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Editora relembra 40 anos de sua amizade com Ferreira Gullar

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Ferreira Gullar e Maria Amélia Mello num café da manhã, em São Luís (MA), em 1999

Ferreira Gullar e Maria Amélia Mello num café da manhã, em São Luís (MA), em 1999

 

Maria Amélia Melo, na Folha de S.Paulo

RESUMO Responsável por editar livros de Ferreira Gullar, autora relembra diversos episódios relacionados à vida e à obra do poeta, morto há exatos seis meses. Relatos remontam ao primeiro encontro, em 1977, passam pela colagem que o escritor fez em parceria com um gatinho e chegam aos momentos derradeiros, em 2016.

Ferreira Gullar acabava de chegar ao país, no final dos anos 1970. Voltava de um conturbado exílio e enfrentava os sobressaltos de sua opção política. Foram quase sete anos longe do Brasil: Moscou, Santiago, Lima. Por fim, na Argentina, já estava determinado a retornar, não suportava mais ficar distante de sua terra, da família.

Era melhor assim, deixar claro que lá fora não ficaria mais, agoniado, atravessando as avenidas portenhas sob o signo da solidão.

Essa dor fermentou sementes para sua grande obra, “Poema Sujo”, publicada em 1976 pela Civilização Brasileira, de Ênio Silveira. A poesia foi aliada decisiva no desenrolar dos acontecimentos, já que o recém-lançado livro causara impacto, e a repercussão acabou por antecipar o fim do exílio.

A noite de autógrafos, numa livraria carioca, reuniu muita gente, um verdadeiro ato de contestação, mas sem a presença do autor, ainda escondido numa interminável noite veloz, em Buenos Aires.

Era uma maneira de denunciar o que sofria o poeta e de abrir caminho para sua volta, sem represálias. Ou seja, a criação chegaria antes do criador, numa fita gravada, que Vinicius de Moraes trouxe após uma temporada de shows.

Jornalistas, escritores e amigos tomaram a iniciativa de obter do governo militar a garantia de que Gullar poderia desembarcar no Rio em segurança. Não foi bem assim. Foi preso, levado ao DOI-Codi e interrogado, sem parar, por 72 horas. Sofreu ameaças e, então, foi solto.

Numa coincidência de datas, poucos meses depois, recebi uma ligação de Ênio Silveira e aceitei o desafio de estruturar o departamento de imprensa da editora. Foi quando conheci Gullar. Ali, numa casa antiga de Botafogo, iniciamos uma amizade.

Mais tarde, convivi também com José de Ribamar Ferreira, nome que consta apenas nos documentos e registros oficiais, filho de seu Newton e dona Alzira, que chegara antes ao mundo, num 10 de setembro de 1930, em São Luís.

O menino José de Ribamar cedo entendeu seu destino: ser artista. Em 1951 tomou um avião para descobrir, na cidade grande, as novidades que não eram divulgadas no Maranhão. Estava com 20 anos e carregava na mala de madeira tosca algumas peças de roupa e um punhado de folhas avulsas, com material para um segundo livro.

A estreia, em 1949, não despertara muito interesse. Tratava-se de “Um Pouco Acima do Chão”, de minguada tiragem, paga com as economias de sua mãe. Já se assinava Ferreira Gullar, pseudônimo inspirado na família materna (Goulart) e que foi a saída encontrada para não ser mais confundido com um escritor de São Luís, de versos ultrapassados.

Para a literatura, nascia o outro, que se tornaria um dos mais importantes intelectuais brasileiros, com fôlego para participar de praticamente todos os movimentos expressivos dos anos 1950 para cá. Experiências em grupo, como o concretismo, o neoconcretismo, os CPCs (Centro Popular de Cultura).

Em 1954, publicaria “A Luta Corporal”, saudado por João Cabral de Melo Neto, e que se transformaria no livro de toda uma geração.

José de Ribamar e Ferreira Gullar se entenderam bem ao longo de 86 anos; apesar de eventuais desencontros, tinham a convicção de dividir espaços na vida e na criação.

Jornalista, locutor, crítico de arte, contista, biógrafo, tradutor, ensaísta, cronista, dramaturgo, autor de livros infantis, artista plástico. A obra de Gullar foi traduzida para várias línguas: inglês, espanhol, holandês, francês, alemão, italiano, sueco. Ele recebeu muitos prêmios e se destacou entre os melhores.

Para mim, foi o mais plural e “singullar” amigo. Não se parecia com ninguém aquele homem magro, estatura mediana, pesando em torno de 50 quilos, cabelos lisos, dedos longos e finos, passo apressado, decidido até o fim.

A FAMA

Gullar andava por Copacabana, onde morou por muito tempo, num hoje conhecido prédio de número 49, ia ao supermercado, pagava contas, carregava as sacolas. Passeava à beira-mar. Acordava por volta das 6h, organizava a refeição matinal, cumpria as obrigações cotidianas, mas estava sempre refletindo, atento ao que o cercava.

Era um entre tantos, mas era ele, com a sua “singullaridade”. Mesmo sem saber, ou querer, deixava uma presença por onde circulava.

Não passava incógnito, e essa demonstração explícita não o incomodava. Sorria, balançava a cabeça, distraía-se. Em um de seus poemas, expressa: “apenas um homem comum”. Lá vai o poeta.

Um dia, percorrendo as calçadas incertas do bairro, deu de cara com um morador de rua, que chutava um carro abandonado. Ao vê-lo, o rapaz estancou os movimentos repetidos, afrouxou a raiva e encarou o homem indefeso. O poeta parou e, acuado, já se imaginou apanhando. Para sua surpresa, o prenúncio da violência se dissolveu no gesto do agressor, que, de braços levantados, gritava: “Ferreira Gullar, Ferreira Gullar, tão famoso e não sei quem é”.

Quando lhe perguntavam se era o poeta Ferreira Gullar, costumava responder, com ironia, mas deixando escapar uma verdade camuflada: “Às vezes”. É isso mesmo, ninguém consegue ser poeta 24 horas por dia, em permanente ebulição e delírio. Quem aguentaria?

Não se pode dizer que a vida dos dois -José de Ribamar e Ferreira Gullar- tenha sido fácil, mas pode-se afirmar, pelo que presenciei em diversos momentos, que a vocação de ambos era a felicidade. Não por outro motivo sua frase -“Não quero ter razão, quero ser feliz”- virou moda, estampada em camisetas.

Testemunhei a reação de seus admiradores, muitos ainda adolescentes, futuros leitores de uma poesia que se escrevia ao correr dos fatos, aos cheiros e sons que acendiam nele, aí sim, um espanto.

Sabe-se, ainda, que gostava de gatos, um em especial, o já famoso e primeiro Gatinho, que até mereceu um livro só para ele. Como costumava visitar Gullar com frequência, percebi que o felino, arisco, reivindicava sua posição no apartamento. E era tanto privilégio que se tornou parceiro do escritor.

Explico: tudo que lhe caía nas mãos -pastas coloridas, papéis diferentes, cartolinas- Gullar transformava em colagens. Certa vez, quando o poeta se achava absorvido na elaboração artesanal, o telefone interrompeu a quietude da sala. Ao retomar o que fazia, ele se daria conta de que o que havia deixado por colar já era outra coisa.

O poeta logo entendeu a parceria do Gatinho. Deu a ele, com bom humor, a coautoria da colagem.

QUESTIONADOR

Essas histórias -e outras tantas- amenizam a fama de mal-humorado que tinha. Era avesso à mesmice ou preguiça mental. Gostava de trocar ideias, era um provocador, não temia polêmicas políticas ou estéticas.

Estava sempre disposto a rever o que o tempo cristalizava, a rever a si mesmo -quando, por exemplo, aceitou entrar para a Academia Brasileira de Letras, após tantas recusas. Nunca se trancou em casa, em si mesmo, indiferente ao que ocorria no país ou no planeta.

Fui sua editora por muitos anos, e nosso diálogo profissional era intenso. Uma sugestão, uma ideia, um projeto era bem recebido. Sim ou não, faço ou não faço, a resposta tinha rumo certo. Algumas vezes, na ansiedade de ter pronto o livro inédito, eu não resistia e perguntava, assim entre um feixe de palavras descompromissadas. A resposta chegava direta: “O livro só fica pronto quando está pronto”. Era a senha para não mais indagar.

Num setembro distante, em 1999, partimos em caravana de amigos e jornalistas para o Maranhão, a única viagem de avião que fizemos juntos. Não é segredo que Gullar não gostava de voar. Tinha medo, sejamos francos.

Em São Luís, fomos guiados por ele a percorrer as ruas, espreitar seu passado mais remoto, num passeio único pelas memórias do José de Ribamar, que lá viveu por 20 anos, e mais, pelo senso lírico de Ferreira Gullar, que deu poesia aos becos e passagens da cidade.

Pensei comigo mesma: era como se ele escrevesse, em voz alta, as muitas vozes do “Poema Sujo”, matriz e raiz de sua existência, sua infância, seus pais e irmãos.

No seu aniversário, ele gostava do carinho, da atenção dos amigos. Em 2016, não foi assim. Passamos na casa dele, sentados, informalmente, em volta da mesma mesa onde ele punha em prática suas ideias. E ali comemos pizza, tomamos vinho (Gullar comia e bebia muito pouco), em família.

Relembro aqui meu amigo de tantos anos. Procuro afastar a emoção esgarçada, armadilha emotiva, alheia à cumplicidade que a amizade abastece. Ele ensinou muito da vida e da arte.

Nossa última reunião de trabalho aconteceu na editora Autêntica, no Rio, no início de outubro do ano passado. Ele foi me visitar para tomarmos um café e dali seguirmos para o lançamento da edição comemorativa dos 40 anos do “Poema Sujo”, agora pela Companhia das Letras.

FIRME E LÚCIDO

No final da tarde, fomos a pé até a livraria Da Vinci, na avenida Rio Branco. Ele ia rápido, como era seu jeito. Comento isso para dizer que estava firme, nada ofegante (uma complicação pulmonar levou meu amigo), e não havia nele indício de doença.

Depois do evento, ele me deu carona. Durante o trajeto, conversamos sobre uma possível biografia, e ele, apesar de animado, confessou que estava cansado. “É muita coisa, você sabe.”

Editei seu último livro inédito -“Autobiografia Poética e Outros Textos”- quando assumi a editoria literária da Autêntica. Lançamos na Travessa do Leblon, em setembro de 2015, com um debate mediado pelo jornalista Geneton Moraes Neto, nosso amigo comum.

O volume suscitou muitas matérias e resenhas, mas a melhor opinião que recebi foi de sua filha, Luciana: “Isto não é um livro, é uma declaração de amor ao meu pai”. O comentário nunca me saiu da cabeça. No fundo, editar é um ato de amor, de dedicação e cumplicidade.

Fui vê-lo na Casa de Saúde. Ele estava falante, sem transparecer desânimo. Parecia o Gullar de sempre. Conhecendo seu temperamento, percebi que aqueles dias deveriam ser intermináveis para ele.

Negou-se a prolongar o sofrimento, mas não o sonho, quando pediu que a filha o levasse para o mar de Ipanema. Ainda no leito, ditou para a neta Celeste a crônica “Arte do Futuro”, confirmando a paixão de toda uma vida, que seria publicada no domingo seguinte à sua morte.

Esteve lúcido até o coração deixar de pulsar. Inteiro Gullar.

MARIA AMÉLIA MELLO, 64, é editora de livros.

Arno Wehling é eleito para a Academia Brasileira de Letras

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Arno Wehling, o novo imortal - Leo Martins / Agência O Globo

Arno Wehling, o novo imortal – Leo Martins / Agência O Globo

 

Historiador vai ocupar cadeira que pertenceu a Ferreira Gullar, morto em dezembro do ano passado

Publicado em O Globo

RIO – Foi uma semana agitadíssima para os padrões da instituição: no dia seguinte em que o ensaísta e escritor João Almino foi escolhido como imortal, uma nova eleição definiu o historiador Arno Wehling como integrante da Academia Brasileira de Letras. Mas se a escolha de Almino, único candidato à cadeira 22, que pertencia a Ivo Pitanguy, pareceu mais tranquila, a contenda da tarde de ontem na sede da instituição, no Centro do Rio, foi bastante apertada. Por 18 votos a 15, além de um voto em branco, o historiador e presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), venceu o poeta Antonio Cicero por 18 votos a 15 para a cadeira 37, que era de Ferreira Gullar. Houve um voto em branco. Votaram 23 acadêmicos presencialmente e 11 por cartas.

— Encaro esta notícia de duas maneiras. Além de ser uma valorização da instituição, e como historiador entendo que é fundamental para a constituição de um país a valorização das instituições, a entrada na ABL me permite o convívio com pessoas que admiro e respeito muitíssimo — declarou Wehling, que esperou o resultado da eleição em uma recepção na cobertura de um hotel em Ipanema, cercado de familiares e amigos, além dos imortais que surgiram depois da votação para prestigiá-lo. — As instituições culturais são as mais significativas de um país. Será uma oportunidade de colaborar com a vida cultural do país.

A eleição de Wehling dividiu duas espécies de alas não formais que existem na ABL. Uma é mais ligada aos poetas e romancistas, a chamada “ala literária”, reunida em favor do poeta carioca Antonio Cicero, que tentava a vaga pela segunda vez (a primeira, em que disputou com o sociólogo Francisco Weffort, terminou curiosamente empatada, o que é raro acontecer na Academia). A outra é a ala dos historiadores, da qual faz parte mais de uma dezena de imortais, todos integrantes do IHGB. Um deles é o historiador e africanista Alberto da Costa e Silva, um dos principais partidários da candidatura de Arno Wehling:

— A Academia ganha muito com a presença de um intelectual como ele — afirmou Costa e Silva assim que o resultado foi anunciado, tomando o telefone para parabenizar o amigo: “Fique tranquilo que estava ganho” — disse a Wehling.

“A ESPERA DE CiCERO NÃO SERÁ EM VÃO”

A acadêmica Nélida Piñon, amiga de Cicero, manifestou-se:

— Ele será muito bem-vindo. A presença dele reforça e enriquece a presença do IHGB na academia. Arno, sem duvida, é um notável. Os dois candidatos eram excelentes, e a espera de Cicero não será em vão. É o destino natural de um homem daquela envergadura ser parte da ABL — disse Nélida, que também compareceu à recepção de Arno.

Ex-presidente da ABL, Marco Antonio Villaça também frisou a aliança que formou-se entre o IHGB e a ABL:

— Arno é um escritor com obra importante, e que tem uma constância na relação com outros escritores, o que é muito importante para a Academia. O IHGB e a ABL mantêm o sentido antropológico de cultura, como sempre quis Machado de Assis.

Natural do Rio, Arno Wehling tem 70 anos e é formado em História pela antiga Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil e em Direito pela Universidade Santa Úrsula. É ainda Doutor em História pela Universidade de São Paulo, e tem pós-doutorado na Universidade do Porto, em Portugal. Especializado em teoria e metodologia da História, história do Brasil Colônia e história do Direito brasileiro, ele é professor da UFRJ e da UniRio. Integra o IHGB desde 1976, e tem mais de dez livros publicados na sua área de pesquisa.

— Será um prazer conviver e descobrir de que forma Arno contribuirá com a instituição — declarou a acadêmica Ana Maria Machado.

Os ocupantes anteriores da cadeira 37, que antecederam Arno Wehling, foram Silva Ramos, fundador, que escolheu como patrono da posição o escritor Tomás Antônio Gonzaga, Alcântara Machado, Getulio Vargas, Assis Chateaubriand, João Cabral de Mello Neto e Ivan Junqueira.

“A morte é o nada”, diz Ferreira Gullar em entrevista inédita

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O poeta Ferreira Gullar na entrega do Prêmio Jabuti, em São Paulo, em 2011

O poeta Ferreira Gullar na entrega do Prêmio Jabuti, em São Paulo, em 2011

Pedro Maciel, na Folha de S.Paulo

RESUMO Em entrevista inédita, Ferreira Gullar, um dos mais importantes poetas brasileiros, morto no domingo (4), fala sobre a importância e o papel da poesia e da arte, sobre os intérpretes do Brasil e sobre o futuro, o amor e a morte. Dois encontros de Gullar com o escritor que assina as perguntas estão aqui compilados.

Poeta, crítico, teórico de vanguardas, letrista, ilustrador e dramaturgo. O maranhense José Ribamar Ferreira, ou Ferreira Gullar, morto no domingo (4), aos 86 anos, deixou sua marca em variadas áreas da cultura brasileira.

Ex-militante do Partido Comunista, ao qual se filiou no dia em que começou a ditadura militar no país, em 1964, Gullar se notabilizou posteriormente como um dos mais ferozes críticos da esquerda e do chamado lulismo, como se constatava nas páginas da Folha, onde manteve coluna por 11 anos.

Em conversas e desconversas que tivemos, no entanto, o poeta pouco falou de política, mas muito de poesia, arte, vida e morte. Amigo e leitor de meus originais, permitiu que eu gravasse dois encontros, um em 2010 e outro em 2015. A síntese dessas conversas está na entrevista que segue, que permaneceu inédita até o momento.

*

Como o poeta se sente num tempo em que a poesia perdeu sua importância cultural?

Ferreira Gullar – Não sei se a poesia perdeu sua importância cultural. Acho que não perdeu.

Uma coisa é a cultura de massa, a badalação em torno de bobagens que preponderam na nossa sociedade. Outra coisa é a verdade, a verdadeira arte, a verdadeira poesia, os verdadeiros valores.

A poesia, mais do que nunca, é fundamental para as pessoas exatamente porque elas vivem uma vida alucinada em que todo valor é banalizado. Então, as pessoas recorrem à poesia. É claro que não é a maioria, mas nunca foi a maioria. Em época alguma do mundo a maioria procurou a poesia.

O que é a poesia para você?

Eu não sei o que é a poesia. Ninguém sabe. Ninguém define o que é a poesia. A poesia se concretiza nos poemas, no que está escrito. E existe poesia em tudo. Existe poesia na música, no teatro, no cinema. Mas o que se chama poesia no sentido literário é o que está no poema. Fora do poema, ela é uma promessa, uma expectativa.

O poema é um objeto visual, sonoro e intelectual?

O poema é um lugar onde a palavra vira poesia. Porque fora do poema, fora da obra de arte, a poesia não está em parte alguma.

O ritmo é, como disse Octavio Paz, o núcleo do poema?

Eu não acho isso. O núcleo do poema é o que ele diz, é o significado dele, é o que está sendo expresso –que é uma coisa que não pode ser dita a não ser daquela maneira, não é traduzível em linguagem lógica. O que o poema diz, só o poema diz.

O ritmo, a melodia e todos os outros elementos compõem a expressão do poema, mas o essencial não é o ritmo, é o significado.

A arte poética é uma tentativa de salvação da existência?

Depende do que a gente está chamando de salvar. Se é salvar a alma, aí não, porque a poesia não serve para isso. A poesia ajuda as pessoas a viverem, é para isso que ela serve. As pessoas necessitam ser felizes, ter uma vida com alguma alegria, com alguma maravilha, com alguma beleza. E a função do artista é propiciar isso. A poesia não salva ninguém porque isso aí é função de bombeiro.

O artista tende a criar algo inútil?

A arte é inútil no sentido das coisas práticas e pragmáticas. Mas ela não é inútil no sentido mais amplo da palavra, porque o que ajuda as pessoas a viver não é inútil.

A arte se relaciona com o mundo real para além do campo simbólico?

Fora do mundo real, o que existe? Tudo é o mundo real. Quer dizer, existe o mundo real concreto, palpável, e existe a fantasia, a imaginação. E isso tudo constitui a realidade do ser humano.

Mas o mundo que nós vivemos, o mundo das relações afetivas, das relações concretas, do dia a dia, é o mundo real. Sem ele, nada tem sentido. A própria fantasia existe pra tornar esse mundo real melhor e mais desfrutável. E a arte tem a ver com o mundo real –pelo menos a minha tem.

O artista é naturalmente um humanista?

De certo modo é porque a arte é uma afirmação da humanidade das pessoas. Porque a qualidade humana do ser humano é inventar. Nós nascemos bichos e nos transformamos em seres humanos. Então a arte, como a filosofia e as outras coisas, são o homem se inventando como ser humano.

O artista sempre pretende passar uma mensagem?

Existem poesias de muitas diferentes naturezas. Existem poetas que querem passar uma mensagem para as pessoas, ou filosófica ou política mesmo. E existem outros poetas para quem a poesia é a busca de uma linguagem, até de uma revelação. Uma busca do que nem ele sabe o que é. É a busca de um significado oculto. Um poeta como Mallarmé busca expressar uma coisa que está oculta, que nem ele sabe o que é, e o seu poema é a tentativa de criar uma linguagem simbólica em que se reflete a intuição que ele tem de uma coisa não definível logicamente.

Mas Drummond, por exemplo, numa certa altura da vida, passa uma mensagem de humanismo e de rebeldia em relação à sociedade da época. Já um poeta como Bandeira não é assim. Ele fala muito mais dos afetos e de coisas mais simples, de sua condição de ser humano e do desamparo da vida. Tem de tudo.

Você não acha que já está na hora de pararem as releituras sobre o grupo modernista? O modernismo completa cem anos em breve, e outras gerações surgiram, como a de João Cabral, a sua, a de Leminski e a dos dias atuais.

Sem dúvida. Eles foram maravilhosos, foram pessoas incríveis. Mário, Oswald e os outros eram criativos, mas é preciso dar voz a outras gerações.

O Oswald de Andrade se intitulava sem profissão e sem esperança.

Sem profissão, sim. Agora esperança ele tinha. Ele vivia falando da utopia, né? Da sociedade do ócio. Que o ócio vence o negócio. Então, o ideal é chegar na sociedade do ócio. Ele acreditava nessa.

Como Oswald e Mário de Andrade ajudaram a desvendar o Brasil?

Eles ajudaram a criar o Brasil moderno e a moderna poesia brasileira. Ajudaram a criar uma visão nova do Brasil. Aí as pessoas ficam querendo que os caras tivessem sozinhos feito tudo, e aí tem erros –nós temos também. Você tem que olhar as coisas com um pouco mais de compreensão e não ficar pedindo tomate à pimenteira, porque pimenteira não dá tomate.

Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Euclydes da Cunha reinventaram o Brasil?

São pessoas extraordinárias. São nossos pais, nossos avós, e ajudaram a criar as coisas. Somos herdeiros deles. Se o mundo é uma invenção e o país é uma invenção, como nós –que é a minha teoria–, esses caras fizeram uma doação extraordinária a todos nós.

Eles ajudaram a construir um outro Brasil, a imaginar e a inventar um outro país. E nós, como herdeiros deles, só somos o que somos porque eles pensaram e escreveram esses livros. Como cada um de nós também, dentro dos nossos limites, estamos tentando ajudar a inventar o Brasil daqui pra diante.

Agora, se não concorda com tudo, tudo bem, não é para concordar com tudo. É para reinventar.

Há certas leituras de “Casa-Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, que nos faz pensar: que livro eles leram? Dizem que o ponto de vista de Freyre é sempre o da casa grande.

Há essa crítica. Há algumas coisas, evidentemente, naquela visão do Gilberto Freyre, que você pode criticar. Mas, ao mesmo tempo, há uma compreensão e uma visão nova do Brasil através daquela interpretação dele. Ele ajuda você a entender o Brasil. Você vai discordar de algumas coisas, tudo bem. Eu já li as mais diversas críticas. Mas não há dúvida nenhuma de que, ao ler “Casa-Grande & Senzala”, você começa a descobrir um Brasil que desconhecia.

Não tiramos os olhos do futuro. O futuro nos aliena?

Eu não sei. Nós estamos condenados ao futuro, não tem saída. Eu acho que o futuro, de algum modo, é também a esperança. Porque o futuro é a possibilidade da transformação, da mudança, da vida melhor. Quer dizer, se você não tem futuro e é o estrito presente, se o presente está bom, está ótimo. Mas e se o presente estiver ruim? Como é que é? Tem que ter o futuro.

Uns e outros vivem do passado ou do futuro, enquanto o presente vai passando.

Bom, nós vamos entrar numa discussão filosófica se existe passado ou futuro. O que existe é o presente. O passado já era e o futuro ainda não é. Então, o que existe é o presente.

Agora, evidentemente que a expectativa do futuro pode ser o caminho da esperança, a possibilidade da esperança. E o passado é o que houve, mas é o que constitui você porque é a sua história. Sem passado não existe nada porque o presente é constituído do passado. O passado é a sua história.

O que uma pessoa com a sua idade mais guarda da vida, lembranças ou esquecimentos?

Guarda tudo. É evidente que quando você tem o seu passado, você tem culpas, lembranças legais e tem coisas que te gratificam. Mas o mais importante de viver muito é que você aprende a ser melhor como ser humano.

É difícil tornar-se humano?

Sim, claro. Tanto que você vê aí, um garoto de 17 anos cortar o pescoço do outro. Não é humano. Isso aí é o ser animal, brutal, que nós somos também, mas que não queremos ser. Então, inventamos um ser humano utópico, que tem ética, tem solidariedade, e que nós tentamos ser. Mesmo que a gente não consiga, nós aspiramos a ser esse ser humano melhor.

Falemos um pouco do amor.

O amor é uma das melhores coisas da vida. No meu modo de ver, o sentido da vida é o outro. E a pessoa amada é o outro mais pleno ainda. Quer dizer, é o outro com o qual você tem uma identificação profunda e que é o companheiro ou a companheira, com quem você constrói um dia a dia, ou o futuro. Então, o amor é uma coisa altamente significativa. Porque o amor também transfigura o relacionamento das pessoas. E tem outra coisa também, o entendimento e a compreensão que estão envolvidos no amor. Quer dizer, o amor não te julga. Pelo menos como eu entendo, o amor é um refrigério, é um recanto onde você é aceito sem o julgamento implacável que normalmente as pessoas fazem umas das outras.

O amor é uma parte de você, e a morte é o todo de uma vida?

A morte é só o fim. A morte é o fim, não é o todo. A morte é muito mais o nada do que o todo. É o fim. A morte é o nada. É o nada. Você é uma coisa temporária, particular, mas a sua origem é o todo. Você vem do todo e, momentaneamente, existe como uma individualidade. Depois, você se dissolve nesse todo e desaparece.

A realidade é sombria. Ver luz no amanhecer não parece um milagre?

Eu não tenho essa visão, não. A realidade do mundo para mim não é sombria. Essa visão é que é um pouco sombria demais para o meu gosto. Eu estou vendo luz aqui, o verão, a praia azul, o mar. Eu não tenho essa visão pessimista da vida.

PEDRO MACIEL é escritor, autor de “A Noite de um Iluminado” (Iluminuras).

Conheça as principais obras do poeta Ferreira Gullar

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O poeta Ferreira Gullar - Simone Marinho / Divulgação/ Simone Marinho

O poeta Ferreira Gullar – Simone Marinho / Divulgação/ Simone Marinho

 

Artista múltiplo, escritor construiu uma sólida carreira ao longo de seis décadas

Publicado em O Globo

RIO – Poeta, artista plástico, dramaturgo, compositor, ensaísta, crítico, memorialista. Os predicados de Ferreira Gullar, que morreu na manhã deste domingo, são múltiplos. O artista construiu uma carreira sólida desde os anos 1940, em São Luís, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Moscou, Santiago. Abaixo, uma lista das obras fundamentais de Gullar ao longo de seis décadas.

– “A luta corporal”, de 1954

Primeiro livro do poeta, que já tinha publicado textos em jornais do Rio de Janeiro e de São Luís, a obra traz experimentações gráficas que abriram caminho para os concretistas de São Paulo na segunda metade da década de 1950, os irmãos Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari à frente.

– “Manifesto neoconcreto” e “Teoria do não-objeto”, de 1959

Os dois textos se tornaram marcos conceituais do neoconcretismo, movimento surgido no Rio de Janeiro que se afastava dos concretistas de São Paulo ao ampliar o espaço da subjetividade na obra de arte. Gullar já tinha rompido com os paulistas dois anos antes, por discordar do artigo “Da psicologia da composição à matemática da composição”.

– “João Boa-Morte, cabra marcado para morrer”, de 1962

Em determinado período da carreira, Ferreira Gullar acreditava que era mais importante que sua poesia se comunicasse com um maior número de pessoas — mesmo que, com isso, fosse obrigado a sacrificar a sua qualidade formal. Seus poemas em forma de cordel, como os que estão presentes nesse livro, partem dessa preocupação em levar a luta política a um grande público.

– “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, de 1966

A peça em três atos, escrita em parceria com Oduvaldo Vianna Filho, estreou em abril de 1966 no Rio de Janeiro no Teatro Opinião. No elenco, o próprio Vianna Filho, Sérgio Mamberti, Agildo Ribeiro, Antônio Pitanga, Francisco Milani, entre outros. A peça recebeu os prêmios Molière, Saci e Governador do Estado de São Paulo, como melhor peça e melhores autores do ano.

– “Dentro da noite veloz”, de 1975

No exílio desde 1971, após passar longo período na clandestinidade, o poema traz um Gullar preocupado com a necessidade de mudanças radicais no país. É resultado de sua busca de uma poesia que trata das questões políticas e sociais brasileiras, mas mantém sua qualidade literária, sem fazer concessão ao panfletário.

– “Poema sujo”, de 1976

A obra mais conhecida do escritor chegou ao Brasil contrabandeada por Vinícius de Moraes no ano anterior. Exilado em Buenos Aires, Gullar gravou em uma fita cassete sua leitura do poema, que acabou lançado no Brasil sem a sua presença.

– “Na vertigem do dia”, de 1980

Os poemas reunidos no livro mostram um poeta maduro em suas realizações literárias, estéticas e intelectuais e fazem um mergulho profundo nas entranhas da condição humana.

– “Argumentação contra a morte da arte”, de 1993

Nesta série de ensaios, Gullar exercita o seu lado de crítico de arte para atacar as vanguardas e abordar questões delicadas da arte contemporânea, na sua opinião ameaçada pela falsidade e pela tolice dos jogos de marketing.

– “Muitas vozes”, de 1999

Nos 54 poemas do livro, o escritor trata da morte, da vida, da poesia, das paisagens, dos medos e das reflexões provenientes da experiência no mundo moderno. Entre os destaques da obra, que ganhou os prêmios Jabuti e Alphonso de Guimarães, da Biblioteca Nacional, estão “Nasce o poeta”, em que retrata o fazer poético, e “Visita”, em que Gullar fala da morte do filho.

– “Em alguma parte alguma”, de 2010

Lançado mais de dez anos após seu último livro de poemas, “Em alguma parte alguma” traz de volta temas abordados em “Muitas vozes”, como a reflexão poética sobre a existência.

– “Autobiografia poética e outros textos”, de 2015

Além de um ensaio autobiográfico inédito, a obra traz entrevistas, artigos, depoimentos e um caderno de fotos que compõem um amplo painel da vida e da obra do poeta maranhense.

Editora Autêntica lançará dois livros de Ferreira Gullar em 2017

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Gabriela Sá Pessoa, na Folha de S.Paulo

Ferreira Gullar trabalhava em duas novas edições de suas obras, previstas para sair em 2017 pela Autêntica. A casa publicou, em 2015, a “Autobiografia Poética” do escritor.

O primeiro é uma reedição do livro infantil “Dr. Urubu e Outras Fábulas”, com ilustrações de Cláudio Martins e publicado originalmente em 2005. O segundo, uma coletânea de textos sobre crítica de arte publicados pelo poeta ao longo da vida —inclusive em suas colunas na “Ilustrada”.

Segundo a editora e amiga Maria Amélia Mello, que cuida da obra de Gullar há três décadas, os projetos eram encaminhados pelo próprio poeta e ele deu a última palavra sobre os mais de cem ensaios selecionados para o livro.

O autor de “Poema Sujo” (1975) morreu na manhã deste domingo (4), aos 86 anos. Seu corpo está sendo velado nesta noite na Biblioteca Nacional, no Rio, e seguirá em cortejo às 9h de segunda (5) até a Academia Brasileira de Letras, de que era membro.

“Ele deixou orientações, que vou repetir”, disse Mello. A editora conta que Gullar seguia trabalhando de seu leito no Hospital Copa D’Or, em Copacabana, onde ficou hospitalizado por 20 dias em razão de problemas respiratórios.

Em sua penúltima visita, há cerca de dez dias, “ele estava escrevendo, querendo saber das coisas. E assistindo televisão, expressando opinião. E rindo muito”. Ela o visitou no sábado (3), quando já o percebeu mais abatido e a saúde, debilitada. Segundo Claudia Ahimsa, mulher do poeta, ele disse no hospital: “Se você me ama, me deixa ir embora”.

Até a internação, Mello conta que Gullar seguia a rotina de sempre: usava o transporte público, ia sozinho à padaria e à banca de jornal, fazia as compras no supermercado, conhecia todos no bairro, desenrolava os próprios problemas. “Nos falávamos todos os dias. Quando passava quatro dias sem ligar porque minha vida enrolava, no próximo telefonema ele perguntava: ‘O que aconteceu? Por que você não me ligou? Está tudo bem?’.”

Gullar andava rápido, “naquele passo dele, o cabelo branco voando”. “O mais importante é essa trajetória: ele manteve a coerência, o que ele escreve é o que ele está pensando. Tinha a lucidez como norte da vida dele. Se o chamassem para ir a uma escola se encontrar com jovens, ele ia. A um grande evento, também. Não ficava enclausurado em casa, cheio de glórias. Você ligava na casa dele e ele mesmo atendia.”

Além dos dois livros previstos para 2017, o escritor aparecerá aos leitores em um DVD, encartado em nova edição da “Autobiografia Poética”. Dirigido por Zelito, o filme documental registra o poeta maranhense falando sobre a própria obra, filmado ao ar livre, mais jovem, nos anos 1980.

“Ele falava muito bem, além de ter uma voz muito bonita —não se esqueça que ele começou a vida como locutor de rádio”, diz Mello.

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