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Primavera Literária começa na quinta-feira no jardim do Museu da República

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Raquel Menezes, presidente da Libre, e Mariana Warth, diretora da organização - Divulgação

Raquel Menezes, presidente da Libre, e Mariana Warth, diretora da organização – Divulgação

 

Feira das editoras independentes chega a 16ª edição com debates e oficinas

Leonardo Cazes, em O Globo

RIO – Todos os anos as editoras independentes montam suas bancas no Museu da República, no Catete, para a mais democrática das feiras literárias do Rio de Janeiro. Na sua 16ª edição, que acontece entre os dias 17 e 20 de novembro das 10h às 21h, a Primavera Literária vai levar não só livros, mas também debates, oficinas, workshops e uma praça de alimentação formada por food bikes aos jardins do palácio. O evento é o principal encontro das casas pequenas e médias que fazem parte da Liga Brasileira de Editoras (Libre). Raquel Menezes, editora responsável pela Oficina Raquel e presidente da Libre, ressalta que a feira é a grande oportunidade das editoras menores apresentarem os seus catálogos ao grande público. A bibliodiversidade, que busca garantir a diversidade cultural do mundo do livro, é a grande bandeira da organização.

— A gente diz que trabalha em prol da bibliodiversidade o ano inteiro, conversando com o governo e outras entidades. Mas a Primavera Literária é quando colocamos as nossas ideias na rua. Juntamos a cultura com a venda de livros. Várias editoras têm imensa dificuldade de estar nas livrarias e, na feira, podem apresentar seus catálogos, que são super interessantes. Isso gera uma demanda para as editoras também depois do evento — afirma Raquel.

Neste ano, a presidente da Libre explica que houve mudanças no foco da programação. O número de debates foi reduzido, abrindo mais espaço para oficinas e workshops. Contudo, convidados internacionais também vão marcar presença. O brasilianista francês Jean-Paul Delfino vai participar da mesa “Rio à la française”, na quinta-feira, às 19h, que abordará a presença francesa na cidade, junto com o jornalista Rafael Freitas Silva, autor de “O Rio antes do Rio” (Babilônia Cultura Editorial). Outro destaque da programação é a mesa “Literatura: ferramenta contra o preconceito”, com a psicóloga Jaqueline Gomes de Jesus e Georgina Martins, professora da Faculdade de Letras da UFRJ. No Dia da Consciência Negra (20), haverá um sarau negro comandado pela escritora Sonia Rosa.

Entre as oficinas oferecidas durante o evento, estão a de matemática e literatura, a de produção de zines e a de animação em stop motion. Todas são gratuitas. Já no coreto do jardim vai acontecer o tradicional troca-troca de livros, com apoio da Secretaria municipal de Cultura. Ao longo dos quatro dias, quem levar obras usadas em bom estado poderá trocá-las por outras colocadas à disposição do público. No Espaço Leiturinha, parceria da Libre com o clube do livro infantil Leiturinha, haverá apresentação de peças teatrais e contação de histórias para crianças, além do lançamento de livros. E, pela primeira vez, será montado um lounge para leitura.

— Neste ano, em vez de ter várias mesas de debates, diminuímos para ter mais oficinas e workshops. As pessoas hoje estão buscando uma participação mais ativa nas atividades culturais, não querem ficar só ouvindo — diz a presidente da Libre.

Críticos decretam o fim da poesia americana

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Arte: CartaCapital

Arte: CartaCapital

Os culpados seriam workshops de escrita criativa e uma geração mais interessada no cultivo do ego que nas questões universais

Francisco Quinteiro Pires, na Carta Capital

De tempos em tempos, alguém anuncia o declínio ou o fim da poesia nos Estados Unidos. Segundo o poeta David Lehman, uma pergunta sempre surge: “E o que estão fazendo com o cadáver?” Na atual edição da Poets & Writers, revista bimensal com mais de 60 mil assinantes, Donald Hall, de 86 anos, rememorou com nostalgia gerações anteriores e colegas como Frank O’Hara e Robert Bly. Hall costuma lamentar a incapacidade dos autores contemporâneos de produzirem obras tão relevantes quanto no passado. Não existiria mais, ele sugere, um autor com talento suficiente para influenciar a imaginação dos americanos como certa vez o fizeram Walt Whitman, Edgar Allan Poe, Ezra Pound, Robert Frost, T.S. Eliot ou Allen Ginsberg.

No manifesto Poetry and Ambition, Hall atribui a suposta decadência da poesia do país à falta de “uma ambição séria”, a de “criar palavras que permanecem no tempo”. “Somos a primeira geração de poetas que não estuda latim e não lê Dante em italiano. Daí a insignificância da nossa sintaxe sofrível e do nosso vocabulário limitado”, escreve Hall, poeta laureado entre 2006 e 2007. Embora declare que a publicação de obras poéticas na América aumentou dez vezes entre 1975 e 2005, ele percebe a repetição de uma fórmula. “Muitos desses poemas são com frequência legíveis, charmosos, engraçados, comoventes, até inteligentes. Mas, breves, assemelham-se uns aos outros, não transcendem a si mesmos, não fazem grandes reivindicações, eles associam coisas pequenas a coisas pequenas.”

Professor da University of Virginia, Mark Edmundson compartilha o ponto de vista de Hall. Em artigo polêmico, “Poetry slam or the decline of american verse”, Edmundson tachou de “narcisistas”, “dissimulados”, “tímidos”, “triviais” e “alienados” poetas como Sharon Olds, Mary Oliver, Charles Simic, Frank Bidart, Robert Hass e Robert Pinsky. “Eles não matam a sede dos leitores por sentidos que ultrapassem a experiência individual do autor e iluminem o mundo que temos em comum”, sentenciou Edmundson. Apesar da recorrência de guerras, colapsos econômicos e destruição ambiental, “eles escrevem como se as grandes crises públicas houvessem desaparecido e o negócio mais urgente fosse o cultivo do ego e o afastamento do tédio”. Tudo o que importa é a criação de uma “voz singular”. Eles contrariam o que T.S. Eliot pronunciou no ensaio “Tradition and individual talent” (1920): “Quanto mais perfeito o artista, mais completamente separado ele será do homem que sofre e da mente que cria”.

Hall e Edmundson responsabilizam os mestrados de escrita criativa pelas características repetitivas da poesia contemporânea. Fenômeno consolidado depois da Segunda Guerra Mundial, a escrita criativa tem como o centro da sua prática os workshops, oficinas em que os aspirantes a poeta expõem às críticas dos colegas versos redigidos em um curto prazo. Autor de The Program Era: Postwar fiction and the rise of creative writing (Harvard University Press), Mark McGurl classifica esse tipo de curso de “o evento mais importante da história da literatura norte-americana do pós-Guerra”. A lista de orientadores é extensa e inclui estilos diversos: John Cheever, Raymond Carver, Kurt Vonnegut, Philip Roth, Donald Barthelme, Joyce Carol Oates, John Ashbery, William Kennedy, Jonathan Franzen, Zadie Smith. Dezessete prêmios Pulitzer foram concedidos a escritores que ensinaram ou estudaram no Iowa Writers’ Workshop, o mais antigo e consagrador dos EUA.

Por considerá-los massificados, Hall deu aos versos concebidos nas universidades o título de “McPoems”, “poemas tão instantâneos quanto um pó de café ou uma mistura de sopa de cebola”. De acordo com Seth Abramson, poeta formado pelo Iowa Writers’ Workshop, ao menos 250 programas de pós-graduação em escrita criativa formam perto de 22 mil poetas a cada década. Nos anos 1980, apesar da popularidade crescente, eram apenas 25 programas. “Um grupo reduzido de poetas e críticos na academia coordena hoje a nossa cena boêmia e vanguardista”, diz Abramson, editor do recém-lançado Best American Experimental Writing (Omnidawn). “Os mais jovens não serão nacionalmente reconhecidos sem receber primeiro o carimbo desses professores.” Boa parte da energia criativa, segundo Abramson, é gasta com os relacionamentos profissionais e não a busca de novidades. O aumento da “comunidade de poetas” não reflete o seu ecletismo. “Em vez de florescer um novo período de dinamismo, vemos obras avessas ao risco contempladas por premiações cobiçadas como o Pulitzer e o National Book Awards.”

A poeta Mary Jo Salter apresenta o investimento decrescente nas ciências humanas como a principal explicação para o estudo reduzido das obras poéticas do passado. Recentemente, a University of California, Los Angeles (Ucla), encerrou um curso dedicado aos poemas de Chaucer, Shakespeare e Milton para oferecer uma pós-graduação sobre gênero, sexualidade, raça e classe. “A filosofia, a literatura e a história têm perdido importância diante da ênfase em disciplinas mais úteis para conseguir um emprego”, diz Salter, professora de escrita criativa na Johns Hopkins University e editora da prestigiosa The Norton Anthology of Poetry.

Salter afirma que “a poesia da identidade”, de caráter confessional e autorreferencial, é extremamente comum nos EUA. “Hoje em dia, os poemas tendem mais a abordar raça, etnia e gênero do que em meados do século XX, quando os poetas confessionalistas Robert Lowell, John Berryman, W.D. Snodgrass, Anne Sexton e Sylvia Plath escreveram sobre as suas lutas pessoais com a sexualidade, o divórcio ou a loucura”, opina. “A poesia lírica sempre teve a ver com a vida interior, mas é triste perceber que os poemas se tornaram previsíveis por flertarem com a mesmice.” Contudo, onde Salter vê homogeneidade, David Lehman enxerga “diversidade”: “A demografia dos Estados Unidos mudou. Muito mais mulheres, além de pessoas de diferentes cores, com ascendências diversas (africana, hispânica, indígena, asiática), estão atualmente voltadas para a produção e publicação de poesia”.

Se a escrita criativa cortou os laços com o passado, deu voz a setores silenciados. “Temas considerados proibidos, como as experiências sexual e social desses poetas, são tratados com uma franqueza inédita e em formas experimentais antes desprezadas, como o poema em prosa”, afirma Lehman, o criador da série The Best American Poetry (Scribner) e professor de escrita criativa da The New School (Nova York). “Nada mais é um tabu.” Os autores têm agora um canal imediato de divulgação. “Um poema postado em um blog pode se tornar viral e estimular grande reação em mídias sociais como o Twitter.”

Tanto Salter quanto Abramson veem na internet a possibilidade de propagar um poema sujeito à rejeição dos editores ou universitários. Mas Abramson acredita que “as mídias sociais têm envenenado” a poética dos EUA. Ele diz que, como prescrição para o sucesso, muitos poetas se viciaram em três elementos das comunidades literárias virtuais: “A associação de capital cultural a indivíduos com personalidade carismática, apesar da qualidade da sua escrita, o isolamento de poetas cuja obra pode surpreender ou ofender demais os leitores e a celebração da conquista de prêmios, bolsas de estudo e cargos de professor”. O crítico entende que é hora de desafiar a poesia institucional com o engajamento da arte ao cotidiano. “Chegamos ao momento em que os poetas vão reivindicar a sua relevância social, histórica e cultural, ainda que essa atitude signifique um afastamento dos seus pares”, afirma. “O primeiro passo é sair das mídias sociais. Elas aniquilam a iconoclastia.”

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