Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged Universidade de Harvard

“Em livro, professor de Harvard mostra o poder transformador da literatura”.

0

“Foto: Unsplash / Reprodução”

Guilherme Voitch, na Gazeta do Povo

No capítulo em que abre seu “O Mundo da Escrita”, o escritor norte-americano e professor de Literatura da Universidade de Harvard, Martin Puchner, conta como uma obra literária, a Ilíada de Homero, motivou um jovem Alexandre a conquistar o mundo conhecido da sua época, expandindo seu Império para fronteiras antes nunca alcançadas pelos gregos, por volta de 300 a.c.

O recado não poderia ser mais claro. Por meio do rei da Macedônia e sua relação de paixão com os heróis homéricos, Puchner mostra como a literatura moldou nosso mundo e como seria inimaginável pensá-lo sem a presença de textos escritos. “Desde que surgiu, há 4 mil anos, ela moldou a vida da maioria dos seres humanos que vivem no planeta Terra”, explica.

Se somos o que lemos – uma máxima que permeia todo o livro, da “Epopeia de Gilgamesh” a “Harry Potter” –, Alexandre fez da sua vida o que lia em Homero. Um poema épico de batalhas, conquistas, choques culturais e traição. Com a Ilíada debaixo do travesseiro, o rei da Macedônia conquistou o mundo.

Puchner, é claro, não está incentivando delírios de grandeza em jovens candidatos a déspotas globais, como ele afirma em entrevista à Gazeta do Povo. A literatura, para Puchner, funcionaria como uma espécie de motor individual da história, capaz de mudar vidas e traçar destinos. O poder da narrativa, é claro, sempre esteve presente nas diferentes culturas e provavelmente resiste nas poucas sociedades ainda ágrafas. As obras homéricas, é bom lembrar, reuniam relatos transmitidos oralmente de geração em geração.

A literatura, porém, garantiu uma espécie de passagem para a imortalidade, ao evitar que, de uma maneira ou de outra, essa transmissão oral fosse interrompida. É o que Puchner mostra, por exemplo, no capítulo dedicado ao “Popol Vuh” e à cultura Maia. Graças à obra, curiosamente traduzida pelos colonizadores espanhóis, sabe-se muito mais sobre os Maias do que sobre outras igualmente poderosas civilizações do Novo Mundo, como Incas e Astecas. Presente como produto literário, o Popol
Vuh tornou-se inclusive peça de propaganda dos movimentos zapatistas que se insurgiam contra o governo mexicano, na década de 90.

Poder incendiário

Exemplos de tal poder incendiário da palavra escrita vão da propagação vertiginosa do cristianismo e do islamismo pelo mundo à febre dos manifestos políticos que ganharam corações e mentes dos jovens europeus da passagem dos séculos XIX para o XX.

Mas, acima de tudo, a obra de Puchner diz respeito ao efeito único que a leitura produz na consciência individual. As histórias são diferentes, mas o ato da leitura é o mesmo – revolucionário e revelador por si só. Há muita evidência científica que corrobora as revelações de Puchner.

A Universidade de Pádua revela que crianças cercadas por livros têm mais chance de ter sucesso na vida adulta, a Universidade de Yale mostra que os leitores tendem a viver até dois anos a mais que não leitores e a Universidade de Sussex, no Reino Unido, relaciona a leitura à diminuição nos níveis de estresse. Por fim, estudo da New School de Nova York mostra que leitores de ficção são mais aptos a compreender as crenças e desejos das outras pessoas.

Em resumo, a leitura nos faz ter mais empatia, como no exemplar caso da poeta russa Anna Akhmátova, que manteve viva sua obra mais importante, o poema “Réquiem”, graças a ajuda de um grupo de amigas que memorizava cada verso do texto. O poema, ele próprio um mosaico do sofrimento das milhões de mulheres russas que viram suas famílias estraçalhadas pelo stalinismo, teve a impressão proibida na União Soviética.

O mínimo envolvimento com a obra poderia levar qualquer um à morte ou à prisão. Ainda assim, graças ao esforço do grupo, “Réquiem” resistiu ao stalinismo e teve suas primeiras impressões feitas de forma amadora, utilizando máquinas de escrever e papel carbono. As cópias que driblavam a censura, chamadas de samizdat foram um sucesso. Os russos queriam ler Akhmátova. Em um trecho de “Réquiem”, uma mulher desconhecida reconhece a escritora na fila de uma prisão em Leningrado.

“– E isso, a senhora pode descrever?
E eu respondi:
– Posso.
Aí, uma coisa parecida com um sorriso surgiu naquilo que, um dia, tinha sido o seu rosto.”

A persistência resignada de Akhmátova e suas amigas moldou o mundo tanto quanto à ambição global Alexandre. Em comum, a literatura.

“Não há uma crise de leitura”

Martin Puchner conversou com a Gazeta do Povo sobre seu livro “O Mundo da Escrita”. Na entrevista, ele refuta a tese de que exista uma crise de leitura. “Mais textos estão sendo escritos e lidos por mais pessoas do que em toda a história”, afirma.

Para ele, o que de fato existe é um momento de ruptura para a imprensa escrita, peça fundamental na consolidação das democracias. Na entrevista Puchner falou ainda sobre formalismos teóricos na literatura, nacionalismo e globalização e revelou o livro que fez sua cabeça.

O senhor abre o livro
falando do papel da leitura da “Ilíada” para Alexandre. Hoje a leitura pode ajudar um jovem ambicioso a “conquistar o mundo”, como ajudou Alexandre?

Até pode, mas eu não recomendaria. Afinal, Alexandre causou muita destruição. A leitura que ele fez de Homero – e como ela o inspirou – são um bom exemplo do poder da literatura, mas “poder” não significa “poder para o bem”.

Espero que jovens ambiciosos inspirem-se pela literatura, de preferência não para conquistar o mundo, mas para resolver nossos problemas globais mais urgentes, das mudanças climáticas à desigualdade de renda. A literatura pode ajudar a criar uma consciência global.

O senhor fala com bastante generosidade dos livros da série Harry Potter. Livros como esse são uma porta de entrada para a literatura?

Um dos fenômenos literários mais interessantes da atualidade é o crescimento da literatura “young adult” (para jovens adultos). É um fenômeno muito animador pois mostra que, ao contrário do que dizem os pessimistas da crítica cultural, os jovens estão lendo muito. Portanto, ele tem meu total apoio. E acredito que, uma vez criado o hábito da leitura entre jovens adultos, outros textos serão buscados.

Temas como globalização, globalismo e soberania de estados nacionais têm aparecido com frequência no noticiário político atual. No livro, o senhor descreve como Alexandre incorporou costume e cultura estrangeira ao mesmo tempo em que difundiu a língua e a literatura grega no mundo da época. Mostra como Goethe planejou uma literatura universal. Por outro lado, traz exemplos de como a literatura foi fundamental para fazer aflorar identidades nacionais no Caribe, no México e na África. Um mercado mundial de literatura é compatível com uma literatura de paixões nacionalistas?

Ótima pergunta. Há uma relação dinâmica entre a literatura nacional e a literatura global. Os épicos nacionais mencionados por você, instrumentais na criação de identidades culturais, costumam ser eles mesmos mosaicos construídos a partir de culturas anteriores ou diferentes. Posteriormente, acabam extrapolando seu contexto original e se tornam disponíveis para outras culturas. Até a noção de literatura universal de Goethe surgiu em meio a um movimento nacionalista – a unificação de diversos estados alemães.

Retiro duas conclusões desse paradoxo: 1. Já que as narrativas, especialmente narrativas coletivas e compartilhadas, desempenham um papel tão importante na criação de pertencimento cultural, a grande literatura costuma ter um efeito nacional ou até nacionalista. Ao mesmo tempo, ao examinar a história literária como um todo, podemos ver até onde a literatura transcende a nação e está disponível para gerações posteriores e além de seu contexto original: a literatura universal.

No capítulo dedicado a Benjamin Franklin, o senhor aborda a importância dos jornais para a formação dos Estados Unidos. Em “A Democracia na América”, Tocqueville dizia que “nos Estados Unidos cada jornal tem, individualmente, pouco poder; mas a imprensa periódica ainda é, depois do povo, o primeiro dos poderes.” O senhor tem acompanhado a crise dos jornais, que atinge principalmente os pequenos e médios? O senhor acha que há uma crise de leitura nos dias de hoje?

Eu não acho que haja crise de leitura. Mais textos estão sendo escritos e lidos por mais pessoas do que em toda a história,
principalmente na internet, mas também em outras mídias. É uma enorme democratização da literatura e da escrita e, se acreditamos na democracia, devemos saudar esse movimento. Eu celebro.

A crise mencionada não é de leitura, mas do modelo de negócio dos jornais, que se financiavam por meio de anúncios e, em menor grau, por meio de assinaturas. Com os anúncios desaparecendo e menos leitores dispostos a pagar por conteúdo, o modelo de negócio não é mais viável. Isso é preocupante e perturbador, porque os jornais com esse modelo de negócio foram cruciais para nossas sociedades.

Agora precisamos encontrar caminhos a seguir no cenário de mudanças da mídia, especialmente nas mídias sociais. Acho que governos, usuários e até empresas como o Facebook estão acordando para o fato de que essas plataformas têm um poder imenso. Esse poder precisa ser limitado, regulado ou organizado de alguma forma. Algo semelhante ocorreu nos primórdios dos jornais, a propósito, e nas primeiras décadas e séculos após a introdução da prensa, quando uma quantidade enorme de desinformação e falsidade circulou de forma muito mais generalizada. Nós lentamente aprendemos a lidar com isso, a organizar isso, e agora temos que fazê-lo novamente.

O senhor tem uma carreira como crítico literário e é professor em uma das mais importantes universidades americanas. Ao mesmo tempo, demonstra possuir uma relação afetiva intensa com os livros e a literatura e em seu livro parece insistir na tese de que essa paixão é acessível, inclusive aos leitores sem estudo formal.  O senhor concorda com a tese, defendida por muitos dos seus colegas, de que a especialização dos estudos literários na academia levou uma geração de estudantes a ler cada vez mais teoria e menos literatura em si?

Meus pensamentos e impressões sobre essa questão são complicados. Concordo que os estudos literários estão muito voltados para si próprios e esotéricos; nós, estudiosos da literatura, perdemos boa parte dos leitores não especializados, o que é muito ruim. É ruim do ponto de vista intelectual, afinal comunicar-se com leitores em geral é um exercício extremamente salutar e importante. E sem uma audiência geral, deixamos de atrair pessoas para a literatura.

Mas não acho que a teoria literária seja a culpada, ao menos não a única. O estudo literário, como qualquer disciplina, precisa de teoria, da mesma forma que a física ou a história. Infelizmente, a teoria literária costuma não ser particularmente boa ou útil. Precisamos de teorias melhores.

Também devo confessar que fui originalmente atraído para o estudo da literatura por meio da teoria. Na faculdade, me formei em filosofia e cheguei à literatura via teoria. Ainda hoje, meu trabalho é sustentado e informado pela reflexão teórica, mas não atraio leitores com termos abstratos. Formulo certo entendimento da literatura, da história literária, e depois o mostro em ação. Ao escrever sobre histórias contadas, eu mesmo conto histórias. Isso faz muito sentido para mim, e espero que mais colegas façam o mesmo.

Qual livro despertou no senhor o gosto pela leitura?  

Outra confissão: na verdade, eu não era um grande leitor até os 16 anos. O único livro que realmente me impressionou foi o “O Senhor dos Anéis”, do Tolkien, que eu ainda amo. Mesmo na faculdade, como acabei de mencionar, fui atraído muito mais pelos argumentos abstratos da filosofia. Foi só depois dos 20 anos que me peguei cada vez mais lendo literatura. O “Ulisses” de Joyce foi logo uma paixão à qual eu ainda retorno sobre a qual às vezes ensino. Acho que ele me impressionou muito porque o li pela primeira vez numa circunstância especial, no Monte Athos, na Grécia, em um mosteiro medieval. Essa experiência me fez conectar leitura e viagem, algo que depois me levou a escrever este livro, que combina as duas coisas.

O crítico Harodl Bloomabordou o escritor brasileiro Machado de Assis em seu livro “Gênio: Os 100
autores mais criativos da história da literatura”, classificando-o como um
“milagre”. O senhor concorda com a avaliação? Gosta da literatura brasileira?

Não costumo concordar com Harold Bloom, mas neste caso concordo! Incluí Machado de Assis, o conto “O Caso da Vara”, em minha antologia da literatura mundial, “The Norton Anthology of World Literature”. Adoro a maneira como ele capta a vida urbana moderna e as sutis ironias que emprega para brincar com os leitores, quase antecipando figuras modernistas como Joyce. Ao incluí-lo, quis torná-lo um nome mais familiar nos Estados Unidos. A outra escritora brasileira que incluí foi Clarice Lispector, que capta a vida cotidiana com precisão incrível e que só agora está se tornando mais conhecida nos EUA. Por fim, eu estudava manifestos de vanguarda e foi assim que me deparei com o “Manifesto Antropofágico” de Andrade. Adoro o jeito malicioso com que brinca com estereótipos coloniais.

Conheça o conteúdo das aulas do professor Carl Sagan

0

Cópia do exame final do curso de “Pensamento Crítico” de 1986. (Foto: Library of Congress)

Material de dois cursos, em Harvard e Cornell, incluindo seus manuscritos, foram digitalizados pela Livraria do Congresso dos EUA

Publicado na Galileu

O currículo de Carl Sagan é extenso. Apesar de ser mais lembrado pela série de TV, Cosmos, apresentada e narrada por ele, o astrônomo, astrofísico, cosmólogo e escritor deixou mais de 600 publicações científicas e 20 livros escritos. Colaborou com as questões mais técnicas do roteiro de 2001, uma Odisseia no Espaço; escreveu o livro que deu origem ao filme Contato, lançado em 1997; e em 1978 venceu o prêmio Pulitzer de não-ficção geral pelo livro Os Dragões do Eden.

Agora, no entanto, os fãs de Carl Sagan podem conhecer uma outra faceta do cientista americano: a acadêmica. O site da Biblioteca do Congresso americano acaba de disponibilizar o conteúdo digitalizado de dois dos cursos em que lecionou ao longo dos seus mais de 30 anos de carreira como professor, primeiro na Universidade de Harvard, depois em Cornell.

O primeiro data de 1965. O curso de CIência Planetária é um campo de pesquisa interdisciplinar focado “principalmente com planetas, satélites, resíduos e destroços de nosso sistema solar”, conforme explicou em suas anotações para as primeiras aulas. Os exercícios que passava para os alunos também estão disponíveis, e servem principalmente para deixar claro o quão difícil era acompanhar o curso de Sagan.

O segundo, de 1986, embora ainda bastante complexo, é um pouco mais fácil de compreender por um público leigo. Ele destaca a importância de um equilíbrio entre a abertura a novas ideias e um engajamento cético com essas ideias na ciência. Suas anotações mostram sua preocupação em usar exemplos do cotidiano dos alunos, como a televisão.

O material dos dois cursos fazem parte de uma coleção maior, chamada “Encontrando nosso lugar no Cosmos”, que explora a mudança dos modelos de Universo ao longo do tempo, teorias sobre a vida em outros mundos e o lugar de Carl Sagan na tradição científica. A coleção inclui manuscritos, livros raros, atlas celestiais, artigos de jornais, até partituras musicais e pôsteres.

Para quem ficou interessado em acompanhar o material do curso, é bom avisar que é preciso conseguir ler em inglês, idioma de todo o conteúdo, além de ter paciência para conseguir decifrar a caligrafia de Carl Sagan em seus manuscritos.

PhD em Química por Harvard, brasileira faz pesquisa de ponta com alunos no ensino médio

1
A pesquisadora Joana Felix é PhD em Química por Harvard e dá aulas numa escola técnica de Franca (SP) Foto: Guito Moreto

A pesquisadora Joana Felix é PhD em Química por Harvard e dá aulas numa escola técnica de Franca (SP) Foto: Guito Moreto

Flávia Junqueira, no Extra

A fala doce, baixinha e de sotaque carregado já dá a pista. Aquela mulher de aparência frágil, de não muito mais do que um metro e meio, tem o dom de contornar obstáculos. De família pobre de Franca, no interior de São Paulo, a professora de Química Joana D’Arc Felix de Souza, de 53 anos, estudou em apostilas emprestadas e, muitas vezes, dormiu com fome quando morava em Campinas, onde fez graduação, doutorado e mestrado na Unicamp. De lá, bateu asas para os Estados Unidos, onde concluiu seu pós-doutorado na Universidade de Harvard, uma das mais prestigiadas do mundo. A vida lhe pregou uma peça, e ela precisou voltar ao Brasil, onde, desde 2004, faz pesquisa de ponta com alunos do ensino médio na Escola Agrícola de sua cidade natal. Acha que ela se lamentou? Tratou de inovar e já tem, em parceria com os estudantes, 15 patentes nacionais e internacionais registradas.

Essa história surpreendente começou quando Joana tinha apenas 4 anos e acompanhava a mãe, empregada doméstica, no trabalho.

— Tive a oportunidade de começar a estudar bem cedo porque minha mãe era empregada doméstica — diz ela.

Se você procura alguma lógica nessa frase, esqueça. Poucas coisas na vida de Joana seguem o rumo “esperado”.

— Para eu ficar quietinha, minha mãe me ensinou a ler o jornal que chegava na casa. Sem estudo, minha mãe foi minha primeira professora. Ela só tinha até a 4ª série.

A patroa da mãe era diretora de escola do Sesi e surpreendeu-se quando viu que a menina, aos 4 anos, já lia. Com a ajuda dela, Joana começou o ensino fundamental naquela idade.

Ao concluir o ensino médio, decidiu que faria Química.

— Minha família morava numa casa no curtume em que meu pai trabalhava. O químico do curtume usava jaleco branco. Desde pequena, eu era apaixonada pelo jaleco e dizia: “Quero usar um desses”.

Estudando em apostilas emprestadas, passou nas três universidades estaduais de São Paulo: Unicamp, USP e Unesp.

‘Chegou a passar fome’, conta Joana

Joana escolheu estudar na Unicamp, em Campinas. Com a ajuda do pai e do patrão dele, foi morar num pensionato. O dinheiro era contado para o transporte e uma refeição ao dia no bandejão:

— Eu guardava o pãozinho para ser o meu jantar. Às sextas-feiras, pedia mais pães para o fim de semana. Era tudo.

Joana conta sobre essa fase de sua vida sem nenhum traço de amargura.

— Cheguei a passar fome, mas decidi vencer pelos estudos. Meu pai dizia: para atingir seus objetivos, tem que passar pelo sacrifício. Quem não nasce em berço de ouro tem que arregaçar as mangas. Se você desistir, nunca vai chegar lá.

E ela chegou. Ao terminar o doutorado na Unicamp, recebeu um convite para fazer pós-doutorado em Harvard. Seu orientador sugeriu que ela levasse um produto nacional para estudar. O pai deu a ideia de trabalhar com resíduos do curtume, um passivo ambiental importante para Franca, a Capital do Calçado. A indústria coureira local gera 218 toneladas de resíduos por dia.

Desde então, os resíduos de curtume são sua matéria-prima. A partir dessa lama, desenvolveu mais de 20 projetos.

A professora Joana com uma aluna no laboratório da Escola Agrícola de Franca Foto: Divulgação/Lindomar Cailton

A professora Joana com uma aluna no laboratório da Escola Agrícola de Franca Foto: Divulgação/Lindomar Cailton


Cientista tem 15 patentes registradas

As 15 patentes registradas por Joana, no entanto, não foram desenvolvidas nos laboratórios de Harvard, mas nas bancadas do curso técnico de curtimento da Escola Agrícola de Franca, do qual é coordenadora.

— Minha intenção era ficar nos Estados Unidos. Mas, com um ano e meio de curso, minha irmã morreu. Um mês depois, meu pai também teve um enfarte fulminante. Minha mãe, muito doente, ficou com meus quatro sobrinhos, então com 2 meses, 1, 3 e 4 anos. Terminei o curso e, em 1999, e voltei para ajudá-la — conta.

Joana fez concurso para professora na Escola Agrícola Técnica Professor Carmelino Corrêa Júnior, onde a maioria dos alunos é como ela, de origem humilde. Sua chegada revolucionou o colégio. Com bolsas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), implantou a iniciação científica no colégio.

A pedagoga Roberta Real Sueroz, de 33 anos, que foi uma das bolsistas de Joana, guarda na memória a paciência e a persistência da mestre:

— Nunca a vi perder a calma. O meu projeto não dava certo, e ela dizia: “Você tem que fazer dar certo e, se tiver que tentar mil vezes, faça mil vezes”. Ela não desiste nunca.

Os inventos

Pele artificial – Pele artificial para ser transplantada em casos de queimaduras. O projeto foi premiado na Genius Olympiad 2017, da Universidade do Estado de Nova York Oswego, onde foi apresentado pelos alunos.

Cimento ósseo – Cimento ósseo que usa o colágeno do couro reciclado de resíduos das indústrias coureira e pesqueira.

Fertilizante – Fertilizante a partir de resíduos de calçados. O processo também recicla corantes, barateando seu custo de R$ 250 o quilo para R$ 2. Desenvolvido com o sobrinho mais velho, hoje cursando faculdade de Química, o invento ficou em segundo lugar na Genius Olympiad 2014.

Filtro de escamas – Sistema de filtragem com escamas de peixe.

Tecido para hospital – Entre os cerca de 20 projetos atuais, Joana começou a pesquisar, com uma aluna de 14 anos, um tecido antimicrobiano para lençóis e roupas de hospital. O objetivo é reduzir infecção hospitalar.

PhD em Harvard, brasileira supera fome e preconceito e soma 56 prêmios na carreira

0
joana-darc-felix-de-souza-e-phd-em-quimica-pela-renomada-universidade-de-harvard-1495572636797_615x300

Arquivo pessoal. Joana D’Arc Félix de Souza é PhD em química pela renomada Universidade de Harvard

 

Eduardo Carneiro, no UOL

 

“Toda mulher dá a sua vida pelo que ela acredita”. A frase é atribuída à Joana D’Arc, a famosa heroína francesa que viveu no século XV, mas pode muito bem ser usada para resumir a história de uma brasileira que tem o mesmo nome mais de 500 anos depois.

Joana D’Arc Félix de Souza, 53 anos, superou a falta de estrutura, a fome e o preconceito para se tornar cientista, PhD em química pela renomada Universidade de Harvard, dos Estados Unidos. Hoje, ela soma 56 prêmios na carreira, com destaque para a eleição de ‘Pesquisadora do Ano’ no Kurt Politizer de Tecnologia de 2014, concedido pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abquim).

Desde 2008, ela também é professora da Escola Técnica Estadual (ETEC) Prof. Carmelino Corrêa Júnior, mais conhecida como Escola Agrícola de Franca, cidade do interior de São Paulo, e molda novas gerações a seguirem sua trajetória inspiradora.

Trajetória que começou na própria Franca: filha de uma empregada doméstica e de um profissional de curtume (operação de processamento do couro cru que tem por finalidade deixá-lo utilizável para a indústria e o atacado), Joana mostrou desde cedo que tinha aptidão para o conhecimento.

“Eu era a caçula de três irmãos, tinha certa diferença de idade, então minha mãe me levava com ela para o trabalho. Ela aproveitou que tinham jornais na casa da patroa e me ensinou a ler, para eu ficar mais quieta. Tinha quatro anos e ficava o dia todo lendo”, conta ela ao UOL.

“Um dia, a diretora da escola Sesi foi visitar a dona da casa e perguntou se eu estava vendo as fotos do jornal. Respondi que estava lendo. Ela se surpreendeu, me pediu para ler um pedaço e eu li perfeitamente. Coincidentemente, era começo de fevereiro e ela sugeriu que eu fosse uns dias na escola. Se eu conseguisse acompanhar, a vaga seria minha. Deu certo e com 14 anos eu já terminava o ensino médio”.

O mesmo curtume que deu ao pai casa (a família vivia numa pequena moradia oferecida pelo patrão) e trabalho por 40 anos acabou influenciando a jovem Joana na hora de escolher uma faculdade. Contando com a ajuda de uma conhecida, ela decidiu prestar vestibular em química, pois estava acostumada a ver profissionais da área atuando no trabalho com o couro.

“Uma professora tinha um filho que fez cursinho e pedi o material para ela. Meu pai e minha mãe não tinham estudo, mas me incentivavam. Eles tinham consciência de que eu só cresceria através de estudos. Passei a estudar noite e dia até entrar na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)”, relembra a pesquisadora, que não se deixou abalar pelo preconceito que sofreu até o tão sonhado diploma.

“As cidades de interior têm aquela coisa de sobrenome: se você tem, pode ser alguém, se não tem, não pode. Sempre enfrentei preconceito. Na minha segunda escola, mesmo sendo estadual, tinha aquela coisa de classe para os ricos, classe para os pobres, com tratamentos diferentes. Em Campinas, fora da universidade, também senti um pouco. Infelizmente, o Brasil ainda é um país racista. Pode estar um pouco mais escondido, mas isso ainda existe. Mas não usei isso como obstáculo, e sim como uma arma para subir na vida”.

joana-darc-e-suas-aluna-irao-apresentar-projeto-sobre-cimento-osseo-nos-eua-1495574783957_615x300

A vida acadêmica

Joana, como previa, passou muita dificuldade em Campinas, a mais de 300 km de sua cidade natal. O dinheiro que recebia do pai e do patrão dele permitia que ela pagasse somente o pensionato onde morava, as passagens de ônibus e o almoço na universidade.

“Às vezes pegava um pãozinho no bandejão da universidade e levava para eu comer em casa à noite. Sentia fome, contava as horas para o almoço (risos). No final de semana também era complicado. Mas nunca desisti. Isso chegou a passar pela minha cabeça, mas não desisti. Fazer isso seria jogar tudo que tinha conquistado até ali no lixo”, afirma.

Sua situação só melhorou a partir do segundo semestre, quando começou a iniciação científica e teve o auxílio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). “Quando recebi a primeira bolsa, corri para a padaria e gastei uns 50 reais em doces para matar a vontade”, ri.

Estimulada por professores a seguir na vida acadêmica e encantada pelo campo de pesquisa, Joana ainda concluiria mestrado e doutorado em Campinas – este último com apenas 24 anos. Um dos artigos da cientista saiu no Journal of American Chemical Society, e logo ela recebeu o convite para seguir os estudos nos Estados Unidos.

O pós-doutorado de Joana foi concluído na Universidade de Harvard. Um professor solicitou que ela aplicasse em seu trabalho um problema brasileiro, e ela optou pelos resíduos de curtume nas fábricas de calçados – desenvolveu a partir destas substâncias poluentes um fertilizante organomineral. Questionada sobre a condição de trabalho em solo americano e no seu país natal, a cientista aponta um fator que faz muita diferença.

“Nos Estados Unidos, eu pedia um reagente químico e em duas ou três horas conseguia. No Brasil, até eu arrumar dinheiro, fazer solicitação… Aqui tem mais burocracia. A questão de financiamento para pesquisa é bem mais rápida nos Estados Unidos”.

A brasileira ficaria mais tempo nos Estados Unidos não fosse uma tragédia familiar: sua irmã morreu aos 35 anos, vítima de parada cardíaca, mesma causa do falecimento do pai, apenas um mês depois. Joana decidiu voltar para o Brasil e cuidar da mãe e de quatro sobrinhos deixados pela irmã.

Novamente em Franca, a cientista procurou oportunidades em curtumes da cidade natal até que recebeu o convite para se tornar professora da ETEC em 2008.

“Quis desenvolver este trabalho de iniciação científica desde a educação básica, e o resultado foi excelente. Reduzimos a evasão escolar. A escola é tradicional, tem mais de 50 anos, e é agrícola. Muitos dos alunos são filhos de fazendeiros da região e não sabiam por que estudar. Muitos achavam que o ensino técnico era o fim, era o máximo que iriam conseguir. Mas, com as idas às feiras e congressos, eles começaram a pensar mais alto, em ir para a universidade, e não estudar só porque o pai manda”.

Colhendo os frutos

O trabalho com os resíduos de curtume é só um dos muitos de destaque que Joana executou nos últimos anos. Em especial, ela e sua equipe de alunos em Franca conseguiram desenvolver uma pele similar à humana a partir da derme de porcos. Isso ajudaria no abastecimento de bancos de pele especializados e de hospitais, além de baratear o custo de pesquisas, uma vez que a matéria-prima do animal é abundante e de baixo custo.
Centro Paula Souza/Divulgação

Centro Paula Souza/Divulgação

Centro Paula Souza/Divulgação

O projeto, com depoimento da cientista, está exposto até o mês de outubro no Museu do Amanhã (Rio de Janeiro). Ele é parte da mostra temporária “Inovanças – Criações à Brasileira”, que tem o intuito de revelar trabalhos inovadores de cientistas brasileiros, muitos deles desconhecidos do público.
Joana ainda comandou pesquisa que resultou na produção de um tecido ósseo feito a partir de materiais também encontrados na natureza: escamas de peixes e colágeno de curtume. Ela e alunos da ETEC vão em junho a uma feira em Oswegon, Estados Unidos, apresentar este projeto, juntamente ao da pele artificial a partir de tecido de porco.

Como resultado deste trabalho, a professora e cientista já soma 56 prêmios na carreira. Destaque para a eleição de ‘Pesquisadora do Ano’ no Kurt Politizer de Tecnologia de 2014, concedido pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abquim), além de projetos vitoriosos em concursos do Conselho Regional de Química do Estado de São Paulo e da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), que acontece anualmente na USP (Universidade de São Paulo).

Para Joana, porém, a maior recompensa vem no dia a dia. “Alguns jovens estavam no caminho errado, mas fazendo a iniciação científica encontraram um rumo. Eles tomam gosto pela pesquisa. Muitos pais vieram me agradecer, e isso é muito gratificante dentro da escola básica”, diz ela, antes de concluir: “as armas mais poderosas que temos para vencer na vida são a educação e o estudo”

Aluno de Harvard ganha título de honra com álbum de rap entregue como tese

0
Obasi Shaw posa em frente à entrada da Universidade de Harvard - Charles Krupa / AP

Obasi Shaw posa em frente à entrada da Universidade de Harvard – Charles Krupa / AP

 

Obasi Shaw, de 20 anos, escreveu dez faixas inspiradas em livro do século XIV

Publicado em O Globo

RIO – Em vez de um ensaio, uma coleção de poemas ou um romance, o americano Obasi Shaw, estudante de Literatura na Universidade de Harvard, escolheu entregar como monografia um álbum de rap com dez faixas, totalizando 36 minutos de duração. O trabalho recebeu a segunda maior nota em seu departamento, além de um título de honra denominado summa cum laude minus — em latim, significa algo como “com a maior das honras”.

É a primeira vez que um trabalho como este é entregue em Harvard. Shaw, de 20 anos, participará de uma cerimônia de formatura nesta semana, e depois seguirá para o Google, onde trabalhará como engenheiro de softwares.

O álbum se chama “Liminal Minds” (“Mentes Liminares”) e, segundo o estudante, refere-se à ideia de que os negros nos Estados Unidos vivem entre a liberdade e a escravidão.

“Embora não estejamos mais escravizados, os efeitos da escravidão ainda nos perseguem na sociedade e em nossa mente” afirmou Shaw à rede de televisão local CBS Boston.

Cada música é cantada a partir da perspectiva de um personagem, um formato inspirado pela obra de Geoffrey Chaucer “The Canterbury Tales” (“Os Contos de Cantuária”) — uma coleção de histórias em prosa e verso do século XIV, considerada um marco para a formação da língua inglesa.

Obasi Shaw tem apenas 20 anos e trabalhará no Google após cerimônia de formatura - Charles Krupa / AP

Obasi Shaw tem apenas 20 anos e trabalhará no Google após cerimônia de formatura – Charles Krupa / AP

O jovem, nascido em Stone Mountain, no estado da Georgia, criou, escreveu e fez a mixagem do álbum. A ideia inicial veio de sua mãe, que notou a habilidade do filho em performances como rapper no campus da universidade.

Em “Declaration of Independence”, primeira faixa do álbum disponível online [confira abaixo], Shaw escreveu: “Observe, o que nós temos tem três lados — corpo e espírito para serem tronos para almas livres”.

Go to Top