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10 citações de Lolita, Vladimir Nabokov

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Rafhael Peixoto, no Literatortura

Lolita está para a literatura como um clássico, não sendo para menos. A capacidade narrativa de Nabokov expõe de forma fatal as vertentes de um bom autor e de uma grande obra. A relação que se estabelece entre leitor e narrativa vincula-se já no primeiro momento e é preciso ter cuidado, claro! Cuidado para não cair nas garras de Humbert Humbert tão facilmente. Em matéria recente feita pelo Literatortura, onde eram levantados os narradores em que não se pode confiar, eis que surge a sua figura, e é ela que norteia toda a narrativa. Sendo avisado desta perspectiva, ainda assim confesso que, na condição de leitor, foi a primeira coisa que fiz, acreditei nas boas intenções de Humbert. Só em poucos momentos questionei o amor a sua Lolita e tudo que até então ele havia feito. Mas a vida literária é assim, lendo e aprendendo a quebrar a cara. Eis as dez citações que achei interessante na obra. Outras se perderam pelo caminho, mas, com certeza você, leitor, as regatarão nos comentários.

1 – “Lolita, luz da minha vida, fogo da minha carne. Minha alma, meu pecado. Lo-li-ta: a ponta da língua toca em três pontos consecutivos do palato para encostar, ao três, nos dentes. Lo. Li. Ta.”

Em que momento um livro lhe captura? Em alguns casos, é difícil responder a esta questão, mas não o é em Lolita. Já no primeiro parágrafo, há um laço ao leitor. Isto caracteriza também, do meu ponto de vista, o grande autor que é Vladimir Nabokov. Quem, ao ler as primeiras palavras, não se transfere da condição de leitor à personagem da narrativa, ao colocar em sua boca a separação de Lo – li – ta, como a conferir-lhe a veracidade de sua própria língua? E é este o grande trunfo utilizado, a junção de leitor e personagem já nas primeiras linhas da narrativa.

2 – “Senhoras e senhores do júri, a prova número um é aquilo que os serafins, os próprios serafins desinformados e simplórios com suas asas preciosas, invejaram. Contemplai esse emaranhado de espinhos.”.

Outra citação da primeira página do livro. Já nos primeiros instantes, o personagem revela o final da narrativa, a sua condenação. A partir deste ponto, tudo será defesa. O interessante é que, à medida que constrói a narrativa, você questiona porque efetivamente ele está sendo condenado. O final(contemplai esse emaranhado de espinhos) é arrebatador também, é como dizendo ao leitor “sente aí e me acompanhe”.

3 – “Ela se empenhou em aliviar a dor do amor primeiro friccionando com força seus lábios secos contra os meus; em seguida, minha querida se afastou jogando nervosa os cabelos para trás e logo se aproximou de novo na sombra deixando que eu me alimentasse em sua boca aberta, enquanto com uma generosidade pronta a oferecer-lhe tudo, meu coração, minha garganta, minhas entranhas, entreguei-lhe para segurar no punho desajeitado o cetro da minha paixão.”

Já no prefácio do livro, há uma revelação sobre a escrita de Nabokov, sendo ela, a falta de “termos vulgares”, por mais que a temática permeie por um campo moralmente condenável. Se deparar com uma situação como a desta citação, por exemplo, que exige do leitor muito mais do que uma leitura passiva e linear, que exige do leitor um olhar perspicaz para a cena, e que consegue fazer da própria cena uma grande construção narrativa sem que precise necessariamente falar dos aspectos óbvios de uma cena de sexo, é de um gozo sem tamanho para os amantes da boa literatura.

4 – …”Como eu esperava, ela deu o bote sobre o frasco contendo cápsulas rechonchudas, lindamente coloridas e carregadas do Sono da Bela.

“Azul!”, exclamou ela. “Azul violeta. Do que elas são feitas?”

“Céus de verão”, disse eu, “ameixas e figos, e o suco de uva dos imperadores”.”

Neste ponto, mais uma vez é ressaltada a capacidade do narrador, quando Humbert Humbert apresenta a Lolita às pílulas que havia encomendado para fazê-la adormecer. Poeticamente, ele constrói outro sentido as pílulas no intuito de capturar a atenção da garota. Esta citação prova quão ardiloso o personagem pode parecer para a relação com a menina, bem como o poder de ludibriação do leitor em outros momentos.

5 – “…e um beijo no último minuto pretendia reforçar a mensagem mais profunda da peça, a saber, que ilusão e realidade fundem-se no amor.”

A peça ensaiada por Lo ao longo da narrativa é um reflexo da própria condição amorosa por eles enveredada, principalmente da perspectiva de Humbert. Não à toa, atrelada a construção psicológica do personagem, une-se a concepção de amor como fusão da ilusão e realidade. Neste ponto, a realidade estaria dada e a construção ilusória ficaria por conta do personagem narrador, que constrói um próprio universo de significação para os dados reais.

6 – “As lonas de freio foram trocadas, as mangueiras de água desentupidas, as válvulas limadas e uma série de outros reparos e melhoramentos pagos pelo não muito mecanicamente inclinado mas prudente papa Humbert…”.

A citação não é de grande relevância para o conjunto da obra se observada pontualmente, mas é importante pontua-la pela capacidade que nela se impõe de contribuir para a construção do narrador personagem. Desta forma, ela poderia ser substituída por qualquer outra citação em que o narrador se distancia da primeira pessoa e se coloca como elemento outro da história. Falar em terceira pessoa sobre si diz muito na construção do personagem Humbert Humbert.

7 – “Tente imaginar, leitor, com toda a minha timidez, minha falta de gosto por qualquer ostentação…”

Esta também poderia ser substituída por outras citações. Não pode ser deixado de observar, por sua vez, o dialogo que se estabelece diretamente com o leitor. O narrador clama ao sujeito que o acompanha que este se coloque em seu lugar.

8 – “Um dia removi do carro, e depois destruí, todo uma cúmulo de revistas para adolescentes. Devem conhecer o tipo. Em matéria emocional, a Idade da Pedra; atualizada, ou pelo menos miceniana, em matéria de higiene. Uma bela e maduríssima atriz com cílios imensos e o lábio inferior carnudo e muito rubro, afirmando que usava uma certa marca de xampu. Anúncios e modas. As jovens estudantes adoram a profusão das saias plissadas… A menos que seja bem mais velho ou muito importante, o cavalheiro deve sempre tirar as luvas antes de tomar a mão…Facilite um novo romance usando o novo corpete para uma barriga lisa…O enigma matrimonial entre Fulano e Beltrana vem exaurindo ás línguas.”

Toda história, seja fictícia ou real, é narrada a partir de um espaço. Dada a construção deste espaço, do meio social, achei importante trazer esta citação, pois ela me chamou a atenção pela sua contemporaneidade, mesmo escrita vários anos atrás. A típica revista adolescente descrita por Humbert não varia em quase nada dos modelos que acompanhamos nas bancas nos dias de hoje. Uma critica a nossa sociedade?!

9 – “… – e eu não conseguia parar de olhar para ela, e soube tão claramente como sei agora, que estou prestes a morrer, que a amava mais que tudo que já vi ou imaginei na Terra, ou esperei descobrir em qualquer outro lugar. Ela era só um eco de aroma tênue violeta e folhas mortas da ninfeta sobre quem eu rolara no passado com tantos gritos; um eco à beira de uma ravina rubra, com um arvoredo esparso sob um céu branco, folhas castanhas entupindo o leito do riacho, e um último grilo perdido em meio à relva ressecada… mas graças a Deus não era só esse eco que eu adorava.”

Dois momentos marcam esta citação: a primeira, na mensuração do amor de Humbert por sua Lolita; a segunda, pela quebra da ilusão da imagem por ele construída. Importante destacar que mesmo sendo atingido pelo confronto realidade x idealização, ele declara um amor que atravessa essa imagem feita por ele.

10 – “Parou à procura das palavras. E eu as forneci mentalmente (“Ele” partiu meu coração. “Você” só devastou a minha vida”).

Já nos momentos finais da narrativa, quando experimenta fazer uma reflexão acerca da posição de Lolita, o narrador reconduz quais as consequências possíveis de sua ação sobre a menina. E são nestes fragmentos que o narrador consegue cativar ainda mais o olhar do leitor, quando se coloca na condição humana de captar a essência do outro, de percebê-la enquanto ser que sofre as consequências de um amor sem limites.

Dicas importantes para estudantes melhorarem o desempenho

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Crédito: Shutterstock.com     Para consolidar aquilo que você estudou, crie um mapa mental

Crédito: Shutterstock.com
Para consolidar aquilo que você estudou, crie um mapa mental

Quer tirar notas mais altas? Conheça dicas importantes para estudantes que querer melhorar o seu desempenho e obter resultados melhores

Publicado no Universia Brasil

O desejo de todo estudante empenhado é conseguir notas boas em seus trabalhos e provas. Porém, algumas vezes, só estudar não basta, já que existem estratégias para aproveitar melhor os estudos. Confira dicas importantes para quem quer melhorar o desempenho acadêmico e ser um aluno de sucesso:

1 – Faça anotações

Uma das maneiras mais eficazes de aprender o conteúdo e ir bem em provas é anotando as coisas importantes da aula. Escreva as dicas e explicações dos professores nas bordas dos livros e apostilas e isso irá ajudá-lo bastante no momento do estudo.

2 – Caneta marca texto

Se você deseja lembrar termos e nomes importantes, a caneta marca texto é a sua amiga. Tenha sempre uma em mãos na hora de ler livros e apostilas importantes para a prova.

3 – Mapa mental

Para consolidar aquilo que você estudou, crie um mapa mental. No meio de uma folha, escreva o conceito principal do conteúdo e, a partir disso, vá criando ramificações. Essa estratégia é muito eficaz principalmente em alunos que possuem memória visual.

4 – Cartões de estudo

Os flashcards, também conhecidos como cartões de estudo, são ótimos para alunos que precisam estudar um conteúdo muito grande em pouco tempo. Você escreve uma pergunta em um lado do cartão e, do outro lado, a resposta.

5 – Associações

Crie associações entre os termos e conceitos de uma matéria com coisas que você tem ao seu redor ou palavras comuns. Por exemplo: o triângulo isósceles é aquele que possui dois lados iguais. Pense que “iso” lembra isolado, como o único lado do triângulo que possui outra medida.

6 – Músicas

Principalmente nos cursinhos, existem várias músicas criadas por professores para ajudar na memorização de um conceito ou regra. Por exemplo: “Planária, você não me engana, você excreta pela célula flama”.

7 – Desenho

Crie desenhos sobre as teorias que você estuda. Além de interpretar o que está escrito, fica mais fácil memorizar essa informação.

O que será de nossos meninos e meninas?

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Sem saber do passado, sem ter um presente, serão eles que cuidarão do futuro? (Foto: João Machado)

Sem saber do passado, sem ter um presente, serão eles que cuidarão do futuro? (Foto: João Machado)

Na ‘Visita de Domingo’, Mônica denuncia a tragédia da educação no Brasil – nosso maior escândalo. Uma geração perdida, incapaz de raciocinar.

Mônica El Bayeh na Época
Trabalho escrito no quadro: como eles se imaginavam dali a vinte anos. Uma tentativa de visualizar um futuro. De preferência, um futuro melhor, descobrir possibilidades. As perguntas eram simples: quantos anos teriam? Qual profissão? Casados? Filhos? Morariam onde? Simples? Não para todos.

- Ô professora, e como é que eu vou saber quantos anos eu vou ter daqui a vinte anos? Eu hein, você é tão engraçada…
- Soma vinte!

Não somava. Foi o que eu descobri. Não somava dois mais dois. Tinha dezesseis e, por conta da idade avançada, foi jogado no sexto ano. Disseram que era promoção. Foi promovido ao sexto ano. Como? Pergunte às ordens sinuosas que recebemos das altas autoridades educacionais.

Meu aluno não é exceção, é regra. Só mais um nessa multidão de alunos empurrados com a barriga de quem quer números, mas não se dispõe a investir. Ficou chocado? Leia mais uma.

Trabalhava, na aula de francês, o verbo ‘être’ (ser ou estar). Mantinha o sujeito e o verbo fixos. E mudava só os complementos, fazendo frases novas. Pedia que eles copiassem.

Descobri que tudo que eu apagava no quadro, uma aluna apagava também em seu caderno. A página já estava até meio rasgada de tanto atrito.

- Ô professora, você está de sacanagem comigo! Para que você manda copiar se tem que apagar depois? Eu não vou apagar mais nada, não!
- Tem toda razão, não apague mesmo.

Dia de prova. Eles poderiam consultar o caderno. No caderno, três exercícios, feitos em aula, que eram iguais à prova, poucas palavras diferentes para disfarçar. Percebi que eles não conseguiam fazer, mesmo assim. Pedi que interrompessem a prova, que dessem um tempo. Fui ao quadro e fiz, junto com eles, várias frases parecidas. Uma revisão da matéria.

Fingi que me esqueci de apagar. Larguei as respostas da prova no quadro! Não adiantou nada. Até Deus, fé e Amém preenchiam as lacunas. Mas verbo correto, que é bom, não apareceu. Pelo visto, não rezaram o suficiente.

O que fez o resultado da minha prova ser um fiasco foi a incapacidade de pensar, de construir, de juntar as partes e enxergar um todo. Não é por ser francês, posso garantir. É porque eles não ligam o nome à pessoa.

Sem esse blá blá blá tosco de que, como mal sabem português, para que afinal outra língua… Isso é medíocre. Uma língua amplia o aprendizado da outra. Uma língua ensina a outra. Pergunte a quem sabe várias.

O PISA (programa internacional de avaliação de estudantes) é um exame que avalia os estudantes que estão concluindo o ciclo básico de ensino nas áreas de matemática, ciências e leitura. Nos exames, nossa posição é um triste e humilhante trigésimo oitavo lugar num ranking de quarenta e quatro países.

Os alunos brasileiros estão entre os piores em teste de raciocínio lógico. Tem novidade nisso? Não para quem está em sala de aula. É triste, mas não acho que seja surpresa. Já sabíamos disso. Era uma tragédia anunciada. Professores e alunos são todos vítimas da mesma política educacional de fachada que nos jogou no fim da lista dos avaliados. Vivemos numa política de educação pública onde a qualidade e o investimento beiram o nada.

A começar pelo salário dos professores. Além de receberem péssima remuneração, são obrigados a aprovar alunos. Seja por ordens camufladas e indecentes, seja pela necessidade de ganhar o salário extra que vem de prêmio por aprovação.

Nós temos fome de livros, filmes, poesias, músicas que nos falam à alma e nos dão colo e alento.Vemos alunos que chegam com fome de merenda, não de saber. Muitos nem trazem material. Recebem cadernos e material escolar do município. Quebram as réguas, derramam a cola pelas carteiras. Jogam livros nos telhados vizinhos. As mochilas ganhas são largadas pelas ruas como se fosse lixo.

Dos cadernos fazem bolas de papel, aviõezinhos. Mas todos têm celular dos que têm internet e tocam música. Vários nunca entraram num teatro, nunca leram um livro. Mas desfilam com tênis da moda, e ainda riem dos que compram na ¨feirinha¨.

Os valores estão fora de ordem. Mergulhamos numa cultura rasteira de embates corporais. Movida pelos impulsos descoordenados. Eles se batem, brigam, brincam de se bater. Eles se esfregam, se oferecem, se seduzem e partem para os finalmente.  Se autodenominam cachorras e cachorros! E acham isso ótimo.

O que nos permite distanciamento do corpo é o respeito, o cuidado, o afeto e o saber. Eles têm algum desses itens? Muitos sim, com certeza. Infelizmente, não a maioria.

Eles trabalham na incapacidade de mediar pensamento e ação. Se forem contrariados, avançam, ameaçam e muitas vezes agridem mesmo, partem para cima. Sabe o que acontece? Nada acontece. E assim seguimos num fio de esperança tênue. Cada vez mais esfolados.

O nome do exame é Pisa. Nosso resultado nele: mais inclinado que a torre da Itália e tendendo ao chão.

Uma quantidade grande de nossos alunos não desenvolveu a capacidade de raciocinar de uma forma mais ampla e aprofundada, é só entrar numa sala e observar. Eles saem da escola. Viram entregadores de pizza, água, marmita, farmácia. Isso quando não vão para a bandidagem.

O que vai ser desses meninos? O que será de ‘nos enfants’? São eles que ficarão aí para cuidar do futuro? Sinto medo do que nos espera.

Outros trabalhos da autora

https://twitter.com/monicabayeh

http://poesiatodaprosa.blogspot.com.br/

Escola flutuante em favela africana ganha prêmio de design

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Protótipo de escola flutuante, construído para a comunidade de Makoko, na Nigéria

Protótipo de escola flutuante, construído para a comunidade de Makoko, na Nigéria

Publicado por BBC [via UOL]

Uma exposição no Museu do Design de Londres reúne os melhores projetos deste ano nas categorias arquitetura, moda, mobiliário, produtos, gráfica e transporte.

Entre os premiados está o protótipo de uma escola flutuante, construído para a comunidade de Makoko, na Nigéria. O prédio de madeira segue uma abordagem inovadora, sustentável e barata, atendendo às necessidades da população local, que vive em palafitas sobre a Lagoa de Lagos.

Outros destaques da mostra incluem um aplicativo de celular que usa a câmera do telefone para detectar catarata e um relógio tátil, que permite não só ver as horas, como também senti-las.

A exposição fica em cartaz até agosto.

Lewis Carroll: “Às vezes eu desejaria não ter escrito nenhum dos meus livros”

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Uma carta do escritor a uma amiga, que será leiloada em Londres, mostra sua rejeição à fama
A oferta vai superar na próxima quarta-feira os 3.500 euros segundo a casa Bonhams

Primeira página da carta de Lewis Carroll.

Primeira página da carta de Lewis Carroll.

Patricia Tubella, no El País

As aventuras de uma criança chamada Alice que desce por um buraco para emergir no País das Maravilhas transformara Lewis Carroll, um autor reconhecido e bem-sucedido, em um famoso de seu tempo. E, no entanto, o criador daquele fantástico relato desejou um dia não ter escrito o livro que acabou lhe consagrando como lenda literária. Charles Lutwidge Dodgson (1832-1898), o verdadeiro nome de um escritor que tentava guardar zelosamente sua privacidade sob o refúgio de um pseudônimo, recebeu mal o fato de sua identidade não ser mais ser um segredo. A sondagem pública fazia com que ele se sentisse como um animal de zoológico, tal e como se lamenta em uma carta dirigida a uma amiga que acaba de se tornar pública porque será leiloada pela casa Bonhams na próxima quarta-feira em Londres.

“Toda esta classe de publicidade faz com que desconhecidos vinculem meu verdadeiro nome com o livro, e que me assinalem, e que me olhem e me tratem como se eu fosse um leão”, escreveu para a sua confidente Anne Symonds, a viúva de um eminente cirurgião da época, em uma carta datada no dia 9 de novembro de 1891 valorizada hoje em mais de 3.500 euros (mais de 11.500 reais) segundo a Bonhams. Já se passaram 26 anos da publicação de Alice no País das Maravilhas uma obra que supunha uma virada radical na produção do matemático e lógico inglês até então dedicada aos livros sobre álgebra. Esse novo universo que tomava a fantasia como arma seduziu de imediato a legião de leitores, incluindo a mesmíssima rainha Victoria, que dizem que esperava com impaciência a publicação da sequência, Alice Através do Espelho – E o que ela encontrou lá.

O escritor que utilizava o pseudônimo de Lewis Carroll semeou sua novela de alusões satíricas em uma sociedade victoriana em que cujos espartilhos nunca se sentiu cômodo.O personagem real de Charles Lutwidge Dodgson teve que se confrontar com as indesejadas atenções daquela sociedade. Odiava a fama “tão intensamente, que às vezes quase desejaria não ter escrito nenhum de meus livros”. A carta dirigida à senhora Symonds confirma a reticência com a vida pública de um autor que só deixava a solidão quando estava rodeado de meninos, e sobretudo de meninas, de quem fez numerosos esboços e fotografias.

A relação de Dodgson com uma criança de 10 anos foi a inspiração da Alice da ficção. Alice Liddell era uma das três filhas do decano de um colega da Oxford (Christ Church), a quem o escritor costumava entreter com suas histórias sobre o inquieto coelho branco, o Gato de Cheshire ou o Chapeleiro Maluco. Durante um passeio de barco pelo Tâmisa com as pequenas da família Liddell, teria surgido a ideia de um novo livro que com o tempo acabaria tendo um imenso impacto cultural, do que beberam até hoje tantas e tão diversas manifestações artísticas.

A carta inédita que vai ser agora leiloada pela casa Bonhams contribui ao menos com um pedaço da ambígua personalidade de Carroll, submetida a um julgamento póstumo que continua sendo objeto de debate entre os que atribuem a fixação por Alice à sua condição de pedófilo, os que sublinham um amor desmesurado pelas crianças embora não de caráter sexual e aqueles para quem ele singelamente encarna uma obsessão literária por fixar a infância eterna. Seu verdadeiro perfil humano continua sendo um grande desconhecido porque quatro dos treze volumes de seus diários desapareceram misteriosamente, e sete páginas de outro foram arrancadas provavelmente por seus herdeiros. Um legado incompleto cuja mutilação alentou as especulações sobre uma perversão nunca provada.

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