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Editora relembra 40 anos de sua amizade com Ferreira Gullar

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Ferreira Gullar e Maria Amélia Mello num café da manhã, em São Luís (MA), em 1999

Ferreira Gullar e Maria Amélia Mello num café da manhã, em São Luís (MA), em 1999

 

Maria Amélia Melo, na Folha de S.Paulo

RESUMO Responsável por editar livros de Ferreira Gullar, autora relembra diversos episódios relacionados à vida e à obra do poeta, morto há exatos seis meses. Relatos remontam ao primeiro encontro, em 1977, passam pela colagem que o escritor fez em parceria com um gatinho e chegam aos momentos derradeiros, em 2016.

Ferreira Gullar acabava de chegar ao país, no final dos anos 1970. Voltava de um conturbado exílio e enfrentava os sobressaltos de sua opção política. Foram quase sete anos longe do Brasil: Moscou, Santiago, Lima. Por fim, na Argentina, já estava determinado a retornar, não suportava mais ficar distante de sua terra, da família.

Era melhor assim, deixar claro que lá fora não ficaria mais, agoniado, atravessando as avenidas portenhas sob o signo da solidão.

Essa dor fermentou sementes para sua grande obra, “Poema Sujo”, publicada em 1976 pela Civilização Brasileira, de Ênio Silveira. A poesia foi aliada decisiva no desenrolar dos acontecimentos, já que o recém-lançado livro causara impacto, e a repercussão acabou por antecipar o fim do exílio.

A noite de autógrafos, numa livraria carioca, reuniu muita gente, um verdadeiro ato de contestação, mas sem a presença do autor, ainda escondido numa interminável noite veloz, em Buenos Aires.

Era uma maneira de denunciar o que sofria o poeta e de abrir caminho para sua volta, sem represálias. Ou seja, a criação chegaria antes do criador, numa fita gravada, que Vinicius de Moraes trouxe após uma temporada de shows.

Jornalistas, escritores e amigos tomaram a iniciativa de obter do governo militar a garantia de que Gullar poderia desembarcar no Rio em segurança. Não foi bem assim. Foi preso, levado ao DOI-Codi e interrogado, sem parar, por 72 horas. Sofreu ameaças e, então, foi solto.

Numa coincidência de datas, poucos meses depois, recebi uma ligação de Ênio Silveira e aceitei o desafio de estruturar o departamento de imprensa da editora. Foi quando conheci Gullar. Ali, numa casa antiga de Botafogo, iniciamos uma amizade.

Mais tarde, convivi também com José de Ribamar Ferreira, nome que consta apenas nos documentos e registros oficiais, filho de seu Newton e dona Alzira, que chegara antes ao mundo, num 10 de setembro de 1930, em São Luís.

O menino José de Ribamar cedo entendeu seu destino: ser artista. Em 1951 tomou um avião para descobrir, na cidade grande, as novidades que não eram divulgadas no Maranhão. Estava com 20 anos e carregava na mala de madeira tosca algumas peças de roupa e um punhado de folhas avulsas, com material para um segundo livro.

A estreia, em 1949, não despertara muito interesse. Tratava-se de “Um Pouco Acima do Chão”, de minguada tiragem, paga com as economias de sua mãe. Já se assinava Ferreira Gullar, pseudônimo inspirado na família materna (Goulart) e que foi a saída encontrada para não ser mais confundido com um escritor de São Luís, de versos ultrapassados.

Para a literatura, nascia o outro, que se tornaria um dos mais importantes intelectuais brasileiros, com fôlego para participar de praticamente todos os movimentos expressivos dos anos 1950 para cá. Experiências em grupo, como o concretismo, o neoconcretismo, os CPCs (Centro Popular de Cultura).

Em 1954, publicaria “A Luta Corporal”, saudado por João Cabral de Melo Neto, e que se transformaria no livro de toda uma geração.

José de Ribamar e Ferreira Gullar se entenderam bem ao longo de 86 anos; apesar de eventuais desencontros, tinham a convicção de dividir espaços na vida e na criação.

Jornalista, locutor, crítico de arte, contista, biógrafo, tradutor, ensaísta, cronista, dramaturgo, autor de livros infantis, artista plástico. A obra de Gullar foi traduzida para várias línguas: inglês, espanhol, holandês, francês, alemão, italiano, sueco. Ele recebeu muitos prêmios e se destacou entre os melhores.

Para mim, foi o mais plural e “singullar” amigo. Não se parecia com ninguém aquele homem magro, estatura mediana, pesando em torno de 50 quilos, cabelos lisos, dedos longos e finos, passo apressado, decidido até o fim.

A FAMA

Gullar andava por Copacabana, onde morou por muito tempo, num hoje conhecido prédio de número 49, ia ao supermercado, pagava contas, carregava as sacolas. Passeava à beira-mar. Acordava por volta das 6h, organizava a refeição matinal, cumpria as obrigações cotidianas, mas estava sempre refletindo, atento ao que o cercava.

Era um entre tantos, mas era ele, com a sua “singullaridade”. Mesmo sem saber, ou querer, deixava uma presença por onde circulava.

Não passava incógnito, e essa demonstração explícita não o incomodava. Sorria, balançava a cabeça, distraía-se. Em um de seus poemas, expressa: “apenas um homem comum”. Lá vai o poeta.

Um dia, percorrendo as calçadas incertas do bairro, deu de cara com um morador de rua, que chutava um carro abandonado. Ao vê-lo, o rapaz estancou os movimentos repetidos, afrouxou a raiva e encarou o homem indefeso. O poeta parou e, acuado, já se imaginou apanhando. Para sua surpresa, o prenúncio da violência se dissolveu no gesto do agressor, que, de braços levantados, gritava: “Ferreira Gullar, Ferreira Gullar, tão famoso e não sei quem é”.

Quando lhe perguntavam se era o poeta Ferreira Gullar, costumava responder, com ironia, mas deixando escapar uma verdade camuflada: “Às vezes”. É isso mesmo, ninguém consegue ser poeta 24 horas por dia, em permanente ebulição e delírio. Quem aguentaria?

Não se pode dizer que a vida dos dois -José de Ribamar e Ferreira Gullar- tenha sido fácil, mas pode-se afirmar, pelo que presenciei em diversos momentos, que a vocação de ambos era a felicidade. Não por outro motivo sua frase -“Não quero ter razão, quero ser feliz”- virou moda, estampada em camisetas.

Testemunhei a reação de seus admiradores, muitos ainda adolescentes, futuros leitores de uma poesia que se escrevia ao correr dos fatos, aos cheiros e sons que acendiam nele, aí sim, um espanto.

Sabe-se, ainda, que gostava de gatos, um em especial, o já famoso e primeiro Gatinho, que até mereceu um livro só para ele. Como costumava visitar Gullar com frequência, percebi que o felino, arisco, reivindicava sua posição no apartamento. E era tanto privilégio que se tornou parceiro do escritor.

Explico: tudo que lhe caía nas mãos -pastas coloridas, papéis diferentes, cartolinas- Gullar transformava em colagens. Certa vez, quando o poeta se achava absorvido na elaboração artesanal, o telefone interrompeu a quietude da sala. Ao retomar o que fazia, ele se daria conta de que o que havia deixado por colar já era outra coisa.

O poeta logo entendeu a parceria do Gatinho. Deu a ele, com bom humor, a coautoria da colagem.

QUESTIONADOR

Essas histórias -e outras tantas- amenizam a fama de mal-humorado que tinha. Era avesso à mesmice ou preguiça mental. Gostava de trocar ideias, era um provocador, não temia polêmicas políticas ou estéticas.

Estava sempre disposto a rever o que o tempo cristalizava, a rever a si mesmo -quando, por exemplo, aceitou entrar para a Academia Brasileira de Letras, após tantas recusas. Nunca se trancou em casa, em si mesmo, indiferente ao que ocorria no país ou no planeta.

Fui sua editora por muitos anos, e nosso diálogo profissional era intenso. Uma sugestão, uma ideia, um projeto era bem recebido. Sim ou não, faço ou não faço, a resposta tinha rumo certo. Algumas vezes, na ansiedade de ter pronto o livro inédito, eu não resistia e perguntava, assim entre um feixe de palavras descompromissadas. A resposta chegava direta: “O livro só fica pronto quando está pronto”. Era a senha para não mais indagar.

Num setembro distante, em 1999, partimos em caravana de amigos e jornalistas para o Maranhão, a única viagem de avião que fizemos juntos. Não é segredo que Gullar não gostava de voar. Tinha medo, sejamos francos.

Em São Luís, fomos guiados por ele a percorrer as ruas, espreitar seu passado mais remoto, num passeio único pelas memórias do José de Ribamar, que lá viveu por 20 anos, e mais, pelo senso lírico de Ferreira Gullar, que deu poesia aos becos e passagens da cidade.

Pensei comigo mesma: era como se ele escrevesse, em voz alta, as muitas vozes do “Poema Sujo”, matriz e raiz de sua existência, sua infância, seus pais e irmãos.

No seu aniversário, ele gostava do carinho, da atenção dos amigos. Em 2016, não foi assim. Passamos na casa dele, sentados, informalmente, em volta da mesma mesa onde ele punha em prática suas ideias. E ali comemos pizza, tomamos vinho (Gullar comia e bebia muito pouco), em família.

Relembro aqui meu amigo de tantos anos. Procuro afastar a emoção esgarçada, armadilha emotiva, alheia à cumplicidade que a amizade abastece. Ele ensinou muito da vida e da arte.

Nossa última reunião de trabalho aconteceu na editora Autêntica, no Rio, no início de outubro do ano passado. Ele foi me visitar para tomarmos um café e dali seguirmos para o lançamento da edição comemorativa dos 40 anos do “Poema Sujo”, agora pela Companhia das Letras.

FIRME E LÚCIDO

No final da tarde, fomos a pé até a livraria Da Vinci, na avenida Rio Branco. Ele ia rápido, como era seu jeito. Comento isso para dizer que estava firme, nada ofegante (uma complicação pulmonar levou meu amigo), e não havia nele indício de doença.

Depois do evento, ele me deu carona. Durante o trajeto, conversamos sobre uma possível biografia, e ele, apesar de animado, confessou que estava cansado. “É muita coisa, você sabe.”

Editei seu último livro inédito -“Autobiografia Poética e Outros Textos”- quando assumi a editoria literária da Autêntica. Lançamos na Travessa do Leblon, em setembro de 2015, com um debate mediado pelo jornalista Geneton Moraes Neto, nosso amigo comum.

O volume suscitou muitas matérias e resenhas, mas a melhor opinião que recebi foi de sua filha, Luciana: “Isto não é um livro, é uma declaração de amor ao meu pai”. O comentário nunca me saiu da cabeça. No fundo, editar é um ato de amor, de dedicação e cumplicidade.

Fui vê-lo na Casa de Saúde. Ele estava falante, sem transparecer desânimo. Parecia o Gullar de sempre. Conhecendo seu temperamento, percebi que aqueles dias deveriam ser intermináveis para ele.

Negou-se a prolongar o sofrimento, mas não o sonho, quando pediu que a filha o levasse para o mar de Ipanema. Ainda no leito, ditou para a neta Celeste a crônica “Arte do Futuro”, confirmando a paixão de toda uma vida, que seria publicada no domingo seguinte à sua morte.

Esteve lúcido até o coração deixar de pulsar. Inteiro Gullar.

MARIA AMÉLIA MELLO, 64, é editora de livros.

Livro ‘A Hora da Estrela’ completa 40 anos e ganha edição comemorativa

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Paulo Henrique Silva, no Hoje em Dia

Clarice Lispector tinha uma caligrafia bonita, mas, doente, sofrendo com um câncer no ovário, as letras se tornaram rabiscos nervosos, quase incompreensíveis, buscando qualquer papel à frente (até o verso de um talão de cheques) para se transformar, mais tarde, na obra-prima da escritora. Poucos dias após pôr um ponto final em “A Hora da Estrela”, a ucraniana naturalizada brasileira faleceu, sem tempo de ver o sucesso do livro, ainda hoje no rol dos mais vendidos.

Quarenta anos depois, a publicação retorna às prateleiras numa edição comemorativa, em que se destacam 16 páginas com a reprodução dos manuscritos de Clarice. “Hoje ela é a nossa campeã de vendas, independentemente de gênero. E o sucesso dela só fez aumentar com o passar dos anos, algo que, em vida, não experimentou. Ela não tem apenas leitores. São fãs, seguidores, para usar uma linguagem mais contemporânea”, registra Pedro Vasquez, editor da Rocco.

Cult
Para Pedro, Clarice alcançou o status de cult, como Frida Khalo e Simone de Beauvoir. “Clarice é uma figura emblemática, uma referência para a mulher contemporânea, sobretudo as jovens. O rosto dela está em bolsas, camisetas… Não se trata de campanha. Tudo acontece espontaneamente”, registra o editor, que enumera vários ingredientes para explicar o sucesso de “A Hora da Estrela” – do filme lançado em 1985, exibido em cerca de 80 países, ao fato de o livro ser uma “carta de despedida”.

“Tem esse tom (de adeus) sim. O narrador do livro é um escritor em crise criativa que se coloca como um autor em fim de linha”, assinala. A história de uma migrante nordestina em São Paulo também tem papel preponderante. “Ela é um pouco fora do padrão de Clarice, marcado por questões existenciais e universais. Macabéa é um mito brasileiro, tipicamente nordestino, mas ao mesmo tempo o lado cosmopolita de Clarice também passa nesse livro”, salienta.

A via-crúcis de Macabéa é, de acordo com Pedro, muito representativa da vida nacional, tanto em 1977 quanto em 2017. “O grande problema dela é a solidão. Ela se sente inadequada, sem lugar no mundo. Mas há uma esperança, quando consegue se encantar com certas coisas, como uma flor de plástico, que não precisa ser regada e não estraga. Macabéa tem essa simplicidade, que faz você logo se identificar com ela”, analisa.

Ensaios
A edição comemorativa conta com apresentação da escritora Paloma Vidal, sobre o processo de descoberta dos esboços, guardados no Instituto Moreira Salles, e seis ensaios assinados por Nádia Battela Gotlib, biógrafa da autora; pelo acadêmico Eduardo Portella, falecido no último dia 2; pela professora Clarisse Fukelman; pelo escritor irlandês Colm Tóbin; pela crítica francesa Helène Crixous; e pela pesquisadora argentina Florencia Garramuño.

Florencia apresenta um dos textos mais curiosos, a partir da foto de Clarice na “passeata dos cem mil”, ocorrida em 1968, em virtude do assassinato do estudante Edson Luís, protestando ao lado de Milton Nascimento, Ziraldo, Gilberto Gil, Chico Buarque. “Ela alerta para o fato que Clarice não se omitia em relação aos grandes acontecimentos de seu tempo. Esse lado não presente nos romances, mas nas crônicas e na vida dela”.

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Manuscritos do livro são um presente para os fãs da autora

A escritora e professora universitária Paloma Vidal tem uma história parecida com a de Clarice Lispector. Nasceu no estrangeiro (Clarice na Ucrânia e Paloma na Argentina), mas veio pequena para o Brasil (aos dois anos, como a autora de “A Hora da Estrela”), onde desenvolveu essa dupla nacionalidade. Os caminhos se cruzaram quando traduziu para o espanhol “Legião Estrangeira” e “Um Sopro de Vida”.

Indagada sobre a questão da identidade, Paloma “pensa alto”, como ela mesma diz, nessa entrevista de Buenos Aires, feita pelo WhatsApp, observando que Clarice tem um trabalho marcado pela convivência com a estrangeiridade. Macabéa seria fruto disso. “Ela sai do Nordeste e vai para o Rio, que não é o Rio turístico, visto de viés. E Macabéa não só se relaciona com o imaginário nordestino, da pobreza, mas com a figura deslocada também”, afirma.

Monumentalização
Para alguém que também tem na escrita a sua forma de expressão, Paloma confessa que ficou intrigada com o processo de Clarice, após mergulhar nos manuscritos da escritora para fazer a crônica que abre a edição comemorativa. “É difícil aproximar-se desses escritos e não cair no lugar comum, diante de uma certa monumentalização. Às vezes, eles também não dizem nada, sobre a chave ou segredo, mas faz você pensar no processo”.
Paloma destaca que, mentalmente, passou a amarrar todos os bilhetes e folhas soltas e pensar na maneira como foi dado um corpo e um espaço para todo aquele material.

“O que mais me interessou, e que interessa aos autores em geral, é tentar entender o percurso. Como tantas coisas surgiram no caminho e depois ficaram de fora”, destaca a autora, que, ao receber a tarefa, sentiu o “peso” da responsabilidade.

“Esses manuscritos ainda não foram muito estudados. É um material incrível, que pode ser mais aprofundado a partir do ponto de vista da crítica genética (acompanhamento teórico-crítico do processo de criação). Mas depois entendi que esse foi um primeiro passo, que outros textos vão vir. É bom que isso tudo esteja disponível”.

Mais lançamentos
A intenção da editora Rocco é relançar todos os livros de Clarice com edições repaginadas. No próximo ano, será lançado “Todas as Crônicas”, que terá o mesmo formato de “Todos os Cantos”, publicado em 2016, com os textos ordenados por data de veiculação.

Bibliotecas em casas de voluntários reúnem 40 mil livros para empréstimo no DF

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Menino lê livro de uma das estantes domiciliares espalhadas pelo Distrito Federal (Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília)

Menino lê livro de uma das estantes domiciliares espalhadas pelo Distrito Federal (Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília)

 

Obras cedidas pelo governo são emprestadas de graça para vizinhos. Segundo Secretaria de Cultura, foram feitos 1,5 milhão de empréstimos em 2016.

Publicado no G1

Bibliotecas que funcionam dentro das casas de moradores do Distrito Federal fizeram 1,5 milhão de empréstimos de livros no ano passado. As estantes domiciliares foram espalhadas por várias regiões por meio do projeto Mala do Livro, criado em 1991 pela Secretaria de Cultura. Ao todo, são 42.230 livros distribuídos em 280 minibibliotecas.

A média de livros para cada uma das minibibliotecas é de 150 exemplares – entre literatura brasileira e estrangeira, infantil e infantojuvenil e até livros de pesquisa. De acordo com a secretaria, o acervo é trocado a cada três meses, de forma rotativa.

As minibibliotecas também estão espalhadas em unidades hospitalares, presídios, Centros de Orientação Socioeducativos (Coses), Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), centros olímpicos e estações de metrô. Os empréstimos têm prazo de sete dias e podem ser renovados caso outra pessoa não tenha feito reserva.

Marluce da Silva Franco, de 58 anos, hospeda a biblioteca domiciliar do projeto "Mala do Livro", da Secretaria de Cultura do DF (Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília)

Marluce da Silva Franco, de 58 anos, hospeda a biblioteca domiciliar do projeto “Mala do Livro”, da Secretaria de Cultura do DF (Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília)

Cadastramento

Três bibliotecárias fazem a seleção e a preparação das obras que entram na Mala do livro. Todas são cadastradas e identificadas antes de ocupar as estantes na casa dos moradores parceiros. Para participar do projeto é preciso ser morador do DF e fazer a inscrição na Secretaria de Cultura, no anexo do Teatro Nacional.

Travestis buscam melhorar de vida com programa de formação em SP

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Kelly Moline, 32, participante do Programa Transcidadania, da Prefeitura de Sao Paulo (Foto: Apu Gomes/Folhapress)

Kelly Moline, 32, participante do Programa Transcidadania, da Prefeitura de Sao Paulo (Foto: Apu Gomes/Folhapress)

Thais Bilenky, na Folha de S.Paulo

“Quero ser advogada, a lôca!”, diz, sorridente, Paula Costa, 36, travesti que voltou à escola no equivalente à quinta série no início do ano. Quando completar o ensino superior, seu objetivo é defender a causa de sua “classe”.

Ela é uma das cem travestis e transexuais incluídas no programa Transcidadania, da Prefeitura de São Paulo, que concede bolsas mensais de R$ 820,40 para qualificar as participantes e inseri-las no mercado formal de trabalho.

O Transcidadania pretende acolher pessoas vulneráveis. A maioria das beneficiárias é ou foi prostituta. Relatam ter sofrido discriminação na escola, o que as levou a abandonar os estudos. Reclamam das dificuldades para conseguir outra ocupação.

Na sala de aula, elas esbanjam sorrisos, expressões despudoradas e boa vontade.

Mas há casos mais complicados. Há portadoras de HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis e viciadas em drogas e álcool. Durante a aula, uma aluna se insinuou para o professor e foi levada ao hospital. Percebeu-se que estava com problema de saúde.

“Em quase um mês, a gente esperava muitos mais casos como esse”, afirma a coordenadora, Symmy Larrat. “É uma puta vitória, para brincar com as palavras.”

Um dos critérios para inclusão é que a beneficiária não tenha tido trabalho formal por mais de três meses nos últimos três anos. O objetivo é que, até 2016, as alunas concluam o ensino médio, façam cursos profissionalizantes e de cidadania e estágio.

SALA DE AULA

Na sala do centro municipal de educação de jovens e adultos no Cambuci, na segunda-feira (23), Paula Costa explica a origem de sua aspiração profissional. “Os italianos sempre falavam que, de tanto eu interrogar, deveria me tornar advogada.”

Os “italianos” eram os clientes no período em que viveu clandestinamente em Milão, até ser deportada. Hoje, Paula diz viver em um hotel cujo pernoite paga com os programas da véspera. São até três por noite, que rendem de R$ 30 a R$ 50 cada um. Para estudar, sacrifica o sono.

O esforço é um investimento no futuro –a clientela está diminuindo, e as beneficiárias temem chegar aos 50 anos “rodando a bolsinha”, como definem a atividade.

Amiga de Paula dos tempos de Itália, Joyce Mendes, 41, assiste à aula de português na sala em frente. Ao se deparar com um texto sobre “a abelha-mestra e suas 200 abelhinhas”, inquieta-se. “Professora, não tem nenhum machinho?”, pergunta. “As abelhas são feministas…”

Com vestido tomara que caia de decote generoso, sandálias de salto alto, unhas vermelhas com purpurina prateada e um leque cor-de-rosa, ela chama a atenção de um aluno na carteira ao lado.

Agora confortável na sala, a travesti afirma ter sofrido na escola. “Na minha época, não era bullying. Era zoação mesmo”, lembra.

A trajetória da coordenadora do Transcidadania, Symmy Larrat, 36, é uma inspiração para as beneficiárias.

Natural de Belém, formada em publicidade, precisou sair de casa ao se tornar travesti, aos 30. Antes, atuara até como repórter policial no interior do Pará. Mas, depois da mudança, não conseguiu emprego e precisou se prostituir. Começou a militar, filiou-se ao PT e ocupou cargos até chegar ao Transcidadania.

“Só a gente sabe como é sofrido ouvir os piores desaforos e ter de se submeter a fetiches que prefiro não comentar”, diz, sem abandonar o sorriso.

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