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Stepan Nercessian estreia na literatura com ‘Garimpo de Almas’

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Publicado em O Tempo

O tom de voz de Stepan Nercessian adquire um acento, digamos assim, mais leve, até mesmo brincalhão, quando ele revela à reportagem do Magazine que finalmente escutou a frase que sempre sonhou adentrar seus ouvidos: “Não consegui parar de ler”. O comentário veio de um leitor e descrevia a reação dele ao primeiro fruto da nova faceta ativada pelo ator: a de escritor.

E não, não foi uma decorrência da pandemia. “Garimpo De Almas” (Tordesilhas Livros), que marca a estreia de Nercessian na literatura, foi escrito entre 2018 e 2019 – embora ele localize um embrião dessa empreitada uns anos antes. A obra, vale dizer, é o foco da edição desta quarta-feira do projeto Sempre um Papo, que adiciona uma novidade ao formato: além do mediador Afonso Borges, o encontro – marcado para às 18h, com acesso gratuito, nas redes sociais do projeto – vai contar, ainda, com as presenças de dois colegas e amigos de Stepan, os também atores Paulo Betti e Antonio Grassi – atual diretor-executivo do Instituto Inhotim.

Embora esteja debutando agora na senda literária, na verdade, o flerte de Stepan com a escrita vem de longa data. Hoje com 67 anos, o goiano (de Cristalina, filho de pai armênio e mãe cearense) lembra que foi trabalhar muito cedo na redação de um jornal, “convivendo com jornalistas e escritores”. “Aquele universo, aquele mundo, me fascinava. Mas depois fui tocando a vida por outros caminhos – até escrevendo uma coisa ou outra, mas sem pretensões. Quando tentei voltar a escrever de fato – e até já tinha esse título, ‘Garimpo de Almas’, na cabeça -, acabei, por acidente, perdendo quase tudo no computador. Sobraram umas dez páginas”, conta. A semente, porém, estava plantada. “No curso do tempo, eu até quis partir para outras escritas, mas não conseguia. Empacava. Acho que alguma coisa me cobrava, era meio que: ‘tenho que terminar aquilo’. Aí, um dia falei: ‘Chega, preciso resolver isso para escrever outras coisas’. E fui terminar ‘Garimpo’. Até aproveitei um pouco do que tinha na memória (das tais páginas perdidas), mas 95%, foi mesmo acontecendo na hora”.

Livro editado, Stepan se deparou com um sentimento inusitado: a ansiedade. “Porque livro não é igual ao teatro, por exemplo, quando a gente consegue ver, medir a reação das pessoas ali, na hora”. Quem tratou de acalmá-lo um pouco foi sua agente, Valéria. “Sim, eu tenho até agente, agora”, brinca ele. “Ela me disse: ‘Stepan, acalma e vai se preparando, porque o tempo da literatura é totalmente diferente. Cada livro tem um tempo de acontecer, uns mais rapidamente, outros mais lentamente'”, reconta.

Mesmo assim, ele festeja os feedbacks que já aferiu de nomes como o do cineasta Cacá Diegues, com quem tantas vezes trabalhou – aliás, o diretor acabou assinando o prefácio. “O Cacá foi das primeiras pessoas que leram. Mandei no rascunhão para ele, que foi muito gentil, me respondeu com umas dez, 15 páginas de e-mail analisando parte a parte. Me incentivou muito, tanto que depois fez o prefácio. E minha irmã mais velha também, que é bastante entusiasta de literatura. Acompanhou tudo e me incentivava”. O jornalista Rodrigo Fonseca, do “Estado de S. Paulo”, chamou o livro de a “primeira joia da literatura brasileira a ser descoberta na prosa em 2021”.

O título – que, como dito, ficou cravado desde a primeira investida – reverbera um senso de procura. “Uma garimpagem mesmo. No livro, há a frase: ‘Não sei até que ponto garimpo ou sou garimpado pelas almas’. Na verdade, penso no mundo como um garimpão enorme de vidas, histórias, pessoas. No geral, parece tudo uma coisa só, mas, na verdade, cada alminha tem uma história, uma vida. Então, há esse significado de buscar preciosidades, ir atrás de alguma coisa de valor humano dentro desse garimpão enorme que é a vida. Fico pensando nas tantas pessoas e almas que querem falar, contar histórias, se tornar visíveis… Essa foi a minha imaginação e o personagem é isso, um cara que fica atormentado, atordoado, com a quantidade de almas que o procuram querendo falar através dele”.

Evidentemente, embora esteja na esfera da ficção, Stepan reconhece o quão de suas vivências está ali. “Não me baseei na realidade, mas tudo o que está ali veio de dentro de mim, as emoções, sentimentos. Estavam pedindo para sair – no caso, pela literatura, mas poderia ser por outra forma de expressão artística. Aliás, acho que por isso as pessoas se identificam. Tem gente que me diz: ‘Ah, parecia eu’, ou ‘parecia minha avó'”.

Stepan ressalta, ainda, outro ponto que descobriu no ato de escrever, e que chama de fascinante: “Na escrita, o primeiro combate que você trava é justamente contra a auto-censura. É preciso ter a coragem de botar para fora, se expor, se mostrar. Ocorre que quando você não deixa que o seu racional vá te tolher, você pode se deparar com aspectos de sua personalidade que nem sempre são agradáveis ou os quais você admita com facilidade”, elocubra.

Seja como for, Stepan admite que o bichinho da escrita o picou de vez. Tanto que já tem quatro projetos de livros em mente. “Quando terminei esse, escrevi um outro, também antes da pandemia. Um ensaio, uma coisa sobre teatro, como se fosse uma peça, que se chama ‘Até Talvez Teatro’. Aliás, uma curiosidade: as pessoas que leram ficaram intrigadas, porque escrevi antes de tudo isso e a história se passa num teatro do qual, de repente, ninguém pode mais sair. Porque vai cair uma chuva ácida e as pessoas terão ficar ali, por tempo indeterminado. Quando a pandemia chegou, em março (do ano passado), parei de escrever ficção. E de repente comecei a me expressar com o que chamo de ‘poemas’ – veja, eu tenho muita reserva em falar que estou escrevendo romance ou fazendo um poema, porque eu não sei nem qual o modelo. Mas colocava nas redes sociais e as pessoas gostavam, diziam que estavam ajudando-as. Cheguei a fazer dois por dia, até três, de março a setembro. Na verdade, colecionei aí quase 100 poemas. Pode ser que eu os junte e, aí, faça uma avalição (do material) se vale a pena ser editado”.

Na sequência, ele voltou ao gênero romance. “Estou escrevendo um com o título ‘Casa Amarela’, mas, confesso, não com assiduidade. Aliás, até com certa dificuldade, inclusive porque veio o lançamento desse livro, o que te mobiliza. Não é que tome um tempo, mas é a ansiedade, pensar qual o destino da obra, como vai acontecer. É todo um tempo. Mas acho que até julho, agosto, no máximo, termino esse também”.

Por último, mas não menos importante, o quarto projeto se chama “A Arte de Pedir – Guia Prático para Inadimplentes e Negativados”. “Na verdade, agora vou acrescentar um outro capítulo: ‘e Confinados’. Pode até ser que esse livro possa ser visto assim, como mais alegre, mas, na verdade, trata de um tema muito triste que é a pressão econômica sobre os indivíduos”.

A história gira em torno de um sujeito que escreve um livro de auto-ajuda. “Ele nem faz questão que o leiam, só precisa mesmo que comprem. E pede para quem o adquirir não emprestar a ninguém, para não atrapalhar seu negócio. Mas, de toda forma, ensina a sobreviver diante do sufoco, dá dicas de como pedir dinheiro à mãe ou ao amigo, fala da arte de escolher um padrinho para o filho – porque, afinal, filho é investimento. Ao mesmo tempo, faço uma volta sobre essa questão da economia mundial, do mercado”.

Evidentemente, apesar de tangenciar a economia global, a obra tem muito a ver com o Brasil. “Uma coisa que considero importante ressaltar é o tanto de gente falando que a situação do Brasil ficou ruim por conta da pandemia. Não concordo. Estava péssimo e ficou horroroso. Está todo mundo num sufoco danado! É desemprego, falta de dinheiro… Todo mundo sofrendo o pão que o diabo amassou. Aí, olha ‘descobriram’ os invisíveis. Ora! Só se for invisíveis para quem não queria ver, pois eles estavam aí, há tempos, nas calçadas, na vida da gente. O tempo todo. Então, (a obra) tem essa perspectiva”.

Sobre a pandemia

Perguntado sobre que sentimentos o assolam nesta pandemia, Stepan responde com sinceridade. “Olha, são os mais controversos, ao mesmo tempo em que você sabe que está tudo horrível, precisa dizer que está tudo bem, pois você não quer contribuir para enterrar mais a esperança, tem que lutar para mantê-la. Então, o que aconteceu comigo é que eu vinha nesse embalo (da escrita), quando terminei este, escrevi o que falei, sobre teatro”.

Na prática, sua agenda sofreu um duro golpe. “Como disse, as coisas já não vinham bem, dificultando muito a realização (de projetos). Eu tive três trabalhos cancelados, um atrás do outro. Hoje, sou praticamente sustentado pela minha mulher, comercialmente, porque, de repente, eu me vi sem trabalhar, sem contrato, sem nada. Dá uma insegurança – e olha que eu tenho um mínimo de boa estrutura. Isso só me leva a imaginar o que as outras pessoas estão passando. É triste dizer o que vou falar, mas talvez os muito pobres, inacreditavelmente já estejam até habituados a viver com a ausência e as dificuldades, (o que estamos vivendo hoje) seria apenas uma continuidade da vida dele”.

No que tange à TV, ele lembra que no dia anterior à entrevista foi avisado da suspensão das gravações da minissérie na qual estava fazendo uma participação, “Cine Holliúdy”. “Chegamos a gravar, fazendo os testes (para detectar infecção pelo novo coronavírus), mas, mesmo com todo um protocolo, devido ao agravamento da situação no país, decidiram suspender por ao menos mais 15 dias, inclusive para ver o que acontece. O que penso é que tudo está na corda bamba sem uma rede protetora – portanto, uma sensação muito ruim. Isso prejudica até falar sobre projetos. Porque projeto é projeção, é ‘vou fazer isso lá na frente’. Como, agora, se as coisas a toda hora são paralisadas? Tem muita gente fazendo lives, etc, mas não é bem o meu caminho. Ou seja, eu tinha novela, teatro, dois filmes, seriado… Agora, vamos ver. Mas não dá para fazer nenhuma previsão”.

Ativista e com atuação política notória, inclusive como vereador e deputado, Stepan diz que participar de novos pleitos não está no seu radar. “Me refiro a essa política clássica. Não me vejo mais, não tenho essa pretensão. Eu tive uma relação de muito amor com a política, e ainda considero ela importantíssima. Apesar de estarmos passando por momento tão tenebrosos, ela é fundamental na organização social, na vida das pessoas. Mas o modelo não me atrai mais. Foi uma volta perceber que talvez com o meu trabalho, com a minha arte, eu vá conseguir fazer mais a política na qual eu acredito que no legislativo. Enquanto estive (nela), foi muito verdadeiro e tudo muito forte, no final, porém, já estava assim, meio desconfiando se o que estava me levando (em frente) era o ideal político ou se eu já não estaria me acomodando, quase me tornando quase um político profissional. Um mandato e mais um mandato. Então, quando eu entrei, segui o meu ânimo, quando saí, eu segui o meu desânimo”.

Atualmente, ele diz estar triste com o quem vem assistindo e confessa entender que vai ser preciso se organizar em defesa da democracia. “No meu ponto de vista, a nossa maior ameaça hoje é em relação ao regime democrático. Acho que o que vivemos, em um certo sentido, é até pior que na ditadura, eu poderia dizer. Porque a ditadura tem uma face bem definida: é uma ditadura. Agora, esse processo que está acontecendo hoje é uma distorção da democracia. As pessoas são eleitas democraticamente e, uma vez chegando (ao poder), tentam destruir esse sistema que as levou até ali. Isso é muito triste. Você tem que respeitar os ideais contrários , mas como, se ele começa a mostrar uma face obscura, extremamente perigosa e negativa, no que diz respeito à vida humana, à liberdade de pensamento e de expressão, todas essas bandeiras que a gente defende há anos? Coisas que defendemos com muita força, muitas lutas e às custas de muitas vidas e da dedicação de tantos bons brasileiros para conseguir a redemocratização do país. E de repente, você vê tudo ameaçado de novo. Democraticamente ameaçado”.

#SempreUmPapoEmCasa com Stepan Nercessian, Paulo Betti e Antonio Grassi

Dia 24 de março, quarta-feira, às 18h

Local: Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo

Informações: www.sempreumpapo.com.br

O que seria de nós sem a literatura?

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Por Fabiene Secches, na Época

Faz um ano que estamos de quarentena, privados de nossas vidas sociais, confinados às nossas casas e atividades essenciais;
como poderíamos estar enfrentando um período repleto de desafios se não fosse a ajuda da literatura, do cinema, da música e de outras expressões de vida?

Faz um ano que tentamos ficar em casa sempre que possível, um ano que usamos máscara sempre que precisamos sair. Um ano que estamos assustados, alarmados e coletivamente enlutados, quando não pessoalmente devastados por perdas de pessoas próximas a nós. São tempos impensáveis, que testam limites e nos colocam em uma condição extrema. Ninguém pode suportar bem uma dor aguda que se transforma em crônica, mas não deixa de doer com a mesma intensidade de antes.

Faz um ano que compartilho nas minhas redes sociais algumas notícias que considero imprescindíveis e um ano que tento me proteger do excesso de informação dessas mesmas redes, que mais nubla o pensamento do que ajuda a pensar. Também faz um ano que agradeço diariamente por ter boas companhias nessa jornada, as que estão por perto todos os dias e as que estão de longe, através das telas, em cada aula que frequento ou que ministro e em cada encontro on-line, com quem tenho trocas tão enriquecedoras. Se não fosse a literatura, o cinema e a música, se não fossem os bichos e as plantas, não sei como estaria sobrevivendo.

É muito importante não se alienar e não se acostumar ao absurdo, principalmente quando estamos diante de um vírus que não é resultado de uma mera fatalidade biológica, mas sim consequência do nosso modo de vida predatório. Apesar disso, muitas mortes poderiam ter sido evitadas. Basta observar a curva de contágio no mundo: enquanto lá fora os números começam a diminuir, no Brasil, continuam aumentando. Nós, que tínhamos tudo para nos tornar uma referência com nosso Sistema Único de Saúde (SUS), que poderia assegurar a vacinação em massa de modo exemplar se tivéssemos insumos, ficamos reféns de um governo que tem a morte como política — e isso, desde antes das eleições de 2018. Infelizmente, Bolsonaro e os seus só fizeram escalonar o que ele já prometia em campanha.

De outro lado, se é muito importante que a gente possa se revoltar e possa expressar essa revolta, que a gente possa se indignar e expressar essa indignação, ninguém pode sobreviver ao que se desdobra diante de nossos olhos falando apenas de morte e de doença. A realidade nos convoca para uma morbidez de proporções inéditas, guiada por aquilo que o pensador camaronês Achille Mbembe chamou de “necropolítica”. Mas nós precisamos de alguma pulsão de vida, de alguma esperança — nos termos que Caetano Veloso propõe a esperança, acompanhada de responsabilidade e de implicação.

Precisamos ler, escrever, desenhar, bordar, cantar, dançar, rir, conversar, encontrar pequenas alegrias no meio de tanto cansaço e desalento. São votos de fé, que longe de expressões alienadas, são expressões de vida. Escrevo esta coluna para puxar conversas sobre o que pode nos ajudar. O instrumento mais valioso, sem dúvida, é o nosso voto. E, para exercê-lo bem, precisamos nos lembrar de um embate descrito pelo psicanalista alemão Sigmund Freud: o princípio do prazer versus o princípio da realidade. Quando votamos, nem sempre podemos escolher o nosso candidato ideal, temos que nos confrontar com as opções reais e com as limitações que cada uma delas oferece. Alianças que desaprovamos, características que rechaçamos, políticas das quais discordamos. Uma delas vencerá as eleições, uma delas decidirá sobre tantas vidas, e a que está em curso não pode continuar.

Enquanto estivermos coletivamente embriagados pela ficção da falsa equivalência, não enxergaremos as diferenças abissais que existem entre o governo atual e qualquer outro governo democrático que o Brasil já teve ou poderia ter. É preciso que estabeleçamos um limite do que é intolerável. Se 30 mil mortes não eram (como Jair Bolsonaro mencionou numa entrevista bem anterior às eleições), será que 300 mil serão?

Mas, até 2022, quando teremos a oportunidade de escolher novamente, como vamos atravessar? Pode ajudar se abrirmos portas que nos permitam visitar outros mundos, que nos permitam sair da catástrofe em que estamos vivendo. Agora que essas portas estão concretamente fechadas, a literatura e o cinema se tornam ainda mais valiosos. É pelas páginas dos livros e pelas telas do celular, do computador e da televisão que podemos viajar, encontrar momentos de trégua, intervalos para o sofrimento, ou mesmo compreensão para o nosso sofrimento. Cada um pode escolher o que pode e precisa ler ou ver para se restabelecer minimamente, para que possa voltar a se sentir capaz de sonhar e de amar.

Nessa quarentena prolongada, tive oportunidade de assistir e de ministrar dezenas de aulas e de participar de outros tantos encontros para falar de literatura. Nessas ocasiões, as pessoas que estiveram comigo à distância pareciam vivissimas, repletas de assuntos e afetos, ávidas para ouvir e para compartilhar impressões, interpretações, questões suscitadas pelas obras discutidas, que foram desde a Antiguidade Clássica, com Medeia, do dramaturgo grego Eurípedes, até a contemporaneidade, com obras que tratam de questões próprias do nosso tempo, como o ótimo romance Sobre os ossos dos mortos, da escritora polonesa Olga Tokarczuk.

Há também quem não esteja conseguindo sequer encontrar a concentração necessária para a leitura, o que é mais do que compreensível. Nesse caso, recomendo se proteger um pouco das notícias — ninguém precisa ser informado de hora em hora, não é mesmo? — e do ambiente muitas vezes fatalista das redes sociais. Se puder, reduza o tempo de exposição a esses meios e escolha um livro que não se coloque como um obstáculo, começando por uma obra que tenha vontade de ler por puro entretenimento, independentemente da qualidade literária. Ou, quem sabe, busque um clube de leitura, com cronograma estabelecido, para que isso e as trocas com colegas possam funcionar como estímulos. Pode ser uma boa forma de quebrar a barreira.

Recentemente, a escritora brasileira Giovana Madalosso compartilhou no seu perfil do Twitter: “Finalmente entendo o que ia dentro daquelas pessoas que bebiam, cantavam, amavam e trepavam, mesmo durante a guerra”. No mesmo clima, acrescentaria que finalmente entendo aqueles que escolhiam ler literatura. São os livros, e também os filmes e as séries, essas produções absolutamente “desnecessárias”, que estão salvando a minha vida e a de tanta gente, assim como as máscaras e as vacinas.

Viva a ciência, que prospera em meio a tanta obscuridade e está nos oferecendo uma porta de saída. E viva a força das histórias, que por vezes funcionam como bóias às quais podemos nos agarrar, enquanto aguardamos socorro. E, por vezes, são elas mesmas barcos que permitem a travessia, nos levando a outros lugares, mais ou menos sãos, mais ou menos salvos.

Novo livro ilumina o enigma Clarice Lispector em centenário da escritora

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Publicado na Veja

Quando Clarice Lispector lançou seu romance de estreia, Perto do Coração Selvagem, em 1943, o livro foi classificado como “hermético e incompreensível”. Nele, a autora, então com 23 anos, reflete sobre a jornada psicológica de uma dona de casa em busca de si mesma. Três décadas depois, Clarice relembrou em uma carta os adjetivos aplicados pelos críticos à narrativa, intrigada pelo fato de a obra, mais tarde, ter se tornado um best-seller. “Decidi perguntar a um amigo: o que está acontecendo? O livro continua o mesmo. E meu amigo então respondeu: É que as pessoas se tornaram mais inteligentes, de uns anos para cá.”

A anedota exemplifica os ingredientes que temperam muitas das quase 300 missivas transcritas no livro Todas as Cartas. Os textos íntimos são abundantes em ironia e autocrítica, além de evidenciar facetas da ficção dita “lispectoriana” e sua universalidade. No ano do centenário da escritora, revelam quão relevante e atual ela ainda é. Exímia romancista e contista, autora de artigos, crônicas e colunas femininas, Clarice viveu quase duas décadas fora do Brasil, acompanhando o marido diplomata pela Europa e Estados Unidos. Com olhar cosmopolita, fala nas correspondências sobre os absurdos do cotidiano, as agruras da condição humana e as banalidades da vida, assim como expõe seu sentimento de deslocamento. São frestas curiosas que captam relances de sua personalidade misteriosa e reclusa, que fez dela uma figura tão imperscrutável quanto seus textos de admirável originalidade.

 

 

Desvendar a personalidade de Clarice e os significados de sua obra é uma missão abraçada por biógrafos e especialistas dos mais variados — as interpretações passam desde pelas mãos de psicanalistas até de interessados (vejam só!) em misticismo e física quântica. Em comum, eles se debruçam sobre as entrelinhas de seus textos e tentam preencher as lacunas históricas da vinda de sua família de judeus ucranianos para o Brasil e da sua ascensão profissional precoce. O interesse por ela ainda ganhou impulso com as redes sociais, que lhe conferiram autoridade de guru motivacional e feminista, com frases (muitas delas fake) compartilhadas à exaustão. Todas as Cartas se mostra, assim, um compêndio saboroso. E amplo: reúne correspondências datadas de maio de 1940 a novembro de 1977, um mês antes da morte de Clarice — em 9 de dezembro, aos 56 anos, vítima de um câncer de ovário. “O livro pode ser lido como uma espécie de autobiografia, não só para conhecer a obra da escritora, mas aspectos da vida social e política brasileira”, diz a biógrafa Teresa Montero, que assina o prefácio.

TODAS AS CARTAS, de Clarice Lispector (Rocco; 864 páginas; 119,90 reais e 59,90 reais em e-book) – ./.

Clarice pincela nas correspondências o fundo histórico do tempo em que viveu. Aos 21 anos, envia duas cartas ao então presidente Getúlio Vargas, pedindo a efetivação de sua cidadania: “Não possuo, nem elegeria, outra pátria senão o Brasil”. Na Europa da II Guerra, ela se assusta com o fantasma do nazismo: “Veem-se [nas ruas] cartazes de propaganda alemã, o que dá um aspecto pau às coisas” (“pau” era uma gíria que ela gostava de usar e seria algo como o “porrada” de hoje). A aparência de madame (em uma carta, ela festeja a compra de um batom novo em plena escassez da guerra) esconde uma mulher apegada, no íntimo, a simplicidades. Ela faz ácidas críticas à elite, que bem poderiam ser aplicadas ao recente noticiário sobre os barracos inacreditáveis de gente endinheirada do Rio e São Paulo. “Conheci pessoas simpáticas. Muitas esnobíssimas. Gente cheia de certezas e de julgamentos, de vida vazia e entupida de prazeres sociais. É evidente que é preciso conhecer a verdadeira pessoa embaixo disso”, escreve às irmãs, Tania e Elisa, após uma festa em Lisboa.

Entre os destinatários de cartas inéditas estão autores como João Cabral de Melo Neto, a quem ela rasga elogios (“Sendo eu ateia e o senhor um religioso profundo, o seu Deus é o meu”), e os amigos Rubem Braga, Erico Verissimo e sua esposa, Mafalda. Além de Lúcio Cardoso, com quem trava conversas profundas sobre seus livros. “Cada vez mais parece que me afasto do bom senso, e entro por caminhos que assustariam outros personagens, mas não os meus, tão loucos eles são”, diz ela. Esses loucos protagonistas não só marcaram a carreira literária de Clarice, como servem de ponte para sua personalidade: a complexa Joa­na, do “impenetrável” Perto do Coração Selvagem; G.H e sua experiência kafkiana com uma barata em A Paixão Segundo G.H.; e a nordestina Macabéa, que busca por uma vida melhor na cidade grande em A Hora da Estrela. “Clarice é a antiautoajuda que ajuda”, diz a psicanalista Maria Homem. “Escreve sobre a realidade, a morte, a ferida que dói. Ela diz a Macabéa em uma bola de cristal que tudo ficará bem, para em seguida atropelá-la. Clarice não é um entretenimento banal.”

Originalmente Chaya Pinkhasovna Lispector, Clarice era ainda bebê quando sua família fugiu da Ucrânia, então aterrorizada pelos bolcheviques. O grupo desembarcou em Maceió e se instalaria no Rio, cidade-paixão da autora. Quando ela vive na serena Berna, na Suíça, escreve que “falta demônio na cidade”. Na semana passada, o espírito “selvagem” de que tanto sentia falta mostrou que segue forte por aqui: após uma festa em meio à pandemia, a estátua em homenagem a ela na Praia do Leme acabou cercada por lixo. De forma irônica, o enigma Clarice se encontra com o enigma Brasil.

Aprenda a organizar seus livros de uma vez por toda com essas dicas

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Publicado no Terra

Organizar livros nem sempre é uma tarefa fácil, afinal eles exigem muitos cuidados. E caso não estejam guardados corretamente, eles podem amassar ou estragar, ficando com aquela famosa “orelha” nas páginas. Existem diversas formas de colocá-los em uma estante, o que depende tanto do gosto pessoal quanto do espaço disponível.

Além disso, eles também podem fazer parte da decoração do ambiente, seja do quarto ou, até mesmo, da sala. O ideal é investir em prateleiras para otimizar a organização, mas se você não sabe por onde começar, confira essas dicas que vão te salvar na hora de botar tudo em ordem.

Como organizar livros da melhor maneira possível

Desapegue
Todo mundo tem aquele livro que sabe que não vai ler mais e, mesmo assim, ele continua guardado em um canto. Chegou o momento de se livrar deles e de todos os outros que não são mais necessários. Não há porque continuar guardando-os e fazer isso só ocupa espaço. Você pode vendê-los para um sebo ou, quem sabe, doar para uma biblioteca.

Comece com a limpeza
Livros são delicados e pedem um espaço higienizado, por isso, antes de qualquer coisa é importante fazer uma faxina no ambiente em que eles serão guardados. Se utilizar um pano úmido, lembre-se de esperar a superfície secar completamente. E não se esqueça: os livros também precisam ser limpos, seja com uma toalha de flanela ou espanador de pó.

O que não é usado fica no topo ou embaixo da estante
Já leu aquele título ou então está guardando para depois? Então o deixe no topo ou na parte debaixo da estante, pois eles não precisam estar ao alcance das mãos. Isso facilitará a organização, já que eles estão em lugares de difícil acesso, raramente será necessários removê-los de lá.

O que é usado com frequência deve ficar na altura dos olhos
Agora aquele livro que você está lendo no momento, os que são usados para estudar e os livros de receita devem ficar na altura dos olhos e a fácil alcance. Já que eles sempre vão sair da estante, é importante não ter dificuldades para pegá-los.

Ordem de organização
Existem diversas formas de colocar os livros em ordem, tudo depende da sua preferência. As mais comuns são organizar por título da obra ou autor, por tamanho ou por cores. Essa última opção também cria a possibilidade de encapar todos os livros para que fiquem todos da mesma tonalidade, podendo combinar com a decoração do ambiente. As monocromáticas ficam enlouquecidas!

Acessórios para decoração
Além de apenas livros na estante, invista em objetos decorativos, para trazer um charme a mais ao ambiente. Aposte em porta-retratos, com fotos da família e amigos, ou em pequenos vasos de plantas. Outra opção são os aparadores, que ajudam os livros a ficarem na posição vertical e ainda podem fazer parte da decoração.

Para espaços pequenos
Se na sua casa não há espaço para uma estante, existem outras opções para organizar livros. É possível guardá-los em gavetas, com cuidado para não amassá-los, ou então em baús e na mesa de cabeceira, dessa forma eles também decoram o quarto. Isso é ideal para quem quer economizar espaço ou tem poucos títulos. E que tal categorizá-los em um caderninho para quando precisar, você ir até o lugar correto?

Conheça os 10 livros mais procurados durante o isolamento social

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Atualizar a leitura tem sido uma boa pedida para muitos durante o período de isolamento social

Publicado no D24am

Manaus – Para quem está acostumado com a rotina agitada, o isolamento social indicado pelos especialistas como prevenção ao coronavírus pode ser um momento especialmente difícil. Se reinventar e descobrir atividades prazerosas em casa, seja sozinho ou com a família, é uma forma de manter o equilíbrio. Atualizar a leitura tem sido uma boa pedida para muitos. É o que mostra o levantamento da Livraria Leitura do Amazonas Shopping, com a lista das obras mais procuradas na quarentena.

Dentre os que mais solicitados nesse período está o livro ‘Ensaio sobre a Cegueira’, do escritor português José Saramago, que narra a história de uma epidemia de cegueira. Não é o mesmo problema pelo qual passa o mundo hoje, mas guarda semelhança com a pandemia por Covid-19.

Os livros para colorir, ‘Jardim Secreto’, ‘Floresta Encantada’ e ‘Mundo das Flores’, da autora Johanna Basford, também estão na lista. Em geral, costumam funcionar como uma espécie de válvula de escape para rotinas estressantes, como ocorre, por exemplo, nesse período de isolamento social.

Conheça algumas das obras mais procuradas!

Ensaio sobre a Cegueira – Escrito pelo português José Saramago, o romance narra a história da epidemia de cegueira branca que se espalha por uma cidade, causando um grande colapso na vida das pessoas e abalando as estruturas sociais. O romance se tornou um dos mais famosos e renomados do autor. A cegueira começa em um único homem, durante a sua rotina habitual. Quando está sentado em seu carro no semáforo, este homem tem um ataque de cegueira, e é aí, com as pessoas que correm em seu socorro, que uma cadeia sucessiva de cegueira se forma. Uma cegueira, branca como um mar de leite e jamais conhecida, alastra-se rapidamente em forma de epidemia. O governo decide agir e as pessoas infectadas são colocadas em uma quarentena com recursos limitados que irá desvendar aos poucos as características primitivas do ser humano. A força da epidemia não diminui com as atitudes tomadas pelo governo e depressa o mundo se torna cego. Apenas uma mulher, misteriosa e secretamente, manterá a sua visão, enfrentando todos os horrores que serão causados, presenciando visualmente todos os sentimentos que se desenrolam na obra: poder, obediência, ganância, carinho, desejo, vergonha; dominadores, dominados, subjugadores e subjugados.

Mulheres que correm com os Lobos – Os lobos foram pintados com um pincel negro nos contos de fada e até hoje assustam meninas indefesas. Mas nem sempre eles foram vistos como criaturas terríveis e violentas. Na Grécia antiga e em Roma, o animal era o consorte de Artemis, a caçadora, e carinhosamente amamentava os heróis. A autora Clarissa Pinkola acredita que na nossa sociedade as mulheres vêm sendo tratadas de uma forma semelhante. Ao investigar o esmagamento da natureza instintiva feminina, Clarissa descobriu a chave da sensação de impotência da mulher moderna. Seu livro, Mulheres que correm com os Lobos, ficou durante um ano na lista de mais vendidos nos Estados Unidos.

Empodere-se – O autor do best-seller, Caio Carneiro, apresenta estratégias práticas para que você também possa se empoderar de uma vez por todas, buscando o próximo nível, seja ele pessoal ou profissional. Encontre dentro de você toda a energia necessária para colocar em prática os três C’s do compromisso: Começar, Continuar e Concluir seus planos e metas em todos os aspectos da sua vida.

Anne de Green Gables – Esse livro de L. M. Montgomery conta a história de uma menina de 11 anos, com cabelos ruivos, sardas e uma mente tão imaginativa quanto um cientista em busca de conhecimento. Entre uma travessura e outra, que insiste em permear os gramados em que pisa, Anne vai mostrando como aproveitar a vida de uma forma mais simples e divertida.

1984 – Escrita por George Orwell, a obra foi publicada originalmente em 1949. É um dos romances mais influentes do século 20, um inquestionável clássico moderno. Lançada poucos meses antes da morte do autor, é uma obra magistral que ainda se impõe como uma poderosa reflexão ficcional sobre a essência nefasta de qualquer forma de poder totalitário.

Revolução dos Bichos – Do mesmo autor de 1984, essa obra narra uma história de corrupção e traição que recorre à figura de animais para retratar as fraquezas humanas e demolir o “paraíso comunista” proposto pela União Soviética na época de Stalin.

Teto para Dois – O livro de Beth O’leary conta a história de Leon e Tiffy. Eles dividem um apartamento com uma cama só. Ele dorme de dia e ela, à noite. Os dois nunca se encontraram, mas estão prestes a descobrir que, para se sentir em casa, às vezes é preciso jogar as regras pela janela. A história do convívio entre eles começa quando, três meses após o término do seu relacionamento, Tiffy sai do apartamento do ex-namorado e precisa, urgentemente, de um lugar barato para morar.

Escravidão – Depois de receber diversos prêmios e vender mais de 2,5 milhões de exemplares no Brasil, em Portugal e nos Estados Unidos com a série 1808, 1822 e 1889, o escritor Laurentino Gomes dedica-se a uma nova trilogia de livros-reportagem, desta vez sobre a história da escravidão no Brasil. Resultado de seis anos de pesquisas e observações, que incluíram viagens por doze países e três continentes, este primeiro volume cobre um período de 250 anos, do primeiro leilão de cativos africanos registrado em Portugal, na manhã de 8 de agosto de 1444, até a morte de Zumbi dos Palmares.

Diário de um Banana – 4 dias de cão – Do autor Jeffey Kinney, o livro conta a história das aventura das férias de verão de Greg Heffley.

Como fazer amigos e influenciar pessoas – É um livro de autoria de Dale Carnegie que tem como objetivo desenvolver estratégias comunicativas e de ajuda entre pessoas. A obra é voltada para a arte de se relacionar com as pessoas, técnicas simples, porém, de extrema eficácia nos relacionamentos interpessoais.

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