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“Em livro, professor de Harvard mostra o poder transformador da literatura”.

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“Foto: Unsplash / Reprodução”

Guilherme Voitch, na Gazeta do Povo

No capítulo em que abre seu “O Mundo da Escrita”, o escritor norte-americano e professor de Literatura da Universidade de Harvard, Martin Puchner, conta como uma obra literária, a Ilíada de Homero, motivou um jovem Alexandre a conquistar o mundo conhecido da sua época, expandindo seu Império para fronteiras antes nunca alcançadas pelos gregos, por volta de 300 a.c.

O recado não poderia ser mais claro. Por meio do rei da Macedônia e sua relação de paixão com os heróis homéricos, Puchner mostra como a literatura moldou nosso mundo e como seria inimaginável pensá-lo sem a presença de textos escritos. “Desde que surgiu, há 4 mil anos, ela moldou a vida da maioria dos seres humanos que vivem no planeta Terra”, explica.

Se somos o que lemos – uma máxima que permeia todo o livro, da “Epopeia de Gilgamesh” a “Harry Potter” –, Alexandre fez da sua vida o que lia em Homero. Um poema épico de batalhas, conquistas, choques culturais e traição. Com a Ilíada debaixo do travesseiro, o rei da Macedônia conquistou o mundo.

Puchner, é claro, não está incentivando delírios de grandeza em jovens candidatos a déspotas globais, como ele afirma em entrevista à Gazeta do Povo. A literatura, para Puchner, funcionaria como uma espécie de motor individual da história, capaz de mudar vidas e traçar destinos. O poder da narrativa, é claro, sempre esteve presente nas diferentes culturas e provavelmente resiste nas poucas sociedades ainda ágrafas. As obras homéricas, é bom lembrar, reuniam relatos transmitidos oralmente de geração em geração.

A literatura, porém, garantiu uma espécie de passagem para a imortalidade, ao evitar que, de uma maneira ou de outra, essa transmissão oral fosse interrompida. É o que Puchner mostra, por exemplo, no capítulo dedicado ao “Popol Vuh” e à cultura Maia. Graças à obra, curiosamente traduzida pelos colonizadores espanhóis, sabe-se muito mais sobre os Maias do que sobre outras igualmente poderosas civilizações do Novo Mundo, como Incas e Astecas. Presente como produto literário, o Popol
Vuh tornou-se inclusive peça de propaganda dos movimentos zapatistas que se insurgiam contra o governo mexicano, na década de 90.

Poder incendiário

Exemplos de tal poder incendiário da palavra escrita vão da propagação vertiginosa do cristianismo e do islamismo pelo mundo à febre dos manifestos políticos que ganharam corações e mentes dos jovens europeus da passagem dos séculos XIX para o XX.

Mas, acima de tudo, a obra de Puchner diz respeito ao efeito único que a leitura produz na consciência individual. As histórias são diferentes, mas o ato da leitura é o mesmo – revolucionário e revelador por si só. Há muita evidência científica que corrobora as revelações de Puchner.

A Universidade de Pádua revela que crianças cercadas por livros têm mais chance de ter sucesso na vida adulta, a Universidade de Yale mostra que os leitores tendem a viver até dois anos a mais que não leitores e a Universidade de Sussex, no Reino Unido, relaciona a leitura à diminuição nos níveis de estresse. Por fim, estudo da New School de Nova York mostra que leitores de ficção são mais aptos a compreender as crenças e desejos das outras pessoas.

Em resumo, a leitura nos faz ter mais empatia, como no exemplar caso da poeta russa Anna Akhmátova, que manteve viva sua obra mais importante, o poema “Réquiem”, graças a ajuda de um grupo de amigas que memorizava cada verso do texto. O poema, ele próprio um mosaico do sofrimento das milhões de mulheres russas que viram suas famílias estraçalhadas pelo stalinismo, teve a impressão proibida na União Soviética.

O mínimo envolvimento com a obra poderia levar qualquer um à morte ou à prisão. Ainda assim, graças ao esforço do grupo, “Réquiem” resistiu ao stalinismo e teve suas primeiras impressões feitas de forma amadora, utilizando máquinas de escrever e papel carbono. As cópias que driblavam a censura, chamadas de samizdat foram um sucesso. Os russos queriam ler Akhmátova. Em um trecho de “Réquiem”, uma mulher desconhecida reconhece a escritora na fila de uma prisão em Leningrado.

“– E isso, a senhora pode descrever?
E eu respondi:
– Posso.
Aí, uma coisa parecida com um sorriso surgiu naquilo que, um dia, tinha sido o seu rosto.”

A persistência resignada de Akhmátova e suas amigas moldou o mundo tanto quanto à ambição global Alexandre. Em comum, a literatura.

“Não há uma crise de leitura”

Martin Puchner conversou com a Gazeta do Povo sobre seu livro “O Mundo da Escrita”. Na entrevista, ele refuta a tese de que exista uma crise de leitura. “Mais textos estão sendo escritos e lidos por mais pessoas do que em toda a história”, afirma.

Para ele, o que de fato existe é um momento de ruptura para a imprensa escrita, peça fundamental na consolidação das democracias. Na entrevista Puchner falou ainda sobre formalismos teóricos na literatura, nacionalismo e globalização e revelou o livro que fez sua cabeça.

O senhor abre o livro
falando do papel da leitura da “Ilíada” para Alexandre. Hoje a leitura pode ajudar um jovem ambicioso a “conquistar o mundo”, como ajudou Alexandre?

Até pode, mas eu não recomendaria. Afinal, Alexandre causou muita destruição. A leitura que ele fez de Homero – e como ela o inspirou – são um bom exemplo do poder da literatura, mas “poder” não significa “poder para o bem”.

Espero que jovens ambiciosos inspirem-se pela literatura, de preferência não para conquistar o mundo, mas para resolver nossos problemas globais mais urgentes, das mudanças climáticas à desigualdade de renda. A literatura pode ajudar a criar uma consciência global.

O senhor fala com bastante generosidade dos livros da série Harry Potter. Livros como esse são uma porta de entrada para a literatura?

Um dos fenômenos literários mais interessantes da atualidade é o crescimento da literatura “young adult” (para jovens adultos). É um fenômeno muito animador pois mostra que, ao contrário do que dizem os pessimistas da crítica cultural, os jovens estão lendo muito. Portanto, ele tem meu total apoio. E acredito que, uma vez criado o hábito da leitura entre jovens adultos, outros textos serão buscados.

Temas como globalização, globalismo e soberania de estados nacionais têm aparecido com frequência no noticiário político atual. No livro, o senhor descreve como Alexandre incorporou costume e cultura estrangeira ao mesmo tempo em que difundiu a língua e a literatura grega no mundo da época. Mostra como Goethe planejou uma literatura universal. Por outro lado, traz exemplos de como a literatura foi fundamental para fazer aflorar identidades nacionais no Caribe, no México e na África. Um mercado mundial de literatura é compatível com uma literatura de paixões nacionalistas?

Ótima pergunta. Há uma relação dinâmica entre a literatura nacional e a literatura global. Os épicos nacionais mencionados por você, instrumentais na criação de identidades culturais, costumam ser eles mesmos mosaicos construídos a partir de culturas anteriores ou diferentes. Posteriormente, acabam extrapolando seu contexto original e se tornam disponíveis para outras culturas. Até a noção de literatura universal de Goethe surgiu em meio a um movimento nacionalista – a unificação de diversos estados alemães.

Retiro duas conclusões desse paradoxo: 1. Já que as narrativas, especialmente narrativas coletivas e compartilhadas, desempenham um papel tão importante na criação de pertencimento cultural, a grande literatura costuma ter um efeito nacional ou até nacionalista. Ao mesmo tempo, ao examinar a história literária como um todo, podemos ver até onde a literatura transcende a nação e está disponível para gerações posteriores e além de seu contexto original: a literatura universal.

No capítulo dedicado a Benjamin Franklin, o senhor aborda a importância dos jornais para a formação dos Estados Unidos. Em “A Democracia na América”, Tocqueville dizia que “nos Estados Unidos cada jornal tem, individualmente, pouco poder; mas a imprensa periódica ainda é, depois do povo, o primeiro dos poderes.” O senhor tem acompanhado a crise dos jornais, que atinge principalmente os pequenos e médios? O senhor acha que há uma crise de leitura nos dias de hoje?

Eu não acho que haja crise de leitura. Mais textos estão sendo escritos e lidos por mais pessoas do que em toda a história,
principalmente na internet, mas também em outras mídias. É uma enorme democratização da literatura e da escrita e, se acreditamos na democracia, devemos saudar esse movimento. Eu celebro.

A crise mencionada não é de leitura, mas do modelo de negócio dos jornais, que se financiavam por meio de anúncios e, em menor grau, por meio de assinaturas. Com os anúncios desaparecendo e menos leitores dispostos a pagar por conteúdo, o modelo de negócio não é mais viável. Isso é preocupante e perturbador, porque os jornais com esse modelo de negócio foram cruciais para nossas sociedades.

Agora precisamos encontrar caminhos a seguir no cenário de mudanças da mídia, especialmente nas mídias sociais. Acho que governos, usuários e até empresas como o Facebook estão acordando para o fato de que essas plataformas têm um poder imenso. Esse poder precisa ser limitado, regulado ou organizado de alguma forma. Algo semelhante ocorreu nos primórdios dos jornais, a propósito, e nas primeiras décadas e séculos após a introdução da prensa, quando uma quantidade enorme de desinformação e falsidade circulou de forma muito mais generalizada. Nós lentamente aprendemos a lidar com isso, a organizar isso, e agora temos que fazê-lo novamente.

O senhor tem uma carreira como crítico literário e é professor em uma das mais importantes universidades americanas. Ao mesmo tempo, demonstra possuir uma relação afetiva intensa com os livros e a literatura e em seu livro parece insistir na tese de que essa paixão é acessível, inclusive aos leitores sem estudo formal.  O senhor concorda com a tese, defendida por muitos dos seus colegas, de que a especialização dos estudos literários na academia levou uma geração de estudantes a ler cada vez mais teoria e menos literatura em si?

Meus pensamentos e impressões sobre essa questão são complicados. Concordo que os estudos literários estão muito voltados para si próprios e esotéricos; nós, estudiosos da literatura, perdemos boa parte dos leitores não especializados, o que é muito ruim. É ruim do ponto de vista intelectual, afinal comunicar-se com leitores em geral é um exercício extremamente salutar e importante. E sem uma audiência geral, deixamos de atrair pessoas para a literatura.

Mas não acho que a teoria literária seja a culpada, ao menos não a única. O estudo literário, como qualquer disciplina, precisa de teoria, da mesma forma que a física ou a história. Infelizmente, a teoria literária costuma não ser particularmente boa ou útil. Precisamos de teorias melhores.

Também devo confessar que fui originalmente atraído para o estudo da literatura por meio da teoria. Na faculdade, me formei em filosofia e cheguei à literatura via teoria. Ainda hoje, meu trabalho é sustentado e informado pela reflexão teórica, mas não atraio leitores com termos abstratos. Formulo certo entendimento da literatura, da história literária, e depois o mostro em ação. Ao escrever sobre histórias contadas, eu mesmo conto histórias. Isso faz muito sentido para mim, e espero que mais colegas façam o mesmo.

Qual livro despertou no senhor o gosto pela leitura?  

Outra confissão: na verdade, eu não era um grande leitor até os 16 anos. O único livro que realmente me impressionou foi o “O Senhor dos Anéis”, do Tolkien, que eu ainda amo. Mesmo na faculdade, como acabei de mencionar, fui atraído muito mais pelos argumentos abstratos da filosofia. Foi só depois dos 20 anos que me peguei cada vez mais lendo literatura. O “Ulisses” de Joyce foi logo uma paixão à qual eu ainda retorno sobre a qual às vezes ensino. Acho que ele me impressionou muito porque o li pela primeira vez numa circunstância especial, no Monte Athos, na Grécia, em um mosteiro medieval. Essa experiência me fez conectar leitura e viagem, algo que depois me levou a escrever este livro, que combina as duas coisas.

O crítico Harodl Bloomabordou o escritor brasileiro Machado de Assis em seu livro “Gênio: Os 100
autores mais criativos da história da literatura”, classificando-o como um
“milagre”. O senhor concorda com a avaliação? Gosta da literatura brasileira?

Não costumo concordar com Harold Bloom, mas neste caso concordo! Incluí Machado de Assis, o conto “O Caso da Vara”, em minha antologia da literatura mundial, “The Norton Anthology of World Literature”. Adoro a maneira como ele capta a vida urbana moderna e as sutis ironias que emprega para brincar com os leitores, quase antecipando figuras modernistas como Joyce. Ao incluí-lo, quis torná-lo um nome mais familiar nos Estados Unidos. A outra escritora brasileira que incluí foi Clarice Lispector, que capta a vida cotidiana com precisão incrível e que só agora está se tornando mais conhecida nos EUA. Por fim, eu estudava manifestos de vanguarda e foi assim que me deparei com o “Manifesto Antropofágico” de Andrade. Adoro o jeito malicioso com que brinca com estereótipos coloniais.

Professor da Escola de Medicina defende os livros como remédio para a ansiedade e diversos males

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Rodrigo Casarin, no Página Cinco

No Laboratório de Leitura montado na Escola Paulista de Medicina (EPM) da Universidade Federal de São Paulo que Dante Gallian pôde perceber como a literatura impactava os leitores de forma afetiva e reflexiva, influenciando diretamente em suas vidas. “Como estávamos num ambiente acadêmico, começamos a abordar essa experiência como um objeto de estudo. Fomos constituindo uma linha de pesquisa que hoje congrega dezenas de pesquisadores e que apresenta uma grande produção científica com alta qualidade. Hoje, temos pesquisado os efeitos da aplicação do Laboratório não só no campo da saúde – na formação ética e na humanização dos futuros profissionais; como meio recuperação de pacientes psicóticos… –, mas também no âmbito das grandes corporações e setores específicos da sociedade, como grupos da terceira idade”, conta.

Dante é formado em História pela USP, onde fez seu mestrado e doutorado. Seu pós-doutorado veio pela École des Hautes Études em Sciences Sociales, de Paris, e desde 1999 é professor e diretor do Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde da EPM. Grande entusiasta da leitura – acredita que ler é um ato revolucionário -, teve sua vida impactada por clássicos como “A Odisseia”, de Homero; “A Divina Comédia”, de Dante; “Dom Quixote”, de Cervantes; “Hamlet”, de Shakespeare; “Os Irmãos Karamázov”, de Dostoiévski e “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa.

Por ter aprimorado sua experiência de “ser e estar no mundo” graças aos livros que enveredou suas pesquisas para essa área. Os estudos resultaram em “A Literatura Como Remédio – Os Clássicos e a Saúde da Alma”, obra lançada há pouco pela Martin Claret, na qual fala sobre os resultados alcançados no Laboratório de Leitura. “Ali, a leitura compartilhada tem se apresentado como um elemento coadjuvante de grande poder em pacientes psicóticos ou como meio de combate à depressão em pacientes da terceira idade. Sendo um remédio que afeta primordialmente a alma, a psique, a literatura ajuda a reverter e mesmo a curar enfermidades de origem psíquica e emocional, que são as mais prevalentes no mundo atual”, diz na entrevista abaixo.

Dentre os problemas que um bom livro pode combater, Dante aponta principalmente para um que define como “predominante e crônico em nossos dias”: a ansiedade, algo diretamente relacionado à constante pressa a qual quase todos parecem estar submetidos. “Vivemos um tempo em que tendemos a privilegiar tudo o que é imediato e circunstancial e a desprezar tudo o que é permanente e essencial. Vemo-nos, cada vez mais, transformados em máquinas de produção e consumo e isso nos desumaniza e nos faz doentes. Estamos sempre extremamente ocupados, mergulhados numa dinâmica operacional de resolução de problemas e realização de tarefas, esquecendo de amar, de olhar, de contemplar o mundo, a vida, as pessoas que nos cercam”.

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Quais são as principais doenças e males contemporâneos que a literatura pode ajudar a combater? Como?

Minha experiência pessoal e de pesquisa aponta que a literatura pode ajudar a combater inúmeros males, porém creio que o principal é justamente aquele que se apresenta como predominante e crônico em nossos dias: a ansiedade. Ao nos “sequestrar”, através de uma narrativa envolvente e uma trama interessante, a literatura tem o poder de nos lançar numa outra espacialidade e temporalidade.

Enquanto estamos lendo, nos esquecemos, por um tempo, dos nossos problemas, das premências que muitas vezes nos oprimem. Esta “fuga” da realidade apresenta-se como algo desestressante e terapêutico, porque libertador. Ao fecharmos o livro, percebemos que os nossos problemas e premências continuam lá, porém nós não somos mais os mesmos. A leitura não apenas nos levou a uma outra dimensão de espaço e tempo, mas também contribuiu para olharmos a nossa realidade a partir de uma outra perspectiva.

A experiência da leitura, ainda mais quando dinamizada e potencializada pela dinâmica do Laboratório de Leitura, pode nos ensinar a olhar e interpretar a vida de uma forma nova, mais ampla, profunda, ajudando a relativizar certas visões e pontos de vista por demais obtusos e pessimistas. Assim, ao mesmo tempo em que nos permite “escapar” por um tempo das situações que são fonte de ansiedade, a literatura nos permite voltar a estas mesmas situações mais ricos e fortalecidos, prontos para enfrentá-las com um novo espírito e um novo olhar.

A literatura pode, de alguma forma, ajudar diretamente na cura ou tratamento de doenças extremas, como o câncer ou o Alzheimer?

Apesar de não me dedicar a pesquisas assim tão direcionadas, é possível dizer que muitos pesquisadores têm demonstrado, por exemplo, quanto a leitura de obras clássicas da literatura podem interferir na dinamização de ligações e processos neurais importantes, impactando positivamente em tratamentos de doenças degenerativas como o Alzheimer. Mais concretamente, posso afirmar que não apenas a leitura, mas a leitura compartilhada no âmbito do Laboratório de Leitura, tem se apresentado como um elemento coadjuvante de grande poder em pacientes psicóticos ou como meio de combate à depressão em pacientes da terceira idade. Sendo um remédio que afeta primordialmente a alma, a psique, a literatura ajuda a reverter e mesmo a curar enfermidades de origem psíquica e emocional, que são as mais prevalentes no mundo atual.

Quais livros e autores você destaca pelo poder de cura que possuem?

Creio que praticamente todos os grandes clássicos e os grandes autores têm um poder terapêutico incomensurável, desde que bem trabalhados e administrados. Baseando-me, entretanto, em algumas experiências, destacaria, por exemplo, Miguel de Cervantes, que através do seu Dom Quixote nos ajuda a relativizar a rígida polarização que a Modernidade criou entre “realidade” e “ficção”; Shakespeare, que através de suas tragédias nos possibilita fazer um mergulho no mais profundo das nossas motivações e paixões; e Dostoiévski, que através de personagens como o Príncipe Mitchikin, do romance “O Idiota”, ou dos filhos de Fiodor Karamázov, de “Irmãos Karamázov”, nos permite encontrar a esperança na experiência mais profunda do desespero.

A experiência do Laboratório de Leitura tem me ajudado a elaborar uma verdadeira farmacopeia literária, que pretendo explorar cada vez mais, tanto no mundo acadêmico quanto no mundo corporativo e também na sociedade como um todo. Todos estamos muito necessitados desse remédio.

Você escreve no livro que ler é um ato revolucionário. Por quê?

Parafraseando Blaise Pascal [filósofo francês], a leitura é uma diversio conversio; ou seja, algo que nos possibilita sair de nós mesmos – o que é próprio da diversão – e, ao mesmo tempo, algo que, quase sem percebermos, nos lança dentro de nós mesmo – o que é próprio da conversão, no sentido filosófico e psicológico do termo. A literatura converte divertindo e este é um autêntico movimento revolucionário, na medida em que gera uma circularidade existencial extremamente propulsiva, transformadora. Percebemos em nossas pesquisas que a dinâmica do Laboratório de Leitura potencializa essa virtude revolucionária que literatura tem per si.

Ao longo de “A Literatura Como Remédio” você joga com a questão do “leitor extremamente ocupado”. Hoje, muitas pessoas dizem não ler porque estão, justamente, extremamente ocupadas. Qual o remédio que você recomenda para esses que não têm tempo para nada?

Em meu livro cito um autor francês, Daniel Pennac, que num ensaio genial intitulado “Como um Romance” afirma que “o tempo para ler é como o tempo para amar: é sempre um tempo roubado”. Vivemos um tempo em que tendemos a privilegiar tudo o que é imediato e circunstancial e a desprezar tudo o que é permanente e essencial. Vemo-nos, cada vez mais, transformados em máquinas de produção e consumo e isso nos desumaniza e nos faz doentes. Estamos sempre extremamente ocupados, mergulhados numa dinâmica operacional de resolução de problemas e realização de tarefas, esquecendo de amar, de olhar, de contemplar o mundo, a vida, as pessoas que nos cercam. A leitura de um bom livro pode ser uma fuga, um antídoto frente a esta dinâmica desumana e patológica em que vivemos.

O remédio é realmente “roubar”; roubar tempo que talvez dediquemos de forma exagerada às redes sociais, à televisão e a outras atividades que ocupam nosso tempo de ócio com sempre mais do mesmo. Ao nos darmos a oportunidade de fazer a experiência da leitura dos clássicos encontraremos algo tão bom e tão libertador que, em breve, descobriremos tempo e meios inéditos de nos dedicarmos a esta atividade “subversiva”, tal como os amantes que inventam mil jeitos e oportunidades para estarem juntos. Desde que eu me apaixonei pela literatura encontrei meios novos e criativos para me dedicar à leitura; todos os dias. Leio nos intervalos “mortos”, na fila do banco e até enquanto caminho para o trabalho…

Dica da Sonia Junqueira

Enem sem redação, mais um golpe na leitura

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A famosa frase de Monteiro Lobato é bastante oportuna: “um país se faz de homens e livros”

Tatiana Notaro, na Folha de Pernambuco

Uma das máximas mais verdadeiras proferidas pelos professores de redação País afora é: para escrever bem é preciso ler, e muito. A leitura amplia o vocabulário, o repertório de argumentos (essencial para um bom texto) e ainda ratifica gramática, com o uso das regras.

 

Não há como escrever bem sem ser um leitor assíduo. E num País onde se lê pouquíssimo (uma média que não chega a cinco livros per capita/ano) – onde o estímulo doméstico, em geral, é ínfimo -, ter um Ministério da Educação que propõe o fim da redação como critério de seleção às universidades, no Exame Nacional do Ensino Médio, é mais que um grande absurdo, é uma condenação.

 

Ao invés de incentivar o hábito da leitura, mesmo que obrigatoriamente como preparação para a prova, se propõe um sistema apenas com o objetivo de avaliação. Esta e outras mudanças para o Enem serão anunciadas pelo ministro Mendonça Filho em coletiva de imprensa (hoje, às 11h) e ainda vão para consulta pública.

Amazon anuncia os finalistas do Prêmio Kindle de Literatura

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Escritores brasileiros concorrem a prêmio de R$ 20 mil e contrato para livro impresso. Ao todo, competição recebeu submissões de 1.700 autores

Publicado no IDGNow

A Amazon.com.br e a Editora Nova Fronteira anunciaram nesta quarta-feira (11/01), os três finalistas do Prêmio Kindle de Literatura. São eles “Machamba”, de Gisele Mirabai; “Minha Sombra Cabe Ali”, de Leon Idris Azevedo; e “Os Últimos Passos do Enforcado”, de Edson Soares.

No total, 1.700 autores, de 460 cidades brasileiras submeteram mais de 2 mil livros ao concurso, com inscrições que foram do dia 1º de setembro a 31 de novembro.

Para concorrer ao prêmio, os livros deveriam ser romances inéditos e ainda não publicados, escritos em português, além de exclusivos para o Kindle e inscritos no KDP Select, ferramenta gratuita onde autores e editoras disponibilizam seus livros digitais para leitores Kindle.

O vencedor, que será anunciado na próxima terça-feira, 17 de janeiro, terá contrato para publicação do livro impresso com a Nova Fronteira, além de receber um prêmio de R$20 mil.

Todos os romances inscritos no prêmio serão disponibilizados na Loja Kindle, além de estarem disponíveis de graça para clientes inscritos no programa Kindle Unlimited.

Circuito da Poesia, no Recife, ganha quatro novas estátuas

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Estátua de Ariano Suassuna foi instalada na Rua da Aurora (Foto: Lu Streithorst/Prefeitura do Recife/Divulgação)

Estátua de Ariano Suassuna foi instalada na Rua da Aurora (Foto: Lu Streithorst/Prefeitura do Recife/Divulgação)

Escritor Ariano Suassuna está entre as personalidades homenageadas. Ao todo, projeto soma 16 monumentos de pernambucanos ligados à arte e à literatura.

Publicado no G1

Uma homenagem a quatro personalidades ligadas à arte em Pernambuco foi concretizada nesta quinta-feira (5). Os escritores Ariano Suassuna e Liêdo Maranhão, o poeta Alberto da Cunha Melo e a poetisa e jornalista Celina de Holanda Cavalcanti foram eternizados por meio de esculturas em locais emblemáticos do Recife, como a Rua da Aurora e o largo do Mercado de São José. As estátuas em tamanho real passaram a integrar o Circuito da Poesia, que soma 16 monumentos de pernambucanos importantes nos cenários musical e literário.

Com 1,80 de altura, a estátua de Ariano foi instalada em frente ao Teatro do Arraial, na Rua da Aurora, inaugurado quando ele era Secretário de Cultura. A homenagem ao escritor e fotógrafo Liêdo Maranhão, por sua vez, foi instalada na Praça Dom Vital, onde ele costumava olhar e fotografar quem circulava pelo local.

O Parque 13 de Maio, no Centro do Recife, ganhou a estátua de concreto do poeta Alberto da Cunha Melo, instalada em frente à Biblioteca Central, local em que ele atuou no setor de obras Raras. Na Praça José Sales Filho, no bairro da Torre, foi instalado o monumento para homenagear a jornalista Celina de Holanda Cavalcanti de Albuquerque. Ao lado da estátua, será esculpido um banco de pedra para que os visitantes possam contemplar o local em que ela morou.

Desenvolvidas pelo artista plástico Demétrio Albuquerque, as esculturas tiveram um investimento de R$ 120 mil para instalação e são uma iniciativa da Prefeitura do Recife, executadas pela Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb).

Criado para perpetuar o legado de personalidades ligadas à arte em Pernambuco, o Circuito da Poesia é composto de monumentos de artistas como os poetas Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, os músicos Chico Science, Luiz Gonzaga e o compositor Capiba. O monumento em homenagem ao poeta Joaquim Cardozo, na Ponte Maurício de Nassau, continua em processo de restauro após ser alvo de vandalismo.

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