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Um Nobel para o jornalismo ou por que você deveria ler Svetlana Alexievich

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JOEL SAGET/AFP/Getty Images)

JOEL SAGET/AFP/Getty Images)

 

Maurício Santoro, no Brasil Post

O Nobel de Literatura de 2015 foi para uma jornalista nascida na antiga União Soviética, cujos livros de não-ficção são uma excelente crônica das guerras e catástrofes que marcaram o declínio do comunismo.

Natural da Bielorússia, Svetlana Alexievich dá voz às pessoas comuns que refletem sobre suas experiências em lutas épicas ou cotidianas, refletindo a respeito dos combates contra a Alemanha nazista, do desastre nuclear em Tchernóbil e do desmantelamento do Estado soviético. A Companhia das Letras começou a publicá-la no Brasil e a autora veio ao Brasil para participar da Festa Literária de Paraty.

Svetlana Alexievich escreve em russo e seu trabalho como jornalista ecoa a extraordinária tradição literária nesse idioma, com seus valores humanistas, olhar sensível para a vida diária e uma pungente avaliação dos destinos nacionais.

Sua obra-prima é “Vozes de Tchernóbil”, uma crônica da explosão de um reator nuclear na Ucrânia que se tornou a pior calamidade atômica depois das bombas contra Hiroshima e Nagasáki, e um símbolo do colapso soviético.

Svetlana narra essa história por meio de entrevistas com moradores locais que sobreviveram ao desastre, parentes das vítimas fatais e pessoas cujas vidas foram de algum modo alteradas pela tragédia – incluindo habitantes de países vizinhos, como a Bielo-Rússia, que tiveram que ser evacuados de suas casas por conta dos efeitos da radiação.

Svetlana não usa o estilo convencional das entrevistas com perguntas e respostas – ela dá voz a seus entrevistados por meio de monólogos ou declarações mais longas do que o habitualmente encontrado na imprensa. Naturalmente, as falas são editadas pela autora, mas a sensação geral é de escutarmos pessoas que em geral não aparecem nas narrativas oficiais. Romances corais ou polifônicos, como às vezes são definidos. Um exemplo:

“Não sou escritor. Não sou capaz de descrever isso. Minha mente não é capaz de entender. Nem meu diploma universitário. Aí está você: uma pessoa comum. Uma pequena pessoa. Você é exatamente como qualquer um – você vai trabalhar, você volta do trabalho. Você recebe um salário mediano. Uma vez por ano você sai de férias. Você é uma pessoa normal! E aí um dia você é subitamente transformado numa pessoa de Tchernóbil. Em um animal, alguma coisa na qual todos estão interessados, mas sobre a qual ninguém sabe nada.”

Outra ilustração dessa abordagem é “A Guerra não tem rosto de mulher”, o outro livro de Svetlana Alexievich lançado no Brasil. Trata-se de um conjunto de entrevistas com veteranas soviéticas da II Guerra Mundial – o Exército Vermelho recrutou 1 milhão de integrantes femininas, inclusive em diversas posições de combate, de franco-atiradoras a pilotos de caças:

“A vila de minha infância depois da guerra era feminina. Das mulheres. Não me lembro de vozes masculinas. Tanto que isso ficou comigo: quem conta a guerra são as mulheres. Choram. Cantam enquanto choram.”

Elas contam à jornalista histórias de heroísmo, perdas, traumas e sacrifício, como a experiência de matar, a morte de amigos e parentes, o medo da violência sexual.

Mas narram também episódios de beleza ou humor, como casos de amor, o esforço por cuidar da aparência e por manter a capacidade de horror diante da brutalidade da guerra e de compaixão, mesmo diante dos inimigos alemães:

“Mas parece que, nesse território pequeno e cômodo para o olhar – o espaço de uma alma humana – tudo é ainda mais incompreensível, menos previsível do que na história.”

Svetlana Alexievich é autora de outros livros ainda não publicados no Brasil, mas já disponíveis em diversas línguas, inclusive em português. O Fim do Homem Soviético é um tocante balanço do declínio e queda da URSS, identificando a guerra e a prisão como as duas experiências definidoras daquele Estado comunista. Zinky Boys é uma denúncia da invasão soviética do Afeganistão por meio de relatos dos veteranos daquele conflito, ou dos parentes e amigos dos que lá morreram.

Nobel Svetlana Alexievitch faz a mesa mais intensa da Flip

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Foto: Walter Craveiro / Divulgação / Divulgação

Foto: Walter Craveiro / Divulgação / Divulgação

 

Autora de “Vozes de Tchernóbil” falou sobre sua experiência ouvindo pessoas comuns para montar parte da história do século 20

Carlos André Moreira, no Zero Hora

Devido ao caráter vetusto do prêmio mais que centenário, não é sempre que se espera intensidade de um Prêmio Nobel de Literatura. Portanto, talvez tenha sido surpresa para alguns que a mesa mais intensa desta 14ª Festa Literária Internacional de Paraty tenha ocorrido na tarde deste sábado, pela voz da jornalista Svetlana Alexievitch – e que essa voz tenha sido calma e lúcida, instrumento que a autora de Vozes de Tchernóbil usa para se transformar, em suas próprias palavras, em um ouvido a serviço de seus personagens. Além de ter lotado o espaço da tenda dos autores, a Nobel também reuniu mais de 1,8 mil pessoas interessadas em ver sua palestra no telão que transmite as sessões para quem não comprou o ingresso.

Svetlana já teve dois livros lançados por aqui: sua obra mais conhecida no mundo (embora pouco conhecida em lugares como o Brasil antes do Nobel), Vozes de Tchernóbil, e A Guerra não tem rosto de mulher. Ambos, bem como os demais livros da autora ainda não publicados por aqui, são montados como uma coleção de depoimentos em primeira pessoa em que a autora limita a breves comentários sua participação, preferindo apresentar monólogos de gente comum que montam um panorama único da história russa por meio de seu testemunho. Respondendo a uma pergunta do mediador Paulo Roberto Pires, jornalista e editor da Serrote, ela datou na infância em uma aldeia na Bielorrússia, no imediato pós-Segunda Guerra.

— Fui criada numa aldeia em que quase não havia homens, e as mulheres eram maioria. Por meus pais serem professores, tínhamos livros em casa, mas eu preferia sair para a rua e ouvir as mulheres reunidas contando suas histórias. Achava que ouvi-las contar como haviam se despedido de seus maridos indo para a guerra me ensinaria muito mais do que os livros – contou.

Depois de haver se formado em jornalismo e exercido a profissão por 10 anos, Svetlana voltaria a esse fascínio pelas vozes comuns até como uma forma de escapar do que considerava um problema no ofício, a superficialidade e o hábito de se focar em banalidades. Começou então seu longo projeto no qual cada livro demora muito tempo.

— Para escrever O Declínio do Homem Soviético (seu quinto livro sobre a história da União Soviética, publicado em 2014 e ainda inédito no Brasil), levei 17 anos. Porque eu entrevisto muita gente e gravo tudo. Porque no papel você tem dificuldade de mostrar a personalidade daquela pessoa. E de um depoimento de cem páginas, posso usar quatro ou cinco, e assim vou montando esse panorama.

Para ganhar a confiança de tanta gente a ponto de elas abrirem suas histórias e experiências mais íntimas, Svetlana tem um método também responsável pela demora em concluir seus livros:

— Eu não faço entrevistas. Eu converso. Como estou conversando com você aqui agora – disse ela ao mediador. – Não me aproximo querendo tirar algo, mas como um ser humano se aproximando de outro. Conversamos sobre tudo. Se estou falando com uma mulher que lutou na Segunda Guerra, não vou perguntar só disso, a gente fala da blusa nova, de como vão os filhos.

Segundo ela, o exemplo de uma mulher não é gratuito. Para ela, as mulheres são sempre as fontes dos depoimentos mais ricos, principalmente em uma cultura tão impregnada de violência como a russa. Algo que talvez fique mais claro se, a exemplo de Svetlana, preservarmos um pouco sua palavra por mais do que uma citação de três linhas:

— Os homens falam de um modo diferente sobre a guerra. Os jornais falam de outro modo. As mulheres, se você conversar com elas, aos poucos elas contam coisas de sua vida que dão outra dimensão ao relato. Estava conversando com uma mulher que havia lutado na guerra e que era uma mulher muito bonita, e perguntei a ela se havia sido muito difícil passar por aqueles anos, naquela frente de combate. Ela me perguntou como eu sabia disso, e eu disse que outras pessoas já haviam dito algo parecido. Perguntei então se ela teve medo de morrer. Ela me disse que morrer teria sido ruim, mas não era o pior, o pior foi ter que passar quatro anos usando cuecas masculinas. Ela estava pronta para morrer, mas não queria morrer vestindo cuecas de homem. Uma coisa é a verdade da guerra, outra é a verdade do ser humano. Essa mesma mulher em um momento se virou para mim e me disse: ¿Você quer saber como eu casei com meu marido¿? Eles estavam combatendo em Berlim, já diante do Portão de Brandenburgo, e ela disse que, quando ele a pediu em casamento, ela quis matá-lo. ¿Como assim ele me pede casamento aqui, nunca tivemos tempo de ele me dar flores, ele me pede em casamento no meio deste sangue?¿. O marido dela tinha metade do rosto queimado, e, ao dizer isso, ela viu uma lágrima escorrendo pelo rosto queimado dele, e ali ela aceitou casar com ele. E de repente ela parou de falar e me disse: ¿Nunca contei isso para ninguém, por que contei isso para você? Acho que porque você tem olhos de uma pessoa boa¿. Você tem de ser um pouco ingênuo ao falar com as pessoas, porque todos vemos nossa vida e o que amamos com uma certa ingenuidade.

Depois, Paulo Roberto Pires levou a conversa para o tema do livro Vozes de Tchernóbil, uma coleção de depoimentos sobre as consequências do acidente nuclear de 1985. Segundo ela, a tragédia inaugurou uma nova era humana, a era das catástrofes, depois da qual nada mais foi o mesmo, um horror que, segundo ela, vai além do Holocausto e os gulags soviéticos.

— A pior guerra pela qual passamos foi a Segunda Guerra, e, mesmo no caso dela, muitos dos que voltaram, mesmo tendo passado pelo horror dos campos, sentiam uma necessidade de a vida continuar. Quando fui a Tchernóbil depois do acidente, um local abandonado pelas pessoas, eu cheguei à conclusão: ¿Nunca mais o ser humano vai voltar aqui¿. Os nucleotídeos radioativos vão continuar lá por séculos, ninguém mais vai viver lá. Foi uma tragédia também que violou a noção de amigo e inimigo. Não havia inimigos. Durante sete dias depois do acidente, as abelhas se esconderam. E os humanos continuaram andando por lá, ninguém sabia nada, não se sabia que uma usina como aquela, que muitos falavam que deveria ter sido construída na Praça do Kremlin, era tão perigosa. A humanidade não estava pronta para o que aconteceu.

Svetlana reforçou que Tchernóbil deveria ser um alerta que o ser humano não soube ainda compreender ou seguir. E que a humanidade deveria ter avançado mais em alternativas à energia atômica, mas nada foi feito.

— Quando o livro foi lançado no Japão há alguns anos, estive por lá e alguns leitores vieram conversar comigo em meu hotel, e muitos deles, mesmo cientistas, diziam que aquilo só poderia ter acontecido em Tchernóbil, porque os russos não sabiam fazer as coisas direito, mas aqui a gente calculou tudo. Aumentamos a cobertura do reator, estamos preparado para tudo. E eu cheguei a dizer que não havia como prever o resultado de terremotos ou tsunamis frequentes no Japão, e eles insistiram que estavam prontos, que haviam calculado. E, poucos anos depois, tivemos Fukushima.

Por mais de uma vez ao longo do encontro, Svetlana foi interrompida por aplausos. No fim da conversa, compartilhou uma melancólica conclusão sobre os rumos da política e da democracia na Rússia de hoje, país ao qual ela voltou em 2011 depois de mais de uma década vivendo em cidades diferentes da Europa, como Paris e Gotemburgo. Ela partiu por perseguições políticas e, ao retornar, concluiu que as coisas estavam ainda piores.

— Chegamos à conclusão de que nós, os democratas, fomos derrotados. Conversávamos sobre a democracia em nossas cozinhas, mas, quando a União Soviética caiu, a população queria roupas novas, geladeira nova… Os bandidos logo tomaram o poder, eles estavam prontos para isso, mas nós, não. Se o ser humano vive um certo tempo preso em um campo, você abre a porta e diz que ele está livre, mas ele não sabe ser livre.

As experiências embrutecedoras que testemunhou depois de tanto tempo escrevendo sobre guerra também a afetaram. Hoje, de acordo com ela, ela não conseguiria mais acompanhar ou testemunhar coisas como as que viu no passado.

— Não consigo mais nem ir aos lugares de crianças abandonadas. Não fui à Chechênia porque sabia que não conseguiria mais entrar em hospitais com homens desmembrados, coisa que eu fiz muito antes. Não consigo mais fazer isso. E tudo o que tinha para escrever sobre guerras, já escrevi nos meus livros.

Svetlana terminou recebendo uma longa saudação do público, que aplaudiu de pé durante um bom tempo a mesa mais intensa desta Flip.

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