Uma vida com prioridades

Como ser um escritor de ‘literatura séria’

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Tenha barba. Use óculos. Organize antologias. Assine orelhas. Ganhe prêmios. Se foi traduzido, ponto extra

Texto de Raphael Montes

Antes de tudo, seja homem, branco, heterossexual, acima dos quarenta, professor universitário ou jornalista. Caso seja mulher, escreva sobre a questão da mulher. Caso seja negro, sobre a questão do negro. Caso seja gay, sobre a questão do gay. Enfim, você entendeu a ideia.

Quando perguntarem “por que você virou escritor?”, tenha um bom passado. Passados medíocres são brochantes. Há somente duas opções: (i) você veio de uma família muito culta, cresceu lendo Balzac, Pessoa e Proust; expressar suas ideias e aflições foi uma necessidade de toda sua bagagem cultural ou (ii) você tem origem humilde, pais analfabetos; a literatura era seu refúgio em uma infância difícil e solitária. Esta segunda funciona melhor.

Quando perguntarem suas referências, esqueça nomes como Agatha Christie, Stephen King, Sidney Sheldon e qualquer outro escritor que tenha feito sucesso ou que esteja na lista de mais vendidos do momento. Diga o que tem que ser dito: seu trabalho dialoga com Lispector, tem tons de Cortázar e nuances de Saramago, mas, no fim das contas, você acredita ter voz própria — então, lance o desafio: “Espero que a crítica consiga compreender meu trabalho melhor do que eu”.

Não basta fazer literatura, meu amigo. É preciso dançar conforme a música, corresponder às expectativas, preencher o modelo, ser cool,intelectual. Quando perguntarem seu livro de cabeceira, nem pense em citar qualquer exemplar que seja encontrado com facilidade nas livrarias. Opte por livros raros, com autores de nomes impronunciáveis. Decore uns trechos desses escritores e trate de citá-los em qualquer texto. Tenha um poema na manga. E duas frases de efeito. É o que diz Vladimir Maiakóvski: “A arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para forjá-lo”.

É importante que algum ou todos os aspectos do seu trabalho tenham a ver com sociologia, filosofia, mitologia ou matemática, e é imprescindível falar sobre isso. Todos adoram quando você mistura literatura com matemática, mesmo que ninguém nesse ramo se importe muito com matemática. Sua proposta deve ser explorar os movimentos e os limites da linguagem. Repita “linguagem” ao menos quatro vezes em qualquer de suas entrevistas. E repita “retrato social” ao menos cinco vezes.

Conceitos como “arquitetura da trama”, “plot-twist” e “ganchos de capítulos” estão absolutamente vetados. O verdadeiro escritor de literatura séria não se preocupa em contar boas histórias. Esta arte menor e confortável deve ser deixada para os novelistas, para os dramaturgos e para os autores de “literatura” de entretenimento — sabe aqueles que escrevem livros de vampiros com câncer que curtem sexo sadomasoquista para colorir? Então.

Evite falar em gêneros literários. Sua literatura não se define. É desafiadora, incômoda e incompreensível. Publique um livro — curto — a cada três ou quatro anos. Publicar um livro por ano quebra a magia, mostra que você não é aquele escritor recluso em sua choupana, vitimado por intensas reflexões, que joga toneladas de páginas no lixo e sangra ao escrever cada palavra.

Quando perguntarem sobre os temas de sua obra, deixe fluir toda a sua complexidade. Os menos capazes o acusarão de vagueza pelos cantos, mas é só por não conseguirem enxergar o valor do seu trabalho. Leitores e críticos competentes não terão problemas.

Em qualquer entrevista, responda com três ou quatro dos conceitos destacados a seguir: você busca tratar da “realidade do indizível”, enxerga sua voz numa “zona cinzenta” entre a “reflexão do ser em si mesmo” e a “representação da experiência humana”. Com sua obra, você pretende “desnudar os limites da autoanálise” e a “prática formal da arte”, enquanto explora as “instâncias sociais” e a “barbárie em fragmentos”. Sua “fruição artística” é “difusa e dolorosa”, com “pensamentos que dissecam a alma” e enfrentam o “objeto estético”. Por fim, use aleatoriamente palavras como “hibridez”, “estilo”, “autoficção”, “ausência”, “dialética” e “fronteiriça”.

Imagem pessoal é indispensável. Tenha barba. Use óculos. Organize antologias. Assine orelhas. Ganhe prêmios. Se tiver sido traduzido, ponto extra. Se for do Sul, ponto extra. Se for judeu, ponto extra. Se for jovem e fizer sucesso, ponto extra. Se for da periferia, ponto extra. Colunista de jornal também costuma pegar bem.

A etiqueta exige falsa modéstia. Mas seja sério. Evite sorrir em fotos. Evite selfies. Evite entrevistas. Evite autopublicação. Evite elogiar entusiasticamente o livro do colega — elogie autores mortos, sempre de maneira vaga, digo, complexa: “A obra traz uma hibridez de estilo que demonstra que a dialética da ausência é fronteiriça à autoficção”. Evite redes sociais. Evite eventos populares. Evite vender mais do que dez mil exemplares. Evite leitores. Apenas evite.

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Os 10 livros que todo estudante de jornalismo deve ler

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Jonatan Silva, na Contracapa

O jornalismo – assim como a maioria dos trabalhos com a escrita – se aprende lendo. Por isso, selecionei 10 livros que considero indispensáveis para qualquer estudante de jornalismo – e também para os jornalistas que já deixaram passar essas pequenas pérolas.

Hiroshima – John Hershey (1946)

Vencedor do Prêmio Pulitzer, Hiroshima foi um dos primeiros trabalhos a explorar o Japão pós-guerra. O material foi coletado por Hershey na cidade que dá nome ao livro e conta o dia a dia de sobreviventes à bomba, retratando o antes e o depois do incidente. Hiroshima fou publicado pela primeira vez na edição de 31 de agosto de 1946 da revista New Yorker. Posteriormente, o autor voltou à cidade para conversar com os personagens.

A Sangue frio – Truman Capote (1954)

A Sangue frio, assim como Hiroshima, nasceu para ser uma reportagem, mas acabou por se tornar um dos pilares do jornalismo literário. Quando Capote foi convidado para escrever uma matéria sobre o assassinado da família Clutter, no Kansas, em 1959, ele já era um romancista renomado. Aos poucos, o escritor foi se envolvendo mais e mais no caso e suas “investigações” duraram 5 anos.

A Mulher do próximo – Gay Talese (1981)

Após mais de oito anos de pesquisa e um casamento quase arruinado, A Mulher do próximo se revela uma das empreitadas mais ambiciosas do jornalista norte-americano Gay Talese. O mote principal da outra é remontar a história da literatura erótica e das publicações como a revista Playboy por meio dos seus antessentes históricos.

A Feijoada que derrubou o governo – Joel Silveira (2004)

O texto que dá nome à coletânea de relatos de Joel Silveira mostra as articulações em um jantar para derrubar o governo de João Goulart. Mas o livro vai além e é um reflexo da política brasileira visto por um dos jornalistas mais brilhantes. O olha de Joel é lúcido, capaz de perceber os nuances da cena política como poucos fizeram.

Abusado – Caco Barcellos (2003)

Pérola do jornalismo literário contemporâneo, Abusado remonta o cotidiano do tráfico de drogas no morro Santa Marta, no Rio de Janeiro. A percepção de Barcellos vai além da situação que vê pela ótica jornalística, mas percebe também o poder que o Comando Vermelho tem sobre os moradores e a criação de um nova geração de criminosos.

Os Sertões – Euclides da Cunha (1902)

Muito antes de existir o termo “jornalismo literário”, o escritor Euclides da Cunha já transformava a Guerra de Canudos em um exemplo do gênero. (mais…)

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Conheça a versão brasileira de Hogwarts, a Escola de Magia de Harry Potter

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Foto: Reprodução/Facebook

Foto: Reprodução/Facebook

Matheus de Lucca, no IGN

É inegável que o sonho de muitos fãs da série de livros e filmes de J.K Rowling, Harry Potter, é receber aquela famosa carta de Hogwarts e ter a experiência de ser um bruxo ao menos por um dia. Isso agora é possível por meio da Escola de Magia e Bruxaria do Brasil.

É isso mesmo que você leu, caro leitor. Organizada pela Oritur Lazer, grupo de viagens com sede em Porto Alegre, a Hogwarts brasileira é localizada no Castelo Kebach, em Montenegro, no Rio Grande do Sul. Durante um dia inteiro, os alunos matriculados terão aulas inspiradas no universo de Rowling, além de participarem de torneios de Quadribol, um quiz para provar que sabem tudo sobre feitiços e ainda o Labirinto de Pedra.

“Será uma super maratona, começando das 8h até a meia-noite”, diz Vanessa Godoy, idealizadora do projeto. “A própria J.K Rowling já afirmou que existe uma escola de Magia e Bruxaria no Brasil [dentro do universo Harry Potter], então aproveitamos o gancho. Desde então estamos construindo uma escola de Magia para atender os sonhos mais íntimos de fãs como nós e vocês”.

Os alunos serão levados de Porto Alegre, por ônibus, e depois divididos em suas devidas casas, após um teste com um Chapéu Seletor online. Em seguida, receberão seus documentos e certificados de bruxo. A partir daí, o dia começa, com direito a café da manhã, almoço e baile de formatura, com shows, sorteios e fogos de artifício.

Para entrar no clima de Hogwarts, a famosa cerveja amanteigada será servida, além dos feijões dos sabores mais diversos e inusitados — vai um petisco sabor cera de ouvido aí?

Para participar, é necessário a matrícula antecipada pelo valor de R$ 370, mas, infelizmente, todas as vagas já foram preenchidas para os primeiros dias — 10 e 11 de outubro. No entanto, “novas edições ainda estão por vir”, de acordo com Godoy, que promete “uma experiência bem adaptada sem deixar de ser fiel” aos livros e filmes de Harry Potter. Fique ligado para as próximas edições.

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Projeto do MIT identifica ‘nerds’ que são ‘reis da gambiarra’ em favelas do Rio

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Gambiarra Favela Tech estimula potencial criativo e artístico de jovens e ensina conceitos básicos de matemática e física.

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Publicado no G1

Pamella está grávida do segundo filho, tem 24 anos, quer estudar psicologia, e mora em Vigário Geral. Luiz tem 19 anos, está em dúvida entre ser arquiteto ou artista plástico e mora em Realengo. Davi tem 14 anos, ainda vai decidir se quer ser advogado ou enfermeiro e mora em Pilares.

Em comum, os três jovens de bairros de periferia do Rio de Janeiro têm a vocação para criar “engenhocas” – ou “gambiarras” -, verdadeiras invenções da engenharia doméstica, e participam do primeiro “Gambiarra Favela Tech”. O projeto tenta identificar “nerds” em diferentes comunidades cariocas, colocando-os em contato, estimulando seu potencial criativo e artístico e ensinando conceitos básicos de matemática e física.

A iniciativa é do laboratório digital Olabi e da ONG Observatório de Favelas em parceria com a Fundação Ford e o MIT (Massachusetts Institute of Technology). O projeto é uma tentativa de devolver a cultura “maker” às suas origens: as oficinas e garagens onde pequenos “gênios” anônimos desenvolvem soluções para os problemas do cotidiano – usando princípios de elétrica, eletrônica e informática, com uma boa dose de criatividade.

Para serem selecionados, todos tiveram de provar alguma habilidade. Há os que montam e desmontam computadores, criam sistemas de iluminação com extensões improvisadas, consertam ventiladores, desenvolvem adaptadores para tomadas, montam pequenos geradores e até lidam com softwares de código aberto.

Ricardo Palmieri, artista digital e especialista em interfaces interativas que trabalha há dez anos com oficinas nos campos da robótica, eletrônica e audiovisual, explica que o termo “maker” é a forma atual para descrever os improvisos criados ao redor do mundo, seja em badalados laboratórios de inovação, comunidades de países em desenvolvimento ou na boa e velha garagem de um avô “professor Pardal”, que “todo mundo tem ou conhece alguém que tenha”.

Ao ministrar as duas semanas de oficinas para Pamella, Luiz, Davi e outros nove colegas num galpão no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, Palmieri trabalha com três objetivos básicos: estimular a originalidade nas soluções, aproximá-los da física e da matemática e romper com preconceitos contra os materiais recicláveis, buscando peças em locais diversos que vão desde a rua até um lixão ou um ferro-velho.

“Alguns vêm de uma situação social mais vulnerável, outros nem tanto, mas todos são moradores de favela ou periferia. É interessante ver como muitos deles dizem ser chamados de ‘malucos’ por pegarem coisas do lixo para montarem suas traquitanas, mas aos poucos vão dando um valor de engenharia e arte a isso, aumentando a autoestima e vendo que podem chegar a resultados surpreendentes”, conta.

‘Mesma espécie’
O clima de criatividade e empolgação no Galpão Bela Maré, que leva o nome do complexo de favelas atualmente em processo de pacificação, contagia quem visita a oficina com adesivos coloridos e cartazes espalhados pelas paredes e um burburinho constante em torno das criações.

“A gambiarra é essa coisa de teste mesmo. Você junta uma coisa com a outra e vai vendo no que dá, é instintivo”, diz Pamella Magno Braga. Para ela, a sensação de trabalhar com os outros 11 colegas é como “encontrar pessoas da mesma espécie”.

Gabriela Agustini, do laboratório digital Olabi, explica que essa é justamente a ideia do projeto. “Não esperamos que após duas semanas eles criem invenções mágicas que resolvam todos os problemas das suas comunidades. O interessante é ver que esses meninos e meninas que já criam suas próprias soluções, mas nunca deram a isso o nome de robótica ou eletrônica.”

Segundo ela, cada um recebeu uma bolsa de R$ 500 para custear despesas de transporte e alimentação e poder se afastar de seus empregos pelo período.

MIT e favelas
O Olabi integra a rede Fab Lab, de mais de 200 laboratórios de inovação, criada em 2009 por um programa sem fins lucrativos do MIT e atualmente presente em 40 países.

“Selecionamos jovens de diferentes idades e interesses, inspirados por essa filosofia de que é na diversidade que acontece a inovação”, diz Gabriela Agustini. Ao identificar talentos ‘nerds’ em favelas e comunidades de diferentes partes do Rio, os organizadores esperam impactar o futuro desses jovens, potencializando suas capacidades e abrindo novas oportunidades.

Com apenas 14 anos, Davi Leite Pereira deixa claro que já entendeu o conceito de “networking”. “Todo mundo aqui se identificou muito rápido. Vamos ficar em contato depois.”

Gilberto Vieira, gestor de projetos do Observatório de Favelas, explica que, ao término da oficina, o Galpão Bela Maré abrigará um laboratório “maker” de forma permanente, e que a ideia é que os jovens das comunidades do entorno passem a ver a cultura criativa como algo “descolado” e interessante, propiciando um ambiente fértil para identificar novos talentos.

“A gambiarra é genuinamente favelada. É onde a luz e a internet não chegam direito, onde os serviços são irregulares, a janela não fecha e as coisas precisam de conserto logo. O ‘hype’ se apropriou disso e criou a cultura ‘maker’, e agora estamos trazendo isso de volta para a favela”, conclui.

Conheça um pouco mais sobre três dos 12 selecionados pelo Gambiarra Favela Tech:

Davi Leite Pereira, de 14 anos, estudante

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“Vou descobrir muitas coisas novas nesse curso. Por exemplo, tem fios negativos e positivos. Essa nem minha mãe sabia”, conta o menino Davi Leite Pereira, de 14 anos, que já ganhou o apelido de “mascote” por ser o mais novo do grupo.

Nascido na Vila Kennedy, comunidade da Zona Oeste do Rio, ele agora mora em Pilares com os três irmãos, o padrasto e a mãe, para quem a seleção no Gambiarra Favela Tech não deve ter sido grande surpresa.

“Minha mãe também faz muita gambiarra e me incentiva, mesmo quando meus irmãos me chamam de maluco. Eu conserto coisas em casa desde pequeno. Uma vez abri um ar-condicionado inteiro e depois não sabia montar de novo. Já mexi com extensões elétricas e também criei uma tomada nova para um ventilador, emendando o fio num benjamim”, conta.

Ele diz que “se amarra” em origamis (dobraduras de papel japonesas) desde criança e que tudo começou com a curiosidade pelos eletrônicos e a necessidade de arrumar aparelhos quebrados em casa, mas agora quer ir mais longe.

O plano é “entender mais de eletrônica e informática”, embora pense em cursar faculdade de direito ou enfermagem, mas também se interesse por grafite e artes plásticas. Para ele, o contato com os novos conhecimentos e a interação com os colegas têm sido motivo de empolgação.

“Já aprendi coisas que eu nem imaginava. Agora peguei um forninho elétrico num ferro-velho e pretendo construir uma caixa de surpresas ou um boneco. E, se esquentar demais, peguei um motorzinho para criar um mini ventilador que vai acoplado”, explica.

Luiz Cláudio de Almeida Santos, de 19 anos, estudante
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Acompanhar o raciocínio de Luiz Cláudio de Almeida Santos, de 19 anos, requer atenção e concentração redobradas. O que para o interlocutor é uma série de pequenas invenções e engenhocas, nada mais é do que o dia a dia normal do carioca de Realengo, bairro da Zona Oeste do Rio, que faz curso técnico de desenho de construção civil com bolsa do governo federal.

Se a caixa de som estragou porque o cabo de alimentação queimou, ele adapta o fio para um cabo USB. “Ficou melhor, porque agora carrega no computador, tablet, liga no celular. Gostei mais”, conta. Se não tem um suporte de mesa para poder olhar o smartphone enquanto trabalha, cria uma base articulada de improviso.

E, como se não fosse suficiente, ele explica que o suporte para o celular era necessário para poder olhar mensagens “enquanto monto e desmonto um computador, troco as memórias. Mas notebook é mais complicado, porque as peças são totalmente diferentes”.

Passatempo antigo do garoto, montar e desmontar eletrônicos é algo que ele faz com desenvoltura, apesar de nunca ter estudado para isso. “Ventilador é fácil. Sempre quis mesmo era entender como o computador funciona, e meu sonho era construir um robô”, conta, acrescentando que quando precisa de uma ferramenta mas não tem dinheiro para comprar, costuma improvisar e criar seus próprios utensílios.

Além do talento para a tecnologia, Luiz gosta de desenhar, pintar, e de ler mangás (quadrinhos japoneses). Ele tem na internet seu grande aliado: “Quando não sei fazer alguma coisa, vejo vídeos no You Tube. Assisto com atenção e vou aprendendo”, conta, enquanto rabisca algo no papel.

Ao fim da entrevista, mostra o resultado: “um lagarto gigante com um braço mecânico” e explica o que mais tem chamado sua atenção nas oficinas. “Estou gostando dessa liberdade que eles estão passando para a gente. Posso fazer algo mais artístico, mas também posso entender de coisas técnicas e juntar as duas coisas”, conta.

Questionado sobre o futuro, o carioca diz que gostaria de ser arquiteto, para tornar os ambientes do seu bairro mais “agradáveis”.

“No subúrbio, os pedreiros não são muito criativos. Fazem tudo quadrado, de qualquer jeito. Eu gostaria de ajudar as pessoas tornando as casas mais aconchegantes, mais direcionadas para o que elas precisam”, diz.

Pamella Magno Braga, de 24 anos, estudante
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Estudante do curso de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Pamella Magno Braga, de 24 anos, trabalha há três como bolsista num ponto de cultura digital, um programa do Ministério da Cultura – o que tem aumentado seu interesse por gambiarras.

“Sempre gostei de mexer com elétrica, inventar coisas. Já criei uma luminária a partir de uma extensão, fazendo várias emendas, e cada uma acendia uma lâmpada. Funcionou por pouco tempo, mas funcionou”, conta, bem humorada, a carioca de Vigário Geral, comunidade da Zona Norte do Rio.

Mãe de Fernando, de três anos, ela aguarda a chegada de Augusto para setembro, e diz que o marido aprova as engenhocas. “No verão teve um dia que estava fazendo muito calor, e não tínhamos ventilador. Eu me dei conta que o vento vinha da janela do corredor, e montei umas cartolinas cortadas como velas de navio, para canalizar a brisa para o quarto. Deu certo, ficou fresquinho”, explica.

Acostumada a lidar com softwares livres, onde o usuário ajuda a criar o código dos programas, ela também é viciada em garimpar peças e aparelhos na rua e em depósitos. A jovem diz que recentemente levou um botão de semáforo de pedestres para casa, mas ainda não sabe o que vai inventar com ele.

“Vou levar essa oficina para o ponto de cultura digital, vou reproduzir isso por lá. O que estou aprendendo aqui vai me ajudar, sem dúvida, porque estou vendo que você pode implementar o conceito de gambiarra para tudo, desde as soluções mais caseiras até coisas eletrônicas mais complexas. O importante é improvisar”, afirma.

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Menino de 14 anos que passou em federal de medicina dá palestras sobre Enem

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Paulo Rolemberg, no UOL

A vida do sergipano José Victor Menezes Teles mudou quando no início deste ano obteve nota no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) suficiente para ser calouro do curso de medicina da UFS (Universidade Federal de Sergipe) com apenas 14 anos. O adolescente do município de Itabaiana (SE), a 52 km da capital, agora com 15 anos, tem utilizado as horas de folga, antes do início das aulas na universidade, para ministrar palestras em Sergipe e alguns Estados brasileiros, com dicas para estudar e resolver as questões nas provas do Enem.

“Depois de toda a repercussão midiática, indiscutivelmente, houve várias mudanças em minha vida, passei a ministrar palestras. Nelas converso desde a questão da maturidade até resolução de questões do Enem”, revelou José Victor, ao lembrar que o tema das palestras é: “O meu desempenho para alcançar o sucesso”. O adolescente fez questão de ressaltar que esta exposição na mídia mudou a conduta pública dele, inclusive nas redes sociais, nas quais tem sido vigiado, constantemente, pelo uso formal da língua portuguesa. “Neste ambiente virtual que tendemos a nos portar informalmente, sou cobrado para o lado formal da língua, que, de qualquer maneira, não deixa de ser construtivo”, salientou.

O adolescente disse que tem cobrado pelas apresentações, mas não quis revelar o valor. No entanto fez questão de frisar que também tem feito palestras para alunos em escolas públicas de forma gratuita. “Na maioria das instituições, que foram particulares, fui orientado a estabelecer um preço em um tempo específico. Entretanto, nas instituições públicas, que fui convidado pelos meus pais e ex-professores, ministrei filantropicamente’, contou ele, que já esteve em municípios do interior do Espírito Santo e em Campo Grande (MS), com uma média de três palestras por cidade.

Segundo José Victor, esta nova atividade na vida dele deverá durar até o início das aulas no curso de medicina que ainda não tem data prevista para o início devido a greve dos professores na UFS. Porém não descartou continuar ministrando palestras. “Estão em segundo plano é só as realizo quando não estou em períodos escolares, atualmente a UFS está em greve, o que me disponibiliza tempo”, avisou.

Questionado sobre os estudantes que nas férias ficaram longe dos livros, José Victor, como tem feito nas palestras, deu dicas. “Quando se está de férias, realmente, há uma tendência natural de acomodar-se mais, pois não haveria aquela cobrança rotineira exercida pelo colégio. Entretanto, digo isso por experiência própria, que cada vez que for utilizar uma rede social, fazer uma pesquisa na internet, ou algo do tipo, resolva ao menos uma questão, de preferência que tenha gabarito para poder nivelar-se”, orientou.

Para José Victor, aplicativos e as redes sociais devem ser utilizadas como aliados nos estudos. “Torna-se interessante ter algum “app” no celular ou tablet, para poder estar resolvendo casualmente os exercícios, pois dessa forma não se tornaria cansativo e, simultaneamente, muito produtivo”, afirmou ele, ao descartar o rótulo de “gênio”. “Os resultados que atribuem a genialidade, na verdade, são frutos das pequenas ações que todos deveriam praticar, como por exemplo resolver questões nas férias”, frisou.

Livro

E a mente do garoto franzino do interior de Sergipe não para de ter ideias. Em breve poderemos ter o escritor José Victor. Está nos planos dele, escrever um livro sobre a sua trajetória de estudo até alcançar a vaga no curso de medicina. “Uma frase que o descreve é: a inovadora performance que pais compromissados e estudantes conscientes precisam conhecer”, finalizou.

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