Joao Marcos

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Stepan Nercessian estreia na literatura com ‘Garimpo de Almas’

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Publicado em O Tempo

O tom de voz de Stepan Nercessian adquire um acento, digamos assim, mais leve, até mesmo brincalhão, quando ele revela à reportagem do Magazine que finalmente escutou a frase que sempre sonhou adentrar seus ouvidos: “Não consegui parar de ler”. O comentário veio de um leitor e descrevia a reação dele ao primeiro fruto da nova faceta ativada pelo ator: a de escritor.

E não, não foi uma decorrência da pandemia. “Garimpo De Almas” (Tordesilhas Livros), que marca a estreia de Nercessian na literatura, foi escrito entre 2018 e 2019 – embora ele localize um embrião dessa empreitada uns anos antes. A obra, vale dizer, é o foco da edição desta quarta-feira do projeto Sempre um Papo, que adiciona uma novidade ao formato: além do mediador Afonso Borges, o encontro – marcado para às 18h, com acesso gratuito, nas redes sociais do projeto – vai contar, ainda, com as presenças de dois colegas e amigos de Stepan, os também atores Paulo Betti e Antonio Grassi – atual diretor-executivo do Instituto Inhotim.

Embora esteja debutando agora na senda literária, na verdade, o flerte de Stepan com a escrita vem de longa data. Hoje com 67 anos, o goiano (de Cristalina, filho de pai armênio e mãe cearense) lembra que foi trabalhar muito cedo na redação de um jornal, “convivendo com jornalistas e escritores”. “Aquele universo, aquele mundo, me fascinava. Mas depois fui tocando a vida por outros caminhos – até escrevendo uma coisa ou outra, mas sem pretensões. Quando tentei voltar a escrever de fato – e até já tinha esse título, ‘Garimpo de Almas’, na cabeça -, acabei, por acidente, perdendo quase tudo no computador. Sobraram umas dez páginas”, conta. A semente, porém, estava plantada. “No curso do tempo, eu até quis partir para outras escritas, mas não conseguia. Empacava. Acho que alguma coisa me cobrava, era meio que: ‘tenho que terminar aquilo’. Aí, um dia falei: ‘Chega, preciso resolver isso para escrever outras coisas’. E fui terminar ‘Garimpo’. Até aproveitei um pouco do que tinha na memória (das tais páginas perdidas), mas 95%, foi mesmo acontecendo na hora”.

Livro editado, Stepan se deparou com um sentimento inusitado: a ansiedade. “Porque livro não é igual ao teatro, por exemplo, quando a gente consegue ver, medir a reação das pessoas ali, na hora”. Quem tratou de acalmá-lo um pouco foi sua agente, Valéria. “Sim, eu tenho até agente, agora”, brinca ele. “Ela me disse: ‘Stepan, acalma e vai se preparando, porque o tempo da literatura é totalmente diferente. Cada livro tem um tempo de acontecer, uns mais rapidamente, outros mais lentamente'”, reconta.

Mesmo assim, ele festeja os feedbacks que já aferiu de nomes como o do cineasta Cacá Diegues, com quem tantas vezes trabalhou – aliás, o diretor acabou assinando o prefácio. “O Cacá foi das primeiras pessoas que leram. Mandei no rascunhão para ele, que foi muito gentil, me respondeu com umas dez, 15 páginas de e-mail analisando parte a parte. Me incentivou muito, tanto que depois fez o prefácio. E minha irmã mais velha também, que é bastante entusiasta de literatura. Acompanhou tudo e me incentivava”. O jornalista Rodrigo Fonseca, do “Estado de S. Paulo”, chamou o livro de a “primeira joia da literatura brasileira a ser descoberta na prosa em 2021”.

O título – que, como dito, ficou cravado desde a primeira investida – reverbera um senso de procura. “Uma garimpagem mesmo. No livro, há a frase: ‘Não sei até que ponto garimpo ou sou garimpado pelas almas’. Na verdade, penso no mundo como um garimpão enorme de vidas, histórias, pessoas. No geral, parece tudo uma coisa só, mas, na verdade, cada alminha tem uma história, uma vida. Então, há esse significado de buscar preciosidades, ir atrás de alguma coisa de valor humano dentro desse garimpão enorme que é a vida. Fico pensando nas tantas pessoas e almas que querem falar, contar histórias, se tornar visíveis… Essa foi a minha imaginação e o personagem é isso, um cara que fica atormentado, atordoado, com a quantidade de almas que o procuram querendo falar através dele”.

Evidentemente, embora esteja na esfera da ficção, Stepan reconhece o quão de suas vivências está ali. “Não me baseei na realidade, mas tudo o que está ali veio de dentro de mim, as emoções, sentimentos. Estavam pedindo para sair – no caso, pela literatura, mas poderia ser por outra forma de expressão artística. Aliás, acho que por isso as pessoas se identificam. Tem gente que me diz: ‘Ah, parecia eu’, ou ‘parecia minha avó'”.

Stepan ressalta, ainda, outro ponto que descobriu no ato de escrever, e que chama de fascinante: “Na escrita, o primeiro combate que você trava é justamente contra a auto-censura. É preciso ter a coragem de botar para fora, se expor, se mostrar. Ocorre que quando você não deixa que o seu racional vá te tolher, você pode se deparar com aspectos de sua personalidade que nem sempre são agradáveis ou os quais você admita com facilidade”, elocubra.

Seja como for, Stepan admite que o bichinho da escrita o picou de vez. Tanto que já tem quatro projetos de livros em mente. “Quando terminei esse, escrevi um outro, também antes da pandemia. Um ensaio, uma coisa sobre teatro, como se fosse uma peça, que se chama ‘Até Talvez Teatro’. Aliás, uma curiosidade: as pessoas que leram ficaram intrigadas, porque escrevi antes de tudo isso e a história se passa num teatro do qual, de repente, ninguém pode mais sair. Porque vai cair uma chuva ácida e as pessoas terão ficar ali, por tempo indeterminado. Quando a pandemia chegou, em março (do ano passado), parei de escrever ficção. E de repente comecei a me expressar com o que chamo de ‘poemas’ – veja, eu tenho muita reserva em falar que estou escrevendo romance ou fazendo um poema, porque eu não sei nem qual o modelo. Mas colocava nas redes sociais e as pessoas gostavam, diziam que estavam ajudando-as. Cheguei a fazer dois por dia, até três, de março a setembro. Na verdade, colecionei aí quase 100 poemas. Pode ser que eu os junte e, aí, faça uma avalição (do material) se vale a pena ser editado”.

Na sequência, ele voltou ao gênero romance. “Estou escrevendo um com o título ‘Casa Amarela’, mas, confesso, não com assiduidade. Aliás, até com certa dificuldade, inclusive porque veio o lançamento desse livro, o que te mobiliza. Não é que tome um tempo, mas é a ansiedade, pensar qual o destino da obra, como vai acontecer. É todo um tempo. Mas acho que até julho, agosto, no máximo, termino esse também”.

Por último, mas não menos importante, o quarto projeto se chama “A Arte de Pedir – Guia Prático para Inadimplentes e Negativados”. “Na verdade, agora vou acrescentar um outro capítulo: ‘e Confinados’. Pode até ser que esse livro possa ser visto assim, como mais alegre, mas, na verdade, trata de um tema muito triste que é a pressão econômica sobre os indivíduos”.

A história gira em torno de um sujeito que escreve um livro de auto-ajuda. “Ele nem faz questão que o leiam, só precisa mesmo que comprem. E pede para quem o adquirir não emprestar a ninguém, para não atrapalhar seu negócio. Mas, de toda forma, ensina a sobreviver diante do sufoco, dá dicas de como pedir dinheiro à mãe ou ao amigo, fala da arte de escolher um padrinho para o filho – porque, afinal, filho é investimento. Ao mesmo tempo, faço uma volta sobre essa questão da economia mundial, do mercado”.

Evidentemente, apesar de tangenciar a economia global, a obra tem muito a ver com o Brasil. “Uma coisa que considero importante ressaltar é o tanto de gente falando que a situação do Brasil ficou ruim por conta da pandemia. Não concordo. Estava péssimo e ficou horroroso. Está todo mundo num sufoco danado! É desemprego, falta de dinheiro… Todo mundo sofrendo o pão que o diabo amassou. Aí, olha ‘descobriram’ os invisíveis. Ora! Só se for invisíveis para quem não queria ver, pois eles estavam aí, há tempos, nas calçadas, na vida da gente. O tempo todo. Então, (a obra) tem essa perspectiva”.

Sobre a pandemia

Perguntado sobre que sentimentos o assolam nesta pandemia, Stepan responde com sinceridade. “Olha, são os mais controversos, ao mesmo tempo em que você sabe que está tudo horrível, precisa dizer que está tudo bem, pois você não quer contribuir para enterrar mais a esperança, tem que lutar para mantê-la. Então, o que aconteceu comigo é que eu vinha nesse embalo (da escrita), quando terminei este, escrevi o que falei, sobre teatro”.

Na prática, sua agenda sofreu um duro golpe. “Como disse, as coisas já não vinham bem, dificultando muito a realização (de projetos). Eu tive três trabalhos cancelados, um atrás do outro. Hoje, sou praticamente sustentado pela minha mulher, comercialmente, porque, de repente, eu me vi sem trabalhar, sem contrato, sem nada. Dá uma insegurança – e olha que eu tenho um mínimo de boa estrutura. Isso só me leva a imaginar o que as outras pessoas estão passando. É triste dizer o que vou falar, mas talvez os muito pobres, inacreditavelmente já estejam até habituados a viver com a ausência e as dificuldades, (o que estamos vivendo hoje) seria apenas uma continuidade da vida dele”.

No que tange à TV, ele lembra que no dia anterior à entrevista foi avisado da suspensão das gravações da minissérie na qual estava fazendo uma participação, “Cine Holliúdy”. “Chegamos a gravar, fazendo os testes (para detectar infecção pelo novo coronavírus), mas, mesmo com todo um protocolo, devido ao agravamento da situação no país, decidiram suspender por ao menos mais 15 dias, inclusive para ver o que acontece. O que penso é que tudo está na corda bamba sem uma rede protetora – portanto, uma sensação muito ruim. Isso prejudica até falar sobre projetos. Porque projeto é projeção, é ‘vou fazer isso lá na frente’. Como, agora, se as coisas a toda hora são paralisadas? Tem muita gente fazendo lives, etc, mas não é bem o meu caminho. Ou seja, eu tinha novela, teatro, dois filmes, seriado… Agora, vamos ver. Mas não dá para fazer nenhuma previsão”.

Ativista e com atuação política notória, inclusive como vereador e deputado, Stepan diz que participar de novos pleitos não está no seu radar. “Me refiro a essa política clássica. Não me vejo mais, não tenho essa pretensão. Eu tive uma relação de muito amor com a política, e ainda considero ela importantíssima. Apesar de estarmos passando por momento tão tenebrosos, ela é fundamental na organização social, na vida das pessoas. Mas o modelo não me atrai mais. Foi uma volta perceber que talvez com o meu trabalho, com a minha arte, eu vá conseguir fazer mais a política na qual eu acredito que no legislativo. Enquanto estive (nela), foi muito verdadeiro e tudo muito forte, no final, porém, já estava assim, meio desconfiando se o que estava me levando (em frente) era o ideal político ou se eu já não estaria me acomodando, quase me tornando quase um político profissional. Um mandato e mais um mandato. Então, quando eu entrei, segui o meu ânimo, quando saí, eu segui o meu desânimo”.

Atualmente, ele diz estar triste com o quem vem assistindo e confessa entender que vai ser preciso se organizar em defesa da democracia. “No meu ponto de vista, a nossa maior ameaça hoje é em relação ao regime democrático. Acho que o que vivemos, em um certo sentido, é até pior que na ditadura, eu poderia dizer. Porque a ditadura tem uma face bem definida: é uma ditadura. Agora, esse processo que está acontecendo hoje é uma distorção da democracia. As pessoas são eleitas democraticamente e, uma vez chegando (ao poder), tentam destruir esse sistema que as levou até ali. Isso é muito triste. Você tem que respeitar os ideais contrários , mas como, se ele começa a mostrar uma face obscura, extremamente perigosa e negativa, no que diz respeito à vida humana, à liberdade de pensamento e de expressão, todas essas bandeiras que a gente defende há anos? Coisas que defendemos com muita força, muitas lutas e às custas de muitas vidas e da dedicação de tantos bons brasileiros para conseguir a redemocratização do país. E de repente, você vê tudo ameaçado de novo. Democraticamente ameaçado”.

#SempreUmPapoEmCasa com Stepan Nercessian, Paulo Betti e Antonio Grassi

Dia 24 de março, quarta-feira, às 18h

Local: Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo

Informações: www.sempreumpapo.com.br

 

O que seria de nós sem a literatura?

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Por Fabiene Secches, na Época

Faz um ano que estamos de quarentena, privados de nossas vidas sociais, confinados às nossas casas e atividades essenciais;
como poderíamos estar enfrentando um período repleto de desafios se não fosse a ajuda da literatura, do cinema, da música e de outras expressões de vida?

Faz um ano que tentamos ficar em casa sempre que possível, um ano que usamos máscara sempre que precisamos sair. Um ano que estamos assustados, alarmados e coletivamente enlutados, quando não pessoalmente devastados por perdas de pessoas próximas a nós. São tempos impensáveis, que testam limites e nos colocam em uma condição extrema. Ninguém pode suportar bem uma dor aguda que se transforma em crônica, mas não deixa de doer com a mesma intensidade de antes.

Faz um ano que compartilho nas minhas redes sociais algumas notícias que considero imprescindíveis e um ano que tento me proteger do excesso de informação dessas mesmas redes, que mais nubla o pensamento do que ajuda a pensar. Também faz um ano que agradeço diariamente por ter boas companhias nessa jornada, as que estão por perto todos os dias e as que estão de longe, através das telas, em cada aula que frequento ou que ministro e em cada encontro on-line, com quem tenho trocas tão enriquecedoras. Se não fosse a literatura, o cinema e a música, se não fossem os bichos e as plantas, não sei como estaria sobrevivendo.

É muito importante não se alienar e não se acostumar ao absurdo, principalmente quando estamos diante de um vírus que não é resultado de uma mera fatalidade biológica, mas sim consequência do nosso modo de vida predatório. Apesar disso, muitas mortes poderiam ter sido evitadas. Basta observar a curva de contágio no mundo: enquanto lá fora os números começam a diminuir, no Brasil, continuam aumentando. Nós, que tínhamos tudo para nos tornar uma referência com nosso Sistema Único de Saúde (SUS), que poderia assegurar a vacinação em massa de modo exemplar se tivéssemos insumos, ficamos reféns de um governo que tem a morte como política — e isso, desde antes das eleições de 2018. Infelizmente, Bolsonaro e os seus só fizeram escalonar o que ele já prometia em campanha.

De outro lado, se é muito importante que a gente possa se revoltar e possa expressar essa revolta, que a gente possa se indignar e expressar essa indignação, ninguém pode sobreviver ao que se desdobra diante de nossos olhos falando apenas de morte e de doença. A realidade nos convoca para uma morbidez de proporções inéditas, guiada por aquilo que o pensador camaronês Achille Mbembe chamou de “necropolítica”. Mas nós precisamos de alguma pulsão de vida, de alguma esperança — nos termos que Caetano Veloso propõe a esperança, acompanhada de responsabilidade e de implicação.

Precisamos ler, escrever, desenhar, bordar, cantar, dançar, rir, conversar, encontrar pequenas alegrias no meio de tanto cansaço e desalento. São votos de fé, que longe de expressões alienadas, são expressões de vida. Escrevo esta coluna para puxar conversas sobre o que pode nos ajudar. O instrumento mais valioso, sem dúvida, é o nosso voto. E, para exercê-lo bem, precisamos nos lembrar de um embate descrito pelo psicanalista alemão Sigmund Freud: o princípio do prazer versus o princípio da realidade. Quando votamos, nem sempre podemos escolher o nosso candidato ideal, temos que nos confrontar com as opções reais e com as limitações que cada uma delas oferece. Alianças que desaprovamos, características que rechaçamos, políticas das quais discordamos. Uma delas vencerá as eleições, uma delas decidirá sobre tantas vidas, e a que está em curso não pode continuar.

Enquanto estivermos coletivamente embriagados pela ficção da falsa equivalência, não enxergaremos as diferenças abissais que existem entre o governo atual e qualquer outro governo democrático que o Brasil já teve ou poderia ter. É preciso que estabeleçamos um limite do que é intolerável. Se 30 mil mortes não eram (como Jair Bolsonaro mencionou numa entrevista bem anterior às eleições), será que 300 mil serão?

Mas, até 2022, quando teremos a oportunidade de escolher novamente, como vamos atravessar? Pode ajudar se abrirmos portas que nos permitam visitar outros mundos, que nos permitam sair da catástrofe em que estamos vivendo. Agora que essas portas estão concretamente fechadas, a literatura e o cinema se tornam ainda mais valiosos. É pelas páginas dos livros e pelas telas do celular, do computador e da televisão que podemos viajar, encontrar momentos de trégua, intervalos para o sofrimento, ou mesmo compreensão para o nosso sofrimento. Cada um pode escolher o que pode e precisa ler ou ver para se restabelecer minimamente, para que possa voltar a se sentir capaz de sonhar e de amar.

Nessa quarentena prolongada, tive oportunidade de assistir e de ministrar dezenas de aulas e de participar de outros tantos encontros para falar de literatura. Nessas ocasiões, as pessoas que estiveram comigo à distância pareciam vivissimas, repletas de assuntos e afetos, ávidas para ouvir e para compartilhar impressões, interpretações, questões suscitadas pelas obras discutidas, que foram desde a Antiguidade Clássica, com Medeia, do dramaturgo grego Eurípedes, até a contemporaneidade, com obras que tratam de questões próprias do nosso tempo, como o ótimo romance Sobre os ossos dos mortos, da escritora polonesa Olga Tokarczuk.

Há também quem não esteja conseguindo sequer encontrar a concentração necessária para a leitura, o que é mais do que compreensível. Nesse caso, recomendo se proteger um pouco das notícias — ninguém precisa ser informado de hora em hora, não é mesmo? — e do ambiente muitas vezes fatalista das redes sociais. Se puder, reduza o tempo de exposição a esses meios e escolha um livro que não se coloque como um obstáculo, começando por uma obra que tenha vontade de ler por puro entretenimento, independentemente da qualidade literária. Ou, quem sabe, busque um clube de leitura, com cronograma estabelecido, para que isso e as trocas com colegas possam funcionar como estímulos. Pode ser uma boa forma de quebrar a barreira.

Recentemente, a escritora brasileira Giovana Madalosso compartilhou no seu perfil do Twitter: “Finalmente entendo o que ia dentro daquelas pessoas que bebiam, cantavam, amavam e trepavam, mesmo durante a guerra”. No mesmo clima, acrescentaria que finalmente entendo aqueles que escolhiam ler literatura. São os livros, e também os filmes e as séries, essas produções absolutamente “desnecessárias”, que estão salvando a minha vida e a de tanta gente, assim como as máscaras e as vacinas.

Viva a ciência, que prospera em meio a tanta obscuridade e está nos oferecendo uma porta de saída. E viva a força das histórias, que por vezes funcionam como bóias às quais podemos nos agarrar, enquanto aguardamos socorro. E, por vezes, são elas mesmas barcos que permitem a travessia, nos levando a outros lugares, mais ou menos sãos, mais ou menos salvos.

 

Vale a pena se refugiar na literatura em momentos de crise?

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Por Juliana de Albuquerque, na Folha de S. Paulo

Em um dos capítulos de “Diante do Extremo” (1991) o crítico Tzvetan Todorov comenta como a contemplação do belo pelos prisioneiros dos campos de extermínio nazistas e dos gulags soviéticos deu-lhes a oportunidade de transcender —mesmo que por raros momentos— a miséria a que estavam submetidos. Entre os vários depoimentos colecionados por Todorov, temos o célebre relato do psiquiatra Viktor Frankl sobre a sua experiência em Dachau:

“Por vezes acontecia, num anoitecer em que estávamos deitados no chão, na terra batida do pavilhão, mortos de cansaço depois do trabalho do dia, nossas gamelas de sopa entre as mãos e, de repente, um camarada entrava correndo para suplicar-nos que saíssemos para a Praça de Chamada, somente para não perdermos, apesar do cansaço e do frio que fazia lá fora, um magnífico pôr do sol!”.

Em seguida, Todorov faz referência à escritora Ievguênia Ginzburg, condenada a 18 anos de trabalho forçado na Sibéria, que, no trem que a transportava até Vladivostok, fora desafiada a recitar poesias por pelo menos meia hora —sem consultar qualquer material escrito— sob pena de todos os seus companheiros de vagão completarem a viagem em cárcere batido

Ao relatar este episódio, do qual Ginzburg saiu vitoriosa, Todorov cita uma passagem das memórias da autora de modo a auxiliar-nos a compreender o seu espírito de resistência:

“Meu instinto me dizia que, mesmo que minhas pernas tremessem, mesmo que minhas costas gemessem sob o peso das carriolas carregadas de pedras incandescentes, enquanto a brisa, as estrelas e a poesia continuassem a me emocionar, eu permaneceria viva”.

A poesia também se faz presente no relato de sobrevivente do escritor Primo Levi que, em dado momento da sua passagem por Auschwitz, tornou-se muito amigo de um jovem a quem resolveu ensinar italiano em troca de algumas lições de francês.

Ressalto que na tortuosa “Babel” de Auschwitz —a devorar de maneira impiedosa prisioneiros de todas as partes da Europa— conhecer mais de uma língua era uma questão de sobrevivência.

No entanto, ao se reportar a este episódio, Todorov comenta que —para além dessa instrumentalização dos idiomas na luta por sobrevivência no campo de extermínio— Levi ter-se-ia encorajado com a sensação de liberdade inspirada pela camaradagem intelectual, desejando poder compartilhar com o amigo versos do poeta Dante Alighieri, ciente de que, muito mais do que as barreiras da linguagem, o tempo e a precariedade das suas circunstâncias conspiravam contra a preservação daquele laço afetivo.

Em seu próprio relato, Levi comenta a sofreguidão com a qual tentou se lembrar de algumas estrofes de “A Divina Comédia”:

“Quantas coisas mais haveria que dizer, e o sol já está alto, já é quase meio-dia. Estou com pressa, com uma pressa danada […]. É absolutamente necessário e urgente que ele ouça, que compreenda […] antes que seja tarde demais. Amanhã, ele ou eu poderemos estar mortos, ou nunca mais nos vermos”.

Sobre este episódio em específico, Todorov comenta que a urgência de Primo Levi tinha causa no medo de que ao ver-se incapaz de transmitir o poema para alguém cuja recitação poderia ter feito alguma diferença: “Os versos de Dante teriam habitado uma consciência humana a menos, um momento de elevação espiritual não teria ocorrido e o mundo perderia uma parcela de sua beleza”.

Um dos trechos de “A Divina Comédia” resgatados por Levi refere-se ao mítico comandante Ulisses e diz o seguinte:

“Relembrai vossa origem, vossa essência;
vós não fostes criados para bichos,
e sim para o valor e a experiência”.

Algo que caracteriza os relatos de Frankl, Ginzburg e Primo Levi é a capacidade de cada um desses autores em formar laços, ainda que transitórios, com as pessoas que partilhavam aquele terrível momento das suas vidas, além, é claro, de deixarem-se tocar pela beleza; mesmo quando todas as circunstâncias pareciam-lhes adversas.

Penso bastante sobre isso, quando, em momentos de crise, insisto em escrever sobre literatura. Afinal, será que vale a pena? Nesta semana em que o Brasil bateu o próprio recorde de mortes diárias pela Covid-19, uma amiga comentou a necessidade de encontrar abrigo nos livros.

Ela, no entanto, sabe que, quando tudo nos parece faltar, o refúgio na leitura não nos torna insensíveis à realidade compartilhada e que, ao contrário do que muitos insistem, mesmo os textos mais idílicos podem ser capazes de nos oferecer meios de resgatarmos a nossa humanidade e de preservarmos a memória viva das pessoas que se foram: “Relembrai vossa origem, vossa essência…”.

A reinvindicação por nossa humanidade inspirada pela leitura nos traz ao diálogo com nós mesmos e, notadamente, com todos os outros com quem partilhamos a vulnerabilidade ante o destino. Talvez este protesto, somado aos esforços médicos para mantermo-nos vivos, permita-nos não apenas sobreviver, mas resistir e emprestar algum sentido aos nossos esforços cotidianos.

Gosto bastante da imagem retirada da tradição mística judaica de que o mundo fora criado a partir de um conjunto de letras e números. Um dos autores que melhor invoca essa imagem para si talvez seja o escritor Franz Kafka, cuja leitura exige que estejamos sempre atentos às várias possibilidades interpretativas invocadas pela exata ordem das palavras no texto1.

Em seu diário, por exemplo, Kafka traz-nos a história de um homem que, por alguns instantes, acredita ter visto um anjo no teto do seu quarto:

“‘Um anjo’, pensei eu. ‘Tem estado a voar na minha direcção durante todo o dia e na minha descrença eu não sabia. Vai agora falar comigo’. Baixei os olhos. Quando os levantei de novo, o anjo ainda ali estava, é verdade, suspenso muito abaixo do teto, que se tinha fechado de novo, mas não era nenhum anjo vivo, apenas um busto de madeira pintada, tirado da proa de um barco qualquer, do gênero dos que estão pendurados no teto das tavernas dos marinheiros. Nada mais. O cabo da espada estava feito de tal maneira que servia de base para velas e aparava a cera que caía. Eu tinha arrancado a luz elétrica, não queria permanecer às escuras, havia ainda uma vela e assim subi à cadeira, enfiei-a no punho da espada, acendi-a e então deixei-me ficar sentado noite a dentro à luz pálida do anjo.”

De início, o protagonista acredita que a visão que se formava diante dos seus olhos anunciava a sua libertação: “Era para mim, não havia qualquer dúvida; estava em preparação uma visão que me deveria libertar”.

Porém, ao finalmente constatar que a aparição do anjo havia sido uma ilusão —“Nada mais”— ele, mesmo assim, finda por atribuir algum propósito à miragem, deixando-se iluminar… pela luz daquele mesmo anjo cuja realidade foi contestada!

Ora, quem sabe este não seja um dos principais ensinamentos que a literatura tenha a nos oferecer em momentos de crise? Uma simples vela acesa, apoiada em um boneco de madeira não é o melhor substituto para o que imaginamos ser a claridade proveniente de uma presença angelical.

Mas, e se essa vela acesa por nós mesmos estiver fornecendo a única iluminação de que dispomos? E se aquele for o único anjo que nos assiste? Que lástima seria desperdiçarmos a sua chama quando estamos correndo o risco de uma vez mais tropeçarmos na escuridão!

1 A leitura de Kafka a partir desse ponto de vista será tema de uma próxima coluna.

 

Como meta de vida, americana decide doar 1 milhão de livros para estudantes de sua pequena cidade

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Publicado no Razões Para Acreditar

A americana Jennifer Williams estabeleceu uma meta de vida: doar 1 milhão de livros para os jovens de Danville, no estado da Virginia (EUA). A população da pequena cidade estadunidense de 42 mil habitantes já recebeu 63 mil livros das mãos de Williams desde 2017.

Grande parte das obras foram doadas aos estudantes da cidade. Segundo a benfeitora, em entrevista à CNN americana, a leitura incentiva a criatividade e o conhecimento.

“[Ler] pode te levar a qualquer lugar. Você pode viajar no tempo e no espaço. Se você pode ler, você pode aprender qualquer coisa”, afirmou Williams, que deseja que todos os habitantes de Danville tenham acesso aos seus livros doados.

A ideia de doá-los surgiu após alguns estudantes que passavam por sua tutoria pedirem para ficar com os exemplares para ler em casa. Como Williams possuía poucas cópias, precisou dizer não às crianças.

Após este tipo de situação se repetir diversas vezes, William decidiu doar 300 livros para três projetos nos quais ela dava monitoria. Segundo a CNN americana, a Book Lady (Senhora dos Livros, em tradução livre) – como é apelidada em Danville -, contou também com ajuda de vizinhos e de fieis que frequentam a igreja que ela vai.

Apesar de 300 livros serem o suficiente para alguns, Williams achou sua doação pouca. “Meu marido estava: ‘Nossa, parabéns’. E eu estava: ‘Bom, qualquer um pode fazer isso. Eu quero dar 1 milhão de livros’”, contou Book Lady.

O valor da leitura
Williams declarou que livros sempre foram importantes em sua vida. Sua mãe, que era bibliotecária, lia para ela e seus irmãos não só durante a infância, mas até eles entrarem na universidade.

Seguindo esta ideia de tornar a leitura comum entre os jovens da cidade, todo ano Williams doa, pelo menos, um livro para cada aluno da escola de ensino fundamental de Danville.

A cadeia de solidariedade se tornou tão grande na cidade, que a Book Lady sempre encontra livros deixados na porta de sua casa. Nesta corrente, Williams distribui alguns exemplares em locais públicos, como lavanderias e parques.

Como se a doação de 63 mil livros em quatro anos não fosse suficiente, Williams ainda dá aula de escrita criativa e comanda um clube do livro na cadeia de Danville. A Book Lady é ou não é um exemplo de cidadã?!

 

Sucesso de WandaVision esgota estoque de HQs relacionadas na Marvel Comics

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Publicado no Canaltech

Tenha você gostado ou não de WandaVision, fato é que a primeira série da Marvel Studios diretamente conectada ao Universo Compartilhado Marvel (MCU, na sigla em inglês) causou bastante barulho e conquistou muitos fãs ao longo das últimas semanas. E como costuma acontecer com adaptações, o público sempre quer saber mais consultando o material o original. Assim, a Marvel viu uma corrida em busca de seus quadrinhos que acabou esgotando as impressões disponíveis nos Estados Unidos.

A Marvel Comics informou aos varejistas que suas quatro coleções mais relacionadas às tramas vistas em WandaVision se esgotaram no nível do distribuidor em fevereiro, e as novas impressões não estarão prontas até o final de abril. The Vision Complete Collection, Vision & Scarlet Witch: The Wanda and Vision Saga, House of M e Scarlet Witch by James Robinson: The Complete Collection estão todos em espera para publicação, com todas as cópias que as lojas de quadrinhos e livrarias estadunidenses previstas para 21 de abril, na melhor das expectativas.

Os três primeiros já se esgotaram na Amazon gringa, com cópias disponíveis apenas nos marketplaces da varejista, a maioria de segunda mão e pelo dobro do preço de capa — ou mais. No Brasil, se você procurar por Dinastia M no site da Magalu também não vai encontrar edições à venda. É bem possível que comics shops locais e sebos ainda tenham coleções da minissérie Visão ou formatinhos com histórias dos Vingadores da Costa Oeste.

 

Agora, se você buscar essas edições em formato digital, sem problema, basta encontrar as opções no Comixology ou no próprio site da Marvel. A Marvel Comics tem adotado nos últimos anos um perfil mais conservador na impressão de coleções para vendas a longo prazo, preferindo tiragens menores em tempos de hype — como este — para diminuir os riscos financeiros. Embora a estratégia beneficie o lado administrativo, deixa a editora com possibilidade de escassez como essa.

Vale destacar que a Marvel passou por isso recentemente, quando Infinity Gauntlet sumiu das prateleiras gringas e teve seu valor inflacionado com o sucesso de Vingadores: Guerra Inifinita. E a Dark Horse também passou por problema semelhante, com o sucesso de Umbrella Academy na Netflix.

E, com esse hype todo, pode ser que a Marvel também repense o lançamento de um evento envolvendo o livro proibido Darkhold, com a Feiticeira Escarlate e Doutor Destino. As publicações estavam inicialmente previstas ainda para 2020, mas sumiram do calendário, justamente quando a pandemia de COVID-19 avançou pelo planeta e paralisou o mercado de quadrinhos por alguns meses nos Estados Unidos.

Fonte: GamesRadar

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