Fui olhando e percebendo algumas conexões familiares ou de amizade. Pessoas que eram amigas uma das outras, comentavam nas fotos e tudo o mais”, conta ela.

Para se certificar de que os nomes constados não eram simples erros do portal, mas recebiam, sim, os benefícios da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Débora solicitou à universidade uma relação dos nomes dos bolsistas entre 2011 e 2015. A UFPR negou o pedido, afirmando que a informação era de cunho privado.

A estudante então fez um recurso no portal e-SIC, o Sistema Eletônico do Serviço de Informação ao Cidadão, onde qualquer pessoa pode solicitar dados sobre o poder público. O pedido foi encaminhado à CAPES, que aceitou a requisição. “Eles consideraram a informação como pública e me passaram a relação de todos os bolsistas. Eu bati com o portal e eram os mesmos nomes. Isso me confirmou que não eram pesquisadores recebendo o auxílio”, explica Débora.

Então, a estudante de jornalismo tentou traçar como a verba podia ter chegado em tais pessoas. Foi quando ela chegou na Pró-Reitoria de Pós Graduação da universidade. Mais especificamente, na chefe da unidade de controle e execução orçamentária, Conceição Abadia de Abreu Mendonça, uma das indicadas pela operação. Ela notou que alguns dos nomes marcados como beneficiados pelas bolsas eram amigos dela no Facebook, alguns inclusive comentavam em suas fotos.

Só mais para frente, ela entenderia a relação real entre aquelas pessoas. Após chegar a 30 nomes suspeitos, Débora percebeu que não conseguiria tocar a investigação a fundo sem ajuda. Por isso, foi até a Gazeta do Povo. Lá, a redação fez um trabalho exaustivo de rechecagem, que apenas confirmou as informações obtidas por Débora.

Segundo o jornal, alguns dos beneficiados sabiam da origem do dinheiro. Outros, porém, diziam não fazer ideia do que estava acontecendo. A hipótese é de que a funcionária, além de repassar o dinheiro, também usava o sistema para pagar comerciantes e prestadores de serviço.

A operação porém, seria desfraldada um pouco antes da reportagem da Gazeta do Povo ser publicada. Segundo a universidade, o TCU já havia encaminhado as denúncias sobre as irregularidades em outubro, levando a instituição a ativar a polícia em dezembro. Segundo Débora, faltava pouco para o término das apurações quando a PF inciou a operação, no dia 15.

Débora afirma que os cursos que fez a ajudaram bastante a conseguir entender o processo de busca e organização de dados. Principalmente na questão de reivindicação de informação. “Mesmo com a Lei de Acesso à Informação, aprendi que aqui nada é realmente transparente a não ser que você peça. Aprendi, portanto, como abrir recursos e argumentar o porquê de algo não ser de informação privada” diz.

Segundo ela, a quantidade de dados públicos é imensa, mas não há pessoas o suficiente para verificá-los, o que leva a casos como esse. “O desvio pode ser óbvio mas na verdade não é. Neste exato meomento existem milhares de dados e números em milhares de bancos de orgãos publicos. Está tudo lá, o problema é quem vai olha-los e tirar algo deles”, coclui Débora.

(com supervisão de Nathan Fernandes)

Filho de diarista é aprovado em 1º lugar em Direito na PUC-Rio pelo Prouni

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"Ela me criou sozinha. O fato de ter conseguido entrar em Direito atribuo a minha família, a minha criação, aos meus professores", diz João Antonio Lima da Silva, 17 - Douglas Shineidr/Divulgação Ismart

“Ela me criou sozinha. O fato de ter conseguido entrar em Direito atribuo a minha família, a minha criação, aos meus professores”, diz João Antonio Lima da Silva, 17 – Douglas Shineidr/Divulgação Ismart

 

Mirthyani Bezerra, no UOL

As pernas da diarista Roseane Silva de Lima, 41, tremeram quando ela ouviu da boca do filho mais velho a notícia de que ele havia passado no curso de Direito da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro). João Antonio Lima da Silva, 17, passou em primeiro lugar entre os aprovados do Prouni (Programa Universidade para Todos) para o curso.

“Eu contei os anos, meses, dias, para que isso acontecesse. Ele me falou na maior simplicidade do mundo que tinha passado no primeiro lugar da PUC. Meu coração acelerou, queria pular de alegria. Comecei a chorar. É um orgulho que eu não consigo explicar”, contou.

João Antonio estudou o ensino fundamental inteiro na Escola Municipal Cardeal Leme, que fica em Benfica, bairro da zona norte do Rio de Janeiro, onde até hoje mora com a mãe, os dois irmãos –um de 12 anos e outro de um ano de idade –, o padrasto e um tio.

Quando estava no oitavo ano, um professor de matemática o aconselhou a tentar umas das bolsas do Ismart – entidade privada que oferece bolsas em escolas particulares para jovens de baixa renda de 12 a 15 anos. Ele participou do processo seletivo em 2011. Naquele ano, houve 9.165 inscritos e 168 aprovados, ou seja, concorrência média de aproximadamente 54 candidatos por vaga.

Conseguiu uma bolsa integral para estudar no Colégio São Bento. “No oitavo e nono ano eu estudei no Cardeal de manhã e no São Bento à tarde. No ensino médio, eu fiquei só no São Bento”, explicou.

Ele conta que sempre sonhou em se formar em Direito. “É uma coisa que eu tenho desde pequeno. Entender como funciona a sociedade, saber dos direitos do cidadão”, diz.

Para João, o seu sucesso no Prouni tem tudo a ver com a sua família. “Ela [minha mãe] me criou sozinha. Há quatro anos só que ela está com meu padrasto. O fato de ter conseguido entrar em Direito atribuo a minha família, a minha criação, aos meus professores. Estou otimista. Sei que vai ser um período muito bom na minha vida”, acredita.

A mãe de João é de Natal (RN) e se mudou para o Rio de Janeiro com o filho quando ele tinha apenas um ano, depois que o relacionamento com o pai do rapaz não deu certo. “Eu trabalhava de segunda a sábado em uma casa de família em Jacarepaguá e deixava ele na casa da minha irmã. Ele nunca deu trabalho”, conta a diarista, que faz faxina duas vezes por semana para ajudar no sustento dos três filhos.

“Os professores dele falavam para mim quando ele era criança para tentar colocar o meu filho numa escola melhor. Mas eu sempre dizia que eu não podia, que não tinha condições. Eu dizia que se ele tivesse de aprender, ia ter que ser na escola pública”, conta Roseane.

Ela diz que sempre soube do orgulho que o filho daria. “Lembro dele sentadinho no sofá, porque a gente não tinha mesa. Ele colocava os livros na perninha para fazer a tarefa de casa. Ele gostava tanto de estudar que chegava da escola e nem queria tomar banho. Eu esperava que ele passasse [no Prouni], mas não tinha ideia que ia ser em primeiro lugar”, conta.

Aprovado para medicina em 2 federais revela segredo: ‘estudar sozinho’

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João Marcos, de 20 anos, foi aprovado para medicina na Ufac e na UFPR (Foto: Mardilson Gomes/Ascom SEE)

João Marcos, de 20 anos, foi aprovado para medicina na Ufac e na UFPR (Foto: Mardilson Gomes/Ascom SEE)

 

João Marcos, de 20 anos, conta que estudava cerca de 13 horas por dia.
Jovem afirma que foi aprovado em universidades federais do AC e do PR.

Iryá Rodrigues, no G1

João Marcos Santos da Silva, de 20 anos, que foi aprovado para o curso de medicina nas universidades federais do Acre (Ufac) e do Paraná (UFPR), disse que um dos segredos para chegar a esse resultado foi se dedicar cerca de 13 horas por dia aos estudos e, principalmente, estudar sozinho. O jovem ficou em primeiro lugar na categoria cotista – de alunos da rede pública de ensino – na Ufac.

Ele, que concluiu o ensino médio em 2014 em uma escola pública de Rio Branco, estudou por um ano, em 2016, em um cursinho em Fortaleza. O jovem revela que teve que abrir mão da vida social, além do “conforto de casa”, já que precisou se mudar para a capital do Ceará para morar sozinho.

“A dica é estudar sozinho, ser mais autodidata e não ficar dependendo muito de aula. É essencial você estudar bastante e focar em redação, que é o que te aprova, além de matemática e natureza, para quem quer medicina. A ideia é focar no objetivo e estudar muito sozinho sabendo o que você quer”, revela Silva.

Silva conta que o interesse por medicina veio após concluir o ensino médio, mas como não tinha se dedicado tanto aos estudos, acabou não conseguindo se classificar. Foi então que ele iniciou um cursinho em Rio Branco, em 2015, mas também não passou, porém conseguiu uma bolsa integral em um cursinho em Fortaleza, onde morou por um ano.

O jovem conta ainda que a rotina diária durante o preparo para o Enem não foi nada fácil. “Estudava de 12 a 13 horas por dia. A aula ia das 7h20 às 13h e depois das 14h até as 21h45. Como morava em frente ao cursinho, ficava lá até mais tarde. Quando chegava em casa, depois de jantar, eu estudava até a hora de dormir”, diz.

Além das horas de estudo, Silva afirma que precisou abrir mão de muitas coisas. “Minha vida social foi bem reduzida e não tinha diversão como viajar e visitar parentes. Durante todo o ano, tive que morar sozinho e abrir mão do conforto de casa. Além disso, me policiava muito com relação à rede social. Limitava mesmo”, conta.

Após ser aprovado nas duas universidades, Silva afirma que ainda ficou em dúvida em qual iria escolher para cursar medicina. Ele diz que acabou preferindo ficar na Universidade Federal do Acre, já que seria melhor para poder ficar mais próximo da família.

Com crise, disparam seguros para mensalidade de escola e faculdade

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Desempregada, Fabiana Mello contou com o seguro educacional para manter Victor na escola

Desempregada, Fabiana Mello contou com o seguro educacional para manter Victor na escola – Zanone Fraissat/Folhapress

 

Paulo Saldana, na Folha de S.Paulo

Tamires Silva começou a trabalhar aos 15 anos, quando ainda cursava o ensino médio em Franco da Rocha, Grande São Paulo. Neste ano, aos 20, realizou um feito inédito na família: chegou à faculdade, um gasto que tomava metade de seu salário.

Mas, em junho, Silva foi demitida do cargo de recepcionista, e o sonho do diploma no curso de banco de dados ficou ameaçado. O que “salvou” a continuidade da graduação no IBTA, na região central de São Paulo, foi um seguro que a faculdade passou a oferecer em 2016.

Quem perde o emprego tem seis meses de mensalidades quitadas. “É o tempo para conseguir um emprego. Eu só penso em me formar. Ninguém conseguiu da minha família e eu quero ir além”, diz.

A história não é isolada. Até setembro, o valor gasto com seguros educacionais foi de R$ 34 milhões em todo país. Já é 19% superior ao total registrado em 2015 –em valores atualizados pela inflação.

Comparando setembro com o mesmo mês do ano passado, a alta é de 62%. Os dados são da Susep (Superintendência de Seguros Privados).

Crise econômica, desemprego e alta na inadimplência têm impulsionado a procura. No ensino superior, a desaceleração na oferta do Fies (financiamento estudantil federal) também influenciou.

As instituições contratam o seguro e, em geral, oferecem para todos alunos. Mas há modelos em que o aluno é obrigado a aderir.

O IBTA integra o grupo Cetec, que reúne três instituições de ensino superior e uma escola de nível médio, com um total de 15 mil alunos. Todos estão cobertos pelo seguro.

“Com a crise do país, do Fies e desemprego, sabíamos que ia ficar difícil para os alunos”, diz o diretor financeiro do grupo, Marcelo Silva.

O custo pode chegar até 3% do valor da mensalidade. “Não repassamos para o aluno. Mas cai o risco de abandono e reduzimos em 22% a inadimplência”, pondera.

Como é preciso ter mensalidades em dia para o seguro, os alunos ficaram mais atentos aos pagamentos, segundo o gestor. Exige-se ainda que eles ou responsáveis tenham trabalhado por um ano antes de ficarem desempregados.

ALTA

Segundo Aquiles Poli, diretor da corretora BR Insurance, houve um “efeito manada”. “Começamos com instituições maiores e uma foi seguindo a outra”, diz.

A companhia teve uma alta de 115% no número de contratações, chegando a 248 instituições. Faculdades representam 70% dos contratos e o restante são escolas.

O grupo segurador Bradesco Mapfre reúne 970 instituições de ensino com seguro, após uma alta de 35% na procura no ano. “São escolas e faculdades de todos os portes”, diz Karina Massimoto, superintende de seguros.

Para Rodrigo Capelato, diretor do Semesp (Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior Privado), o cenário econômico tem forçado a busca pelo benefício. “Houve ainda a tendência de crescimento de inadimplência.”

A taxa de desemprego no país chegou a 11,8% em agosto, segundo o IBGE. A projeção de inadimplência no ensino superior para este ano é de 9%, maior que a de 2015 (8,8%), segundo o Semesp.

Nas escolas, a média de atrasos passou de 8% para 12% do ano passado para este, segundo a Fepesp (Federação Nacional de Escolas Particulares). “O desafio das escolas é adequar o gasto aos custos da escola, para não impactar a mensalidade”, diz Amábile Pacios, da Fepesp.

COBERTURA

Quando em janeiro a estudante Rayssa Ferreira, 24, ingressava no último ano do curso de odontologia, seu pai foi diagnosticado com câncer e, em maio, morreu aos 65 anos. Além da tristeza, ela se viu diante da impossibilidade de continuar a graduação na Unifor (Universidade de Fortaleza), na capital cearense.

Ferreira era beneficiada pelo Fies até o primeiro semestre do ano. Mas, sem o pai como fiador, não conseguiu renovar o contrato para o último semestre do curso. “Ele era meu provedor, eu não teria condições de pagar a mensalidade de quase R$ 3.000”, diz ela.

Foi um amigo que avisou que a universidade contava com seguro para casos como o dela. Em caso de morte do responsável financeiro, o produto cobre os estudos até o fim do ano letivo.

“Evitei trancar, seria uma tristeza nadar, nadar e depois morrer na praia, no último ano de curso”, diz a aluna.

O gerente financeiro da Unifor, Jefferson Dantas Candido, explica que a instituição trabalha há 19 anos com o benefício. Em 2015, porém, houve ampliação do serviço, e a cobertura passou a ser de seis meses de mensalidades em caso de desemprego. Antes, eram quatro.

Além da cobertura por morte ou invalidez do responsável, há garantia para alguns custos hospitalares em caso de acidentes. Os 24,5 mil alunos de graduação têm a garantia do seguro.

“Isso tem sido determinante para a continuidade dos estudos dos nossos alunos”, diz. “Percebemos um aumento significativo nos sinistros [quando o seguro é acionado]. Seja por causa do desemprego ou porque passamos a divulgar melhor a opção.”

Na Estácio, grupo com 310 mil alunos, foram 2.500 solicitações de alunos por seguro nos últimos 16 meses.

“Houve aumento considerável na comparação com períodos anteriores, mas certamente já passamos do pior momento”, diz Leonardo Moretzsohn, executivo da área financeira da empresa.

EFEITO FIES

Segundo Daniel Mitraud, superintendente do setor de universidades do banco Santander, as instituições de ensino superior passaram a “blindar” cada vez mais os alunos matriculados. “As faculdades e as universidades buscam proteger o aluno que paga mensalidades corretamente, é a galinha dos ovos de ouro das instituições”, diz.

O banco passou a oferecer o seguro educacional a partir do ano passado. “O primeiro fator que hoje sensibiliza a busca pelo seguro é o Fies, que vive uma inconstância”, afirma Mitraud.

A partir de 2015, o governo federal, ainda na gestão Dilma Rousseff (PT), passou a restringir o acesso ao programa. No Fies, o governo paga as mensalidades para as instituições, e o aluno só começa a pagar o financiamento 18 meses após se formar.

Entre 2010 e 2014, não havia limite de vagas anuais para o financiamento federal, e as instituições incluíam os alunos no programa a qualquer momento do ano.

Com novas regras, a partir de 2015, o número de novos contratos passou a ser limitado pelo governo como forma de reduzir gastos.

Enquanto em 2014 haviam sido registrados 713 mil contratos, esse número passou para 287 mil em 2015. No primeiro semestre deste ano, 148 mil contratos foram firmados e, no segundo, o MEC oferece 75 mil novas vagas.

“As instituições estão buscando soluções para garantir a continuidade dos estudos do aluno”, afirma Sólon Caldas, da ABMES (Associação Brasileira das Mantenedoras do Ensino Superior).

No ano passado, o número de novos alunos na rede privada de ensino superior caiu 8% na comparação com 2014. Passou de 1,9 milhão para 1,7 milhão –um impacto direto da redução do Fies, segundo as empresas educacionais.

‘ALÍVIO’

Aos 36 anos, a profissional de recursos humanos Fabiana Mello nunca tinha ficado desempregada. Com a crise, a empresa do setor automotivo em que trabalhava promoveu um grande corte e ela acabou desempregada em julho deste ano.

No mês seguinte, as mensalidades de R$ 546 na escola do filho Victor, 12, já estavam garantidas pelo seguro. “Sou divorciada e a única com renda na família. Quando percebi que meu filho estava garantido, deu um alivio”, diz. O menino estuda com bolsa no colégio Anchieta, em São Bernardo do Campo.

O “alívio” foi essencial para conseguir um reposicionamento no mercado de trabalho antes mesmo de o prazo de seis meses do seguro vencer. “Dei sorte de conseguir me recolocar rapidamente, tenho amigos que estão há meses procurando.”

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