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19 clichês de capas de livros

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Alessandro Martins, no Livros e Afins

Alguns estilos de capas de livros são tão manjados, tão clichês que acabam sendo repetidos indefinida e descaradamente. Basta que surja um novo best-seller para que você veja esse curioso fenômeno acontecer.

É quase uma maneira de as editoras indicarem ao leitor de um gênero ou subgênero de que se trata mais ou menos do mesmo conteúdo daquele outro livro que ficou famoso em determinado estilo.

Em alguns casos, o leitor pode acabar comprando por achar que se trata daquela obra mesmo, enganado. Sei lá.

Esse tipo de comportamento das editoras demonstra o quanto elas valorizam determinada obra pelo que realmente ela é ou pelo quanto ela pode vender para um determinado tipo de público.

Se uma editora resolve investir em um design original, certamente é porque o livro tem, dentro do possível, uma boa dose de originalidade e ela estará oferecento ao seu público uma quantidade mínima de arte e autenticidade. É o caso em que é justo se julgar o livro pela capa.

Vi este post originalmente no BuzzFeed: 19 capas de livro clichês.

1. O assustador “homem-sihueta”

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2. Mulher segurando uma gaiola vazia

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3. O homem ao lado da cerca

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4. Uma mulher com um vestido branco

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5. Mulher usando um longo, com as costas expostas

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6. O carinha com espada

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Quero ser lido em Marte e outros links

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Sérgio Rodrigues, no Todoprosa

1A notícia que começou a circular há alguns dias parece piada, mas não é. Trata-se apenas de um concurso literário do outro mundo: a Nasa, agência espacial americana, vai escolher três haicais num concurso de mensagens poéticas para Marte e gravá-los num DVD a ser levado ao Planeta Vermelho na missão Maven, com lançamento marcado para novembro (via Guardian).

Como se sabe, haicai (também chamado haiku) é um poema de apenas três versos, de origem japonesa. As inscrições são abertas a todos e vão até 1º de julho. Uma votação online apontará os vencedores.

Não, ninguém espera encontrar em Marte um público leitor para os poeminhas. A mensagem é dirigida aos próprios terráqueos, em busca de apoio popular para a contestada causa da exploração espacial. Isso é tornado mais evidente pela promessa de que os nomes de todas as pessoas que entrarem em contato com a missão manifestando esse desejo também serão gravados no tal DVD.

Depois de refletir longamente sobre tudo isso, pensei em enviar minha modesta contribuição:

Nada de arte, Marte:
A Terra é feita de terra
Água e marketing.

Mas desconfio que desclassifiquem textos em português.

*

O cineasta Steven Soderbergh, de “Sexo, mentiras e videotape” e “Traffic”, está publicando desde 28 de abril uma novela policial no Twitter (twitter.com/Bitchuation). Chama-se Glue e tem o apoio de fotografias. O décimo quarto dos capítulos curtinhos acaba de chegar ao fim (via Salon.com).

Se eu estou gostando? Não exatamente. Ficções mais longas servidas como picadinho no Twitter ainda estão naquela fase que se chama de “experimental”, em que os melhores esforços costumam merecer, no máximo, adjetivos como “interessante” ou, pior, “válido”.

O principal desafio é impedir que o limite de 140 caracteres soe arbitrário e gratuito, características que costumam ser hostis à qualidade literária, principalmente quando se trabalha com formas sucintas.

Embutir na própria história um sentido para a forma soluçante é algo que, na minha opinião, ninguém fez melhor até agora do que Jennifer Egan em seu já clássico Blackbox. Talvez Soderbergh concorde, pois usa uma voz narrativa (em segunda pessoa) que tem semelhanças com a da novelinha de Egan.

Será que você devia, como autor de ficção, permitir que seus personagens tenham sonhos? Algumas pessoas acham uma má ideia, mas não há nada que o impeça: as pessoas sonham mesmo, sonham todas as noites, e ter personagens que não sonham de jeito nenhum é como ter personagens que não comem. Mas isso também não é um problema: algumas histórias não tratam de sonhos nem de comida. Ficaríamos chocados se Sherlock Holmes, James Bond ou Miss Marple começassem de repente a contar seus sonhos, embora novas gerações de heróis de thrillers e romances policiais sejam autorizados hoje – eu percebo – a ter mais vida pessoal. O que pode incluir mais sonhos. Mas não muitos mais. Você não vai querer que os sonhos atravanquem o caminho dos cadáveres.

Deixe o personagem sonhar se for preciso, mas tenha em mente que os sonhos dele – diferentemente dos seus próprios – terão um significado atribuído a eles pelo leitor. Seus personagens terão sonhos proféticos, prevendo o futuro? Terão sonhos sem consequência, como na vida real? Usarão os relatos de seus sonhos para irritar ou agredir ou iluminar outros personagens? Muitas variações são possíveis. Como em tantos outros aspectos, não é uma questão de fazer ou deixar de fazer, mas de fazer bem ou fazer mal.

Numa série que vem sendo publicada pelo blog da “New York Review of Books” sobre o papel dos sonhos na ficção, é a vez das considerações práticas e caseiras da escritora canadense Margaret Atwood (em inglês, aqui).

Do outro lado do mundo, brasileira é autorizada a educar os filhos em casa

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Thais Saito, de 31 anos, tem quatro filhos e aderiu ao ‘unschooling’.
Governo da Nova Zelândia autorizou mãe a tirar os mais velhos da escola.

Thais Saito mora na Nova Zelândia com os quatro filhos; Coral no colo, João (cabelo comprido), Melissa (de vermelho) e José (cabelo raspado) (Foto: Arquivo pessoal)

Thais Saito mora na Nova Zelândia com os quatro filhos; Coral no colo, João (cabelo comprido), Melissa (de vermelho) e José (cabelo raspado) (Foto: Arquivo pessoal)

Vanessa Fajardo, no G1

Trinta e um anos, quatro filhos e a missão de garantir que as crianças aprendam sem ir à escola. Thais Saito é brasileira e mora em Auckland, na Nova Zelândia, há dois anos e meio. Há pouco mais de uma semana, ela e o marido Angelo Damião, de 31 anos, também brasileiro, receberam ‘sim’ do governo neozelandês ao pedido de tirar os filhos Melissa e João, de 9 e 8 anos, da escola.

Para ter a ‘licença’, o casal teve de apresentar um projeto bem detalhado de como fariam para ensinar as crianças em casa. Eles listaram quais atividades seriam trabalhadas para desenvolver competências em literatura, ciência e tecnologia, saúde e bem-estar, artes e música, história e geografia, e alfabetização em matemática. Cada área foi discriminada com uma série de ações, como desenhar mapas em geografia, por exemplo, cozinhar e observar a alteração das matérias em ciências, e fazer origami e montar quebra-cabeça para ajudar na alfabetização em matemática.

Os brasileiros vão seguir a mesma burocracia em julho, quando José completar 6 anos e atingir a idade obrigatória, segundo a legislação da Nova Zelândia, para frequentar a escola. De quebra, a caçula Coral, de 1 ano, vai acompanhar os irmãos e aprender as lições da família.

Para educar as crianças, Thais vai se basear no conceito unschooling (desescolarização), cujo objetivo é ensinar por meio da vivência e não através de aulas tradicionais. As habilidades e conhecimentos serão desenvolvidos por meio de visitas a museus, parques, praias, observação da natureza, cozinhando, lendo, fazendo arte, entre outras atividades.

Melissa e João frequentavam uma escola da rede particular da Nova Zelândia até o mês passado. Os irmãos gostavam das aulas, mas Thais e o marido cogitaram a hipótese de mudar as regras da família por ideologia e também em função de José, que está prestes a atingir a idade obrigatória para ir às aulas. Segundo a mãe, o terceiro filho não está pronto para encarar esta etapa da vida, e o casal pretende entrar com o pedido de unschooling assim que ele completar 6 anos. Se for concedido, o garoto nem deve ser matriculado.
“José gosta muito de ficar em casa, de ficar perto da gente. Chegamos para as crianças e falamos: ‘Vamos pedir para o concil (governo de Auckland) para o Zé fazer o unschool. Vocês gostariam de tentar também?’ Foi uma festa!”

Thais Saito é brasileira e tem quatro filhos: Coral (no colo), Melissa (bermuda vermelha), João (camiseta verde) e José (roupa branca, de costas) (Foto: Arquivo pessoal)

Thais Saito é brasileira e tem quatro filhos: Coral (no colo), Melissa (bermuda vermelha), João (camiseta verde) e José (roupa branca, de costas) (Foto: Arquivo pessoal)

Thais diz que matriculou os dois filhos na escola depois dos 5 anos mais por necessidade do que por vontade. “Eu sempre gostei das férias, onde eles estavam comigo. Eu descobri uma frase do John Holt [educador americano defensor do unschooling] que é alguma coisa do tipo ‘não importa quão boa as escolas são, o lar é sempre o melhor lugar para aprender’. Tomamos esta decisão por acreditar que a gente pode fazer melhor. Tem muita gente que diz que o filho pediu para ir para a escola, isso nunca aconteceu aqui em casa”, afirma.

Na primeira vez que eu ouvi alguém falar de unschool, eu assustei. Fiz mil perguntas, nunca imaginei que faria. Hoje, depois de pesquisar bastante e conversar com muita gente, descobri que não é difícil. Só precisa dedicação. E isso, bom, quase toda mãe tem. Qualquer mãe que quisesse conseguiria”
Thais Saito, 31 anos, quatro filhos

O unschooling ainda é novidade na vida de Thais. que tem aproveitado cada momento com as crianças para ensinar e, principalmente, aprender. Para exemplificar, a brasileira conta que há pouco tempo estava na praia com os quatro filhos quando eles viram um bichinho azul na areia. “Minhas crianças acharam que era uma bexiguinha que estava se mexendo por causa do vento. Só que vimos muitas e de vários tamanhos. Perguntamos para uma moça. Ela, também mãe de crianças unschooled, foi para o carro e voltou correndo com uma enciclopédia. Descobrimos que era uma água viva.”

“Eles viram que elas vêm com as ondas, a água vai embora e elas não conseguem ir junto. Descobriram que elas se acumulam mais em alguns lugares, que elas ficam presas em algas, onde queimam e onde não queimam. Depois pesquisamos juntos na internet sobre elas. Nas quatro horas que ficamos na praia, eles aprenderam muito e ninguém precisou falar nada. A gente aprendeu juntos. Eu também não sabia sobre a água viva.”

Thais e Damião pensaram por três meses na possibilidade de aderir ao unschool, levaram mais um mês para finalizar o pedido ao governo e três semanas até receber a resposta. “Ir para a escola não fazia sentido em muitas coisas, por exemplo, na socialização. Meus filhos têm muitos amigos na sala, mas não se relacionam com ninguém que não seja do círculo. Eu não acredito que isso seja socialização.”

Entre as vantagens que ela vê na técnica é o fato de que os filhos vão aprender em português –hoje eles entendem o idioma, mas só falam em inglês–, além de poderem seguir o próprio ritmo e não ter de acompanhar uma sala de aula. “Também vamos poder viajar e fazer as coisas juntos. A regra é que as crianças recebam educação tão boa quanto e na mesma frequência que as escolas do governo. A gente vai fazer muito mais do que isso.”

Thais com as crianças em Northland, na Nova Zelândia: todo passeio é um aprendizado (Foto: Arquivo pessoal)

Thais com as crianças em Northland, na Nova Zelândia: todo passeio é um aprendizado
(Foto: Arquivo pessoal)

Apesar de sentir a aprovação dos filhos, Thais encara a novidade como projeto-piloto. Se no próximo ano as crianças pedirem para voltar à escola, os pais pretendem atender a vontade deles. “Na primeira vez que eu ouvi alguém falar de unschool, eu assustei. Fiz mil perguntas, nunca imaginei que faria. Hoje, depois de pesquisar bastante e conversar com muita gente, descobri que não é difícil. Só precisa dedicação. E isso, bom, quase toda mãe tem. Qualquer mãe que quisesse conseguiria. Eu não pretendo ensinar nada, só quero estimular a vontade deles de aprender”, afirma.

A brasileira diz que estava preparada para ser bombardeada de críticas quando tomou a decisão de tirar os filhos da escola, mas recebeu mais manifestações de apoio do que de desaprovação. “Incrível como tem tanta gente insatisfeita com as escolas no mundo inteiro!” Thais, no entanto, está acostumada a contrariar o sistema e tomar decisões não-tradicionais: depois de encarar uma cesariana para dar à luz a filha primogênita, teve os três filhos seguintes de parto natural, em casa.

Gutto Thomaz, de 19 anos, é mágico (Foto: Arquivo pessoal)

Gutto Thomaz, de 19 anos, é mágico
(Foto: Arquivo pessoal)

‘Unschooling’ no Brasil

No Brasil, o unschooling não é legalizado nem proibido. Sabe-se que algumas famílias o praticam, mas, como não há regra, elas podem ser denunciadas à Justiça e terão de provar ao juiz que não há abandono intelectual. Caberá ao juiz decidir que tais crianças podem ou não ser mantidas fora da escola.

Em São Paulo, a educadora Ana Thomaz atendeu, há 5 anos, ao pedido do filho Gutto para deixar de ir à escola. Na época, ele tinha 14 anos, não gostava das aulas, dos grupos que se formavam, e se sentia desestimulado. A mãe, a princípio, negou a vontade do filho, mas depois topou o desafio de ajudá-lo a descobrir suas paixões em casa.

“Meu filho queria aprender algo de verdade. Fiz um projeto como educadora, tinha uma estratégia de vida, não separava o ensino da vida. Via o que ele estava precisando: amor por aprender. Ele era alfabetizado, mas nunca tinha lido um livro, achava que era uma coisa chata”, diz Ana.

O garoto passou a ter aulas de artes plásticas, música, filosofia, futebol. Tudo em casa. Mas existia uma regra: ele não podia ficar se distraindo, por isso foram cortados televisão, videogame e computador. “Ele topou e foi maravilhoso. Cinco meses depois, ele descobriu a mágica, começou a estudar, hoje virou mágico profissional, faz shows, ganha dinheiro e viaja pelo mundo.”

Meu filho queria aprender algo de verdade. Fiz um projeto como educadora, tinha uma estratégia de vida, não separava o ensino da vida. Via o que ele estava precisando: amor por aprender. Ele era alfabetizado, mas nunca tinha lido um livro, achava que era uma coisa chata”
Ana Thomaz, educadora e adepta do unschooling

Para Ana, dificilmente o filho se tornaria mágico se continuasse na escola. “Não entraria no ócio criativo, não estava desperto nele a vontade de fazer algo. Ele criou a realidade de que a vida era chata, pois tinha de ir para a escola aprender algo que não interessava. A mágica começou a virar seu veículo para pensar, de uma maneira mais ampla, a neurociência da mágica. O fato de, por exemplo, a pessoa não ver algo na frente dela que é óbvio.”

A educadora diz que, quando tomou a decisão de ensinar Gutto em casa, teve como maior crítica a dela mesma. “Pensava: será que não estou arriscando demais? As pessoas falavam: que coragem!” A “briga” de Ana não é com a escola, e sim com uma cultura. “Uma cultura de que é mais importante consumir do que produzir, mais importante ter uma profissão do que ter uma vocação. A escola é ferramenta dessa cultura e quero mudar esse paradigma.”

Ana define o unschooling como a prática de aprender 24 horas por dia, não escolarizar o aprendizado, despertar a curiosidade da criança para que ela entre em contato com algo que lhe interessa de verdade. Deu certo com Gutto.

Filho de operário, ex-servente se torna escritor e se prepara para lançar o sexto livro da carreira, em São João de Meriti

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Publicado por Extra

Na certidão de nascimento, ele é Cláudio Alves, homem nascido e criado em São João de Meriti. Nos livros, ele é Lasana Lukata, escritor de cinco livros. O mais recente deles é “Urdume” — o segundo de sua trilogia —, que foi lançado em janeiro deste ano.

— Este é um nome angolano, significa poeta caçador. Antes de “Urdume”, escrevi “Exercício de Garça”. O que completará a trilogia é o livro “Azul-Ardósia”, que já está pronto e deve ser lançado no dia 21 de agosto — explica o autor.

Além desses livros, ele escreveu “Meu Cartão Vermelho & Outras Crônicas”, “Separação de sílabas” e “Caçada ao Madrastio”.

— Me pai era mestre de obras e já fui seu servente. Ele era analfabeto e queria ver o filho puxando um “balde de palavras” (e não de massa) em outra obra: a literária — destaca, orgulhoso, Lasana Lukata.

Ler devia ser proibido

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A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido. Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social.

Guiomar de Grammont, no site Vermelho

Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madamme Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram, meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.

Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?

Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem necessariamente ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.

Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas.

É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.

Não, não dêem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, podem levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, podem estimular um curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos, em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.

O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas lêem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais, etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?

É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um. Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos. Para obedecer, não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submisso. Para executar ordens, a palavra é inútil.

Alem disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos. A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.

Ler pode tornar o homem perigosamente humano.

Guiomar de Grammont é mineira de Ouro Preto, historiadora, filósofa e escritora. Já publicou contos, antologias, livros sobre historiografia e o romance A casa dos espelhos.

Fonte: Trecho do livro, PRADO, J. & CONDINI, P. (Orgs.). A formação do leitor: pontos de vista. Rio de Janeiro: Argus, 1999. pp. 71-3.

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