Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged escolas municipais

Alunos assistem a aulas debaixo de lonas e sem merenda na Paraíba

0

Filhos de Ana Maria Firmino vão juntos para a escola improvisada; para levá-los para a nova unidade, teriam de percorrer 4 km – Francisco França/UOL

Publicado no UOL

Crianças debaixo de lonas, sem água nem ventilador. O chão é de terra batida. Mães de estudantes varrem o local e espalham as cadeiras pela sala.

Nesse improviso, cerca de 50 alunos assistem às aulas na comunidade São José, na zona rural do município de Areia (PB), a 130 km de João Pessoa. Também faltam merenda e material escolar, embora exista sinal de internet Wi-Fi.

As aulas, que inicialmente eram de manhã e à tarde, agora só acontecem no turno matutino em razão do calor sufocante debaixo do plástico. E a situação precária não tem prazo para terminar, já que o caso está em disputa na Justiça.

A denúncia feita pelo Ministério Público Estadual aponta que foram fechadas 13 escolas na região, afetando cerca de 300 alunos. O anúncio do fechamento aconteceu no final de janeiro, quando teve início o ano letivo. A medida atinge crianças e adolescentes com idades entre 4 e 15 anos, tanto na educação infantil quanto no ensino fundamental.

Segundo o MP, a maioria dos pais, ainda que insatisfeitos, realocaram as crianças em unidades de ensino mais distantes de onde moram. Outros não aceitaram a situação e estão em casa, esperando a decisão judicial. A escola Emília Maracajá foi a única a insistir nas aulas, mesmo sem mínimas condições.

A prefeitura local argumenta que a estrutura desses estabelecimentos era precária, havia demanda insuficiente de alunos e que o desempenho escolar era baixo. “Ou a gente reestruturava ou continuaria com a fábrica de analfabetos”, diz a secretária de Educação de Areia, Sandra Araújo Medeiros. Ela também contesta o número de locais fechados (leia mais abaixo).

Já os pais reclamam da distância das escolas para onde seriam transferidas as crianças e da qualidade do transporte escolar.

Tudo é doado na sala debaixo das lonas: lousa, merenda, giz e garrafão de água – Francisco França/UOL

“A outra escola é longe. Eu tenho três filhos pequenos, não tenho condições de sair com dois e deixar a mais nova em casa ou sair carregando os três. Eles [da prefeitura] dizem que tem transporte escolar, mas os ônibus estão caindo aos pedaços”, afirma a dona de casa Ana Maria Firmino. A antiga escola ficava a 800 metros de sua casa. A nova está a quatro quilômetros.

De acordo com a prefeitura, há transporte para levar os estudantes, mas apenas dois dos 14 ônibus foram aprovados em vistoria recente.

Para o promotor Newton da Silva Chagas, autor da ação civil pública que contesta o fechamento das escolas, o prefeito João Francisco (PSDB) não tomou as providências determinadas pelo Ministério da Educação e pela Lei das Diretrizes de Bases ao pôr fim ao sistema de ensino multisseriado, no qual alunos de séries e idades diversas têm aula na mesma sala.

Segundo o MEC, a orientação é que alunos de idades e séries diferentes estudem em salas diferentes, com conteúdos específicos. Para o MEC, colocar todos na mesma sala compromete o aprendizado.

“Os pais dos alunos denunciaram que alguns veículos não têm freio de mão, que as portas não fecham e outras situações que colocam em perigo a vida dos estudantes”, relatou o promotor.

Ele também pediu mais dados à prefeitura sobre esse problema e sobre as medidas tomadas depois do resultado da vistoria. “Mas, pelo que estou vendo, só querem ganhar tempo, enquanto os alunos sofrem os riscos.”

A dona de casa Martiliana Targino, que mora ao lado de uma das escolas fechadas, se disse indignada. “Não entendo de leis, mas sei que isso é um absurdo. Meu filho de nove anos está fora da escola. Todos os dias ele me pergunta quando o prefeito vai reabrir as salas de aula, e eu não tenho resposta”, afirmou.

Professoras sem salário e giz doado

No quadro da sala de aula improvisada, uma frase a giz chama a atenção: “O Brasil é minha pátria”. Também se espalham desenhos coloridos sob o título “Minha Escola”.

O resultado da tarefa, passada pela professora Josivânia da Silva Lisboa, a Tia Vaninha, contrasta com a realidade atual. Mostrando os desenhos colados nas paredes, ela conta que a ideia era que os alunos desenhassem a escola como a viam. “Os desenhos mostram que eles sonham com uma escola melhor”, disse.

Tudo é doado na sala debaixo das lonas: lousa, merenda, giz e garrafão de água.

Mas há também espaço para solidariedade, conta Tia Vaninha. “Quando veio o anúncio de que a escola ia fechar, os pais se mobilizaram. A comunidade se sentiu tocada, e cada um passou a ajudar da forma possível, seja com biscoitos para a merenda das crianças, seja auxiliando na limpeza do local.”

Ela e outras duas professoras dão aulas de forma voluntária depois de terem seus salários cortados pela prefeitura.

Emocionada, ela diz que sabe que aquela sala de aula não é o modelo ideal. “Eu penso em cada um dos meus alunos. Eu quero um futuro para eles. Tudo isso é muito triste, mas pelo menos estou fazendo a minha parte”, diz.

Fabiana Batista, também professora voluntária, defende a permanência dos alunos nas escolas antigas. “Dói muito presenciar essa cena, não era para ser assim. A educação é linda na teoria, mas na prática a história é bem diferente.”

“A gente passa quatro anos estudando e vendo teoria. Mas, quando chega ao batente, encontra várias dificuldades. Não é fácil para ninguém, mas quem mais sofre são os alunos. O futuro deles fica comprometido”, afirma Batista.

O que diz o MEC e a prefeitura?

Procurado pelo UOL, o MEC (Ministério da Educação) destacou que, “de acordo com a Constituição Federal, os municípios, estados e a União têm autonomia garantida pelo Pacto Federativo”. “Nenhum órgão da União está acima de qualquer órgão municipal ou estadual.”

O MEC também informou que seu papel é de apoio e que o assunto deveria ser tratado com a Secretaria Municipal de Educação, “uma vez que qualquer decisão de fechamento ou abertura de escolas é da própria secretaria, dentro de sua autonomia garantida por lei”.

Já a secretária de Educação de Areia, Sandra Araújo Medeiros, reclama das condições anteriores das escolas municipais.

“Antes da nossa gestão, havia escola em que merendeira dava aula e escola que estava fechada em dia letivo. As mudanças foram necessárias”, afirmou ao UOL, ressaltando que foram 11, e não 13, o número de escolas fechadas.

Segundo ela, também há uma tentativa de politizar o fechamento das escolas.

No cargo desde janeiro de 2017, a secretária diz que, das 24 escolas municipais, apenas seis não eram multisseriadas, o que precisou ser reavaliado para atender as exigências do Ministério da Educação.

“Além disso, o desempenho era muito baixo. Havia escolas com distância de 900 metros de uma para outra e com estruturas péssimas. Outras eram assaltadas diversas vezes. Diante disso, ou a gente reestruturava ou continuaria com a fábrica de analfabetos”, afirmou.

Sobre o caso da escola Emília Maracajá, Medeiros disse que só depois de muitas conversas foi apresentada aos pais dos alunos a opção de transferência para outras escolas.

“A ideia era reabrir a escola por 60 dias e ver se realmente seria produtivo. Mesmo tendo apenas 14 alunos, íamos reabrir a escola, desde que os outros estudantes de salas multisseriadas fossem transferidos, mas a proposta não foi aceita [nem pelos pais nem pelo MP]”, afirmou.

Segundo ela, os alunos da Emília Maracajá não estão formalmente matriculados e correm o risco de perder o ano letivo.

Pais também se preocupam com o cancelamento do benefício do Bolsa Família por causa da falta de frequência escolar.

O impasse só deve ser resolvido na Justiça, tendo em vista as tentativas frustradas de acordo entre as partes.

Em relação ao sinal de internet, a secretária disse que a antena foi instalada, mesmo com a escola fechada, devido a um atraso na liberação do processo pelo MEC.

“Quando chegaram para instalar, a escola já estava fechada, mas, como havia a perspectiva de reabrir, optamos por deixar, pois fazia parte do acordo com os pais não retirar nada da escola até que a situação fosse definitivamente resolvida. Infelizmente não teve acordo e agora vamos aguardar a decisão da Justiça.”

A Justiça estadual deu um prazo de 30 dias, que vence no final deste mês, para a prefeitura se justificar oficialmente sobre o fechamento das escolas. Só então a questão vai ser colocada em julgamento.

Estudantes de classe média vão à escola pública por economia e para sair da “bolha” social

0
 Pedro Nakagawa, de 15 anos, sempre estudou em escolas particulares, mas mudou para um colégio público neste ano. Fernando Cavalcanti

Pedro Nakagawa, de 15 anos, sempre estudou em escolas particulares, mas mudou para um colégio público neste ano. Fernando Cavalcanti

 

Busca por ambiente mais diverso faz famílias de classe média desistirem da rede privada. Em SP, o número de alunos que migrou para a rede pública aumentou em 25% em 5 anos

Publicado no El País

“É preciso diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, até que num dado momento a tua fala seja a tua prática”. Foi a frase do educador Paulo Freire que guiou a escolha da artista plástica Anne Rammi, de 37 anos, em meados do ano passado. Ativista, militante pela educação e defensora da democracia e da igualdade, como se define, ela se pegou vivendo uma incoerência: seus filhos viviam na “bolha da escola particular”, onde não conviviam com qualquer diversidade, num ambiente completamente desigual ao da maioria das crianças brasileiras. “Como posso ter um discurso de somos todos iguais enquanto estou comprando o acesso dos meus filhos à educação?”, questionou-se. E o pagamento não era barato: cerca de 2.000 reais por cabeça.

Em meio a essa reflexão, a família matriculou Joaquim, 7 anos, e Tomás, de 5, na rede pública de ensino. E aguarda uma vaga desde setembro para a pequena Iolanda, de um ano. O mesmo fez a renomada chef de cozinha Bel Coelho, 37 anos. Dona de um restaurante na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo, ela matriculou o filho Francisco, de três anos, em uma escola municipal por acreditar que lá ele seria educado em um ambiente mais diverso e inclusivo, mais próximo da realidade do país. “Eu queria que meu filho tivesse uma exposição à sociedade diferente da que as escolas particulares promovem. Queria que ele convivesse com negros, brancos e com pessoas de distintas classes sociais”, explica ela, que se diz chocada ao lembrar que ao longo da sua vida escolar em tradicionais instituições privadas nunca teve um colega negro na sala.

 A chef de cozinha Bel Coelho e o filho Francisco. Arquivo Pessoal

A chef de cozinha Bel Coelho e o filho Francisco. Arquivo Pessoal

 

Nos corredores da rede pública, essas famílias têm encontrado mais pais de classe média que tomaram a mesma decisão. Do final do ano passado para o início deste ano, 220.767 estudantes matriculados na rede estadual de São Paulo vieram da rede privada, um número 25,8% maior do que os que fizeram a mudança há cinco anos (175.404). Alguns saíram por pura ideologia. Outros, também pela dificuldade de, em plena crise econômica, pagar mensalidades que podem beirar os 5.000 reais, especialmente quando a escola aparece no topo das melhores do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM).

Foi o que aconteceu com a empresária Gabriela Nakagawa, que no ano passado se viu obrigada a mudar radicalmente o estilo de vida da família. Em meio à maior recessão econômica das últimas décadas, a empresária teve que fechar as portas de uma consultoria de negócios que empregava mais de cem funcionários e rever as contas de casa. A mensalidade da instituição de ensino progressista de São Paulo, na zona sul da cidade, em que estudava o filho do filho Pedro, 15, era um dos gastos que mais pesava: 3.500 reais. Gabriela começou então a procurar opções de escolas mais baratas, que se adequassem a seu orçamento. “Foi quando percebi que muitas delas ensinam de forma desconectada com o mundo que vivemos. Por isso comecei a pensar na opção de uma escola pública, onde meu filho estaria mais em contato com a realidade”, explica.

Assim, Pedro saiu da Escola Móbile e foi para o colégio estadual Aristides Castro. A decisão foi bem aceita pelo garoto, mas causou estranhamento em algumas amigas da empresária, principalmente mães de alunos de escolas particulares. “Muita gente ficou com medo da questão da violência e das drogas, mas isso é um preconceito, já que essas questões também estão inseridas nos colégios particulares”. Ela ressalta que a escola em que o filho estuda fica localizada em um bairro nobre da capital paulista, o que a tranquiliza em relação às questões de segurança. Ressalta, no entanto, que acredita que se ele estudasse em um colégio estadual da periferia, a segurança poderia ser um problema.

 Helena Monteleone migrou para um colégio público neste ano. Fernando Cavalcanti

Helena Monteleone migrou para um colégio público neste ano. Fernando Cavalcanti

 

Outras pessoas também a questionaram sobre a qualidade de ensino das instituições públicas. Após seis meses, entretanto, Gabriela está contente com a escolha, mas admite que tanto ela como o filho precisam lidar com uma estrutura escolar muito diferente da que estavam acostumados. “A turma tem um nivelamento muito heterogêneo, há uma discrepância entre os alunos, alguns têm um desempenho bem fraco. Existe uma deficiência grande em termos de leitura. Até agora, a escola não pediu a leitura de nenhum livro. Se fosse no colégio anterior, o Pedro já teria obrigatoriamente lido uns cinco livros”, conta a empresária que se surpreendeu negativamente com o tamanho da biblioteca da escola. Além disso, outros pais também relatam problemas com os banheiros que, em muitos casos, estão mal cuidados sem o assento das privadas e papel higiênico. Pedro está indo muito bem na escola e os professores o escolheram como monitor de sala nas aulas de matemática, português e inglês. Com isso, ele ajuda outros colegas com mais dificuldades nas matérias.

Preconceito

Luciano Mendes de Faria Filho, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador do projeto Pensar a Educação, Pensar o Brasil, acredita que há um estigma de má qualidade que acompanha a rede pública há décadas e que essa imagem não reflete, necessariamente, a realidade. “Quando a imprensa falava de escola pública na década passada, falava de violência”, afirma ele, que ressalta que a rede melhorou significativamente nas últimas duas décadas, com melhor qualidade no material didático e na formação média dos professores. “A grande questão não é a qualidade da escola pública, mas a desigualdade social. É a origem social dos alunos da rede pública que faz a diferença no aprendizado. Não é a escola privada que é melhor, mas o fato de que ela trabalha com os 10% mais ricos, com famílias escolarizadas há gerações”, ressalta o professor.

“Boa parte dos alunos da rede pública que hoje estão no ensino médio, não tiveram pais que frequentaram essa etapa do ensino e fica mais difícil para eles discutirem e negociarem com os professores. Por isso é fundamental que as camadas médias estejam na rede pública. Estes pais estão escolarizados há mais tempo, dominam o discurso da escola e podem interagir com mais qualidade com os próprios professores e exigir mais”, diz o especialista.

Maior participação

A escolha da classe média pela rede pública, ainda que não seja representada por números massivos nos Censos Escolar, geralmente vem acompanhada de um impulso por uma maior participação. A chef Bel Coelho, por exemplo, passou a acompanhar o que Francisco comia na hora do almoço e resolveu dar algumas sugestões para melhorar o cardápio da merenda. “Dei aula de culinária às merendeiras utilizando os produtos que elas já costumam usar e acrescentei peixe também. A sugestão de peixe já era da própria prefeitura, mas consegui voltar nesta escola com a prática de servi-lo pelo menos uma vez por semana”, conta. Ela também chegou a doar papel higiênico e material escolar para a instituição. “Não tem como melhorar o sistema público se a gente não usar. A militância também precisa ser um papel da classe média”, diz.

A jornalista e empreendedora social Cintia Rodrigues, de 36 anos, decidiu, mesmo antes de engravidar, que matricularia os futuros filhos na rede pública. Em sua trajetória como repórter, cobriu por muitos anos a área e via essa melhoria citada pelo professor da UFMG acontecendo. “Os espaços de muitas escolas infantis públicas são enormes, com pátios com árvores, parquinhos. E isso tem muito a ver com a concepção pedagógica na qual acredito: nessa idade, pra mim, é mais importante para a criança correr, ter movimento, brincar. E nas particulares é muito comum a alfabetização precoce, com aulas de inglês desde cedo”, explica. Os gêmeos Heitor e Léo, de quatro anos, já passaram por três escolas municipais e, em todas, Cintia se envolveu no dia a dia da escola, fazendo parte do conselho escolar, formado por professores e pais, em paridade. Também criou um projeto, o Quero na Escola!, que une voluntários a pedidos de estudantes da rede pública, como palestras sobre racismo e feminismo e aulas de física quântica.

Anne e os filhos Joaquim, 7, Tomás, 5, Iolanda, 1 ano.

Anne e os filhos Joaquim, 7, Tomás, 5, Iolanda, 1 ano.

 

A opção de migrar para a escola pública também pode partir de um pedido dos próprios alunos. Após anos estudando em uma mesma escola particular, Helena Monteleone, de 15 anos, sentiu a necessidade de vivenciar um novo ambiente escolar. “Ela queria um colégio grande, com pessoas diferentes. Quando houve o movimento de ocupação dos secundaristas, ela chegou a visitar uma escola que estava ocupada. Acho que a semente da mudança aconteceu nessa época”, conta a mãe de Helena, a historiadora Joana Monteleone. As duas conversaram bastante sobre o tema até chegar à conclusão que um colégio estadual seria a melhor opção. Sem o peso da mensalidade, a mãe vai investir o dinheiro em um intercâmbio que Helena fará no próximo ano para a Inglaterra. “Claro que tive que me despir de mil preconceitos e rever meus pensamentos sobre escola e sobre aprender. Mas me surpreendi positivamente com o material didático. Era muito melhor do que ela estava acostumada e os professores parecem mais empenhados”, explica. Na visão da historiadora, a relação com o próprio corpo docente é diferente, já que o professor não é visto como um funcionário do aluno ou dos pais. Helena saiu do colégio particular São Domingos e foi para a escola estadual Zuleika de Barros Martins Ferreira, ambos na zona oeste da capital.

Ainda que a escola pública esteja longe de um padrão de qualidade exemplar e que a realidade enfrentada pela classe média na rede pública seja bastante distinta da dos alunos de periferia, na visão do professor da UFMG a diversidade nas escolas é fundamental. “É um cenário em que ambos ganham, pois se retira o aluno de classe média de uma socialização de shopping, de um gueto em que ele só convive com seu umbigo, com seu próximo. O Brasil é um país muito diverso. É fundamental que a gente possa fazer um país em que cada vez menos a diversidade se desdobre em desigualdade”.

Governo de Pernambuco anuncia distribuição de livros após exemplo da estudante Rivânia

0
Foto de Rivânia tentando salvar os livros comoveu o País / Valter Rodrigues/Blog Tenório

Foto de Rivânia tentando salvar os livros comoveu o País / Valter Rodrigues/Blog Tenório

 

Todas as escolas municipais e estaduais dos municípios atingidos pelos alagamentos receberão livros

Publicado no Diário de Pernambuco

A estudante Rivânia Rogéria dos Ramos Silva, de 8 anos, moradora do Distrito de Várzea do Una, na Zona Rural do município de São José da Coroa Grande, a 114 quilômetros do Recife, na Zona da Mata Sul, vai receber a visita do governador Paulo Câmara nesta segunda-feira. Em meio à tragédia dos alagamentos que atingiram a residência da menina na semana passada, Rivânia surpreendeu e causou emoção ao priorizar sua bolsa com material escolar no momento em que ela e seus avós, Eraldo Luiz de Lima e Maria Ivane da Silva, eram resgatados.

Pouco antes do resgate, a avó recomendara que a menina que estuda na Escola Municipal Várzea do Una levasse apenas o mais importante. Rivânia escolheu seus livros e a história ganhou repercussão nacional.

O fato alcançou repercussão nacional e acabou sendo tomado como motivação para a distribuição de livros pelo Governo de Pernambuco para escolas municipais e estaduais da área atingida pelos alagamentos.

Para o governador Paulo Câmara, a estudante de São José da Coroa Grande é “um símbolo e um exemplo”. Segundo informe do Governo de Pernambuco também será visitada a escola da estudante. “Rivânia é um símbolo e um exemplo para todos nós. É uma história edificadora no meio de tanta dificuldade, de tanta tragédia”, ressaltou Paulo Câmara, acrescentando que ela inspirou a decisão da distribuição de livros a todas escolas municipais e estaduais dos municípios castigados pelas chuvas.

Que matérias já foram obrigatórias nas escolas brasileiras?

0

publicado no Mundo Estranho

Desde educação moral e cívica até bordado e horticultura, os alunos brasileiros já foram obrigados a estudar todo tipo de coisa na escola. A variedade de matérias adotadas – e descartadas – no currículo é fruto da própria variação do contexto sócio-econômico no país e do direcionamento político dos governos que se sucederam ao longo da história. Vale lembrar que, na verdade, o currículo básico definido pelo governo não é totalmente rígido. Ele estipula o que deve constituir a base do ensino, mas dá certa liberdade para as escolas montarem suas grades. A lei atual, por exemplo, diz que são obrigatórias aulas de educação física. Porém, cada escola pode escolher como serão essas aulas. Assim, enquanto um colégio pode ficar no feijão-com-arroz do futebol e basquete, outro pode optar por esgrima, badminton ou outro esporte diferentão. :- P

kids_chess_tournament

PROFESSOR ALOPRADO

Veja algumas das disciplinas mais inusitadas já ensinadas no Brasil

CURSO BÍBLICO (1549-1827)

No Brasil colonial, se nem havia escolas direito, imagine então um currículo! O que rolava de ensino obrigatório era, na verdade, uma catequização. Os padres jesuítas ensinavam doutrina cristã e língua portuguesa aos índios para que, assim, eles pudessem ler a Bíblia e converter-se ao catolicismo.

LÁPIS E BORDADO (1827-1879)

Nesse período, o currículo começou a ter o formato que conhecemos hoje, com aulas de matemática, ciências e ginástica. Porém, a escola refletia o machismo da sociedade: as meninas só aprendiam a ler, a escrever e a fazer as contas básicas de matemática – além disso, tinham aulas de bordado e outras prendas domésticas.

JE SUIS BRÉSILIEN (1890-1946)

Com a República, a influência francesa aumentou e o idioma do biquinho passou a ser obrigatório. Os alunos também passaram a ter aulas “disciplinadoras”, como caligrafia, voltadas para difundir entre a população os princípios burgueses de valorização da família e do trabalho para o progresso do país.

TRABALHO INFANTIL (1879-1890)

Na ebulição política que antecedeu a Proclamação da República, o currículo incorporou matérias voltadas para atividades produtivas, como uma espécie de ensino técnico. Havia aulas de noções de lavoura e horticultura, além de marcenaria e economia, para os meninos, e, para as meninas, costura e economia doméstica.

APRENDENDO A NÃO PENSAR… (1946-1986)

Nesse período, as meninas chegaram a ter aulas de puericultura, em que aprendiam a cuidar de bebês. A partir do golpe militar, em 1964, disciplinas reflexivas, como filosofia, cederam lugar para coisas como organização social e política brasileira (OSPB), tudo para formar cidadãos comprometidos com a máquina verde-amarela – mas, claro, que não pensassem muito sobre isso…

BOTANDO PINGOS NOS IS (1986-1996)

A redemocratização do país foi acompanhada de um ajuste no currículo, que ficou mais específico. Por exemplo, no lugar de comunicação e expressão, nasceram português e literatura; em vez de estudos sociais, história e geografia; e a matemática virou matéria própria, destacada do vasto campo das ciências.

PENSO, LOGO, EXISTO (1996-HOJE)

Em tempos de globalização – e pra não ficar no “enrolation” do “la garantia soy jo” -, a galera também passou a aprender ao menos uma língua estrangeira moderna. E, desde 2008, filosofia e sociologia, que haviam sido banidas pelos militares, voltaram ao ensino médio.

O QUE ROLA DE MAIS DIFERENTÃO HOJE

Em colégios no Brasil…

Cansou de futebol nas aulas de educação física? É só ir para Vila Nova do Piauí: nas escolas municipais de lá, os alunos jogam é xadrez! Já em Guaíra e Barretos, cidades do interior de São Paulo, a galera tem aula de cultura pela paz, em que aprendem a ser compreensivos, dialogar com o próximo, controlar as emoções e – ufa! – relaxar…

… e no mundo

Em algumas províncias do Japão, os alunos – todos! – têm aulas de técnicas domésticas básicas, para aprender a cozinhar ou a costurar um botão de calça. Para a turma do paz-e-amor, nas escolas públicas do estado de Himachal, na Índia, é obrigatório praticar ioga. Já em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes, a onda não está tão zen: a galera de lá tem aulas de jiu-jítsu!

Ser aluno na Maré: educação marcada por violência e dias perdidos

0

Irmãos contam como confrontos frequentes têm afetado desempenho na escola e sonhos de uma vida melhor.

mare

Publicado em G1

Os gêmeos Samir e Samira têm apenas 11 anos mas já sabem com clareza o que gostariam de ser no futuro. Samira quer ser dentista; Samir adora bichos e sonha em ser veterinário.

Mas para chegar lá, os irmãos terão um caminho difícil imposto pelo contexto em que crescem. A violência e pobreza que os circundam nas favelas do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, têm impacto direto sobre sua educação.

Neste ano, os gêmeos perderam vários dias de aula devido a tiroteios ou conflitos iminentes nas favelas da Maré, margeadas pela Linha Vermelha, a via expressa que conecta o aeroporto internacional do Rio ao Centro e aos bairros mais abastados da zona sul carioca.

Eles estão longe de serem os únicos a terem o ensino comprometido pelo contexto de violência em áreas conflagradas do Rio.

Segundo a Secretaria Municipal de Educação, 129 mil estudantes da rede municipal tiveram aulas canceladas pelo menos uma vez entre janeiro e outubro passados devido à violência que circunda suas escolas.

Essa situação afetou 310 das 1.463 escolas da rede municipal carioca, quase 20%.

Roberta de Sousa ensina alunos maneiras de se proteger diante de tiroteios (Foto: BBC Brasil/Chuck Tayman)

 

“Às vezes não tem aula porque dá tiroteio. Aí gente fica sem estudar. Às vezes fica dois dias, três dias… A gente tem que ficar em casa, vai fazer o quê? Não pode sair na rua”, diz Samir dando de ombros com naturalidade, na pequena casa que divide com a mãe, a avó e as duas irmãs.

Os dias com aulas canceladas ou interrompidas viram tempo ocioso em casa, sem poder sair na rua para brincar. Os gêmeos também já ficaram presos na escola, sem poder sair devido a tiroteios nos arredores.

“Aqui onde a gente mora não tem segurança, e quando entra a polícia dá tiroteio”, explica Samira. “Em todo lugar que a gente passa tem gente com arma.”

O Complexo da Maré foi ocupado em março do ano passado por forças de segurança do Rio como parte do programa de pacificação do governo estadual, às vésperas da Copa do Mundo.

Depois da operação, a área passou um ano ocupada por homens das Forças Armadas. As tropas começaram a ser retiradas do conjunto de favelas em abril deste ano, mas o processo de pacificação permanece inconcluso e o governo do estado não considera que as comunidades da Maré – onde vivem cerca de 140 mil pessoas – estejam pacificadas.

‘Tensão maior’
A presença do tráfico de drogas ainda é ostensiva no complexo.

Na visita para encontrar os gêmeos, a reportagem da BBC Brasil se deparou com jovens vendendo drogas a céu aberto em uma barraca ao lado de estandes de frutas e legumes na rua principal de comércio na comunidade Nova Holanda.

Era o início da tarde, e jovens armados faziam vigília em uma esquina a três quarteirões da entrada de fundos do 22º Batalhão de Polícia Militar. Por questões de segurança, foi impossível fazer qualquer filmagem nas ruas.

A mãe dos gêmeos, Sirlene da Silva, de 46 anos, diz que o processo de pacificação aumentou a tensão na área, tornando os confrontos ainda mais frequentes.

“Vivemos no fogo cruzado. Tem violência dos bandidos e violência dos policiais”, diz.

“Quando a polícia chega, eles atiram para depois perguntar. Quando tem tiroteio, as crianças não têm aula, os professores não conseguem chegar à escola e a gente não consegue sair para trabalhar.”

Sirlene trabalha na ONG Redes da Maré e sustenta a família com um salário mínimo por mês. Não tem recursos para colocar os filhos em uma escola particular.

“O índice de aprendizado já é ruim para quem estuda em escola pública no Brasil. Pior ainda para quem mora em comunidade, que é o resto do resto, como a gente aprende. Aí as crianças ficam sem aula, o conteúdo vai se acumulando e os alunos passam de ano muitas vezes sem saber nada”, lamenta.

Os confrontos na Maré foram tão intensos neste ano que o horário letivo nas escolas municipais no complexo foi modificado.

Para reduzir o risco de a rotina escolar ser prejudicada por trocas de tiros entre facções rivais ou entre policiais e criminosos, as aulas passaram a começar mais tarde, às 8h (antes as crianças entravam às 7h15m); e terminar mais cedo, às 11h30 em vez de meio-dia.

“O risco às 7h é maior porque policiais trocam de turno, então é quando os tiroteios começam. Estão antecipando os momentos de uma violência já anunciada”, afirma Glauce Arzua, coordenadora de campanhas da ActionAid, uma organização não-governamental que trabalha com ONGs locais para defender os direitos de moradores.

O novo horário significa que estudantes perdem 75 minutos de aula por dia. “Imagina a violência para uma criança em fase de desenvolvimento ficar fora da escola todo esse tempo, todos os dias”, afirma ela.

As secretarias municipais e estaduais de Educação do Rio afirmam que alunos de escolas em áreas conflagradas não são prejudicadas porque as aulas são repostas para compensar pelos dias perdidos.

De acordo com as assessorias de comunicação de ambas as secretarias, todas as escolas da rede pública cumprem igualmente a carga de 200 dias letivos por ano.

Efeitos psicológicos
Mas o problema vai além das horas de aula.

Há oito anos a professora Roberta de Sousa, de 38 anos, dá aulas de português e literatura numa escola estadual na Maré, o Ciep Professor César Pernetta.

Ela diz que episódios frequentes de violência afetam seriamente não apenas o desempenho, como também a autoestima dos alunos.

“Eles vão para a escola esperando que aquilo seja o caminho para uma vida melhor, mas a violência invade os muros. E acabam sentindo que ali, também, são abandonados como cidadãos, e não têm acesso aos direitos mais básicos”, afirma.

Roberta diz que muitas vezes já deu meia volta para retornar para casa a caminho da escola, avisada que havia tiroteio.

E já passou por momentos tensos em sala de aula, como ter que buscar refúgio com os alunos no corredor – com medo de que tiros entrassem na sala. Ou ter que manter a os alunos tranquilos enquanto da janela se viam homens armados, e pais preocupados mandavam mensagens pelo WhatsApp perguntando pela segurança das crianças.

“Imagina no meio de uma situação como esta dar uma aula de literatura sobre arcadismo. Não é nada fácil. Mas em situações assim temos que ficar calmos e manter as crianças sob controle.”

Roberta é uma das professoras treinadas num programa para reduzir o impacto da violência na educação feito em parceria entre o governo do Estado do Rio e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

Diálogo sem tabus
Desde 2009, o programa vem treinando professores da rede estadual para lidar com os efeitos práticos e psicológicos da violência nas crianças.

Isso inclui desde exercícios sobre como se proteger durante tiroteios a uma série de debates levados para a sala de aula para tematizar problemas com os quais as crianças de comunidades podem conviver, como a presença do tráfico, violência doméstica e assédio sexual.

“As crianças não falam abertamente sobre violência com medo de serem punidas”, disse Patrícia Tinoco, subsecretária de Gestão de Ensino da Secretaria Estadual de Educação.

“Estabelecemos espaços para o diálogo, e isso ajuda as crianças a lidar com o medo e entender melhor a realidade ao seu redor.”

Patrícia diz que desempenho dos alunos em áreas conflagradas é abaixo da média, mas o programa trouxe avanços importantes nas escolas onde já foi estabelecido. O plano agora é de levar o modelo para todas as escolas estaduais até 2018.

Enquanto isso, Samira e Samir sonham não apenas em ter as profissões que já acalentam para o futuro, como também em deixar a Maré – e morar em um lugar mais seguro.

O primeiro lugar que mencionam é Copacabana; ou quem sabe Nova York, ou Inglaterra. A primeira justificativa é por serem lugares bonitos que já viram na TV; mas depois deixam claro que é a paz que procuram.

“Ah, eu queria morar em outro lugar, porque aqui é muito ruim, não dá”, diz Samir. “Se tirasse todo mundo que faz bagunca, tipo, os bandidos… Tinha que tirar. Se puder tirar, a favela ia ficar boa. Mas só que como tem eles, fica tudo mau.”

A mãe, Sirlene, espera que as defasagens na educação dos filhos não prejudique suas chances no futuro.

“Eu não posso dar aos meus filhos a educação que eles merecem”, lamenta ela. “É realmente uma grande desvantagem que eles têm de saída. Mas tenho esperança de que a situação melhore. Se eu não tiver esperança, não tem mais sentido.”

Go to Top