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‘Hosana na Sarjeta’ não é bem uma história de amor, mas uma odisseia mundana

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Romance de Marcelo Mirisola sinaliza uma urgência pelo outro, a despeito do humor insano de algumas passagens

André de Leones, no Estadão

O romance Hosana na Sarjeta, de Marcelo Mirisola, não é bem uma história de amor, claro, mas uma odisseia mundana que, embora não tenha uma Ítaca à vista, traz de volta aquele inconfundível narrador-protagonista e, com ele, um par de “sereias”. Dada a intensidade com que ele se envolve com essas duas mulheres, e tendo em vista os desdobramentos disso, custa a crer que o amor não seja algo como uma experiência de quase morte. Não por acaso, depois de sobreviver a si mesmo outra vez, o narrador afirma: “A vida fisgada pela morte. Resumidamente, esse é o enredo das histórias de amor”.

Por outro lado, ou nem tanto, também estamos diante de um longo processo de aceitação da irredimível solidão, uma solidão “crua e óbvia”, do “nosso erro em estado de urgência”, que constitui esse personagem.

Ele conhece Paula na porta da boate Kilt (que não existe mais), no centro de São Paulo, e a confunde com uma prostituta. Ela desfaz o mal-entendido (para, irônica e inadvertidamente, reinstaurá-lo, já no terço final do romance) e, a despeito da breguice (leitora de esoterismos e bobagens variadas) e do “chapéu de poodle que ela aninhava em cima da carapinha oxigenada”, ele se apaixona por ela, alguém que “absorvia os despojos e as esperanças de quem as solicitava, engolia tudo”.

Mirisola está passando algumas semanas em Buenos Aires

Mirisola está passando algumas semanas em Buenos Aires

Ariela, por sua vez, era “o oposto vertiginoso de Paulinha”, um “compêndio de todos os meus pontos fracos”, uma “Lolita avançada tecnologicamente” que “carregava um potencial de destruição visível, mas sabia escamotear o mal atrás de uma cumplicidade que não oferecia perigo iminente”, mãe, casada com um “príncipe” de quem, eventualmente, apanhava e com quem morava, “de favor”, na casa da sogra, em Guarulhos.

Lançado entre uma e outra, mas jamais inteiramente com uma ou outra, Marcelo, o protagonista, enxergará a própria mentira na mentira alheia (e vice-versa, num espelhamento infinito), constituindo, no fim e a muito custo, uma verdade desoladora. Tal verdade não diz respeito propriamente à impossibilidade do amor (até porque “lá no fundo de sua escrotice, o animal agoniza, gosta e ama de verdade”), mas, antes, à aceitação daquela solidão em toda a sua crueza.

Hosana na Sarjeta coloca-se entre os melhores trabalhos de Mirisola (O Herói Devolvido, Bangalô) e sinaliza um interesse real ou, melhor dizendo, uma urgência pelo outro, sobretudo quando ele não está mais lá. Nesse sentido, a despeito do humor insano de algumas passagens, é também um romance desarvorador.

HOSANA NA SARJETA
Autor: Marcelo Mirisola
Editora: 34 (144 págs., R$ 32)

Após Nobel, Patrick Modiano terá seis livros publicados no Brasil em 5 meses

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Raquel Cozer, na Folha de S.Paulo

O livro infantil “Filomena Firmeza” (Cosac Naify), único título de Patrick Modiano disponível nas livrarias do Brasil quando o francês foi anunciado vencedor do Prêmio Nobel, no último dia 9, terá a companhia de outros seis títulos do autor nos próximos cinco meses.

Três deles —”Remissão da Pena”, “Flores da Ruína” e “Primavera do Cão”— foram adquiridos só um dia depois do anúncio na Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, pela Record, que os planeja para o início do ano que vem.

Os outros, que já tinham sido editados no Brasil nos anos 1980 e 1990, mas estavam fora de catálogo —”Uma Rua de Roma”, “Ronda da Noite” e “Dora Bruder”—, foram renegociados dias atrás pela Rocco. Como a editora já tem as traduções, pretende recolocá-los nas livrarias até dezembro.

Nos últimos dez anos, quatro vencedores do Nobel de Literatura não tinham nenhum livro disponível no Brasil na ocasião do prêmio, e três tinham apenas um. Sete, incluindo Modiano, tiveram mais obras publicadas antes, mas que estavam indisponíveis no momento do prêmio.

Filomena Firmeza Patrick Modiano

Filomena Firmeza
Patrick Modiano

Quase todos passaram a ter obras editadas com mais frequência nos anos seguintes.

A urgência das editoras em contratar e editar as obras é sintomática de duas questões envolvendo edições de vencedores de prêmios Nobel de Literatura no país.

A primeira é que boa parte dos autores cuja obra se destaca o suficiente para merecer a mais importante honraria mundial de literatura costuma ganhar pouca atenção por aqui até ser premiada –e nesse ponto o nosso mercado não difere muito de outros, como o norte-americano.

Nos EUA, mercado avesso a traduções, é comum que até pessoas mais “lidas e cosmopolitas” desconheçam o vencedor quando ele não escreve em língua inglesa.

No Brasil, mercado mais aberto a obras estrangeiras, os entraves incluem o investimento em títulos de pouco retorno financeiro e a baixa disponibilidade de bons tradutores de idiomas mais difíceis.

Dois dos prêmios Nobel dos últimos dez anos continuam sem edições no Brasil graças a esses fatores. São eles: o britânico Harold Pinter (por escrever teatro, gênero pouco editado) e o sueco Tomas Tranströmer (por escrever poesia num idioma pouco traduzido aqui).

“Muitas vezes a língua é uma barreira, como aconteceu com o Mo Yan”, explica Otavio Marques da Costa, publisher da Companhia das Letras, sobre o chinês agraciado com o Nobel de 2012.

De Mo Yan, a editora lançará os romances “Rãs” e “Sorgo Vermelho” na tradução de Amilton Reis, que em 2013 verteu outra obra do autor, “Mudança”, para a Cosac Naify.

O escritor francês Patrick Modiano concede entrevista após ser premiado neste ano / Charles Platiau/Reuters

O escritor francês Patrick Modiano concede entrevista após ser premiado neste ano / Charles Platiau/Reuters

IMPACTO IMEDIATO

A segunda questão envolvendo a urgência das editoras em publicar livros dos premiados é que, em termos estritamente comerciais, o fato de um autor se tornar um Nobel só tem impacto se os livros estiverem disponíveis no momento ou logo após o anúncio do prêmio.

Um exemplo desse impacto imediato pôde ser verificado no final de 2013, quando a edição de “Vida Querida”, de Alice Munro, que estava quase pronta no momento em que a canadense venceu o Nobel, chegou às livrarias apenas três semanas depois pela Companhia das Letras.

Enquanto o livro anterior “Felicidade Demais” (2010) tinha vendido menos de mil exemplares, “Vida Querida” conseguiu atingir 7.000 cópias vendidas em um ano.

“O Nobel tem relevância expressiva na venda quando a obra está publicada. Não fez diferença quando publicamos ‘Pawana’ [de Le Clézio, que saiu no ano seguinte à premiação do francês, em 2008], mas agora, com o Modiano, fez. As livrarias procuram o livro intensamente”, diz Isabel Lopes Coelho, diretora do núcleo infanto-juvenil da Cosac Naify.

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