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Veja dicas para otimizar o tempo de leitura

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Isabel Costa, no Leituras da Bel

Você gostaria de ter mais tempo para realizar leituras mas parece ficar perdido entre tantos livros e capítulos atrasados? É um sentimento comum. Queremos ler mais obras e os outros compromissos da vida acabam boicotando nossa rotina leitora. Ao longo da vida, eu aprendi algumas técnicas para otimizar o tempo de leitura. São atitudes pouco complexas, de fácil execução. Cada minuto dedicado ao livro é um avanço, sim! Afinal, é de página em página que um livro é terminado.

Foto: Sara Maia

Tempo de leitura

1. Carregue sempre um livro com você para momentos ociosos – como espera em consultórios médicos e filas. Você vai aprender que os exemplares de bolso são salvadores!

2. Estabeleça um horário fixo para realizar a leitura de algumas páginas a cada dia. Algumas páginas lidas antes de dormir garante a sensação de “dever cumprido” e um sono bom.

3. Participe de desafios literários. É possível encontrar diversas modalidades no instagram. Os leitores se propõem a ler determinado gênero ou autor e avançam juntos na leitura.

4. Busque um clube de leitura – Fortaleza tem dezenas! – e compartilhe as suas impressões. Saber que terá outras pessoas para conversar ajuda na disciplina da leitura e na finalização.

5. consegue terminar um romance longo e fica frustrado? Tente os livros de crônicas ou de contos, que são textos mais enxutos e podem ser lidos de uma só vez.

6. Esqueça o celular nos momentos de leitura. Eu coloco o celular no modo avião e “adeus mundo exterior”.

7.Não se cobre em excesso. A leitura é uma atividade particular e cada pessoa tem um ritmo.

Dia das Mães | Livros com mãe protagonista

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Rachel Guarino, na Cabana do Leitor

O que seria de nós sem as mães? Provavelmente nada. São elas que nos colocam no mundo ou que nos criam de todo o coração, nos fazendo enfrentar a vida de frente. Tem tudo quanto é mãe nesse mundão a fora: a que sempre sonhou em ser mãe, a que descobriu o talento maternal depois de muito tempo, a que nunca imaginou ter um filho e a que nunca quis ter esse emprego vitalício. O assunto ‘maternidade’ é muito delicado, cada mãe é de um jeito, mas não podemos nos esquecer de uma coisa: mãe também é gente. Tinham uma vida antes de você, caro filho(a), nascer.

Pensando nelas e em você também, de ter a oportunidade de conhecer mais desse lado humano da sua mãe, separamos alguns livros que trazem essa figura maternal como protagonista da história.

1 – Extraordinário, de R. J. Palacio

O livro não é focado na mãe, mas ela tem um papel tão importante quanto, e é retratada de uma maneira tão maternal, que entrou para a lista. A obra de R. J. Palacio gira em torno de August (Auggie) Pullman um garoto que foi submetido a diversas cirurgias quando criança, resultando em um rosto diferente do que é considerado normal pela sociedade. Então mostra toda a luta do personagem para ser considerado um garoto como outro qualquer. Esse livro mostra tanto o lado do protagonista quanto de todos a sua volta, incluindo sua mãe, que trava lado a lado as batalhas de seu filho.

2 – A Lista de Brett, Lori Nelson Spielman

Um livro simples e delicado, com uma linda mensagem por trás. A Lista de Brett conta a história de Brett Bohlinger, uma moça que parece ter a vida dos sonhos, um ótimo emprego, um lindo namorado e um loft incrível, porém, tudo muda de figura quando sua amada mãe falece e deixa em seu testamento uma lista de sonhos que escreveu quando ainda era uma adolescente. Brett precisa completar todas as tarefas se quiser receber uma gorda herança que sua mãe deixou e, a cada sonho realizado, Brett também terá o direito de ler uma carta deixada por ela. Um livro emocionante que explora o laço mãe e filha, além de sentimentos como luto, raiva e a dificuldade de aceitar o destino cruel.

3 – Cadê você, Bernadette?, Maria Semple

Bernadette Fox tem personalidade forte e é vista de diferentes maneiras por quem convive com ela. O marido a acha maníaca, para as mães da escola da filha ela só causa desgosto, enquanto para os especialistas em design ela é considerada uma gênia da arquitetura sustentável. Tudo muda quando sua filha de quinze anos, Bee, mostra seu boletim impecável e reivindica sua recompensa, uma viagem para a Antártida. O que Bee não esperava era que sua mãe desaparecesse. Na busca para encontrá-la, a jovem no auge dos seus quinze anos entra em uma jornada para descobrir quem era aquela mulher que ela julgava ser tão perfeita.

4 – Não sei como ela consegue, Allison Pearson

Livro que deu origem ao filme protagonizado por Sarah Jessica Parker, Não Sei Como Ela Consegue gira em torno de Kate Reddy, uma gerente de fundos de investimentos e que é mãe de duas crianças ao mesmo tempo. Allison Pearson traz à tona a vida secreta das mães que trabalham fora. Uma obra cômica ao mesmo tempo incrivelmente triste por retratar o que muitas passam. Auto-recriminação, mentiras, falsidade, exaustão, desespero, tudo isso é composto com precisão pela autora que traz os dilemas da maternidade em pleno século XXI.

5 – Por favor, cuide da mamãe, Shin Kyung-sook

Ao chegar em Seul para visitar os cinco filhos, Park So-nyo, de 69 anos, desaparece. Ela é deixada para trás em meio à multidão em uma plataforma da estação de metrô por seu marido, que, como sempre, acreditava que ela o estava seguindo. Essa é a última vez que é vista. O marido, com quem é casado há mais de 50 anos, embarca junto com os seus filhos em uma incansável procura por sua esposa. O livro é todo narrado por dois dos filhos, pelo marido e pela própria mãe desaparecida, marcando uma emocionante descoberta de uma mulher que ninguém, de fato, conhecia.

6 – Uma Prova de Amor, Emily Giffin

Uma Prova de Amor conta a história de Claudia Parr, uma mulher bem sucedida e sem nenhuma vontade de ser mãe. Ela encontrou o marido perfeito, Ben, que aparentemente tem a mesma vontade de não ser pai. Tudo ocorria muito bem na vida dos dois até que o imprevisto acontece e um dos dois muda de ideia com relação a gerar uma vida. E agora, o que será do casamento dos sonhos? Uma história divertida e honesta sobre como as coisas mudam em nossas vidas, o que é considerado importante e até onde se pode ir em nome do amor.

12 livros úteis para momentos de crise

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Quando você não sabe o que fazer, talvez seja a hora de procurar sabedoria em outros lugares.

Nivaldo Gomes, no Papo de Homem

Essa história começa algum tempo atrás.

Quando 2017 chegou, eu estava crente que superaria todos os meus limites e seria o melhor ano da minha vida. Estava concentrado em todas as minhas metas e onde queria chegar. Parecia o começo de um filme dramático onde o mocinho está feliz mas quem está assistindo sabe que em qualquer momento o jogo vai virar.

Em menos de um mês eu vi minhas finanças ficando em um estado deplorável. O negócio que eu tinha montado não dava resultado, minha alimentação e saúde indo pro saco, meu cachorro ficando doente e falecendo em seguida. Assim, entrei em uma crise.

Não foi fácil.

Sem muita opção, a primeira coisa que fiz foi aceitar o que estava acontecendo. A segunda foi buscar forças em livros para aprender como viver e sair dela.

Dentre os livros que li, estes foram os que mais me ajudaram.

A sutil arte de ligar o foda-se (Mark Manson)

Por mais que você esteja passando por um momento difícil, lembre de uma coisa … você não é especial. Nesta obra Mark Manson se figura como um amigo sincero e mostra, de uma forma bem bacana, que a vida é uma sequência interminável de problemas e o máximo que você pode fazer é preenchê-la com problemas que valem a pena.

Através do livro comecei a perceber que às vezes acabava me irritando com coisas que eu não tinha controle, como o ônibus que não parava para eu subir, o uber que demorava para chegar enquanto eu estava atrasado para algum compromisso.

O ponto final do autor não é que você ligue o foda-se para tudo, mas que remova tudo que não vai trazer retorno e foque no que realmente importa para a sua vida.

Em um momento de crise como o que eu vivia, esta foi a melhor coisa a ser feita.

Em busca de sentido (Viktor Frankl)

Viktor foi um psiquiatra austríaco que viveu na pele o terror causado pelos Nazistas. Foi no campo de concentração que ele teve que colocar em prática toda a sua filosofia de vida.

Esse livro é o encontro da teoria com a prática vivenciada pelo próprio autor.

É dividido em duas partes. Na primeira, Viktor mostra o que viveu em um campo de concentração e mostra tanto o ponto de vista dele quanto dos seus amigos. Na segunda parte ele fala sobre a Logoterapia, uma psicoterapia fundada pelo próprio autor, que teve seus trabalhos interrompidos durante a prisão mas que retomou após a liberdade.

Esse foi o primeiro livro que li quando fechei a minha startup e me senti sem rumo.

O obstáculo é o caminho (Ryan Holiday)

Esse livro foi o meu portão de entrada para o estoicismo. Ryan Holiday demonstra uma forma diferente de encarar os nossos problemas do dia a dia e como eles podem nos alavancar. O livro é dividido em três partes: percepção, ação e vontade.

No momento em que li este livro, estava enfrentando vários problemas, tanto profissionais quanto pessoais e acabei começando a culpar tudo. A obra me mostrou uma perspectiva diferente de como enxergar os problemas logo nos primeiros capítulos.

Um fato interessante é como o autor exemplifica seus argumentos através de grandes nomes da história como Marco Aurélio.

Além desse, também indico o Ego é Seu Inimigo, do mesmo autor.

Se por um lado o livro “O Obstáculo é o Caminho” mostra como encarar problemas entre você e o mundo, o Ego é Seu Inimigo mostra como encarar problemas que surgem entre você e você. Novamente, o autor divide o livro em 3 partes, aspiração, sucesso e fracasso, e mostra o quanto o ego aparecer em cada um destes momentos.

Eu comecei a ver várias atitudes minhas que batiam com algumas descrições e o quanto aquilo estava me prejudicando—principalmente na parte de fracasso.

Sobre a brevidade da vida (Sêneca)

Geralmente em momentos tensos, você começa a refletir sobre o que está fazendo com a sua vida. Foi dessa forma que achei esse livro. Simples, pequeno e incrivelmente rico.

A obra se trata de cartas escritas por Sêneca e dirigidas a Paulino. Além de ser um dos maiores nomes do estoicismo, Sêneca demonstra como acabamos encurtando a vida com futilidades, e como ela pode ser não só mais longa mas também mais rica.

O livro é bem curtinho e pode ser lido em uma tarde.

A Guerra Da Arte (Steven Pressfield)

Todo mundo já teve ou tem dificuldade de iniciar algo novo. Steven Pressfield afirma que essa dificuldade é causada pelo nosso maior inimigo, a Resistência, que se encontra no meio das nossas duas vidas, aquela que vivemos e aquela que não é vivida por nós.

Ele divide o livro em 3 partes. A primeira foca em detalhar mais a Resistência, a segunda parte aborda como combatê-la e a terceira mostra o que acontece quando vencemos.

Personificar todos os meus bloqueios através da Resistência e criar este combate dentro da minha cabeça foi de grande ajuda para sair da inércia e começar a campanha contra a crise.

Not caring what other people think is a super power (Ed Latimore)

Se você quer saber como dar a voltar por cima e quer usar alguém como espelho, Ed Latimore pode ser a pessoa que vocês procura. Ele cresceu em um “ghetto”, onde crime e violência era companheiras do seu dia a dia. Conseguiu achar no boxe uma saída, mas teve problemas com álcool. Hoje ele é um veterano militar, escritor e graduando em física.

O que me chamou atenção no Ed, é que além de ser bem transparente, ao ponto de falar sobre o nocaute que sofreu em rede nacional, a sua escrita é simples porém repleta de riqueza. Infelizmente, seu livro não tem versão em português, mas não precisa ter o inglês tão afiado para apreciar a obra.

Antifrágil (Nassim Taleb)

A fragilidade faz não só pessoas entrarem em crise, mas sistemas e grande corporações, uma vez que é impossível prever todos os cenários. Mas mesmo sem tal poder, podemos nos preparar para as consequências dos seus efeitos. Isto que diferencia o frágil do antifrágil, o primeiro pode ser destruído com o caos, o outro se beneficia dele.

Sem sombra de dúvidas, foi um dos livros mais bem escritos e densos que já li. Ele não só vai ajudar você a ter uma visão melhor do mundo como vai preparar para qualquer crise futura que venha a acontecer.

Maestria (Robert Greene)

Em momentos difíceis é fácil nos sentimos inferiores e começarmos a nos comparar com os outros. Acabamos idolatrando e colocando essas pessoas em lugares de Deuses, por achar que elas são mais bem sucedidas que nós. Porém, além de serem humanos como nós, eles tiveram uma longa jornada para chegar em sua melhor versão.

Esse livro, de Robert Greene, demonstra os passos para alcançar a maestria por meio do exemplo de grandes nomes como Mozart, Newton, Paul Graham e outros.

Minha Luta, Sua Luta (Ronda Rousey)

A Ronda, além de me chamar atenção em suas lutas, me chamou mais atenção sobre a maneira que ela vê o mundo. Sua carreira teve muitos altos e baixos e ela faz questão de mostrar isso, desde o suicídio do pai, até ser a primeira mulher a ir para o UFC.

Muitos acham a Ronda um pouco arrogante e, graças a isso, se recusam a ler o livro. Eu penso que se uma mulher fez história no judô e no UFC (onde o presidente falou que nunca teria uma mulher lutando na sua organização), ela deve ser estudada. Apenas acho que o livro tenha saído cedo demais e não cobriu a parte da queda dela no UFC, mas é mais uma obra que mostra o lado humano de um campeão.

Escolha Você (James Altucher)

Você está em um momento de crise e se depara com o James, descobrindo que ele já escreveu vários livros e fundou algumas empresas. Porém, não é isso que chama mais atenção. O impressionante é que ele foi milionário, quebrou e perdeu tudo. Depois, se tornou milionário novamente e (adivinha?) perdeu tudo mais uma vez. Não sem se recuperar de novo.

Acho que não preciso falar mais nada, se isso não fizer você ler este livro, eu não sei o que mais vai te convencer.

Meditações (Marco Aurélio)

Marco Aurélio foi simplesmente o homem mais poderoso do seu tempo. Certamente, tinha que administrar várias crises, tanto dele quanto do seu império. Ao ler este livro, você tem um dos um dos grandes imperadores romanos ensinando como viver e se livrar das dores do mundo material.

Não importa a crise que você esteja passado, se é amorosa, financeira, profissional ou todas juntas, você vai encontrar algo que vai ajudar.

O melhor dessa obra é que ela não foi feita com o objetivo de ser publicada e, pra mim, é um dos melhores livros que já li e continuo relendo.

Para você, qual foi o livro que mais ajudou em um momento difícil?

Netflix adquire os direitos da adaptação de “Para todos os garotos que já amei”

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Bárbara Allen, no Cabana do Leitor

Já estávamos enlouquecendo sem notícias dessa adaptação, mas agora temos algo muito legal e que vale apena uma comemoração. De acordo com o site Variety, a Netflix, adquiriu os direitos de Para todos os garotos que já amei, e para completar ainda anunciou que o lançamento está previsto para o meio do ano.

O filme é inspirado no livro autora americana Jenny Han e terá no elenco Lana Condor, de X-Men: Apocalipse, e John Corbett, de Casamento grego. Além dos dois, Noah Centineo dará vida ao apaixonante Peter Kavinsky; Janel Parrish será Margot, a irmã mais velha da protagonista; Israel Broussard vai interpretar Josh e Anna Cathcart será Kitty, a fofa irmã mais nova.

Susan Johnson e Matt Kaplan são os diretores do filme, enquanto Brett Bouttier, Robyn Marshall e a própria Jenny Han são produtores executivos.

“Para todos os garotos que já amei” conta a história de Lara Jean, uma garota atrapalhada e ingênua, mas muito forte. Romântica, ela escreve cartas para os garotos por quem se apaixonou. Mas tem um detalhe: nunca as envia. Como nada é perfeito, sua vida sai do controle quando essas cartas de amor são enviadas para cada um dos seus crushs e a vida amorosa da personagem ganha outro rumo.

Já estamos ansiosos para ver como ficou essa adaptação. Vale lembrar que a história faz parte de uma trilogia e que os outros dois livros ainda não têm uma confirmação sobre ter ou não um filme.

Nova biografia de Carolina de Jesus tenta afastá-la do estereótipo de ‘escritora de favela’

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A escritora Carolina Maria de Jesus – Arquivo O Globo

 

Livro sobre autora de ‘Quarto de despejo’ esmiúça sua vida antes do sucesso

Jan Niklas, em O Globo

RIO — Para além das etiquetas que lhe penduraram, “favelada que escreveu um livro” ou “leitora catadora de lixo”, Carolina Maria de Jesus (1914-1977) era uma intelectual, escritora e mulher de personalidade complexa e instigante. Seu livro “Quarto de despejo”, escrito na favela do Canindé em São Paulo em 1960, projetou-a para o mundo e os altos círculos da literatura.

No entanto, antes do boom, ela já era uma autora experiente. E, após o sucesso do livro, o mundo da artes acabou a consumindo, fazendo com que voltasse à pobreza e ao ostracismo no fim da vida. São aspectos de sua vida como esses que o jornalista e crítico literário Tom Farias esmiúça em “Carolina — uma biografia” (editora Malê), novo livro sobre a vida da autora. O lançamento em São Paulo acontece nesta quinta-feira, às 18h, na Casa das Rosas; já no Rio será dia 20, na Travessa de Ipanema, às 19h.

— A intenção era quebrar estereótipos e paradigmas que até hoje acompanham Carolina e sua obra — diz Farias, que durante quatro anos vasculhou jornais antigos e entrevistou familiares e personalidades próximas à autora. — A visão que se tem até hoje da Carolina não é de uma escritora, mas de uma pobre negra e moradora da favela que escrevia livros. Mas Carolina morou apenas alguns anos da vida dela na favela e, a todo momento, demonstra estar de costas para esse espaço, que é alvo de suas mais duras críticas. Tanto que ao deixá-lo foi xingada e apedrejada pelos moradores.

Outro aspecto pouco conhecido da escritora, que faria 104 anos nesta quarta-feira, é sua vida e produção antes de se mudar para o Canindé em 1948.

Muito antes de estourar para o público em uma histórica reportagem de “O Cruzeiro” no fim dos anos 1950, ela já frequentava redações de jornais em busca de divulgação para seus poemas. Apesar de ter cursado apenas dois anos letivos, aquilo foi o suficiente para não largar mais o hábito da escrita e da leitura.

NOVAS DESCOBERTAS NA BIOGRAFIA DA ESCRITORA

Tom Farias lembra o episódio em que, numa de suas incursões aos jornais em 1940, ela foi recebida pelo jornalista da “Folha da Manhã” Willy Aureli, e mostrou seus manuscritos. No entanto, a matéria com foto destacava apenas o caráter “exótico” daquela mulher negra e pobre que escrevia poesias.

Ainda assim, Carolina conseguiu que alguns de seus poemas fossem publicados ao longo das décadas de 1940 e 1950, incluindo os jornais “A Noite” e “O Dia”, do Rio de Janeiro, onde morou por dois anos. A temporada na então capital federal, aliás, é uma descoberta que nem mesmo a família da autora conhecia, segundo Farias.

— Carolina escreveu dramas, romances, contos, provérbios e poesias, e letras de músicas também. Dizia que alguns malandros tinha roubado algumas dessas poesias e musicado sem creditar a autora.

Quando se mudou para a comunidade do Canindé, ela estava sem emprego e grávida. Lá, começou a registrar o seu cotidiano e o de seus vizinhos. Até que, em 1958, veio o reconhecimento. Após assinar com a editora Francisco Alves, Carolina Maria de Jesus virou uma espécie de celebridade literária, traduzida em 14 idiomas e vendida em 40 países.

Farias descobriu, na imprensa da época, que, só na noite de lançamento de “Quarto do despejo”, a escritora vendeu 600 exemplares, e consumiu-se 1.400 batidas de limão e coco. O sucesso instantâneo do livro, que vendeu 10 mil cópias na primeira semana (e venderia, segundo dados do biógrafo, outras 300 mil nos anos seguintes), teria enciumado autores consagrados da época.

POEMA DEDICADO POR PABLO NERUDA

Carolina frequentou a casa de famílias importantes, como os Suplicy, e foi recebida por chefes de Estado. O presidente do Uruguai mandou parar tudo durante sua visita, e Pablo Neruda dedicou-lhe um poema (hoje perdido). Mas o êxito não durou. A autora não conseguiu repetir o feito com suas obras posteriores como “Casa de alvenaria” e “Pedaços de fome”. Caiu no ostracismo e perdeu quase tudo o que havia ganhado com o reconhecimento.

Carolina não chegou a passar fome, pois havia comprado um sítio grande onde plantava e criava animais. Mas, segundo o autor, sentia falta dos bens materiais que o dinheiro lhe havia proporcionado nos anos áureos. Farias registra algumas “lendas”, como as idas de Carolina ao Fasano de São Paulo para tomar chá. Ou ainda os vários vestidos de Denner, o estilista da primeira-dama Maria Teresa Goulart, que comprou a 18 mil cruzeiros. Para se ter uma comparação, em sua época de catadora vendia o quilo de papel por um cruzeiro.

— No fim da vida muitos a viam como louca — conta Farias. — Mesmo sem necessitar, ela chegou a voltar a catar papel nas ruas só para chamar a atenção da mídia.

A autora vem passando por um processo de resgate por parte dos pesquisadores, que buscam devolver seu lugar na literatura brasileira. No ano passado, seu “Quarto de despejo” foi um dos dez livros mais vendidos de 2017 no site Estante Virtual. Além disso, no carnaval deste ano ela foi homenageada na Sapucaí, no desfile do Salgueiro cujo enredo “Senhoras do ventre do mundo” exaltava a força das mulheres negras.

— Carolina nunca foi tratada como a uma mulher inteligente e à frente do seu tempo — afirma Farias. — O aspecto da pobreza, da favela, da falta de estudos chamou mais a atenção como produto midiático, de puro marketing. Causou também ciumeira na “classe” literária, muito elitizada: o boicote a Carolina foi feio, sem sentido, colonial e assustador.

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