Sucesso de Mafalda mostra que mundo mudou pouco em 50 anos, lamenta Quino

0

Sucesso de Mafalda mostra que mundo mudou pouco em 50 anos, lamenta Quino

Publicado no IstoÉDinheiro

O mundo de desigualdades, guerras e injustiças que a pequena e mordaz Mafalda não conseguia entender há 50 anos continua atual, o que surpreende e até deprime o criador do famoso quadrinho, o argentino Quino.

O cartunista e humorista gráfico nunca imaginou a transcendência de sua irreverente criatura. Quino imaginava que, nessa era de novas tecnologias, “a garotada perderia o interesse na personagem e ela morreria de maneira natural”.

“Me surpreende que, cada vez, esteja mais atual. Me surpreende e me deprime um pouquinho também, porque quer dizer que (o mundo) não mudou grande coisa”, admitiu Joaquín Salvador Lavado, o Quino, em uma videoconferência realizada na Argentina.

Em plena celebração do 50º aniversário de Mafalda, Quino lamenta que, hoje em dia, haja mais gente pobre do que quando sua personagem nasceu, ou que aconteçam coisas “tão preocupantes” como as bárbaras decapitações do grupo jihadista Estado Islâmico.

Aos 82 anos, as preocupações de Quino continuam sendo as mesmas de quando criou essa ingênua e esperta menina, em 1964.

“As ideias que a Mafalda propaga são as minhas, e eu não sou um homem feliz a essa altura, vendo tudo que acontece no mundo (…). Estou bastante amargurado e transmiti à minha personagem as amarguras que eu sinto”, explicou o cartunista, entre risos.

“Uma coisa que continua me surpreendendo é que as pessoas me agradecem por tudo que eu dei a elas, e eu não sei muito bem o que eu lhes dei. Sei que fiz algo que tem muita repercussão, mas não sou muito consciente do que eu fiz”, afirmou.

Quino tem livros traduzidos para 26 idiomas e milhões de exemplares vendidos no mundo todo

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

Enem 2014: 15,5 mil candidatos idosos estão inscritos para fazer a prova

0

No ano passado, 10,9 mil pessoas com mais de 60 anos fizeram o exame; em 2009, foram 4,7 mil

Publicado em O Globo

RIO – Neste ano, 15,5 mil idosos fizeram a inscrição no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O número de inscritos com 60 anos ou mais cresce anualmente. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), no ano passado esses inscritos somaram 10,9 mil. Em 2009, foram 4,7 mil idosos.

O Dia do Idoso, celebrado nesta quarta-feira, foi instituído pela Organização das Nações Unidas e, posteriormente, escolhido para a criação do Estatuto do Idoso, que comemora 11 anos.

O Enem é a porta de entrada para instituições de ensino superior e técnico, além do financiamento estudantil e intercâmbio acadêmico. Neste ano, as provas serão aplicadas nos dias 8 e 9 de novembro. No total, foram 8,7 milhões de inscritos.

– O aumento de idosos está sendo identificado em várias instituições de ensino superior. São pessoas aposentadas, que por vezes já têm diploma de ensino superior e buscam outros cursos. Procuram uma mudança de carreira ou a realização de um sonho – diz o superintendente-geral de Educação a Distância do Centro Universitário Iesb, em Brasília, Francisco Botelho.

Os idosos são hoje no país 26,3 milhões, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número representa 13% da população. A expectativa é que esse percentual aumente e que em 2060 chegue a 34%, segundo previsão do próprio IBGE

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

40 trocas de insultos entre escritores e cantores famosos

0

1

Carlos Willian Leite, na Revista Bula

A literatura e a música são um terreno fértil para intrigas. Não foram poucas as vezes que nomes consagrados da literatura e da música mundial deixaram a elegância de lado e alfinetaram colegas de ofício. Pequenas declarações se transformaram em polêmicas gigantes e inimizades eternas. Nesta edição, publico uma seleção de insultos literários e musicais. A lista compila “grosserias” de escritores e músicos de díspares perfis, nacionalidades e épocas. Na seleção aparecem escritores canonizados como William Faulkner, Ernest Hemingway, Virginia Woolf, Gore Vidal, Oscar Wilde, Truman Capote, Nietzsche e Henry James. E músicos ilustres como Mick Jagger, Elvis Costello, George Harrison, John Lennon, Jerry Lee Lewis, Elton John e Caetano Veloso. Em comum entre eles, o fato de um dia, por mera provocação, impulso, raiva, terem externado suas opiniões pouco elegantes sobre seus companheiros de ofício.

— William Faulkner sobre Mark Twain
Um escritor mercenário que não conseguia nem ser considerado da quarta divisão na Europa.

— William Faulkner sobre Ernest Hemingway
Ele nunca sequer pensou em usar uma palavra que pudesse mandar o leitor para um dicionário.

— Ernest Hemingway sobre William Faulkner
Pobre Faulkner. Ele realmente acha que grandes emoções vêm de longas palavras.

— Gore Vidal sobre Truman Capote
Truman Capote fez da mentira uma arte. Uma arte menor.

— Truman Capote sobre Gore Vidal
Sempre fico triste quando penso em Gore. Triste por ele respirar todo dia.

— Truman Capote sobre Jack Kerouac
Isso não é escrever, é datilografar.

— Harold Bloom sobre J. K. Rowling
Sempre houve, na história da literatura ocidental, livros que são muito populares, entre adultos e crianças, mas 30 ou 40 anos depois ninguém se lembra quais são. Viram pó. Eu não estarei por aqui em 30 anos para ver, mas Harry Potter já terá desaparecido.

— Stephen King sobre Stephenie Meyer
Tanto Rowling quanto Meyer estão falando diretamente para os jovens. A diferença é que Rowling é uma escritora magnífica e Stephenie Meyer não consegue escrever nada de valor.

— Nietzsche sobre Dante
Uma hiena que escreveu sua poesia em tumbas.

— Joseph Conrad sobre D. H. Lawrence
Sujeira. Nada além de obscenidades.

— Martin Amis sobre J. M. Coetzee
Ele não tem qualquer talento.

— Alice B. Toklas sobre Gertrude Stein
Quando se aprontava, Gertrude ficava igualzinha a um general da Guerra de Secessão.

— Oscar Wilde sobre Bernard Shaw
Bernard Shaw não tem um inimigo no mundo. Em compensação, nenhum de seus amigos gosta dele.

— D.H. Lawrence sobre James Joyce
Nada além de cigarros velhos e citações furtadas da Bíblia; e o resto, cozido no caldo da deliberada sujeira jornalística. Falta de originalidade, mascarada como se fosse tudo novo!

— Virginia Woolf sobre James Joyce
James Joyce escrevendo me lembra um colegial repugnante espremendo espinhas.

— Paulo Francis sobre José Sarney
Dizem que escrever é um processo torturante para Sarney. Sem dúvida, mas quem grita de dor é a língua portuguesa.

— Henry James sobre Edgar Allan Poe
Se entusiasmar com o Poe é a marca de um estágio decididamente primitivo da reflexão.

— Evelyn Waugh sobre Marcel Proust
Estou lendo Proust pela primeira vez. É uma coisa muito pobre. Eu acho que ele tinha algum problema mental.

— Charles Darwin sobre Shakespeare
Ultimamente tenho tentado ler Shakespeare; achei-o tão intoleravelmente monótono que chegou a causar-me náuseas.

— Caetano Veloso sobre Paulo Francis
É uma bicha amarga. Essas bonecas travadas são danadinhas.

— Zeca Baleiro sobre Caetano Veloso
O cara é uma comadre linguaruda.

— Keith Richards sobre Elton John
Não trabalho com animais. Já trabalhei com Elton John e isso chega.

— Elton John sobre Keith Richards
É como um macaco com artrite, tentando subir ao palco e parecer jovem.

— Elton John sobre Rod Stewart
Rod Stewart devia ter continuado coveiro. O lugar dele é sete palmos abaixo da terra.

— Elton John sobre Madonna
Ela é um pesadelo. Desculpa, a carreira dela acabou.

— David Bowie sobre Elton John
Elton John se tornou o viado-padrão. Como Liberace, antigamente.

— Mick Jagger sobre B.B. King
Jimi Hendrix foi o maior guitarrista que já existiu. De cabeça para baixo tocava mais do que B.B. King.

— Dave Grohl sobre Courtney Love
Ela é uma puta feia.

— Mark Everett sobre Os Beatles
John Lennon canta sobre a paz porque ele é um espancador de mulher. Hippies são tão cheios de merda.

— Jerry Lee Lewis sobre Os Beatles
Sempre achei os Beatles um lixo.

— Nick Cave sobre Red Hot Chili Peppers
Eu sempre estou perto de um aparelho de som dizendo: que porra é esse lixo? E a resposta é sempre Red Hot Chili Peppers.

— John Lennon sobre Os Rolling Stones
Tudo o que fazíamos, os Stones tentavam fazer igual — três meses depois.

— George Harrison sobre Paul McCartney
Paul faz música para menores mentais de 14 anos.

— Elvis Costello sobre Ray Charles
Ray Charles não passa de um crioulo cego e ignorante.

— Elvis Costello sobre Morrissey
Morrissey cria títulos maravilhosos para as músicas, mas infelizmente, muitas vezes ele se esquece de escrever a canção.

— Paul Anka sobre Buddy Holly
Sempre achei que Buddy Holly ficaria melhor servindo hambúrgueres numa lanchonete.

— Oscar Levant sobre Leonard Bernstein
Leonard Bernstein vem nos revelando grandes segredos musicais que são do conhecimento geral há mais de quatrocentos anos.

— Nietzsche sobre Richard Wagner
Wagner é mesmo um homem? Ele não é mais que uma doença. Tudo que ele toca cai doente. Ele fez a música ficar doente.

— Tchaikovsky sobre Brahms
Que bastardo sem talento.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

5 escritores que desapareceram sem deixar rastro

0

Eliane Boscatto, no Homo Literatus

É certo que todos nós iremos desaparecer um dia e restará, ou assim esperamos que seja, apenas nossa lembrança na memória de alguns que ficam, até que esses também partam; exceção feita àqueles como alguns escritores, que podem ficar para sempre na memória da humanidade, geração após geração. É por isso que deixar uma obra para a posteridade é uma das grandes ambições humanas. É inadmissível para nossa vaidade desaparecer por completo, mas também compreensível. Afinal, a maioria de nós vai desaparecer em menos de um século. Mas quando desaparecemos sem deixar rastro algum, a incerteza da morte e no caso desta, a falta dos restos mortais para que se possa ritualizar o fim e dar seguimento à vida, costuma ser de extremo sofrimento para os que ficam. Confiram, agora, uma lista de cinco escritores que desaparecem ser deixar menor rastro:

1. Antoine de Saint-Exupéry

Antoine-de-Saint-Exupéry

O autor tornou-se conhecido por causa do livro O Pequeno Príncipe, obra rica em simbolismo sobre o sentido da vida. Saint-Exupéry foi um escritor, ilustrador e piloto francês nascido em 1900 e falecido em julho de 1944 quando o avião que pilotava durante uma missão militar, caiu perto de uma baía em Toulon. Desde então seu desaparecimento gerou várias hipóteses até que em 1998 um pescador encontrou uma pulseira em sua rede de pesca com o nome Saint-Exupéry. Em 2003 destroços de um avião retirados do mar foram identificados pelo número de série como sendo do aparelho que ele pilotava, um Lockheed Lightning P-38. Próximo foram encontrados também destroços de um avião alemão e a investigação foi direcionada para este país. Até que em 2006 um ex-piloto alemão de nome Horst Rippert, à época com 86 anos,declarou ser ele quem havia abatido o avião de Saint-Exupéry. Rippert disse ter desconfiado várias vezes tratar-se do escritor, mas como não tinha certeza resolveu calar-se. Depois de todas as evidências descobertas, lamentou a ironia do destino, pois era leitor de seus livros e dizia admirá-lo. Toda a pesquisa sobre a morte de Exupéry levou a um livro lançado na França, parece que sem edição no Brasil, pelo mergulhador Luc Vanrell e pelo jornalista Jacques Pradel: Saint-Exupéry – L’Ultime Secret (Saint-Exupéry – O último Segredo).

2. Ambrose Bierce

Ambrose-Bierce

Ambrose Gwinnet Bierce foi um escritor, jornalista e um crítico satírico norte americano, nascido em Ohio, Estados Unidos, em 24 de julho de 1842. Ficou especialmente conhecido por sua obra O Dicionário do Diabo. Dizia que “ sozinho” era estar em “má companhia”. E nada escapava ao seu cinismo e humor negro: família, nação, raça humana. Dizem que nasceu em uma família um tanto excêntrica, cheia de conflitos e mortes estranhas. Seu pai era dominado pela mulher, fanático religioso e apaixonado por poesia, o que parece contraditório ao imaginar-se desse tipo de paixão um mínimo de espírito livre. Bierce faleceu aos 71 anos em 1913 ao partir em viagem para o México sem deixar rastros. Uma tese popular diz que ele teria sido fuzilado pelos revolucionários de Pancho Villa. Seus textos eram sombrios, reflexões sobre desaparecimento e morte, e por causa de sua personalidade sarcástica e irascível arrumou muitos desafetos pela vida. Bierce é hoje considerado um dos mestres da literatura de horror americana ao lado de H.P.Lovecraft e Edgar Allan Poe. Era descrente de tudo, agnóstico, ateu, herege. “Minha independência é meu patrimônio. É minha literatura”, dizia. “Escrevo para agradar a mim mesmo, não importando quem saia ferido”. Até que no verão de 1913 já amargo, velho e doente (sofria de asma e alcoolismo), desapareceu para sempre da civilização que tanto detestava e foi encontrar-se com a personagem de suas obsessões: a morte.

3. Arthur Cravan

Arthur-Cravan

Cravan (pseudônimo de Fabien Avenarius Lloyd) nasceu em 22 de maio de 1887, em Lausanne. Era sobrinho de Oscar Wilde e tinha uma personalidade transgressora, extravagante. Para se ter uma ideia foi poeta e lutador de boxe, atividades que nos parecem discrepantes. Talvez sua personalidade explique o fato dele ter sido um anarquista e possivelmente o precursor do dadaísmo, movimento artístico que surgiu na Europa em 1916, mais exatamente em Zurique na Suiça, e que tinha como característica principal a ruptura com as formas de arte tradicionais. Foi criador da revista Maintenant constituída por textos escritos por ele sob vários pseudônimos. Cravan desapareceu no Golfo do México em 1918 quando estava indo com a mulher e a filha para a Argentina em busca de uma vida melhor. Elas foram de trem e ele de barco, mas ele nunca chegou ao destino e ninguém sabe o que de fato aconteceu, porém alguns diziam tê-lo visto circulando pela Europa até os anos 1920. Conta-se que certa vez Cravan anunciou que iria se suicidar em público, o que gerou uma grande concentração de curiosos. Ele então os acusou de voyeuristas e ofereceu uma conferência detalhada sobre a entropia, movimento natural que leva todos os corpos de volta à massa da terra.

4. Rodolfo Walsh

Rodolfo-Walsh

Rodolfo Walsh nasceu em 1927 na província argentina de Neuquén e morreu em 1977. Atuou no campo literário primeiramente como tradutor e editor, mais tarde como jornalista e ficcionista. Em Bueno Aires na esquina das avenidas Entre Ríos e San Juan, os mais atentos podem ver uma modesta placa em sua homenagem. Consta que foi ali que agentes da repressão durante a ditadura do presidente Jorge Videla, cercaram o escritor e o crivaram de balas. O autor argentino armado ainda tentou reagir, mas foi morto e colocado em um veículo, e desde então seu corpo nunca mais foi encontrado. Walsh foi um ativo membro dos Montoneros (grupo marxista que apoiava Perón), inspirado por sua ascendência irlandesa e pelos guerrilheiros que lutaram pela independência daquele país. Por causa disso Walsh é visto como herói para muitos, mas também como vilão para outros, mas nem uma coisa nem outra tira o seu mérito como escritor. Ele é o autor do clássico da não ficção Operação Massacre, e já tem sua obra completa de ficção lançada no Brasil. Saiu pela editora 34 o terceiro volume de sua coleção de contos, A Máquina do Bem e do Mal, reunião de 25 textos escritos entre 1950 e 1967. Segundo o escritor Ricardo Piglia, os textos têm o mérito de mostrar “uma verdade referencial, mas nunca dizê-la”. Os contos de Walsh são carregados de sentido político, mas não da maneira panfletária como faz a maioria da esquerda na Argentina.

5. Héctor Germán Oesterheld

Hector-German-Oesterheld

Oesterheld foi um escritor argentino filho de pai alemão, referência na criação de quadrinhos, contos de ficção científica e romances. Nasceu em 1919 em Buenos Aires e desapareceu durante a ditadura em 1977, provavelmente assassinado por militares. Como Walsh, se juntou com suas filhas aos Montoneros e passou a viver na clandestinidade até ser seqüestrado e desaparecer. Suas filhas, genros e netos também desapareceram. Uma história trágica para sua família. Oesterheld abandonou a profissão de geólogo para se dedicar à literatura e ao roteiro de desenhos animados. Através de suas histórias em quadrinhos ele criticava a ditadura militar argentina. Com ilustrações de Francisco Solano e Alberto Breccia criou o Eternauta, obra prima de quadrinhos da América Latina, que continua republicado em vários idiomas e tem milhares de seguidores na América e Europa. Sua esposa Elsa Sánchez participou dos protestos das Mães da Plaza de Mayo e tornou-se uma das porta-vozes para as Avós da Plaza de Mayo, que advoga para o retorno de crianças dos desaparecidos para suas famílias de origem.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

Hidra, o refúgio grego de Leonard Cohen

0
O escritor e compositor Leonard Cohen

O escritor e compositor Leonard Cohen

Carol Cunha, no Roteiros Literários

Localizada a duas horas de barco de Atenas, na Grécia, Hidra é uma pequena ilha rochosa que parece saída de um cartão-postal. Casinhas de pedra, ruas estreitas de paralelepípedo, um belo pôr-do-sol sob o mar Egeu despontam na linha do horizonte.

O nome Hidra significa “água” em grego. No século 17, o lugar era um importante entreposto comercial para Veneza, na Itália. Durante o Império Otomano e no século 19, a região tinha uma poderosa frota naval e, ali, as famílias de capitães da Marinha construíram mansões com uma arquitetura singular.

Hoje a ilha de dois mil habitantes mantém intacta a fama de ser a mais preservada da Grécia. Apesar de ser rota de verão para os europeus e atenienses, o lugar é menos agitado do que as badaladas ilhas de Santorini ou Míconos, sendo indicada para quem busca relaxar e aproveitar o ritmo mais lento da vida.

Uma das maiores experiências em Hidra é andar a pé. Isso porque os carros e bicicletas são proibidos em toda a ilha e as caminhadas são parte da rotina. Para quem não encara o sobe e desce das colinas com facilidade, o transporte pode ser feito na carona de jegues, um dos símbolos da cultura local.

Logo na entrada da baía em formato de ferradura, o turista encontra o Porto de Hidra, lugar central onde tudo acontece: o vaivém dos pescadores, táxis marítimos, turistas, cafés, lojinhas de joias, bares e tavernas onde se podem saborear pescados e mariscos frescos.

Vista da ilha de Hidra

Vista da ilha de Hidra

Nos últimos anos, Hidra se tornou um ponto de atração para galerias de arte contemporânea e sede de uma importante escola de Belas Artes. Antes de se tornar um destino para quem gosta de arte, a ilha já foi um refúgio para artistas em busca de isolamento e inspiração criativa.

Durantes os anos de 1930, os escritores Henry Miller, Lawrence Durrell e o poeta grego Giorgos Katsimbalis passaram temporadas na mansão do pintor Nikos Hadjikyriakos-Ghikas, importante nome da arte moderna grega. Na época, os moradores locais ainda viviam da pesca e do mergulho livre para a coleta de esponjas.

Henry Miller em Hidra, em 1939

Henry Miller em Hidra, em 1939

Miller cita Hidra no livro O Colosso de Marússia, escrito em 1941, onde relata suas viagens pela Grécia, a quem ele se referia como “um mundo de luz” onde havia apenas duas cores, o azul e o branco. Katsimbalis seria o “colosso” real que o escritor faz alusão no título.

A partir dos anos de 1950, a cidade abrigou uma comunidade de escritores e artistas plásticos, que a considerava o lugar ideal para se viver. O cenário cinematográfico também serviu como locação para diversos filmes do cinema europeu. Como em A Lenda da Estátua Nua (1957), onde uma jovem Sophia Loren emerge das suas águas, e Profanação (1962).

O cantor e poeta canadense Leonard Cohen, considerado um mestre da poesia cantada, foi um dos que se apaixonou por Hidra, lugar que fez sua criatividade fluir e foi fundamental para suas primeiras músicas.

De uma tradicional família judaica de Montreal, no Canadá, a primeira vez que Cohen escreveu foi após a morte do pai. Ele era um garoto de 9 anos que, poucos dias depois do enterro, vestiu uma gravata do patriarca e escreveu um verso no papel. Graduado em Letras em 1956, aos 22 anos Cohen publicou seu primeiro livro de poesias, Let Us Compare Mythologies, que o ajudou a ganhar uma bolsa de estudos em Londres.

Na Inglaterra, ele comprou uma máquina de escrever Olivetti 22 e se dedicou a escrever contos e poemas. Cohen já tinha começado as primeiras linhas do seu primeiro romance A Brincadeira Favorita, mas ainda não tinha se adaptado ao clima da cidade inglesa.

Em uma tarde chuvosa, caminhando pelo bairro londrino do East End, Cohen buscou abrigo no Bank of Greece e viu um bancário bronzeado e com óculos escuros. Ele perguntou ao funcionário como estava o tempo na Grécia. “Primavera”, respondeu ele. Em poucos dias Cohen estaria embarcando para Atenas.

Ao visitar Hidra, ele se encantou pelo lugar. Lá, foi bem recebido pela comunidade de artistas expatriados. Em 1960, aos 26 anos, Cohen ganhou uma herança e comprou uma casa do século 19, no bairro de Kala Pigadia. Em carta a um amigo, ele escreve com confiança sobre sua decisão de morar na ilha: “Os anos estão voando e nós gastamos muito tempo pensando se temos coragem ou não de fazer isso ou aquilo. É preciso dar uma chance”.

Quando o músico chegou na vila não havia eletricidade, esgoto ou telefone. A canção “Bird on the Wire” começou a ser escrita na Grécia, no dia em que o telefone chegou à ilha e ele avistou os primeiros postes. “Eu olhei para fora da janela e vi os fios e pensei em como a civilização me pegou e eu não teria como escapar dela de nenhum jeito”.

Imagem de Amostra do You Tube

Cohen passava os dias lendo, ouvindo vinis e tocando o violão. O cantor aprendeu a falar grego e se apaixonou pelo som do bouzouki, instrumento de cordas tradicional. Gostava de tocar para os amigos e beber o drink ouzo.

“Existe algo nessa luz que é honesto e filosófico”, ele diria a um jornalista em 1963 sobre a Grécia. Cohen escrevia de manhã até o meio-dia no terraço de casa. Ao final da tarde tomava um banho de mar e à noite tocava sob o pinheiro da Douskas Taverna.

Durante sua estada em Hidra, pessoas e artistas de todos os lugares apareciam na ilha. Cohen chegou a hospedar os poetas beatniks Allen Ginsberg e Gregory Corso, que estavam de passagem por Atenas. Nesta época, ele também experimentaria diversas drogas e entraria em contato com o I Ching e o budismo.

Os estrangeiros adotaram um “cantinho” como ponto favorito de encontros. A Katsikas era uma pequena mercearia ao lado do porto que tinha seis mesas onde eles costumavam conversar, beber vinho, declamar poesias e esperar as cartas que chegavam por navio.

Foi na Katsikas (que já não existe mais) que Cohen fez seu primeiro show oficial e conheceu Marianne Ihlen, sua maior musa e que aparece na contracapa do álbum Songs from a Room. A foto que mostra a norueguesa com a máquina de escrever de Cohen foi clicada na casa grega onde os dois moravam.

Recém-separada do marido, o escritor Axel Jensen, que voltou para a Noruega e a deixou com um bebê, Marianne engatou um romance com Cohen e os dois viveram juntos por 10 anos. Apaixonados, a presença dela trouxe mais tranquilidade para o poeta trabalhar. No poema Days of Kindness, Cohen escreve sobre o período:

Imagem de Amostra do You Tube

No final dos anos 60, sem dinheiro para se sustentar, Cohen precisou voltar para Montreal. A despedida do casal foi retratada na clássica canção “So Long, Marianne”.

Depois Cohen partiu para Nova York, onde começou a escrever músicas e a deslanchar na carreira de compositor. A temporada grega rendeu três livros de poesias, o mais famoso deles Flores para Hitler (1964), e dois romances, o de estreia, A Brincadeira Favorita (1963), e Beatiful Losers (1966), ainda sem edição no Brasil. Em 2011, ele ganhou o Prêmio Príncipe das Astúrias das Letras, um dos mais importantes do meio literário.

Ao longo dos anos Cohen sempre voltou para Hidra. Hoje, sua família ainda é dona da mesma casa que o cantor comprou em 1960. Agora, os filhos Adam e Lorca e os netos passam os verões olhando para a vista do mar grego.

Casa de Leonard Cohen em Hydra

Casa de Leonard Cohen em Hydra

No aniversário de 80 anos do cantor, em 2014, fãs fizeram uma campanha para instalar um banco de praça em sua homenagem. O projeto que já foi aprovado pelo prefeito será construído em 2015, na estrada entre a vila de Hidra e Kaminia, a praia de pescadores onde Cohen costumava nadar.

Local onde será construído um banco em homenagem a Cohen (Divulgação)

Local onde será construído um banco em homenagem a Cohen (Divulgação)

COMO CHEGAR
Pode-se chegar de ferry boat a partir do Porto de Pireus, próximo a Atenas. A viagem dura cerca de duas horas e a passagem custa 25,50 euros.

PASSEIOS
TAVERNA XERI ELIA-DOUSKOS

Aberta há mais de 200 anos, a Xeri Elia é reconhecida como a taverna mais antiga de Hidra. O restaurante é especializado em frutos do mar e pratos tradicionais gregos. As mesas ficam no charmoso pátio com árvores. À noite, o local promove shows de grupos tradicionais de música grega. Leonard Cohen frequentava o lugar e gostava de tocar no pátio.

ANTIGA BILL´S TAVERN

Localizado hoje no Bratsera Hotel, é o velho bar onde Leonard Cohen costumava beber

LAZAROS KOUNDOURIOTIS MANSION

Localizado no porto de Hidra, o museu funciona em uma construção de 1780 e mostra um pouco da história da ilha e da Guerra da Independência da Grécia. Entrada: 4 Euros.

DESTE FOUNDATION

O milionário colecionador de arte contemporânea Dakis Ioannou reformou um antigo açougue e o transformou em um anexo da Deste Foundation, sua fundação para a arte contemporânea em Atenas. O local funciona apenas no verão.

MONASTÉRIOS

A ilha possui seis monastérios históricos ligados à Igreja Ortodoxa. Localizado no topo de Hidra, o Monastério do Profeta Elias oferece uma vista panorâmica de todo o lugar. O templo da Igreja Ortodoxa foi fundado por monges em 1813 e durante a revolução de 1821 serviu de prisão e exílio para líderes revolucionários. A caminhada até o topo pode ser feita em até duas horas. O Convento Agia Eupraxia é feminino, foi construído em 1865 e situa-se próximo ao Profeta Elias.

PRAIAS

Apesar do terreno rochoso, Hidra possui pequenas praias de areia branca, que podem ser acessíveis a pé e de barco. Ao sul do porto, estão as praias de Kaminia, Molos e Vlychos. Ao norte encontra-se Mandraki. Hydronetta e Spillia são pontos próximos ao porto, onde é possível nadar. As praias de Bisti, Aghios Nickolas podem ser acessadas via táxi aquático.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

Go to Top