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Conflitos deixam 13,7 milhões de crianças fora das escolas, diz Unicef

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Relatório do Unicef divulgado nesta quinta (3) aponta impacto da violência.
Mais de 8,5 mil colégios na Síria, Iraque, Iêmen e Líbia estão destruídos.

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Publicado no G1
Relatório divulgado pelo Unicef nesta quinta-feira (3) aponta que conflitos armados e crises políticas em países do Oriente Médio e do Norte da África deixam 13,7 milhões de crianças fora das escolas.

De acordo com o Unicef, o foco do levantamento é o impacto da violência no sistema educacional de nove países das duas regiões (Síriax, Iraque, Iêmen, Líbia, Palestina, Sudão, Jordânia, Líbano e Turquia). O total verificado representa 40% das 34 milhões de crianças em idade escolas nesses países.

O impacto da violência na rotina das crianças também é mostrado no levantamento de instituições afetadas: mais de 8,5 mil colégios na Síria, Iraque, Iêmen e Líbia estão destruídos. Muitas servem agora de abrigo para famílias desalojadas ou viraram instalações militares.

Além do fechamento de escolas, o relatório aponta diversos casos de ataques feitos diretamente contra crianças e professores, a maioria enquanto estavam na própria escola.

Síria
Na Síria, uma em cada quatro escolas não pode ser usada porque foi destruída ou passou a ser usada como instalação militar e cerca de 52,5 mil professores deixaram suas funções. Quando as escolas ainda estão ativas, não estão livres do risco: ao menos 20% das crianças precisam cruzar linhas de conflito para chegar às escolas em atividade.

O levantamento aponta que, na Jordânia, no Líbano e na Turquia, 700 mil crianças sírias refugiadas não podem estudar. O motivo é a falta de capacidade dos sistemas educacionais desses países. A estimativa do órgão é que nações vizinhas à Síria tenham recebido 4 milhões de refugiados sírios.

Iêmen
No Iêmen, a escalada da violência se agravou em março. Mais de 3,5 mil escolas foram fechadas e 1,8 milhão de crianças ficaram sem estudar.

O órgão aponta que já antes do atual acirramento da violência já havia 1,6 milhões de alunos com idades entre 6 e 11 anos fora da escola. A estimativa é que 80% da população do país precise de assistência humanitária.

África
No Sudão, o Unicef aponta que “quase quatro décadas de guerra deixaram mais de 3 milhões de crianças fora da escola”.

Na Líbia, o acirramento dos conflios desde maio provocam o colapso de infraestrutura e interrupção de serviços básicos. A estimativa é que dois milhões de pessoas sejam afetados pelo conflito. Escolas no noroeste e no sul do país abrigam deslocados internos e na cidade de Bengazi, a taxa de frequência escolar caiu 50%. Nesta cidade, apenas 65 das 239 escolas funcionam.

Faixa de Gaza

O ano de 2014 foi marcado por conflitos que mataram ao menos 551 crianças palestinas e outras 3,4 mil feridas. Quando o ano letivo de 2014-2015 começou, mais de 500 mil crianças não tinham possibilidade de retomas as aulas. Os especialistas afirmam que os prédios das escolas são usados como abrigos por crianças que tiveram suas casas destruídas.

Iraque

No Iraque, escolas acomodam parte das três milhões de pessoas obrigadas a fugirem de conflitos. Pelo menos 950 mil crianças em idade escolar foram afetadas e 1,2 mil escolas em áreas de conflito foram transformadas em abrigos. Além disso, 2014 foi o ano com mais mortes desde 2008: quase 700 crianças foram mortes e outras 500, feridas.

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Abrindo a caixa dos horrores

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Bruno Astuto, na Revista Época

Quase um ano depois da morte do ditador líbio Muammar Kadafi na queda de Sirte pelas mãos dos rebeldes, os horrores dos 42 anos de seu regime sanguinário continuam vir à tona. Em seus delírios plenipotenciários, ele sempre se gabou de ter liderado um estado laico que bloqueava as investidas dos fundamentalistas islâmicos. Nas palavras de Kadafi, as mulheres líbias tinham direitos que os vizinhos árabes e magrebianos lhes negavam. Eram cidadãs “quase” no mesmo nível dos homens.

Os jornalistas e as forças de paz que cobriram a guerra civil líbia sempre se perguntaram por que as mulheres não participavam dos levantes das ruas, ao contrário de suas pares tunisianas e egípcias durante a chamada ‘Primavera Árabe’. O que, afinal, as detinha de se juntar aos rebeldes nas praças de Trípoli, uma vez que, na medida do possível, elas sempre tiveram o direito de circular livremente, até mesmo sem o véu?

A resposta, um ano depois, está no impressionante livro da jornalista francesa Annick Cojean, que chega ao mercado na próxima semana. Em ‘As presas. No harém de Kadafi’, ela revela a política de terror sexual esculpida durante mais de quatro décadas por um ditador maníaco, tarado e pedófilo que não se apoiava apenas no aparato militar de repressão para se manter no poder; ele também mantinha seus inimigos longe pela real ameaça de sequestrar e estuprar suas mulheres, filhas e irmãs.

Cojean entrevistou um punhado de vítimas sexuais de Kadafi, que relatam barbaridades inacreditáveis. Exemplo: o ‘líder’ mantinha no subsolo de um dos palácios um calabouço com 80 mulheres nuas que ele e sua tropa estupravam rotineiramente, sem lhes dar banho ou alimentação. Quando uma morria, o cadáver não era removido. Para humilhar os chefes das tribos e reiterar sua ascensão, Kadafi violentava suas filhas de 10, 11 anos de idade, na frente deles. Nem uma das noras do ditador teria escapado a sua sanha sexual. No início do levante dos rebeldes, ele importou de Dubai quilos e quilos de Viagra para distribuir entre suas tropas. A ordem era estuprar velhas e crianças antes de matá-las.

Quem adianta os depoimentos é a primeira-dama da França, Valérie Trierweiller, numa reportagem na edição desta semana da revista ‘Paris Match’. Ela teve acesso a duas vítimas do ditador, que lhe confirmaram as histórias. “Ele precisava de quatro meninas por dia, virgens de preferência. E exigia que fosse filmado durante o ato para que os guardas e os aliados vissem as fitas. Frequentemente, ele estuprava um menino ou uma menina enquanto discutia política com seu círculo”, relatou uma líder das forças rebeldes. As famílias tentavam manter suas festas de casamento na mais absoluta discrição, com medo de que ele aparecesse e decidisse estuprar a noiva. Os membros da famosa tropa de belas mulheres que faziam a guarda pessoal do ditador eram recrutados em escolas e, se sobrevivessem ao teste sexual, iam para o treinamento militar. As orgias eram regadas a drogas, cigarros, bebidas e música. “Tudo isso acontecia com a ciência dos diplomatas ocidentais, que se calavam por acharem que um regime islâmico na Líbia seria pior”, diz a autora.

Não é de se espantar, portanto, que as mulheres tenham tido uma participação tão oculta no levante, limitando-se a cuidar dos feridos e encorajar seus filhos a lutar. Cojean pretende que seu livro rompa o tabu para que o novo governo não retroceda na questão dos direitos femininos. Que essa espécie de holocausto das virgens cause tanto asco quanto os horrores praticados nos campos de concentração nazistas. O predador sexual está morto, mas as sobreviventes mantêm-se no silêncio, com medo de represálias dos novos opressores, os fundamentalistas, segundo os quais o estupro na maioria dos casos é incitado pela mulher. Resta saber se essas guerreiras conseguirão ter voz para terem, elas também, sua primavera.

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