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Vencedor do Pulitzer, Colson Whitehead diz que se tornou escritor no Brasil

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Escritor afirma que racismo, linchamento e violência policial são faces do cativeiro contemporâneo

Publicado no UAI

Escritor lança o livro 'The underground railroad: Os caminhos para a liberdade'. (foto: Odd Andersen/AFP)

Escritor lança o livro ‘The underground railroad: Os caminhos para a liberdade’. (foto: Odd Andersen/AFP)

Colson Whitehead já era escritor conhecido nos EUA quando lançou, em agosto de 2016, o romance The underground railroad, que, no Brasil, ganhou o subtítulo Os caminhos para a liberdade (Harper Collins). O sucesso absoluto de crítica e de público o projetou globalmente – foi #1 na lista de mais vendidos do The New York Times depois de recomendações públicas de Barack Obama e Oprah Winfrey. O livro deu a Colon o prêmio Pulitzer de ficção deste ano.

O romance usa uma estrutura que se move no tempo e no espaço para descrever o caminho de Cora, escrava que o leitor conhece numa fazenda da Georgia, estado norte-americano notadamente escravocrata e de farta produção de algodão no século 19.

A “ferrovia subterrânea” – denominação para a rede de pessoas que ajudavam escravos a fugir do Sul dos EUA, historicamente real – assume um caráter mágico, de realismo mágico. E os trens, na ficção, realmente viajam debaixo da terra.

Curiosamente, Whitehead diz ter se tornado escritor de ficção numa viagem ao Brasil, em 1994, quando tinha 24 anos. “Fui um cara de 20 e poucos anos quebrado e deprimido. Voltei (do Brasil) um cara de 20 e poucos anos quebrado e deprimido trabalhando num romance”, comenta, aos risos, nesta entrevista.

O que era “ferrovia subterrânea” da vida real?
Uma rede de pessoas que ajudavam escravos a escapar para o Norte. Gente que escondia escravos nos vagões, em celeiros. Na época, os trens estavam transformando os Estados Unidos, eram algo poderoso.

Como você fez o equilíbrio entre a realidade histórica e o realismo mágico do século 21?
O primeiro capítulo, na Georgia, na plantação, é realista. Antes de começar a brincar com a história, eu queria acertar. Quando Cora toma o trem, entramos no reino da fantasia. Um dos marcos do realismo mágico é manter uma cara séria, um tom prosaico, entre realidade e fantasia.

Você menciona o trabalho de Gabriel García Márquez em várias entrevistas. Como é sua relação com os livros dele?
Ele foi definitivamente importante quando eu era mais jovem. Comecei a querer ser escritor lendo ficção científica, fantasia e terror. Então, usar fantasia sempre me pareceu uma ferramenta natural para contar histórias. Li Cem anos de solidão quando tinha 17 anos. Li muito depois também e, quando estava tentando descobrir a voz de meu livro, pareceu que o realismo mágico era o jeito de prosseguir.

Até que ponto uma pessoa consegue ler e pensar sobre a história da escravidão e não ficar desesperada com a raça humana?
Foi muito difícil escrever. Na pesquisa, pensar nisso como um adulto era muito difícil. Tenho filhos. Não posso imaginar ver essas crianças torturadas ou vendidas. De vários jeitos, nem deveria estar aqui. É um milagre meus antepassados não terem morrido. “Eis uma ilusão: não podemos escapar da escravidão. Não podemos. As cicatrizes da escravidão nunca desaparecerão”, diz um personagem do romance.

Quanto dos Estados Unidos contemporâneo é resultado direto da escravidão?
O país se forma no século 19 a partir da escravidão, da exportação e do dinheiro que veio disso. Houve leis que regularam isso, mas depois os meios de controle se deram por outros jeitos, como a segregação, o racismo, o linchamento. Nos dias atuais, ainda temos uma polícia branca que pode ser muito racista e agressiva contra pessoas negras. Temos senadores e políticos que pensam em novos jeitos de privar eleitores negros do direito ao voto. Temos a revogação de leis de direitos civis e proteções no Departamento de Justiça. A escravidão acabou, mas há novos jeitos de colocar as pessoas negras em “seu lugar”.

Como você vê a discussão contemporânea sobre o racismo e suas origens, presentes, hoje em dia, nas artes?
Há mais artistas negros fazendo arte. Não estou certo sobre os resultados disso. A escravidão é pouco discutida nas escolas e a arte não deveria substituir a boa educação. Não temos uma exploração histórica sustentada na América, seja sobre o genocídio dos nativos, seja sobre a escravidão africana.

O narrador fala de um “imperativo” americano: “Se conseguir ficar com ele, é seu. Sua propriedade, escravo ou continente”. Esse imperativo segue vivo?
Nosso país é movido pelo capitalismo. Nós ainda temos interesse em exportadores de petróleo. Sim, os EUA passam muito tempo garantindo que os ricos permaneçam ricos.

A protagonista de seu romance aprende a ler. Você pensou na metáfora em que isso representa um tipo de liberdade?
Sim, claro, como é para qualquer um. Especialmente para pessoas que se alfabetizam mais tarde na vida. Nas narrativas de escravidão, esse é um grande momento, quando eles escapam, chegam ao Norte e aprendem a ler. De repente, todo um mundo se abre para eles. Queria isso para Cora. Ela começa como um objeto, sem conhecimento do mundo. Assim que aprende a ler, pode viajar além da sua localidade.

Esta é uma das partes mais interessantes do livro: como escravos eram punidos se fossem vistos lendo.
Em muitos estados, era ilegal ensinar escravos a ler. Uma vez que você lê, já não está completamente escravizado.

O protagonista era homem quando você teve a ideia do livro. Por que a mudança?
Isso foi antes de começar a escrever. Vinha de uma série de narradores masculinos e não quero fazer a mesma merda o tempo inteiro. Há uma escritora, Harriet Jacobs, que escreveu de maneira atraente sobre a escravidão, sobre como uma garota se torna mulher numa plantação e fica subjugada pelos desejos dos mestres – e então tem filhos. São dilemas diferentes dos de um homem.

Qual é a sua opinião sobre o primeiro ano de administração Donald Trump?
Ninguém, incluindo Trump, pensava que ele venceria. Era uma ideia para ganhar dinheiro na campanha, mas aí muitas coisas deram errado no mundo (risos). E agora é um período muito obscuro. A cada dia surge uma nova atrocidade perpetrada por ele ou por sua administração. Há um empurra-empurra entre direita e esquerda, democratas e republicanos. Se a gente não morrer num holocausto nuclear, alguma parte do dano que ele está fazendo será desfeita, mas no meio tempo muita gente vai se machucar, muita gente vai morrer e o prejuízo será da sociedade americana e das nossas relações pelo mundo. Para dizer o mínimo.

13 curiosidades sobre a literatura brasileira que você talvez não saiba

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Estátua de Carlos Drummond de Andrade no Rio de Janeiro (Foto: Okitron/Wikimedia Commons)

Estátua de Carlos Drummond de Andrade no Rio de Janeiro (Foto: Okitron/Wikimedia Commons)

Giuliana Viggiano, na Galileu

literatura brasileira é muito apreciada ao redor do mundo, mas o que pouca gente sabe é que existe uma porção de fatos bizarros que permeiam as histórias dos livros e de seus escritores.

A GALILEU listou, com ajuda do autor de História Bizarra da Literatura Brasileira (Editora Planeta, R$ 30), Marcel Verrumo, os fatos mais curiosos — e engraçados — que todo fã de livros vai gostar de saber.

Pero Vaz de Caminha queria trocar sua carta por um favor do rei
A grande carta do “descobrimento” do Brasil não era para ter sido escrita por Pero Vaz de Caminha. Na realidade, o escrivão oficial da frota era Gonçalo Gil Barbosa — que acabou não chegando ao Brasil. Com isso, Caminha escreveu detalhadamente a carta, que foi selecionada por Pedro Álvares Cabral e enviada ao então rei de Portugal, Dom Manuel.

Ao final do documento, havia um pedido para que o genro do escrivão, Jorge de Osório, fosse libertado do exílio por ter roubado uma igreja e ferido um sacerdote. A priori, D. Manoel negou, mas após a morte de Caminha, o governante acabou libertando Osório.
Fac-símile da carta original de Pero Vaz de Caminha (Foto: Wikimedia Commons)Fac-símile da carta original de Pero Vaz de Caminha (Foto: Wikimedia Commons)

Ninguém sabe direito se Gregório de Matos realmente existiu
A data de nascimento do poeta, também conhecido como Boca do Inferno, permanece desconhecida: especialistas a situam entre 1623 e 1636 — data nada precisa. Outro fato é que a biografia do autor tem muitas lacunas, o que gera questionamentos sobre a real existência de Gregório de Matos.

Como se não bastasse, não se sabe o que realmente foi escrito pelo poeta (se é que ele existiu). Isso porque publicações ainda não eram permitidas na Colônia naquela época, logo, seus textos eram transmitidos oralmente. Ninguém sabe se o que restou e foi registrado foi de fato do Boca de Inferno ou de outros autores satíricos e infames da época.

O termo “brochar” veio dos livros de brochura
Os livros eróticos eram impressos em formato brochura, aquele mais mole. Quando lia um desses livros, um sujeito olhou para a encadernação — e talvez para o próprio órgão — e associou o livro mole ao pênis flácido. “Da associação, surgiram a expressão ‘pênis brochado’, ‘homem brocha’ e o verbo ‘brochar’”, conta Marcel Verrumo.

Gonçalves Dias foi a única vítima do naufrágio da embarcação que o trazia de volta ao Brasil
O poeta romântico se via muito doente quando resolveu viajar para a Europa em uma tentativa de se recuperar. Ao chegar na costa da França, foi dada a notícia de que havia um homem morto a bordo e que essa pessoa seria Gonçalves Dias. Foi declarado luto oficial no Brasil e os fãs do autor ficaram muito tristes — até que a verdade foi revelada: ele não estava morto!

Após passar cerca de dois anos em solo europeu, mas não conseguir se curar, o poeta resolveu retornar. Gonçalves Dias passou a maior parte do tempo isolado na viagem, pois estava muito fraco para perambular pela embarcação. O problema é que, quando o navio já estava próximo à costa do Maranhão, um banco de areia surgiu e o barco colidiu. Desesperada para se salvar, a tripulação fugiu afobada e esqueceu Gonçalves Dias, que morreu afogado.

A primeira publicação de uma mulher no Brasil foi só no século 19
Nísia Floresta foi a primeira mulher a ingressar na imprensa brasileira e a ter o nome assinando um livro no Brasil. A autora nasceu no Rio Grande do Norte e já aos 14 anos mostrou a que veio: fugiu da casa do marido e pediu abrigo para os pais, que tiveram que se mudar para Pernambuco.

As obras de Floresta falavam sobre o machismo na sociedade, mas não só isso. Ela também escreveu livros sobre índios e negros de forma empática e humanista, mostrando-os não como heróis, mas como vítimas da exploração colonial. Hoje Nísia Floresta está esquecida, mas teve papel crucial na história como uma das primeiras feministas do país.


Para José de Alencar, a escravidão contribuía para o progresso humano

O consagrado autor brasileiro defendeu a escravidão em uma série de cartas enviadas para o Imperador Dom Pedro 2º. Para ele, o sistema escravocrata ajudava no progresso humano e seu fim culminaria em uma grande crise econômica.

Os documentos históricos, entretanto, foram deixados de lado e acabaram caindo no ostracismo. Outra curiosidade é que as cartas tinham um tom um pouco arrogante, pois José de Alencar acreditava saber mais sobre política economia que o próprio rei.

Olavo Bilac se envolveu no primeiro acidente de carro do Brasil
O poeta parnasiano Olavo Bilac deu um “rolê” no carro de José Patrocínio, jornalista da época que havia comprado um automóvel assim que eles começaram a chegar no país. O problema é que Patrocínio convidou o poeta para dirigir o carro — coisa que obviamente ele não sabia fazer, já que não haviam carros no Brasil.

No meio do passeio, Bilac fez uma curva em “alta” velocidade, 4 km/h, e bateu em uma árvore. Os dois homens saíram ilesos, mas o carro teve perda total.

O assassino de Euclides da Cunha matou também o filho do autor
Ao descobrir que estava sendo traído, Euclides da Cunha saiu de casa determinado a “matar ou morrer”. Encontrou o amante da esposa, Anna, em casa e ambos trocaram tiros: Euclides foi o primeiro a acertar, mas foi Dilermando, o “outro”, que deu o tiro certeiro e matou o autor de Os Sertões.

Anos depois, Euclides da Cunha Filho atentou novamente contra Dilermando que, não querendo matar o filho da amada, tentou fugir, mas como sua vida estava em jogo atirou e matou o filho de Euclides da Cunha. Depois disso, o homem foi julgado — não só pelo júri, mas pela sociedade brasileira —, mas foi absolvido.

Graciliano Ramos foi prefeito e multou o próprio pai
Graciliano Ramos viveu na cidade alagoana de Palmeira dos Índios e foi diretor de uma das escolas da cidade. Após conquistar muita popularidade na região, foi convidado a se candidatar à prefeitura da cidade.

O engraçado é que o autor foi eleito e era muito rígido: criou um código de postura moral com 82 artigos, dentre eles a proibição de dormir ou criar animais na rua. O pai do escritor de Vidas Secas, Sebastião Ramos, na época criava gado em um terreno baldio e acabou sendo multado pela prefeitura.

Guimarães Rosa ajudou a esposa a salvar judeus do Holocausto

Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa conheceu Guimarães Rosa na embaixada brasileira em Hamburgo, enquanto ambos trabalhavam lá no fim da década de 1930. Com a ajuda do marido, Aracy bolou um plano para transportar judeus que viviam na Europa nazista para o Brasil — mesmo com o então presidente Getúlio Vargas decretando a ilegalidade do ato.

Guimarães Rosa falsificava passaportes, enquanto a esposa dava um jeito de fazer o chefe assinar a papelada sem perceber que estava libertando parte da população judia. Aracy chegou a salvar quase cem pessoas e, em 1982, teve seu nome gravado no Museu do Holocausto, em Israel.

Carlos Drummond de Andrade achava que a homossexualidade era um desvio
O grande poeta brasileiro declarou mais de uma vez que acreditava que o “homossexualismo” (termo errado, já que o sufixo “ismo” denota doença) era um desvio da sociedade. Para ele, ser gay era coisa de garotos que eram atraídos pela vida noturna e boêmia.

Além disso, Drummond afirmou em entrevista que tinha certa repugnância à homossexualidade, e é até por isso que o tema aparece em apenas um de seus poemas, Rapto, do livro Claro Enigma. O que consola é que ao fim do texto o autor diz que essa é “outra forma de amar no acerbo amor”.

Paulo Coelho e Raul Seixas eram amigos e produziram um álbum juntos
Quando jovem, Paulo Coelho despertou a curiosidade de Raul Seixas que, até então, não era famoso. Se tornaram amigos após o cantor ler um artigo de Coelho sobre ufologia na revista A Pomba e ficar curioso para conhecer o autor do texto. Tempos depois, os dois fizeram um álbum juntos, que foi batizado de Krig-ha, Bandolo!. Raul cantava e Paulo havia escrito algumas canções e feito ilustrações.

O problema se deu em maio de 1974, quando ambos foram presos pela ditadura para “explicarem melhor” do que se tratava o disco. O cantor foi rapidamente liberado, mas o escritor teve de ficar mais tempo contando sobre o processo de criação do álbum, quando relatou que sua namorada, Adalgisa, havia participado da produção dos desenhos.

Após horas de interrogatório, o casal foi liberado, mas logo preso de novo e torturado. Não se sabe ao certo o que ocorreu com Adalgisa e Paulo, mas a situação foi tão conturbada e estressante que os namorados acabaram rompendo depois da prisão.

Rachel de Queiroz apoiou a Ditadura Militar
A jovem Rachel de Queiroz flertava com a esquerda e até se aproximou do Partido Comunista Brasileiro (PCB) durante a década de 1930. Entretanto, quando teve seu livro O quinze criticado pelo partido desiludiu-se e afastou-se da esquerda, o que a fez simpatizar mais com a direita da época.

No início da ditadura, Rachel cedeu sua casa para políticos e intelectuais planejarem o golpe militar. Ela participou pintando folhetos e até se filiando à Aliança Renovadora Nacional (Arena).
Rachel de Queiroz entre os escritores Adonias Filho e Gilberto Freyre (Foto: Wikimedia Commons)Rachel de Queiroz entre os escritores Adonias Filho e Gilberto Freyre (Foto: Wikimedia Commons)

Em 1991, quando participou do programa da TV Cultura Roda Viva, Caio Fernando de Abreu questionou o posicionamento da escritora, ao que ela replicou: “Gostaria de responder a você que nós estamos em um país democrático, eu respeito as suas posições e espero que você respeite as minhas”.

(com informações de História Bizarra da Literatura Brasileira, de Marcel Verrumo)

Harvard proíbe escola de usar brasão com símbolo escravista

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havard

Publicado no Alagoas 24Horas

A Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, decidiu que sua escola de direito não vai mais poder usar o atual brasão porque o desenho tem como base símbolos identificados como racistas e de origem escravista.

A decisão foi tomada na segunda-feira (14) após a análise do parecer de um comitê de professores. O grupo analisava o tema desde novembro de 2015, após estudantes começarem, um mês antes, campanha no Facebook contra o símbolo.

A escola de direito foi fundada em 1817. Mas o brasão alvo da polêmica foi desenhado em 1936 como parte da celebração do tricentenário da universidade. Ele tinha como base o brasão de armas da família de Isaac Royall, pai do benfeitor da escola.

O desenho da família Royall, tinha a representação de três fardos de trigo, reutilizados no centro do escudo de Harvard. Também compõe o desenho a palavra Veritas (em latim, verdade) escrita em três livros; ela é o símbolo geral de toda a universidade.

No parecer pelo fim do uso, a diretora Martha Minow traça a origem do símbolo e da ligação da família com a escola. Ela relembra que, a cada ano, discutia com os novos alunos o papel de Isaac Royall Jr., benfeitor que emigrou para Boston e presenteou a universidade com o terreno que possibilitou a instalação da escola de direito de Harvard.

A professora lembra que o dinheiro que possibilitou essa doação veio da exploração do trabalho de escravos da família Royall em plantações na Antígua.

Ao determinar o fim do uso da composição com os fardos de trigo, a direção de Harvard recomendou à escola de direito que explore outras formas de reconhecer, em vez de suprimir, as realidades de sua história, sendo consciente da obrigação de honrar o passado sem tentar apagá-lo, mas trazendo a luz e aprendendo a partir dele.

Entre seus ex-alunos famosos, a “Harvard Law School” tem o presidente Barack Obama. É considerada atualmente a mais antiga escola de direito em funcionamento no mundo e divulga ter a maior biblioteca especializada no tema.
Fonte: G1

Declarações racistas de Fernando Pessoa reacendem a discussão sobre a relação entre os artistas e suas obras

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Poeta português Fernando Pessoa Foto: Ver Descrição / Ver Descrição

Poeta português Fernando Pessoa Foto: Ver Descrição / Ver Descrição

 

Texto racista escrito pelo poeta, reproduzido pelo escritor Antonio Carlos Secchin em sua página no Facebook, causou estarrecimento nas redes sociais

*Jeferson Tenório, no Zero Hora

Causou estarrecimento em muita gente a descoberta de um texto racista escrito pelo poeta Fernando Pessoa (1888 – 1935). A discussão correu as redes sociais depois que o escritor Antonio Carlos Secchin reproduziu um trecho em sua página no Facebook. O estarrecimento certamente ficou por conta da contundência das frases e também porque Fernando Pessoa ocupa um imaginário quase etéreo e mítico dentro da cultura ocidental contemporânea. Para nós, hoje, é difícil aceitar que um artista do calibre do poeta português, que simplesmente reescreveu liricamente a empreitada lusitana, criou complexos heterônimos e se tornou um dos pilares da literatura e da língua portuguesa, fosse capaz de escrever palavras tão assombrosas.

Fernando Pessoa tinha 28 anos quando escreveu que “a escravatura é lógica e legítima; um zulu ou um landim não representa coisa alguma de útil neste mundo.” Anos mais tarde, aos 32 anos, Pessoa escreveu que “a escravidão é lei da vida, e não há outra lei, porque esta tem que cumprir-se, sem revolta possível. Uns nascem escravos, e a outros a escravidão é dada.” E ainda próximo de completar 40 anos as ideias racistas ainda persistiam: “Ninguém ainda provou que a abolição da escravatura fosse um bem social (…) quem nos diz que a escravatura não seja uma lei natural da vida das sociedades sãs?”

Não bastasse isso, ainda encontramos em suas digressões opiniões estarrecedoras sobre as mulheres: “Em relação ao homem, o espírito feminino é mutilado e inferior. O verdadeiro pecado original, ingênito nos homens, é nascer de uma mulher”. Os excertos podem ser conferidos no livro Fernando Pessoa: Uma (Quase) Biografia, do pesquisador pernambucano José Paulo Cavalcanti Filho, que procurou fazer uma pesquisa bastante minuciosa sobre a vida do poeta.

O argumento mais recorrente quando autores de séculos passados são julgados por suas posturas preconceituosas e racistas é o de que eles apenas seguiram o pensamento da época e que, portanto, devemos ser cautelosos ao julgarmos tais posturas. No entanto, o argumento pode ser contestado quando levamos em consideração a existência de outros intelectuais contemporâneos a Fernando Pessoa, como Eça de Queiroz, Machado de Assis, Castro Alves, Joaquim Nabuco, que se opunham à escravidão. Certamente, a visão anacrônica é importante porque nos auxilia a compreender os processos ideológicos de uma determinada época. E talvez aí esteja o nó da questão: o de acreditarmos que compreender é o mesmo que absolver ou desculpar.

Não é de hoje que autores assumem posições ideológicas condenáveis. Jorge Luis Borges (1899 – 1986) apoiava declaradamente a ditadura argentina, Ezra Pound (1885 – 1972) e Heidegger (1889 – 1976) foram simpatizantes do nazismo. No Brasil, temos o já famigerado caso de Monteiro Lobato (1882 – 1948) e sua exaltação à Ku Klux Klan. Embora haja uma diferença bastante acentuada entre Pessoa e Lobato, já que em Lobato é possível percebermos marcas explícitas de racismo dentro da própria produção literária, diferentemente de Pessoa em que suas ideias racistas e misóginas aparecem em textos de opinião.

O caso de Fernando Pessoa reacende a discussão sobre a relação entre os escritores e suas obras e nos faz refletir o quanto suas biografias podem nos influenciar como leitores. Mesmo considerado um grande gênio pela crítica, não se pode esquecer que Fernando Pessoa é fruto de um país colonialista, ou seja, ele está inserido na longa tradição lusitana de exploração colonial. Por volta de 1920, quando Portugal já lamentava sua decadência e as sucessivas perdas das colônias, Fernando Pessoa começa a produzir a complexa e hermética obra poética Mensagem, que no fundo é uma exaltação da epopeia portuguesa, a exaltação das suas conquistas e glórias. Não há como negar que os versos estão imbuídos de um nacionalismo místico. Fazer uma relação direta entre este sentimento ufanista do poeta e suas afirmações racistas e misóginas pode soar superficial, mas é passível de reflexão.

É doloroso descobrir que um ícone literário tenha um lado tão sombrio. Portanto, o nosso desafio como leitores é o de sabermos separar a obra do autor, pois antes de ser poeta, Fernando é humano com toda a complexidade e contradição que ele carrega. A indignação e a decepção com Fernando Pessoa é válida e necessária porque nos aproxima dele e nos afasta daquela figura mítica e sobrenatural, ao mesmo tempo em que resgata a humanidade que há em nós ao refutarmos seus textos racistas e misóginos. A discussão foi posta, mas não percamos de vista a literatura. Guimarães Rosa já cantava essa pedra: “Às vezes, quase sempre, um livro é maior que a gente.”

*Mestre em literaturas luso-africanas pela UFRGS. Escritor, autor do romance O Beijo na Parede

 

Seis coisas que você provavelmente não aprendeu na escola sobre a África

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Fernanda da Escóssia, UOL

Kilombo, assim, com “k”, era um acampamento de guerra dos jagas, um povo africano que vivia onde hoje fica Angola. O catolicismo foi introduzido na Etiópia quase ao mesmo tempo que na Europa.

Coisas assim, que você nunca aprendeu sobre a África, ou aprendeu errado – o que dá quase no mesmo -, estão na lista abaixo, elaborada a pedido da BBC Brasil pela historiadora Marina de Mello e Souza, coordenadora do NAP (Núcleo de Apoio à Pesquisa Brasil-África) da USP.

Ela é professora do Departamento de História da universidade e autora, entre outros livros, de Reis Negros no Brasil Escravista e África e Brasil Africano, vencedor do prêmio Jabuti de melhor livro paradidático em 2007 e detentor do selo “altamente recomendável” da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil.

Confira a lista, elaborada às vésperas do Dia da Consciência Negra:

Europeus não controlavam o comércio

No continente o comércio existe desde a Antiguidade, tanto entre os povos africanos como com os povos de outros continentes. Até o final do século 19, eram os africanos que controlavam as trocas comerciais com os europeus.

Há católicos na África há de mais de 1.500 anos

A Etiópia é uma sociedade católica desde o século 4. Seu rei se converteu ao catolicismo nesse século, apenas poucas décadas depois que o imperador romano Constantino adotou essa religião e determinou o fim da perseguição aos cristãos.

Brasil fala português, mas com toque banto

Parte considerável do nosso vocabulário é de origem banto, um tronco linguístico africano, o que nos distancia bastante do português de Portugal. São dessa origem palavras como camburão, camundongo, tonto, zonzo, farofa e macaco.

Gana já existiu em outro lugar

O atual Benim se localiza onde antes existiu o Daomé e o antigo reino do Benim localizava-se na atual Nigéria. Gana é onde antes existiu o estado Axante, e na atual Mauritânia existiu, do século 9 ao 13, uma sociedade poderosa chamada Gana. Muitos nomes de países africanos atuais são homenagens a antigos reinos que existiram em outras regiões.

Africanos queriam vender escravos com ‘exclusividade’

Alguns reinos africanos também tinham interesse em manter o tráfico de escravos com o Brasil. Entre 1750 e 1818, reis do Daomé enviaram cinco missões diplomáticas para solicitar ao Brasil exclusividade na venda de escravos africanos.

Quilombo (ou melhor, kilombo) era acampamento de guerra

Kilombo era o acampamento de guerra dos jagas, povo que viveu na região da atual Angola. Muitos vieram para o Brasil como escravos, fugiram de seus senhores e se abrigaram no Quilombo dos Palmares.

Na avaliação de Marina de Mello e Souza, que leciona História da África desde 2001 na USP, havia no Brasil, até pouco tempo, extremo desconhecimento acerca do tema, com exceção de nichos muito específicos.

“Isso fez com que todos nós fôssemos bastante ignorantes a respeito daquele continente e das populações que lá vivem e viveram”, afirma. Por outro lado, a professora diz que tem notado extremo interesse dos alunos sobre o assunto e que a dificuldade inicial costuma ser seguida por espanto e fascinação.

Ao avaliar o material didático, a historiadora considera que antes era difícil obter textos sobre o tema em português e lista como referências, no nível universitário, obras de Alberto da Costa e Silva, como A Manilha e o Libambo (2002) e A África e os Africanos na Formação do Mundo Atlântico, 1400-1800, de John Thornton, publicado no Brasil em 2004.

Sobre o ensino fundamental e médio, entende que houve a partir de 2003 – quando história da África virou disciplina obrigatória nas escolas -, intenso movimento das editoras no sentido de publicar materiais de apoio.

“Muita coisa de qualidade duvidosa foi posta à disposição, mas esse quadro tem mudado. Hoje há muito material de boa qualidade disponível, principalmente entre os paradidáticos e literatura infanto-juvenil. Os livros didáticos ainda carecem de tratar com mais cuidado assuntos relacionados ao continente africano, inseridos como um adendo, para responder à demanda gerada pela obrigatoriedade estabelecida por lei”, afirma.

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