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Com faculdades públicas e sem vestibular, Argentina atrai cada vez mais universitários brasileiros

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Image caption Estudantes na Universidade de Buenos Aires, que tem 4% de estrangeiros, principalmente brasileiros

A possibilidade de estudar gratuitamente no exterior sem ter que prestar vestibulares tem atraído número crescente de universitários brasileiros para as universidades argentinas – a ponto de causar incômodo em alguns setores acadêmicos do país vizinho.

Marcia Carmo, na BBC Brasil

Nos últimos anos, a presença de estudantes brasileiros de diferentes regiões passou a ser cada vez mais frequente em cidades como Buenos Aires, La Plata e Rosario, onde estão algumas das principais universidades públicas da Argentina.

Há alunos brasileiros também em universidades menos conhecidas, como a do balneário de Mar del Plata, a 400 km de Buenos Aires.

O curso de Medicina é o mais procurado pelos brasileiros, segundo assessores das instituições de ensino argentinas.

O sistema universitário argentino exige dos brasileiros apenas o diploma do ensino médio, reconhecido nos ministérios da Educação do Brasil e da Argentina, e um documento de identidade (o DNI, emitido pelas autoridades migratórias). O desempenho do aluno no ensino médio não é avaliado. No caso do DNI, o processo foi simplificado nos últimos anos, mas o agendamento para o início da emissão do documento pode demorar alguns meses.

Sem vestibular

Diferentemente das universidades brasileiras, as universidades públicas argentinas não têm limites de vagas para vários cursos, incluindo os de Medicina, de acordo com a assessoria de imprensa das instituições acadêmicas. Essa facilidade de ingresso tem sido um chamariz para estudantes brasileiros.

Outro fator de peso, segundo acadêmicos ouvidos pela BBC Brasil, é a crise econômica brasileira.

“Nos perguntamos aqui por que tantos alunos brasileiros vieram nos últimos dois ou três anos e entendemos que o período coincide com a crise no Brasil”, disse um assessor acadêmico, pedindo para não ser identificado. “Sem dúvida, o que vem ocorrendo nos últimos tempos chama a atenção”, disse outro.

A Faculdade de Medicina da Universidade Nacional de La Plata (UNLP), a uma hora e meia de Buenos Aires, registrava em 2015 apenas 11 alunos brasileiros. Esse número saltou para 311 em 2017 e, neste ano, há 566 universitários brasileiros matriculados.

A reitoria da Faculdade de Medicina da UNLP diz que, nesse caso específico, o aumento é explicado pelo recente fim da exigência da prova de admissão, colocando em prática uma lei nacional de 2015.

“As provas (de admissão) deixaram de ser exigência para todas as universidades desde o retorno da democracia, nos anos 1980. Mas, por serem autônomas, algumas delas ainda aplicavam provas”, explica o reitor da Universidade Nacional de Rosário (UNR), Hector Floriani, à BBC Brasil.

Ali, dos cerca de 4 mil alunos de Medicina, 1,5 mil são brasileiros.

A UNR, assim como a Universidade de Buenos Aires (UBA), já não exigia há anos o exame de admissão, nem mesmo para o curso de Medicina.

Para facilitar a vida dos que chegam de fora, algumas universidades ainda oferecem cursos grátis de espanhol, antes de as aulas na faculdade começarem.

A brasileira Raquel Moraes, 25 anos, estudou Engenharia durante cinco anos na Universidade de Brasília e decidiu passar para Medicina. Ela está no primeiro ano da Universidade de La Plata e conta que optou por Buenos Aires justamente pela gratuidade e facilidade de ingresso. “Tem muitos brasileiros estudando aqui”, agrega.

Críticas

No entanto, o acesso ilimitado e gratuito – que é igual para argentinos e estrangeiros – começa a despertar críticas em alguns setores acadêmicos.

Ainda de forma incipiente, há quem defenda que o acesso continue irrestrito, mas apenas para os estrangeiros que cursaram os ensinos fundamental e médio na Argentina e que provavelmente continuarão vivendo no país.

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Image caption Alguns setores acadêmicos já manifestam preocupação com a presença crescente de brasileiros, uma vez que as universidades são financiadas com dinheiro do contribuinte

“A Argentina tem mais de 20% de pobres. Não é mais um país rico. Como podemos sustentar a educação da classe média brasileira?”, questiona um assessor acadêmico.

O reitor Floriani, da UNR, admite que a crescente presença brasileira tem causado preocupação.

“É interessante contar com alunos estrangeiros, porque a troca é enriquecedora. Mas depende da quantidade de alunos. Mil e quinhentos (brasileiros) é um número elevado. Além disso, não existe um sistema de reciprocidade. Não imagino que uma universidade federal brasileira receba 1,5 mil alunos argentinos”, diz ele, destacando ainda que 80% do sistema universitário argentino é financiado por dinheiro público.

Segundo o reitor, algumas famílias brasileiras têm achado mais vantajoso economicamente enviar o filho para uma universidade argentina, mesmo pagando passagem e estadia, do que mantê-lo em uma universidade particular brasileira. Isso apesar de o custo de vida não estar baixo na Argentina, onde a inflação deve chegar a 20% neste ano.

Procurados pela BBC Brasil, o Ministério da Educação da Argentina e o Consulado do Brasil no país vizinho informaram não ter dados atualizados sobre estudantes brasileiros nas universidades públicas.

Em São Paulo, o ex-ministro brasileiro da Educação Renato Janine Ribeiro concorda que a gratuidade do ensino e a não existência do vestibular são os motivos que atraem os estudantes brasileiros para as universidades argentinas. “É muito difícil entrar para uma universidade pública (no Brasil), principalmente em Medicina, e as particulares são caras”, destaca.

Mesmo no ensino particular há grande discrepância de valores. O preço da mensalidade de Medicina na faculdade Barceló, em Buenos Aires, onde a presença de brasileiros é a maior entre estudantes estrangeiros, é de 7,5 mil pesos (cerca de R$ 1.250). Já a mensalidade de uma faculdade particular no Brasil pode variar entre R$ 3,5 mil e mais de R$ 7 mil.

“Temos estudantes brasileiros de vários lugares do Brasil, como Rio de Janeiro, Mato Grosso e Fortaleza”, diz o Departamento de Relações Institucionais e Admissão da Barceló.

Janine afirma ainda que a tradição do ensino argentino também contribui para atrair brasileiros, lembrando que ainda é “muito baixo” (20%) o percentual de brasileiros entre 18 e 24 anos matriculados no ensino superior.

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Image caption Analista diz que é mais fácil entrar em universidades argentinas, mas também é mais difícil concluir cursos

Fácil entrar, difícil sair?

O especialista argentino Alieto Guadagni, membro da Academia Argentina de Educação, é um dos que tem levantado hipóteses para a maior presença de alunos brasileiros nas universidades argentinas.

“Será que esses alunos não passaram no Enem no Brasil e buscam as universidades argentinas como alternativa?”, questiona.

Ao mesmo tempo, Guadagni afirma ainda que, embora seja mais fácil ser admitido, “é mais difícil concluir a faculdade na Argentina”.

Ele cita dados oficiais de 2015 que apontam que, a cada 10 mil habitantes na Argentina, 29 estudantes concluíram a universidade (não há dados específicos sobre estudantes brasileiros) naquele ano. Sob os mesmos critérios, no Brasil foram 56 estudantes.

“Ou o ensino aqui é mais exigente ou os alunos estão menos preparados quando entram na universidade e por isso têm dificuldade de chegar ao final da faculdade”, analisa Guadagni.

Como regra própria, a Universidade de Buenos Aires, a maior da Argentina, ministra o Ciclo Básico Comum (CBC), que é o primeiro ano de estudo na instituição e vale para estudantes de todas as áreas, incluindo Medicina. O curso pode ser ministrado até à distância.

O CBC é cursado durante um ano e oferece cursos específicos paralelos, como compreensão de texto e matemática, para aqueles que apresentam dificuldades para acompanhar o ritmo das matérias. O objetivo, informou a UBA, é “nivelar” a educação dos alunos para facilitar o ensino e aprendizagem “igualitários” nas aulas.

‘Meus pais não poderiam pagar’

A brasileira Rafaela Laiz, 20 anos, começou a cursar à distância o CBC neste ano e pretende se mudar de Lajinha (MG) para a Argentina em 2019, para cursar Medicina na UBA.

“Quero ser cardiologista, mas a faculdade aqui no Brasil é muito cara, em torno de R$ 5 mil. Meus pais não poderiam pagar. Por isso, me inscrevi no CBC da UBA, e no ano que vem vou para Buenos Aires”, conta. “Já soube que a prova para revalidar meu diploma argentino aqui no Brasil é bem difícil, mas mesmo assim vale a pena.”

O Revalida é o exame anual realizado no Brasil para que brasileiros ou estrangeiros que cursaram Medicina no exterior possam exercer a carreira de médico no país. O exame, aplicado pelo INEP (ligado ao Ministério da Educação), é considerado exigente. Em 2016, o índice de reprovação chegou a quase 60%.

A UBA, escolhida por Rafaela Laiz, tem 300 mil alunos (40 mil em Medicina) – sendo 4% deles estrangeiros, liderados por brasileiros, que começaram a chegar em maior número a partir de 2016.

Os últimos dados disponíveis apontam que mais de 60% dos brasileiros que estudam na UBA escolhem a carreira de Medicina.

O subsecretário de Assuntos Internacionais de UBA, Patrício Conejero, diz à BBC Brasil que o destaque da instituição nos rankings universitários internacionais acaba atraindo estrangeiros.

“O acesso à universidade é igual para argentinos e estrangeiros. A presença de estudantes estrangeiros contribui para melhorar nossa performance internacional”, opina.

Por que os jovens universitários estão tão suscetíveis a transtornos mentais?

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 baona via Getty Images O sofrimento psíquico pode estar associado a uma crise do modelo de vida que muitos estudantes levam até chegar à universidade.

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O sofrimento psíquico pode estar associado a uma crise do modelo de vida que muitos estudantes levam até chegar à universidade.

Segundo pesquisa, 30% dos alunos de graduação em instituições federais no Brasil procuram atendimento psicológico.

Thais Matos, no HuffpostBrasil

No meio do caminho, tinha uma crise nervosa. Gastrite corroendo o estômago a ponto de tirar a fome e levar a intensos enjoos, seguidos de vômito. Nessa estrada, prazos curtíssimos se atropelavam com a exigência e o descaso dos mentores. No fim do caminho, tinha um diploma universitário. “Por causa da faculdade, desenvolvi ansiedade e pânico”, declara Ana Batista*, recém-graduada em Relações Internacionais na INPG (Instituto Nacional de Pós-Graduação), em São José dos Campos (SP).

Durante as férias de julho, na cadeira do dentista, Luís Ferreira sentiu os batimentos acelerarem, a respiração ofegante e uma dor no peito. Ele teve certeza de que morreria ali, prestes a tirar o siso. Diante do horror do desconhecido, implorou que o levassem ao hospital temendo uma reação à anestesia. Fez uma bateria de exames e lhe disseram que não tinha nada. Esse é o diagnóstico que se recebe em alguns hospitais quando se sofre um ataque de pânico. A partir de então, a sobrevivência do estudante de engenharia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) fora de casa passou a depender da dose diária de Rivotril.

Ana e Luís fazem parte do número cada vez mais expressivo de estudantes que passam por algum tipo de sofrimento psíquico. Segundo pesquisa divulgada pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) em 2016, 30% dos alunos de graduação em instituições federais no Brasil procuraram atendimento psicológico dois anos antes. E mais de 10% fizeram uso de algum medicamento psiquiátrico.

Para Ana, o esgotamento físico era acirrado pela rotina absurdamente intensa em três cidades paulistas. “Eu trabalhava em uma cidade, estudava em outra, fazia TCC, dava aula sábados e dormia em uma terceira cidade. Digo dormir porque passar apenas a madrugada em casa não é morar.”

Ela sofreu sozinha durante os seis anos das duas graduações. Durante o último ano, tomou calmante e remédios para dormir todos os dias. Em seu pior momento, faltou inúmeras vezes por não conseguir levantar da cama. “Ninguém se preocupa com o aluno, ninguém pergunta por que você teve tantas faltas.”

Ana buscou por conta própria a ajuda de um psicólogo. “Nem que eu quisesse procurar alguém dentro da faculdade eu conseguiria muita ajuda. Eles não disponibilizam. Em nenhuma das duas instituições que eu estudei”, conta.

Para Luís, o curso dos sonhos na melhor universidade do Brasil revelou-se uma fonte de hostilidade. Ela vinha de diversas frentes: dos outros estudantes, com trotes pesados e comportamentos preconceituosos; dos professores, ora autoritários ora desinteressados; e do próprio modus operandi do curso. Após passar quase 20 dias estudando sem pausa para uma prova, sua nota foi baixíssima: 1,5 de 10. Com isso, veio o sentimento de incapacidade. “A cobrança era tão alta que eu poderia estudar 20 horas por dia e ainda assim tiraria uma nota ridiculamente baixa”, explica.

Sem amigos ou incentivo, ele desistiu das matérias gradativamente. Se escondia na casa da namorada durante os dias em que deveria estar na faculdade. Sentindo-se sozinho e sem saber como pedir ajuda aos pais, vendeu suas coisas para ir ao psicólogo sem que ninguém soubesse.

Ele não passou nos dois primeiros semestres da universidade. Foi jubilado. “Eu, de fato, não era mais aluno da Unicamp.” Depois disso, teve que contar aos pais o que havia acontecido. Da mãe, teve todo o ombro e a ajuda necessários. Do pai, a rejeição. Não se falaram mais.

Algumas universidades brasileiras têm se mobilizado para que as diretorias olhem com mais cuidado para o problema do sofrimento psíquico e dos transtornos mentais de seus estudantes. Em setembro, a Faculdade de Economia e Administração da USP lançou uma campanha chamada “Isso não é normal”, na qual os alunos anonimamente declararam o que sentiam no ambiente universitário. As respostas relatavam ataques de ansiedade, desmotivação, problemas para dormir, depressão e pânico.

Para o psicólogo Pablo Castanho, professor e coordenador da clínica-escola Durval Marcondes do Instituto de Psicologia da USP, esse quadro não é um fenômeno atual. “Essa demanda de sofrimento psíquico dos alunos de graduação e pós tem chamado bastante atenção na USP e no exterior. Mas há mais de 20 anos eu já atendia pacientes com as mesmas questões.”

O que causa a impressão de aumento no número de casos, segundo Castanho, é a abertura que temos para tratar o assunto hoje em dia. Isso porque as pessoas estão mais atentas para perceber mudanças de comportamento. “Na USP, existe um movimento de professores entrando em contato com o Instituto de Psicologia, preocupados sobre como podem perceber que um aluno está mal”, revela o professor.

Os motivos

Há cinco fatores que podem explicar a ocorrência de sofrimento psíquico e transtorno mental nos estudantes universitários, de acordo com o psicólogo e professor Pablo Castanho. No entanto, nenhum motivo é a causa isolada do problema.

1. Influência do mercado de trabalho

Para o professor, as universidades estão cada vez mais próximas do mercado de trabalho e as cobranças que existem na atividade profissional chegam à universidade. “Isso vulnerabiliza muito a pessoa”, afirma.

Além disso, ocorre uma “competição predatória”, segundo ele a classifica, “inibindo o fairplay”. Os alunos estão o tempo inteiro em competição por bolsas de estudos, vagas de estágio, liderança nas empresas júnior e intercâmbio, por exemplo.

“Em algumas universidades, a média é criada por um critério comparativo. Para um aluno ir bem, outro necessariamente precisa ir mal. Então acontecem coisas como alunos que escondem livros da biblioteca, ou arrancam páginas para que outros não consigam estudar”, conta Castanho.

Para ele, todo o caminho da formação está impregnado por valores profissionais e mercadológicos. “As crianças estão expostas desde cedo, acreditam que têm que ascender rapidamente. Ao mesmo tempo, elas não aprendem a lidar com esse ambiente competitivo e ficam inseguras e vulneráveis para lidar com as cobranças.”

Mas ele alerta que a solução não está na volta ao modelo de universidade de décadas atrás. “Uma coisa é uma relação com o mercado de trabalho, outra é mimetizar as relações sem se dar conta disso. É preciso fazer uma inserção crítica e investir na solidariedade entre os alunos, evitando mecanismos excessivamente competitivos no dia a dia.”

2. A desarticulação do coletivo

Ao contrário do que se costuma pensar, a pressão da universidade não é a única causa do sofrimento. “Por pior que sejam a pressão pelo resultado, as críticas e ataques aos alunos, e a exposição de estudantes que vão mal, existem estratégias de lidar com isso. O grande problema é a desarticulação dos coletivos.”

Para o psicólogo, com o acirramento da competitividade, o conjunto de alunos perde a força de unidade e não se organiza para enfrentar essa situação ou mesmo se ajudar mutuamente.

3. Crise do modelo de vida

O sofrimento psíquico pode estar associado a uma crise do modelo de vida que muitos estudantes levam até chegar a universidades. “Principalmente os que passam em vestibulares concorridos dedicaram boa parte de suas vidas ao estudo para a prova. Depois que eles passam, não sabem se realmente valeu a pena”, explica Pablo Castanho.

Para o professor, é como se os alunos abrissem mão de uma vida equilibrada para buscarem uma posição. Na universidade, “começa a cair a ficha” de todas as privações e sacrifícios que antes pareciam naturais.

4. Perda de referências

Quando se muda de cidade para cursar a graduação, o universitário passa por uma série de mudanças que demandam “rearranjos psíquicos”. Segundo o psicólogo, quando se sai do grupo em que cresceu, perdem-se referências.

“Muitos alunos saem de contextos nos quais são destaque, com ótimos desempenhos, e, quando chegam à universidade, percebem que são na verdade medianos, quando se deparam com outras pessoas de mesmo nível. É aquela história de ser peixe pequeno em aquário grande ou peixe grande em aquário pequeno. Eles passam, então, por uma quebra da autoimagem e isso gera sofrimento.”

5. Falta de significado

Para o psicólogo, o sofrimento é inerente a um intenso período de estudos, como da universidade, mas é preciso tomar cuidado para que esse incômodo não se torne um adoecimento psíquico.

Para isso, é preciso um contraponto, que pode ser encontrado no significado que a carreira tem para o estudante.

“Uma carga de trabalho muito grande na universidade e a privação de sono são extremos que deixam o aluno mais vulnerável. O fato de ter algo estressante ou desprazeroso não é o problema. Se aquilo faz um sentido na vida da pessoa, é mais fácil passar por dificuldade de lidar com aquilo. Se a pessoa está em uma carreira que não faz sentido, não tem como lidar com toda a carga emocional que ela exige”, conclui.

Clube de assinatura de livros com sede em Porto Alegre chega aos 18 mil associados em três anos

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Álvaro, Arthur, Gustavo, Tomás e Pablo (à frente), os sócios da TAG Foto: Bruno Alencastro / Agencia RBS

 

Criado por universitários em 2014, TAG – Experiências Literárias já conta com 50 funcionários e tem faturamento mensal de R$ 1,2 milhão

Rafael Balsemão, no Zero Hora

Em julho de 2014, três estudantes do curso de Administração da UFRGS tiveram uma ideia em que pouca gente botou fé. Entre uma aula e outra, Gustavo Lembert, 25 anos, Arthur Dambros, 25, e Tomás Susin, 27, criaram um clube de assinatura de livros, a TAG – Experiências Literárias. Num país em que 44% da população não lê e que 30% nunca comprou um livro, segundo a Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2016), as chances de o negócio vingar pareciam remotas.

Passados três anos daquela decisão arriscada, o trio, agora ao lado de outros dois sócios, Álvaro Englert, 28, e Pablo Valdez, 28, comemoram a conquista de quase 18 mil assinantes. O que começou com conversas informais de amigos que tinham em comum a paixão pela leitura virou uma empresa localizada em um espaço de 1,2 mil metros quadrados no bairro Floresta, na Capital, com 50 funcionários e um faturamento mensal de R$ 1,2 milhão – para dar início à empreitada, o trio investiu R$ 10 mil.

– A gente discutia várias ideias de negócio, desde hostel em Santa Catarina a alguma coisa de produtos orgânicos. No meio das discussões, percebemos que os livros eram pauta de nossas conversas e começamos a debater como poderíamos trabalhar. Não tínhamos vontade de abrir uma livraria ou um sebo online, a gente queria trabalhar com experiência de leitura. Isso foi bem no momento em que os clubes de assinatura ganhavam força, como os de vinho. Achamos que era um modelo de negócio interessante – lembra Gustavo.

A partir daí criaram o formato que hoje encanta os sócios da TAG. A empresa se assemelha ao extinto Círculo do Livro, que existiu entre 1973 e 2000 e chegou a ter 800 mil associados. Enquanto os exemplares do Círculo eram escolhidos por quem pagava a conta, os associados da TAG recebem todo mês uma caixa com um livro surpresa – indicado por um curador –, além de uma revista sobre a obra e um “mimo”.

– Nosso dilema era: quem vai indicar? Porque nós não temos moral nenhuma para ficar sugerindo livro para os outros. Daí pensamos em chamar pessoas que são referência, das quais a gente já tinha ido a palestra ou lido um livro que admirasse, alguém que tivesse bagagem cultural e literária – explica Tomás.

O primeiro curador escolhido foi o filósofo Mário Sergio Cortella, que indicou O Físico, de Noah Gordon. O livro foi entregue em agosto de 2014 para 65 pessoas – a meta era alcançar 70.

O ano de estreia do projeto, entretanto, foi marcado por dificuldades.

– Muitos dos associados eram do nosso círculo de amigos e familiares. A gente até atingiu algumas pessoas fora do Estado pela divulgação no Facebook. Nos primeiros meses era bem concentrado em Porto Alegre, tanto que a gente mesmo montava os kits e os entregava. Demoramos cinco meses para atingir os cem associados – afirma Gustavo.

Foi nessa época que Álvaro e Pablo se juntaram ao trio.

– Vimos que não conseguiríamos dar conta de toda a operação. Estávamos sendo consumidos por montar os kits, entregá-los, emitir nota fiscal, cobrar cliente, ler os livros, escrever a revista, falar com os curadores, decidir o mimo – lembra Gustavo, que resume o principal problema a ser enfrentado naquele momento: – Não conseguíamos vender.

A frustração só não foi maior porque o retorno dos assinantes era bastante positivo, com poucos cancelamentos e muitas mensagens de incentivo. Isso acabou dando fôlego para que persistissem, colocando como meta chegar aos 400 sócios até novembro de 2015. Caso falhassem, desistiriam do negócio.

Entre as ações adotadas, os cinco sócios distribuíram em bares da Capital bolachas de chope com caricaturas de escritores que tiveram problemas com bebida. Conseguiram com a iniciativa apenas duas novas assinaturas.

– Foi um fracasso retumbante – diverte-se Álvaro.

Ao mesmo tempo, apostaram em assessoria de imprensa, o que resultou em reportagens em vários veículos do Brasil, e em parcerias com booktubers, como são conhecidos os youtubers de livros, que divulgavam em seus canais o funcionamento da TAG.

O plano deu certo. Em julho daquele ano, após conquistarem 500 associados, contrataram o primeiro estagiário, até hoje funcionário da empresa. Em dezembro, já contavam com 2 mil assinantes. Um ano depois, no final de 2016, já estavam com 12,5 mil.

Cada vez mais forte, o grupo continuou ousando, e, neste mês, para celebrar os três anos de vida da empresa, vai entregar aos associados um livro de contos inéditos. A meta do grupo agora é chegar ao número de 100 mil assinantes.

– A gente se permitiu sonhar alto. Não só acreditamos na TAG, mas também na literatura de um modo geral – afirma Arthur.

 

TAG – Experiências Literárias
O que faz: envia um livro surpresa todo mês, revista sobre a obra e um mimo
Preço da assinatura (mensal): R$ 69,90 (R$ 34,95, para o primeiro mês, até 9/7)
Funcionários: 50
Sede: Porto Alegre
Início das atividades: julho de 2014
Investimento inicial: R$ 10 mil
Faturamento mensal: cerca de R$ 1,2 milhão (junho de 2017)
Site: taglivros.com

CONHEÇA OUTROS CLUBES DE LEITURA

Turista Literário
Focado em jovens adultos, envia todo mês uma caixa surpresa com um livro e itens criativos.

Pacote de Textos
Criado pelo escritor cearense Rafael Caneca, envia um livro mensalmente para o assinante.

Beco Club
Beco Club é um clube do livro que surgiu a partir do blog Beco Literário.

Garimpo
Oferece experiências literárias de acordo com o perfil do leitor. São seis clubes diferentes em um.

Expresso Letrinhas
Serviço da Companhia das Letras que envia mensalmente dois títulos infantis para a casa do associado.

Leiturinha
Envia kits com livros infantis, dicas pedagógicas e surpresas para estimular o hábito da leitura.

Professor primário no Brasil ganha pouco, mas universitário tem ‘salário de país nórdico’, diz OCDE

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Professores de ensino fundamental e médio no Brasil ganham menos da metade da média nos países da OCDE

Professores de ensino fundamental e médio no Brasil ganham menos da metade da média nos países da OCDE

 

Daniela Fernandes, na BBC Brasil

Os professores brasileiros do ensino público fundamental e médio ganham menos da metade da média salarial dos professores de países analisados em um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgado nesta quinta-feira.

O estudo, Um Olhar sobre a Educação 2016, também revela que os salários de professores universitários de instituições federais públicas no Brasil – entre US$ 40 mil e cerca de US$ 76 mil por ano (de R$ 133,7 mil a R$ 254 mil) – “são bem mais elevados do que em muitos países da OCDE e comparáveis aos dos países nórdicos, como Finlândia, Noruega e Suécia”.

Segundo o documento – um compêndio de estatísticas que analisa a situação da educação nos 35 países membros da organização e em 11 economias parceiras, como Brasil, China, Índia e Colômbia -, os professores no Brasil têm o mesmo salário mínimo legal da categoria, US$ 12,3 mil por ano (cerca de R$ 41 mil), independentemente de lecionarem no ensino fundamental ou médio.

Eles ganham menos da metade da média nos países da OCDE e abaixo de professores de outros países latino-americanos como Chile, Colômbia e México.

E além disso, são os que trabalham o maior número de semanas por ano entre todos os países do estudo que disponibilizaram dados a respeito.

“Os professores brasileiros, nesses níveis de ensino, lecionam, em média, 42 semanas por ano. A média na OCDE é de 40 semanas no pré-primário e de 37 semanas nos cursos técnicos.”

Investimento e diploma

O documento revela também que o Brasil gasta mais com o ensino universitário, por aluno, do que vários países, mas o número de diplomados no país – apenas 14% da população na faixa etária de 25 a 64 anos -, está abaixo de todos os países da América Latina analisados pelo estudo (Colômbia, Costa Rica, Chile, Argentina e México).

Os gastos públicos para cada estudante do ensino superior no Brasil somam US$ 13,5 mil por ano (cerca de R$ 45 mil), calculados com base na paridade do poder de compra (PPC) para efeito de comparação internacional.

Esse valor é bem acima da média de US$ 3,8 mil por ano (R$ 12,7 mil) investida por aluno do fundamental e médio no Brasil, segundo o estudo.

Os gastos públicos para cada estudante do terceiro grau no Brasil somam US$ 13,5 mil por ano (cerca de R$ 45 mil)

Os gastos públicos para cada estudante do terceiro grau no Brasil somam US$ 13,5 mil por ano (cerca de R$ 45 mil)

 

Os gastos com cada estudante universitário brasileiro, de US$ 13,5 mil por ano, estão próximos à média dos países da OCDE, que é de US$ 15,8 mil.

Já as despesas por aluno do fundamental e médio no Brasil, abaixo de US$ 4 mil, representam menos da metade da média da OCDE, de US$ 8,5 mil no fundamental e de US$ 9,8 mil no médio.

Apesar dos gastos elevados por aluno do superior, o Brasil tem uma das menores taxas de diplomados nesse nível de ensino entre os países analisados no estudo: apenas 14% entre pessoas de 25 a 64 anos. Na Costa Rica, o índice é de 23% e, na Colômbia, de 22%.

“A geração mais jovem no Brasil, entre 25 e 34 anos, mostra alguns sinais de progressos: 16% concluíram o ensino superior, enquanto para as pessoas com 55 a 64 anos a taxa é de 11%”, afirma a OCDE.

O Brasil está à frente apenas da China e da Indonésia em relação ao percentual da população que cursou o ensino superior.

Diferença salarial

O estudo também revela que a média de salários de pessoas com nível universitário no Brasil chega a ser duas vezes maior que a de trabalhadores com ensino secundário.

Essa diferença salarial no Brasil é uma das maiores apontadas no estudo da OCDE. A organização atribui isso, em parte, ao baixo número de pessoas que cursam universidades no Brasil.

Na Dinamarca, na Suécia e na Noruega, os trabalhadores com ensino superior ganham 25% a mais do que os com nível secundário.

No caso de quem concluiu mestrados ou doutorados no Brasil, a renda pode ser acima de quatro vezes maior que a de trabalhadores que têm apenas o segundo grau.

Como o número de estudantes universitários no Brasil é comparativamente baixo, diz a OCDE, os gastos públicos, embora mais elevados por aluno, representam apenas uma pequena fatia, pouco acima de um quinto, do total dos investimentos em educação.

Aumento dos investimentos

Os professores dos cursos primário e secundário no Brasil ganham menos e são os que trabalham o maior número de semanas por ano entre todos os países do estudo

Os professores dos cursos primário e secundário no Brasil ganham menos e são os que trabalham o maior número de semanas por ano entre todos os países do estudo

 

A organização destaca que uma ampla fatia dos investimentos públicos no Brasil é destinada à educação. Em 2013 (último dado disponível), o custeio do ensino primário ao superior no país representou 16,1% do total dos gastos do governo, “bem acima”, diz a organização, da média da OCDE, de 11,3%.

“Embora os investimentos públicos tenham aumentado em todos os níveis de ensino entre 2005 e 2013 no Brasil, o crescimento foi consideravelmente acentuado no primário e secundário, de 1.1 ponto percentual, passando para 4,3% do PIB”, afirma o estudo.

No ensino superior, o aumento dos investimentos foi mais “modesto”, passando de 0,7% para 0,9% do PIB.

Segundo a organização, os gastos públicos com educação no Brasil representaram 5,5% do PIB em 2013 contra 4,1% do PIB em 2005, se situando na média dos países da OCDE e acima de países como o Chile e o México.

Ideias de universitários amazonenses são premiadas nos Estados Unidos

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Como prêmio, os melhores alunos das Instituições de Ensino Superior (IES) receberam uma viagem à Califórnia (EUA). Foto: Divulgação

Como prêmio, os melhores alunos das Instituições de Ensino Superior (IES) receberam uma viagem à Califórnia (EUA). Foto: Divulgação

 

Do Amazonas, três estudantes foram selecionados com projetos e alcançaram as premiações máximas

Publicado no A Crítica

Imagine um “uber” do ensino onde quem precisa aprender consegue se conectar com quem pode ensinar – um monitor, um universitário ou mesmo um professor. Ou ainda um quiz educacional on line para crianças e adolescentes cuja pontuação permite descontos e benefícios em lojas parceiras. E se para ajudar a diminuir o analfabetismo houvesse um aplicativo que, de forma lúdica, oferecesse um aprendizado ilustrado e interativo de livros? Sim, estas ideias existem e foram premiadas em uma competição de empreendedorismo na Califórnia (EUA). Todas são de universitários amazonenses.

Os projetos citados ficaram em primeiro, segundo e terceiro lugares, respectivamente, em um universo de seis ideias relacionadas à Educação, que foram desenvolvidas no Vale do Silício por alunos do programa Academic Awards, do grupo DeVry. Ao todo, 29 estudantes do Brasil participaram de uma imersão, durante uma semana, em empresas como Google e Intel, além de assistirem palestras e realizarem projetos de empreendedorismo no setor educacional. Do Amazonas, três estudantes foram selecionados, cujos projetos alcançaram as premiações máximas.

“Minha ideia foi facilitar a vida de quem quer aprender e ampliar a o universo de explicações que ele pode ter”, explica o recém-graduado em psicologia, Cássio Peres Fernandes, um dos autores da ideia do ‘uber educacional’. A plataforma seria vantajosa ainda para quem precisa melhorar sua didática ou simplesmente para quem quiser contribuir com o conhecimento que possui.

Projeto baseado na sociedade colaborativa

O projeto baseia-se no conceito de sociedade colaborativa cuja participação é cada vez mais valiosa dentro de um currículo no atual mercado de trabalho. “A ideia veio da contribuição de cada um do grupo que observou como poderíamos fazer com que os alunos buscassem aprendessem mais tendo um benefício prático em troca”, afirmou Igor Cansanção Pereira, recém-formado em direito e um dos idealizadores do quiz interativo.

Experiência permitiu ampliar horizontes

Para a estudante de direito da Faculdade DeVry/ Martha Falcão, Letícia Sant’Anna Xavier, 22, a experiência permitiu ampliar horizontes e convergir ideias. “Para desenvolver nosso projeto, fomos buscar qual era o maior problema educacional do Brasil e chegamos até o analfabetismo e o analfabetismo funcional, cujas maiores causas são a dificuldade de acesso aos livros e a falta de bibliotecas nas escolas”, explicou. “Foi aí que criamos esse aplicativo que funciona como uma biblioteca interativa”, afirmou.

Premiação resultou na viagem

A viagem, ocorrida no final do mês de julho, é oferecida como prêmio aos melhores alunos das Instituições de Ensino Superior (IES) que integram o grupo DeVry e que possuem engajamento em projetos sociais de voluntariado. O primeiro e segundo lugares foram convidados a dar continuidade ao projeto por meio do Centro de Empreendedorismo e Internacionalização da DeVry Brasil (CEI), um núcleo de experimentação formado por um conjunto de células empreendedoras, geridas pelos próprios alunos das IES que compõem o grupo. O objetivo é propor ações de consultoria e empreendedorismo para empresas, organizações governamentais e não-governamentais, além de desenvolver uma mentalidade crítica e empreendedora nos alunos.

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