Contando e Cantando (Volume 2)

Posts tagged alfabetização

Em meio à guerra, afegãos acham refúgio nos livros

0

No Afeganistão, apenas 2 em cada 5 pessoas sabem ler. Mas, mesmo assim, o comércio dos livros está cada vez mais aumentando Fotos: MAURICIO LIMA/NYT

Apesar da taxa de alfabetização ser extremamente baixa no país, afegãos que sabem ler estão cada vez mais se aprofundando no universo da leitura. As editoras, consequentemente, estão crescendo e ganhando notoriedade

Publicado na Gazeta do Povo

As nozes vêm do Irã e as frutas frescas do Paquistão, apesar de serem cultivadas no Afeganistão em abundância. Os anos de ajuda financeira externa produziram salários elevados, destruindo as indústrias locais e o resultado é que a única coisa que o país não importa é ópio.

E livros.

Em uma época em que editoras sofrem em muitos países, nos últimos três anos as do Afeganistão floresceram, apesar das taxas locais de alfabetização cronicamente baixas: apenas 2 em cada 5 adultos sabem ler. Quem sabe, porém, parece estar fazendo isso com impressionante regularidade, apesar e por causa da violência no país, especialmente nos últimos tempos.

Em uma sociedade turbulenta e complicada, os livros se tornaram a melhor opção de fuga disponível.

“Acho que em qualquer lugar, mas talvez especialmente os que estão em guerra, a leitura de um livro cria uma pausa do cotidiano e isola o leitor de seu ambiente. É um fenômeno poderoso em qualquer lugar, mas no Afeganistão pode ser um meio de sobrevivência emocional”, disse Jamshid Hashimi, que dirige uma biblioteca on-line e é cofundador do Clube do Livro do Afeganistão.

Não é surpresa que as editoras ganhem dinheiro com isso. O mais notável é que uma parte importante do desenvolvimento socioeconômico afegão esteja acontecendo sem ajuda externa direta ou consultores estrangeiros.

“É um processo gerado e conduzido exclusivamente por afegãos”, disse Safiullah Nasiri, um dos quatro irmãos que dirigem a Aksos, editora que também possui várias livrarias em Cabul. Seu comentário foi deliberado, utilizando o jargão da comunidade internacional sobre a passagem das instituições dominadas pelos ocidentais para o controle afegão.

“É realmente um momento emocionante para o setor livreiro aqui. Todos os editores estão atrás de novos livros para publicar, os jovens querem encontrar novos livros para ler, escritores estão em busca de editores. É uma atmosfera dinâmica. E é independente, sem assistência estrangeira”, disse Nasiri.

Cabul, a capital do país, com uma população crescente de mais de 5 milhões, tem 22 editoras de livros, muitas com gráfica própria, outras usando gráficas locais. Várias estão espalhadas pelas 34 províncias, mesmo em áreas de guerra, como Helmand e Kandahar.

No ano passado, especialmente, muitas se expandiram, abrindo centros de distribuição no território nacional e abrindo suas próprias livrarias ou trabalhando com consignação com as independentes. Cabul tem 60 livrarias oficiais, de acordo com o governo.

Passado difícil

Nem sempre foi assim. Durante o reinado de Talibã, de 1996 a 2001, apenas duas editoras sobreviveram: a do estado e uma empresa privada, a Editora Aazem. No final de 2001, a única livraria independente ficava no Hotel Intercontinental, local de um recente ataque mortal.

Nos anos após a invasão liderada pelos EUA, livros impressos mais baratos e descaradamente pirateados do Paquistão eram tão difundidos pelo país quanto as frutas e as verduras nas feiras de Cabul.

O novo governo do Afeganistão assumiu a enorme tarefa de reconstruir o sistema educativo, dilacerado por décadas de guerra civil, seguidas por cinco anos do regime Talibã, que fechou escolas e destruiu livros de língua estrangeira – ou seja, milhões de livros didáticos impressos no Paquistão. Porém, quando a relação entre os dois países azedou, o governo passou os contratos para algumas grandes editoras afegãs.

A ajuda externa patrocinou o sistema escolar, e então o setor de livros didático incentivou a indústria de publicação de livros. Milhões precisaram ser impressos em um curto período de tempo, por isso a Aazem e algumas outras empresas investiram em suas próprias gráficas, que ficavam ociosas quando a temporada de publicação didática acabava. A partir disso, as novas editoras começaram a traduzir livros ocidentais do inglês para o dari e o pachto, as duas principais línguas locais.

Outras editoras surgiram, alugando as gráficas das empresas maiores.

“Havia muita curiosidade, o desejo de conhecer o mundo e saber como as pessoas veem o Afeganistão. A indústria do livro é um fenômeno crescente que tenta satisfazê-lo”, disse Davood Moradian, diretor-geral do Instituto Afegão de Estudos Estratégicos, organização de pesquisa cujo campus pitoresco, o Forte das Nove Torres, é o local preferido para os eventos de novos lançamentos.

Os primeiros livros publicados aqui eram títulos de não ficção sobre o Afeganistão, escritos por autores ocidentais, e venderam tão bem que isso acabou criando uma disputa por negócios. Livros como “Ghost Wars: The Secret History of the CIA, Afghanistan and Bin Laden From the Soviet Invasion to September 10, 200”, de Steve Coll, e “The Envoy: From Kabul to the White House, My Journey Through a Turbulent World”, de Zalmay Khalilzad, entraram para a lista dos mais vendidos aqui.

“Havia uma demanda reprimida imensa de muitos anos sem livros novos”, disse o Dr. Ajmal Aazem, pediatra cujo pai fundou a editora que leva seu nome. A Aazem está publicando obras o mais rapidamente possível, limitando-se apenas pela falta de tradutores qualificados do inglês para as línguas locais. A meta de 2017-18 da editora é imprimir três novos títulos por dia, 1.100 por ano, número enorme para qualquer editora.

Clientes na Aksos, uma editora que tem várias livrarias em Cabul, AfeganistãoMAURICIO LIMA/NYT

Sua sede é enfeitada com cartazes em tamanho natural das capas de livros recentes, e a livraria está cheia de volumes dispostos artisticamente em pilhas helicoidais ou exibidos nas estantes com versões em inglês e persa. O chão da loja foi erguido para acomodar as prensas no andar abaixo, fazendo uma espécie de plataforma com poltronas confortáveis.

Lançar um livro no idioma original é muito mais rápido do que traduzi-lo, por isso as maiores editoras começaram a encomendar obras originais pela primeira vez em muitos anos. A Aksos até começou uma espécie de versão afegã da Amazon, vendendo livros através de sua página no Facebook, entregando-os no mesmo dia pelos correios por cerca do equivalente a US$0,50 por exemplar em Cabul. Os afegãos muitas vezes não têm conexão com a internet nem computadores pessoais em casa, mas os jovens educados geralmente têm Facebook no smartphone.

Pirataria

A pirataria permanece endêmica. Recentemente, mesmo alguns dos títulos da própria livraria da Aksos eram cópias piratas de livros populares.

Os editores estão preocupados:

“Normalmente, vendo mil cópias de vários de nossos livros, e os piratas vendem quatro mil exemplares da mesma obra a preços mais baixos. O governo precisa se esforçar mais para evitar isso”, disse Aazem.

As autoridades começaram a fazer cumprir as leis dos direitos autorais, há muito tempo ignoradas, de acordo com Sayed Fazel Hossain Sancharaki, responsável pelas editoras no Ministério da Informação e Cultura. “Nos últimos quatro meses, tivemos quatro ou cinco casos de direitos autorais”, disse ele. Uma loja de fotocópias foi fechada recentemente pelo governo por estar copiando livros impressos.

Percebendo que “The Envoy”, o livro de memórias de 2016 de Khalilzad, o afegão-americano que foi embaixador dos EUA no Afeganistão e no Iraque, venderia bem aqui, Aazem se apressou em adquirir os direitos de publicação em dari e pachto. Ele estava determinado a oferecer um livro de melhor qualidade a um preço menor e inundar o mercado, antes que os piratas pudessem fazê-lo, mas a Aksos conseguiu publicar primeiro uma versão em pachto, sem ter direito a isso, vendendo mil cópias em três dias, segundo ele.

Nasiri, o proprietário da Aksos, que também traduz um título novo por semana, mais ou menos, negou que a sua empresa publique livros pirateados. E, também, reclamou da pirataria.

54% dos alunos que deveriam estar alfabetizados têm problemas para ler

0

aluno-quadro-negro-escola-publica-ensino-infantil-crianca-pre-adolescente-educacao-lousa-giz-1387226863927_615x300

Publicado no UOL

Mais da metade dos alunos de oito anos das escolas públicas no Brasil tem conhecimento insuficiente em leitura e matemática, segundo dados da ANA (Avaliação Nacional da Alfabetização) 2016, divulgados nesta quarta (25) pelo MEC (Ministério da Educação).

Os números mostram que 54,73% dos alunos têm problemas de leitura –eles não conseguem, por exemplo, interpretar e localizar informações específicas em textos científicos ou de gêneros como lenda e cantiga folclórica. Além disso, eles têm dificuldade para reconhecer a linguagem figurada em poemas e tirinhas.

Esses resultados estão estagnados desde 2014, quando 56,17% dos alunos tiveram desempenho insuficiente na habilidade de leitura.

A ANA foi aplicada para mais de 2 milhões de crianças em novembro de 2016, quando 90% dos estudantes avaliados possuíam oito anos ou mais.
Já 54,46% dos alunos têm problemas para fazer contas de adição, subtração, multiplicação e divisão, além de não conseguir interpretar gráficos de colunas, por exemplo. Em 2014, esse número foi de 57,07%.

A escrita apresenta índices menos críticos, mas ainda preocupantes: cerca de 34% dos estudantes apresentam desempenho insuficiente –em geral, os alunos têm problemas de grafia e para escrever um texto narrativo coeso.

Hoje, pelo Pnaic (Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa), espera-se que até os oito anos, no fim do 3º ano do ensino fundamental, as crianças estejam alfabetizadas tanto em língua portuguesa como em matemática.

Desigualdades regionais

As regiões Norte e Nordeste apresentam o pior desempenho em todas as habilidades avaliadas. Na região Norte, 70,21% dos alunos têm desempenho insuficiente em leitura, 49,39% em escrita e 70,84% em matemática. No Nordeste, 69,15% têm problemas para ler, 47,44% para escrever e 69,46% em matemática.

Na região Sudeste, 43,69% dos alunos tiveram desempenho insuficiente em leitura, 20,29% em escrita e 42,71% em matemática.
Antecipação da alfabetização

Para a ministra substituta da Educação, Maria Helena Guimarães de Castro, os dados mostram a necessidade de se antecipar a alfabetização do 3º para o 2º ano do ensino fundamental.

“Entendemos que [antecipar a alfabetização] significa um passo à frente para melhoria da qualidade da educação brasileira no futuro”, disse.

A proposta vem sendo debatida desde abril, quando o MEC incluiu na BNCC (Base Nacional Comum Curricular) a definição de que as crianças saibam ler e escrever aos sete anos. Há um impasse, no entanto, com o CNE (Conselho Nacional de Educação) –conselheiros têm defendido que a alfabetização continue sendo realizada até o 3º ano do ensino fundamental.

Para Maria do Pilar Lacerda, ex-secretária de educação básica do MEC e diretora da Fundação SM, “antecipar a alfabetização é antecipar o fracasso”.

“O que não podemos fazer é penalizar as crianças. Se você coloca a alfabetização até sete anos e a criança não for alfabetizada, ela será reprovada. Esse já é um grande problema da educação brasileira hoje, que é a exclusão pela reprovação”, afirma Maria do Pilar.

Professores assistentes de alfabetização

O MEC anunciou ainda a criação do Programa Mais Alfabetização, que prevê a presença de professores assistentes de alfabetização em sala de aula. Segundo a pasta, os professores assistentes trabalharão em conjunto com os docentes regulares nas salas de aula do 1º e 2º anos do ensino fundamental.

“Cada professor assistente deverá apoiar durante 5 horas por semana a turma que ele for responsável. A distribuição dessas 5 horas poderá ser feita de diferentes formas, conforme desenhado pela rede de ensino”, explicou o secretário de educação básica, Rossieli Soares da Silva.

De acordo com o MEC, o investimento no Mais Alfabetização será de R$ 523 milhões até o fim de 2018, e a expectativa é que sejam atendidos 4,6 milhões de alunos.
Receba notícias pelo Facebook Messenger

Livro infantil que sugere casamento entre pai e filha é recolhido no ES

0

capa-foto4

 

Obra de autor capixaba é usada no programa de alfabetização por crianças de 6 a 8 anos

Carolina Samorano, no Metropoles

Um livro infantil usado na educação básica pública no Espírito Santo tem causado polêmica no estado ao sugerir, em um dos seus contos, um casamento entre pai e filha. As prefeituras das cidades onde ele é lido em sala já avisaram, na última semana, que vão recolher os exemplares.

“Enquanto o sono não vem”, do autor capixaba José Mario Brant é um livro de contos que faz parte do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC), do Ministério da Educação. As obras do PNAIC passam por revisão da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

No conto “A triste história de Eredegalda”, um dos personagens sugere se casar com uma das filhas, que acaba morrendo no fim da história.

livro

Ao site G1, o escritor, disse que conta a história publicada há mais de 25 anos e ficou surpreso pela reclamação dos professores.

Há uma desinformação do que é o conto folclórico e o de fada, que são territórios que abordam assuntos delicados”, disse. “A gente está falando de um universo simbólico. É uma história que dá voz a uma vítima”.

A UFMG também saiu em defesa do livro e justificou que a polêmica é fruto de um “julgamento indevido construído por leitura equivocada”.

No projeto, o livro é destinado a alunos do primeiro ao terceiro ano, com entre 6 e 8 anos de idade. Brant, no entanto, diz que pensou a obra para “leitores jovens”, mas que ela poderia ser aplicada a crianças, desde que com bom trabalho pedagógico.

A importância dos gibis na alfabetização

0

A IMPORTÂNCIA DOS GIBIS NA ALFABETIZAÇÃO

Publicado na Só Escola

As histórias em quadrinhos contribuem para despertar o interesse pela leitura e pela escrita nas crianças e para sistematizar a alfabetização. Como as HQs em geral unem palavra e imagem, elas contemplam tanto alunos que já leem fluentemente quanto os que estão iniciando, pois conseguem deduzir o significado da história observando os desenhos. A curiosidade em saber o que está escrito dentro dos balões cria o gosto pela leitura e, assim, os gibis podem ter grande eficácia nas aulas de alfabetização.

Se hoje essa visão é consagrada entre professores e pesquisadores, nem sempre foi assim. Os quadrinhos usados atualmente em sala de aula eram vistos como concorrentes dos livros de alfabetização, entendidos, portanto, como uma distração prejudicial ao aprendizado. “Os quadrinhos apareceram com mais frequência dentro da escola a partir da metade do século passado. Primeiro, porque quase não existiam. Segundo, porque havia esse preconceito contra eles”, diz Maria Angela Barbato Carneiro, professora titular do Departamento de Fundamentos da Educação e coordenadora do Núcleo de Cultura e Pesquisas do Brincar da Faculdade de Educação da PUC-SP.

Falta de hábito
Maria Angela acredita que, dentro da escola, os professores ainda usam predominantemente muitos materiais mais tradicionais, como é o caso do livro didático, em detrimento de outros recursos. “Penso que o professor não está habituado com outros procedimentos – como um jornal, uma revista –, e o fato de não estar habituado não lhe traz segurança”, diz. Outro ponto que pode inibir a presença das HQs na alfabetização é o entendimento de que os gibis são meros passatempos e, por isso, serem deixados de lado por conta da crença de que eles serão lidos pelas crianças em casa de todo modo.

Lucinea Rezende, professora do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR), que desenvolve e orienta trabalhos na área de formação de leitores, concorda que ainda que se tenha avançado bastante na direção de usar múltiplas formas de leitura em sala de aula, fugindo do monopólio do livro didático, ainda se está voltado predominantemente para o texto escrito. “Todos os gêneros que empregam outras linguagens entram devagarinho nas salas de aula”, diz.

Os benefícios da história em quadrinhos para a educação, em particular no ensino fundamental e na alfabetização, são oficialmente reconhecidos. As HQs fazem parte do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), que possibilita a professores e alunos o acesso a obras distribuídas em escolas públicas. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) também incentivam o uso de quadrinhos e indicam que nas bibliotecas é necessário que estejam à disposição dos alunos textos dos mais variados gêneros (livros de contos, romances, jornais, quadrinhos, entre outros). O PCN lista ainda a HQ como um gênero adequado para o trabalho com a linguagem escrita.

“Alguns professores olham para a HQ e veem algo distante. Assim não têm entusiasmo, não conseguem comentar sobre aquilo com os alunos”, acredita José Felipe da Silva, professor de Libras (Linguagem Brasileira de Sinais) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) – a disciplina é oferecida a diversos cursos de graduação na Universidade. Ex-professor do ensino fundamental e colecionador de HQs, Felipe da Silva afirma que os quadrinhos foram um impulso para ele mesmo se alfabetizar quando criança. Na escola em que dava aula, na rede municipal de Natal, costumava fazer exposições com revistas e bonecos dos personagens das HQs para atrair a atenção dos alunos.

Imaginação e fantasia
Luciana Begatini Silvério, professora de pós-graduação na área de educação, lembra ainda que o PCN pede que o leitor seja formado como alguém capaz de ler, compreender e interagir com a leitura – entendida não só por meio de palavras e frases, mas, também, por diferentes tipos de linguagem. Com os quadrinhos, a criança em fase de alfabetização que ainda não domina a leitura e a escrita do alfabeto consegue fazer uma leitura competente com o recurso das imagens. “Além disso, a criança precisa muito ser formada no concreto. E nas HQs, os recursos de imagens, expressões dos personagens, letras, metáforas visuais ajudam a ter maior compreensão do que ela está lendo”, afirma.

Entre os elementos que se reconhecem como mais atrativos para as crianças nas histórias em quadrinhos estão aspectos lúdicos, como cores, onomatopeias, personagens e traços. Na dissertação de mestrado de Luciana Begatini Silvério, defendida em 2012 – orientada por Lucinea Rezende, na UEL –, ela fez uma pesquisa de campo com professores e alunos da rede municipal da cidade Primeiro de Maio, no Paraná. A pesquisa não foi feita com alunos em alfabetização e, sim, com estudantes do segundo ciclo do EF. Dos 58 alunos participantes, 30 listaram as HQs entre seus gêneros de leitura preferidos. E três, apenas, afirmaram não gostar de HQs (dois deles alegaram que os quadrinhos são para serem lidos em casa).

Luciana Novello, professora do 1o ano do EF no Colégio Ofélia Fonseca, em São Paulo, destaca justamente o caráter lúdico como um dos elementos de atratividade dos quadrinhos. “As histórias em geral são divertidas, somadas ao colorido das imagens. E temos gibis com histórias bem curtas, de uma página, e para a criança ler fica uma leitura mais prazerosa”, diz. Além disso, a professora afirma que, entre seus alunos, o gibi já faz parte do cotidiano fora da escola: por isso, a familiaridade com os personagens por si só já desperta o interesse das crianças.
Os quadrinhos podem, ainda, ser trabalhados com as crianças em idade de alfabetização em relação com o brincar – como, por exemplo, uma forma de trabalhar a imaginação, o “faz de conta”. “Alguns quadrinhos fazem parte da literatura infantil, e a literatura infantil se alia à brincadeira justamente através do simbólico, da fantasia. Quando você permite que atuem a imaginação e a fantasia da criança é possível que isso faça parte das atividades lúdicas”, diz Maria Angela Barbato Carneiro.

Corrigindo a Mônica
Professor da Escola Polo Municipal Venita Ribeiro Marques, em Aral Moreira (MS), Gilson Matoso considera a HQ uma das melhores maneiras para chamar a atenção das crianças. Pós-graduado em Mídias na Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), ele costuma aliar o trabalho com os quadrinhos a datas especiais – como as festas juninas. E, no segundo ano do EF, trabalha também a gramática. Personagens conhecidos das HQs da Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa, o Cebolinha troca o “R” pelo “L” e o Chico Bento tem o registro da sua fala acaipirada, com erros ortográficos. “Fazemos exercícios em que corrigimos algumas palavras dos personagens, passando para a norma culta”, diz Matoso.

Antes de o aluno desenvolver a leitura das palavras e dos desenhos em si – como personagens e cenários – há outros elementos típicos das HQs que as crianças aprendem a ler e a interpretar. “O texto está ali, não podemos ignorá-lo, mas mesmo que as palavras escritas sejam estranhas para o aluno, ele vai fazer a leitura visual­ da narrativa e vai entender que aquilo pode ser uma fala, um grito”, diz José Felipe da Silva.

A leitura do texto em si é facilitada ainda por conta do tipo de letra normalmente grafada dentro dos balões, que é a letra em bastão. Como na maior parte das escolas, a professora Luciana Novello explica que no Colégio Ofélia Fonseca a letra bastão é usada desde o ensino infantil até o primeiro ano, quando é introduzida então a letra cursiva, entre o final do primeiro ano e o segundo ano do EF.

Lucinea Rezende, da UEL, afirma que é importante ainda ter como premissa o tratamento da leitura como algo a ser construído continuamente. Ela ressalta que isso é válido não somente na alfabetização e no ensino fundamental, mas até mesmo na universidade. “Alguns estudantes gostam de ler, outros, não – ou porque não puderam ou porque não se interessaram suficientemente. Nesse caso, a gente precisa usar todos os recursos possíveis: se a criança já lê HQ, o que a escola pode fazer para a criança ler melhor, explorar outras possibilidades?”, questiona. A professora e pesquisadora defende que a escola deve trabalhar, sempre, com uma boa multiplicidade de textos, incluindo as HQs.
Além disso, Lucinea lembra que os alunos acabam desenvolvendo gostos por diferentes tipos de leitura. Por isso, a escola precisa se apropriar de todos os recursos possíveis. “Precisamos pensar ainda o que o professor está almejando quando trabalha a leitura. Quanto à HQ, por exemplo, o que se consegue ver nesse gênero literário? Pensamos na palavra, na imagem, nos personagens?”. A reflexão sobre os materiais usados pelos educadores deve levar em conta, afirma Lucinea, não somente questões da linguagem, mas também, de fundo social das narrativas. “É a partir dessa compreensão que se devem usar as HQs na alfabetização. Alfabetizar é trazer para o mundo da escrita, dos números, para que o aluno possa dialogar e interagir com o mundo”, explica.

Produção do texto

Com as HQs pode-se ainda propor a construção de histórias. “Para a produção de texto os alunos em geral gostam muito dos quadrinhos, por conta do desenho. É uma boa ferramenta para a sequência didática, em que é preciso ter um resultado final da produção deles”, diz Gilson Matoso.

Além de desenhar, pode-se tra­balhar com o texto produzido sobre histórias já feitas, com os ba­lões em branco. “Nesse caso o objetivo não é pensar em inventar a história, mas na escrita, na língua”, diz Luciana Novello, do Ofélia Fonseca. “No 1o ano, a principal ideia do uso do gibi é a aquisição de leitura e escrita. E, eventualmente, um trabalho com arte e ilustrações”, completa.
A professora afirma que os gibis são trabalhados em aula como um gênero textual. Em momentos de leitura planejada, cada aluno escolhe um exemplar para ler – seja ela leitura convencional (fluente) ou não. “Também se lê em dupla, um leitor mais fluente com outro menos fluente”, explica.

Gêneros e interdisciplinaridade
O quadrinho é um gênero em si mesmo, mas, dentro dele, há subgêneros – como romances adaptados e até reportagens em forma de HQ, o que se torna uma vantagem para apresentar outros gêneros de narrativa. “Claro que é preferível ampliar a leitura dos gêneros para outros textos, não somente os quadrinhos. Mas é importante que o professor apresente uma diversidade de gêneros de HQ”, diz José Felipe da Silva, da UFRN.

Além dos gêneros, as diferentes temáticas dos quadrinhos também são um elemento importante em sala de aula – e podem ser trabalhadas tanto com crianças em idade de alfabetização quanto com as maiores. “O foco de minha pesquisa foi buscar a interface entre HQ e a literatura, mas há outros aspectos transversais também, como noções de higiene, temas culturais e históricos”, diz Luciana Begatini Silvério.

Se na alfabetização os quadrinhos podem atrair a atenção das crianças para ler e escrever, nessa mesma fase as HQs podem servir como suporte ou tema para desenvolver outras habilidades – como adivinhas. “Existem também várias atividades que podem ser feitas com a linguagem dos quadrinhos, como noções abstratas de química. Pensamos no Asterix e na sua poção mágica, por exemplo, à qual podemos relacionar uma receita – um suco de laranja – e fazer essa brincadeira”, diz Maria Angela Barbato Carneiro, da PUC-SP.
Fonte: Revista Educação

‘Perdi a vergonha’: aos 42 anos, catadora de lixo aprende a ler com filho de 11 anos

0
1

Aos 42, Sandra aprendeu a ler e a escrever com o filho Damião, de 11 (Foto: AGIL FOTOGRAFIA/BBC BRASIL)

 

Para Sandra, forçada a trabalhar desde criança para casal que a impedia de ir à escola, o mundo ‘era como uma folha em branco’; hoje, após dois casamentos e sete filhos, despertou para a leitura após as ‘aulas’ do filho Damião.

Publicado no G1 via BBC Brasil

Mãe, mãe, quer ler comigo? É uma historinha. E tem figuras”. “Desmaiada” em uma rede após horas garimpando lixo na rua, para vender, foi assim – aos sussurros de Damião Sandriano de Andrade Regio, 11, o mais novo dos sete filhos – que Sandra Maria de Andrade, 42, começou a decifrar as letras do alfabeto e a despertar para o mundo da leitura.

Até um ano atrás, não sabia ler nem escrever. Em uma casa encravada numa rua de areia em Jardim Progresso, periferia de Natal, no Rio Grande do Norte, ela era o retrato dos 758 milhões de adultos no mundo apontados em um estudo da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), na semana passada, como incapazes de ler ou escrever uma simples frase.

Sandra não sabia fazer nem o próprio nome. “Espiava” quem visse lendo um livro e pensava “ah, se eu soubesse também. Se tivesse uma coisa que eu pudesse roubar, queria que fosse um pouquinho daquela leitura”. Ela tentou estudar, mas não pôde.

Foi forçada a trabalhar desde cedo. Abandonada pela mãe aos três anos, diz que a avó, com quem passou a morar, lhe entregou a um casal que a impediu de ir à escola. Ela teve de trabalhar na lavoura, em casas de farinha (locais em que mandioca é ralada ou triturada) e fazendo faxina.

Em um dia, quando ajudava no cultivo de bananeiras, viu crianças passando na porta com cadernos debaixo do braço. “Queria ir para onde iam, mas diziam: vá trabalhar. E eu chorava”. Aos 12 anos, na tentativa de reencontrar a mãe, fugiu. Foi rejeitada. Passou a viver nas ruas e a comer o que achava no lixo.

Um homem lhe ofereceu casa e comida quando tinha 13 anos. Viveram como marido e mulher, tiveram três filhos e uma história que, para Sandra, significou “levar tanta porrada”, a ponto de achar que estava morta. Em 12 de junho de 1996, na frente dos filhos, foi golpeada várias vezes com uma faca, teve parte dos cabelos arrancados com os dentes e, já se sentindo dormente depois de tanta dor, chegou a dizer a uma das crianças: “Com fé em Deus, se sua mãe escapar macho nenhum bate mais nela”. No dia seguinte, fugiu levando os três filhos.

“Me perguntavam na rua se eu tinha sido atropelada e mandavam eu dar parte dele. Mas eu não tinha instrução, não tinha ninguém pra me apoiar. Meu negócio era sair dali”. A ideia de Sandra era “enfrentar o mundo”.

A vida sem ler

Mas o mundo, quando tinha letras estampadas, “era como uma folha em branco” que dificultava até a hora de pegar um ônibus. Em busca de ajuda, ela precisava confidenciar a quem cruzasse o seu caminho: “Eu não sei ler”. E pedia: “Você pode ler pra mim?”.

'Eu tomava banho, deitava na rede, ele vinha e me chamava pra ler. Eu queria ver os desenhos, mas também queria aprender as letras', conta Sandra (Foto: AGIL FOTOGRAFIA/BBC BRASIL)

‘Eu tomava banho, deitava na rede, ele vinha e me chamava pra ler. Eu queria ver os desenhos, mas também queria aprender as letras’, conta Sandra (Foto: AGIL FOTOGRAFIA/BBC BRASIL)

Mas, sofrimento maior foi, anos depois, fazer a carteira de identidade e ter de estampar no documento a impressão digital em vez da assinatura. Fruto de um segundo casamento e com aproximadamente três anos de idade, Damião, ouvindo a mãe mensurar o tamanho da vergonha, “muito grande”, fez um pacto com ela naquele dia: “Eu vou aprender e, quando aprender, vou ensinar à senhora”.

A mãe já catava lixo para vender à reciclagem e a outros compradores que batem à porta. A essa altura, não sabia o que era carteira assinada, estava separada do segundo marido e carregava a tristeza de ter enterrado quatro dos sete filhos – todos ainda na infância, vítimas de doenças que acha difícil explicar, e uma das filhas após um atropelamento.

Ver Damião ir e voltar da escola era um dos momentos de alegria. Cada dia que o filho chegava, contava a ela, “já morta de cansaço”, tudo o que havia lido e aprendido. Ela se orgulhava: “Ele vai ser o que eu queria ser”.

Damião também tinha o estímulo da professora. Ela dava aulas de reforço e o incentivava a pegar livros na escola. “Foi com esses livrinhos que tudo foi se desenganchando” para Sandra. “Eu tomava banho, deitava na rede, ele vinha e me chamava pra ler. Eu queria ver os desenhos, mas também queria aprender as letras. Ficava curiosa”.

O mais próximo que ela havia chegado da escola foi em uma turma de jovens e adultos em que aprendeu o “ABC”, mas que acabou abandonando por não parar de ter dúvidas e travar sempre que chegava no “e”, letra que traduz como “uma agonia de vida”. Ela ficava “apavorada” por não saber. “Sentia revolta”.

Damião desvendou o “e” para a mãe explicando que era o mesmo que um “i”, só que fechado e sem o ponto. O “h” virou uma cadeirinha” e o R o mesmo que um B, só que “aberto”. Ele começou a ensinar as letras do nome dele e as letras do nome dela. Até Sandra aprender a escrever.

“Quando eu aprendi, disse: vou fazer outra identidade que é pra quando chegar nos cantos eu dizer: eu sei fazer meu nome. Pra mim, já era tudo eu saber. Chegar lá, o povo dizer assine aqui e eu dizer: agora eu já sei, não sinto mais vergonha”.

'Eu quero ver ela aprendendo comigo. Quero que aprenda as palavras que ela sente aqui dentro', disse Damião (Foto: AGIL FOTOGRAFIA/BBC BRASIL)

‘Eu quero ver ela aprendendo comigo. Quero que aprenda as palavras que ela sente aqui dentro’, disse Damião (Foto: AGIL FOTOGRAFIA/BBC BRASIL)

 

Escrever o próprio nome foi uma conquista. A palavra “mãe” também. Em uma reunião da escola, “morreu de felicidade” ao assinar a primeira vez como responsável da criança. “Tinha que escrever o que eu era dele. Eu escrevi mãe, caprichado, bem grande”.

Damião, devotado à mãe, quer ir além. “Eu quero ver ela aprendendo comigo. Quero que aprenda as palavras que ela sente aqui dentro. Ela gosta de falar amor, paixão. Já sabe um monte de palavras. Ela sabe as mais simples”.

Leitura

Mãe e filho leram, juntos, 107 livros em 2016, se considerados apenas os contabilizados na escola. A lista, porém, fica maior se incluir outros títulos que Sandra encontrou no lixo. O preferido dela, faz questão de dizer, “é Ninguém nasce genial”. “Escrevi meu nome nele. Porque ninguém nasce gênio. Porque eu achava que não precisava mais saber, achava que era tarde pra saber”.

Para Damião, outro livro foi mais impactante. Tratava da história de um anjo que vivia acorrentado e só conseguiu se libertar quando ensinou um ser humano a rezar e os dois viraram amigos.

“É tipo eu e minha mãe. Eu estou ensinando uma coisa a ela e ela me ensina outra. Eu era novinho, ela me cuidava, eu cuidava dela. Ela dava um abraço em mim eu dava dois. Foi assim que nós começamos a nos amar”.

Mãe e filho leram, juntos, 107 livros em 2016, se considerados apenas os contabilizados na escola (Foto: AGIL FOTOGRAFIA/BBC BRASIL)

Mãe e filho leram, juntos, 107 livros em 2016, se considerados apenas os contabilizados na escola (Foto: AGIL FOTOGRAFIA/BBC BRASIL)

 

O menino também leu sobre aventuras, amizade, paixão e amor ao próximo.

Nesses momentos, diz que “vai pra outro mundo”. Que fica com “uma imaginação infinita”.

“Eu quero que a leitura me leve pra qualquer canto”, diz. Neste ano, irá para o 6º ano na escola.

Na casa onde divide cada palavra que aprende com a mãe, a ajudou a escrever, na parede da frente, uma mensagem em letras verdes, maiúsculas: CANTINHO DA FELICIDADE ONDE HÁ DEUS NADA FALTARÁ”.

Go to Top