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Eu, leitora: “Mexo só um dedo, mas virei escritora”, conta Luciana Scotti

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Ela sofreu um Acidente Vascular Cerebral aos 22 anos. Ficou tetraplégica e muda. Perdeu o emprego, o namorado, os amigos e hoje, 18 anos depois,mexe só o dedo médio da mão esquerda. Mas resolveu não parar. É fluente em três idiomas, cursa o segundo pós-doutorado, têm diversos livros e artigos publicados e coleciona prêmios

ANTES E DEPOIS DO AVC: LUCIANA SCOTTI CONTA COMO DECIDIU TRANSFORMAR SUA VIDA E CONTINUAR LUTANDO POR SEUS SONHOS (FOTO: ARQUIVO PESSOAL)

ANTES E DEPOIS DO AVC: LUCIANA SCOTTI CONTA COMO DECIDIU TRANSFORMAR SUA VIDA E CONTINUAR LUTANDO POR SEUS SONHOS (FOTO: ARQUIVO PESSOAL)

Igor Zahir, na Marie Claire

Tenho duas vidas. Não consigo explicar de outra forma o que vivo. Eu era uma jovem bastante normal. Pertencia a uma família de classe média e era uma garota bonita. Aos 17 anos, passei em cinco vestibulares e comecei a cursar Farmácia e Bioquímica na Universidade de São Paulo (USP). No fim do primeiro ano da faculdade, ganhei minha primeira paixão: um carro vermelho, lindo!Uma surpresa inesquecível, presente de aniversário do meu pai, que se tornou meu companheiro no início dos anos 90. Nesse mesmo período, conheci o Lucas, um judeu loirinho e simpático, formado em engenharia pela USP. Minhas amigas comentavam a diferença entre nós. Lucas era tido como feio e nerd, eu era popular. Mas, não ligava.

Ele foi um grande amor, mas assim como água e óleo não se misturam, percebi logo que com judeus e católicos o mesmo pode acontecer. Ficamos três anos juntos, mas os pais do Lucas nunca me aceitaram. Nosso amor, entretanto, parecia maior que isso. Em 1991, passei a tomar pílulas anticoncepcionais com a orientação da minha médica ginecologista. Falei a ela que eu era fumante, mas naquele momento, não percebemos o risco que eu corria.

Eu era uma jovem dinâmica e ativa. No mesmo ano, resolvi começar a trabalhar. Transferi o curso de farmácia para o período noturno e arrumei um emprego em uma empresa de higiene bucal, em que fui efetivada. Todos os dias, cruzava a cidade com meu carro para trabalhar e estudar. E ainda arrumava tempo para correr pela USP nos fins de tarde e fazer aulas de ginástica aeróbica e musculação. Aos fins de semana, eu fazia passeios românticos com meu namorado ou saía com minha turma de amigos. Gostava de dançar, viajar, beber, conversar, fazia tudo o que me dava vontade.

Em meados de 1993, comecei a ter dores de cabeça que, apesar de desaparecerem com aspirinas, estavam ficando cada vez mais frequentes. Decidi marcar uma consulta com a ginecologista, queixei-me das dores, mas ela disse que não era nada grave. Passei um ano com o problema. E, num domingo, dia 1 de maio de 1994, vi o Ayrton Senna morrer. A data me marcou demais. Não que eu imaginasse que, no dia seguinte, seria eu a próxima vítima – de um tipo diferente de morte, mas morte. Na segunda, acordei, me vesti e fui trabalhar. Trabalhei o dia todo, não senti nada de anormal. No fim da tarde, fui buscar meu irmão na USP, para irmos para casa. Quando chegamos, me apressei em ir até o banheiro para escovar os dentes. Na sequência, iria ao shopping. Mas antes de sair do banheiro, senti uma forte tontura e gritei por socorro.

Quase imediatamente entrei em convulsão. É uma sensação horrível! Tentava controlar meus movimentos, mas os músculos não paravam de tremer. Minha família ficou apavorada. Meu pai massageava meu coração. Meu irmão cuidava para eu não morder a língua, colocando uma escova de dente na minha boca. Enquanto isso, minha mãe ligava para o resgate. Alguns vizinhos ouviram a confusão e vieram ajudar. Me pegaram no colo e me colocaram num carro. São mais que vizinhos, são queridos amigos de quem até hoje recebo muito carinho e apoio. Quase não conseguia falar e, naquela confusão, não sabia se minha família viria atrás do carro ou não. Fui para o pronto-socorro Municipal de Santana. No caminho, pedia calma com a mão, não tinha a mínima ideia do que estava por vir.

Agora entendo porque, em um pronto-socorro municipal, cuja fila é enorme, fui atendida logo. Colocaram-me em uma maca e levaram-me direto para a consulta. Na sala do médico, havia algumas enfermeiras que delicadamente tiraram meu relógio, gargantilha e brincos. Precisavam ser delicadas para eu não me machucar, pois meu corpo trepidava. Minha família me achou no pronto-socorro, depois de percorrer todos os hospitais da região. Ao lado da maca, minha mãe segurava a minha mão, e eu me perguntava quem seria aquela pessoa. De olhos fechados e com muito esforço, só conseguia falar mamãe e papai. Ironicamente, as primeiras palavras que aprendi seriam as últimas que eu diria.

Aos poucos ia chegando a hora da metamorfose. Inconscientemente, eu dava adeus aos meus longos cabelos aloirados, aos meus passos, à minha voz (que nunca mais ninguém ouvirá), aos movimentos, às danças nas festas, ao meu querido carrinho e a mais um milhão de coisas. Fui transferida de ambulância para um hospital particular. Apenas meu pai me auxiliava, com um balão de oxigênio. Era difícil de respirar.

No novo hospital, um enfermeiro me pôs em uma maca. Levaram-me para um quarto. Tiraram minha roupa e me vestiram com um daqueles camisolões de hospital. A convulsão continuava. Lembro-me dos médicos ficarem discutindo o diagnóstico em volta da cama. Fui ficando atordoada, senti um mal-estar repentino e vomitei.Uma enfermeira que me acompanhava falou para o colega dela: “Ela não passa desta noite”. Depois dessa frase, já não lembro de nada. Entrei em coma. Durante esse período, não tinha consciência de onde estava, tudo parecia um sonho. Acordei dois meses depois, em outro hospital, careca, muda, tetraplégica, com sonda nasogástrica, fraldas e cicatrizes. Quando saí do coma, achei que tudo só podia ser um pesadelo. Longo e cheio de detalhes, mas um pesadelo. Podia jurar que não tinha estado em coma, mas na minha cama, dormindo.

O PESADELO

A verdade, no entanto, era outra. Sofri um Acidente Vascular Cerebral e minha nova realidade era aquela: feia, muda e sem movimentos. Lembrava da última vez que tinha me visto no espelho antes do AVC e sentia desespero. Saudade, tristeza, abandono… senti tudo, principalmente revolta e ódio. A combinação do cigarro com anticoncepcional aumenta muito o risco de a mulher sofrer um AVC e eu e minha ginecologista deveríamos ter percebido isso. Alguns especialistas me disseram que a pílula foi 100% responsável pela trombose que levou ao rompimento de uma das veias do meu cérebro. Outros acham que não foi o fator principal. Porém, a mistura da pílula com o cigarro deveria ter sido evitada e eu deveria ter dado atenção às dores de cabeça que não passavam. Se tivesse agido de outra forma, hoje estaria andando.
Depois da Trombose Cerebral e de ter ficado tetraplégica, vivi três anos sobre uma cama hospitalar. Durante esse período, observei quase todo mundo se afastando de mim. Lentamente, fui esquecida pelos meus 150 “queridos amigos”. Cada um que me deixou, me preencheu com uma mágoa eterna. O Lucas foi um deles. Ele foi diminuindo a frequência das visitas, até parar de me ver. Chorei, revivi todo meu passado, procurei culpas e culpados e pensei: morri, acabou tudo!

O que eu não sabia é que, na verdade, estava começando uma segunda vida. Não tinha saída. Eu poderia chorar a vida inteira pelo romance acabado e pela tetraplegia ou parar de chorar e começar a viver. Optei por viver: aos trancos, aos farrapos, aos pedaços. Mas o tempo tem uma força estranha, e com ele comecei a escrever meus pensamentos amargurados com o movimento de um único dedo, o médio da mão esquerda. Em um notebook, digitava no meu colo, na cama. No começo, cheguei a passar um dia para completar uma página. Depois de quase um ano de esforço, terminei meu primeiro livro: Sem Asas ao Amanhecer. Hoje, ele está na décima primeira edição. Mas não me contentei. Escrevi outro chamado A Doce Sinfonia de Seu Silêncio.
Como sou muito ativa e odeio ficar parada, voltei a estudar. Fiz mestrado e publiquei um livro científico sobre cosméticos. Em 2006, terminei o doutorado. Depois, fiz três anos de pós-doutorado, sempre na USP, e ganhei vários prêmios acadêmicos. Também aprendi sozinha inglês, italiano e espanhol. Há três anos me mudei para João Pessoa. Meu irmão passou em um concurso e começou a trabalhar na Universidade Federal daqui. Em pouco tempo, estávamos todos juntos. Logo procurei um modo de contribuir com a instituição. Estou no segundo ano de um novo pós-doutorado, já participei de mais de 30 congressos, tenho artigos publicados no exterior e sou revisora de revistas científicas.

O COTIDIANO

Me sustento com o dinheiro do meu trabalho e levo uma vida confortável. Contrato pessoas que me auxiliam nas tarefas diárias. Preciso de tudo: de um copo de água, de um banho, que me tirem e ponham na cama. É assim que vive uma mulher que mexe só um dedo. Uma vida nada fácil, mas é a única que eu tenho; e a vida não é como queremos, é como é. E, mesmo com essa limitação, me considero feliz. Amo o que faço. Uso estatística e química para analisar estruturas moleculares. Quando estou trabalhando, me sinto muito bem.
Durmo tarde, 23h, 24h, 1h. Dependendo do trabalho, acordo cedo, 6h ou 7h. E já coloco o biquíni! No meu prédio tem um espaço legal para tomar sol e eu aproveito o solzinho da manhã que é uma delícia. Tomo na minha cadeira-de-rodas “de sol”. Tenho três cadeiras:uma levinha, muito usada para banhos de sol, viagens e passeios em geral; uma mais alta e mais pesada, que uso para trabalhar no computador e uma motorizada, muito confortável. Depois do sol, tomo banho, vou para o computador e trabalho até a noite. Faço uma pausa para malhar e me alongar (montei uma miniacademia no meu quarto) e volto para o trabalho.

Adoro um churrasco com os amigos à beira da piscina ou passar o dia na praia, com cervejinha. Apesar da dependência física, tenho pensamentos e emoções próprias, como todo mundo. Às vezes, rola uma paquera no shopping ou em uma praia, mas o mais frequente é pela internet, porque a web é meu modo de fazer laços sociais. Ao mesmo tempo, desenvolvi a sensibilidade de entender nas entrelinhas e distinguir uma paquera de armadilhas. Se vejo que é sério, engato um namoro. Até noiva já fui duas vezes: por dois anos, do Mateus, e quase sete, do Fabrizio. Quando falo isso, as pessoas se perguntam sobre o sexo. É normal, já que não sou uma pessoa comum. Mas sou mulher e tenho relações como qualquer outra. Aprendi a dar e receber carinho e prazer.

Se você pensar que eu me comunicava piscando e hoje escrevo num teclado normal, acho que estou bem. Apesar dos meus limites físicos, produzo trabalhos de qualidade, reconhecidos e até invejados dentro da comunidade científica. Infelizmente, não posso prestar concurso na faculdade, porque não falo. Esse é meu sonho, ter um emprego na faculdade. Sei que não tenho condições de dar aulas, mas as faculdades deviam ter vagas para pesquisadores. É o meu sonho. Aprendi que nessa vida o que importa é ser feliz. Se eu encontro momentos prazerosos com minhas dificuldades, muita gente sã e cheia de dinheiro pode não encontrar. O que ontem era indispensável para mim, hoje é fútil. Ser feliz tornou-se ao mesmo tempo algo muito mais simples e complexo.

dica do Jarbas Aragão

Bolsistas do Ciência Sem Fronteiras viram ‘embaixadores’ culturais do Brasil

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O estudante de engenharia mecânica Daniel Leite Oliveira, de 22 anos, veio fazer um intercâmbio de graduação nos Estados Unidos com o objetivo de aproveitá-lo ao máximo.

Bolsistas do Ciência sem Fronteiras reuniram-se em Washington para avaliar programa

Bolsistas do Ciência sem Fronteiras reuniram-se em Washington para avaliar programa

Pablo Uchoa, na BBC

A poucos meses do fim de sua estadia, ele diz ter conseguido deixar uma boa impressão nos americanos, que conheceram um pouco sobre a cultura brasileira durante um Brazilian Day que organizou com seus colegas em uma universidade do Estado de Indiana.

Oliveira foi um dos bolsistas contemplados na primeira chamada do Ciência Sem Fronteiras, programa do governo federal que financia o intercâmbio de estudantes brasileiros em países ao redor do mundo.

O brasileiro teve a oportunidade de estudar em uma escola prestigiada na sua área, a Universidade Rose-Hulman, em Terre-Haute, a cerca de uma hora de Indianápolis, no meio oeste americano.

Antes de voltar ao Brasil, Oliveira ainda fará um estágio na multinacional de papel e celulose International Paper, no estado de Kentucky.

“Daqui, eu vejo o Brasil de uma forma muito diferente”, conta o jovem. “Vou levando muitas coisas (para casa), principalmente a sensação de poder fazer do meu país um lugar melhor.”

“Depois que você vem para cá, você observa os defeitos do Brasil, mas percebe também a capacidade de mudá-los.”

O estudante está entre os que, nos próximos meses, começarão a regressar para casa após concluir o primeiro ano do programa.

Eles levam de volta ao Brasil experiências que podem ter impacto não somente nas suas vidas pessoais e profissionais, mas também no futuro da iniciativa que é a menina dos olhos da presidente Dilma Rousseff para impulsionar a mobilidade e a qualificação da mão de obra científica nacional.

Segundo números oficiais do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), o programa Ciência Sem Fronteiras concedeu até maio 22,3 mil bolsas de estudo para brasileiros interessados em fazer intercâmbios em 35 países.

Os EUA lideram a lista como país receptor, com 5,4 mil bolsistas – 69% deles, de graduação, e o restante, em diferentes modalidades de pós.

As universidades americanas receberam mais alunos que as instituições no segundo e terceiro países que mais acolheram brasileiros, Canadá e Portugal.

Atualmente, estão abertas as inscrições para mais 13,5 mil bolsas de estudos em nove países e destas, 2 mil serão destinadas aos EUA, o que colocará o país dentro da estimativa de receber cerca de um quinto dos 101 mil bolsistas que o programa pretende custear até 2015.

‘Embaixadores’

O estudante de engenharia mecânica Daniel Oliveira diz que vê o Brasil 'com outros olhos'

O estudante de engenharia mecânica Daniel Oliveira diz que vê o Brasil ‘com outros olhos’

Em uma reunião de avaliação do primeiro ano do programa na Embaixada brasileira em Washington, na quarta-feira, um grupo de 17 estudantes compartilhou suas impressões com representantes do governo brasileiro e parceiros americanos.

Eles apontaram problemas pontuais no programa atual e contaram como a experiência serviu para que eles “abrissem a cabeça” e dessem o pontapé em uma rede de contatos internacionais que pode ser valiosa no futuro.

A reunião também indicou que os 5 mil brasileiros espalhados por quase 300 universidades americanas estão servindo de “embaixadores” culturais do país, através de eventos estudantis, atividades culturais e jornadas dedicadas ao Brasil.

“O resultado é que muitos estudantes americanos nos campi começaram a entender melhor quão vasto e diverso é o Brasil e o seu corpo discente”, disse Allan Goodman, presidente do Instituto de Educação Internacional (IIE, na sigla em inglês), órgão que atua como intermediário entre os estudantes brasileiros e as universidades americanas.

“Eles estão criando laços culturais, que acho que vão resultar em mais estudantes americanos interessados em estudar no Brasil e trabalhar com colegas brasileiros.”

Daniel, que estuda engenharia mecânica na UFMG, participou de um Brazilian Day em fevereiro passado.
“De manhã fizemos um workshop e teve até uma minifeira de carreiras, que inclusive ajudou alguns estudantes brasileiros a arrumar emprego”, contou. “À tarde, fizemos um evento para a comunidade e atraímos 600 pessoas. Os americanos ficaram muito impressionados.”

Segundo o IIE, Indiana é o sétimo Estado que mais recebeu estudantes brasileiros até meados de maio. Nova York, Califórnia, Michigan e Illinois lideram a lista.

De acordo com informações repassadas à Embaixada brasileira, as instituições que mais receberam estudantes brasileiros foram a Universidade da Califórnia em Davis, e da Flórida, ambas com 126 bolsistas.
As áreas mais procuradas pelos brasileiros são engenharia (mecânica, elétrica e industrial no topo da lista) e ciências da computação.

Allan Goodman diz que, apesar dos desafios de “aclimatação”, como adaptar-se a uma nova cultura, a climas em geral mais frios e ao estudo uma língua estrangeira, os brasileiros têm demonstrado “uma excelente ética de trabalho”.

“Eles dão muito duro, querem aprender a língua, querem ser embaixadores culturais do Brasil e querem aproveitar ao máximo a sua experiência aqui”, avalia.

Volta para casa

A oceanógrafa Ana Krelling afirma ter medo de não conseguir emprego quando voltar ao Brasil

A oceanógrafa Ana Krelling afirma ter medo de não conseguir emprego quando voltar ao Brasil

A partir de agora, o programa e os seus primeiros bolsistas começam a passar para a próxima fase, de voltar para casa e aplicar os conhecimentos e a experiência adquiridos no exterior.

Mas só daqui a alguns meses, ou anos, será possível avaliar os resultados concretos do programa, disse o chefe do setor educacional da Embaixada brasileira em Washington, Pedro Saldanha.

A maioria dos estudantes retorna para casa para finalizar seus estudos de graduação ou pós, e os que receberam bolsas integrais de doutorado no exterior ainda estão fazendo as suas pesquisas, ele observou.

Mas Ana Paula Morais Krelling, 27 anos, graduada em Oceanografia pela Universidade Federal do Pará, com mestrado em engenharia oceânica pela Federal do Rio (UFRJ), e atualmente fazendo doutorado com titulação dupla no Instituto Oceanográfico da USP e na Universidade de Massachusetts, já sente que uma das dificuldades será encontrar um emprego para aplicar tanto conhecimento.

“As empresas no Brasil estão reticentes em contratar doutores, principalmente em razão do custo”, diz. “Para mim, as oportunidades são institutos de pesquisa e universidades, e isso é um problema, porque estamos formando mais doutores do que as universidades estão absorvendo.”

Mas ela insiste que fazer o doutorado foi uma boa opção. “A gente ganha na língua, em networking, e ao conhecer outras maneiras de pensar a pesquisa e até as relações humanas”, opina.

“Quando você for um pesquisador mais experiente, e for lidar com um projeto internacional, vai conseguir ver como a diferença cultural vai interferir na maneira como sua mensagem será interpretada.”

Como Daniel, Ana Paula diz que a experiência mudou sua percepção sobre o Brasil. Para ela, trata-se de um país com defeitos e qualidades.

“A gente vê que temos conhecimento, tecnologia, e que só estamos um pouco engessados”, diz. “Avançar da teoria para a prática é difícil, tem muita burocracia. Mas tem muita gente boa no Brasil que quer fazer pesquisa. A gente não precisa importar tudo.”

Bibliotecas móveis ajudam haitianos a superarem o grande terremoto

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Publicado no Global Voices Online

Se hoje fosse o dia 12 de janeiro de 2010, o mundo estaria prestes a parar e emudecer diante das notícias sobre o terremoto que destruiria Porto-Príncipe, capital do Haiti. As imagens seriam desoladoras, o que não impediria que um choque ainda maior se sucedesse às estimativas de que em poucos minutos 222 mil pessoas haviam perdido suas vidas, 2 milhões perdido seus lares. E se fossem feitas estimativas com o coração, o cálculo seria que o medo e a insegurança sobre a vida de familiares, amigos e sobre si deixou todos os 9 milhões de haitianos feridos.

A história desse terremoto não caberia em um livro, mas é exatamente a leitura o que está ajudando a população haitiana a superá-lo. Isto porque a Bibliotecas Sem Fronteiras está inaugurando bibliotecas móveis para que circulem pela capital do país fornecendo livros e, com isto, oferecendo meios de acesso à informação e ao conhecimento.

BiblioTaptap ônibus-biblioteca no Haiti. Foto de Bibliotecas sem Fronteiras

BiblioTaptap ônibus-biblioteca no Haiti. Foto de Bibliotecas sem Fronteiras

A organização realiza este trabalho em países do mundo em desenvolvimento bem como naqueles que se encontram em situações de risco devido a desastres e conflitos. Atuando em países da América, África e Ásia, no Haiti a Bibliotecas Sem Fronteiras atua em parceria com a Biblioteca Nacional do país, que está sendo reconstruída, o Bureau Nacional Haitiano de Livros e a Fundação para Conhecimento e Liberdade (FOKAL).

Diante de catástrofes, governos e organizações internacionais unem-se para distribuir medicamento, água, alimento, vestuário e abrigo para as vítimas. No entanto, as necessidades básicas de uma pessoa se estendem por seu corpo e sua mente ou espírito ou coração ou onde escolheram guardar seus sentimentos a respeito do que viveram. Badis Boussouar, Chefe de Comunicações da Bibliotecas Sem Fronteiras, explicou o papel da leitura neste contexto:

For Libraries Without Borders, there is no question that organizations and governments must devote the majority of their efforts to promoting the physical wellbeing of disaster victims. But more attention should be given to nourishing the mind as a second measure to help victims cope with catastrophe and move forward. Books and expression help sustain intellectual stimulation and promote self-worth and resilience in times of crisis. Through books, computers or training, access to information and cultural resources empowers individuals and gives them the tools to reconstruct what has been lost.

Para a Bibliotecas Sem Fronteiras, não há dúvidas que organizações e governos devam devotar a maioria de seus esforços para promover o bem-estar físico das vítimas. Mas poderia ser dada mais atenção à ‘alimentar a mente’ como uma segunda medida para ajudar as vítimas a lidar com a catástrofe e seguir em frente. Livros e expressão ajudam o estímulo intelectual, promovem a auto-estima e resiliência em tempos de crise. Através de livros, computadores ou formação, o acesso a recursos de informação e cultura dá poder aos indivíduos e as ferramentas para reconstruir o que foi perdido.

(mais…)

A literatura na era do Twitter

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Alberto Dines, no Observatório da Imprensa

Concomitantes: impossível não relacionar a biografia de Paula Broadwell sobre o general David Petraeus, com os anúncios de Phillip Roth e Imre Kertész que deixarão de escrever livros, falar de livros, ler livros.

A biógrafa sedutora que derrubou um dos homens mais poderosos do mundo encarna a degradação de um antiquíssimo gênero literário, a arte de contar vidas. Madame Broadwell, formada em Harvard, ex-major do exército americano, não fez biografia, praticou biofagia – alimentação a base de seres vivos. Em outras palavras: comeu o seu general.

A abdicação dos dois extraordinários ficcionistas tem a ver com outro aspecto da degradação dos tempos modernos: já não faz sentido escrever. Histórias já não mudam o mundo, muito menos a humanidade. Interessam, arrebatam, vendem muito, não inspiram. E não porque tudo já tenha sido escrito, contado e recontado, mas porque a literatura torna-se inócua à medida que se agiganta a quantidade de livros impressos ou digitados.

Como Saramago

Um, americano de segunda geração, 79 anos, o outro húngaro, de 83, descendem da mesma cepa humanista europeia. O fato de serem judeus não é suficiente para igualá-los. Há escrevinhadores judeus absolutamente abjetos. Borra-papéis. Estes trazem consigo a mensagem da insatisfação e contestação.

Renunciantes, abriram mão de confortáveis situações e, sobretudo, do reconhecimento universal – preferem enfurnar-se. Mudaram de rumo não porque chegaram ao último terço de suas vidas e vislumbraram logo adiante a curva na estrada. Não são casos de bloqueio criativo, ou depressão. Ao anunciar que vão parar mostraram-se atentos ao que está acontecendo, são refuseniks, objetores de consciência – o pessimismo prova uma intensa criatividade. Agora, sim, alcançaram o apogeu.

Não são suicidas, mas batalhadores, enérgicos, têm fé em valores que poucos percebem inclusive muitos de seus leitores. Questionam não porque querem mais – ao contrário, querem menos. Suas são revoltas contra os excessos e demasias. Protestam em silêncio, esta é a forma mais altiva de criar.

Roth & Kertész não se resignam, vão em frente, certamente têm projetos: o mais perceptível é enfrentar o delirante e degradante culto ao sucesso que converte os mais sublimes desafios em aviltantes assaltos.

Este mesmo culto ao triunfo empurrou Paula Broadwell para a ribalta da fama. Queria uma biografia autorizada do mais condecorado general americano e invalidou-a em seguida. Muitos biógrafos conviveram com seus biografados – o caso mais conhecido é o de James Boswell, cuja biografia de Samuel Johnson, de 1791, é considerada a mais perfeita da literatura inglesa.

Roth ou Kertész não conheciam Paula Broadwell, o que se evidencia é a recusa em tê-la como personagem e contar este tipo de história. Tal como José Saramago, rejeitam os grunhidos da era do Twitter. Macbeth, o demoníaco, vivia em outra dimensão.

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