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‘Castle Rock’: Série de Stephen King terá estreia mundial na San Diego Comic-Con

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Rafaela Gomes, no CinePop

A nova série da plataforma Hulu – baseada na obra de Stephen King -, intitulada ‘Castle Rock’, terá sua estreia mundial durante a San Diego Comic-Con. A informação foi revelada pelo portal Deadline.

Segundo a publicação, o primeiro episódio da produção será exibido ao longo do painel da Hulu, no salão 20. O produtor da série, J.J. Abrams, não estará presente na ocasião, em virtude das filmagens de ‘Star Wars: Episódio IX’, que atualmente acontecem no Reino Unido. Além dele, King também ficará de fora.

No entanto, os protagonistas Sissy Spacek, Bill Skarsgård, entre outros, participarão do painel. A expectativa é que Abrams apareça para os fãs em vídeo.

A plataforma de streaming Hulu confirmou a encomenda de 10 episódios para a primeira temporada da série antológica, que trará vários personagens inspirados nas clássicas obras de King.

Todos eles estarão “confinados” numa cidade que tem o mesmo nome da série.

Só pra você ter ideia do quão curioso é o projeto, personagens de ‘Cujo’, ‘Sonâmbulos’ e ‘It – A Coisa’ deverão fazer parte do elenco principal.

Cada temporada acompanhará um grupo distinto de protagonistas e narrativas, à medida que também se conecta com os ciclos anteriores e seus respectivos personagens. ‘Castle Rock’ foi encomendada pela plataforma de streaming Hulu e ainda não possui data de estreia ou quantidade de episódios para sua primeira temporada.

Para aqueles que desconhecem o universo literário de King, Castle Rock é uma cidade fictícia no estado americano de Maine onde muitos de seus thrillers e contos se passam. A primeira vez que ela apareceu foi no livro de 1979, ‘A Zona Morta’. Além disso, ela surge novamente em ‘Cão Raivoso’ (1981), ‘O Corpo'(1982), ‘O Caminhão do Tio Otto’ (1983), ‘O Atalho da Sra. Todd’ (1984), ‘A Metade Negra’ (1989), ‘O Cão da Polaroid’ (1990), ‘Trocas Macabras’ (1993), entre outros.

‘Castle Rock’ será lançada em 25 de julho 2018.

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Inspirado em Harry Potter, Itália sedia Mundial de Quadribol

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Evento terá delegações de 20 países
Divulgação

Esporte até então fictício era o preferido dos alunos da escola de magia da saga. O evento ocorre em Florença com a presença de mais de 20 países

Publicado no R7

A Copa do Mundo de Quadribol, esporte praticado pelos bruxos da saga Harry Potter, será disputado entre os dias 27 e 1º de julho, em Florença, na Itália.

Organizado pela Associação Internacional de Quadribol (IQA, em inglês), em parceria com o grupo Human Company e a Prefeitura de Florença, o campeonato contará com a presença de 29 países e comemorará o aniversário de 20 anos do lançamento do primeiro livro da série.

Adaptado dos livros de J.K. Rowling, o Quadribol combina o rugby e a queimada, em um esporte que visa a velocidade e o contato.

Apelidado de Quadribol dos “trouxas”, que são os seres não-mágicos de Harry Potter, os atletas sobem em vassouras e devem acertar os “balaços”, bolas de queimada, nos outros jogadores, e as “goles”, bolas de vôlei murchas, nos alvos.

O jogo termina quando o “pomo de ouro”, representado por uma bola de tênis dentro de uma meia, é pego.

A cerimônia de abertura, no dia 27 de junho, será no centro histórico de Florença e as disputas oficias durante os seis dias de torneio serão no Campo de Marte. O Brasil e a Itália começam a Copa ambos no grupo C.

Ao longo da semana, eventos como caça ao tesouro e visitas relacionadas ao tema invadem Florença para festejar o mundo de Hogwarts. A Human Company é o principal organizador do calendário do evento, além de hospedar os times e as equipes técnicas no novo Firenze Camping in Town, a poucos quilômetros do centro histórico.

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Como os livros salvaram a minha vida

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Imagem: pixabay

Publicado no Gaucha ZH [via The New York Times]

Os livros salvaram a minha vida. A frase parece absurda, mas tenho certeza de ser tão verdadeira quanto todas as outras coisas que não posso provar.

Em meados de 2005, depois de encerrada a minha participação no fiasco que foi a guerra do Iraque, peguei o soldo que ficou acumulado durante tanto tempo e paguei adiantado o aluguel de um ano de um pequeno apartamento de frente para o Museu de Belas Artes de Virgínia, em Richmond. Na época, vivia sem objetivo definido – e embora soe meio como um mantra de autoajuda, o fato é que eu me sentia à deriva, e pouco interessado tanto em velejar como em voltar para a costa. Minhas necessidades eram poucas e simples: porta trancada, persianas abaixadas, e uma loja de conveniência a duas quadras vendendo cerveja gelada o dia inteiro.

Sem dúvida, a guerra era uma das coisas das quais eu queria me apartar, mas o fato de o mundo inteiro também ficar do lado de lá da porta me parecia um golpe da mais pura sorte. Não sei se minha angústia era resultado da química cerebral, de alguma má-formação genética, do que vira no Iraque ou das minhas próprias atitudes, mas parecia verdadeira a ponto de eu me dispor a fazer qualquer coisa para fazê-la desaparecer.

E nesse aspecto até que tive sucesso, pelo menos por um tempo. Os efeitos colaterais da “automedicação” com uma caixa de Milwaukee’s Best todos os dias eram desagradáveis, mas se o objetivo era não sentir absolutamente nada, a eficácia da dose era imbatível. Eu já vinha bebendo em excesso com alguma regularidade desde os 14 anos. Em 2005, passei quase seis meses bêbado. O único contato humano que tinha eram as poucas palavras que trocava com a moça do caixa enquanto ela cobrava as duas caixas de cerveja, dois cachorros-quentes extragrandes e dois maços de cigarro. Essa era a minha vida – até que comecei a duvidar que merecesse ser chamada assim.

O grande problema com que me deparei foi que tanto minha mente quanto meu coração resistiam às minhas tentativas de afogá-los; uma solução temporária que tornasse possível a existência, ainda que superficialmente, já não bastava. Passei a achar que o que parecia ser um problema permanente pedia uma solução à altura.

Durante os meses seguintes, a mente flutuando em uma piscina de cerveja barata, um pouco abaixo do nível da semiconsciência havia sempre o mesmo pensamento: e se eu não acordar dessa vez? Duvido que seja preciso explicar o tipo de desespero que torna uma ideia dessa uma fonte de alento – não o que advém da aceitação de que a situação não tinha como piorar, mas o de que as coisas ficassem como estavam para sempre. O próximo passo me pareceu lógico e inevitável.

No entanto, estou aqui, escrevendo este artigo, quase treze anos depois, apesar do fato de, na semiescuridão daquele apartamento de Richmond, eu não querer ser, não querer existir, com uma intensidade que poucas vezes na vida depois de lá senti.

Comecei dizendo que os livros salvaram a minha vida e, embora saiba que isso seja verdade, não sei bem como conseguiram tal façanha. Se eu soubesse qual a variável responsável por eliminar o suicídio da minha lista de opções, certamente dedicaria minha vida a disseminá-la – mas infelizmente não tenho esse conhecimento, só correlação e especulação.

Conforme ia me afundando mais e mais no meu estupor de eremita, minhas tentativas de leitura foram se tornando ridículas, geralmente resultando no livro torto, na diagonal, seguro por uma mão trêmula, examinado por um olho semicerrado e o outro fechado – até que eventualmente incluí o exercício na lista das muitas outras atividades que um dia me diferenciaram dos outros animais e que já não conseguia mais desempenhar. Um dia, porém, por alguma razão desconhecida, peguei “Poemas Reunidos de Dylan Thomas” e descobri que os seguintes versos me deram um momento de enlevo, na falta de descrição melhor: “Esses poemas, com todas as suas grosserias, dúvidas e confusões, são escritos por amor ao Homem e em honra a Deus, e eu seria um tolo rematado se não fossem”.

Vocês podem achar que ao usar a palavra “enlevo” e a inclusão de uma citação que menciona Deus, estou dizendo que algo milagroso aconteceu ou tentando forçar uma resposta religiosa à dificuldade universal de ser uma pessoa; não. O que me tocou foi a referência a “grosserias, dúvidas e confusões”, pois nada chegou tão perto da descrição do que minha vida se tornou do que essas três palavras. Acho, aliás, que eu era a personificação delas.

Pela primeira vez em muito tempo eu me reconheci no outro, e, de alguma forma, essa ligação frágil permitiu que eu me afastasse de uma das crenças mais terríveis associadas a esse tipo de problema que estou descrevendo: a de que se está absolutamente só, como ninguém mais, e que essa é uma situação permanente.

Eu queria poder dizer que, nesse momento, levantei da cama e saí andando, mas não foi o que aconteceu. Precisei da ajuda de outros seres humanos por um bom tempo antes de melhorar – e me manter nessa condição exige diligência e atenção até hoje.

De qualquer maneira, nos meses seguintes, a conexão com o mundo além da minha mente se fortaleceu com outros livros até eu perceber que toda a gama da experiência humana, incluindo o sofrimento e a dor, quando testemunhada ou compartilhada, pode ser transformada em um tipo de reverência transcendental. Por mais estranho que pareça, o mesmo impulso que me levou à autodestruição – o desejo de me “apagar” – ainda estava ativo na minha vida. O que mudou foi que comecei a ver a imersão nos livros como uma alternativa confiável à bebida ou à morte.

Às vezes, ouço a arte ser descrita como qualquer coisa criada sem uma utilidade definida, mas minha experiência me diz o contrário. Descobri que os livros são úteis na minha vida de maneiras profundas e incomparáveis, pois me ajudaram a não desistir dela.

(Kevin Powers, veterano da guerra do Iraque, é autor de “A Shout in the Ruins” e “The Yellow Birds”.)

Por Kevin Powers

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Stranger Things: Netflix e Dark Horse fecham parceria para HQs da série

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Publicado no Aficionados

É, nos próximos anos Stranger Things deve se concretizar como uma grande franquia. Apenas alguns dias após anunciar que o programa vai ganhar uma série de livros pela Penguin Random House e videogames pela Telltale Games, a Netflix fechou uma nova parceria: com a Dark Horse.

Isso mesmo, Stranger Things vai ganhar histórias em quadrinhos. E, pelo visto, a parceria foi fechada para “vários anos”.

As aventuras de Will no Mundo Invertido

O anúncio da nova parceria foi feito pela EW nessa segunda-feira, e segundo o veículo, ela consiste em uma “linha de publicações de vários anos”!

Os primeiros quadrinhos – a serem lançados já a partir de setembro – vão explorar as aventuras de Will Byers (Noah Schnapp) depois que ele foi transportado para o extra-dimensional Mundo Invertido. Ao todo, quatro HQs vão contar um pouco do que Will vivenciou na experiência aterradora.

A narrativa não foi apresentada na série, que apenas mostrou o que aconteceu no mundo “normal” enquanto Will estava desaparecido, mas não abordou o que de fato aconteceu com ele entre o momento em que foi sequestrado pelo Demogorgon e o momento em que sua mãe o resgata.

Em declaração oficial, a Dark Horse afirmou que os quadrinhos serão:

“Uma oportunidade de explorar o misterioso mundo de Hawkins, Indiana.”

O presidente da Dark Horse, Mike Richardson, também se pronunciou na declaração:

“A Dark Horse é conhecida por histórias e contadores de histórias campeões. Nós estamos tão empolgados em trabalhar com a Netflix para trazer o mundo de Stranger Things para os quadrinhos.”

As primeiras quatro HQs terão texto de Jody Houser, ilustração de Stefano Martino, pintura de Keith Champagne, cores por Lauren Affe e letreiros por Nate Piekos.

A EW ainda divulgou prévias das primeiras edições, com capas assinadas por Kyle Lambert, Rafael Albuquerque e Aleksi Briclot.

A primeira HQ de Stranger Things tem lançamento marcado para o dia 26 de setembro.

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Racionais no vestibular: intelectuais dividem-se sobre a questão

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(foto: Klaus Mitteldorf/divulgação)

‘Oportunismo popularesco’, diz o poeta Augusto de Campos. ‘Gesto de reconhecimento’, afirma o filósofo Francisco Bosco

Cecilia Emiliana, no UAI

“Não sou artista. Artista faz arte, eu faço arma. Sou terrorista”, disparou Mano Brown em entrevista ao jornal O Dia, em 1998, referindo-se a Sobrevivendo no inferno, disco lançado no ano anterior, cujas faixas traziam contundentes denúncias ao racismo e à desigualdade social no Brasil. À margem das grandes gravadoras, o álbum do Racionais MCs – grupo de rap formado por Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay – vendeu 1,5 milhão de cópias e virou fenômeno da produção independente. Reverenciado por jovens da periferia e por playboys de classe média, o hit Diário de um detento se baseou nas anotações de Jocenir, sobrevivente do massacre de 111 presos na Casa de Detenção do Carandiru, ocorrido em 1992, em São Paulo.

Duas décadas depois, quem diria, a “rajada de rimas” dos manos da periferia paulistana “alvejou” a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em maio, a instituição incluiu Sobrevivendo no inferno como leitura obrigatória para o vestibular em 2020. Pela primeira vez, um disco entrou na lista de textos recomendados aos vestibulandos. E o fez em grande estilo. Racionais está ao lado de Sonetos, de Luís de Camões, ícone da língua portuguesa, e de A teus pés, livro de poemas de Ana Cristina César. “É a periferia ocupando a academia!”, postou o grupo no Instagram. “É como se fosse um troféu depois de vencer várias lutas”, comentou Mano Brown. “Sobrevivendo no inferno é um ótimo livro de história”, afirmou KL Jay.

“Um disco de rap elencado junto a Camões é uma espécie de legitimação do saber fora dos padrões europeus, que são os acadêmicos. Esse padrão instituiu que o conhecimento de valor é o escrito e chancelado pela educação formal. A gente precisa entender que nas periferias brasileiras – e no Brasil, de certo modo, em que educação ainda é um privilégio –, quem cumpre o papel de espaço para a produção de conhecimento é a música”, afirma o cientista político Gabriel Gutierrez. Professor de produção cultural nas Faculdades Integradas Hélio Alonso, no Rio de Janeiro, ele pesquisa a obra do Racionais.

“Quem tem potência de pensamento, quem quer filosofar, mas não pode frequentar as escolas e universidades, faz música. O gesto da Unicamp soa como um reconhecimento dessa oralidade, dessa cultura de rua como espaço de elaboração do discurso”, defende Gutierrez. Há quem discorde radicalmente.

POPULARESCO “Pobre Camões!”, reagiu Augusto de Campos, de 87 anos, expoente da poesia concreta no Brasil, a respeito da lista divulgada pela Unicamp. “Chamo isso de oportunismo popularesco”, afirmou o respeitado escritor, ensaísta e tradutor.

Postado na internet em 2016, um encontro entre o rapper Renan Inquérito e Campos sugeria a simpatia do poeta pelo rap. Diante disso, a reportagem do EM entrou em contato com o intelectual para ouvi-lo a respeito da decisão da Unicamp. Campos não quis dar entrevista, mas enviou o seguinte comentário, por e-mail: “Tanto Ana Cristina como os Racionais não têm categoria para figurar ao lado de Camões numa prova vestibular. OK? Chamo isso de oportunismo popularesco”.

DIÁLOGO José Alves de Freitas Neto, coordenador da comissão organizadora do exame da Unicamp, explicou que as faixas de Sobrevivendo no inferno não só dialogam com o atual momento histórico brasileiro, como também com as mudanças promovidas nas universidades em prol da inclusão social. Em entrevista ao portal G1, Freitas Neto definiu o álbum como uma leitura do mundo pelos olhos de quem o vê sob uma perspectiva contra-hegemônica.

Na opinião do professor Gabriel Gutierrez, a obra do Racionais vai além disso. “Nessas letras não tem só um conjunto de denúncias. O grupo até viveu essa fase bem lá no início, quando lançou o primeiro trabalho, o disco Raio X do Brasil (1993). Já Sobrevivendo traz reflexões existenciais profundas, expressas em hits como Fórmula mágica da paz (‘Admirava os ladrão e os malandro mais velho/ Mas se liga, olhe ao seu redor e me diga:/ O que melhorou? Da função quem sobrou?’). Nesse canto, há o que talvez seja o maior dilema dos jovens brasileiros periféricos: o engajamento no crime versus a vida no subemprego. Estamos falando, portanto, de uma obra que, mais do que um retrato da realidade, faz uma cartografia do real, um mapeamento da subjetividade”, argumenta.

Para o pesquisador, pode-se comparar o registro humano encontrado no rap ao que se observa em clássicos escritos por William Shakespeare, Marcel Proust ou Sigmund Freud. “O complexo olhar de autores para sua realidade e seu tempo fez com que suas obras fossem parar no cerne da produção de muitos pensadores. Freud vai buscar a peça Édipo Rei, de Sófocles, para elucidar um de seus conceitos-chave, o complexo de Édipo. (O filósofo francês Gilles) Deleuze bebeu da fonte do (poeta francês) Antonin Artaud. Nas Américas, é a música que constrói esse inventário social. Por isso, faz muito sentido que tantas pesquisas acadêmicas se voltem ao Racionais na atualidade”, argumenta Gutierrez.

Entre ensaios acadêmicos ou textos publicados na imprensa, não são poucas as menções a Sobrevivendo no inferno como fenômeno da cultura contemporânea. Pesquisador do rap, Paulo Roberto Souza Dutra, professor da Stephen F. Austin State University, no Texas (EUA), aponta o impacto do disco do Racionais sobre a juventude negra como um dos motivos que explicam tal reverência.

POTÊNCIA Dutra argumenta que o rap do grupo paulistano dialoga com o mundo negro da diáspora provocada pela escravidão, mas não se limita apenas a um canto de lamento. Para ele, o Racionais reafirma a cultura africana, além de tirar o jovem negro da periferia de um lugar subalterno para transformá-lo numa espécie de potência política.

“Isso é muito forte e explícito em Sobrevivendo. Estamos diante de um álbum que, na primeira faixa, traz uma saudação a Ogum e a oração de São Jorge. A terceira (Capítulo 4, versículo 3) começa com estatísticas: ‘60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial/ A cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras/ Nas universidades brasileiras, apenas 2% dos alunos são negros”, lembra o pesquisador.

Paulo Dutra pondera que o reconhecimento do rap é positivo, mas avisa: “É preciso ter em mente que ele não é literatura”. De acordo com o professor, ainda não se conseguiu compreender muito bem essa música. “Daí as tantas associações do gênero não só com a literatura, como com as artes e a filosofia, entre outros campos do conhecimento. Diria que ele é um marco literário, causando impacto semelhante ao do cinema nas letras. A sétima arte teve grande influência sobre a literatura, tanto esteticamente, incorporando recursos da narrativa cinematográfica, quanto tematicamente. Fenômeno recente, o rap que vem fazendo algo parecido com as letras”, conclui.

FAIXA A FAIXA

SOBREVIVENDO NO INFERNO

» Jorge da Capadócia
» Genesis (intro)
» Capítulo 4, versículo 3
» Tô ouvindo alguém me chamar
» Rapaz comum
» Faixa instrumental
» Diário de um detento
» Periferia é periferia (em qualquer lugar)
» Qual mentira vou acreditar
» Mágico de Oz
» Fórmula mágica da paz
» Salve

(foto: Bruno Veiga/Divulgação)

ENTREVISTA – FRANCISCO BOSCO (filósofo, ensaísta e compositor)
Em 2014, em artigo publicado na Revista Cult, você afirma que o surgimento do Racionais “é possivelmente o último grande acontecimento da cultura brasileira”. Ainda hoje acredita nisso?
Sim, acredito, e hoje ainda mais. Desde 2015, o Brasil teve seus canais de transformação institucional bloqueados por um governo ilegítimo que tentou impor uma agenda conservadora a toque de caixa. As energias mudancistas da sociedade se concentraram em larga medida nos chamados movimentos identitários. Ora, os Racionais foram os pioneiros da perspectiva racialista, isto é, de explicitação dos conflitos raciais, no campo de alta ressonância que é o da canção popular. É claro que já havia antes deles uma história dessa perspectiva no Brasil, história que tem em Abdias do Nascimento e o Movimento Negro Unificado um capítulo importante. É preciso ainda registrar que essa perspectiva começou a ser institucionalizada, a se tornar política de governo e até de Estado, nos anos FHC. Mas nada disso é comparável em termos de alcance cultural com o que os Racionais fizeram a partir de Sobrevivendo no inferno. Houve ali um verdadeiro cataclisma na cultura popular brasileira. Foi a primeira vez que, de dentro da própria cultura, questionou-se radicalmente os alicerces dessa própria cultura, ou seja, a autoimagem cultural associada ao encontro, à mistura, à cordialidade, à festa.

O que faz de Sobrevivendo no inferno um álbum tão emblemático?
Tudo o que falei acima, e que só se tornou possível porque o álbum é formalmente extraordinário. Nunca houve na canção brasileira uma lírica como aquela dos Racionais. Basta pegar a história da chamada “canção de protesto” no país. Os sambas dos anos 1930 são muito ingênuos perto daquilo. As canções a la Vandré são ideológicas, cheias de “mensagens”, mas completamente distantes da concretude avassaladora das letras de Brown. Mesmo a grande tradição dos anos 60/70 – Chico Buarque, João Bosco/Aldir Blanc etc. – é bem diferente: complexa, sofisticada, esplêndida, mas inevitavelmente metafórica, afastada da experiência direta daquele porão da sociedade brasileira, secularmente recalcado, que retornava no real (como todo recalcado) de uma forma incontornável pela poética de Sobrevivendo no inferno.

O que a inclusão de Sobrevivendo no inferno na lista da Unicamp significa enquanto fenômeno social?
Significa, em primeiro lugar, um gesto de reconhecimento da grandeza dessa obra. Isso tem implicações no modo como se pensa o cânone, os problemas relativos ao valor estético. Basicamente, estabelece que a excelência e a originalidade formais não são prerrogativas das classes médias e altas. Mas significa também que alunos terão a oportunidade de conhecer uma realidade de classe diversa da deles (de boa parte deles), e conhecerão o modo como o Brasil responde a essa realidade. Tem muita análise fina da realidade nas letras dos Racionais: o problema do reconhecimento, a relação entre capitalismo e sistema prisional, a necessidade de criar estratégias de bonding para fortalecimento das pessoas negras, a relação entre cultura do espetáculo e manutenção das desigualdades, entre outras questões.

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