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Exposição apresenta fotos de escritores feitas por Daniel Mordzinski em hotéis

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Entre os retratados na mostra que tem entrada gratuita estão Vargas Llosa, Borges, Saramago e Verissimo; veja galeria de imagens

Maria Fernanda Rodrigues, no Estadão

Mario Vargas Llosa deitado fazendo anotações. Agustina Bessa-Luís passando batom no banheiro. José Eduardo Agualusa sentado na cama, com a mala pronta. Salman Rushdie dentro da banheira, de roupa e comendo frutas. Essas cenas foram presenciadas, ou montadas, pelo fotógrafo Daniel Mordzinski ao longo de sua trajetória profissional – recheada de encontros com célebres escritores.

Uma exposição em São Paulo vai apresentar cerca de 50 fotografias tiradas por ele exclusivamente em hotéis. Quartos de Escrita – Retrato de Escritores em Hotel, que já passou pelo festival Fliaraxá em 2014, fica em cartaz no Sesc Bom Retiro até o dia 8 de março. A curadoria é de Afonso Borges, idealizador do Sempre um Papo – série de encontros realizados com escritores em Belo Horizonte e também em São Paulo.

EXPOSIÇÃO QUARTOS DE ESCRITA – RETRATO DE ESCRITORES EM HOTEL

Daniel Mordzinski/Divulgação > O escritor Mario Vargas Llosa, colaborador do Estado, foi agraciado com o Nobel em 2010

Daniel Mordzinski/Divulgação
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O escritor Mario Vargas Llosa, colaborador do Estado, foi agraciado com o Nobel em 2010

Daniel Mordzinski/Divulgação > O escritor argentino Jorge Luis Borges; livros escritos por ele com o amigo Adolfo Bioy Casares acabam de chegar às livrarias brasileiras

Daniel Mordzinski/Divulgação
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O escritor argentino Jorge Luis Borges; livros escritos por ele com o amigo Adolfo Bioy Casares acabam de chegar às livrarias brasileiras

Daniel Mordzinski/Divulgação > Prêmio Nobel de 1998, José Saramago deixou um romance inacabado ao morrer, em 2010; Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas foi publicado no Brasil em 2014

Daniel Mordzinski/Divulgação
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Prêmio Nobel de 1998, José Saramago deixou um romance inacabado ao morrer, em 2010; Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas foi publicado no Brasil em 2014

Daniel Mordzinski/Divulgação > Cronista do Caderno 2, o escritor Luis Fernando Verissimo é um dos brasileiros retratados por Daniel Mordzinski

Daniel Mordzinski/Divulgação
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Cronista do Caderno 2, o escritor Luis Fernando Verissimo é um dos brasileiros retratados por Daniel Mordzinski

Daniel Mordzinski/Divulgação > O angolano José Eduardo Agualusa é autor de Nação Crioula, entre outras obras; A Rainha Ginga, seu mais recente trabalho, será lançado no Brasil em abril

Daniel Mordzinski/Divulgação
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O angolano José Eduardo Agualusa é autor de Nação Crioula, entre outras obras; A Rainha Ginga, seu mais recente trabalho, será lançado no Brasil em abril

Daniel Mordzinski/Divulgação > Salman Rushdie, autor de Versos Satânicos, que lhe rendeu uma ameaça de morte e anos de reclusão

Daniel Mordzinski/Divulgação
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Salman Rushdie, autor de Versos Satânicos, que lhe rendeu uma ameaça de morte e anos de reclusão

Daniel Mordzinski/Divulgação > Um dos principais nomes da literatura portuguesa, Agustina Bessa-Luís é tema de outra exposição em São Paulo; até março, sua vida e obra estão em destaque no Museu da Língua Portuguesa

Daniel Mordzinski/Divulgação
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Um dos principais nomes da literatura portuguesa, Agustina Bessa-Luís é tema de outra exposição em São Paulo; até março, sua vida e obra estão em destaque no Museu da Língua Portuguesa

Daniel Mordzinski/Divulgação > A reclusa escritora Herta Müller, romena homenageada com o Nobel em 2009

Daniel Mordzinski/Divulgação
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A reclusa escritora Herta Müller, romena homenageada com o Nobel em 2009

Há retratos, ainda, de Eric Hobsbawm, Nadine Gordimer, Umberto Eco, Jorge Luis Borges, José Saramago, Gabriel García Márquez, Eduardo Galeano, Herta Müller e de brasileiros, como Luis Fernando Verissimo, cronista do Caderno 2, e João Paulo Cuenca, entre outros autores.

Daniel Mordzinski, também conhecido como o fotógrafo dos escritores, nasceu em Buenos Aires, mas vive em Paris há quase quatro décadas. Suas fotos já foram publicadas em veículos como Le Monde e El País e foram tema de exposição na Itália, Espanha, Portugal, Alemanha, Inglaterra, Grécia, França, México, Colômbia, Argentina e outros países.

Exposição – Quartos de Escrita – Retrato de Escritores em Hotel
Sesc Bom Retiro ( Alameda Nothmann, 185, tel. 3332- 3600)
Até 8 de março
De terça a sexta, das 9h às 20h30; sábados e domingos, a partir das 10h
Grátis

Autores como Verissimo e Martha Medeiros lançam obras inéditas só em braille

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Diego Santos, no Literatortura

Mais de 95% das obras literárias lançadas no Brasil não possuem versão em braile.

O que é um problema, pois os mais de 6,5 brasileiros que tem deficiência visual acabam perdendo a oportunidade de desfrutar de muitas leituras sensacionais.

Pensando nisso, alguns grandes autores lançaram diversas obras inéditas, disponibilizando-as apenas em braile.

Tais obras são “Meu Livro Favorito”, de Luis Fernando Verissimo; “O Rio”, de Antônio Prata; “Horizontes”, de Carlos de Brito e Mello “O Pescoço”, de Eliane Brum; “A Ponte, o Vale, o Rio”, de Estevão Azevedo; “O Que Eu Procuro”, de Fabrício Carpinejar; “Daniel e seu pai”, de Ivan Martins; “interrupções” de Tati Bernardi; “Lendo sem enxergar”, de Lya Luft e “Carta para Alguém sem nome”, de Martha Medeiros.

Mas é claro que, a intenção do projeto é que todos tenham acesso a boas obras, então, a Fundação Dorina Nowill disponibilizou as obras Audiolivros que podem ser baixados no site Palavras Invisíveis.

Aproveite para baixar as obras e compartilhar a notícia com seus amigos que tenham alguma deficiência visual.

Luis Fernando Verissimo fala da literatura como um mistério a ser solucionado

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Luis Fernando Verissimo em sua casa em Porto Alegre: a literatura como um jogo entre autor e leitor Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS

Luis Fernando Verissimo em sua casa em Porto Alegre: a literatura como um jogo entre autor e leitor Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS

“O romance é sempre um desvendar de uma história que vai sendo revelada”, diz o autor.

Carlos André Moreira no Zero Hora

Um dos cronistas mais lidos do Brasil, Luis Fernando Verissimo demorou a se engajar em uma carreira como ficcionista. Seu primeiro romance foi publicado em 1987, quando ele já era um dos homens de imprensa mais populares do país. Desde então, já publicou outros seis romances e alguns contos. O cerne de sua produção, ao longo de uma carreira que completou quatro décadas em 2013, contudo, está na crônica de imprensa, na qual hoje é reverenciado como mestre. Em nova entrevista da série Obra Completa, Verissimo recebeu Zero Hora em sua casa para falar dos caminhos de sua literatura – abertos ao acaso.

Zero Hora – Seus romances são ancorados no universo literário: são pastiches de gênero, homenagens a autores como Conrad ou John Le Carré…É a sua forma de lidar com o velho drama de que “tudo já foi escrito”?
Luis Fernando Verissimo
– De certa forma, sim. Eu acho que todo romance, de certo modo, é uma narrativa policial, quer dizer, envolve uma investigação, um mistério que se resolve ou não no fim. A única diferença é que o policial de fato sempre tem um morto, tem um corpo, um crime, e o romance não policial não tem, necessariamente, mas é uma investigação, sempre, um desvendar de algo. Nesse sentido, todos os livros são romances policiais, alguns com morto, outros sem. O romance é sempre um desvendar de uma história que vai sendo revelada.

ZH – O fato de seus personagens serem escritores permite que o senhor aborde um universo que conhece em profundidade?
Verissimo –
Sim, é um meio de falar sobre esse universo do livro, da escrita, um mundo que eu conheço, e no qual me criei, digamos assim. É, fazendo uma retrospectiva  rápida, todos os romances são sobre esse universo.

ZH – O senhor é enquadrado, em estudos críticos, como um autor pós-moderno, pelo uso de artifícios como a metalinguagem, o elenco de referências, a paródia da tradição, o humor. O senhor concorda com essa definição ou se sente confortável com ela?
Verissimo
– Eu nunca entendi muito bem o que é o pós-moderno. Acho que ninguém ainda me definiu muito bem o que é isso. Mas, no sentido cronológico, pelo fato de os romances serem relativamente recentes, dos anos 1980 para cá, acho que não me incomoda. Eu mesmo não me definiria assim, mas não vejo problema.

ZH – O Jardim do Diabo, sua primeira incursão no romance, vem de uma encomenda, mas apenas em 1987, quando o senhor já tinha uma reputação consolidada como cronista. Por que levou tanto tempo?
Verissimo
– Eu não tinha nenhuma ideia de ser escritor ou jornalista, não foi uma decisão minha, apenas as coisas foram acontecendo. Também não tinha nenhum romance que eu precisasse escrever, não havia nenhum livro que eu tivesse dentro de mim e precisasse botar para fora. Então, a MPM Propaganda me encomendou um livro inédito, e este fato me deu a vontade de ver se conseguiria escrever um romance. Daí O Jardim do Diabo, que é um livro que hoje eu faria completamente diferente.

ZH – O que o senhor mudaria?
Verissimo
– Não sei, acho que eu o faria mais bem acabado, como foi o romance seguinte, O Clube dos Anjos, que foi mais pensado, mais estruturado. O Jardim do Diabo foi se revelando aos poucos, eu nem sabia muito bem no que ia dar aquela história.

ZH – O protagonista de O Jardim do Diabo é um escritor de histórias sempre protagonizadas pelo mesmo personagem. Essa repetição é um comentário sobre o que é o próprio ofício da escrita?
Verissimo –
Sim. O escritor acaba se repetindo sempre, tem seus temas preferidos, que já estão predefinidos, e não consegue escapar deles.

ZH – O Clube dos Anjos retrata uma confraria de gourmets que, mesmo sabendo que podem estar sendo envenenados, não recusam o prazer intenso e marcante de comer seu prato preferido. É uma sátira ao hedonista contemporâneo?
Verissimo
– Na verdade, o que é descrito no livro é um suicídio coletivo daquele grupo. Eles são todos fracassados, não têm mais nada o que esperar da vida e começam a se matar. Não conscientemente, mas por meio do prazer que eles têm com a comida. É um pouco um comentário sobre a vida da elite, a insensibilidade da elite, no caso a brasileira, mas que pode ser qualquer outra. E tem uma certa alusão no romance a essa constante na história dos grupos masculinos, que rejeitam as mulheres, uma coisa que é meio homossexual, embora não seja homoerótica. Todos os convivas do clube têm o nome dos apóstolos de Jesus e têm uma agressividade, um certo horror à mulher. Isso também estava na ideia do livro.

ZH – Em Borges e os Orangotangos Eternos o senhor tece uma história de crime com um escritor que de fato existiu. Mas o narrador é um homem ligado à Livraria do Globo. É um aceno à sua própria história familiar, uma vez que seu pai foi diretor e tradutor da casa por muitos anos?
Verissimo
– Sim. E aliás esse é um exemplo de uso de uma experiência minha, porque fiz algumas traduções para a (revista) Mistério Magazine, que existia na época, com contos policiais. Nunca, que eu me lembre, traduzi o (Jorge Luis) Borges, mas fiz o narrador do livro ser também tradutor da revista para a Globo.

ZH – É um livro que transgride a fórmula do policial, uma vez que o narrador, Vogelstein, repete muitas vezes o seu relato e a cada nova versão vai mudando detalhes. Até que a intervenção final do próprio Borges dá a entender que o narrador anterior estava mentindo.
Verissimo
– É, porque, na verdade, o livro é sobre um narrador inconfiável, que é uma tradição da literatura policial, o narrador que engana o leitor, e no fim se descobre que ele estava mentindo o tempo todo, que ele é o criminoso, embora narre o crime. O fato de ser autor do livro é uma forma de ele ser um cúmplice do crime. O autor é sempre cúmplice do culpado. Esse livro especificamente é sobre essa categoria do policial, o narrador inconfiável, como o próprio (Edgar Allan) Poe fez em algumas de suas histórias, ou o Roger Ackroyd, da Agatha Christie.

ZH – A própria intervenção do Borges ao fim é inconfiável.
Verissimo –
Sim. E o Borges anuncia a própria morte no último capítulo, supostamente escrito por ele. A história se passa em 1985,e ele diz que vai morrer dali a um ano em Genebra. Então, tem esse lado fantástico que espera que o leitor tenha a mesma ideia do escritor: a de que tudo ali é um jogo, é falso, como é todo romance. Todo romance é uma invenção.

ZH – Outro narrador inconfiável em sua obra é o Polaco de O Opositor, que conta para o protagonista uma aventura em que os detalhes estão sempre mudando.
Verissimo
– Sim. O Opositor é uma versão do Coração das Trevas do Conrad, é uma alusão literária bem explícita. Mas a ideia dessa série era que cada autor escrevesse sobre um dedo da mão, e eu escolhi o polegar por ser o “dedão civilizatório”, aquele que marcou um salto na evolução da humanidade. A ideia inicial era o dedo, e aí cheguei ao Conrad.

ZH – Seu romance A Décima Segunda Noite reescreve Noite de Reis, de Shakespeare, em um salão de beleza em Paris, mas narrado pelo ponto de vista de um papagaio. Essa escolha pretende aumentar o efeito cômico ao dar ao animal a voz para julgar as bizarrices do homem?
Verissimo –
O ponto de partida desse meu enfoque da Décima Segunda Noite foi aquele filme Shakespeare Apaixonado, que mostra o Shakespeare enamorado por uma personagem dele sem poder consumar a relação de amor. Nesse meu caso, o narrador se apaixona por uma mulher, e como são de espécies diferentes, não conseguem nenhum tipo de aproximação. Eu escolhi, então, o papagaio porque é um exemplo de outra espécie que tem uma forma de inteligência, que sabe falar, e tudo mais. E esse papagaio também diria um pouco sobre como é a relação entre a Europa e o novo mundo. O papagaio é uma coisa extremamente exótica, mas o meu, na França, já perdeu todo seu exotismo e ficou com as penas cinzentas. Mas ele é, então, pintado pelo seu dono, para parecer um papagaio colorido. É um papagaio europeu que tem de passar por ave exótica.

ZH – A personagem que serve como estopim da trama de Os Espiões é a autora de um livro que assume o pseudônimo de Ariadne. A Ariadne grega conduz Teseu para fora do labirinto. A deste livro puxa os personagens para dentro de um?
Verissimo –
A ideia desse livro é falar um pouco dessa compulsão, às vezes fatal, que a pessoa tem de escrever, seja um romance, um livrinho de poesia, em um país em que não há tradição literária. No caso desse livro e no caso da Ariadne, ela cria um labirinto ao contrário, ao redor do qual as pessoas circulam sem encontrar a entrada daquele mistério, o inverso do labirinto tradicional, no qual as pessoas não encontram a saída.

ZH – A sua faceta mais conhecida é a de cronista. Mesmo presente há mais de 150 anos na imprensa, ainda se discute o papel da crônica na literatura e sua validade como gênero. Como o senhor vê essa discussão?
Verissimo –
Essa é a velha questão, o que é crônica, exatamente, quando é que deixa de ser crônica e passa a ser um pequeno conto, por exemplo. Mas acho que o cronista não deve se preocupar com isso. Ele tem aquele espaço que tem que preencher, que pode preencher teoricamente com o que ele quiser, inclusive com uma ficção, e ele não deve se preocupar muito com o que está falando. É o gênero crônica, e ali cabe o que o autor quiser. A gente se aproveita dessa indefinição como forma de liberdade. Acho que um fenômeno engraçado, que talvez só tenha no Brasil, é a quantidade de romancistas que acabam fazendo crônica. Não que voltem para crônica, eles fazem nome como romancistas e fazem crônicas. É um contato que o escritor tem com o público, semanal, que não é tão comum lá fora, não me ocorre nenhum outro exemplo, na França, nos Estados Unidos, na Inglaterra, que exista esse contato com o público de um romancista, não pela ficção, mas pela crônica do jornal, como João Ubaldo Ribeiro ou Milton Hatoum.

ZH – Esse fenômeno que o senhor aponta não pode ser resultado também de um  sistema literário que não permite a um autor viver de seus livros?
Verissimo
– Exatamente, ninguém vive só da literatura. Antigamente as únicas exceções eram o Jorge Amado e o meu pai. Hoje, acho que as exceções continuam sendo poucas. Quem vive exclusivamente de seus livros? O Paulo Coelho, obviamente, talvez o Rubem Fonseca…

ZH – Alguns o incluiriam nessa lista.
Verissimo
– É, mas eu não viveria só de direitos autorais. O uísque das crianças depende ainda do jornal (risos).

ZH – O crítico Massaud Moisés escreveu que a crônica, compilada em livro, perdia mais do que a poesia, porque no jornal ela se beneficiava do imprevisto. O senhor, um autor de livros de crônicas que ainda circulam depois de décadas, como dribla essa natureza perecível do material?
Verissimo
– Obviamente, a crônica tem que ter um apelo universal que não tem no dia a dia. Não está ligada a nenhum fato do cotidiano, nem pode estar muito ligada para não perder o sentido. Geralmente, as minhas crônicas que vão para o livro são aquelas que poderiam ser entendidas em qualquer tempo, daqui a 20, 30 anos, que teriam o mesmo valor de quando foram escritas, não foram modificadas pela realidade nem se tornaram obsoletas  ou incompreensíveis. E mesmo tentando fazer uma coisa mais literária, mais profunda, que tenha sentido em qualquer tempo, temos de manter a noção de que aquilo ali que está no jornal é perecível, no dia seguinte vai forrar a gaiola do papagaio ou já está no lixo. É uma maneira de não se dar muita importância e de aceitar a brevidade da relevância daquilo.

ZH – O senhor comentou que hoje muitos autores estão escrevendo crônicas em jornal, mas o tipo que se prolifera na imprensa é a opinativa, analítica. Aquele estilo que o Rubem Braga levou à maestria, o da linguagem acima muitas vezes do tema, hoje tem menos cultores. O Brasil ficou menos lírico?
Verissimo
– Acho que sim. Aquela época, vamos dizer clássica, da crônica brasileira, com Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Antônio Maria, Fernando Sabino, tinha essa coisa lírica, como o Rubem Braga fazendo um texto inteiro sobre um ponto que ele vê no mar e que é um homem nadando. Havia um lirismo que se perdeu. Dentre todos esses nomes mais clássicos da crônica brasileira, eu gostava mais do Antônio Maria. Ele era justamente o que aproveitava mais a liberdade que a crônica dava, fazia humor, fazia uma coisa mais lírica, algo mais profundo. Ele inventava (mais…)

O amor segundo Luis Fernando Verissimo

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Série do GNT e livro reúnem histórias do autor que vão da conquista à separação

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Maurício Meireles em O Globo

PORTO ALEGRE – Até que, para quem está casado há 50 anos com a primeira mulher que namorou pra valer — “A verdadeira Lúcia Verissimo”, nas palavras do marido —, Luis Fernando Verissimo tem experiência com o amor. Um tema recorrente em seus textos, que ele escreve há mais de 40 anos, afinal, são os casais se apaixonando, convivendo ou se desfazendo. Agora, parte dessas histórias vai virar livro e série de TV. O GNT lança, dia 8 de janeiro, às 22h30m, “Amor Verissimo”, dirigida por Arthur Fontes, com 13 episódios inspirados em textos do autor que tratam de relacionamentos. No dia 15 do mesmo mês, a editora Objetiva, inspirada pela série, lança um livro homônimo, com 50 textos. São histórias sobre sedução, traições, obsessões, sexo, taras, corações partidos — e até os apelidinhos íntimos (e ridículos) dos casais.

Colunista do GLOBO e vencedor do último Prêmio Jabuti (com “Diálogos impossíveis”), Verissimo abriu sua casa, em Porto Alegre, anteontem, para uma sessão dos primeiros episódios da série. E falou do novo livro e de suas experiências com o amor. Quer dizer, falar não é bem o forte do autor gaúcho. Dono de uma timidez já conhecida, suas frases são marcadas por um falar manso e silêncios compridos. Dá até para fazer um estudo matemático de sua timidez: a entrevista propriamente dita teve 50 perguntas, que Verissimo respondeu em 40 minutos — menos de um minuto por resposta. Isso sem contar os silêncios.

Amores que não dão certo

Tudo bem, a vida de Luis Fernando Verissimo é um livro entreaberto, mas de onde vem toda essa experiência com o amor, depois de 50 anos casado?

— Até chamaram a minha atenção para o fato de eu escrever muito sobre casais se desfazendo. Não tem nada de autobiográfico — diz Verissimo, 77 anos, lembrando que hoje não circula muito por aí, mas que, jovem, teve “bastante experiência” com o amor.

A primeira foi aos 7 anos. Ele se apaixonou por uma garota da escola em que estudava, em Los Angeles, onde a família morava. Para se aproximar da jovem paixão, o escritor roubou uma pulseira de casa (“Nada de valor”). A história está contada na crônica “A pulseira”, incluída no livro.

— Mas eu entreguei a pulseira e saí correndo! Nunca nos falamos, ela não entendeu nada. Minha vida no crime foi por amor — diz o autor, que sentiu medo de, na hora da declaração, se confundir com o inglês e acabar dizendo “My love is name and I Luis you.”

Coisa séria mesmo só com Lúcia Verissimo (a verdadeira, vale lembrar), com quem começou num namoro de escritório, outro tema clássico de suas histórias. Eles trabalhavam juntos e estavam “ficando”. Um dia, o escritor venceu a timidez, comprou uma aliança e deu um ultimato: ela tinha cinco minutos para decidir. Verissimo ainda lembra o dia: 22 de novembro de 1963 — dia do assassinato de Kennedy. Lúcia disse sim.

— Acho que eu disse algumas palavras. Algumas frases, pelo menos, tenho certeza. Estávamos mais ou menos namorando. Estamos juntos há 50 anos. Pelo visto o casamento vai dar certo — brinca Verissimo.

A diferença entre os dois também é marcante. Ela é falante, extrovertida; ele, o caladão de sempre. Mas Verissimo se defende, e diz que não fala muito porque Lúcia não deixa espaço.

— Estou há 50 anos esperando uma brecha para falar — ri.

Verissimo se esquiva na hora de falar de sua vida amorosa antes de Lúcia. No livro “Conversas sobre o tempo”, uma entrevista que ele e Zuenir Ventura deram a Arthur Dapieve, em 2010, ele menciona a história de uma húngara que…

— Eu contei a história da húngara?! Não me lembrava. Ela era masoquista — diz o tímido, meio espantado consigo mesmo.

Pois é, contou. Aos 23 anos, Verissimo foi com a família à Europa, pela primeira vez, onde passaram quatro meses. Um dia, começou a conversar com uma húngara em um café, rolou um clima e os dois foram para o quarto. O caso não deu certo porque a húngara queria apanhar.

Também há a história de quando Verissimo era um Odair José gaúcho. Ele se esquiva da pergunta — e Lúcia, que está presente, prefere sair da sala (“Eu não me meto nesse assunto”) —, mas confirma que costumava se apaixonar por garotas de programa na juventude.

— Tinha um pouco daquilo de “Quero tirar você dessa vida”. Mas também não fui muito disso — afirma Verissimo, lembrando que, embora fosse romântico, não teve nenhum grande amor naquela época.

O escritor gaúcho assistiu a “Amor Verissimo” com um sorriso no rosto. Achou que o diretor, Arthur Fontes, conseguiu explorar o humor de uma forma parecida com o Porta dos Fundos, do qual é fã.

— Achei que o programa ficou um pouco na linha do que eles fazem. Essa interpretação mais sutil, com aqueles silêncios. Gosto dessa coisa de nem sempre buscar a gargalhada. Às vezes um sorriso basta — defende Verissimo.

O diretor do programa afirma que buscou textos do autor nos quais “coisas estranhas” acontecem. Como “História de verão — Uma leve brisa”, em que um dos personagens apresenta a nova namorada aos amigos, que ficam boquiabertos com a beleza, simpatia e inteligência da mulher, interpretada por Luana Piovani. Não bastasse isso, a tal ainda tem uma brisa “mágica” que sopra nos seus cabelos. “Ela parece um show da Beyoncé”, define um dos personagens.

— Adoro essas histórias com coisas inexplicadas. Costumo chamar essa veia do Verissimo de surrealismo light. Também prefiro dirigir as histórias com mais pausas e silêncios — diz Arthur Fontes.

Sem apelidinhos

Na série “Amor Verissimo”, a narrativa é entrecortada com depoimentos dos personagens e de casais reais, interpretados por atores, como Fernanda Paes Leme, Letícia Colin e Gabriela Duarte, em um sofá. As histórias de amor, roteirizadas a partir de entrevistas, são uma homenagem ao diretor Eduardo Coutinho e a seu “Jogo de cena” (2007).

No livro, a galeria de personagens é ainda maior: Don Juan, a grávida que chora por pena do detergente que não lava mais branco e o Corno Lírico, entre outros. Os apelidinhos dos casais, como “bituquinha” ou “pituxo”, também são uma das marcas dos textos do autor sobre a vida a dois. Mas qual seria o apelido de Verissimo no casamento? Ele jura que não tem.

Trecho retirado da crônica “Sexo, sexo, sexo”, do livro “Amor Verissimo”, que a Objetiva lança no dia 15 de janeiro

“Rudi Mentar, analista de sistemas. ‘Língua na orelha. Decididamente, língua na orelha. O resto é para não iniciados.’

(…)

Flora Medicinal, motorista. ‘Gostava muito mais do método antigo de reprodução humana. Lembra como era? Tiravam uma costela do homem, por cesariana, sem anestesia, e faziam outra pessoa. A mulher ficava só na vida mansa, não era nem com ela. Depois mudou tudo e hoje é a mulher que sofre para dar cria.’

(…)

Mara Zul, nutricionista e vidente: ‘Usar sexo só para reprodução é como só sair com o carro para levar na oficina’

(…)

Manuela Bacal, bibliotecária. ‘Todo mundo conhece o sadismo, que é o sexo feito à maneira do Marquês de Sade, e o masoquismo, que é o sexo como gostava o Barão de Masoc, mas pouca gente sabe que existem outras taras sexuais ligadas à literatura. Por exemplo: o Jorge Luís Borgismo, quando o homem só chega ao orgasmo sendo açoitado por uma estudante de linguística dentro de um labirinto. O Ernest Hemingwayismo, que é quando o homem só se satisfaz transando com uma mulher e atirando num leão, ou vice-versa, ao mesmo tempo.’”

Maurício Meireles viajou a convite do GNT

‘Diálogos impossíveis’, de Verissimo, vence o Jabuti de livro de ficção

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‘As duas guerras de Vlado Herzog: da perseguição nazista na Europa à morte sob tortura no Brasil’, de Audálio Dantas, foi escolhido o livro do ano de não ficção
Vencedores foram anunciados em cerimônia realizada na noite desta quinta-feira na Sala São Paulo

O escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo / Neco Varella

O escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo / Neco Varella

Marcia Abos em O Globo

SÃO PAULO — Em cerimônia realizada na noite desta quarta-feira na Sala São Paulo, foram anunciados os vencedores da 55ª edição do prêmio Jabuti, a mais antiga e conhecida premiação de literatura do Brasil. Sagrou-se como livro do ano de ficção “Diálogos impossíveis” (Objetiva), de Luis Fernando Veríssimo. “As duas guerras de Vlado Herzog: da perseguição nazista na Europa à morte sob tortura no Brasil” (Civilização Brasileira), de Audálio Dantas, foi escolhido o livro do ano de não ficção. Os dois vencedores recebem R$ 35 mil cada um, além de R$ 3.500 pela vitória nas categorias contos e crônicas e reportagem, respectivamente.

Devido a compromissos na Feira do Livro de Porto Alegre, Luis Fernando Veríssimo não compareceu à premiação em São Paulo. Foi representado por seu editor, Mauro Ventura, e por sua agente literária, Lucia Riff. Para o jornalista Audálio Dantas, a vitória de seu livro deve-se também à luta contra a ditadura militar.

— Ofereço esse livro à memória de Vladimir Herzog. A vitória representa muito para mim, porque fui também personagem dessa história — disse Dantas, que na época do assassinato de Herzog era presidente do sindicato dos jornalistas de São Paulo. — Acompanhei caso por caso. Antes do Vlado foram presos e torturados 11 jornalistas em São Paulo. Foram os dias mais angustiantes da minha vida.

O autor levou um ano e meio para escrever o livro reportagem. Encontrou dificuldades para acessar documentos do Serviço Nacional de Informações (SNI). Para Dantas, o papel da Comissão da Verdade é fundamental para a sociedade tomar conhecimento dos fatos ocorridos durante a ditadura militar.
A mestre de cerimônias do prêmio foi a jornalista Mônica Waldvogel. O curador do prêmio, José Luiz Goldfarb, lembrou em seu discurso a polêmica das biografias, elogiando a quantidade de biografias não autorizadas inscritas no prêmio e pedindo “longa vida ao livro com liberdade”.

Concorrem aos prêmios de livro do ano os primeiros colocados em algumas das 27 categorias do Jabuti. Em livro do ano de ficção, concorrem os vencedores das categorias poesia, romance, contos e crônicas, infantil e juvenil. Em livro do ano de não ficção concorrem os primeiros colocados das categorias arquitetura e urbanismo, artes e fotografia, biografia, ciências exatas, tecnologia e informática, ciências humanas, ciências naturais, ciências da saúde, comunicação, didático e paradidático, direito, economia e administração, negócios, educação, gastronomia, psicologia e psicanálise, reportagem, teoria e crítica literária.

A escolha dos grandes vencedores do Jabuti é feita por meio de votação. Todos os associados à Câmara Brasileira do Livro, a organizadora do prêmio, podem votar. Nesse ano, mais de 2 mil obras publicadas em 2012 foram inscritas para concorrer ao Jabuti.

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