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Posts tagged Virada

Ex-atriz pornô Sasha Grey lança livro em São Paulo

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Rodrigo Levino, na Folha de S. Paulo

Quando virou uma estrela do cinema pornô, em 2006, a atriz americana Sasha Grey, 25, explicava que o seu codinome (o nome real é Marina Ann Hantzis) era uma referência a Dorian Gray, personagem do escritor Oscar Wilde.

Hoje ela pode se considerar colega do autor inglês. Sasha lança em São Paulo o seu romance de estreia, “Juliette Society”, que conta a história de um clube de sexo mantido por figurões da alta sociedade.

Muito do que trata o livro, por óbvio, tem inspiração na carreira de mais de 100 filmes da atriz, que extrapolou o mundo pornográfico e atuou em filmes, digamos, mais sérios, como “Confissões de Uma Garota de Programa”, de Steven Sordebergh.

Sasha Grey

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Sasha Grey durante o lançamento de seu livro ‘Juliette Society’, em Madrid – Chema Moya/Efe

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A ex-musa pornô Sasha Grey, 25 anos, lança seu primeiro romance “Juliette Society” (Editora Leya, 236 págs.) – Francesco Carrozzini

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A grande virada da vida profissional da atriz começou em 2009, quando o diretor Steven Soderbergh a escolheu para protagonizar “Confissões de uma Garota de Programa” (foto) – Divulgação

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Sasha Grey, nome artístico de Marina Ann Hantzis, durante a estreia do filme adulto “I Melt With You” no Festival de Sundance em 2011 – Lucas Jackson/Reuters

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A artista está no suspense “Open Windows” (ainda sem título em português ou data de estreia prevista), ao lado de Elijah Wood – Chema Moya/Efe

Aposentada dos sets de filmes adultos desde 2011, milionária, vocalista de uma banda de rock industrial, Sasha disse em entrevista à Folha, de Ibiza (no Mediterrâneo), onde passava férias, que a motivação do livro foi além da literária.

“A literatura erótica se tornou um assunto de massa muito por causa da internet e de livros como ‘Cinquenta Tons de Cinza’, mas ela sempre vendeu muito bem, sempre teve mercado. Não concordo com essa impressão de que é um ‘boom’ recente. Talvez por isso o meu agente insistiu durante anos para que eu escrevesse um livro”, disse rindo.

A mesma internet a ajudou a se tornar uma celebridade global. Uma busca por seu nome no Google arrasta mais de 23 milhões de citações. Além de cenas de sua afamada disposição na cama, é possível encontrar defesas de sua atuação como uma espécie de militância feminista.

“A internet impulsionou as causas feministas, tornou o debate globalizado, mas, por outro lado, é onde o assunto é igualmente ridicularizado.”

Antes de se arriscar no mundo das editoras e livrarias, Sasha Grey abriu em 2009 uma produtora de filmes pornôs, que durou apenas três meses. “Foi meu primeiro grande fracasso”, conta. Segundo ela, o insucesso foi motivado principalmente porque a produtora não se adequava à “caretice” do público médio americano.

Como conversar com um escritor

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Os segredos da australiana Ramona Koval, que dominou a difícil arte da entrevista literária

Danilo Venticinque, na Época

DANILO VENTICINQUE é editor de livros de ÉPOCA. Conta com a revolução dos e-books para economizar espaço na estante e colocar as leituras em dia. Escreve às terças-feiras sobre os poucos lançamentos que consegue ler, entre os muitos que compra por impulso (Foto: Sidinei Lopes/ÉPOCA)

DANILO VENTICINQUE é editor de livros de ÉPOCA. Conta com a revolução dos e-books para economizar espaço na estante e colocar as leituras em dia. Escreve às terças-feiras sobre os poucos lançamentos que consegue ler, entre os muitos que compra por impulso (Foto: Sidinei Lopes/ÉPOCA)

Ter uma longa conversa com seu escritor favorito é o sonho de qualquer leitor. Alguns querem apenas agradecer pelo prazer da leitura. Outros tratam os autores como celebridades e se deliciariam com detalhes de sua intimidade. Há também os aspirantes à fama literária, que buscam dicas para conquistar o sucesso. E há o desejo mais comum: conhecer melhor os bastidores do universo criado na mente do escritor. Ao ler um bom livro, somos tomados pela curiosidade sobre o passado e as intenções secretas de cada personagem – dúvidas que só o criador pode tirar. Quando a última página é virada, até o mais quieto dos leitores tem vontade de bombardear o autor com perguntas.

A curiosidade é lisonjeira, mas poucos autores têm disposição para responder ao interrogatório. Numa profissão em que a maior parte do trabalho é feita em silêncio diante de uma tela em branco, os comunicativos são uma minoria. Reclusos, tímidos crônicos e pessoas quietas de todos os tipos estão em vantagem. É doloroso imaginar a quantidade de grandes talentos que se perderam porque preferiram o contato humano constante à solidão necessária para a criação literária. Para a decepção dos leitores em busca de respostas, e para a alegria dos leitores em busca de mais livros, a maioria dos escritores prefere o silêncio. Muitos só dão entrevistas por motivos comerciais. São pressionados pelas editoras para divulgar seus livros e acabam cedendo. As conversas costumam ser burocráticas, pouco reveladoras e, às vezes, até hostis. As mentes mais brilhantes da literatura, quando contrariadas, não medem palavras para escapar da intrusão de seus interlocutores.

A australiana Ramona Koval, autora de Conversas com escritores. O livro reúne entrevistas com 26 autores (Foto: Reprodução)

A australiana Ramona Koval, autora de Conversas com escritores. O livro reúne entrevistas com 26 autores (Foto: Reprodução)

A aversão de autores famosos às entrevistas já rendeu belas citações. Vladimir Nabokov criticava sua falsa informalidade. Uma de suas frases mais célebres expõe outro motivo para preferir a palavra escrita às conversas: “Eu penso como um gênio, escrevo como um autor renomado e falo como uma criança”. J. M. Coetzee definiu as entrevistas como “um intercâmbio com um completo estranho, todavia autorizado pelas convenções do gênero a transpor os limites do que é adequado numa conversa entre estranhos.” Rudyard Kipling, de O livro da selva, é o autor de uma das críticas mais duras às entrevistas literárias. “É um crime, uma ofensa, um ataque à minha pessoa, e da mesma forma merece punição. É vil e covarde. Nenhum indivíduo respeitável pediria e muito menos daria uma entrevista.”

Em sua longa carreira no rádio, a australiana Ramona Koval tornou-se especialista em vencer a resistência de escritores e convencê-los a ter conversas francas. Se o sonho de todo leitor é conversar com seu autor favorito, Ramona é uma leitora de sorte. Seu programa The book show (O show dos livros), veiculado entre 2006 e 2011 na Rádio Nacional da Austrália, apresentou dezenas de entrevistas com grandes escritores das últimas décadas. Entre os convidados, destacam-se Toni Morrison, Saul Bellow, Harold Pinter e Mario Vargas Llosa, laureados com o Nobel de Literatura. Suas melhores entrevistas estão reunidas no livro Conversas com escritores (Biblioteca Azul, 448 páginas, R$ 54,90, tradução de Denise Bottmann).

Ao contrário das entrevistas de publicações literárias renomadas como a Paris Review, exaustivamente revisadas e corrigidas pelos autores antes de sua publicação, as conversas de Ramona com escritores chamam atenção pelo tom leve e pela variedade de temas discutidos. Perguntas sobre os livros e seus personagens dividem espaço com divagações filosóficas: como avaliar a vida? Como adquirir sabedoria? Como enfrentar a morte? São, segundo Ramona, “grandes perguntas às quais estes grandes escritores dão as melhores respostas”.

Numa entrevista a ÉPOCA, Ramona revelou alguns de seus segredos para conduzir boas conversas com escritores. O primeiro é esmiuçar a vida e a obra de cada um deles. “Gosto de ler tudo o que o autor escreveu, tudo o que foi escrito sobre ele, e todas as resenhas de seus trabalhos. Sou como um soldado se preparando para uma batalha”, afirma. A preparação extensa é fundamental para seguir sua segunda dica: não se deixar intimidar, por mais brilhante e premiado que seja o interlocutor. “A maioria dos autores se sente honrada quando tem um leitor dedicado à sua frente.” Por fim, o entrevistador deve estar constantemente alerta, mesmo quando a entrevista parece fluir bem. “Você pode aproveitar o momento, mas nunca relaxe até que a conversa tenha acabado”.

A atenção e a pesquisa cuidadosa de Ramona a ajudaram a contornar situações difíceis. Ao encontrar a americana Toni Morrison, começou a conversa perguntando como a autora gostaria de ser apresentada. Escapou, assim, das respostas atravessadas que Morrison dava a jornalistas que a tratavam com informalidade ou deixavam de apresentá-la como “a primeira negra americana a ganhar o prêmio Nobel de Literatura”. Noutra entrevista publicada em Conversas com escritores, a romancista Joyce Carol Oates respondia a todas as perguntas de forma ríspida, até que Ramona mostrou ter lido dois de seus livros mais obscuros. “Puxa, vou lhe dar uma medalha. Ninguém leu esses livros, só o editor e eu”, disse Joyce. Foi o início de uma longa conversa sobre essas obras, com confissões de Joyce sobre a importância da dor para a escrita. “Muitos artistas são masoquistas. Não é que a gente goste de dor, mas aprende a lidar com ela.”

Algumas entrevistas são prazerosas do início ao fim, sem momentos de tensão. Uma delas foi com Joseph Heller, autor de Catch-22, descrito pela autora como “bonitão e charmoso”, mesmo aos 75 anos. Depois de uma discussão sobre a política americana e a importância de Heller na literatura do país, os dois engataram uma agradável conversa sobre amor, sabedoria e bondade. A entrevista também revelou que o autor, conhecido pelos textos bem-humorados, raramente ria enquanto escrevia. “Escrever é um trabalho difícil”, disse ele. O peruano Mario Vargas Llosa deu um depoimento sincero sobre seu desejo de ser escritor na infância, contrariando a vontade de seu pai: “Escrever era uma forma de me defender, de resistir a essa autoridade”. O romancista Saul Bellow chegou a se entusiasmar exageradamente com o conhecimento de Ramona sobre sua obra. Após uma longa conversa em seu escritório, Bellow disse que, se fosse mais jovem, a convidaria para sair. Ela mostrou estar bem preparada e disse que sabia que o autor era casado.

Ler entrevistas de grandes autores não é essencial para compreender e admirar sua obra. Os reclusos estão certos em sua crença de que os livros devem falar por si. As entrevistas cumprem outra função. Servem para que cada leitor, mesmo sem ter acesso a seu autor favorito, possa realizar parcialmente o sonho de conversar com ele. “Uma entrevista literária não vai lhe dizer como é um escritor. Muito mais interessante para alguns, ela vai lhe dizer como é entrevistar um escritor”, diz Martin Amis, um dos convidados de Ramona. Nem sempre funciona. “Alguns autores não tem nada de iluminador a dizer sobre suas criações. Outros escrevem livros lindos, mas não são pessoas calorosas. É melhor não encontrá-los, para preservar a ilusão romântica”, diz a autora. Mesmo assim, as tentativas bem-sucedidas conseguem revelar os bastidores de grandes obras da literatura e curiosidades sobre os escritores, como seus hábitos de trabalho e suas opiniões sobre temas variados. É em nome dessa modesta contribuição para o mundo da literatura que pessoas como Ramona se esforçam para interromper o silêncio produtivo dos escritores e garantir que as perguntas dos leitores não fiquem sem respostas.

Documentário promete retratar a vida íntima do discreto autor de “O apanhador no campo de centeio”

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O escritor americano J.D. Salinger também será mote de livro

O autor americano e exemplares de sua mais célebre obra AP Photo/Amy Sancetta

O autor americano e exemplares de sua mais célebre obra AP Photo/Amy Sancetta

Publicado em O Globo

RIO – Autor de “O apanhador no campo de centeio” e um dos reclusos mais famosos dos Estados Unidos, J.D. Salinger (1919-2010) será mote de um documentário, cujos detalhes são mantidos em segredo tanto quanto ele próprio o fazia com sua vida privada.

“Salinger”, o filme, foi escrito ao longo de nove anos por Shane Salerno, que também dirige e produz o longa, bancado por ele mesmo. O projeto é uma virada na carreira de Salerno, mais conhecido pelo trabalho como roteirista de blockbusters tradicionais como “Alien vs. Predador”.

Mas a promessa de descobrir detalhes da vida de um dos escritores mais respeitados da América provou ser uma atração enorme para Hollywood. “Salinger” foi comprado pelo magnata do cinema independente Harvey Weinstein depois de ter viso uma exibição privada na manhã do Oscar deste ano. Mesmo que, na amostra, não tenha visto todas as revelações que o filme promete, ele fechou negócio imediatamente.

Salerno e sua equipe também estão lançando um programa de TV baseado no documentário e já fecharam acordo com a editora Simon and Schuster para publicar um livro chamado “A guerra particular de J.D. Salinger”.

Como Salerno não dá entrevistas, há especulações febris sobre detalhes de casos de amor e rumores de manuscritos inéditos de Salinger. Uma das poucas pistas veio quando Salerno anunciou o negócio do livro. “O mito que as pessoas criaram e acreditaram nos últimos 60 anos em torno de J.D. Salinger é de alguém muito puro para ser publicado, muito sensível para ser tocado. Substituímos esse mito por um ser humano extraordinariamente complexo e profundamente contraditório. Nosso livro oferece uma completa reavaliação e reinterpretação de seu trabalho e de sua vida”, disse Salerno.

“Todos os Poemas” expõe faceta pouco conhecida do escritor Paul Auster

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Lucas Ferraz, na Folha de S.Paulo

O ano de 1979 marcou uma virada na vida do escritor americano Paul Auster, 66. Com o primeiro casamento em crise e quebrado financeiramente, ele encerrava a década em que se dedicou à poesia em crise existencial e literária.

Sem conseguir escrever desde o ano anterior, ele se arriscava novamente na prosa com o texto experimental “Espaços em Branco”, que coincidentemente concluiu na mesma noite em que seu pai morreu.

Para Auster, foi seu renascimento como escritor e ponto de partida para tornar-se um dos mais importantes nomes da literatura contemporânea dos EUA.

O escritor americano Paul Auster, que tem suas poesias reunidas em livro, em Paris (Thomas Samson/AFP)

O escritor americano Paul Auster, que tem suas poesias reunidas em livro, em Paris (Thomas Samson/AFP)

Toda sua produção literária até esse período, que marca os anos de formação do autor, acaba de chegar às livrarias.

Todos os Poemas” (Companhia das Letras) expõe uma faceta pouco conhecida de Auster até mesmo por seu público nos EUA: a reunião de sua obra poética, escrita na década de 1970 – as exceções são “Espaços em Branco” e as reflexões “Anotações de um caderno de rascunhos”, de 1967, compostas quando ele tinha 20 anos.

“Foi a fundação de tudo o que fiz nos 30 anos seguintes”, disse o escritor em entrevista à Folha.

Fragmentos dos romances que tentou escrever nessa época foram usados anos depois na novela “Cidade de Vidro”, que compõe um de seus mais famosos livros, “A Trilogia de Nova York”.

“Nunca estava satisfeito com o que escrevia. Quando tinha 22 ou 23 anos, decidi que não poderia mais escrever ficção. Então me dediquei apenas à poesia”.

Parte dos poemas foram escritos no período em que viveu na França, entre 71 e 74. Na segunda metade daquela década, algumas de suas coletâneas foram publicadas em revistas de poesia, mas sem transformá-lo em um nome conhecido.

Há em seus poemas elementos que, mais tarde, ele desenvolveria em sua obra ficcional, como o existencialismo.

O último poema ele escreveu em 1979. “Descobri que estava me repetindo, a poesia me abandonou”, conta. “Talvez algum dia eu ressuscite e escreva [poesia] novamente”.

Sobre os diferentes gêneros em que transitou, ele faz uma comparação: “Poesia é como tirar fotografia, enquanto escrever ficção é como dirigir um filme, com imagens e muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo”.

Auster não tem dúvida de que “Espaços em Branco” foi um trabalho seminal para sua transição entre poesia e prosa.

Inspirado em um espetáculo de dança, ele tentou traduzir a experiência da performance coreográfica. O autor trabalhou no texto por duas semanas. O ponto final foi dado na madrugada do dia 15 de janeiro de 1979, mesma noite em que perdeu o pai.

“Foi algo cruel e estranho, que ainda me machuca. Justo no momento em que voltei à vida, meu pai morre. Foi terrível”, recordou Auster.

Após a morte do pai, o escritor começou a trabalhar no que seria seu primeiro romance, “A Invenção da Solidão”, em que mescla recordações pessoais, tendo como base a figura paterna, com imagens literárias e artísticas.

A seguir, trechos da entrevista que ele concedeu à Folha, em Nova York, na última quinta. (mais…)

Desmoronamento

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Juntaram as minhas partes, me espanaram e me mandaram para casa. Eu não disse para ninguém que deveria estar morto

Luiz Fernando Verissimo, em O Globo

O prédio de lata estava desmoronando e eu estava dentro dele, desmoronando também. Caía de bruços como um super-herói que esqueceu como voar, com a cara virada para o chão, ou para o saguão do prédio, que se aproximava rapidamente. Se eu me espatifasse no saguão, certamente morreria, pois seria soterrado pela lataria em decomposição que acompanhava meu voo.

O fim do sonho seria o meu fim também. Mas a queda era interrompida, a intervalos, como naquelas “lojas de departamento” em que o elevador parava, o ascensorista abria a porta e anunciava: “Lingerie”, “adereços femininos” etc.

Levei algum tempo para me dar conta que aquelas paradas não eram só para interromper o terror da queda. Eram oportunidades de fuga. O sonho me oferecia alternativas para a morte, se eu fizesse a escolha certa. Ou então me dava um minuto para pensar em todas as escolhas erradas que tinham me levado àquele momento e à morte certa: os exageros, os caminhos não tomados e as bebidas tomadas, as decisões equivocadas e as indecisões fatais, o excesso de açúcar e de sal, a falta de juízo e de moderação.

Não posso afirmar com certeza, mas acho que ouvi o ascensorista fantasma dizer, em vez de “lingerie” e “adereços femininos”: “Desce aqui e salva a tua alma” ou “Pense no que poderia ter sido, pense no que poderia ter sido…” As paradas não eram para diminuir o terror, as paradas eram parte do terror! Eu não tinha tempo nem para a fuga nem para a contrição. E o saguão se aproximava.

Decidi me resignar. É uma das maneiras que a morte nos pega, pensei: pela resignação, pela desistência. Meu corpo não me pertencia mais, era parte de uma representação da minha morte, o protagonista de um sonho, absurdo como todos os sonhos. Talvez a morte fosse sempre precedida de um sonho como aquele, uma súmula de entrega e renúncia à vida, mais ou menos dramática conforme a personalidade do morto.

Um sonho com anjos e nuvens rosas ou um sonho de destruição, como eu merecia. Eu nunca saberia por que meu sonho terminal fora aquele, eu desmoronando junto com um prédio de lata. Mas nossas explicações morrem com a gente.

No fim do sonho me espatifei no chão do saguão e esperei que o prédio caísse nas minha costas. Em vez disso, ouvi a voz do dr. Alberto Augusto Rosa me perguntando se eu sabia onde estava. “Hospital Moinhos de Vento”, arrisquei. Acertei. Lá juntaram as minhas partes, me espanaram e me mandaram para casa. E eu não disse para ninguém que deveria estar morto.

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