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Posts tagged Vivos

Se vivos, aos cem anos

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Ruy Castro, na Folha de S.Paulo

Incrível, Vinicius de Moraes faria cem anos em 2013. Logo ele, que não viveu nem para dar uma festa de 69 anos, como planejava, regada ao uísque Vat 69, popular então. Vate, em português, como sinônimo de poeta, já era uma palavra fora de moda em meados do século 20, e só se a empregava de brincadeira. Era como Vinicius a usava.

Quem também completaria cem anos neste ano era seu amigo Ciro Monteiro, um dos quatro ou cinco maiores cantores brasileiros do século, e que Vinicius dizia entender mais da vida do que Guimarães Rosa. Ciro morava na rua Silveira Martins, no Catete, e tinha conta no pipoqueiro da esquina. Os meninos da rua se serviam e, uma vez por mês, Ciro acertava com o homem. Não por isso, claro, Vinicius achava que ele era santo. De fato, a bondade de Ciro Monteiro se refletia até no jeito de cantar.

Outro centenário de 2013 seria o de Rubem Braga, igualmente amigo de Vinicius. Foi Rubem quem, num restaurante, apresentou o casado Vinicius à bela Lila, irmã de Ronaldo Bôscoli: “Vinicius, aqui Lila Bôscoli. Lila, aqui Vinicius de Moraes. E seja o que Deus quiser”. Ato contínuo, Vinicius abandonou sua mulher, Tati, e se casou com Lila. O próprio Rubem despertava paixões. Entre uma e outra, escrevia uma obra-prima em forma de crônica.

E quem, idem, faria cem anos em 2013 seria Wilson Baptista, que não tinha nada de santo. O autor de “Oh, seu Oscar!”, “Acertei no Milhar”, “Mundo de Zinco”, “Louco”, “Emília”, “Balzaquiana”, “Pedreiro Valdemar” e tantas mais, com ou sem parceiros, só pecou por ser contemporâneo de Ary Barroso, Noel Rosa, Lamartine Babo, Braguinha e Orestes Barbosa, tão bons de samba quanto de cartaz. Mas fique de olho, o Brasil vai redescobrir Wilson.

É impossível imaginar esses homens, se vivos, aos cem anos. Nem devemos. Não lhes cairia bem.

A literatura na era do Twitter

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Alberto Dines, no Observatório da Imprensa

Concomitantes: impossível não relacionar a biografia de Paula Broadwell sobre o general David Petraeus, com os anúncios de Phillip Roth e Imre Kertész que deixarão de escrever livros, falar de livros, ler livros.

A biógrafa sedutora que derrubou um dos homens mais poderosos do mundo encarna a degradação de um antiquíssimo gênero literário, a arte de contar vidas. Madame Broadwell, formada em Harvard, ex-major do exército americano, não fez biografia, praticou biofagia – alimentação a base de seres vivos. Em outras palavras: comeu o seu general.

A abdicação dos dois extraordinários ficcionistas tem a ver com outro aspecto da degradação dos tempos modernos: já não faz sentido escrever. Histórias já não mudam o mundo, muito menos a humanidade. Interessam, arrebatam, vendem muito, não inspiram. E não porque tudo já tenha sido escrito, contado e recontado, mas porque a literatura torna-se inócua à medida que se agiganta a quantidade de livros impressos ou digitados.

Como Saramago

Um, americano de segunda geração, 79 anos, o outro húngaro, de 83, descendem da mesma cepa humanista europeia. O fato de serem judeus não é suficiente para igualá-los. Há escrevinhadores judeus absolutamente abjetos. Borra-papéis. Estes trazem consigo a mensagem da insatisfação e contestação.

Renunciantes, abriram mão de confortáveis situações e, sobretudo, do reconhecimento universal – preferem enfurnar-se. Mudaram de rumo não porque chegaram ao último terço de suas vidas e vislumbraram logo adiante a curva na estrada. Não são casos de bloqueio criativo, ou depressão. Ao anunciar que vão parar mostraram-se atentos ao que está acontecendo, são refuseniks, objetores de consciência – o pessimismo prova uma intensa criatividade. Agora, sim, alcançaram o apogeu.

Não são suicidas, mas batalhadores, enérgicos, têm fé em valores que poucos percebem inclusive muitos de seus leitores. Questionam não porque querem mais – ao contrário, querem menos. Suas são revoltas contra os excessos e demasias. Protestam em silêncio, esta é a forma mais altiva de criar.

Roth & Kertész não se resignam, vão em frente, certamente têm projetos: o mais perceptível é enfrentar o delirante e degradante culto ao sucesso que converte os mais sublimes desafios em aviltantes assaltos.

Este mesmo culto ao triunfo empurrou Paula Broadwell para a ribalta da fama. Queria uma biografia autorizada do mais condecorado general americano e invalidou-a em seguida. Muitos biógrafos conviveram com seus biografados – o caso mais conhecido é o de James Boswell, cuja biografia de Samuel Johnson, de 1791, é considerada a mais perfeita da literatura inglesa.

Roth ou Kertész não conheciam Paula Broadwell, o que se evidencia é a recusa em tê-la como personagem e contar este tipo de história. Tal como José Saramago, rejeitam os grunhidos da era do Twitter. Macbeth, o demoníaco, vivia em outra dimensão.

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