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“Racismo é questão de afeto”, diz Lázaro Ramos sobre seu novo livro

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Lázaro Ramos. O ator lança seu primeiro livro, Na minha pele, sobre sua vivência e questões raciais (Foto: Bob Wolfenson)

Lázaro Ramos. O ator lança seu primeiro livro, Na minha pele, sobre sua vivência e questões raciais (Foto: Bob Wolfenson)

 

O ator lança Na minha pele, seu primeiro livro, que trata de questões de raça no Brasil a partir de suas histórias pessoais

Nina Finco, na Época

Lázaro Ramos é um dos atores brasileiros de maior expressão de sua geração. Na televisão, nos palcos e nos cinemas, ele encarnou o que chama de “brasileiro não oficial”: personagens que não existiram e não estão registrados na literatura. Enveredou também pelo caminho das biografias, quando interpretou o pastor batista e líder do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, Martin Luther King. Agora, ele próprio deixou de ser um brasileiro não oficial para uma existência nos livros. Em Na minha pele (editora Objetiva), ele compartilha suas experiências pessoais e convida o leitor a refletir sobre racismo e tomada de consciência.

ÉPOCA – Você tinha se imaginado como um escritor que abriria a Flip (Feira Literária de Paraty)?
Lázaro Ramos – Não era meu objetivo de vida ser escritor. Mas eu já escrevo desde minha adolescência. Eu não escrevia com a pretensão de que alguém lesse. Mas eu escrevia porque tinha ideias e pensamentos e porque a companhia do papel me dava um certo conforto. Fui ter coragem de mostrar o que escrevia, a primeira vez, em 2003. Em 2007, quando comecei isso aqui [o livro], eu tive a coragem de mostrar para uma editora. Quando fui ao encontro da Editora Objetiva, na verdade, eu fui para propor um livro infantil. E eles fizeram a provocação de lançar este livro. O livro demorou a sair porque tem uma certa complexidade na escrita. Até hoje ainda tem textos que eu não me arvoro a mostrar a ninguém, mas que estão lá guardadinhos. Minha escrita é mais por uma necessidade de comunicação.Sempre gostei muito da Flip, estou muito honrado de estar lá. No ano passado, eu fui como autor infantil à Flipinha, e foi maravilhoso. Fiquei enlouquecido com as rodas e com os debates. Este ano, será uma alegria poder abrir a Flip ao lado da Lilia Schwarcz e seu livro sobre o Lima Barreto e, depois, poder lançar meu livro. Estou ansioso e feliz.

ÉPOCA – Qual a sua relação com Lima Barreto, o homenageado deste ano?
Ramos – Eu li Lima Barreto na época da escola e, depois, me afastei. Agora, faz uns três anos, comecei a reler Lima Barreto. Foi uma experiência diferente. Quando eu li pela primeira vez não tinha maturidade suficiente para fazer todas as análises. Hoje, como leio fora do compromisso de escrever uma redação na aula de português, eu tenho visto como a gente precisa valorizar o Lima. Ele fala muito sobre nós, é um autor importantíssimo. Este resgate da obra dele está só no começo, é justo e merecido. Espero que venham outras ações.

ÉPOCA – Você interpretaria Lima Barreto no cinema?

Ramos – Eu adoraria! Vou ter o prazer de ler os textos lá na Flip. Eu me interesso por personagens históricos. É engraçado porque, durante uma época da minha vida, meu foco era fazer o “brasileiro não oficial”. Minha busca era por fazer personagens que não existiram, porque queria investigar o brasileiro que não estava nos livros. Depois de um tempo, deu uma vontade de fazer pessoas que existem. Acabei, agora, percebendo isso ao fazer Martin Luther King no teatro. Faço à minha maneira, não é uma imitação, mas tenho aprendido muito.


ÉPOCA – Sobre o que é este livro?

Ramos – Este livro aqui tem muito de memória. Tem alguns resgates que eu fui fazer e redescobri minha família e meus amigos. Acho importante relembrar e saber de onde a gente veio. Este livro não é uma biografia. Ele é uma conversa sobre formação de identidade.

ÉPOCA – Você está há muito tempo longe de sua terra natal. Como você passa adiante tudo o que aprendeu por lá?

Ramos – Isso já está em mim. Eu observo que não sou muito diferente de quem eu era quando estava em Salvador. Os amigos se mantêm, nos visitamos e conversamos constantemente. Eu vou muito à Bahia para me alimentar da minha origem e ver como caminharam as coisas por lá. Essa é minha essência. Claro que eu me modifico, mas essa essência do menino baiano do bairro do Garcia não se perde não. Como o processo de elaboração durou dez anos, este livro passou por várias fases. Houve uma época em que tentei escrever apenas em cima do que eu lembrava e de dados estatísticos do IBGE e do IPEA. Mas achei que o livro não tinha minha voz, não era aquilo que eu queria contar. Aí resolvi visitar tudo aquilo sobre o que queria falar, fui à Ilha de Paty de onde veio minha família, bati papo com meus amigos sobre assuntos que nunca vivemos e a gente conversou, fui conversar com os mais velhos da minha família. Aí foi um prazer. Os meus mais velhos contam uma história que é uma maravilha! Contaram histórias da ilha, histórias que eu não sabia e que não me contavam quando era criança. Tudo isso me alimentou para depois eu sentar e transformar num livro

ÉPOCA – Você e sua esposa, a atriz Taís Araújo, são considerados o Jay Z e a Beyoncé brasileiros. Como artistas negros de grande expressão no Brasil, você acredita ter uma função social a desempenhar?

Ramos – É bacana você ser considerado exemplo de família, profissional de qualidade e ser considerado um representante legítimo das pessoas. Não fomos nós que escolhemos. Foram as pessoas que nos colocaram nesse lugar. Claro que temos nosso empenho profissional e nos colocamos quando vamos falar publicamente. Isso é um desafio. Mas há o lado bom também: recebemos muito carinho e somos escutados – isso é um privilégio. E sabemos que tenis yna uma função de transformar as narrativas dos tempos em que vivemos. Mas não podemos ficar por aí Temos que sempre produzir mais coisas, renovar nossa linguagem e escolher nossos próximos trabalhos. Não podemos estacionar nos nossos benefícios. Tem que ser um motor para darmos o próximo passo.

ÉPOCA – No livro, você comenta como suas posições pessoais sobre questões estético-raciais, como asssumir os dreadlocks nos cabelos, influenciaram sua família a aceitar a negritude. Para o negro, qual a importância de assumir essa estética negra?

Ramos – Cada um tem a liberdade de se colocar esteticamente se quiser e quando quiser, se fizer sentido para ele mesmo. Acho que, durante muito tempo, uma estética mais negroide e um tipo de vestuário era considerado uma coisa menor e de menor beleza. A gente passa por um momento agora, o tal do empoderamento, que tem vários aspectos. Um deles é a estética, que é um movimento muito saudável. Algumas pessoas dizem assim: “Ah, eu tenho este cabelo aqui e acho legal usar ele assim. Eu vou onde eu quiser, com esse cabelo e vestido desta maneira”. Isso mexe com a nossa autoestima. A gente passa a se considerar possível e potente. Às vezes, parece que é uma coisa só simbólica, mas não é não. Afeta muito a nossa maneira de se colocar no mundo e diz a maneira como a gente quer ser visto. Mas isso não deve ser um padrão para as pessoas. Só pra quem fizer sentido.

ÉPOCA – No livro, nota-se que você tomou cuidado em abordar a questão da raça. Por quê?

Ramos – Eu vou devagarinho, porque quero provocar uma conversa. Não quero arrotar uma verdade e perder o ouvido de quem está conversando comigo. Eu acho esse assunto tão importante, que acho que tem que ser um assunto de todos nós. A gente tem que ter uma qualidade de conversa diferente de algumas que vemos por aí. Às vezes, as pessoas conversam apenas esperando a pausa do outro pra dizer a sua verdade. O que eu quero é escutar você que está falando comigo e ser capaz de produzir um novo olhar sobre o nosso assunto. É por isso que eu tenho essa cautela. Como comunicador, eu escolhi, neste momento da minha vida, provocar diálogos. Este livro é uma busca por um diálogo, contando histórias pelas quais eu espero que as pessoas tenham uma empatia, se envolvam na situação e, a partir daí, produzam um novo pensamento. Nem sempre, pra mim, é possível ser assim. Porque eu também sou ser humano e sou afetado por essas coisas. Às vezes, o meu discurso é mais incisivo, porque sinto que em algumas situações você precisa ser assim. Quando você é agredido, quando lhe tiram algum direito ou ultrapassam um limite. Mas, no geral, procuro provocar diálogos.

ÉPOCA – No livro, você diz que o racismo “é o crime perfeito que só a vítima vê”. O que você quer dizer com isso?

Ramos – O crime perfeito é aquele que só a vítima vê. E, às vezes, tem gente que vê e finge que não vê. É muito complexa essa questão. Porque, às vezes, quando uma pessoa se sente ofendida ou discriminada, e ela vai tentar expressar isso, há uma tentativa de silenciar. Ainda não conseguimos diagnosticar com exatidão o nosso racismo, porque tentam silenciar quem sofre com ele e tenta expressar. A resposta vem mais dura ainda e a gente não estabelece o diálogo. A gente precisa olhar para o racismo brasileiro, precisa diagnosticar e conversar sobre esse assunto. E, principalmente, a gente precisa saber que isso é um assunto que não diz interesse apenas ao negro. A gente quer uma nação mais igual para todos, onde a gente possa expressar o nosso afeto. A gente fica falando de racismo como se fosse uma demanda social, mas, pra mim, trata-se também de uma questão de afeto. Como eu te afeto, como você me afeta e, a partir daí, como a gente se relaciona.

Livro infantil que sugere casamento entre pai e filha é recolhido no ES

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Obra de autor capixaba é usada no programa de alfabetização por crianças de 6 a 8 anos

Carolina Samorano, no Metropoles

Um livro infantil usado na educação básica pública no Espírito Santo tem causado polêmica no estado ao sugerir, em um dos seus contos, um casamento entre pai e filha. As prefeituras das cidades onde ele é lido em sala já avisaram, na última semana, que vão recolher os exemplares.

“Enquanto o sono não vem”, do autor capixaba José Mario Brant é um livro de contos que faz parte do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC), do Ministério da Educação. As obras do PNAIC passam por revisão da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

No conto “A triste história de Eredegalda”, um dos personagens sugere se casar com uma das filhas, que acaba morrendo no fim da história.

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Ao site G1, o escritor, disse que conta a história publicada há mais de 25 anos e ficou surpreso pela reclamação dos professores.

Há uma desinformação do que é o conto folclórico e o de fada, que são territórios que abordam assuntos delicados”, disse. “A gente está falando de um universo simbólico. É uma história que dá voz a uma vítima”.

A UFMG também saiu em defesa do livro e justificou que a polêmica é fruto de um “julgamento indevido construído por leitura equivocada”.

No projeto, o livro é destinado a alunos do primeiro ao terceiro ano, com entre 6 e 8 anos de idade. Brant, no entanto, diz que pensou a obra para “leitores jovens”, mas que ela poderia ser aplicada a crianças, desde que com bom trabalho pedagógico.

De vestido e salto alto, aluno gay do ITA protesta na formatura em S. José

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Aluno homossexual levava palavras de protesto chamando o ITA de machista e elitista (Foto: Arquivo Pessoal)

Aluno homossexual levava palavras de protesto chamando o ITA de machista e elitista (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Ele diz ter sido vítima de homofobia na instituição por sua orientação sexual.
Talles, de 24 anos, se formou engenheiro no último dia 17

Poliana Casemiro, no G1

Um formando do curso de engenharia do Instituto de Tecnologia Aeronáutica (ITA) em São José dos Campos (SP), uma das instituições mais renomadas do país, fez um protesto durante a solenidade de colação de grau no último sábado (17). Talles de Oliveira Faria, de 24 anos, é homossexual e recebeu o diploma trajando roupas femininas estampadas com palavras de protesto. Ele diz ter sido vítima de homofobia dentro da instituição. O ITA nega que discrimine alunos por sua orientação sexual. (leia mais abaixo)

Talles se formou em engenharia da computação e diz ter sido forçado a deixar a Força Aérea por sua orientação sexual -os alunos optam pela carreira militar ou civil durante o curso no ITA. O jovem tinha escolhido a carreira militar, mas diz que foi obrigado a desistir por ter ‘tom moral e profissional incompatíveis com a ética militar’. O engenheiro foi alvo de uma sindicância em 2015.

Durante a formatura, ele exibiu nos trajes palavras de protesto que chamavam a instituição de machista, elitista e meritocrática.

Ele conta que sua orientação sexual nunca foi segredo para a família e que decidiu expor que é gay ao entrar no ITA. “Acreditava estar em um ambiente acadêmico e, portanto, de diálogo [onde não haveria problemas]”, comentou. Ele relata que a decisão de assumir a sexualidade o afetou durante a permanência na instituição.

Ato contra homofobia
Ele diz que foi forçado a pedir dispensa da carreira militar após ser flagrado em trajes femininos. Segundo Talles, ele teria participado de um ato no dia 18 de maio do ano passado, para celebrar o dia nacional contra a homofobia – a manifestação foi em uma zona militar, dentro das dependência do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), onde fica o ITA.

No dia, ele se vestiu de mulher e participou de uma passeata organizada pelo Agita –grupo que representa o grupo LGBT dentro do instituto. Depois disso, conta que foi alvo de uma sindicância, que terminou com com a dispensa militar.

Por causa da sanção, ele disse que decidiu ir à formatura em trajes femininos. Ao ser chamado para buscar o diploma, ele retirou a beca e exibiu um vestido vermelho, rosto maquiado e salto alto. No vestido, ele trazia as inscrições “Ita – Excelência em: homofobia, machismo, elitismo e falsa meritocracia”. A ação rendeu vídeos e repercutiu na web.

“A minha orientação sexual não me impediu de me formar na melhor instituição do país, ela não me faz diferente de ninguém. Eu saio daqui fortalecido por tudo que eu passei. Sei que fiz o que deveria ter feito e não me omiti da injustiça social”, avaliou.

Punição
Na sindicância aberta para apurar a conduta de Talles no ato contra homofobia, o Comaer ainda o acusou de violência a símbolos religiosos, por compartilhar memes com a figura de Jesus no Facebook. Ao todo, eram cerca de seis apontamentos sobre a conduta, que poderiam expulsá-lo do militarismo e, em consequência, do próprio ITA – ele foi poupado do último.

Talles buscou advogados na época do ocorrido, mas diz que preferiu abrir mão da força militar, com a condição de permanecer no ITA, já que estava no último ano da graduação. Ele entregou um pedido de dispensa ao comando no dia 27 de abril deste ano – ele reafirma que foi obrigado a tomar essa decisão.

“Fui surpreendido ao ser punido por publicações pessoais, sem relação alguma com a instituição. As sanções todas poderiam me expulsar da força militar e, em consequência, do próprio instituto. Para não perder a graduação eu aceitei a segunda orientação, a de pedir minha dispensa por ‘razões pessoais’”, disse.

Aluno alega ter sofrido retaliação por orientação sexual dentro da instituição (Foto: Arquivo Pessoal)

Aluno alega ter sofrido retaliação por orientação sexual dentro da instituição (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Talles explica que a ‘saída’ da carreira militar foi a mais extrema da instituição, mas que durante os cinco anos da graduação passou por outros episódios de constrangimento. Ele diz que foi preso por quatro dias por usar cabelos descoloridos. Em outra ocasião, ele permeneceu mais quatro dias preso por uso de blush. Todas as punições foram aplicadas após notificações de oficiais da Força Militar.

“Em nenhum momento os oficiais me condenaram por minha orientação e posição, mas em todo o tempo eles usavam minha forma de ser para aplicar sanções. Mulheres tinham luzes no cabelo e usavam maquiagem, mas não eram punidas, por exemplo. Uma coisa é ter homofobia descarada, mas o que acontece na aeronáutica ocorre de forma forte e indireta”, contou Talles.

Outro lado
O Comaer informou, por email, que nas formaturas do ITA apenas os alunos militares têm uniforme definido, sendo previsto para formandos civis apenas o traje de passeio – portanto, a vestimenta de Talles não é passível de punição.

O comando destacou que o ITA não questiona nem registra a orientação sexual de seus alunos e formandos. “O ITA não discrimina alunos por sua orientação sexual, gênero, condição social, credo ou raça. A reitoria repudia qualquer ato de homofobia ou discriminação”, diz a resposta enviada à reportagem do G1 na manhã desta terça.

Mais tarde, em nota enviada à reportagem às 18h50 desta terça, o ITA destacou que alunos militares são subordinado à regras específicas e que as transgressões cometidas pelo aluno são passíveis de punição e se aplicariam a qualquer militar.

A instituição apontou conduta inadequada do ex-aluno nas redes sociais, com desrespeito a símbolos nacionais e citações que relacionam a Instituição a assuntos político-partidários, sexuais e religiosos. No entanto, o Comaer diz que Talles não sofreu punição por este motivo.

“Relembramos que a carreira militar é composta de prerrogativas, direitos, deveres e obrigações, desta forma, todos os militares são submetidos às regras que conduzem sua rotina e sua conduta. O engenheiro Talles era consciente de seus deveres e também de seus direitos, no entanto, apesar de gozar de seus benefícios, não cumpriu plenamente seus deveres como militar da Força Aérea Brasileira”, concluiu.

Sobre a alegação do ex-aluno, de que teria sido ´pressionado a deixar a carreira militar, a instituição defende que foi uma decisão unilateral de Talles. “Com a intenção de permanecer cursando o ITA uma vez que as diversas transgressões disciplinares que cometeu levariam a um comprometimento de sua avaliação como militar”, diz a nota.

Dentre tais transgressões, o comando cita que estão a apresentação do uniforme em desalinho e a não utilização correta do uniforme.

A nota conclui informando que Talles tenta realizar mestrado no ITA e que isso comprovaria que ele considera a instituição um ambiente satisfatório. Sobre a acusação de monitoramento de mídias sociais, o Comaer garante que não há uma busca ativa pelos perfis dos alunos.

Aluno comemora formação após processo administrativo (Foto: Arquivo Pessoal)

Aluno comemora formação após processo administrativo (Foto: Arquivo Pessoal)

Redação do Enem 2015 ‘plantou uma semente’, diz Maria da Penha

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O G1 ouviu a vítima de violência que dá nome à lei abordada na prova.
‘Está na boca do povo agora’, disse a cearense, que hoje tem 70 anos.

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Publicado em http://g1.globo.com/educacao/enem/2015/noticia/2015/10/redacao-do-enem-2015-plantou-uma-semente-diz-maria-da-penha.html

Enquanto 5,7 milhões de candidatos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) redigiam, na tarde deste domingo (25), uma redação com base na lei que leva seu nome, a farmacêutica e ativista cearense Maria da Penha Maia Fernandes, de 70 anos, era uma das cinco pessoas homenageadas no centenário da Editora Paulinas, no Recife. Foi durante esse evento que ela descobriu o tema da prova de redação do Enem 2015, da boca de uma das candidatas da prova.

“Uma menina que tinha feito o Enem se aproximou de mim, pediu uma foto e falou: ‘a senhora soube que a redação foi sobre a Lei Maria da Penha?'”, contou ela, em entrevista por telefone ao G1, nesta segunda (26).

“Fiquei feliz, o tema realmente está na boca do povo agora. Plantou uma semente”, explicou Maria, que é de Fortaleza e, em 1983, ficou paraplégica depois de seu marido tentar assassiná-la com um tiro nas costas, enquanto ela dormia. O agressor foi condenado, mas foi solto depois de cumprir parte da pena. Hoje está livre.

O tema da redação do Enem 2015 foi “a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, e provocou polêmica nas redes sociais.

A ativista afirma que não parou para pensar na quantidade exata de pessoas que fizeram a prova de redação, mas diz que ele é “muito significativo”, e um sinal de que “a lei está sendo comentada e conhecida na vivência de cada um e também na escola, porque despertou nas pessoas a necessidade realmente de conhecer o funcionamento da lei, e de entender mais profundamente a situação”.

Propostas sugeridas
Maria da Penha elogiou o conteúdo dos textos de apoio da prova de redação, que levantaram uma série de dados sobre a violência contra a mulher: números históricos sobre assassinatos de mulheres, tipos de violências mais denunciados no Disque 180, que, segundo o levantamento divulgado na prova, já recebeu 237 mil relatos de agressão contra mulheres, a questão sobre o feminicídio e estatísticas sobre a aplicação real da Lei Maria da Penha, que está perto de completar dez anos.

“Foram muito felizes os tópicos, deu um direcionamento no que o aluno pode escrever, e realmente o poder público precisa estar mais presente para que a lei funcione com mais rapidez e as mulheres possam evitar o assassinato de mulheres”, comentou ela, destacando um dos números apresentados na prova, o de que apenas 33% dos casos denunciados entre 2006 e 2011 chegaram a ser julgados.

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Ao fazer o exercício de sair do papel de “rosto da lei de combate à violência contra mulheres”, e se colocar no lugar dos estudantes que fizeram o Enem, Maria da Penha contou ao G1 que sua proposta de intervenção social teria duas frentes: a educação e as políticas públicas.

“[Minha proposta] seria a de investir na educação para conscientizar as pessoas de que as mulheres, em seus relacionamentos, têm que ter seus direitos humanos respeitados. A educação trabalha nesse sentido, do respeito ao outro”, explicou ela. “E também que haja uma mudança da cultura machista, com a criação das políticas públicas onde a mulher possa denunciar, possa ser protegida, e o seu agressor possa ser punido. A finalidade da lei é exatamente punir o agressor. A gente não quer punir o homem, a gente quer punir o homem que não respeita sua mulher.”

A candidata pernambucana do Enem que lhe deu a notícia do tema da redação comemorou o assunto da prova, que ela já conhecia. Mas a ativista explicou que mesmo estudantes que não estão próximos do tema puderam aproveitar a riqueza dos dados apresentados nos textos de apoio, que deram “um apanhado geral da gravidade do caso”.

Lei sozinha ‘não sai do papel’
Com a vida pessoal “praticamente inexistente” em nome da luta para “tirar a lei do papel” em todo o país, Maria, que fundou o Instituto Maria da Penha para atuar na área, conta que passou a viajar muito pelo Brasil, e se deparou com muitos municípios onde os políticos não têm interesse em garantir o apoio do poder público às mulheres vítimas de violência.

“Têm municípios que estão bem estruturados, e a população está cada vez mais consciente, mas infelizmente a cultura machista ainda interfere em muitos municípios, na falta de políticas públicas, falta de interesse dos políticos para que a lei funcione de verdade, que saia do papel.”

O motivo final de comemoração pela abordagem do tema pelo Enem, na visão dela, são os desdobramentos que podem ir além da nota que cada candidato ou candidata vai receber no fim deste ano, após a correção das redações. “Num futuro próximo, os estudantes que ontem fizeram o Enem vão ser os profissionais que vão atender os casos previstos na Lei Maria da Penha.”

Indianos criam super-heroína dos quadrinhos que foi vítima de estupro

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Um novo livro de quadrinhos que tem como superheroína uma vítima de estupro foi lançado na Índia para chamar a atenção sobre o problema da violência sexual no país.

Cineasta criou heroína depois de ter contato com protestos contra a violência sexual na Índia

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Geeta Pandey, na BBC

O Priya’s Shakti, inspirado por histórias motológicas hindus, conta a história de Priya, uma jovem que sobreviveu ao ataque de uma gangue de estupradores, e da deusa Parvati. As duas lutam juntas contra os crimes de gênero na Índia.

O cineasta indiano-americano Ram Devineni, um dos criadores da obra, disse à BBC que teve a ideia de fazer a história em quadrinhos em 2012, quando uma onda de protestos se espalhou pelo país após o estupro e o assassinato brutal de uma estudante de 23 anos em um ônibus de Nova Déli.

“Eu estava em Déli quando os protestos começaram e me envolvi em alguns deles. Eu conversei com um policial e ele disse uma coisa que me surpreendeu. Disse que garotas sérias não andam sozinhas à noite”, afirmou Devineni.

“A ideia começou desse jeito. Eu percebi que o estupro e a violência sexual na Índia eram culturais e que se sustentavam pelo patriarcalismo, pela misoginia e pela percepção popular”.

Projeto de livro em quadrinhos quer mudar mentalidade da população sobre violência sexual

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Heronína é expulsa de casa por familiares ao revelar que foi vítima de estupro

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Na sociedade indiana, muitas vezes é a vítima do estupro – e não o agressor – que é tratada com ceticismo e acaba sendo submetida ao ridículo e à exclusão social.

“Eu conversei com sobreviventes de ataques de gangues de estupradores e elas disseram que foram desencorajadas por familiares e pela comunidade a procurar justiça. Elas também foram ameaçadas pelos estupradores e suas famílias. Nem a polícia as levou à sério”, disse Devineni.

Os quadrinhos refletem uma realidade dura: quando Priya conta a seus pais sobre o estupro, ela é culpada por ele e expulsa de casa.

Heroína indiana tem ajuda de deuses da mitologia hindu para superar trauma e vencer adversários

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A personagem representa uma mulher indiana genérica e suas aspirações. “Ela é como todos os rapazes e moças que querem viver seus próprios sonhos. Mas esses sonhos foram destruídos após o estupro”, disse Devineni.

No livro, com a ajuda de Shiva e Parvati – o casal de deuses mais poderoso na cultura hindu – Priya consegue transformar sua tragédia em uma oportunidade.

No final ela volta à cidade montada em um tigre e derrota seus adversários.

Devineni disse que escolheu usar elementos da mitologia poque o hinduísmo é a religião majoritária do país – 80% da população, ou 1,2 bilhão de pessoas, são hindus – e seus mitos e histórias estão enraizados em sua vida cultural.

Ele convenceu artistas de rua e criadores de pôsteres de filmes de Bollywood a pintar murais inspirados na história em quadrinhos na favela de Dharavi, em Mumbai, considerada a maior da Ásia.

As pinturas têm “recursos de realidade aumentada”, que permitem às pessoas ver figuras “saltarem” da parede quando são vistas por meio das câmeras de smartphones.

É possível baixar da internet cópias do livro em hindi e em inglês. O trabalho será exibido em uma feira de quadrinhos em Mumbai em dezembro.

“Nosso público alvo vai desde crianças entre 10 e 12 anos a jovens adultos. É uma idade crítica nas vidas deles e por isso estamos fazendo uma tentativa de conversar com eles.”

Ativistas tentam mudar mentalidade indiana de que a mulher é quem tem culpa pelo estupro

Ativistas tentam mudar mentalidade indiana de que a mulher é quem tem culpa pelo estupro

Na Índia, onde em média um estupro é comunicado a cada 21 minutos, o crime ocorrido em Déli no ano de 2012 foi um divisor de águas. A brutalidade dos seis agressores deflagrou uma série de protestos e forçou o governo a criar leis antiestupro, prevendo inclusive a pena de morte para violência sexual muito grave.

Mas analistas dizem que as leis mais duras resolvem apenas parte do problema. Ele seria resolvido apenas com a criação de consciência e mudança de atitudes sociais.

Davineni diz que esse é o objetivo do livro.

Urvashi Butalia, líder da editora feminista Zubaan Books, diz que o sucesso ou fracasso dependerá “muito da história” e de “quantas pessoas ela atinge”. Segundo ela, tudo que gera algum diálogo ajuda.

Versão em inglês de livro em quadrinhos poderá ser baixado pela internet

Versão em inglês de livro em quadrinhos poderá ser baixado pela internet

“Muitas das mudanças do mundo começaram como ideias. E essa é uma ideia interessante – não há muitas super heroínas”, disse ela.

Jasmeen Patheja é fundadora do Projeto Blank Noise, que realiza uma campanha chamada “eu nunca pedi por isso” referindo-se a agressões sexuais.

O projeto cria instalações urbanas e galerias de imagens na internet com as roupas que as vítimas estavam usando quando foram abusadas em uma campanha para “rejeitar a culpa”.

A maior mudança, segundo ela, será quando “as pessoas entenderem que não há desculpa que justifique a violência sexual, como as roupas que as vítimas estavam usando, a hora ou o lugar em que estavam”.

“Romances, quadrinhos, livros de histórias, filmes – todos têm grande potencial para ajudar”, disse Patheja.

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