Obra de Julio Cortázar não só resistiu ao tempo como é urgentíssima

0
Julio Cortázar com sua gata Franelle,em Paris, em 1967 (Foto: Museo Nacional de Bellas Artes/Xinhua)

Julio Cortázar com sua gata Franelle,em Paris, em 1967 (Foto: Museo Nacional de Bellas Artes/Xinhua)

Ciro Pessoa, na Folha de S.Paulo

Numa tarde de fevereiro de 1947, Lucio Medina foi ao Gran Cine Ópera no centro de Buenos Aires assistir a um filme do cineasta ucraniano Anatole Litvak. O programa anunciava um noticiário, um desenho animado e o filme.

Enquanto esperava pelo começo da projeção, percebeu algo estranho no público que afluía à sala. Eram dezenas de senhoras preponderantemente obesas, que nada tinham a ver com a plateia habitual do cineasta ucraniano e que falavam com excesso de gestos e submetiam suas crianças “a um regime de beliscões e advertências”.

Quando as luzes se apagaram e o pano subiu, Lucio defrontou-se no palco com uma imensa banda feminina e um cartaz onde se lia “BANDA DAS ALPARGATAS”.

Tratava-se de uma banda desastradamente desafinada e que, a cada marcha militar que executava, era saudada pelo público com urros e aplausos intermitentes. Medina teve vontade ao mesmo tempo de rir, xingar todo mundo e ir embora. Mas, fiel ao velho Anatole, esperou a banda se retirar de cena e depois assistiu ao filme.

1956
Mais tarde, ao relatar o ocorrido para o seu amigo Julio Cortázar, confessou ter entendido tudo aquilo como “um momento de realidade que lhe parecera falsa porque era a verdadeira”.

Disse ainda que “parou de sentir-se escandalizado por se ver cercado de elementos que não estavam em seu lugar, porque na própria consciência de um mundo alternativo entendeu que aquela visão podia se prolongar até a rua, ao seu terno azul, ao programa da noite, ao escritório da manhã, ao seu plano de poupança, ao veraneio em março, à sua amiga, à sua maturidade, ao dia da sua morte.”

O relato, parte do conto “A Banda” do livro “Final do Jogo”, o primeiro publicado por Julio Cortázar, em 1956, e reeditado agora pela Civilização Brasileira por ocasião de seu centenário, revela, já em sua primeira manifestação literária, uma das centelhas estéticas mais presentes na obra do escritor argentino: os elementos que não estão em seu lugar e a consequente instalação de um clima de irrealidade e insanidade.

O livro, composto de 18 contos, mostra um escritor bastante virtuoso, mas ainda em busca de uma identidade própria. Arrisca em vários gêneros, do policial “(O Ídolo das Cíclades” e “O Motivo”) ao romântico (“O Rio” e “Final do Jogo”). Mas o que perpassa toda a obra é um tom memorial, de evocação da infância e de uma Buenos Aires que já não existia mais.

1979
“Um Tal Lucas”, publicado originalmente em 1979, ao contrário de “Final do Jogo”, revela um Cortázar que navega de forma madura e homogênea nos temas que o marcaram como um dos maiores escritores de todos os tempos: os atalhos do cotidiano que dão em pequenos abismos repletos de humor e “nonsense”, um surrealismo particular manifestado na forma magistral como confecciona as imagens, e um estilo elegante, rítmico e inteligente.

Em 48 pequenos relatos, microcontos e contos, o livro traz pequenas obras-primas como “Lucas, sua Nova Arte de Fazer Conferências”, em que o personagem, ao fazer uma palestra sobre Honduras e deparar com a mesa que o separa da plateia, divaga sobre esse “obstáculo mais detestável que qualquer outro [...] que mais parece um cachalote obsceno.”

Em “Caçador de Crepúsculos” planeja filmar o que chama de crepúsculo definitivo e exibi-lo antes de um longa, com a legenda “Informamos ao público que além do crepúsculo não acontece absolutamente nada e por isto lhe recomendamos agir como se estivesse em casa e fazer o que lhe der na telha”.

Estes dois relançamentos deixam claro que a obra de Cortázar resistiu ao tempo. E mais: que ela se tornou urgentíssima. Que venham mais cem anos do mestre.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

Promessa de Aécio e Dilma, educação integral não é garantia de ensino melhor

0

Especialistas estimam ainda que investimento do governo federal no ciclo fundamental teria de crescer 50% para a ampliação do modelo

20140902-educacao-vinhedo-hf-0106-size-598

Bianca Bibiano, Veja

A educação em tempo integral, modalidade em que o estudante fica ao menos sete horas na escola, é uma das bandeiras dos candidatos à Presidência na corrida eleitoral. O tema ganhou mais força na semana passada quando Marina Silva (PSB), terceira colocada no primeiro turno, apresentou uma lista de exigências para declarar apoio a Aécio Neves (PSDB). A proposta estava lá. Apresentada como estratégia central para o aprimoramento da educação básica no país, a educação integral merece mais reflexão do que permitem as respostas, réplicas e tréplicas dos debates de TV.

Para especialistas ouvidos por VEJA.com, a promessa de expansão da jornada escolar não leva em conta o aumento de investimentos necessário para que as escolas não se tornem meros depósitos de crianças em tempo integral. Isso teria impacto nas contas da União e também de governos locais. Hoje, o governo federal complementa o custeio da educação repassando a Estados e municípios recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), um bolo que este ano gira em torno de 2,05 bilhões de reais.

“As escolas que oferecem período integral recebem, do Fundeb, recursos entre 10% e 30% superiores às demais. Contudo, os valores repassados só são suficientes porque a maior parte das atividades do contraturno são realizadas em parceira com ONGs e voluntários, não com professores”, diz Marcelino de Rezende Pinto, professor da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em financiamento da educação. “Para fazer a ampliação da jornada com qualidade, o repasse deveria ser 50% maior.”

O aumento de 50% nos repasses cobriria despesas com professores, alimentação, compra de material, água e luz. A construção de novos prédios, necessária para atender ao eventual aumento da demanda por ensino integral, não entra no levantamento. “Ainda que o governo aumente o repasse do Fundeb, a fonte continua sendo a mesma: os impostos. Para cumprir as promessas, portanto, será preciso criar novas fontes de recursos e convencer Estados e municípios a aumentar seus investimentos próprios”, afirma o pesquisador.

O economista Marcelo Neri, ministro-interino da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, aponta outra questão sensível sobre a ampliação da escola em tempo integral: a qualidade. Neri é autor de um dos principais estudos sobre ensino integral no Brasil, no qual relaciona o tempo em que os estudantes ficam na escola e as notas que eles obtêm no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que reúne aferições sobre a qualidade do ensino público no país, como a Prova Brasil.

Cruzando dados de questionários da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) de 2006 e do Saeb de 2005, ele constatou que mais tempo na escola não é sinônimo de melhor aprendizado. Um exemplo: alunos do ensino médio que tinham entre quatro e seis horas de aula por dia obtiveram, em média, 34,67 pontos a mais no Saeb do que seus pares que estudavam no máximo quatro horas (o conceito mais alto obtido no país naquele ano foi 282,5). Contudo, aqueles que tinham mais de seis horas de aula por dia obtiveram apenas 3,25 pontos adicionais em relação às turmas de quatro horas. Ou seja, a melhoria é quase imperceptível quando se expande o ensino para além de seis horas, como propõem os candidatos — e também como prevê o Plano Nacional de Educação como objetivo para 2024.

“A expansão da jornada pode ser prejudicial quando não é pautada por uma política pública que zele pela qualidade do ensino. Apenas aumentar o tempo de aula sem previsão do que deverá ser ensinado pode prejudicar o desempenho do estudante”, diz Neri. “Além de mostrar que mais tempo na escola não necessariamente significa melhor desempenho, a pesquisa revelou que à medida que o estudante fica mais velho cresce sua resistência ao ensino integral, e suas notas caem.”

Segundo a proposta da candidata-presidente Dilma Rousseff (PT), 20% da rede pública de ensino deverá funcionar na modalidade integral até 2018. Atualmente, essa taxa é de 13,2% das matrículas, de acordo com Censo Escolar 2013. Para cumprir a meta, Dilma promete expandir o programa Mais Educação, tido pelo MEC como o principal responsável pelo crescimento de 45,2% das matrículas em tempo integral entre 2011 e 2013. O programa repassa verbas para 58.293 escolas de ensino fundamental estaduais e municipais, que oferecem cursos de artes, esportes e reforço escolar no contraturno. Quem dá os cursos, contudo, não são professores, mas sim monitores contratados em regime de voluntariado. Cada escola recebe entre 20.000 e 22.000 reais ao ano para pagar os custos da expansão da jornada, o que inclui alimentação, material, transporte e pagamento dos monitores.

Já a proposta de Aécio prevê a expansão do tempo integral de acordo com as metas definidas pelo Plano Nacional de Educação. De acordo com o projeto de governo do tucano, o tempo extra na escola seria usado para “atividades de áreas mais técnicas e científicas, ou ciências sociais e humanidades, ou ainda o aprendizado prático para as profissões em parceria com o setor produtivo”. Como governador de Minas Gerais (2003-2010), Aécio criou um programa estadual de educação integral em parceria com municípios. Em 2013, 10% dos alunos eram atendidos em jornada ampliada.

Para a educadora Isabel Cristina Santana, superintendente da Fundação Itaú Social, um dos desafios que o eleito(a) terá pela frente será adequar a infraestrutura das escolas. “A proposta de deixar crianças o dia inteiro na escola cai bem entre eleitores e famílias. Mas a maioria das escolas brasileiras oferece aulas em três turnos de aula. Para suprir a demanda por mais espaço, uma alternativa é utilizar espaços comunitários como clubes, museus e bibliotecas. Essa dinâmica está dando certo fora do Brasil e certamente reduziria os custos de implantação de um programa em escala federal.”

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

5 coisas que aprendi com The Sims 4

0

Jessica Grecco, no Indiretas do Bem

thesims02

Um dos meus jogos favoritos no mundo é o The Sims. Sou viciada desde pequena, e me lembro de gastar horas e horas das minhas férias reformando quartos, baixando novas roupas e reconstruindo uma Hogwarts inteira vizinha à família Caixão.

Ao lado das leituras, The Sims era uma das minhas coisas favoritas nas férias, junto com seus mil pacotes de expansão, claro – para tristeza do meu computadorzinho, coitado, que vivia mais lento que uma lesma.
Mês passado saiu a quarta versão do jogo, muito mais evoluída e cheia de detalhes que ~na minha época~, há quase 14 anos atrás. Como eu estou ficando velha, gente! No começo os movimentos dos Sims eram muito mais robóticos e eu amava a aptidão que eles tinham de fazer um rodo aparecer pelas costas, além de, é claro, não engravidar – o bebê simplesmente brotava no berço, PUFT assim. Bons tempos!

Ao longo desse último mês testando a nova edição, percebi que existem certas lições importantes que podemos transpor para a nossa vida. Quer ver só? :-)

Não existe nada que um bom banho de bolhas não resolva.

bubbles bath

No The Sims 4, assim como na vida, as pessoas vivem baseadas em humores, que oscilam entre coisas como cansado, nervoso, apaixonado, inspirado, e por aí vai. Todos esses estilos são influenciados por ações que os Sims exercem ao longo do jogo, e uma delas é tomar um banho de bolhas, alterando o humor para brincalhão. Após a traumática morte do roomate da minha Sim que a viu pelada no banheiro e morreu de vergonha (exatamente), ela chorou por apenas 2 horas e o banho de bolhas logo resolveu a situação. Não existe tristeza que um banho gostoso não resolva, não é mesmo?

Descarregue frustrações: Jogar bebida na cara de quem você não gosta é sempre uma alternativa viável

friends

A intensidade das emoções estão à flor da pele nessa edição. As brigas são mais intensas e é possível sair por aí chutando lixeiras quando você estiver muito irritado com o mundo. Em um desses turbilhões de emoções é possível desabafar com aqueles Sims que você ama, e algumas outras coisinhas com aqueles inimigos, como gritar, xingar, dar tapa na cara e lógico, tirar sabe-se lá de onde, uma taça de Cosmopolitan e jogar na cara do amiguinho. Eu odeio brigar “na vida real”, e por isso essas situações no jogo são boas para extravasar e esquecer dos problemas. Num dia de chateações, recomendo gritar muito com seu vizinho (no jogo, viu).

É possível viver sem uma piscina no seu jardim

swimming pool

Essa foi a notícia mais triste do jogo: acabaram as piscinas! Sim, as maravilhosas, temidas e assassinas piscinas. Quantos Sims não morreram sem a escadinha nas edições anteriores? Pois bem, nessa edição não existem mais piscinas – a minha teoria é que vem por aí um pacote de expansão lindo e aquático, será?

Mesmo assim, é possível se divertir bastante e manter os churrascos na varanda como sempre. É possível ser feliz sem piscina, sim! Como uma moradora de São Paulo e quase sem piscinas na região, posso dizer que isso é verdadeiro.

Cuide da vida dos outros apenas no jogo

watch

Eu sempre penso naquelas pessoas que passam dias e dias stalkeando e procurando defeitos das outras pela internet. Mas que falta do que fazer, que inveja absurda! Se elas precisam de alguém para monitorar a vida eu aconselho jogar The Sims, seriamente. Você passa horas cuidando da sua família, dando ordens de tudo o que você quer que eles façam e ainda se diverte muito. Pra quê cuidar da vida alheia se você pode jogar The Sims? Esse é meu lema.

Grandes objetivos não nascem sem grades esforços – e algumas noites mal dormidas.

the-sims

Ao menos que você seja um Hacker, aí você invade as notas do colégio e fica tudo bem.

Algumas novas profissões foram incluídas e entre elas existe programação – basta você ter um computador para começar a treinar. Com isso, você pode evoluir suas aptidões e praticar “pequenos delitos” como hackear a conta bancária dos seus vizinhos e até burlar as notas do colégio se você for adolescente. Ainda assim é possível usar a programação para criar seus próprios joguinhos e aplicativos, se mantendo dentro da lei e ganhando alguns Simoleons por méritos próprios, viu?

Passe algumas noites sem dormir estudando, se esforce um pouquinho a mais no trabalho e você verá que tudo valeu à pena – ei, parece com a vida real! <3

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

Com novos aplicativos, audiolivro tenta se reinventar no Brasil

0
Narrador grava livro em áudio na sede da Ubook no Rio de Janeiro: concorrente da Tocalivros, empresa tenta conquistar mercado consumidor no país - Leo Martins / Agência O Globo

Narrador grava livro em áudio na sede da Ubook no Rio de Janeiro: concorrente da Tocalivros, empresa tenta conquistar mercado consumidor no país – Leo Martins / Agência O Globo

Formato busca segunda chance no mercado, após fracassadas tentativas com fitas cassetes e CDs

Mauricio Meireles, em O Globo

RIO – No início, eles eram vistos como opção para deficientes visuais. Depois, como solução para quem queria ler no trânsito. Hoje, desconectados de mídias físicas como o CD, os audiolivros tentam uma nova chance no mercado brasileiro, esperançosos com as bem-sucedidas experiências do exterior.

Dois aplicativos tentam, agora, ganhar o leitor brasileiro. O primeiro é o Ubook, lançado há algumas semanas. O segundo é o Tocalivros, que se prepara para iniciar suas operações no fim do mês. Com modelos de negócios distintos, o objetivo dos dois é o mesmo: oferecer livros em áudio para quem reclama da falta de tempo. A ideia é “ler” simultaneamente a outras atividades.

O Tocalivros aposta em um modelo de negócios mais tradicional: editora e autor são remunerados pela venda de cada livro, cujo preço fica entre o da edição física e o do e-book. Já o Ubook aposta em um modelo que ainda não decolou no Brasil: o de assinaturas. Nele, o cliente paga um valor mensal (R$ 18,90, por cartão, e R$ 4,99, se for via operadora de telefonia) e escuta o que quiser. No mercado de e-books, as editoras brasileiras nunca quiseram embarcar nesse modelo, por falta de solução para remunerar a si mesmas e a seus autores. Sem falar do medo de terem suas vendas físicas engolidas por serviços como esses.

— Fazer assinatura para e-books é difícil, porque as editoras já têm um faturamento com o impresso. Mas o audiolivro não compete com o livro físico, por isso é mais fácil usar esse modelo — afirma Flavio Osso, CEO da Ubook, lembrando que, no modelo da empresa, a editora recebe para manter o livro na plataforma e também de acordo com a audiência de seu título.

unnamed-1.pngA Ubook e a Tocalivros tentam convencer as casas editoriais a firmar parceria com elas com um argumento infalível: o bolso. Embora editoras tenham, por contrato, direito a explorar a versão em áudio de seus títulos, a produção de cada um pode chegar a R$ 20 mil. Assim, as duas empresas se oferecem para produzir, sem custos para a editora, cada audiolivro. Para isso, ambas contam com um time de atores, locutores e dubladores.

— O CD e a fita tinham um problema de distribuição, que é o mesmo do livro físico. Com os aplicativos, isso está resolvido — afirma Ricardo Camps, sócio da Tocalivros, que não revela com que editoras já fechou acordos. Já a Ubook assinou contrato com a Ediouro e diz estar acertando com outras grandes casas.

Menos de mil títulos

É um mercado ainda pequeno no país. Os levantamentos feitos pelas duas empresas antes de iniciar a empreitada mostram que existem entre 600 e 1.000 títulos em áudio no Brasil. Para se ter uma ideia, a pesquisa anual da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da USP, feita sob encomenda da indústria livreira, nem contabiliza audiolivros.

— Acho que ainda não chegou o momento do formato, mas ele está mais próximo. As experiências anteriores falharam pela demanda limitada e pelos custos relativamente altos, que incluíam a necessidade de manter um estoque de CDs. O novo modelo de distribuição cria uma nova oportunidade — afirma Roberto Feith, diretor da Editora Objetiva, que ainda não fechou contrato com as duas novas empresas.

Tocalivros e Ubook têm o mercado americano como inspiração. Em 2013, a Amazon comprou a Audible, empresa de audiolivros, por US$ 300 milhões. E, nos EUA, o formato começa a ressurgir. Hoje, estima-se que seja um mercado de R$ 1,2 bilhão. A pesquisa mais recente da Audio Publishers Association mostra que, de 2011 para 2012, seis milhões a mais de audiolivros foram vendidos. A esperança dos brasileiros é que o fenômeno se repita aqui.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

Gaúcha se torna escritora bem-sucedida ao narrar cotidiano durante a surdez, que superou há um ano

0

Aos 16 anos, Paula Pfeifer, hoje com 33, foi diagnosticada com deficiência auditiva neurossensorial bilateral progressiva

Paula integra o grupo de surdos oralizados, como são chamados os deficientes auditivos capazes de se comunicar pela fala (Foto: Arquivo pessoal)

Paula integra o grupo de surdos oralizados, como são chamados os deficientes auditivos capazes de se comunicar pela fala (Foto: Arquivo pessoal)

Dandara Tinoco, em O Globo

Contrariando um clichê sobre a puberdade, Paula Pfeifer parou de falar ao telefone na adolescência. Também deixou de ouvir músicas, suspendeu as conversas em grupinhos, evitou frequentar lugares barulhentos. Aos 16 anos, ela soube o nome do zumbido que atrapalhava as atividades que tanto descrevem a juventude: deficiência auditiva neurossensorial bilateral progressiva. A surdez já a atingia num grau severo.

— Há uma frase célebre da (escritora americana deficiente auditiva e visual) Helen Keller que diz “a cegueira nos afasta das coisas, a surdez nos afasta das pessoas”. E isso dói e é cansativo. Você não consegue mais acompanhar as conversas em pé de igualdade nem conversar em lugares escuros ou barulhentos, não entende o que dizem ao telefone, não ouve a campainha, não entende as músicas, não se sente seguro para ficar sozinho em casa. — enumera a gaúcha de Santa Maria, hoje com 33 anos. — Para piorar, as pessoas acham que todo surdo usa língua de sinais, estuda em escola especial, frequenta a “comunidade surda” e precisa de intérprete. Então, além das dificuldades óbvias, você ainda precisa se tornar um disseminador de informação.

LEITURA LABIAL EM TRÊS LÍNGUAS

Por ter perdido a audição progressivamente, e já depois ter aprendido a falar, Paula integra o grupo de surdos oralizados, como são chamados os deficientes auditivos capazes de se comunicar pela fala. Ela nunca usou a linguagem de sinais e se tornou uma especialista em leitura labial — em português, inglês e espanhol.

Pensando em tratar das nuances que cercam a surdez, Paula decidiu escrever sobre o assunto. Criou um blog (sweetestpersonblog.com), depois um livro (“Crônicas da surdez”) e, no primeiro semestre do ano que vem, lança “Novas crônicas da surdez: epifanias do implante coclear”. Enquanto, na primeira obra, relatou o processo de aceitação da deficiência, na segunda contará como foi voltar a escutar. Em setembro do ano passado, a gaúcha implantou o chamado “ouvido biônico”, apetrecho que devolve a capacidade de perceber o som a pessoas com surdez total.

— Voltar a ouvir foi um cafuné na alma, e vai fazer um ano que me delicio com redescobertas sonoras todos os dias. Voltar a escutar minha própria voz e ter controle sobre ela foi emocionante, voltar a ouvir passarinhos, o mar, o vento… Coisas absolutamente banais para quem ouve, mas de uma beleza monstruosa para aqueles que foram privados disso por muitos anos — descreve.

Apesar de ter começado a perder a audição na infância, Paula relutou para reconhecer a deficiência. Num primeiro momento, recebeu o diagnóstico de que tinha um canal no ouvido que, um dia, iria abrir, permitindo-lhe ouvir bem. Aceitou o parecer, mas, com a persistência do problema, descobriu a deficiência. Só no ano seguinte procurou uma fonoaudióloga e, tempos depois, falou sobre o assunto a pessoas próximas. Decidiu tratar da surdez de forma assumida já na universidade. No trabalho de final do curso de Ciências Sociais, escreveu sobre a escolha da modalidade linguística (oral ou de sinais) pelos pais de crianças surdas. No blog, passou a falar para deficientes, famílias e amigos.

— Detestava o fato de ver somente ouvintes escrevendo sobre surdez. O que uma pessoa que ouve pode de fato entender sobre o que é não ouvir e os sentimentos, medos e angústia envolvidos nisso? — questiona.

A adaptação aos aparelhos auditivos também é tema de textos escritos por Paula. Da época em que descobriu a surdez até hoje, a tecnologia dos equipamentos melhorou consideravelmente. Seu primeiro dispositivo apenas amplificava os sons. Hoje, há os que se conectam com TV, celular, computador e tablet via Bluetooth. Aos 31 anos, a jovem resolveu fazer o implante coclear.

— Não queria passar o resto dos meus dias naquela prisão silenciosa. Se houvesse a mínima chance de voltar a ouvir, queria tentar — diz. — O implante me permite até falar ao telefone, coisa que fiquei quinze anos sem poder fazer. Passei a ouvir tudo: das cigarras berrando lá fora ao barulho da chuva, da campainha ao interfone. Mas a melhor parte é ouvir e entender a fala humana sem leitura labial.

Dois meses depois da cirurgia, no dia em que eletrodos do implante foram acionados, Paula recebeu uma mensagem que também alteraria seus rumos.

— A internet me trouxe tantas coisas boas que costumava brincar que um dia ela traria também o amor da minha vida. Dito e feito. No dia da ativação do meu implante, recebi uma mensagem de um médico otorrinolaringologista do Rio, Luciano Moreira, dizendo que me acompanhava pelo blog e pelo livro. Nos conhecemos logo depois e nunca mais nos desgrudamos. Nos casamos em dezembro, e aí me mudo para o Rio.

Perguntada se consegue identificar vantagens em não escutar, ela reage com humor:

— Eu tenho um botão off. Ou seja, só escuto coisas chatas, ruins e irritantes se quiser. E posso ter o sono dos justos todas as noites, pois durmo no mais absoluto silêncio.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

Go to Top