Mia Couto: cientista de dia e escritor à noite

1
(Foto: Ulf Andersen/Getty Images)

(Foto: Ulf Andersen/Getty Images)

André Bernardo, na Galileu

Em 2008, a equipe do biólogo Mia Couto foi contratada por uma companhia petrolífera para avaliar os impactos ambientais em um projeto de prospecção de gás numa aldeia remota de Moçambique. Ele estava acampado na vila de Palma, a 2,6 mil quilômetros de Maputo, a capital do país, quando alguém da expedição veio avisá-lo certa noite: “Venha ver, Mia, há um homem morto lá fora!”. Quando soube, já no mato e às escuras, que a vítima havia sido devorada por leões, sentiu-se transportado para uma narrativa de terror. “Medos antigos me invadiram e regressei à tenda para acender a lanterna e começar a escrever. E escrevi como se respirasse. Naquele momento, a escrita era o único refúgio que conhecia”, recorda.

Desta experiência aterrorizante, que resultou na morte de 26 nativos no curto intervalo de quatro meses, nasceu A Confissão da Leoa, seu 12º livro, lançado no Brasil em 2012. Para o moçambicano, de 58 anos, vencedor em 2013 do prestigiado prêmio americano Neustadt, biologia e literatura sempre caminharam juntas. “A biologia, para mim, não é uma profissão. É uma entrega apaixonada, tanto quanto a literatura. Como dizia Anton Tchekhov, quando lhe perguntavam sobre medicina e literatura, não há aqui traição alguma, mulher e amante são a mesma pessoa”, afirma o escritor, que se dedica à biologia durante o dia, quando dirige uma empresa de impacto ambiental, e à literatura na calada da noite, quando sofre com crises de insônia.

MIA COUTO
NOME:  António Emílio Leite Couto.
NASCIDO EM: 5 de julho de 1955, em Beira (Moçambique).
PRINCIPAIS OBRAS: Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra  (2003),  Terra Sonâmbula (2007), Venenos de Deus, Remédios do Diabo (2008), O Gato e o Escuro (livro infantil, 2008), E se Obama Fosse Africano

Antes de cursar biologia, ele tentou medicina. Saiu de Beira, segunda maior cidade de Moçambique, ainda adolescente e foi morar em Lourenço Marques, então capital do país. Na faculdade, optou por psiquiatria, mas  mudou de ideia ao visitar instituições para doentes mentais. “Comecei a ter dúvidas sobre se queria entregar minha vida a um permanente convívio com a doença. É como se eu receasse que esse lado sombrio me roubasse o esplendor da vida”, pondera. Mas as escolhas pessoais tiveram de esperar. Mia se alistou na Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) para lutar pela independência de seu país.

Para entrar no movimento, Mia passou por um ritual chamado “confissão de sofrimento”. Os aspirantes a guerrilheiros tinham de explicar os motivos pelos quais queriam lutar contra o colonizador português. Como não tinha uma história triste para contar, resolveu inventar uma. Não foi preciso. Na sua vez, os líderes da Frelimo perguntaram: “É você que escreve poesias?”. Encabulado, respondeu que sim. “Então tudo bem. Pode entrar”, ordenaram. Enquanto lutou pela independência, de 1972 a 1975, Mia jamais disparou um tiro. Embora fossem bem-vindos ao movimento, os brancos não tinham autorização para portar armas de fogo. Por conta disso, foi escalado para trabalhar como jornalista em A Tribuna (jornal que circulou entre 1962 e 1975, quando teve a sede incendiada por colonos contrários à independência de Moçambique).

A independência veio em 1975. Mas a paz estava distante. Entre 1976 e 1992, Moçambique viveu uma guerra civil com quase 1 milhão de mortos. “Chocou-me o modo como muitos dos revolucionários se apressaram a tornar-se semelhantes aos opressores”, lamenta. Ao retomar os estudos, em 1985, trocou a psiquiatria pelos bichos — um ano depois publicou Vozes Anoitecidas, seu primeiro livro. “Ao fazer biologia, ganhei proximidade com criaturas que me contam histórias. Às vezes, são bichos. Outras, rios e árvores. Sei que não estou romantizando. A biologia me serve de tradutora dessas criaturas e me ensina que existem linguagens não humanas que me humanizam”, diz.

O amor pelos animais é tanto que aos dois anos pediu aos pais que passassem a chamá-lo de Mia. Na época, o pequeno Antônio Emílio Leite Couto, seu nome de batismo, vivia entre os gatos. Por vezes, chegava a acreditar que era um felino. “Era uma viagem de identidade. Essa fantasia pode ser normal em qualquer criança. O que não foi normal foi os meus pais aceitarem isso como uma decisão adulta”, diverte-se.

O nome  gera situações curiosas. Mia Couto perdeu a conta de quantas vezes foi confundido com uma mulher. Certa ocasião, em visita a Cuba, os assessores do ditador Fidel Castro chegaram a presenteá-lo com um vestido.

O BIÓLOGO EM AÇÃO: Mia Couto durante o trabalho de campo, à beira de um rio (esq.), no interior (dir.) e em um centro de reabilitação de aves de Moçambique (acima). Escritor não vê conflito entre trabalho de cientista e o de escritor: "A biologia para mim não é uma profissão. É uma entrega apaixonada". (Foto: Divulgação)

ATIVISMO ECOLÓGICO
Em 1996, Mia Couto e mais quatro amigos, todos biólogos, fundaram uma empresa de consultoria ambiental, a Impacto. Para ele, o maior problema de Moçambique é a miséria que castiga a maior parte da população e também traz prejuízos ambientais. Em 2013, o país foi o 185º no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). “Uma relação predatória e imediatista consolidou-se. Onde havia preceitos para criar equilíbrios duradouros com os processos naturais prevaleceu a luta pela sobrevivência”, critica. “A solução não é ambientalista. Passa por negar essa falsa dicotomia que opõe  conservação da natureza ao progresso.”

Ano passado, Mia acrescentou dois prêmios à coleção: além do Neustadt, concedido a cada dois anos pela Universidade de Oklahoma, recebeu o Camões, o mais prestigiado da língua portuguesa. Como escritor, já foi traduzido para sete idiomas e publicado em mais de 20 países. Como biólogo, se considera um “mau cientista” por não ter resposta pra tudo. “Muitas vezes, a ciência é assaltada pela tentação da certeza, uma espécie de substituto da fé. Os cientistas perdem um dos mais cativantes desafios do saber: ter dúvidas. Tenho resistência a entregar a explicação do universo a uma única via de respostas. Tantas são as lógicas do universo que ele deveria ser chamado de pluriverso”, ri o biólogo, que não perde a mania de criar novas palavras.

dica da Marcia Carvalho

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

Smartphones estimulam a leitura em países pobres, mostra UNESCO

0
(Foto: Reprodução/Ken Banks)

(Foto: Reprodução/Ken Banks)

Publicado no Olhar Digital

Pesquisa da UNESCO divulgada hoje indica que o “boom” de smartphones tem ajudado a promover a leitura em países pobres como Eitópia, Gana, Nigéria e até na Índia. Nestes locais, o aparelho atua como agente ativo para estancar a ausência de livros em papel.

A organização americana sem fins lucrativos Worldreader distribui livros digitais para smartphones de baixo custo e Kindles para classes escolares carentes. Com acervo de 6 mil títulos (a maioria gratuitos), o serviço já acumula cerca de 300 mil usuários mensais. Desde 2010, a Worldreader já ofereceu mais de 1,7 milhão de e-books para download.

“Estamos trabalhando em partes do mundo onde, historicamente, os livros não chegaram”, explica Susan Moody, diretora de comunicação da entidade, para quem a tecnologia permite mudar esta realidade. “Se levarmos livros para lá, as pessoas compreenderão mais e cultivarão a cultura da leitura”, completa.

De acordo com a pesquisa, 62% das pessoas entrevistadas preferem ler nos smartphones a pegar nos livros e 33% leem para seus filhos a partir dos dispositivos, ao passo que reclamam da falta de obras infantis.

Via: The Verge

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

É melhor ser um ótimo mecânico do que um engenheiro medíocre

1

BXP64667

Sabine Righetti, no Abecedário

Esses dias eu me deparei com o processo interessante de escolha da universidade por um jovem alemão e resolvi trazer a discussão para o blog.

Estudioso e com perfil acadêmico, ele quer cursar economia.

Tem em mente uma preocupação: fazer um curso mais teórico e menos prático, desses com disciplinas em empresas e estágios.

Na Alemanha, os jovens vão para a universidade dependendo da sua aptidão.

Isso é possível porque lá os salários não variam tanto entre um mecânico e um engenheiro.

O sistema alemão sabe que é melhor garantir um ótimo mecânico do que um engenheiro medíocre.

No Brasil, a lógica é muito diferente.

Aqui um mecânico muito bom provavelmente estará se esforçando para entrar na universidade –mesmo que seja em curso de, a ver, direito.

ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS

Em terras tupiniquins dificilmente as escolhas profissionais estão ligadas a aptidões como acontece na Alemanha, mas sim a uma série de outras questões. Salário é a principal delas.

Quer um exemplo?

Alguém aqui acredita que a maioria dos brasileiros tem aptidão para “administração de empresas”?

Esse é o curso com mais matriculados no Brasil: um em cada seis estudantes universitários faz administração (leia mais sobre isso aqui).

Além disso, a escolha da universidade no Brasil dificilmente passa por um critério como perfil do “curso mais ou menos prático”, como acontece na Alemanha.

MAIS MECÂNICOS

Não se trata, obviamente, de subir em um palanque contra o ensino superior. Pelo contrário.

Apenas 14% dos nossos estudantes em idade universitária (18 a 24 anos) estão em salas de aula de instituições de ensino superior. É claro que precisamos de muito mais do que isso.

Mas nem todo mundo tem aptidão para a universidade e, pior, muita gente pode estar deixando para trás aptidões preciosas –como a mecânica– para entrar em uma sala de aula em busca de melhores salários.

Quanto ganha um país em que ótimos mecânicos fazem direito?

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

Editora reimprime obras de Gabriel García Márquez

0

Victor Souza, no Diário24Horas

22-04-2014-gabriel-garcia-reimpressaoA morte do escritor Gabriel García Márquez no dia 17, aumentou a procura por suas obras nas livrarias brasileiras. Redes como a “Cultura” viram seus estoques se esgotarem no fim de semana.

Devido a essa procura, editora Record responsável pela publicação dos livros de Gabo no Brasil, já prepara um rápido esquema de reimpressão. A começar pela obra ‘Viver Para Contar’, o primeiro volume de uma série de três que o autor não conseguiu escrever, com suas memórias. Como se trata da obra que tinha menos exemplares em estoque, a Record já iniciou a reimpressão de mais 5 mil cópias.

Também foi adiantado para o mês de maio a reimpressão, com novo projeto gráfico, de três obras que estava previstas para julho: “Olhos do Cão Azul”, “O Outono do Patriarca” e “A Revoada”.

Os demais livros ainda não começaram a ser reimpressos, pois a editora garante tê-los em estoque. Mas, se a demanda das livrarias aumentar, a Record inicia o trabalho com outros títulos.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

Pior que autor de “Game of Thrones”, Shakespeare chega aos 450 anos com cerca de 60 mortes na conta

1

Publicado no Terra

shakespeare

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

Go to Top