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Cristina Danuta

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Estudante é assaltada na porta da universidade e tem TCC e livros roubados

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Assalto foi na entrada do campus da UFT em Araguaína (Foto: UFT/Divulgação)

Assalto foi na entrada do campus da UFT em Araguaína (Foto: UFT/Divulgação)

Pen drive com a versão mais atualizada do arquivo e livros emprestados de amigos foram levados com a bolsa. Jovem reclama de insegurança no campus.

Publicado no G1

A estudante de do curso de Letras, Weslane Oliveira, de 22 anos, foi assaltada na manhã desta quarta-feira (16) quando chegava a Universidade Federal do Tocantins, em Araguaína, para assistir aula. A jovem teve uma bolsa levada pelo ladrão. Dentro estava um pen drive que tinha a versão mais atualizada do Trabalho de Conclusão de Curso dela e também livros que foram emprestados por amigos para a monografia.

Weslane contou que o homem fingiu falar ao celular próximo a um dos portões da UFT e que apontou uma arma para ela durante o crime. Ela tentou correr para dentro do campus, mas o portão mais próximo estava fechado e ela não conseguiu fugir.

Apesar do susto, a jovem não ficou ferida no assalto. Ela perdeu um capítulo inteiro da monografia, cerca de 10 páginas, que estava salvo no pen drive. A apresentação dela está marcada para outubro. Ela reclama da insegurança e diz que já houve outros assaltos na região.

“Ontem, por volta das 18h30, uma outra aluna foi assaltada, e parece que pela terceira vez, já chegando na UFT. Não tem nada de policiamento lá e não tem como correr também. Poderia ter sido outro aluno, que leva Notebook, celular e outras coisas de valor nas bolsas. Como eu já tenho bastante medo, não levo.”, contou.

O G1 entrou em contato com a UFT para perguntar sobre a segurança no campus e sobre o portão que estava trancado. Em nota, a instituição disse que até o momento não recebeu nenhuma informação oficial sobre o ocorrido. “A instituição está apurando com detalhes o suposto ocorrido para então tomar as devidas providências. “

JK Rowling planeja escrever mais dez livros de Cormoran Strike

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Guilherme Cepeda, no Burn Book

Em entrevista ao jornal britânico Daily Mail, J.K. Rowling revelou que pretende lançar mais dez livros da série Cormoran Strike, que escreve sob pseudônimo de Robert Galbraith.

Junto à autora, Tom Burke e Holliday Grainger, que interpretam Comoram Strike e Robin Ellacott na adaptação televisiva, também participaram da reportagem. Rowling, que logo aprovou Tom Burke para representar Cormoran, contou o que disse a ele quando se conheceram:

“Bem, espero que você goste de interpretar esse personagem, porque eu acho que tenho pelo menos mais dez livros em mente – então você pode ficar preso por alguns anos aqui. […] Era muito importante para mim ter os atores certos na frente das câmeras e fora delas, pois isso pode se estender por muito tempo. Eu realmente amo escrever esses livros”.

Segundo os atores, Rowling contribuiu com ideias nas filmagens e se manteve ativa no roteiro, além de contar para a equipe o que acontecerá no quarto livro da série, Lethal White (“Branco Letal”, em tradução literal), que deve ser lançado em breve.

A adaptação de O Chamado do Cuco estreará na BBC1 no dia 27 de agosto e terá três episódios de 90 minutos. O Bicho-da-seda está sendo adaptado em dois episódios, e o terceiro livro da série, Vocação para o Mal, ainda será adaptado.

Presunçoso, tolo e mal escrito, livro do “menino do Acre” é um horror

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Rodrigo Casarin, no Página Cinco

Não pense em sexo, durma pouco, seja vegano e viva isolado. Essa é a base para que talvez você consiga se transformar em um gênio do quilate de Isaac Newton, Leonardo da Vinci ou Nikola Tesla.

Quem defende a ideia é Bruno Borges, mais conhecido como “o menino do Acre”, que ficou desaparecido durante mais de quatro meses e agora lançou “TAC – Teoria da Absorção do Conhecimento”. O livro, garantem, é a primeira parte do material que deixou criptografado pelas paredes de seu quarto em Rio Branco. O volume sai pela Arte e Vida, editora tão obscura quanto tudo o que envolve o caso.

Na obra, o autor tenta ensinar como alguém pode se tornar pleno para a absorção do conhecimento. A ideia é que sem gastar tempo com impulsos carnais, sem usufruir de alimentos que podem incentivar a gula, dormindo pouco e sem ter que se dedicar a terceiros, qualquer cidadão estaria em uma situação extremamente favorável para desenvolver criativamente suas ideias.

O problema é que, não bastasse a tese em si ser questionável, a argumentação de Bruno beira o cômico. “A importância de refrear os impulsos sexuais por parte de grandes homens que não tinham tempo para ações libidinosas, pois, como disse Santos Dumont, ‘ou constituo uma família ou renego isso e desenvolvo o avião’, é verificada no que diferencia o homem dos outros animais”, escreve, por exemplo, ignorando que Dumont, como Arthur Japin mostrou em seu “O Homem Com Asas”, era homossexual, o que contribuía para que tirasse o foco de sua sexualidade em uma sociedade extremamente homofóbica. (Observação: todas as citações deste texto estão exatamente como aparecem no livro, sem qualquer tipo de correção ou edição).

O autor se define como crudívoro – consome basicamente comida crua – e defende uma alimentação vegana porque assim a pessoa deixa “de se alimentar por coisas que dão uma série infindável, quando temperadas, claro de sabores e misturas alimentícias, na qual esta mesma pessoa que se abdicou disto sabia o quão prazeroso era. Ora, se este também fosse guloso como quem come de tudo, então como ele conseguiria se conter?”.

Já sobre o sono, defende que se durma pouco e de modo polifásico. Segundo ele, “sábios” como Thomas Edison, Jesus Cristo, Albert Einstein e Napoleão Bonaparte tiravam apenas sonecas de cerca de 2 horas. “Conta-se que Da Vinci dormia irrisórios 20 minutos diários”, relata, para depois se colocar junto dos grandes gênios:

“Eu mesmo, quando criando e me cerceando desta energia criativa e poderosa, durmo de 2 a 4 horas por dia, e, quando eu tinha 20 anos, passei uma semana dormindo 30 minutos diários e alguns dias eu não dormia, com todo o furor e sobre jejum eu me postava a desenvolver obras que me faziam ficar alarmantemente inspirado”.

Hitler e Gandhi no mesmo balaio

Chama a atenção nos escritos de Bruno as personalidades nas quais ele busca inspiração e baseia suas teorias. Em cinco linhas, vai de Aristóteles e Platão a Augusto Cury e não vê problema em colocar Gandhi e Adolf Hitler em um mesmo patamar de sabedoria. Michael Jackson também é figura fácil pelo livro. Outro músico ao qual faz referência é Raul Seixas, que, se não aparece explicitamente, claramente inspirou o seguinte trecho que precede a conceituação de elementos que servem de base para a TAC:

“Caso sinta-se distraído ou ache uma tarefa enfadonha estudá-las, o que obviamente não passa de 2 laudas, seria útil perdir-lhe somente mais um favor: cerre este livro de uma vez e senta-te sobre o gramado, escancare a tua boca cheia de dentes e espera a morte chegar”. Cópia descarada de “Ouro de Tolo”.

Pior livro que já resenhei

Bruno foi presunçoso ao escrever “TAC – Teoria da Absorção do Conhecimento”. “Espero que este estudo, baseado na maneira como utilizo para criar, que haja novas metodologias que alcancem a potência criadora que a minha proporciona e que possa servi-lhes como uma arma poderosa de auto revolucionar-se a si mesmo e ajudar no progresso da humanidade”.

O problema, sinto informá-lo, é que será muito difícil uma obra tão mal escrita ajudar em alguma coisa. Como disse, não fiz nenhuma edição ou correção nas citações aqui utilizadas, que deixam claro o nível do texto do garoto (“auto revolucionar-se a si mesmo” é uma grande pérola). Se o que viu até aqui ainda não foi o suficiente para notar o quanto Bruno escreve mal, dê uma olhada nesse outro trecho:

“Deste modo os ensinamentos que Sócrates passou a Platão ao tomar a cicuta que tirou a sua vida, fez de Platão o criador do tão famoso mito da caverna, pois Sócrates passava conhecimentos aos seus alunos a respeito da verdade por meio de lições, sem deixar nada escrito, e quando ele, tendo a opção de fugir, decidiu não aceitar a condição e se tornar um mártir, tomando a cicuta pelos seus ideais, deixava com este ato um último ensinamento para os alunos, e um de seus alunos foi Platão”.

“TAC – Teoria da Absorção do Conhecimento” é uma mistura de falta de noção e obviedades mal acabadas apresentadas em um texto terrível. “TAC – Teoria da Absorção do Conhecimento” é péssimo, um volume completamente dispensável, uma prova de que às vezes é melhor não ler nada. É triste que isso tenha ido parar até em listas dos mais vendidos. Em dez anos trabalhando com livros e literatura, jamais havia resenhado algo tão ruim.

Verdadeira ‘Bibi Perigosa’ detalha mundo do tráfico em livro

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Fabiana Escobar é vivida por Juliana Paes na novela 'A Força do Querer' (Foto: Reprodução/Instagram)

Fabiana Escobar é vivida por Juliana Paes na novela ‘A Força do Querer’ (Foto: Reprodução/Instagram)

 

Fabiana Escobar foi casada com traficante

Publicado no Correio 24Horas

A história real que inspirou a Bibi Perigosa, vivida por Juliana Paes na novela A Força do Querer, da autora Gloria Perez, chega agora às prateleiras das livrarias reeditada pela Novo Século – e já figura entre os livros mais vendidos. Em sua autobiografia, que não por acaso tem o título de Perigosa, Fabiana Escobar retrata em detalhes o mundo do tráfico de drogas na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, onde foi apelidada de “Baronesa do Pó”.

O apelido veio quando o então marido, Saulo de Sá da Silva, comandava o tráfico na região como o Barão do Pó. Fabiana e Saulo foram casados por mais de 10 anos, a maior parte deles sem qualquer envolvimento com atividades ilícitas, e o divórcio veio em 2010, já após a prisão (e a fuga) do “Barão”. O livro, porém, veio ainda depois, com um empurrão da mídia e um conselho de Gloria Perez.

“Escrevi Perigosa quando houve a ocupação da Rocinha, em 2011, após a exibição uma matéria sobre mim no Fantástico”, conta Fabiana em entrevista ao Estado. “Comecei a sofrer ataques, me procuraram para questionar sobre tudo que aconteceu, e eu pensei que deveria responder a todos de uma vez, escrevendo no meu blog ”

O conselho de Gloria Perez para que os relatos fossem transformados em livro veio quando a autora descobriu o blog de Fabiana, na época em que ainda fazia pesquisas para sua novela anterior, Salve Jorge. Assim que a primeira versão do livro saiu, Gloria disse para Fabiana que a Globo entraria em contato, pois ela pretendia fazer uma minissérie baseada na autobiografia A tal série não veio, por um motivo que Fabiana desconhece, mas a sua história agora é contada na novela.

“Está um espetáculo, a Juliana (Paes) mergulhou de cabeça na personagem”, elogia sua intérprete, que estudou vídeos seus para incorporar a Bibi Perigosa da TV. “Quem me conhece e assiste à novela fala que nem consegue enxergar a Juliana, só vê a mim”, diz empolgada.

Fabiana Escobar é vivida por Juliana Paes na novela 'A Força do Querer' (Foto: Reprodução/TV Globo)

Fabiana Escobar é vivida por Juliana Paes na novela ‘A Força do Querer’ (Foto: Reprodução/TV Globo)

Apesar desse livro autobiográfico, a escrita não foi novidade na vida de Fabiana, que redigia histórias para suas bonecas na infância. “Quando era adolescente, cismava que faria uma novela. Escrevia capítulos e dava para minha irmã e minhas amigas, que pediam mais.”

Depois do sofrimento que passou, não só com Saulo, mas também com o primeiro namorado, na adolescência, um jovem líder do tráfico assassinado na favela, o processo de escrita não foi fácil. “Nunca consegui reler, se começo, entro na história de novo e me emociono muito, nem identifico erros no texto.” A função de revisar coube aos dois filhos e à sua mãe. Todos apoiaram a decisão de Fabiana de contar sua história. “Percebo que ficaram orgulhosos de mim, por transformar algo tão ruim em uma coisa boa.”

Para Fabiana, o principal objetivo no livro, além de esclarecer, com suas próprias palavras, sua história de vida, é passar a mensagem de que é possível sair do mundo do tráfico, mesmo sem deixar a comunidade. “As pessoas podem ver que é possível melhorar e dar uma virada na vida”, diz a escritora, que até hoje ainda mora no morro – e sem medo. “Eles (traficantes) me veem. Não mexo com eles e eles não mexem comigo.”

Empolgada, já prepara os próximos livros. “Vou lançar um infantil, uma história que inventei e que contava para meus filhos.” Já outro, Eternamente Juntos, é um romance com toques de ficção científica, para jovens e adultos. “Totalmente fora da realidade do morro.”

O que faz da Noruega o melhor país para ser escritor

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 Antiga cabine telefônica Divulgação Jo Straube

Antiga cabine telefônica Divulgação Jo Straube

 

O rico país nórdico é exemplar na proteção ao escritor. Knausgård é um dos nomes mais conhecidos

Maribel Marín, no El País

Se a Noruega, com seus administráveis cinco milhões de habitantes, suas produtivas reservas de petróleo e sua devoção à cultura, não é o melhor país da Europa para ser escritor, pelo menos tem as condições para sê-lo:

Um autor emergente pode sonhar em viver apenas da literatura porque as bolsas-salário equivalentes a 25.000 euros (cerca de 92.700 reais) por ano são uma realidade que não é dada a conta-gotas.

Um escritor consagrado, digamos Karl Ove Knausgård, autor da saga Minha Luta, também pode ser contemplado, e o foi, com as ajudas – de até 50% – concedidas pelo Governo por meio da Norla (Norwegian Literature Abroad) para a tradução de livros escritos em norueguês: 499 títulos vertidos para 46 idiomas em 2016, entre elas o quarto volume do rei da autoficção traduzido ao espanhol e português.

Publicar é menos arriscado do que em outros países. O Estado tem um programa de aquisição de livros para bibliotecas, único no mundo por sua dimensão, pelo qual compra a cada ano 773 exemplares de 85% dos títulos de ficção e 1.550 exemplares dos títulos de literatura infantil e juvenil, quando a tiragem média ronda os 2.500 exemplares.

Os livros de papel são isentos de impostos – uma raridade que na Europa só é reproduzida no Reino Unido, Irlanda, Albânia, Ucrânia e Geórgia – e impera um sistema de preço fixo, semelhante ao de países como Espanha, França e Alemanha, graças ao qual não se pode reduzir o valor dos exemplares até maio do ano seguinte ao da publicação.

A escrupulosa gestão dos direitos autorais por empréstimos de bibliotecas e por cópias particulares, e a educação, que fez com que a pirataria não fosse um problema, garantem que cada um receba o que é seu.

A tributação da cultura é bonificada e, como na Alemanha, Áustria, Portugal e Itália, o escritor aposentado pode receber os royalties de suas obras sem ter de renunciar à pensão, ao contrário do que acontece em países como Espanha, Irlanda e Malta.

E o mais importante, que explica o que foi dito anteriormente: existe um respeito reverencial pela cultura e pelo criador. E essa veneração tem em uma das nações mais ricas do mundo uma tradução econômica (1,44 bilhão de euros para a cultura em 2017; 85,6 milhões para o setor do livro) que pouco sofreu durante a crise e um impacto no desenvolvimento do talento nativo e sua expansão pelo mundo.

O escritor Jostein Gaarder

O escritor Jostein Gaarder

“A Noruega está exportando literatura. A qualidade média das letras do país é muito alta e eu acredito que se deve em grande parte ao apoio dado pelo Estado durante muitos anos”, resume Jostein Gaarder.

Há não muito tempo, na década de noventa, quando o escritor causou sensação com O Mundo de Sofia – que já vendeu mais de 40 milhões de exemplares – e ampliou as fronteiras da literatura norueguesa, a presença dos autores do país nas livrarias estrangeiras era apenas uma exótica anomalia, como corresponde a uma nação com menos população do que a Comunidade de Madri. Eram internacionalmente conhecidos Henrik Ibsen, um dos pais da dramaturgia moderna, e, claro, o polêmico Nobel e colaborador dos nazistas Knut Hamsun, autor do aclamado romance Fome. E pouco mais.

Hoje, apenas três décadas depois, a Noruega não só vende para o exterior seus clássicos e seus autores de romances policiais e de aventura como exporta muita literatura, e muito variada. Knausgård é a grande estrela. Mas não está sozinho. Dag Solstad, que ganhou neste ano o prêmio da Academia Sueca, o pequeno Nobel, e Kjell Askildsen, mestre do relato breve, são mundialmente conhecidos e reconhecidos. Assim como Per Petterson, Linn Ullmann, Jo Nesbø; o dramaturgo Jon Fosse; Maja Lunde, que está na boca de todos por conta de Tudo que Deixamos para Trás, ou Maria Parr, a nova Astrid Lindgren, que acaba de publicar na Espanha Tania Val de Lumbre.

As letras dessa monarquia parlamentar parecem viver uma nova era de ouro, que tem sua grande manifestação na escolha como país convidado da Feira do Livro de Frankfurt 2019. E deve dar graças a isso pela profunda crise que viveu nos anos sessenta, às vésperas de descobrir que, além de peixe, era rica em petróleo (1969) e de rejeitar pela primeira vez em um referendo (1972) sua adesão à União Europeia (UE). Em uma nação leitora, muito leitora – 90% da população lê pelo menos um livro por ano, com uma média de 16 títulos, em comparação com 60,6% que o faz na Espanha –, em uma nação com uma longa tradição de narradores e um sólido sistema de bibliotecas, surgiam muito poucos gênios literários e os títulos interessantes foram se tornando um bem escasso. E o culto Reino da Noruega, um dos países mais felizes, seguros e desenvolvidos do mundo, não podia permitir isso.

“Era uma situação muito grave para um país tão pequeno como o nosso, com uma língua territorialmente tão limitada”, diz Oliver Møystad, responsável pela ficção da Norla, na sede do órgão em Oslo. “Temia-se que pudesse desaparecer se nada fosse feito para fortalecer a literatura, que sempre foi considerada uma fonte de renovação e transmissão do idioma”. Então, para revitalizar as letras em norueguês e evitar a pressão do imperialismo cultural anglófono, o Governo socialdemocrata da época estabeleceu um formidável programa de aquisição em massa de ficção contemporânea para as bibliotecas públicas que, com o tempo, foi sendo ampliado – hoje também é concedido a livros de não-ficção para adultos, ficção e não-ficção infantil e juvenil, ficção traduzida e graphic novels – e, a julgar pelas informações fornecidas por Ingeri Engelstad, diretora-geral da editora Oktober, o objetivo buscado foi atingido com folga: “Na década de 1960 surgiam apenas um ou dois escritores iniciantes por ano. Agora são mais de 60” diz. “Na Suécia e na Dinamarca há proporcionalmente menos porque eles não podem arriscar tanto”, acrescenta Møystad.

Sua repercussão também foi essencial para a indústria. “Economicamente, é de grande importância”, prossegue Engelstad. “Possibilita aos editores apostar em escritores desconhecidos e publicar um leque mais amplo de gêneros e vertentes literárias”. 35 títulos de seu selo, todos menos um de seu catálogo de ficção de 2016, passaram pelo filtro de qualidade do comitê que decide as aquisições a serem feitas. O Governo, recentemente questionado por vender a sua transição verde ao mesmo tempo em que autoriza sondagens de petróleo, comprou 24.605 exemplares impressos e 2.450 licenças de e-books, pelos quais a Oktober recebeu o equivalente a 3 milhões de reais (60% do total); os 40% restantes vão para o autor, que, além disso, só por ter sido selecionado já recebe mais em direitos autorais (20% se for autor de ficção) do que se o não tivesse sido (15%).

Este programa de compra por atacado, em que o Governo gastou 13,8 milhões de euros (51 milhões de reais) no ano passado, é a joia da coroa de um sistema patrocinado pelo Estado com a colaboração da indústria e que conta com o respaldo solidário dos best-sellers do país. O Executivo da Noruega, que registrou uma renda per capita anual de 59.000 euros (220.000 reais) em 2016 e uma taxa de desemprego de 1,9% em junho passado, subsidia os que se aventuram pelo caminho da escrita, mas também os autores consagrados – em 2017, ele concedeu somente para autores de ficção para adultos 125 subsídios, num total de mais de 2,5 milhões de euros, segundo dados de Richard Smith, responsável pelo departamento do programa de fomento a artistas. Mas isso é feito também pelas associações de escritores. E se elas conseguem distribuir bolsas de valor significativo para que o autor pesquise, viaje ou possa deixar o seu trabalho e se dedicar exclusivamente à escrita de um livro, é porque seus fundos coletivos se alimentam de direitos autorais pelo empréstimo de livros (em 2016, o Governo pagou aos autores 11,6 milhões de euros por essa via) ou cópias feitas nas universidades, nas empresas etc. (a Kopinor, instituição que gere os direitos e licenças, distribuiu mais de 21 milhões de euros para os autores). E os que mais contribuem são os que mais vendem.

Ida Hegazi Høyer, que já está em seu sexto livro, beneficiou-se duas vezes do sistema. Recebeu duas bolsas até hoje: uma de três e outra de dois anos. Só utilizou a primeira e já recebeu o Prêmio de Literatura da UE em 2015 por Perdón (Perdão). Recebe 25.000 euros (93.000 reais) por ano. “Alguns reclamam dizendo que as bolsas-salário são baixas demais, levando em conta o alto custo de vida daqui, mas viver da sua arte não é um direito humano. Somos os escritores mais sortudos do mundo”, afirma. Maria Parr toca na mesma questão: “Houve uma grande solidariedade da parte das gerações antecedentes, que conseguiram privilégios para todos a fim de que o capitalismo não governe tudo. Deveríamos ter cuidado para não perdê-los.”

No setor, que luta pela eliminação do imposto sobre valor agregado (IVA) para os e-books (atualmente, na faixa dos 25%), há certa preocupação de que os paradigmas do singular ecossistema literário possam desmoronar. A cultura sempre foi um assunto público, e o atual Governo, liberal, defendeu e defende um modelo misto público-privado. O programa de compra de livros para as bibliotecas não está em questão, mas há uma preocupação quanto a outros pilares do sistema que estão regulados por acordos entre os agentes do setor, como o preço fixo e os contratos padronizados pelos quais os autores inscritos nas associações de escritores (que são praticamente todos), sejam eles Nesbø ou estreantes, recebem a mesma porcentagem de direitos de autor.

“Esperamos que haja uma mudança de Governo com as eleições do outono [boreal]. Faremos lobby para aprovar uma lei do livro que garanta o preço fixo e os contratos padronizados”, diz Trond Andreassen, secretário de Assuntos Exteriores da Associação Norueguesa de Escritores de Não-Ficção e Tradutores. “É importante defender o sistema que temos, que, acredito, vai além do custo”, afirma Gaarder. “Ganhei fora muito dinheiro que logo reverti para a Noruega: mais de 10 milhões de euros (37 milhões de reais) em impostos. De certo modo, o sistema, que é generoso, paga a si mesmo.”

A globalização deixou pouco espaço para comparar as leis de propriedade intelectual e as políticas de proteção ao escritor e à literatura na Europa. Os modelos são semelhantes, embora cada país se destaque por algo e se diferencie por sua melhor ou pior aplicação. A França é considerada um modelo por seu respeito à entidade do escritor; a Irlanda, um paraíso em termos fiscais (nenhum criador, nem o U2, paga imposto por sua obra); os nórdicos são conhecidos pela promoção da cultura. E a Noruega, onde a ostentação é um pecado e a modéstia se exerce como grande virtude, pode se orgulhar de ter um sistema que permite que um autor, mesmo fora do grupo dos best-sellers, busque seu sonho. Não é uma quimera. No país dos fiordes, pode-se viver da literatura sem ser comercial.

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