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Loja online de livros usados realiza sonho de portuguesa

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Uma loja de livros usados mas recentes, a preços acessíveis, era o sonho para a reforma de Ana Amélia. Até ao final do ano, vai tornar-se realidade através da internet, num sistema de créditos para trocar obras.

naom_515315c930cfbPublicado no Notícias ao Minuto

Aos muitos livros em casa e à inspiração noutros locais, como a Escócia, Ana Amélia somou a “paixão” e a “perdição” pelos livros e a certeza de que uma “lojinha em Torres Vedras”, onde mora, ou mesmo em Lisboa não seria “viável em termos económicos”.

Um conselho de um amigo para avançar pela internet foi bem acolhido, mas ainda faltava tempo por causa do trabalho executivo numa grande empresa. A saída dessa carreira fez concretizar a “2.ª Leitura”, que aplica o conceito de livros com recompra.

O projeto iniciou-se com a aquisição de livros, o que se tornou relativamente fácil “numa altura de crise”.

“As pessoas precisam de dinheiro”, resume à agência Lusa Ana Amélia, que recorreu, por exemplo, aos anúncios de vendas de particulares.

O preço combinado pela quantidade de livros torna os valores mais atrativos para que depois fiquem também acessíveis a quem quer ler e cada vez se queixa mais das dificuldades em comprar, como nota Ana Amélia.

Nesta “2.ª Leitura”, o cliente poderá encomendar um livro, tê-lo durante 15 dias e devolvê-lo depois mediante um valor predeterminado, que funcionará como crédito para ser deduzido em encomendas futuras. Caso o leitor queira ficar com o livro, não há acerto.

As recompras devem estar operacionais até ao final do ano, uma vez que Ana Amélia tem inserido livros na base de dados, o que inclui fotografar as capas, até para mostrar o estado de conservação dos livros.

“A aposta vai ser nos livros mais recentes e facilitar o acesso a preços mais acessíveis”, explica Ana Amélia, lembrando ser “raro ler o mesmo livro duas vezes”, pelo que este site também é útil para quem quer libertar espaço nas prateleiras.

“A plataforma também pode proporcionar a venda a terceiros, um espaço de partilha, com muito cuidado na inserção dos livros, num processo completamente transparente”, garante à Lusa.

Acerca dos atuais sistemas de trocas de livros, Ana Amélia recorda que podem ter “muitas limitações”, ao, por exemplo, haver apenas escolha entre os livros de uma só pessoa.

Por isso, Ana quer a sua base de livros com a maior escolha possível, incluindo em línguas estrangeiras.

Em termos comerciais, este projeto “não tem retorno” face ao trabalho de manutenção e administração: “A margem praticamente nem cobre isso, mas há o sonho, a partilha e a paixão pelos livros”, explica.

dica do Ailsom Heringer

 

Convidado da Flip, Daniel Alarcón visitou presídios peruanos para escrever novo romance

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Um dos mais celebrados autores de sua geração, escritor criado nos EUA lança no país ‘À noite andamos em círculos’

Maurício Meireles em O Globo

RIO – Ele já passou uma noite na cadeia. Reincidente, voltou a ela várias vezes — por meses. Viu como os presos se organizam atrás das grades e ouviu sobre suas vidas. Depois disso, Daniel Alarcón virou uma celebridade no mundo do crime no Peru. Os presos lhe confiavam seus e-mails e manuscritos, na esperança que ele contasse suas histórias — afinal, ele estava lá como jornalista e não como detento. As reportagens que Alarcón fez nos presídios — especialmente em Lurigancho, o maior deles — são a principal fonte de pesquisa de seu novo romance, “À noite andamos em círculos” (Objetiva), que acaba de chegar às livrarias brasileiras.

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Aos 37 anos, Alarcón, que nasceu no Peru, mas vive desde criança nos Estados Unidos, onde é considerado um dos maiores escritores de sua geração, vem ao Rio no fim do mês como convidado da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece de 30 de julho a 3 de agosto. Participará da mesa “Romance em dois atos”, no último dia do evento, ao lado de Fernanda Torres.

— A primeira vez em que estive num presídio peruano foi há cinco ou seis anos, e volto sempre que estou em Lima, porque é muito fascinante — conta Alarcón. — Foi surpreendente o quanto aprendi e gostei. Fiquei surpreso com o quão abertas as pessoas podem ser com suas histórias, e como os presos se organizam em comunidades dentro da cadeia. Como jornalista, gosto muito daquele momento em que é como se você ficasse invisível num lugar.

Uma pátria em duas línguas

Alarcón foi escolhido, pela revista “New Yorker”, um dos melhores autores com menos de 40 anos nos EUA e, pela “Granta”, um dos melhores jovens escritores do país. Mas “escritor americano” não o define bem, porque sua pátria são duas línguas. O inglês é a que mais domina, mas em casa só fala espanhol com os filhos. Por isso, ele se diz “um latino-americano que escreve em inglês e um americano que escreve sobre a América Latina”. Alarcón mudou-se com os pais para os Estados Unidos aos 3 anos, em 1980, quando começou o conflito que opôs grupos terroristas e forças do governo em seu país, deixando um saldo de mais de 60 mil mortos e incontáveis desaparecidos, incluindo um tio do hoje escritor.

A guerra é o tema mais marcante da literatura de Alarcón. Seu primeiro romance, “Rádio cidade perdida” (Rocco), se passa durante o conflito, e o novo, depois dele. “À noite andamos em círculos” cruza as histórias de Nelson e Henry. O primeiro é um ator frustrado que foi deixado pela namorada; o segundo, um dramaturgo de um grupo de teatro que, durante a guerra, foi considerado subversivo e enviado para uma das prisões mais violentas do país. Tempos depois do conflito, o grupo de teatro se prepara para uma nova turnê de sua peça mais famosa, e Nelson é escalado como ator. Embora não se passe todo nele, o presídio é um dos principais elementos do romance. O livro é narrado por um jornalista, que conta a história depois que ela já aconteceu — criando a suspeita de que algo trágico ocorreu aos protagonistas. A pergunta que fica é: se Alarcón só viu a guerra de longe, escrever sobre ela vem de alguma espécie de culpa por ter sobrevivido?

— Penso sempre no fato de eu ter tido uma vida e os outros (peruanos) não — afirma o autor. — Culpa de sobrevivente talvez seja um pouco dramático, mas sempre penso em versões diferentes da minha vida. No Peru, ela teria sido outra. Eu não seria o mesmo escritor. Só posso falar do Peru como falo porque não vivi lá.

O distanciamento rendeu críticas a Alarcón. Já houve quem dissesse que ele tenta “anglicizar” a América Latina em seus livros.

— Necessariamente, eu a estou anglicizando por escrever em inglês. Mas não há nada errado nisso. É apenas um fato da minha vida. Nasci no Peru e me mudei para os EUA. O inglês é uma das línguas que eu tenho à disposição — diz.

Talvez a crítica seja mesmo injusta, porque Alarcón mantém uma relação de grande proximidade com a América hispânica. Além de colaborador da premiada revista peruana “Etiqueta Negra”, ele é produtor executivo da Rádio Ambulante, uma rádio on-line criada por ele e pela mulher para encontrar histórias e personagens pela América Latina. Ele também costuma escrever reportagens sobre questões latinas para algumas das principais revistas dos EUA.

Não à toa, sua maior influência é a mesma de nove em cada dez escritores latino-americanos: Roberto Bolaño, morto em 2003. Como no universo do chileno, o romance de Alarcón tem os artistas no centro da trama.

— Bolaño tem a figura do poeta super-herói. Sua versão da Cidade do México e de Barcelona tem os artistas no cerne de tudo. Fui muito influenciado pelas descrições que Bolaño faz desses mundos de artistas boêmios de grandes cidades latino-americanas — diz.

“A culpa é do Felipão”

Como muitos latino-americanos, Alarcón adora futebol — quando era criança, sonhava ser “o Maradona peruano” — e deve ter muito assunto com o público brasileiro na Flip. Assumindo seu lado técnico, ele aproveita a entrevista para comentar a derrota do Brasil para a Alemanha:

— Estou completamente chocado. E a culpa é do Felipão — aponta. — Como você pode perder um zagueiro e o time entrar em colapso? Não é um time bom. Parecia que eles nunca tinham jogado juntos. Era como se não soubessem nem quem eram. Sei que o Thiago Silva é um zagueiro de primeira classe, mas, meu Deus, eles jogaram como se estivessem treinando!

Universidade do futuro deve ter foco em emprego, dizem estudantes brasileiros

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Uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira revela que, para os estudantes brasileiros de rede privada, as universidades deverão ter no futuro foco cada vez maior na preparação dos alunos para que se sobressaiam no mercado de trabalho.

Alessandra Corrêa, na BBC

Mais de 4 mil estudantes foram ouvidos no Brasil

Mais de 4 mil estudantes foram ouvidos no Brasil

A pesquisa da Laureate Education, empresa que reúne instituições de ensino superior em 29 países, perguntou a 20,8 mil de seus estudantes ao redor do mundo como acreditam que as universidades vão mudar nos próximos 15 anos e como pensam que elas deveriam mudar.

O levantamento, feito pela Zogby Analytics, ouviu 4,3 mil estudantes no Brasil, de nove universidades do grupo. Entre eles, 78% responderam que, no futuro, a maioria dos cursos deverá ensinar habilidades com foco na carreira, e 74% disseram que empregadores deveriam oferecer estágios pagos durante o curso.

Para 64% dos estudantes brasileiros, os empregadores deverão ter papel crucial no planejamento de cursos universitários que ajudem os alunos a encontrar emprego.

‘Ganhar dinheiro’

As respostas específicas de alguns estudantes ajudam a fornecer uma visão geral sobre como pensam os brasileiros.

Diante da pergunta sobre que tipo de habilidades a universidade deveria ajudá-lo a desenvolver para sua carreira e para a vida após a formatura, um brasileiro resumiu: “A faculdade deveria nos ensinar a realmente ganhar dinheiro”.

“Conhecimento prático e teórico para ingressar e atuar no mercado de trabalho de maneira competitiva, trabalho em equipe e como criar e manter uma ‘network’”, disse outro aluno brasileiro consultado na pesquisa.

Um estudante da UniNorte, em Manaus, disse pensar que a universidade poderia oferecer emprego para os estudantes com as melhores notas.

Outro, da UniRitter, em Porto Alegre, reclamou da falta de experiência prática nos cursos atuais.

Tendência mundial

As respostas dos brasileiros seguem a tendência mundial revelada pela pesquisa, que ouviu estudantes de 37 instituições de ensino superior pertencentes à rede Laureate em 21 países.

No total, 61% dos estudantes consultados ao redor do mundo disseram acreditar que a maioria dos cursos oferecidos pelas universidades no futuro será projetada por especialistas da indústria.

Para 64%, esses cursos serão oferecidos em várias línguas, para facilitar a inserção dos alunos no mercado de trabalho.

Estudantes acreditam que redes sociais serão ferramenta de ensino

Estudantes acreditam que redes sociais serão ferramenta de ensino

Segundo os responsáveis pela pesquisa, os brasileiros concordam que mudanças tecnológicas serão mais predominantes no futuro, apesar de nem todos estarem certos de que isso seria algo positivo.

Um total de 26% dos brasileiros pesquisados disseram acreditar que, no futuro, mais cursos serão disponíveis online, e para 70% a maioria dos livros e material de estudo estará disponível de graça na internet.

Mais da metade dos brasileiros também disseram acreditar que as mídias sociais serão usadas como ferramenta de ensino no futuro, percentual semelhante ao verificado nos resultados gerais da pesquisa.

Flexibilidade e inovação

Entre todos os pesquisados no mundo, 43% responderam que as universidades do futuro deverão fornecer conteúdo online gratuitamente para a maioria dos cursos, e 68% disseram acreditar que a instituições terão bibliotecas online nas quais os estudantes poderão acessar livros e outros materiais sem custo.

A pesquisa revela ainda que os estudantes apostam na flexibilidade e na inovação dos cursos no futuro.

Mais da metade dos consultados ao redor do mundo disseram acreditar que a maioria dos cursos será oferecida em qualquer horário do dia ou da noite.

No total, 43% dos alunos disseram esperar que possam ter acesso a educação personalizada online, “o que poderá tornar a experiência tradicional em sala de aula menos importante”.

10 Romances da geração de 30 que você precisa ler

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Uma lista de grandes romances da geração de 30. Gente como: Érico Veríssimo, José Américo de Almeida, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Amando Fontes, Dyonélio Machado e Cyro dos Anjos.

José Figueiredo, no Homo Literatus

Não que no Brasil não houvesse bons prosadores, mas a verdade é que nunca antes na história desse país houve uma geração tão impressionante de romancistas. Dos mais intimistas aos urbanos e universais, os romancistas de trinta mostraram que o Brasil era capaz de marcar a posição do país no mundo do romance.

Para tanto, indicamos dez romances, dentre tantos, para mostrar a mudança que essa geração provocou na literatura nacional ao mostrar as modificações que ocorriam em nosso país.

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1. O Tempo e o Vento – Érico Veríssimo

Érico Veríssimo

Érico Veríssimo

Érico Veríssimo criou o maior épico brasileiro escrito até hoje. O Tempo e o Vento narra nada menos que duzentos anos da história do Rio Grande do Sul – e, por que não, do país. Da chegada dos primeiros habitantes ao estado até a derrocada das velhas famílias estancieiras representadas pelos Terra-Cambará, vemos passar uma galeria de personagens apaixonantes. Temos Ana Terra e Bibiana, mulheres fortes em meio a um mundo de homens hostis; temos Capitão Rodrigo, uma mistura de galã e aventureiro, cativante como só ele pode ser. Há guerras – muitas guerras – e passagens marcantes dessa história de formação de um estado marcado por homens que morreram à toa e mulheres que sofreram por eles.

2. A Bagaceira – José Américo de Almeida

José Américo de Almeida

José Américo de Almeida

O primeiro dos romances de 30 foi publicado em 1928. Nele podemos encontrar boa parte do que seriam as características de uma geração: o foco numa região periférica do país; e a mostra da violência das velhas elites que viam seu entardecer logo ali. José Américo nos apresenta uma família de retirantes que vai morar em um engenho e as consequências da relação entre o filho do senhor do engenho, Lúcio, e da filha do sertanejo, Soledade. Com muito sangue e violência, vemos os rígidos códigos de sertanejo sendo aplicado a todos, doa a quem doer.

3. O Quinze – Rachel de Queiroz

Rachel de Queiroz

Rachel de Queiroz

Um romance de paradoxos: se por um lado, é o romance menos inventivo do ponto de vista técnico (poderia se dizer que é um romance do século passado), por outro é extremamente moderno em sua temática. Ao narrar a história de Conceição, personagem central da obra, Rachel de Queiroz, no auge dos seus vinte anos, dá um final surpreendente para uma mulher em meio a uma sociedade patriarcal e machista da época. Também inovou ao mostrar as mazelas proporcionadas pela seca no nordeste – algo, pelo incrível que pareça, quase totalmente ignorado pela maioria dos romancistas anteriores. Instigante, é o primeiro e melhor romance da autora.

4. São Bernardo – Graciliano Ramos

Graciliano Ramos

Graciliano Ramos

Poderíamos dizer muitas coisas sobre esse romance: que fala sobre a ascensão e queda de Paulo Honório, que fala dos ciúmes doentios de um homem, que é um romance de fina análise psicológica de tradição machadiana. Não adianta, tentar encaixar Graciliano Ramos em poucas palavras, é covardia, afinal ele joga com tantos níveis ao mesmo tempo nesta narrativa da fazenda São Bernardo que a única coisa que podemos dizer é: leiam, por favor, leiam!

5. Fogo Morto – José Lins do Rego

José Lins do Rego

José Lins do Rego

Romance único não só na sua própria obra como também na sua geração. Não que conte algo de novo, pois a história, como em outros livros dessa lista, é sobre a derrocada de um antigo coronel. No entanto, a forma como é feita, dando o foco narrativo a três personagens diferentes, dá ao romance uma construção impar. Do Mestre José Amaro até o Capitão Vitorino, José Lins nos apresenta a derrocada inevitável de um mundo frente à modernidade, aproveitando para nos mostrar a derrocada social e psicológica do Coronel Lula de Holanda. Vale ainda uma grande ressalva ao melhor dos personagens do autor: Capitão Vitorino. De percepção limitada e sentimentos nobres, é o melhor personagem de cunho quixotesco que temos em nossa literatura.

6. Terras do Sem Fim – Jorge Amado

Jorge Amado

Jorge Amado

Como muitos dos romances de Jorge Amado, este também virou novela. Há, entretanto, algo de diferente nessa história. Não é a Bahia gostosa dos seus romances mais tardios, muito menos a denúncia da vida sofrida das camadas mais baixas. Jorge Amado nos brinda com um épico sobre a tomada do Sequeiro Grande e a luta de dois clãs, o de Horácio e o dos Badarós, para tomar as melhores terras para o plantio de cacau. Temos de tudo um pouco no meio do caminho: tocaias, incêndios, traição e muito mais. Romance único na obra do autor, temos uma aventura impar sobre o auge da era do cacau e uma terra adubada de sangue. (mais…)

10 citações de Lolita, Vladimir Nabokov

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Rafhael Peixoto, no Literatortura

Lolita está para a literatura como um clássico, não sendo para menos. A capacidade narrativa de Nabokov expõe de forma fatal as vertentes de um bom autor e de uma grande obra. A relação que se estabelece entre leitor e narrativa vincula-se já no primeiro momento e é preciso ter cuidado, claro! Cuidado para não cair nas garras de Humbert Humbert tão facilmente. Em matéria recente feita pelo Literatortura, onde eram levantados os narradores em que não se pode confiar, eis que surge a sua figura, e é ela que norteia toda a narrativa. Sendo avisado desta perspectiva, ainda assim confesso que, na condição de leitor, foi a primeira coisa que fiz, acreditei nas boas intenções de Humbert. Só em poucos momentos questionei o amor a sua Lolita e tudo que até então ele havia feito. Mas a vida literária é assim, lendo e aprendendo a quebrar a cara. Eis as dez citações que achei interessante na obra. Outras se perderam pelo caminho, mas, com certeza você, leitor, as regatarão nos comentários.

1 – “Lolita, luz da minha vida, fogo da minha carne. Minha alma, meu pecado. Lo-li-ta: a ponta da língua toca em três pontos consecutivos do palato para encostar, ao três, nos dentes. Lo. Li. Ta.”

Em que momento um livro lhe captura? Em alguns casos, é difícil responder a esta questão, mas não o é em Lolita. Já no primeiro parágrafo, há um laço ao leitor. Isto caracteriza também, do meu ponto de vista, o grande autor que é Vladimir Nabokov. Quem, ao ler as primeiras palavras, não se transfere da condição de leitor à personagem da narrativa, ao colocar em sua boca a separação de Lo – li – ta, como a conferir-lhe a veracidade de sua própria língua? E é este o grande trunfo utilizado, a junção de leitor e personagem já nas primeiras linhas da narrativa.

2 – “Senhoras e senhores do júri, a prova número um é aquilo que os serafins, os próprios serafins desinformados e simplórios com suas asas preciosas, invejaram. Contemplai esse emaranhado de espinhos.”.

Outra citação da primeira página do livro. Já nos primeiros instantes, o personagem revela o final da narrativa, a sua condenação. A partir deste ponto, tudo será defesa. O interessante é que, à medida que constrói a narrativa, você questiona porque efetivamente ele está sendo condenado. O final(contemplai esse emaranhado de espinhos) é arrebatador também, é como dizendo ao leitor “sente aí e me acompanhe”.

3 – “Ela se empenhou em aliviar a dor do amor primeiro friccionando com força seus lábios secos contra os meus; em seguida, minha querida se afastou jogando nervosa os cabelos para trás e logo se aproximou de novo na sombra deixando que eu me alimentasse em sua boca aberta, enquanto com uma generosidade pronta a oferecer-lhe tudo, meu coração, minha garganta, minhas entranhas, entreguei-lhe para segurar no punho desajeitado o cetro da minha paixão.”

Já no prefácio do livro, há uma revelação sobre a escrita de Nabokov, sendo ela, a falta de “termos vulgares”, por mais que a temática permeie por um campo moralmente condenável. Se deparar com uma situação como a desta citação, por exemplo, que exige do leitor muito mais do que uma leitura passiva e linear, que exige do leitor um olhar perspicaz para a cena, e que consegue fazer da própria cena uma grande construção narrativa sem que precise necessariamente falar dos aspectos óbvios de uma cena de sexo, é de um gozo sem tamanho para os amantes da boa literatura.

4 – …”Como eu esperava, ela deu o bote sobre o frasco contendo cápsulas rechonchudas, lindamente coloridas e carregadas do Sono da Bela.

“Azul!”, exclamou ela. “Azul violeta. Do que elas são feitas?”

“Céus de verão”, disse eu, “ameixas e figos, e o suco de uva dos imperadores”.”

Neste ponto, mais uma vez é ressaltada a capacidade do narrador, quando Humbert Humbert apresenta a Lolita às pílulas que havia encomendado para fazê-la adormecer. Poeticamente, ele constrói outro sentido as pílulas no intuito de capturar a atenção da garota. Esta citação prova quão ardiloso o personagem pode parecer para a relação com a menina, bem como o poder de ludibriação do leitor em outros momentos.

5 – “…e um beijo no último minuto pretendia reforçar a mensagem mais profunda da peça, a saber, que ilusão e realidade fundem-se no amor.”

A peça ensaiada por Lo ao longo da narrativa é um reflexo da própria condição amorosa por eles enveredada, principalmente da perspectiva de Humbert. Não à toa, atrelada a construção psicológica do personagem, une-se a concepção de amor como fusão da ilusão e realidade. Neste ponto, a realidade estaria dada e a construção ilusória ficaria por conta do personagem narrador, que constrói um próprio universo de significação para os dados reais.

6 – “As lonas de freio foram trocadas, as mangueiras de água desentupidas, as válvulas limadas e uma série de outros reparos e melhoramentos pagos pelo não muito mecanicamente inclinado mas prudente papa Humbert…”.

A citação não é de grande relevância para o conjunto da obra se observada pontualmente, mas é importante pontua-la pela capacidade que nela se impõe de contribuir para a construção do narrador personagem. Desta forma, ela poderia ser substituída por qualquer outra citação em que o narrador se distancia da primeira pessoa e se coloca como elemento outro da história. Falar em terceira pessoa sobre si diz muito na construção do personagem Humbert Humbert.

7 – “Tente imaginar, leitor, com toda a minha timidez, minha falta de gosto por qualquer ostentação…”

Esta também poderia ser substituída por outras citações. Não pode ser deixado de observar, por sua vez, o dialogo que se estabelece diretamente com o leitor. O narrador clama ao sujeito que o acompanha que este se coloque em seu lugar.

8 – “Um dia removi do carro, e depois destruí, todo uma cúmulo de revistas para adolescentes. Devem conhecer o tipo. Em matéria emocional, a Idade da Pedra; atualizada, ou pelo menos miceniana, em matéria de higiene. Uma bela e maduríssima atriz com cílios imensos e o lábio inferior carnudo e muito rubro, afirmando que usava uma certa marca de xampu. Anúncios e modas. As jovens estudantes adoram a profusão das saias plissadas… A menos que seja bem mais velho ou muito importante, o cavalheiro deve sempre tirar as luvas antes de tomar a mão…Facilite um novo romance usando o novo corpete para uma barriga lisa…O enigma matrimonial entre Fulano e Beltrana vem exaurindo ás línguas.”

Toda história, seja fictícia ou real, é narrada a partir de um espaço. Dada a construção deste espaço, do meio social, achei importante trazer esta citação, pois ela me chamou a atenção pela sua contemporaneidade, mesmo escrita vários anos atrás. A típica revista adolescente descrita por Humbert não varia em quase nada dos modelos que acompanhamos nas bancas nos dias de hoje. Uma critica a nossa sociedade?!

9 – “… – e eu não conseguia parar de olhar para ela, e soube tão claramente como sei agora, que estou prestes a morrer, que a amava mais que tudo que já vi ou imaginei na Terra, ou esperei descobrir em qualquer outro lugar. Ela era só um eco de aroma tênue violeta e folhas mortas da ninfeta sobre quem eu rolara no passado com tantos gritos; um eco à beira de uma ravina rubra, com um arvoredo esparso sob um céu branco, folhas castanhas entupindo o leito do riacho, e um último grilo perdido em meio à relva ressecada… mas graças a Deus não era só esse eco que eu adorava.”

Dois momentos marcam esta citação: a primeira, na mensuração do amor de Humbert por sua Lolita; a segunda, pela quebra da ilusão da imagem por ele construída. Importante destacar que mesmo sendo atingido pelo confronto realidade x idealização, ele declara um amor que atravessa essa imagem feita por ele.

10 – “Parou à procura das palavras. E eu as forneci mentalmente (“Ele” partiu meu coração. “Você” só devastou a minha vida”).

Já nos momentos finais da narrativa, quando experimenta fazer uma reflexão acerca da posição de Lolita, o narrador reconduz quais as consequências possíveis de sua ação sobre a menina. E são nestes fragmentos que o narrador consegue cativar ainda mais o olhar do leitor, quando se coloca na condição humana de captar a essência do outro, de percebê-la enquanto ser que sofre as consequências de um amor sem limites.

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