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Com faculdades públicas e sem vestibular, Argentina atrai cada vez mais universitários brasileiros

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Image caption Estudantes na Universidade de Buenos Aires, que tem 4% de estrangeiros, principalmente brasileiros

A possibilidade de estudar gratuitamente no exterior sem ter que prestar vestibulares tem atraído número crescente de universitários brasileiros para as universidades argentinas – a ponto de causar incômodo em alguns setores acadêmicos do país vizinho.

Marcia Carmo, na BBC Brasil

Nos últimos anos, a presença de estudantes brasileiros de diferentes regiões passou a ser cada vez mais frequente em cidades como Buenos Aires, La Plata e Rosario, onde estão algumas das principais universidades públicas da Argentina.

Há alunos brasileiros também em universidades menos conhecidas, como a do balneário de Mar del Plata, a 400 km de Buenos Aires.

O curso de Medicina é o mais procurado pelos brasileiros, segundo assessores das instituições de ensino argentinas.

O sistema universitário argentino exige dos brasileiros apenas o diploma do ensino médio, reconhecido nos ministérios da Educação do Brasil e da Argentina, e um documento de identidade (o DNI, emitido pelas autoridades migratórias). O desempenho do aluno no ensino médio não é avaliado. No caso do DNI, o processo foi simplificado nos últimos anos, mas o agendamento para o início da emissão do documento pode demorar alguns meses.

Sem vestibular

Diferentemente das universidades brasileiras, as universidades públicas argentinas não têm limites de vagas para vários cursos, incluindo os de Medicina, de acordo com a assessoria de imprensa das instituições acadêmicas. Essa facilidade de ingresso tem sido um chamariz para estudantes brasileiros.

Outro fator de peso, segundo acadêmicos ouvidos pela BBC Brasil, é a crise econômica brasileira.

“Nos perguntamos aqui por que tantos alunos brasileiros vieram nos últimos dois ou três anos e entendemos que o período coincide com a crise no Brasil”, disse um assessor acadêmico, pedindo para não ser identificado. “Sem dúvida, o que vem ocorrendo nos últimos tempos chama a atenção”, disse outro.

A Faculdade de Medicina da Universidade Nacional de La Plata (UNLP), a uma hora e meia de Buenos Aires, registrava em 2015 apenas 11 alunos brasileiros. Esse número saltou para 311 em 2017 e, neste ano, há 566 universitários brasileiros matriculados.

A reitoria da Faculdade de Medicina da UNLP diz que, nesse caso específico, o aumento é explicado pelo recente fim da exigência da prova de admissão, colocando em prática uma lei nacional de 2015.

“As provas (de admissão) deixaram de ser exigência para todas as universidades desde o retorno da democracia, nos anos 1980. Mas, por serem autônomas, algumas delas ainda aplicavam provas”, explica o reitor da Universidade Nacional de Rosário (UNR), Hector Floriani, à BBC Brasil.

Ali, dos cerca de 4 mil alunos de Medicina, 1,5 mil são brasileiros.

A UNR, assim como a Universidade de Buenos Aires (UBA), já não exigia há anos o exame de admissão, nem mesmo para o curso de Medicina.

Para facilitar a vida dos que chegam de fora, algumas universidades ainda oferecem cursos grátis de espanhol, antes de as aulas na faculdade começarem.

A brasileira Raquel Moraes, 25 anos, estudou Engenharia durante cinco anos na Universidade de Brasília e decidiu passar para Medicina. Ela está no primeiro ano da Universidade de La Plata e conta que optou por Buenos Aires justamente pela gratuidade e facilidade de ingresso. “Tem muitos brasileiros estudando aqui”, agrega.

Críticas

No entanto, o acesso ilimitado e gratuito – que é igual para argentinos e estrangeiros – começa a despertar críticas em alguns setores acadêmicos.

Ainda de forma incipiente, há quem defenda que o acesso continue irrestrito, mas apenas para os estrangeiros que cursaram os ensinos fundamental e médio na Argentina e que provavelmente continuarão vivendo no país.

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Image caption Alguns setores acadêmicos já manifestam preocupação com a presença crescente de brasileiros, uma vez que as universidades são financiadas com dinheiro do contribuinte

“A Argentina tem mais de 20% de pobres. Não é mais um país rico. Como podemos sustentar a educação da classe média brasileira?”, questiona um assessor acadêmico.

O reitor Floriani, da UNR, admite que a crescente presença brasileira tem causado preocupação.

“É interessante contar com alunos estrangeiros, porque a troca é enriquecedora. Mas depende da quantidade de alunos. Mil e quinhentos (brasileiros) é um número elevado. Além disso, não existe um sistema de reciprocidade. Não imagino que uma universidade federal brasileira receba 1,5 mil alunos argentinos”, diz ele, destacando ainda que 80% do sistema universitário argentino é financiado por dinheiro público.

Segundo o reitor, algumas famílias brasileiras têm achado mais vantajoso economicamente enviar o filho para uma universidade argentina, mesmo pagando passagem e estadia, do que mantê-lo em uma universidade particular brasileira. Isso apesar de o custo de vida não estar baixo na Argentina, onde a inflação deve chegar a 20% neste ano.

Procurados pela BBC Brasil, o Ministério da Educação da Argentina e o Consulado do Brasil no país vizinho informaram não ter dados atualizados sobre estudantes brasileiros nas universidades públicas.

Em São Paulo, o ex-ministro brasileiro da Educação Renato Janine Ribeiro concorda que a gratuidade do ensino e a não existência do vestibular são os motivos que atraem os estudantes brasileiros para as universidades argentinas. “É muito difícil entrar para uma universidade pública (no Brasil), principalmente em Medicina, e as particulares são caras”, destaca.

Mesmo no ensino particular há grande discrepância de valores. O preço da mensalidade de Medicina na faculdade Barceló, em Buenos Aires, onde a presença de brasileiros é a maior entre estudantes estrangeiros, é de 7,5 mil pesos (cerca de R$ 1.250). Já a mensalidade de uma faculdade particular no Brasil pode variar entre R$ 3,5 mil e mais de R$ 7 mil.

“Temos estudantes brasileiros de vários lugares do Brasil, como Rio de Janeiro, Mato Grosso e Fortaleza”, diz o Departamento de Relações Institucionais e Admissão da Barceló.

Janine afirma ainda que a tradição do ensino argentino também contribui para atrair brasileiros, lembrando que ainda é “muito baixo” (20%) o percentual de brasileiros entre 18 e 24 anos matriculados no ensino superior.

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Image caption Analista diz que é mais fácil entrar em universidades argentinas, mas também é mais difícil concluir cursos

Fácil entrar, difícil sair?

O especialista argentino Alieto Guadagni, membro da Academia Argentina de Educação, é um dos que tem levantado hipóteses para a maior presença de alunos brasileiros nas universidades argentinas.

“Será que esses alunos não passaram no Enem no Brasil e buscam as universidades argentinas como alternativa?”, questiona.

Ao mesmo tempo, Guadagni afirma ainda que, embora seja mais fácil ser admitido, “é mais difícil concluir a faculdade na Argentina”.

Ele cita dados oficiais de 2015 que apontam que, a cada 10 mil habitantes na Argentina, 29 estudantes concluíram a universidade (não há dados específicos sobre estudantes brasileiros) naquele ano. Sob os mesmos critérios, no Brasil foram 56 estudantes.

“Ou o ensino aqui é mais exigente ou os alunos estão menos preparados quando entram na universidade e por isso têm dificuldade de chegar ao final da faculdade”, analisa Guadagni.

Como regra própria, a Universidade de Buenos Aires, a maior da Argentina, ministra o Ciclo Básico Comum (CBC), que é o primeiro ano de estudo na instituição e vale para estudantes de todas as áreas, incluindo Medicina. O curso pode ser ministrado até à distância.

O CBC é cursado durante um ano e oferece cursos específicos paralelos, como compreensão de texto e matemática, para aqueles que apresentam dificuldades para acompanhar o ritmo das matérias. O objetivo, informou a UBA, é “nivelar” a educação dos alunos para facilitar o ensino e aprendizagem “igualitários” nas aulas.

‘Meus pais não poderiam pagar’

A brasileira Rafaela Laiz, 20 anos, começou a cursar à distância o CBC neste ano e pretende se mudar de Lajinha (MG) para a Argentina em 2019, para cursar Medicina na UBA.

“Quero ser cardiologista, mas a faculdade aqui no Brasil é muito cara, em torno de R$ 5 mil. Meus pais não poderiam pagar. Por isso, me inscrevi no CBC da UBA, e no ano que vem vou para Buenos Aires”, conta. “Já soube que a prova para revalidar meu diploma argentino aqui no Brasil é bem difícil, mas mesmo assim vale a pena.”

O Revalida é o exame anual realizado no Brasil para que brasileiros ou estrangeiros que cursaram Medicina no exterior possam exercer a carreira de médico no país. O exame, aplicado pelo INEP (ligado ao Ministério da Educação), é considerado exigente. Em 2016, o índice de reprovação chegou a quase 60%.

A UBA, escolhida por Rafaela Laiz, tem 300 mil alunos (40 mil em Medicina) – sendo 4% deles estrangeiros, liderados por brasileiros, que começaram a chegar em maior número a partir de 2016.

Os últimos dados disponíveis apontam que mais de 60% dos brasileiros que estudam na UBA escolhem a carreira de Medicina.

O subsecretário de Assuntos Internacionais de UBA, Patrício Conejero, diz à BBC Brasil que o destaque da instituição nos rankings universitários internacionais acaba atraindo estrangeiros.

“O acesso à universidade é igual para argentinos e estrangeiros. A presença de estudantes estrangeiros contribui para melhorar nossa performance internacional”, opina.

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Família muda de cidade para voltar a estudar em busca de uma vida melhor

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“Tem gente que aplaude nossa decisão e tem gente que acha que é loucura”

Publicado no Razões para Acreditar

Muitas coisas podem nos levar a fazer transformações profundas em nossa vida e, para esta família foi a busca por maiores oportunidades. Maurício Salazar Jorge e Suely Fontes Rodrigues viviam em Palmeiras, cidade pequena no interior do Mato Grosso do Sul, com seus 2 filhos e todos trabalhavam na fabricação de móveis rústicos.

A família inteira havia parado de estudar no ensino fundamental para se dedicar inteiramente ao trabalho, mas o corpo de Maurício começou a reclamar, depois de tantos anos de trabalho pesado, que incluía carregar e cortar madeira para fabricar os móveis. Apesar da ajuda constante da família, o serviço pesado ficava por conta dele mesmo. Foi aí que ele teve a ideia de voltar a estudar, o que acabou inspirando sua esposa e filho mais velho, Maxiel Rodrigues Jorge a fazerem o mesmo.

Porém, em Palmeiras só existiam escolas de ensino fundamental, então a família teve que mudar de cidade para que pudesse receber o tão sonhado diploma do ensino médio. Atualmente eles estão vivendo na capital, Campo Grande e percorrem cerca de 5 km de bicicleta, todos os dias, para irem até a Escola Estadual Brasilina Ferraz Mantero.

A decisão da família costuma dividir opiniões: “Tem gente que aplaude nossa decisão e tem gente que acha que é loucura”, afirma Maurício, mas o que importa é que, eles estão certos de que fizeram a escolha certa e já têm até planos de continuarem estudando. “Maxiel é desses que gosta de abrir televisão, arrumar as peças, o computador, vai ser inventor”, disse o pai orgulhoso do filho, que provavelmente estudará Engenharia ou algo ligado à tecnologia. Já a mãe pensa em ser enfermeira, mas ainda não tem certeza: “Eu gosto do Biologia, de Filosofia também”.

Os três estudam na mesma sala e se dizem satisfeitos com a experiência de unir família com estudos: “A gente não briga não. Sentamos juntos na sala de aula e em semana de prova a gente estuda aqui em casa antes”.

Suely diz que tem dificuldade em matemática, mas que graças ao filho tem garantido boas notas. O sonho desta família é o mesmo que milhões de brasileiros e eles nos mostram que quando a gente tem força de vontade, tudo é possível: “A gente vivia uma vida que, se não mudasse nada, íamos morrer daquele mesmo jeito. Mas tomamos uma decisão e sabemos que só por meio da educação isso vai melhorar. Nossos filhos estão trilhando seu próprio caminho pra não terminarem que nem a gente”.

Com informações de Campo Grande News

Fotos: Roberto Higa

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STAR WARS | Chega o novo livro que conta o passado de Han Solo

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W.F. Endlich, no Nerd Trip

Às vésperas de assistirmos o filme solo do Han Solo (ops…repetitivo, né?), o novo livro de Star Wars, de Daniel José Older, intitulado “Last Shot” chegou. As origens de Han Solo foram trabalhadas nos romances do Universo Expandido, mas agora que eles não são mais canônicos… Nós sentimos a necessidade de dar outra olhada nos dias de juventude de Han Solo e Lando Calrissian – assim como em seus anos mais maduros – em duas aventuras que acontecem antes e depois do próximo filme.

Ao que dizem, é uma leitura divertida e alegre, com muito humor, hackers Ewok, robôs assassinos e cenas de luta empolgantes. Enquanto Han e Lando vão aos trancos e barrancos tentando rastrear um inimigo há muito esquecido. Mas o que torna o livro uma leitura realmente única é como Older divide essa história entre quatro linhas de tempo diferentes, usando a técnica para justapor as vidas dos mais jovens e mais imprudentes Han e Lando, relacionando-os com a dos homens mais velhos que eles se tornarão.

Em toda a mídia do Universo Expandido, havia sempre alguns elementos da vida de Han que eram geralmente bem conhecidos. Ele teve uma infância difícil crescendo no planeta Corellia. Alistou-se no Império para se tornar um piloto. Foi demitido do serviço para salvar Chewbacca da escravidão e, finalmente, se tornou um famoso contrabandista. Ele é uma pessoa fundamentalmente boa (com algumas aspas nesse quesito, mas…). Todavia, contudo e entretanto… é uma pessoa que não está interessada na luta maior contra o bem e o mal: ele só quer sobreviver e fazer com que as pessoas que ama estejam bem.

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Nancy Drew And The Hidden Staircase | Sophia Lillis irá protagonizar nova adaptação da série de livros

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Nos livros, a personagem é uma detetive amadora adolescente que resolve uma série de mistérios.

Lívia Saenz, no Cinema com Rapadura

Segundo informações do Deadline, a atriz Sophia Lillis (“It: A Coisa”) irá protagonizar a mais nova adaptação da série de livros da personagem Nancy Drew, “Nancy Drew And The Hidden Staircase”.

Nancy Drew é uma detetive amadora adolescente, a personagem principal de uma série de livros de mistério juvenil, criada em 1930, pelo editor Edward Stratemeyer. Os volumes eram escritos por diversos autores, mas todos foram publicados sob o pseudônimo de Carolyn Keene.

“The Hidden Staircase” (A Escada Secreta) foi o segundo volume da série, escrito por Mildred Wirt Benson. O livro teve uma adaptação para os cinemas em 1939, dirigida por William Clemens, conhecido por dirigir diversas adaptações da série, e protagonizado por Bonita Granville, que atuou muitas vezes como a detetive mirim.

O novo projeto será produzido por Ellen DeGeneres, Jeff Kleeman e Chip Diggins, e deve começar a ser filmado em breve.

“Nancy Drew And The Hidden Staircase” ainda não tem previsão de estreia.

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Os estranhos | Universal Pictures compra direitos do livro de Stephen King

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Mauricio Tavares, no Mundo Hype

Mais uma obra de Stephen King vem ai, “ Os Estranhos ” (ou The Tommyknockers, no original), livro publicado em 1987 que já tinha sido adaptado para tv pela ABC em 1993 vai ganhar uma adaptação para os cinemas depois de uma acirrada disputa com a Sony e Netflix a Universal Pictures adquiriu os direitos de adaptação do livro.

O filme ainda segue com James Wan (Aquaman) e Roy Lee (produtor de It: A Coisa) desenvolvendo o projeto que ainda não tem data definida.

Os estranhos conta a história de uma cidadezinha interiorana que misteriosamente é atacada com um gás misterioso que os confere certa habilidades especiais,mas também os torna escravos de uma raça alienígena.

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