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‘Os pais devem ler para as crianças desde a gestação’, diz psicóloga

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Publicado no Boa Informação

Ler histórias para crianças é uma prática consagrada. Mas, em geral, as pessoas não fazem isso com bebês. Especialista em primeira infância, psicóloga e consultora da Rede Primeiros Passos, Denise Mazzuchelli fala que os pais devem começar a ler para os filhos além disso enquanto eles estiverem no útero, se possível.

Desde quando além disso estão útero. É interessante estimular os pais a conversarem e lerem para crianças desde a gestação. Há estudos que relacionam o primeiro contato da criança com os fonemas além disso no útero materno.

Qual a importância dessa prática?

A leitura em voz alta para bebês amplia o vocabulário receptivo da criança, isto é, mesmo que ela além disso não fale, vai entender. Antes de falar “mamãe”, a criança sabe o que é “mamãe”. O vocabulário é a base do pensamento: quanto maior ele for, mais complexos serão os pensamentos que a criança será capaz de elaborar. Essa prática é um preditor de desenvolvimento em leitura aos 10 anos. O vocabulário da primeiríssima infância faz diferença para toda a vida. Além disso, a criança passa a associar a leitura com uma experiência prazerosa. A leitura em voz alta gera uma bagagem para a criança no sentido de vivenciar experiências que não estão em seu ambiente imediato.

A criança nunca vai ver um hipopótamo no Centro do Rio, mas, por meio do livro, provavelmente terá contato com esse animal. Assim como ela não vai ver neve no Brasil, mas pode ver em uma história e pensar sobre isso. A leitura para bebês igualmente semeia o desejo de aprender a ler. Uma criança que constrói momentos de prazer e conexão com os pais na primeira infância vai ficar sedenta para desvendar aqueles códigos por si mesma.

Há técnicas específicas para ler para bebês?

Uma criança até os 4 meses de idade tem uma mobilidade além disso limitada, mas já consegue ouvir e enxergar, além disso que não de forma tão apurada. É possível deixá-la deitada e ler uma história, há livros com apenas uma imagem em cada folha, em preto e branco para que ela comece a distinguir figuras. Aos 6 meses, é interessante que o cuidador dê a ela a oportunidade de virar a página, há livros com páginas grossas para crianças que além disso não conseguem fazer movimento de pinça. Um bebê de 8 ou 9 meses vai impor mais dificuldades na hora da leitura, vai querer pegar o livro, jogá-lo, então é difícil fazer uma leitura do início ao fim, mas a dica é persistir. A partir dos 12 meses, eles já interagem muito mais. Se for um livro que traz ruídos de animais, vão conseguir imitar. Nesse momento é possível fazer uma leitura dialógica, que vai ter um impacto relevante.

O que os pais não devem fazer?

É relevante que eles não queiram traduzir o livro para a criança. Ler o que está escrito faz muita diferença, porque os livros têm um vocabulário e uma construção diferente do que se ouve no dia a dia. É relevante igualmente ter um diálogo com a criança.

Qual a diferença entre bebês que foram estimulados com a leitura por seus pais e os que não foram?

Há diferenças no Q.I, na memória, na capacidade de atenção. Além disso, há grandes diferenças no padrão de comunicação daquela família. Aquelas que fazem leitura tendem a ter uma interação mais suave, fazer menos uso de punição física com os filhos.

No Brasil, existe essa prática de leitura para bebês?

Já avançamos, mas além disso estamos engatinhando. Os livros têm que entrar na pauta de prioridade da primeira infância. Na pré-escola já é muito tarde para fazer uma intervenção. O que acontece antes é determinante no desempenho da criança. É preciso haver excelentes bibliotecas públicas para que as famílias de baixa renda tenham acesso, além disso que muitos desses pais não saibam ler. O contato precoce com a leitura gera um sujeito de ação e não de reação. É alguém que tem iniciativa, que consegue pensar desde muito cedo, que sabe prever o que vai acontecer. Se a criança ler dois livros por semana durante os seis primeiros anos, antes de entrar na escola já vai ter tido contato com 600 livros, o que é muito mais que a maioria dos adultos lê a vida toda.

‘Fui professor por 17 anos sem saber ler’

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Queria que pessoas como eu soubessem que há esperança, há solução. Não somos burros, podemos aprender a ler, e nunca é tarde demais (Foto: BBC)

O americano John Corcoran conseguiu se formar na universidade e entrar na docência guardando um segredo que o atormentava. Até que, aos 48 anos, ele decidiu enfrentá-lo.

Publicado no G1 [via BBC Brasil]

ohn Corcoran teve uma infância comum no Estado americano do Novo México, nas décadas de 1940 e 50. Frequentou a escola e a universidade e se tornou professor quando se formou – mas fez tudo isso guardando um segredo improvável: ele não conseguia ler uma frase sequer. Em depoimento à BBC, ele relata o sofrimento de ter tido que recorrer a estratégias frequentes para esconder seu analfabetismo, até decidir revelar a verdade ao mundo, aos 48 anos:

“Quando eu era criança, escutava dos meus pais que eu era um vencedor. E, nos meus primeiros seis anos, eu acreditei nisso.

Demorei a aprender a falar, mas frequentava a escola cheio de expectativas de aprender a ler como minhas irmãs – e tudo correu bem nos primeiros anos, porque o que mais se exigia das crianças era fazer fila, sentar, ficar caladas e ir ao banheiro no horário determinado.

Até que, na segunda série, a gente precisava aprende a ler. Mas para mim (o livro didático) era como um jornal em mandarim – não entendia o que estava naquelas linhas. E, aos seis, sete e oito anos de idade, eu não sabia como explicar esse problema.

Lembro-me de rezar à noite pedindo: ‘por favor, Deus, faça com que eu saiba ler amanhã ao acordar’. Às vezes eu abria um livro para ver se havia ocorrido um milagre. Mas isso não acontecia.

Na escola, eu fui colocado na fileira dos ‘burros’, com um monte de outras crianças com dificuldades para aprender a ler. Não sabia como tinha ido parar ali, como sair dali e nem que perguntas eu precisava fazer.

O professor não chamava a nossa fileira de ‘crianças burras’ – não havia esse tipo de crueldade -, mas os colegas falavam assim. E quando você senta na fileira dos burros, você começa a achar que é burro mesmo.

Nas reuniões escolares, meu professor só disse aos meus pais, ‘ele é inteligente, ele vai entender’. E me passaram para a terceira série.

‘Ele é inteligente, ele vai entender’. E me passaram para a quarta série.

‘Ele é inteligente, ele vai entender’. E me passaram para a quinta série.

Mas a verdade é que eu não estava entendendo.

Na quinta série, eu praticamente havia desistido de aprender a ler. Eu me levantava de manhã, me vestia e ia para a escola como se estivesse indo para a guerra. Eu odiava a sala de aula. Era um ambiente hostil e eu precisava encontrar formas de sobreviver.

Na quinta série, eu praticamente havia desistido de aprender a ler, conta John (Foto: Arquivo pessoal)

Quando cheguei à sétima série, passava a maior parte dos dias na sala do diretor. Eu era briguento, desafiador, palhaço, perturbador; até ser expulso da escola.

Mas esse comportamento não refletia como eu me sentia por dentro – não era quem eu queria ser. Eu queria ser alguém diferente, queria ser bem-sucedido, um bom aluno. Mas simplesmente não conseguia.

Na oitava série, cansei de envergonhar a mim mesmo e à minha família. Decidi que ia me comportar. E, no ensino médio, se você se comporta, você consegue avançar dentro do sistema. Então decidi ser um queridinho do professor e fazer todo o possível para passar o sistema.

Queria ser atleta – eu tinha habilidades atléticas e matemáticas, tanto que conseguia contar dinheiro e fazer tabuada antes mesmo de ir pra escola.

Eu também tinha habilidades sociais. Andava com os garotos universitários e namorava a menina com as notas mais altas da escola. Fui ‘rei da festa de formatura’ e conseguia que meus colegas – geralmente meninas – fizessem a lição de casa para mim.

Conseguia escrever meu nome e lembrava algumas palavras, mas era incapaz de escrever uma frase. No ensino médio, eu lia como se estivesse na segunda série. E nunca disse isso para ninguém.

Durante as provas, eu colava ou passava a folha para alguém responder as perguntas para mim.

Mas, quando passei para a universidade com uma bolsa de atleta, a história mudou.

Pensei: ‘Meu Deus, isso é demais para mim, como vou fazer?’

Entrei para uma fraternidade que tinha cópias de provas antigas. Era uma das formas que eu usava para colar. Tentei acompanhar as aulas ao lado de um colega, para me ajudar. E tentei também estratégias mais criativas e desesperadas para passar de ano.

Em uma prova, o professor escreveu quatro perguntas na lousa para copiarmos. Eu estava sentado no fundo da sala, perto da janela. Com muito sacrifício, eu escrevi as quatro perguntas. Mas não sabia o que elas queriam dizer.

Havia combinado com um amigo de ficar do lado de fora da janela. Ele era provavelmente o aluno mais esperto que eu conhecia, e havia acertado de apresentar ele para a menina de quem ele gostava. Então, ele respondeu as perguntas para mim.

Em outra ocasião, eu invadi a sala do professor três noites seguidas, à meia-noite, como um ladrão, para procurar pela prova. Eu sabia que havia cruzado uma linha – não era mais apenas um estudante que colava, eu era um criminoso.

E mesmo assim não consegui encontrar a prova. Deduzi que ela estaria dentro de um gaveteiro trancado à chave, então chamei três amigos para irem comigo à sala do professor à 1h da manhã. Carregamos o gaveteiro, colocamos dentro de um carro e o levamos embora. Consegui que um chaveiro abrisse para mim e peguei uma cópia da prova, e um amigo inteligente me deu as respostas.

Devolvemos o gaveteiro e, às 5h da manhã daquele dia, eu acordei pensando: ‘Missão impossível cumprida!’. Me sentia muito bem por ser tão esperto.

Mas simplesmente deitei na minha cama e comecei a chorar como um bebê.

Por que eu não pedi ajuda? Porque não acreditava que ninguém poderia me ensinar a ler. Era um segredo que eu guardava.

Meus pais e professores diziam que pessoas com diploma universitário conseguem empregos melhores e vidas melhores, então acreditei nisso. Minha motivação era apenas conseguir o diploma. Talvez algum dia, por osmose, por orações ou por milagre eu aprendesse a ler.

Assim eu me formei, e havia uma escassez de professores. Recebi uma oferta de emprego. É a coisa mais ilógica de se pensar: eu havia escapado da jaula do leão e voltava para atiçar o leão outra vez.

Por que virei professor? Olhando para trás, parece uma loucura. Mas eu havia cursado a escola e a universidade sem ser desmascarado, então ser professor parecia um bom esconderijo. Ninguém suspeita que um professor não sabia ler.

Ensinei coisas diversas. Fui técnico de atletismo. Ensinei estudos sociais. Ensinei digitação – conseguia digitar 65 palavras por minuto, sem saber o que estava digitando. Nunca escrevi nada na lousa, e não havia palavras escritas nas minhas salas de aula. Havia muitos filmes e discussões.

Mas eu lembro do medo que sentia. Eu sequer conseguia fazer a chamada. Tinha que pedir aos estudantes para pronunciar seus nomes, para que eu pudesse sabê-los. E identificava dois ou três estudantes para me ajudar nas aulas. Eles não suspeitavam de nada – ninguém suspeita do professor.

Um dos meus maiores pavores eram as reuniões semanais de professores. Às vezes o diretor pedia que alguém escrevesse as ideias na lousa. Eu tinha um plano: se ele me pedisse, eu ia fingir um desmaio e torcer para que eles chamassem o socorro. Eu fazia de tudo para não ser flagrado, e não fui.

Às vezes eu me sentia um bom professor, porque eu trabalhava duro e realmente me importava com o que fazia. Mas eu não era um bom professor. Eu estava errado. Meu lugar não era na sala de aula, eu estava invadindo um terreno que não era meu. Algumas vezes isso me deixava fisicamente doente, mas eu estava dentro de uma armadilha e não podia contar para ninguém.

Me casei durante meu período como professor. O casamento é um sacramento, um compromisso de ser verdadeiro com alguém. Foi a primeira vez que pensei: ‘Vou confiar nessa pessoa, vou contar para ela’.

Eu treinei na frente do espelho: ‘Cathy, eu não sei ler. Cathy, eu não sei ler’.

Uma noite, enquanto estávamos sentados no sofá, eu finalmente disse: ‘Cathy, eu não sei ler’.

Mas ela não entendeu direito. Ela achou que eu estava dizendo que não lia muito. O amor é cego e surdo.

E assim casamos, tivemos um filho e só anos depois ela foi entender.

Eu estava lendo para a nossa filha de três anos. Líamos para ela com frequência, mas não era realmente uma leitura – eu inventava histórias a partir das que conhecia, como Cachinhos Dourados ou Os Três Ursos.

Só que havia um livro novo, Rumpelstiltskin, e a minha filha me disse: ‘Você não está lendo igual à mamãe’.

A minha mulher me ouviu tentando ler um livro infantil e a ficha caiu. Ela se deu conta de que eu sempre pedia para ela escrever coisas para mim, e finalmente ela entendeu quão grave era o meu problema.

Mas nada foi dito, não houve nenhum confronto, ela simplesmente continuou me ajudando.

Não aliviou em nada, porque por dentro eu me sentia burro, me sentia uma farsa. Eu era um enganador. Ensinava meus alunos a buscar a verdade, e era o maior mentiroso da sala. O alívio só veio quando eu finalmente aprendi a ler.

Fui professor entre 1961 e 1978. Oito anos depois de deixar meu emprego, algo finalmente mudou.

Tinha quase 48 anos quando vi Barbara Bush, então primeira-dama dos EUA, falando sobre analfabetismo adulto na TV. Era a causa que ela combatia. Eu nunca havia escutado ninguém falando de analfabetismo adulto antes, achava que era a única pessoa do mundo naquela situação.

Eu estava em um momento de desespero. Queria contar para alguém e queria pedir ajudar. Um dia, estava na fila do mercado e ouvi duas mulheres conversando sobre um homem que estava aprendendo a ler na biblioteca. Elas falavam com muita alegria, e eu não conseguia acreditar.

Fui até a biblioteca, perguntei pela diretora do programa de alfabetização, me sentei com ela e contei que não sabia ler.

Foi a segunda pessoa a quem contei isso na minha vida adulta.

Ganhei uma tutora voluntária de 65 anos. Ela não era uma professora, apenas alguém que amava ler e não queria que ninguém passasse pela vida sem saber fazer o mesmo.

Ela logo tentou fazer com que eu escrevesse, porque eu tinha todos esses pensamentos na cabeça e nunca havia escrito uma frase com eles. A primeira coisa que escrevi foi um poema com meus sentimentos. O bom da poesia é que você não precisa escrever em frases completas.

Ela conseguiu me ensinar a leitura até o nível da sexta série – era como se eu tivesse morrido e ido ao paraíso. Mas levei sete anos para me sentir alfabetizado. Eu chorava, chorava, chorava depois de começar a ler – foi um processo repleto de dor e frustração -, mas isso preencheu um buraco enorme na minha alma. Adultos que não sabem ler tiveram sua infância suspensa, emocionalmente, psicologicamente, academicamente, espiritualmente. Somos pessoas que não cresceram.

Minha tutora me encorajou a contar minha história para motivar outros e promover a alfabetização, mas eu disse: ‘De jeito nenhum. Morei nesta comunidade por 17 anos, meus filhos, meus pais e minha mulher moram aqui. Não é uma história que eu queira contar’.

Até que eu decidi contar. Era um segredo vergonhoso, então foi uma decisão difícil de tomar, mas, quando a tomei, decidi contar minha história para todo o país, para quem quisesse ouvir. Depois de guardar meu segredo por décadas, eu decidi expulsá-lo de mim.

Contei minha história (nos programas de TV) da Oprah, do Larry King.

Era incômodo para as pessoas escutarem a história de um professor que não sabia ler. Teve gente que disse que eu havia inventado a história toda.

Mas eu queria que pessoas como eu soubessem que há esperança, há solução. Não somos ‘burros’, podemos aprender a ler, e nunca é tarde demais.

Infelizmente, continuamos a empurrar crianças e adolescentes pelo sistema escolar sem ensiná-las habilidades básicas de leitura e escrita. Mas podemos romper esse ciclo de fracasso se, em vez de culpar os professores, nos assegurarmos de que eles sejam devidamente treinados.

Por 48 anos, eu vivi no escuro. Mas finalmente eu enterrei o fantasma do meu passado.”

Depoimento concedido a Sarah McDermott, da BBC.

‘Perdi a vergonha’: aos 42 anos, catadora de lixo aprende a ler com filho de 11 anos

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Aos 42, Sandra aprendeu a ler e a escrever com o filho Damião, de 11 (Foto: AGIL FOTOGRAFIA/BBC BRASIL)

 

Para Sandra, forçada a trabalhar desde criança para casal que a impedia de ir à escola, o mundo ‘era como uma folha em branco’; hoje, após dois casamentos e sete filhos, despertou para a leitura após as ‘aulas’ do filho Damião.

Publicado no G1 via BBC Brasil

Mãe, mãe, quer ler comigo? É uma historinha. E tem figuras”. “Desmaiada” em uma rede após horas garimpando lixo na rua, para vender, foi assim – aos sussurros de Damião Sandriano de Andrade Regio, 11, o mais novo dos sete filhos – que Sandra Maria de Andrade, 42, começou a decifrar as letras do alfabeto e a despertar para o mundo da leitura.

Até um ano atrás, não sabia ler nem escrever. Em uma casa encravada numa rua de areia em Jardim Progresso, periferia de Natal, no Rio Grande do Norte, ela era o retrato dos 758 milhões de adultos no mundo apontados em um estudo da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), na semana passada, como incapazes de ler ou escrever uma simples frase.

Sandra não sabia fazer nem o próprio nome. “Espiava” quem visse lendo um livro e pensava “ah, se eu soubesse também. Se tivesse uma coisa que eu pudesse roubar, queria que fosse um pouquinho daquela leitura”. Ela tentou estudar, mas não pôde.

Foi forçada a trabalhar desde cedo. Abandonada pela mãe aos três anos, diz que a avó, com quem passou a morar, lhe entregou a um casal que a impediu de ir à escola. Ela teve de trabalhar na lavoura, em casas de farinha (locais em que mandioca é ralada ou triturada) e fazendo faxina.

Em um dia, quando ajudava no cultivo de bananeiras, viu crianças passando na porta com cadernos debaixo do braço. “Queria ir para onde iam, mas diziam: vá trabalhar. E eu chorava”. Aos 12 anos, na tentativa de reencontrar a mãe, fugiu. Foi rejeitada. Passou a viver nas ruas e a comer o que achava no lixo.

Um homem lhe ofereceu casa e comida quando tinha 13 anos. Viveram como marido e mulher, tiveram três filhos e uma história que, para Sandra, significou “levar tanta porrada”, a ponto de achar que estava morta. Em 12 de junho de 1996, na frente dos filhos, foi golpeada várias vezes com uma faca, teve parte dos cabelos arrancados com os dentes e, já se sentindo dormente depois de tanta dor, chegou a dizer a uma das crianças: “Com fé em Deus, se sua mãe escapar macho nenhum bate mais nela”. No dia seguinte, fugiu levando os três filhos.

“Me perguntavam na rua se eu tinha sido atropelada e mandavam eu dar parte dele. Mas eu não tinha instrução, não tinha ninguém pra me apoiar. Meu negócio era sair dali”. A ideia de Sandra era “enfrentar o mundo”.

A vida sem ler

Mas o mundo, quando tinha letras estampadas, “era como uma folha em branco” que dificultava até a hora de pegar um ônibus. Em busca de ajuda, ela precisava confidenciar a quem cruzasse o seu caminho: “Eu não sei ler”. E pedia: “Você pode ler pra mim?”.

'Eu tomava banho, deitava na rede, ele vinha e me chamava pra ler. Eu queria ver os desenhos, mas também queria aprender as letras', conta Sandra (Foto: AGIL FOTOGRAFIA/BBC BRASIL)

‘Eu tomava banho, deitava na rede, ele vinha e me chamava pra ler. Eu queria ver os desenhos, mas também queria aprender as letras’, conta Sandra (Foto: AGIL FOTOGRAFIA/BBC BRASIL)

Mas, sofrimento maior foi, anos depois, fazer a carteira de identidade e ter de estampar no documento a impressão digital em vez da assinatura. Fruto de um segundo casamento e com aproximadamente três anos de idade, Damião, ouvindo a mãe mensurar o tamanho da vergonha, “muito grande”, fez um pacto com ela naquele dia: “Eu vou aprender e, quando aprender, vou ensinar à senhora”.

A mãe já catava lixo para vender à reciclagem e a outros compradores que batem à porta. A essa altura, não sabia o que era carteira assinada, estava separada do segundo marido e carregava a tristeza de ter enterrado quatro dos sete filhos – todos ainda na infância, vítimas de doenças que acha difícil explicar, e uma das filhas após um atropelamento.

Ver Damião ir e voltar da escola era um dos momentos de alegria. Cada dia que o filho chegava, contava a ela, “já morta de cansaço”, tudo o que havia lido e aprendido. Ela se orgulhava: “Ele vai ser o que eu queria ser”.

Damião também tinha o estímulo da professora. Ela dava aulas de reforço e o incentivava a pegar livros na escola. “Foi com esses livrinhos que tudo foi se desenganchando” para Sandra. “Eu tomava banho, deitava na rede, ele vinha e me chamava pra ler. Eu queria ver os desenhos, mas também queria aprender as letras. Ficava curiosa”.

O mais próximo que ela havia chegado da escola foi em uma turma de jovens e adultos em que aprendeu o “ABC”, mas que acabou abandonando por não parar de ter dúvidas e travar sempre que chegava no “e”, letra que traduz como “uma agonia de vida”. Ela ficava “apavorada” por não saber. “Sentia revolta”.

Damião desvendou o “e” para a mãe explicando que era o mesmo que um “i”, só que fechado e sem o ponto. O “h” virou uma cadeirinha” e o R o mesmo que um B, só que “aberto”. Ele começou a ensinar as letras do nome dele e as letras do nome dela. Até Sandra aprender a escrever.

“Quando eu aprendi, disse: vou fazer outra identidade que é pra quando chegar nos cantos eu dizer: eu sei fazer meu nome. Pra mim, já era tudo eu saber. Chegar lá, o povo dizer assine aqui e eu dizer: agora eu já sei, não sinto mais vergonha”.

'Eu quero ver ela aprendendo comigo. Quero que aprenda as palavras que ela sente aqui dentro', disse Damião (Foto: AGIL FOTOGRAFIA/BBC BRASIL)

‘Eu quero ver ela aprendendo comigo. Quero que aprenda as palavras que ela sente aqui dentro’, disse Damião (Foto: AGIL FOTOGRAFIA/BBC BRASIL)

 

Escrever o próprio nome foi uma conquista. A palavra “mãe” também. Em uma reunião da escola, “morreu de felicidade” ao assinar a primeira vez como responsável da criança. “Tinha que escrever o que eu era dele. Eu escrevi mãe, caprichado, bem grande”.

Damião, devotado à mãe, quer ir além. “Eu quero ver ela aprendendo comigo. Quero que aprenda as palavras que ela sente aqui dentro. Ela gosta de falar amor, paixão. Já sabe um monte de palavras. Ela sabe as mais simples”.

Leitura

Mãe e filho leram, juntos, 107 livros em 2016, se considerados apenas os contabilizados na escola. A lista, porém, fica maior se incluir outros títulos que Sandra encontrou no lixo. O preferido dela, faz questão de dizer, “é Ninguém nasce genial”. “Escrevi meu nome nele. Porque ninguém nasce gênio. Porque eu achava que não precisava mais saber, achava que era tarde pra saber”.

Para Damião, outro livro foi mais impactante. Tratava da história de um anjo que vivia acorrentado e só conseguiu se libertar quando ensinou um ser humano a rezar e os dois viraram amigos.

“É tipo eu e minha mãe. Eu estou ensinando uma coisa a ela e ela me ensina outra. Eu era novinho, ela me cuidava, eu cuidava dela. Ela dava um abraço em mim eu dava dois. Foi assim que nós começamos a nos amar”.

Mãe e filho leram, juntos, 107 livros em 2016, se considerados apenas os contabilizados na escola (Foto: AGIL FOTOGRAFIA/BBC BRASIL)

Mãe e filho leram, juntos, 107 livros em 2016, se considerados apenas os contabilizados na escola (Foto: AGIL FOTOGRAFIA/BBC BRASIL)

 

O menino também leu sobre aventuras, amizade, paixão e amor ao próximo.

Nesses momentos, diz que “vai pra outro mundo”. Que fica com “uma imaginação infinita”.

“Eu quero que a leitura me leve pra qualquer canto”, diz. Neste ano, irá para o 6º ano na escola.

Na casa onde divide cada palavra que aprende com a mãe, a ajudou a escrever, na parede da frente, uma mensagem em letras verdes, maiúsculas: CANTINHO DA FELICIDADE ONDE HÁ DEUS NADA FALTARÁ”.

Empresário usa horário do almoço para ensinar moradora de rua a ler

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Kimberly Yam, no Brasil Post [ via Huffington Post US]

“Quero poder ajudar a todos as pessoas, seja doando comida ou roupas.”

Um morador da Flórida provou ter compaixão de sobra.

Greg Smith, de Orlando, recentemente postou no Facebook sobre um almoço que teve com Amy Joe, uma sem-teto de quem ele ficou amigo. Mas a rotina dos dois mudou quando ela contou algumas coisas da sua vida para ele.

“Amy Joe soltou uma bomba”, escreveu Smith, 25, em seu post. “Ela começou a dizer que usa todo o dinheiro que recebe para alugar livros que a ajudem a aprender a ler, em vez de comprar COMIDA.”

Desde então, ele vem a ajudando a ler e também abriu uma página no GoFundMe para criar a Amy Joe Foundation. Ele quer que o grupo ajude outras pessoas necessitadas.

“Quero poder ajudar a todos as pessoas, seja doando comida ou roupas”, disse Smith à ABC News. “Não quero me limitar a ajudar as pessoas a ler, porque há tantas outras pessoas que precisam de mais ajuda.”

Às terças, Smith lê com Amy Joe um livro emprestado da biblioteca. Ela usa os outros dias da semana para estudar por conta própria.

Smith mencionou em seu post que há algumas semanas vem almoçando com Amy Joe todas as terças-feiras. Nesse período, ele diz que a atitude da sem-teto o conquistou.

“Em meia ou uma hora, vejo como ela é uma pessoa positiva, mesmo que não tenha nada.”

Quando Amy Joe disse para Smith que queria aprender a ler, e como o analfabetismo dificultava a procura por um emprego, Smith ficou emocionado.

“Me destruiu!!! Ela prefere ler para talvez arrumar um emprego do que comer!!!”, explicou ele no post. “Fui abençoado com pais incríveis e com uma família que sempre teve recursos para me prover tudo o que eu quis fazer. Não foi assim com Amy Joe.”

Apesar de Smith ajudar Amy Joe com a leitura desde que a conheceu, ele afirma que há outras pessoas que também precisam de ajuda – e é por isso que ele começou a trabalhar em sua fundação. Segundo a ABC News, ele procurou um advogado para estruturar a entidade e decidiu que o slogan será: “Uma pessoa por vez”.

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