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Laurentino Gomes conclui a trilogia de livros de história do Brasil de maior sucesso no país

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Cassiano Elek Machado, na Folha de S.Paulo

Como boa parte das fábulas, esta envolve reis e rainhas, príncipes garbosos a cavalo e belas donzelas.

Mas, como nenhuma destas histórias encantadas, esta tem como protagonista um experiente jornalista de Maringá (PR), que se vê tocado pelo condão mágico num estande de um entupido pavilhão do Riocentro, no Rio.

Foi nesse cenário que Laurentino Gomes, 57, viveu seu conto de fada. “Entrei numa livraria na Bienal do Rio e o meu editor disse espantado: o ‘1808’ está vendendo que nem pãozinho quente de manhã na padaria. Observe só.”

Gomes plantou os olhos numa pilha enorme de seus livros, no centro da loja. “Uma atrás da outra as pessoas pegavam um exemplar e iam para o caixa.”

O escritor Laurentino Gomes, autor de '1808' e '1822', sorri para a chegada de '1889' / Eduardo Anizelli/Folhapress

O escritor Laurentino Gomes, autor de ‘1808’ e ‘1822’, sorri para a chegada de ‘1889’ / Eduardo Anizelli/Folhapress

De pé, naquela livraria Saraiva da Bienal, ele decidiu que largaria seu emprego e se dedicaria a este filão.

A história aconteceu há seis anos –e desde então muitos Maracanãs passaram pelos caixas de todo o país. Os dois primeiros livros de Gomes, “1808” e “1822” (lançado em 2010), superaram recentemente os 1,5 milhão de exemplares vendidos.

Nesta segunda-feira, o jornalista paranaense conclui sua trilogia, que já se configura como o maior fenômeno editorial de livros de história do Brasil. Neste dia ele faz, em São Paulo, o primeiro dos 33 lançamentos do seu novo livro já marcados até o Natal deste ano.

“1889”, lançamento da Globo Livros, trata de temas pouco afeitos ao “hit parade” das livrarias: fim da monarquia, abolição da escravatura e começo da República.

Mas a tiragem inicial não faz feio nem para obras de vampiros, romances soft-porns ou histórias de bruxos. Serão 200 mil exemplares, o dobro da primeira fornada de “Harry Potter 3” e mais de seis vezes o número de largada de outra obra bem-sucedida recente sobre a história do Brasil, a biografia “Getúlio”, de Lira Neto.

Mais do que o tema perfeito, Laurentino Gomes parece ter encontrado o tom adequado para abordá-lo.

“Obras como ‘1808’ não trazem nada de novo. Mas Laurentino achou uma maneira muito atraente de apresentar esses episódios da história para o grande público”, opina um dos principais historiadores do país, José Murilo de Carvalho.

“Consolido a bibliografia sobre estes episódios históricos numa visão jornalística, para o leitor não especializado no tema”, corrobora Laurentino Gomes.

No terceiro livro, ele lança mão mais uma vez (e garante que será a última) de uma de suas armas secretas: a fórmula de usar como título um ano emblemático da história do país, que aparece em letras enormes na capa, e um subtítulo longo e bem-humorado que resume os principais fatos a serem descritos.

O subtítulo de “1889” é: “Como um Imperador Cansado, um Marechal Vaidoso e um Professor Injustiçado Contribuíram para o Fim da Monarquia e a Proclamação da República no Brasil”.

Os personagens (por ordem de aparição) são d. Pedro 2º, marechal Deodoro da Fonseca e Benjamin Constant. Tal como nos best-sellers anteriores, Gomes colore a trajetória deles com um farto repertório de histórias pitorescas (veja abaixo).

Algumas são puros gracejos, mas outras revelam características centrais da história política nacional.

Numa carta a um sobrinho, escrita um ano antes que ele liderasse a derrubada do império, o grande herói republicano, o alagoano Deodoro da Fonseca, dizia o seguinte: “República no Brasil é coisa impossível, porque será uma verdadeira desgraça. O único sustentáculo do nosso Brasil é a monarquia”.

MUSA DA REPÚBLICA

Gomes diz que mesmo quando liderou o grupo de militares que depuseram o governo de d. Pedro 2º, no 15 de novembro de 1889, Deodoro, primeiro presidente do país, ainda não tinha clareza se era a favor da República.

“Como outros episódios decisivos de nossa história, este envolveu uma mulher”, brinca o autor.

Anos antes, Deodoro havia se encantado pela donzela gaúcha Maria Adelaide Andrade Neves, a baronesa do Triunfo. Mas ela preferiu os atributos de Gaspar Silveira Martins, político que virou inimigo do militar.

“Deodoro só optou pela República na madrugada do dia 16, quando ele soube que d. Pedro havia chamado Silveira Martins para substituir o ministro recém-deposto”, diz.

Como sublinha enfaticamente em seu livro, a República brasileira foi anunciada com status de um regime “provisório”.

E o primeiro governo, também provisório, foi decidido no Instituto dos Meninos Cegos, instituição no Rio que era presidida pelo professor Benjamin Constant.

“As manifestações recentes no país estão ligadas a isso. Quando foi criada a República não se discutiu as regras do jogo republicano. Isso só começou a ser feito há um par de décadas”, afirma Gomes.

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A TRILOGIA

‘1808 – Como uma Rainha Louca, um Príncipe Medroso e uma Corte Corrupta Enganaram Napoleão e Mudaram a História de Portugal e do Brasil’ (2007)
Editora Planeta
Prêmios Jabuti de Livro Reportagem e Jabuti de Livro do Ano 2008; Melhor Ensaio de 2008 pela Academia Brasileira de Letras
Vendas mais de 1 milhão de exemplares

1822 – Como um Homem Sábio, uma Princesa Triste e um Escocês Louco por Dinheiro Ajudaram D. Pedro a Criar o Brasil – um País Que Tinha Tudo para Dar Errado’ (2010)
Editora Nova Fronteira
Prêmios Jabuti de Livro do Ano 2011
Vendas 527 mil exemplares

1889 – Como um Imperador Cansado, um Marechal Vaidoso e um Professor Injustiçado Contribuíram para o Fim da Monarquia e a Proclamação da República no Brasil’
Editora Globo Livros
Quanto R$ 44,90 (416 págs.) e R$ 26,91 (e-book)
Lançamento segunda, às 18h30, na Livraria Cultura (av. Paulista, 2073, tel. 0/xx/11/3170-4033)

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A HISTÓRIA DO BRASIL PELO MÉTODO CURIOSO
Alguns episódios pitorescos descritos em “1889”

CAVALO DADO
O primeiro beneficiário da República do Brasil foi um cavalo. Usado pelo marechal Deodoro da Fonseca na madrugada da proclamação da República, o animal foi depois “aposentado do serviço militar por serviços relevantes prestados ao novo regime”

ORA, POMBAS
Banido do país que governou por 49 anos, três meses e 22 dias, d. Pedro 2º estava em alto mar quando viu a última porção de terra nacional. Ele escreveu num papel “Saudades do Brasil”, atado às pernas de um pombo-correio. A ave voou alguns metros e caiu em seguida no mar

NASCE UMA ESTRELA
Quando o Império caiu, o neto de d. Pedro 2º, príncipe d. Augusto, estava em um navio, em uma viagem de volta ao mundo. O comandante recebeu ordens de que a bandeira deveria ser alterada. Como não havia ainda o novo desenho, o telegrama mandava que sobre a Coroa imperial fosse costurada uma estrela vermelha. E assim foi

Autora de ‘Crepúsculo’ quer escrever sobre universo da Terra-Média de J.R.R.Tolkien

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Meyer

Meyer

Publicado por Tolkien Brasil

Em entrevista para o site Variety, tentando promover seu novo filme, “Austeland”, a escritora Stephepie Meyer, mais conhecida por ser a criadora da sequência de livros sobre vampiros “Crepúsculo”, afirmou que já está cansada de trabalhar nessas histórias e quer partir para algo diferente.

Ela diz que “Eu me afasto [de ‘Crepúsculo’] a cada dia”, disse Meyer. “Já superei e muito. Para mim, não é um lugar feliz para estar.” Mas a entrevista continua:”O que eu poderia fazer é preparar três parágrafos no meu blog dizendo quais personagens morreram”.

Até aí tudo bem. Ela é escritora dessa série e tem seu compromisso com ela. Mas a problemática vem na frase seguinte a essa na entrevista: “Estou interessada em passar um tempo em outros universos, como a Terra-Média”. Fazendo referência ao universo criado pelo professor J.R.R.Tolkien.

Talvez Meyer tenha observado o constante sucesso dos livros de Tolkien, que atravessa gerações. Ou tenha observado o atual sucesso dos livros da série “Crônicas de Gelo e Fogo” de G.R.R.Martin e o constante uso do nome de Tolkien para comparações como meio de Marketing para promoção dessa nova série. Ou tenha observado o sucesso decorrente dos filmes de Peter Jackson, em especial atualmente o Hobbit.

Evidente que ela não poderia escrever algo sobre a Terra-Média sem antes pedir a autorização da família Tolkien, que detêm os direitos autorais dos livros do professor. Mas tendo em vista a forma conservadora com que o Christopher Tolkien atua em relação a isso, dificilmente seria aprovado algum tipo de história ambientada nesse mesmo Universo.

Então ela teria que partir para a criação de um universo próprio, em um estilo próprio, ainda que utilizasse elementos comuns e algumas influências de Tolkien.

Mas qual o problema dela escrever algo ambientado em um mundo de fantasia medieval? Qual o problema uma escritora de sucesso mundial tentar expandir seus escritos em uma nova forma?

Bem, há realmente um problema aí… Especialmente porque essa escritora é conhecida por não ser uma boa escritora. Segue palavras de Stephen King, grande escritor da atualidade: “Stephenie Meyer can’t write worth a darn. She’s not very good” (Stephenie Meyer não consegue escrever algo que tenha valor. Ela não é muito boa).

É sabido que Tolkien não apreciava histórias com conteúdo simples, sem pretensão a uma realidade mais avançada ou alternativa. Tanto que declarou não gostar dos escritos de C.S. Lewis, em particular Crônicas de Nárnia. Podemos imaginar o pensamento do professor a respeito de tantas séries de livros, cujo único propósito parece ser o sucesso e posterior adaptação em séries e filmes…

Há cinco anos fizeram uma enquete ‘ interessante’ no yahoo: “Stephanie Meyer é a próxima J.R.R.Tolkien?” Será mais uma infindável rotina de comparações de livros, tendo Tolkien como parâmetro, apenas para que os novos livros utilizem seu nome para aumentar o seu sucesso?…

Questão de Terapia: por que os livros “problemas” são a nova onda do momento?

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Clariana Touza, no Literatortura

Hoje vemos um crescimento gritante da temática terapia na televisão e no cinema. Seria este o começo de uma nova febre no nível vampiros fofos e 50 tons? Sessão de terapia, Go on, O lado bom da vida e Um método perigoso entre tantos outros não me deixam negar o fato. Ah, mas a temática sempre fez parte do imaginário comum. Fato. Porém, não como centro de toda a narrativa; a temática sempre foi presente, completando a dramaturgia, mas não como a base desencadeadora de todo o resto. Livros, filmes e séries sobre o tema estão caindo no gosto popular de forma nunca vista antes e isso nos faz pensar em dois pontos: por quê agora, e como estas dramaturgias vêm sendo trabalhadas de forma a agradar tanto o público?

Sessão de terapia, série exibida pelo GNT, confirma sua segunda temporada para 7 de outubro. Dirigida por Selton Mello é baseada em outra série: a israelense BeTipul, criada pelo psicanalista Hagai Levi e já teve mais de trinta adaptações feitas, entre elas para os EUA (In Treatment, também exibida aqui no Brasil pela HBO), Canadá, Argentina e Holanda.

Go on, estrelada pelo ex-Friend Matthew Perry, na qual um famoso locutor e comentarista esportivo é obrigado, pelo chefe, a participar de sessões de terapia em grupo, para superar a morte da esposa, já tem sua segunda temporada encomendada pela NBC.

O livro O lado bom da vida, trazido ao cinema pelas mãos do diretor David O. Russell no início desse ano, relata a vida do ex-interno de um sanatório que tenta retomar o lado bom da sua existência e até reconquistar a ex-esposa. Tanto o livro quanto o filme agradaram público e crítica.

Já Um método perigoso, de 2012, rendeu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor ator coadjuvante a Viggo Mortensen, que interpreta o pai da psicanálise, Sigmund Freud. A narrativa fílmica traz como a relação entre Carl Jung e Sigmund Freud possibilitou o surgimento da psicanálise e o relacionamento de ambos com a intensa paciente Sabina Spielren.

Bom, pensemos: o que todos eles têm em comum? Além da própria questão terapêutica, todos eles trazem personagens complexos e bem-construídos, as narrativas são elaboradas e inteligentes, além do fato de todos eles trazerem excelentes representações do cotidiano, o que possibilita uma aproximação com o público. As pessoas não assistem a esse tipo de série e filme porque querem ver as estrelas, ainda que isso desperte um interesse (confesse que sempre queremos ver o resultado de Selton Mello como diretor). As pessoas veem suas questões sendo tratadas ali de forma coesa e comum, não são mais problemas distantes de pessoas fictícias. O diálogo com o público, diferente do que acontece com as ondas “50 tons” e vampiros, dita não mais o interesse pelo irreal e impossível, mas os dilemas comuns do nosso dia-a-dia. Todas as dramaturgias aqui citadas nos mostram de forma complexa, ainda que numa linguagem simples, as incertezas, medos e questões de qualquer ser humano e isso sempre foi uma questão que afligiu o homem. Como lidarmos com nossos problemas? É normal se sentir assim? Preciso de análise ou é exagero meu? Ainda que não tragam uma resposta, essas dramaturgias nos permitem tirar certas conclusões e tocam num assunto tão íntimo de forma séria. Aqui, cada problema e aflição importa e o espectador se vê pertencente a um meio-comum, não é mais um peixe fora d’água. O gosto parte por uma identificação pessoal e cada episódio, cena e página do livro funciona como um abraço e com um “eu entendo”, como uma grande sessão de terapia, e cabe a nós, espectadores, saber dialogar com o que a dramaturgia nos traz. Interessante, né? Vai ver chegou a hora de querermos falar sobre nós mesmos ainda que de forma distante, de queremos ver nosso reflexo na telinha ou na telona.

Ryan King (Mattew Perry) e seu grupo de terapia

Ryan King (Mattew Perry) e seu grupo de terapia

O porquê dessa temática justo hoje é um drama um pouco mais profundo (brincadeirinha à parte!). A palavra hoje é entendida devido a um processo que vem se desencadeando e amadurecendo há três anos. Atualmente, passamos por um paradoxo cultural. O padrão de vida está lá em cima e as pessoas parecem mais tristes e deprimidas do que nunca. Por quê? Eis a questão: estamos nos afastando muito das pessoas por causa das tecnologias, levamos uma vida online mais intensa do que a real e aí, ficamos sozinhos e tristes. Além disso, somos tão cobrados a fornecer resultados nesse brainstorm global que quando não o fazemos, ficamos frustrados. Mas sejamos sinceros: às vezes não parece que falta tempo para algo? Por outro lado quando paramos, ficamos perdidos e como dizem “cabeça vazia é instrumento do Diabo”. Cabeça cheia também. O que fazermos com tanta informação se temos que dar resultados rápidos e de forma coesa? Bom, esse grande paradoxo social deixa as pessoas deprimidas e o número de pessoas com algum transtorno psicológico cresceu muito nos últimos anos e você certamente conhece alguém que toma remédio indicado pelo psiquiatra. Esse grupo de pessoas aflitas encontrou algum vestígio de luz nessas dramaturgias e as grandes empresas televisivas e fílmicas, que sabem muito bem vender, viram ali sua mina de ouro. A aflição da sociedade geral dá margem para as grandes empresas venderem seus produtos e ainda agrada ao público. Essa reciprocidade tem dado certo, os dois lados estão ganhando de alguma forma: nós espectadores encontramos um conforto quando enxergamos nossos problemas postos ali e eles enchem seus cofrinhos, todos felizes.

Só espero que as próximas séries, filmes e livros que tragam a questão terapia mantenham o nível criativo e bem-feito. Não queremos mais uma febre que caia no ridículo e no comercialmente gritante e artificial. Uma temática tão boa não merece sofrer um processo de depressão (irresistíveis esses trocadilhos) no nível Crepúsculo.

Ficção feita por fãs vira negócio para a Amazon

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Ronaldo Lemos, na Folha de S.Paulo

Todo mundo já sabe. Os livros da trilogia “Cinquenta Tons” foram escritos como fanfiction da série “Crepúsculo”. A autora E. L. James redigiu a trama na internet a partir do universo criado pela escritora Stephenie Meyer, tratando dos recatados vampiros Bella e Edward.

Com o sucesso na rede, James mudou o nome dos personagens e a série vendeu 70 milhões de livros, aumentando em 75% o lucro da editora Random House em 2012.

Esse acidente vira agora modelo de negócios oficial para a Amazon. Na semana passada a empresa anunciou o serviço Kindle Worlds, que transforma a fanfiction em atividade profissional.

Funciona assim: a Amazon está adquirindo direitos não apenas sobre livros em si, mas também sobre seus universos ficcionais, como as séries “Gossip Girl” e “The Vampire Diaries”.

Quem entrar no Kindle Worlds pode escrever tramas baseadas nesses universos, mudando o destino dos personagens e criando novas possibilidades.

Se a narrativa vender, a Amazon paga 35% do valor para o fã que fez o texto e um valor não revelado para o autor original do universo. É uma aposta que enxerga a criação literária como processo coletivo.

O problema é a pasteurização da fanfiction. As diretrizes da Amazon vedam conteúdo “ofensivo” ou “pornográfico” e a mistura de universos ficcionais diferentes.

Considerando que essa é a essência da fanfiction (como demonstra “Cinquenta Tons”), autores mais ousados vão permanecer nos fóruns underground. Em todo caso, a Amazon dá mais uma sacudida no mercado literário.

Autora da saga ‘Crepúsculo’ fala sobre sua segunda série de livros

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Versão para o cinema de ‘A hospedeira’ estreia no Brasil na próxima sexta-feira

A escritora Stephenie Meyer, autora da milionária saga “Crepúsculo” Divulgação

A escritora Stephenie Meyer, autora da milionária saga “Crepúsculo” Divulgação

Eduardo Graça, em O Globo

Maquiagem forte, cabelo jogado para o lado, Stephenie Meyer se senta na beira do sofá da suíte do hotel de luxo como se estivesse pronta para sair do local a qualquer momento. Pudera. Em “A hospedeira”, que chega aos cinemas brasileiros na próxima sexta-feira, sob a direção de Andrew Niccol (“Gattaca — experiência genética” e “O show de Truman”), ficam em segundo plano a protagonista Saoirse Ronan, indicada ao Oscar por “Desejo e reparação”, e o veterano William Hurt, que vive o tio da mocinha na adaptação do livro de ficção científica centrado em uma invasão alienígena à Terra num futuro próximo. Todos querem entender a cabeça da dona de casa mórmon do Arizona, mãe de três filhos, uma das maiores best-sellers dos últimos oito anos. Sua série “Crepúsculo” vendeu mais de 100 milhões de exemplares, embalada pelo romance adolescente de Bella Swan e Edward Cullen, vividos na tela grande por Kirsten Stewart e Robert Pattinson. Combinados, os cinco filmes da franquia fizeram, entre 2008 e o ano passado, US$ 3,3 bilhões, um dos maiores sucessos da produção contemporânea de Hollywood. “A hospedeira”, por sua vez, ficou 26 semanas na lista dos mais vendidos do “New York Times”. No Brasil, a saga dos vampiros, lançada pela editora Intrínseca, vendeu quase 6 milhões. E “A hospedeira”, da mesma editora, já passa dos 418 mil livros vendidos.

— Confesso que tinha uma fantasia sobre minha vida de escritora. Pensava em trabalhar de casa, mais reclusa. Qual o quê. Hoje, constantemente me pego nervosa quando autografo meus livros, por conta das meninas que não param de chorar. Ainda não sei bem o que fazer, é estranhíssimo — conta, em entrevista ao GLOBO, a escritora de 39 anos, que abandonou o projeto de se tornar advogada ao receber um adiantamento milionário para repovoar a ficção contemporânea com vampiros e lobisomens.

Meyer diz que “Crepúsculo” nasceu de um sonho. Ela acordou com a imagem límpida de uma adolescente conversando com um vampiro sobre as dificuldades do relacionamento amoroso dos dois. “A hospedeira”, por sua vez, deve sua existência a um tique da escritora: contar histórias, em alto e bom som, para si mesma, quando dirige sozinha pelas autoestradas americanas.

— Estava muito cansada, acompanhando a edição do primeiro filme da franquia “Crepúsculo”, quando peguei a estrada do Arizona para Utah. Fui refletindo sobre o fenômeno em torno de personagens que originalmente representavam, para mim, uma saída da minha rotina. Mas, naquele momento, eles estavam se tornando algo muito maior, cheios de pressão. Decidi então criar novamente algo só para mim, sem expectativas de fãs ou editores — diz.

Temas morais e discurso político

Meyer jura que “A hospedeira”, como “Crepúsculo”, não foi pensado originalmente para chegar ao público. A primeira série só foi descoberta por editores por conta do entusiasmo de uma de suas irmãs, que a convenceu a procurar alguém para publicá-la. Já o manuscrito final de “A hospedeira” só foi parar nas mãos da editora quando Meyer percebeu que os personagens, mais uma vez, “pareciam ter vida própria”.

Mórmon devota, que não bebe nem fuma e proclama repetidamente sua “criação cristã”, Meyer surgiu para o grande público como a inventora de Bella, uma adolescente apaixonada por um vampiro de pele alvíssima, tão boa-pinta quanto interessado em manter a castidade da amada. Críticos logo detectaram mensagens caras aos conservadores sociais americanos, como a promoção da abstinência sexual entre jovens e a condenação do aborto. Num dos momentos mais dramáticos da saga, Bella decide ter a filha que gerou com Edward, mesmo com os riscos de um parto para lá de delicado.

— Não pensei em temas morais ou em embutir um discurso político nos meus livros. Honestamente, a reação foi uma surpresa para mim. Eu me inspirei em minha história para imaginar a situação de Bella, que se recusa a considerar a opção do aborto. Os médicos me disseram que eu estava perdendo meu primeiro filho. O pior não aconteceu, ele tem hoje 15 anos, mas aquelas foram as semanas mais difíceis da minha vida. Essa experiência deixou uma marca permanente em mim. E minha história acabou vazando para o personagem. Era Bella quem dizia: eu quero ter esta criança. Simples assim, sem mensagem política — se defende.

Não ajuda o fato de a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias ser uma das principais financiadoras da oposição a movimentos de cunho liberal, como a luta pelos direitos civis dos gays nos EUA. Meyer, por sua vez, diz que percebeu na crítica especializada uma tentativa de estereotipá-la por conta das especificidades de sua fé.

— Por muito tempo, fui apresentada como a escritora mórmon mãe de três crianças. Mas você não vê o Jon Stewart (comediante político, apresentador do “The Daily Show”, na TV americana) ser chamado de pai judeu de duas crianças. E eu não tenho a menor ideia de que religião J.K. Rowling professa. Aliás, ninguém parece ligar para isso, não é? — pergunta.

Foi justamente ao estabelecer uma comparação entre a autora de “Harry Potter” e a de “Crepúsculo” que o escritor Stephen King, em entrevista ao jornal “USA Today”, ofereceu uma das mais notórias críticas a Meyer, então festejada por parte da indústria editorial como uma das responsáveis pela reinvenção da literatura de fantasia adolescente nos EUA. O autor de “O iluminado” afirmou que, ao contrário de Rowling, “Meyer não é apta a escrever”.

Como o brasileiro Paulo Coelho — “tenho ‘O Alquimista’ separado em casa e só não comecei a ler porque a pessoa que me indicou foi a mesma que me deu uma dica furada”, diz —, Meyer recebeu uma saraivada de críticas negativas, intensificada após a explosão de “Crepúsculo”.

— O engraçado é que, quando lancei o primeiro livro, fui recebida com algum carinho. Depois que fui parar na lista dos mais vendidos, os mesmos críticos passaram a me destruir. Os mesmos! Percebi uma determinação maior de se encontrar falhas nos meus livros. Tudo bem, concordo com eles, há mesmo vários pecadilhos na minha produção literária. Tenho consciência de que sou uma contadora de histórias muito melhor do que escritora. Mas tenho melhorado — diz.

Continuação a caminho

“A hospedeira”, diz Meyer, que tem formação em Língua Inglesa, é seu livro mais bem-acabado, sua história favorita. Nele, a jovem Melanie é obrigada a conviver com Wanda, a forma alienígena que toma seu corpo. As duas vivem em estado de permanente tensão, com Melanie buscando proteger o que restou de sua família e Wanda inicialmente interessada em assegurar o domínio do planeta por seres mais avançados. No filme, Saoirse Ronan resolve bem a difícil tarefa de viver duas personagens dividindo um mesmo invólucro.
Mas não é possível deixar de perceber que os vilões intelectualizados criados por Meyer são também ecologicamente corretos e contrários à violência. No clímax da história, uma personagem se vê na iminência de, como Cristo, se sacrificar para salvar a Humanidade.

— Quando escrevi, não pensei nisso. Mas foi inevitável pensar que o amor da personagem era maior do que o desejo de se manter viva. Se a história de Bella era sobre um primeiro amor que a consumia, a de Melanie e Wanda é uma narrativa de sobrevivência, centrada na defesa da raça humana, diz Meyer, no momento escrevendo, “em um ritmo bem lento”, a continuação de “A hospedeira”.

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