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Morre Aurora Bernárdez, viúva de Cortázar e peça-chave da sua literatura

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Aurora Bernárdez em uma exposição em 2005. / ricardo gutierrez

Aurora Bernárdez em uma exposição em 2005. / ricardo gutierrez

Ela foi responsável por revitalizar a obra do grande autor com sua amiga Carmen Balcells

Juan Cruz Ruiz, no El País

Aurora Bernárdez, viúva de Julio Cortázar, tradutora literária de Camus, Sartre, Durrell…, morreu no sábado aos 94 anos em um hospital em Paris. Tinha sofrido uma queda na sexta-feira, ao sair de uma consulta médica, como consequência de um acidente vascular cerebral. Foi casada com Cortázar desde os anos cinquenta, foi relevante na escrita de seus primeiros livros mais importantes, incluindo O Jogo da Amarelinha; aparece em outros, como companheira fiel, como uma memória inteligente e infatigável. Depois de sua separação, nos anos setenta, o escritor viveu com outras mulheres, a agente Ugné Kurvelis e a fotógrafa e escritora Carol Dunlop; depois da morte desta última, em 1983, Cortázar adoeceu gravemente. Foi Aurora Bernárdez quem cuidou dele até o final.

Depois do falecimento do autor de Todos os Fogos o Fogo, foi Bernárdez quem se encarregou de revitalizar a obra do grande cronópio, que continua sendo lido em todo o mundo de idioma castelhano como se nunca houvesse desaparecido. Esta e outras admiráveis traduções (de William Faulkner, por exemplo) são suas melhores obras, assim como sua capacidade para lembrar e para contar com todo detalhe o que viveu junto a Cortázar e outros grandes escritores do século XX.
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Bernárdez foi a inteligente alegria, a força de uma memória prodigiosa; conseguiu a publicação das cartas de Cortázar, memorável esforço editorial que agora é um tesouro, sobre a vida do autor de O Jogo de Amarelinha; também foi sua mão que seguiu até o último instante a revitalização necessária da obra desse escritor relevante na vocação literária ibero-americana de nossos dias.

Tudo o que aconteceu com Julio Cortázar como autor, depois da morte triste em 1984, tem a ver com essa mulher miúda e sorridente, que deixava de sorrir quando se diziam tolices ou equívocos ao seu redor. Perseguiu com sensatez a verdade sobre Julio, contra aqueles que alimentaram, com boas intenções às vezes, falsidades que ela considerou pouco felizes. Queria que as pessoas soubessem realmente quem foi Julio, desde que o conheceu nos anos 50 do século passado até que se separaram, surpreendentemente, e até que depois, nos últimos tempos do autor de O Jogo de Amarelinha, voltou a ficar ao seu lado para cuidar dele depois de perder sua última mulher, Carol Dunlop, e de, além disso, perder a saúde.

Em todo esse trânsito não se ouviu dela nenhuma palavra mais alta sobre sua convivência com Julio, e de maneira milagrosa recordou não apenas os períodos que se manteve ao seu lado, mas que tinha viva ciência de coisas que aconteceram a Cortázar quando já não estavam juntos. Com uma constância que se deve ao amor, nunca interrompido, ela retomou (com a agente literária Carmen Balcells), nos anos 90, a presença de Cortázar nas livrarias, empreendeu reedições de livros que voltaram a ter vida e resgatou do esquecimento (por exemplo, o livro sobre Yeats) manuscritos perdidos ou edições que se tornaram impossíveis de encontrar quando na Espanha e no mundo a curta memória literária havia condenado Cortázar a ser, unicamente, o autor daquele famoso romance.

Simbolicamente, ela acompanhou muitos jovens escritores e leitores, em Madri, em torno de 1994, quando a editora Alfaguara começou a fazer essas reedições de resgate, que puseram outra vez Cortázar ao alcance de todos os gostos e de todo mundo. Nos últimos tempos, pelas mãos de Carles Álvarez e de seus amigos do Centro de Arte Moderno de Madri, essa obra passada e presente assumiu uma extraordinária atualidade; na Casa do Leitor, do Matadero Madrid, se pode ver uma exposição que expressa a vida de Cortázar como leitor, montada pelo citado centro de Arte Moderna; lá está Cortázar lendo e escrevendo, e vivendo depois de ter sido declarado, estupidamente, morto para a atualidade literária.

A pessoa que tornou possível esse resgate que dura até hoje e que perdura é Aurora Bernárdez, a inteligência alegre que contava, sem perder jamais nem um ponto e vírgula, a vida de Julio. Quando se recuperou Cortázar, depois dos anos de esquecimento após sua morte, se divulgou um slogan, Amamos tanto Julio; à frente desse pelotão numeroso e inapreensível estava Aurora Bernárdez.

Viúva de José Saramago, Pilar del Río fala sobre romance inacabado do escritor

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‘Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas!’, livro incompleto do Nobel de Literatura, chega às livrarias brasileiras

Pilar del Rio admite pensar mais na morte depois da perda do companheiro

Pilar del Rio admite pensar mais na morte depois da perda do companheiro

Vanessa Aquino, no Divirta-se

O novo romance do escritor português José Saramago chegou às livrarias brasileiras, em setembro, com um alarde a mais além do título, que destaca em letras vermelhas trecho extraído da obra ‘Exortação da guerra’, de Gil Vicente: ‘Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas!’. Acontece que Saramago morreu antes mesmo de concluir a história. A publicação do livro causou celeuma entre os críticos. Segundo eles, dificilmente o autor publicaria algo antes da finalização. A viúva do mestre, Pilar del Río, no entanto, afirma que se trata de uma obra acabada. Ela diz que Saramago finalizou as páginas, embora não tenha conseguido terminar o romance em si. A edição contém notas do autor com descrições dos passos da construção da narrativa, ideias, detalhes e dúvidas a respeito do título.

Antes de acabar o romance, Saramago, no entanto, sabia bem como terminaria. “Creio que poderemos vir a ter um livro. O primeiro capítulo, refundido, não reescrito, saiu bem, apontando já algumas vias para a tal história ‘humana’. Os caracteres de Felícia e do marido aparecem bastante definidos. O livro terminará com um sonoro ‘Vá à merda’, proferido por ela. Um remate exemplar”, escreveu Saramago em uma das notas que compõem a publicação.

A história não terminou como Saramago previu. Aliás, não terminou. Faltou, inclusive, um ponto final — o que deixa o texto tão aberto, que o crítico português Alberto Gonçalves sugere que ‘Alabardas’ inaugura um novo gênero, o de romances “praticamente por começar” e conclui: “Meia dúzia de críticos hão de considerar estarmos perante um momento de ruptura na cultura universal”. No entanto, o estilo consagrado do polêmico escritor acaba se destacando, como sempre ocorreu antes mesmo da publicação de seus livros. O debate acerca da temática das obras começava logo no anúncio de lançamento de um romance.

'Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas!' De José Saramago. Companhia das Letras, 112 páginas. R$ 27,50

‘Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas!’ De José Saramago. Companhia das Letras, 112 páginas. R$ 27,50

“Num certo sentido, ‘Alabardas’ consagra de fato o estilo do Nobel, que em vida fazia questão de anunciar, ele próprio, o caráter polêmico de cada livro antes mesmo de o livro chegar ao público. Devido a condicionantes óbvias (a morte do autor), agora o anúncio da polêmica ficou a cargo de terceiros, mas o processo é idêntico e com uma vantagem: se o hábito consiste em privilegiar a algazarra em detrimento do conteúdo, desta vez o conteúdo quase não existe e a algazarra abunda. Saramago vintage, de fato. E, desde que ignoremos os pechisbeques anexos, a minha obra preferida dele. As outras não se liam em horas. Conto não ler esta em 20 minutos”, diz o crítico.

Em entrevista, Pilar del Río justifica a publicação da obra e garante que não há mais livros inéditos de Saramago. Diz também que o novo trabalho é um final feliz “em mais alto grau de criatividade.” A jornalista fala, ainda, sobre a ausência do marido, o dia a dia na Fundação Saramago e as parcerias com Fernando Gómez Aguilera, Luiz Eduardo Soares e Roberto Saviano, que assinam os textos que complementam o livro; assim como a participação de Günter Grass com os traços fortes que ilustram a história do Nobel português.

Entrevista / Pilar del Río

Como veio a decisão de publicar uma obra inacabada de Saramago?
Porque é uma obra acabada, de um mestre da literatura, que merece ser conhecida pelos leitores. E digo bem: essas páginas estão acabadas, mesmo que o romance não esteja. É o que se entende pelas notas que o autor deixou escritas e que foram publicadas.

Ele chegou a revisar o texto? Acredita que ele publicaria um livro sem revisar?
Não sei se faria, porque nunca vou interpretar quem não está aqui. Sei, isso sim, que os capítulos que ele deixou estão acabados. Também sei que era fiel leitor de obras cujos autores não puderam terminar, como Camus e Mann.

A maioria das críticas sugere que Saramago não teria revisado o texto. E que isso comprometeria a obra. Como avalia isso?
O texto estava revisado, pronto. O autor ia mudar de nome e a morte veio quanto estudava outra frase. Digamos que o planejamento estava em finalização também, como se pode ver nas notas.

Como você vê que os textos complementares de Roberto Saviano, Fernando Gómez Aguilera e Luiz Eduardo contribuem no texto de Saramago?
Como disse um editor brasileiro na apresentação em Lisboa, o diálogo se produz no livro porque o autor não está aqui para mantê-lo fora. Estes três autores completam a função ética de Alabardas, a de dar uma porrada nas consciências adormecidas de tanta gente. Saramago estabelece a função literária e abre caminho para os demais.

E a parceria com Günter Grass, como se deu?
Como se dão as relações entre colegas, de forma generosa e decidida: dos antibelicistas que se gostam, se respeitam e se valorizam.

Saramago é considerado um autor profundamente parabólico. Você concorda com isso? O que acredita ser a principal mensagem desse novo livro?
Não sei se é um autor parabólico… José Saramago podia utilizar a alegoria ou outra forma literária, o que nunca fez de seus romances algo panfletário ou de falso moralismo. Ele fazia literatura a partir de assuntos que lhe inquietavam e os desenvolvia com seu peculiar e estupendo estilo literário. Respeitava muito o leitor, para fazer doutrina, como sabe qualquer leitor que já o leu. E o humor e a ironia estão sempre presentes antes de qualquer tentação de deixar que pesem ideias e conceitos dogmáticos, sejam políticos, sejam religiosos. José Saramago era um antidogmático.

Há outro trabalho inédito a ser publicado?
Não, não há nenhum outro livro a ser publicado. Haverá, sim, e espero que muitas, reedições.

Como anda o projeto do Diocionário Saramaguiano?
Está a caminho, mas não é a Fundação que está tocando. É o professor Carlos Reis, a partir de sua absoluta e grande liberdade de acadêmico de primeira ordem.

Como é a sua rotina com a demanda de trabalho da fundação?
Rotina? Cada dia é novo. Os brasileiros que vêm se assombram de ver como se trabalha. E se emocionam com a exposição permanente e com o espírito da casa. Muitos também vão a Lanzarote, onde se pode ver a casa e a biblioteca de José Saramago, que está aberta para visita pública.

O que da convivência com Saramago você mais sente falta?
Isso, a convivência e me desculpe por não ser mais explícita neste assunto tão pessoal.

Passou a ver a morte de uma maneira diferente depois que ele morreu?
Talvez a desejá-la mais. E que seja tão natural e tranquila como a que ele teve.

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