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“Em livro, professor de Harvard mostra o poder transformador da literatura”.

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“Foto: Unsplash / Reprodução”

Guilherme Voitch, na Gazeta do Povo

No capítulo em que abre seu “O Mundo da Escrita”, o escritor norte-americano e professor de Literatura da Universidade de Harvard, Martin Puchner, conta como uma obra literária, a Ilíada de Homero, motivou um jovem Alexandre a conquistar o mundo conhecido da sua época, expandindo seu Império para fronteiras antes nunca alcançadas pelos gregos, por volta de 300 a.c.

O recado não poderia ser mais claro. Por meio do rei da Macedônia e sua relação de paixão com os heróis homéricos, Puchner mostra como a literatura moldou nosso mundo e como seria inimaginável pensá-lo sem a presença de textos escritos. “Desde que surgiu, há 4 mil anos, ela moldou a vida da maioria dos seres humanos que vivem no planeta Terra”, explica.

Se somos o que lemos – uma máxima que permeia todo o livro, da “Epopeia de Gilgamesh” a “Harry Potter” –, Alexandre fez da sua vida o que lia em Homero. Um poema épico de batalhas, conquistas, choques culturais e traição. Com a Ilíada debaixo do travesseiro, o rei da Macedônia conquistou o mundo.

Puchner, é claro, não está incentivando delírios de grandeza em jovens candidatos a déspotas globais, como ele afirma em entrevista à Gazeta do Povo. A literatura, para Puchner, funcionaria como uma espécie de motor individual da história, capaz de mudar vidas e traçar destinos. O poder da narrativa, é claro, sempre esteve presente nas diferentes culturas e provavelmente resiste nas poucas sociedades ainda ágrafas. As obras homéricas, é bom lembrar, reuniam relatos transmitidos oralmente de geração em geração.

A literatura, porém, garantiu uma espécie de passagem para a imortalidade, ao evitar que, de uma maneira ou de outra, essa transmissão oral fosse interrompida. É o que Puchner mostra, por exemplo, no capítulo dedicado ao “Popol Vuh” e à cultura Maia. Graças à obra, curiosamente traduzida pelos colonizadores espanhóis, sabe-se muito mais sobre os Maias do que sobre outras igualmente poderosas civilizações do Novo Mundo, como Incas e Astecas. Presente como produto literário, o Popol
Vuh tornou-se inclusive peça de propaganda dos movimentos zapatistas que se insurgiam contra o governo mexicano, na década de 90.

Poder incendiário

Exemplos de tal poder incendiário da palavra escrita vão da propagação vertiginosa do cristianismo e do islamismo pelo mundo à febre dos manifestos políticos que ganharam corações e mentes dos jovens europeus da passagem dos séculos XIX para o XX.

Mas, acima de tudo, a obra de Puchner diz respeito ao efeito único que a leitura produz na consciência individual. As histórias são diferentes, mas o ato da leitura é o mesmo – revolucionário e revelador por si só. Há muita evidência científica que corrobora as revelações de Puchner.

A Universidade de Pádua revela que crianças cercadas por livros têm mais chance de ter sucesso na vida adulta, a Universidade de Yale mostra que os leitores tendem a viver até dois anos a mais que não leitores e a Universidade de Sussex, no Reino Unido, relaciona a leitura à diminuição nos níveis de estresse. Por fim, estudo da New School de Nova York mostra que leitores de ficção são mais aptos a compreender as crenças e desejos das outras pessoas.

Em resumo, a leitura nos faz ter mais empatia, como no exemplar caso da poeta russa Anna Akhmátova, que manteve viva sua obra mais importante, o poema “Réquiem”, graças a ajuda de um grupo de amigas que memorizava cada verso do texto. O poema, ele próprio um mosaico do sofrimento das milhões de mulheres russas que viram suas famílias estraçalhadas pelo stalinismo, teve a impressão proibida na União Soviética.

O mínimo envolvimento com a obra poderia levar qualquer um à morte ou à prisão. Ainda assim, graças ao esforço do grupo, “Réquiem” resistiu ao stalinismo e teve suas primeiras impressões feitas de forma amadora, utilizando máquinas de escrever e papel carbono. As cópias que driblavam a censura, chamadas de samizdat foram um sucesso. Os russos queriam ler Akhmátova. Em um trecho de “Réquiem”, uma mulher desconhecida reconhece a escritora na fila de uma prisão em Leningrado.

“– E isso, a senhora pode descrever?
E eu respondi:
– Posso.
Aí, uma coisa parecida com um sorriso surgiu naquilo que, um dia, tinha sido o seu rosto.”

A persistência resignada de Akhmátova e suas amigas moldou o mundo tanto quanto à ambição global Alexandre. Em comum, a literatura.

“Não há uma crise de leitura”

Martin Puchner conversou com a Gazeta do Povo sobre seu livro “O Mundo da Escrita”. Na entrevista, ele refuta a tese de que exista uma crise de leitura. “Mais textos estão sendo escritos e lidos por mais pessoas do que em toda a história”, afirma.

Para ele, o que de fato existe é um momento de ruptura para a imprensa escrita, peça fundamental na consolidação das democracias. Na entrevista Puchner falou ainda sobre formalismos teóricos na literatura, nacionalismo e globalização e revelou o livro que fez sua cabeça.

O senhor abre o livro
falando do papel da leitura da “Ilíada” para Alexandre. Hoje a leitura pode ajudar um jovem ambicioso a “conquistar o mundo”, como ajudou Alexandre?

Até pode, mas eu não recomendaria. Afinal, Alexandre causou muita destruição. A leitura que ele fez de Homero – e como ela o inspirou – são um bom exemplo do poder da literatura, mas “poder” não significa “poder para o bem”.

Espero que jovens ambiciosos inspirem-se pela literatura, de preferência não para conquistar o mundo, mas para resolver nossos problemas globais mais urgentes, das mudanças climáticas à desigualdade de renda. A literatura pode ajudar a criar uma consciência global.

O senhor fala com bastante generosidade dos livros da série Harry Potter. Livros como esse são uma porta de entrada para a literatura?

Um dos fenômenos literários mais interessantes da atualidade é o crescimento da literatura “young adult” (para jovens adultos). É um fenômeno muito animador pois mostra que, ao contrário do que dizem os pessimistas da crítica cultural, os jovens estão lendo muito. Portanto, ele tem meu total apoio. E acredito que, uma vez criado o hábito da leitura entre jovens adultos, outros textos serão buscados.

Temas como globalização, globalismo e soberania de estados nacionais têm aparecido com frequência no noticiário político atual. No livro, o senhor descreve como Alexandre incorporou costume e cultura estrangeira ao mesmo tempo em que difundiu a língua e a literatura grega no mundo da época. Mostra como Goethe planejou uma literatura universal. Por outro lado, traz exemplos de como a literatura foi fundamental para fazer aflorar identidades nacionais no Caribe, no México e na África. Um mercado mundial de literatura é compatível com uma literatura de paixões nacionalistas?

Ótima pergunta. Há uma relação dinâmica entre a literatura nacional e a literatura global. Os épicos nacionais mencionados por você, instrumentais na criação de identidades culturais, costumam ser eles mesmos mosaicos construídos a partir de culturas anteriores ou diferentes. Posteriormente, acabam extrapolando seu contexto original e se tornam disponíveis para outras culturas. Até a noção de literatura universal de Goethe surgiu em meio a um movimento nacionalista – a unificação de diversos estados alemães.

Retiro duas conclusões desse paradoxo: 1. Já que as narrativas, especialmente narrativas coletivas e compartilhadas, desempenham um papel tão importante na criação de pertencimento cultural, a grande literatura costuma ter um efeito nacional ou até nacionalista. Ao mesmo tempo, ao examinar a história literária como um todo, podemos ver até onde a literatura transcende a nação e está disponível para gerações posteriores e além de seu contexto original: a literatura universal.

No capítulo dedicado a Benjamin Franklin, o senhor aborda a importância dos jornais para a formação dos Estados Unidos. Em “A Democracia na América”, Tocqueville dizia que “nos Estados Unidos cada jornal tem, individualmente, pouco poder; mas a imprensa periódica ainda é, depois do povo, o primeiro dos poderes.” O senhor tem acompanhado a crise dos jornais, que atinge principalmente os pequenos e médios? O senhor acha que há uma crise de leitura nos dias de hoje?

Eu não acho que haja crise de leitura. Mais textos estão sendo escritos e lidos por mais pessoas do que em toda a história,
principalmente na internet, mas também em outras mídias. É uma enorme democratização da literatura e da escrita e, se acreditamos na democracia, devemos saudar esse movimento. Eu celebro.

A crise mencionada não é de leitura, mas do modelo de negócio dos jornais, que se financiavam por meio de anúncios e, em menor grau, por meio de assinaturas. Com os anúncios desaparecendo e menos leitores dispostos a pagar por conteúdo, o modelo de negócio não é mais viável. Isso é preocupante e perturbador, porque os jornais com esse modelo de negócio foram cruciais para nossas sociedades.

Agora precisamos encontrar caminhos a seguir no cenário de mudanças da mídia, especialmente nas mídias sociais. Acho que governos, usuários e até empresas como o Facebook estão acordando para o fato de que essas plataformas têm um poder imenso. Esse poder precisa ser limitado, regulado ou organizado de alguma forma. Algo semelhante ocorreu nos primórdios dos jornais, a propósito, e nas primeiras décadas e séculos após a introdução da prensa, quando uma quantidade enorme de desinformação e falsidade circulou de forma muito mais generalizada. Nós lentamente aprendemos a lidar com isso, a organizar isso, e agora temos que fazê-lo novamente.

O senhor tem uma carreira como crítico literário e é professor em uma das mais importantes universidades americanas. Ao mesmo tempo, demonstra possuir uma relação afetiva intensa com os livros e a literatura e em seu livro parece insistir na tese de que essa paixão é acessível, inclusive aos leitores sem estudo formal.  O senhor concorda com a tese, defendida por muitos dos seus colegas, de que a especialização dos estudos literários na academia levou uma geração de estudantes a ler cada vez mais teoria e menos literatura em si?

Meus pensamentos e impressões sobre essa questão são complicados. Concordo que os estudos literários estão muito voltados para si próprios e esotéricos; nós, estudiosos da literatura, perdemos boa parte dos leitores não especializados, o que é muito ruim. É ruim do ponto de vista intelectual, afinal comunicar-se com leitores em geral é um exercício extremamente salutar e importante. E sem uma audiência geral, deixamos de atrair pessoas para a literatura.

Mas não acho que a teoria literária seja a culpada, ao menos não a única. O estudo literário, como qualquer disciplina, precisa de teoria, da mesma forma que a física ou a história. Infelizmente, a teoria literária costuma não ser particularmente boa ou útil. Precisamos de teorias melhores.

Também devo confessar que fui originalmente atraído para o estudo da literatura por meio da teoria. Na faculdade, me formei em filosofia e cheguei à literatura via teoria. Ainda hoje, meu trabalho é sustentado e informado pela reflexão teórica, mas não atraio leitores com termos abstratos. Formulo certo entendimento da literatura, da história literária, e depois o mostro em ação. Ao escrever sobre histórias contadas, eu mesmo conto histórias. Isso faz muito sentido para mim, e espero que mais colegas façam o mesmo.

Qual livro despertou no senhor o gosto pela leitura?  

Outra confissão: na verdade, eu não era um grande leitor até os 16 anos. O único livro que realmente me impressionou foi o “O Senhor dos Anéis”, do Tolkien, que eu ainda amo. Mesmo na faculdade, como acabei de mencionar, fui atraído muito mais pelos argumentos abstratos da filosofia. Foi só depois dos 20 anos que me peguei cada vez mais lendo literatura. O “Ulisses” de Joyce foi logo uma paixão à qual eu ainda retorno sobre a qual às vezes ensino. Acho que ele me impressionou muito porque o li pela primeira vez numa circunstância especial, no Monte Athos, na Grécia, em um mosteiro medieval. Essa experiência me fez conectar leitura e viagem, algo que depois me levou a escrever este livro, que combina as duas coisas.

O crítico Harodl Bloomabordou o escritor brasileiro Machado de Assis em seu livro “Gênio: Os 100
autores mais criativos da história da literatura”, classificando-o como um
“milagre”. O senhor concorda com a avaliação? Gosta da literatura brasileira?

Não costumo concordar com Harold Bloom, mas neste caso concordo! Incluí Machado de Assis, o conto “O Caso da Vara”, em minha antologia da literatura mundial, “The Norton Anthology of World Literature”. Adoro a maneira como ele capta a vida urbana moderna e as sutis ironias que emprega para brincar com os leitores, quase antecipando figuras modernistas como Joyce. Ao incluí-lo, quis torná-lo um nome mais familiar nos Estados Unidos. A outra escritora brasileira que incluí foi Clarice Lispector, que capta a vida cotidiana com precisão incrível e que só agora está se tornando mais conhecida nos EUA. Por fim, eu estudava manifestos de vanguarda e foi assim que me deparei com o “Manifesto Antropofágico” de Andrade. Adoro o jeito malicioso com que brinca com estereótipos coloniais.

Mostra sobre vida e obra de Paulo Leminski chega ao Rio

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Paulo Leminski  em clique de João Urban Crédito: João Urban / Divulgação

Paulo Leminski em clique de João Urban Crédito: João Urban / Divulgação

Publicado no Glamurama

Depois de rodar mais de sete capitais brasileiras, a mostra “Múltiplo Leminski” abre a temporada 2016 da Caixa Cultural Rio de Janeiro trazendo vasto acervo do poeta Paulo Leminski – que morreu em 1989. A exposição, que entra em cartaz a partir deste sábado para convidados e domingo para o público, é a maior já realizada sobre a obra e a vida do escritor curitibano. São mais de mil objetos originais entre fotos, livros, pinturas, poesias, vídeos e filmes.

Com curadoria assinada por Alice Ruiz e pelas filhas do poeta, Aurea e Estrela Leminski, a mostra é resultado de anos de pesquisa e catalogação. Divididas em diversos espaços cênicos, as instalações revelam a multiplicidade do artista, que era ao mesmo tempo músico, compositor, romancista, tradutor, ensaísta, judoca e publicitário.

“Trazer esta exposição para o Rio de Janeiro é muito legal para a gente, pois a cidade tem um significado marcante na vida e obra de Paulo Leminski, não só porque ele morou na capital por duas vezes, no final dos anos 60, mas porque foi onde começou a ser jornalista e músico. Além disso, durante a década de 80, viajava frequentemente para o Rio para participar de eventos culturais, lançar livros e rever amigos e parceiros musicais”, explica Aurea Leminski.

Entre os objetos, máquina de escrever, livros escritos e traduzidos por ele, obras que faziam parte de sua biblioteca, entre elas dicionários em várias línguas, revistas, fotos, cadernos, recortes de jornais, entrevistas, cartas, poesias escritas em guardanapos, originais manuscritos e datilografados, histórias em quadrinhos, vídeos, discos e fitas cassetes.

Artista de 17 anos ganha exposição em Paris, mas Enem ‘impede’ viagem

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‘Telas vão embarcar sozinhas’, lamenta adolescente de Itapetininga (SP).
Mostra será no mesmo dia do Enem; obras ficarão no Museu do Louvre.

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Publicado em G1
A artista Clara Bandeira, de 17 anos, ganhou a chance de expor seus trabalhos no Museu do Louvre, em Paris, na França, um dos mais importantes do mundo. As obras farão parte da exposição “Paris & Elas – Vertendo Luz”, com outros 12 artistas brasileiros. Mas a euforia durou pouco tempo, pois a jovem não conseguirá embarcar para a exposição devido ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O período da exposição, de sexta-feira (23) a domingo (25), coincide com o fim de semana em que é aplicada a prova. “Frustou. Porque as telas vão embarcar sozinhas. Mas, mesmo assim, estou feliz por ter meu trabalho reconhecido”, comenta a jovem de Itapetininga (SP).

Clara é uma das 7,7 milhões de inscritos para o Enem. “Estou concluindo o ensino médio e para ingressar em uma universidade preciso fazer o exame. Estudei muito o ano inteiro e não dá para deixar de fazer a prova agora”, afirma. A adolescente diz que quer estudar direito, design ou artes plásticas. “Estou indecisa ainda, mas provavelmente vou optar por design”. Ela tentará faculdades públicas e particulares em São Paulo.

Já a exposição a qual suas obras participarão é parte do evento Salon Art Shopping, que reunirá mais de 300 galerias do mundo todo no famoso museu de Paris.

Os quadros
Esta é a primeira vez que Clara vai expor internacionalmente seu trabalho. Um dos quadros foi pintado quando ela morou na Europa e, segundo ela, reflete um momento de mudanças. “Fui estudar na Inglaterra e morei sozinha por um bom tempo. Essa transição na minha vida gerou muita alegria e mudanças que nunca vou esquecer. Tentei transferir esses sentimentos na tela e o resultado foi este, um rosto colorido, que representa a alegria, mas com um ar preocupado”, comenta (veja a obra abaixo).

A outra obra foi pintada para uma exposição sobre moda dos anos 70. “Pintei uma mulher que representa a época. Cabelo armado e um óculos bem retrô”, diz.

‘Pintura vem de sangue’
Mesmo sem acompanhar a exposição, a artista é só orgulho para a família. Segundo a mãe, Sandra Bandeira, desde os 7 anos, a artista pinta quadros. Antes disso, já dava indícios de que seguiria a arte. “Clara é uma menina muito especial, não se contenta com respostas incompletas. Vai atrás, lê muito, pesquisa, é muito curiosa sobre seus interesses. Recebi um presente”, conta a orgulhosa mãe.

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Para Clara, a oportunidade é única. “Desde muito pequena eu fazia esculturas inspiradas em programa infantil, fazia tudo que ensinavam. Minha mãe comprava os materiais e eu imitava. Depois, aos sete anos, comecei a desenhar e não parei mais. Tenho necessidade de desenhar e faço isso com muito prazer”, conta a adolescente.

Para a jovem, o gosto pela pintura é algo natural, já que é descendente de artistas. “Sou neta de uma artista plástica e bisneta de um desenhista que fazia desenhos com carvão. Então a pintura vem de sangue”, conclui Clara.

Exposição apresenta fotos de escritores feitas por Daniel Mordzinski em hotéis

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Entre os retratados na mostra que tem entrada gratuita estão Vargas Llosa, Borges, Saramago e Verissimo; veja galeria de imagens

Maria Fernanda Rodrigues, no Estadão

Mario Vargas Llosa deitado fazendo anotações. Agustina Bessa-Luís passando batom no banheiro. José Eduardo Agualusa sentado na cama, com a mala pronta. Salman Rushdie dentro da banheira, de roupa e comendo frutas. Essas cenas foram presenciadas, ou montadas, pelo fotógrafo Daniel Mordzinski ao longo de sua trajetória profissional – recheada de encontros com célebres escritores.

Uma exposição em São Paulo vai apresentar cerca de 50 fotografias tiradas por ele exclusivamente em hotéis. Quartos de Escrita – Retrato de Escritores em Hotel, que já passou pelo festival Fliaraxá em 2014, fica em cartaz no Sesc Bom Retiro até o dia 8 de março. A curadoria é de Afonso Borges, idealizador do Sempre um Papo – série de encontros realizados com escritores em Belo Horizonte e também em São Paulo.

EXPOSIÇÃO QUARTOS DE ESCRITA – RETRATO DE ESCRITORES EM HOTEL

Daniel Mordzinski/Divulgação > O escritor Mario Vargas Llosa, colaborador do Estado, foi agraciado com o Nobel em 2010

Daniel Mordzinski/Divulgação
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O escritor Mario Vargas Llosa, colaborador do Estado, foi agraciado com o Nobel em 2010

Daniel Mordzinski/Divulgação > O escritor argentino Jorge Luis Borges; livros escritos por ele com o amigo Adolfo Bioy Casares acabam de chegar às livrarias brasileiras

Daniel Mordzinski/Divulgação
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O escritor argentino Jorge Luis Borges; livros escritos por ele com o amigo Adolfo Bioy Casares acabam de chegar às livrarias brasileiras

Daniel Mordzinski/Divulgação > Prêmio Nobel de 1998, José Saramago deixou um romance inacabado ao morrer, em 2010; Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas foi publicado no Brasil em 2014

Daniel Mordzinski/Divulgação
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Prêmio Nobel de 1998, José Saramago deixou um romance inacabado ao morrer, em 2010; Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas foi publicado no Brasil em 2014

Daniel Mordzinski/Divulgação > Cronista do Caderno 2, o escritor Luis Fernando Verissimo é um dos brasileiros retratados por Daniel Mordzinski

Daniel Mordzinski/Divulgação
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Cronista do Caderno 2, o escritor Luis Fernando Verissimo é um dos brasileiros retratados por Daniel Mordzinski

Daniel Mordzinski/Divulgação > O angolano José Eduardo Agualusa é autor de Nação Crioula, entre outras obras; A Rainha Ginga, seu mais recente trabalho, será lançado no Brasil em abril

Daniel Mordzinski/Divulgação
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O angolano José Eduardo Agualusa é autor de Nação Crioula, entre outras obras; A Rainha Ginga, seu mais recente trabalho, será lançado no Brasil em abril

Daniel Mordzinski/Divulgação > Salman Rushdie, autor de Versos Satânicos, que lhe rendeu uma ameaça de morte e anos de reclusão

Daniel Mordzinski/Divulgação
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Salman Rushdie, autor de Versos Satânicos, que lhe rendeu uma ameaça de morte e anos de reclusão

Daniel Mordzinski/Divulgação > Um dos principais nomes da literatura portuguesa, Agustina Bessa-Luís é tema de outra exposição em São Paulo; até março, sua vida e obra estão em destaque no Museu da Língua Portuguesa

Daniel Mordzinski/Divulgação
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Um dos principais nomes da literatura portuguesa, Agustina Bessa-Luís é tema de outra exposição em São Paulo; até março, sua vida e obra estão em destaque no Museu da Língua Portuguesa

Daniel Mordzinski/Divulgação > A reclusa escritora Herta Müller, romena homenageada com o Nobel em 2009

Daniel Mordzinski/Divulgação
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A reclusa escritora Herta Müller, romena homenageada com o Nobel em 2009

Há retratos, ainda, de Eric Hobsbawm, Nadine Gordimer, Umberto Eco, Jorge Luis Borges, José Saramago, Gabriel García Márquez, Eduardo Galeano, Herta Müller e de brasileiros, como Luis Fernando Verissimo, cronista do Caderno 2, e João Paulo Cuenca, entre outros autores.

Daniel Mordzinski, também conhecido como o fotógrafo dos escritores, nasceu em Buenos Aires, mas vive em Paris há quase quatro décadas. Suas fotos já foram publicadas em veículos como Le Monde e El País e foram tema de exposição na Itália, Espanha, Portugal, Alemanha, Inglaterra, Grécia, França, México, Colômbia, Argentina e outros países.

Exposição – Quartos de Escrita – Retrato de Escritores em Hotel
Sesc Bom Retiro ( Alameda Nothmann, 185, tel. 3332- 3600)
Até 8 de março
De terça a sexta, das 9h às 20h30; sábados e domingos, a partir das 10h
Grátis

Mostra exibe anotações em livros da biblioteca de Waly Salomão

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Exposição com o acervo inédito do poeta abre ao público hoje na Biblioteca Parque Estadual

Um dos livros grifados por Waly: “O grifo muda o nosso olhar em relação ao livro. A gente ouve a voz dele nas marcações”, diz Omar Salomão, filho de Waly e curador da mostra - Reprodução

Um dos livros grifados por Waly: “O grifo muda o nosso olhar em relação ao livro. A gente ouve a voz dele nas marcações”, diz Omar Salomão, filho de Waly e curador da mostra – Reprodução

Mariana Filgueiras em O Globo

RIO — A ideia surgiu por acaso, numa conversa da editora Anna Dantes com o músico Marcelo Yuka. Ele viu o livro “Signos”, de Merleau-Ponty sobre a mesa do escritório dela, tomou-o para folhear, e Anna comentou que o exemplar havia sido do poeta Waly Salomão. Estava ali porque ela começaria em breve a pensar em uma exposição sobre Waly, mas que ainda não tinha um mote definido. Na última página do livro, Yuka notou uma ameaça de poema entre rabiscos, frases sublinhadas, palavras circuladas. Anna comentou que todos os livros de Waly eram assim, repletos de grifos. O músico sugeriu: “Você podia fazer uma exposição só com os grifos dele: ‘A biblioteca de grifos de Waly Salomão’”.

— Pronto. Ali nasceu a exposição. A ideia estava na minha mesa, e eu ainda não tinha percebido — comenta Anna, ao lado do poeta Omar Salomão, filho de Waly, que assina com ela a curadoria da mostra que começa hoje para o público na Biblioteca Parque Estadual e segue até o dia 14 de dezembro, com exemplares do acervo pessoal do poeta morto em 2003. — Quando a gente se depara com as anotações que ele fazia, a maneira como ele lia, entende muito da mente dele. Os grifos eram um recado para ele mesmo como leitor futuro, como uma mensagem na garrafa. E agora as mensagens estarão ao alcance de todos os leitores.

Versos soltos entre anotações no livro de Merleau-Ponty - / Reprodução

Versos soltos entre anotações no livro de Merleau-Ponty – / Reprodução

Ato de libertação

Waly lia compulsivamente. Comia os livros, com aquela bocarra cheia de dentes e sorrisos, dobrando suas páginas, marcando palavras com o que tivesse à mão, fossem canetinhas, marca-textos ou as próprias unhas (Omar conta rindo das vezes em que viu o pai fazer isso). Fazia desenhos envolvendo as frases, emoldurava palavras unas, e às vezes, ao ler o mesmo livro em línguas diferentes, fazia anotações completamente distintas. Tinha cerca de 8 mil volumes nas estantes de casa — e a maioria carrega o percurso da sua leitura, como poderá ser visto pelo público na exibição.

Marguerite Duras era uma personagem constantemente grifada por Waly - / Reprodução Read more: http://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/mostra-exibe-anotacoes-em-livros-da-biblioteca-de-waly-salomao-14244635#ixzz3GDbTmPjK

Marguerite Duras era uma personagem constantemente grifada por Waly – / Reprodução

— O grifo muda o nosso olhar em relação ao livro. Os que ele fazia não eram grifos de estudo, as marcas não indicam uma leitura de estorvo, mas de libertação. A gente ouve a voz dele nas marcações, seja em volumes de Roland Barthes, Murilo Mendes ou nos livros de zen-budismo — observa Omar, lembrando que muitas dessas anotações ecoam em seus poemas e letras de músicas.

É possível ver mesmo: no livro “Lírica, Épica, Teatro e Cartas de Camões”, por exemplo, Waly emoldura a frase “Oh! bem-aventurados fingimentos”, assinando embaixo, como se o verso também pudesse ser dele; no livro “Malone morre”, de Samuel Beckett, ao lado da frase “Nasci sério, como tem gente que já nasce sifilítico”, escreve: “parece Nelson Rodrigues!”. Completa poemas de Drummond, como se fossem textos abertos; e numa dedicatória de um livro a Oswald de Andrade, desenha ali uma espécie de labirinto cerebral antropofágico sobre o nome do autor. Ah, sim, o poema notado por Yuka também esta lá: “Uma arte poética/ manter tenso o arco que /Abrange caos e cosmos/ Uma área poética/ Limpar a área do terreno/ Desprogramar bulas e receitas/Posologias e fórmulas prévias/ Ou ainda: “Uma arte poética/ Penetrar até o centro do coração de cada código e desprogramar/ Bulas, receitas e posologias e/ Fórmulas prévias/ Pescar em águas límpidas/ Pescar em águas turvas/ Usar em mão dupla/ O arco que une caos e cosmos”.

Painéis pela cidade

A mostra conta ainda com vídeos, depoimentos do autor e uma instalação interativa, onde o público poderá deixar sua própria intervenção em textos de Waly. O escritor Leonardo Villa-Forte vai colaborar com três instalações do “Paginário”, projeto de sua autoria que enche de grifos literários alguns muros da cidade. Serão três painéis: um na biblioteca, um na Rua da Alfândega e um na estação de metrô da Central. Já a filósofa Rosa Dias vai participar ministrando semanalmente jogos de leituras com convidados.

O antropofagismo de Oswald de Andrade dá origem a um esboço de cérebro - / Reprodução

O antropofagismo de Oswald de Andrade dá origem a um esboço de cérebro – / Reprodução

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