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10 livros para ler em janeiro e curtir o verão

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(Foto: Pixabay)

Selecionamos lançamentos da literatura para você começar o ano com uma boa leitura

Giuliana Viggiano, na Galileu

Para quem curte aproveitar o verão para tirar o atraso nas leituras, poucas coisas são tão agradáveis quanto ler um bom livro à beira da piscina ou com vista para o mar. Pensando nessas pessoas — mas também em quem prefere aproveitar os dias quentes no ar-condicionado — separamos algumas indicações de leituras para o mês. Confira:

1. Posso pedir perdão, só não posso deixar de pecar, de Fernanda Young (LeYa, 160 páginas, R$ 45)
Após a primeira menstruação, a forma com que uma jovem vê o mundo muda radicalmente. Esse é o centro de Posso pedir perdão, só não posso deixar de pecar, primeiro livro escrito por Fernanda Young, aos 17 anos. A autora, que morreu no dia 25 de agosto de 2019, ficou conhecida por seu trabalho como roteirista de TV, escrevendo programas como “Os Normais” e “Minha nada mole vida”.

2. VHS: Verdadeiras histórias de sangue, de Cesar Bravo (DarkSide, 288 páginas, R$ 49,90)
A cidadezinha de Três Rios, no interior paulista, era um lugar um tanto sinistro entre os anos de 1985 e 1995. Dividido em contos, VHS conta algumas dessas histórias bizarras e assustadoras que ocorreram no período, deixando vestígios que assombram seus moradores até hoje.

3. Melpômene, de Heródoto (Edipro, 192 páginas, R$ 59,90)
Este livro é uma adaptação dos escritos de Heródoto, historiador grego que viveu entre 485 a.C. e 425 a.C. A obra traz informações sobre como era a vida no Império Persa, além de relatos sobre a cultura dos citas e dos líbios que viveram antes de seu tempo.

4. Um conto de Natal, de Charles Dickens (Antofágica, 312 páginas, R$ 49,90)
Há quem diga que esta obra de Charles Dickens criou o Natal como o conhecemos hoje. Publicado em 1843, o livro conta a história de Scrooge, um homem avarento que vê a data comemorativa como um desperdício de tempo e dinheiro.

Isso muda quando, em uma noite natalina, o fantasma de seu ex-sócio vem visitá-lo e conta que outros três espíritos aparecerão para apontar seus erros do passado, do presente e do futuro.

5. O milagra da manhã, de Hal Elrod (BestSeller, 400 páginas, R$ 59,90)
Neste livro, o norte-americano conta como sua rotina matutina o ajudou a superar as dificuldades que surgiram em sua vida após um acidente de carro que o deixou paraplégico. Essa edição em particular conta com um diário, que permitirá ao leitor exercitar os ensinamentos aprendidos na obra.

(Foto: Pixabay)

6. Planeta dos insetos, de Anne Sverdrup-Thygeson (Matrix, 192 páginas, R$ 42)
A vida na Terra como conhecemos hoje só é possível graças a um grupo de animais que causa repulsa em muita gente: os insetos. Nesse livro, Sverdrup-Thygeson conta detalhes da vida desses seres vivos e explica como sua existência é essencial para a nossa sobrevivência.

7. A ilha do tesouro, de R. L. Stevenson (Antofágica, 368 páginas, R$ 69,90)
Jim Hawkins adora contos de marinheiros, mas, na hospedaria em que vive com seus pais, ele está longe de viver essas histórias na vida real — até agora. Pouco depois de um capitão se hospedar no local, um mapa do tesouro cai em suas mãos, e Hawkins não perderá a oportunidade de viver essa aventura.

A obra, publicada em 1883, é um clássico da literatura de ficção mundial. Nessa nova edição da Antogáfica, A ilha do tesouro é recontada com o auxílio de ilustrações, notas de rodapé e textos de apoio.

8. Meditações, de Marco Aurélio (Edipro, páginas 160, R$ 34,90)
Neste livro o leitor encontrará anotações pessoais feitas por Marco Aurélio, que governou o Império Romano entre os anos de 170 e 180. A obra permite compreender melhor o que se passava na cabeça de um cidadão da época — e de uma das figuras políticas mais notáveis da história.

9. A história de Jesus para quem tem pressa, de Anthony Le Donne (Valentina, 208 páginas, R$ 34,90)
Acreditando ou não na existência de Jesus, esta é uma leitura interessante para quem deseja conhecer mais sobre as diversas facetas dessa figura histórica. Além de contar os feitos do messias no Cristianismo, o livro traz informações sobre como outras culturas ao redor do mundo (como os vikings) lidaram com a figura de Jesus com o passar do tempo.

10. Tire do projeto do papel com Scrum, de Alexandre Magno (LeYa, 144 páginas, R$ 29,90)
Para quem curte negócios, esse livro é uma boa indicação. Nele, Alexandre Magno ajuda o leitor a compreender como funciona o método Scrum e a melhor forma de aplicá-lo no dia a dia.

Bill Gates recomenda estes 5 livros para começar bem o ano

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BILL GATES: pelo quarto ano consecutivo, fundador da Microsoft lidera lista da revista Forbes / https://exame.abril.com.br/noticias-sobre/trabalho-em-equipe/ (./Getty Images)

O bilionário e filantropo fez uma seleção de livros que acredita que todos irão gostar e que são ótimos para a virada do ano

Luisa Granato, na revista Exame

São Paulo – Para quem vive na correria do dia a dia e não sobra muito tempo para leituras mais profundas, todos os anos o fundador da Microsoft Bill Gates faz uma seleção de livros que leu naquele ano e que recomenda.

Segundo Gates, em 2019 ele inconscientemente priorizou livros de ficção, explorando outros mundos.

O bilionário e filantropo fez uma seleção de cinco livros que acredita que todos irão gostar e que são ótimos para a virada do ano.

1. An American Marriage, de Tayari Jones | Um casamento americano (editora Arqueiro)

Gates conta que o romance sobre um casal negro do sul americano cujo casamento é ameaçado por injustiças foi recomendação de sua filha. A leitura é boa para se envolver na história de amor e criar empatia pelos diferentes personagens.

2. These Truths, de Jill Lepore

A historiadora Jill Lepore conta a história dos Estados Unidos em 800 páginas. Segundo Gates, a obra tem o diferencial de utilizar pontos de vista diversos na narrativa.

3. Growth, de Vaclav Smil

Gates confessa que Vaclav Smil é um de seus autores favoritos e que esperava seu novo livro como muitos esperam pelo novo filme de Star Wars. O professor investiga o crescimento na natureza e na sociedade, desde microorganismos até impérios e civilizações.

4. Prepared, de Diane Tavenner

Sendo educação uma das paixões do bilionário, não poderia faltar uma recomendação no tema. O livro fala sobre preparar os filhos para a vida após o ensino médio, a autora faz um guia de como ajudar os jovens a seguir seu caminho na vida e para a faculdade.

5. Why We Sleep, de Matthew Walker | Por que nós dormimos: A nova ciência do sono e do sonho (editora Intrínseca)

Segundo Gates, esse é apenas um dos livros sobre comportamento humano que ele leu no ano, mas ele acredita que “Why We Sleep” é o mais interessante e profundo. Gates recomenda o livro para quem deseja ser mais saudável em 2020 e melhorar seus hábitos de sono.

The Witcher ganha coleção de livros de luxo

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Miguel Oliveira, em O Vício

A Martins Fontes anunciou que os livros de Andrzej Sapkowski ganharam um tratamento todo especial, com mapa interno, fitilho e capa dura com esse aplique metalizado desenhado pelo Ezekiel Moura. Os primeiros quatro volumes da série já estão à venda (a 1ª temporada da Netflix abrange principalmente os 2 primeiros livros), e os outros quatro chegam no começo de 2020. ⁣⁣ Confira abaixo:

A série de livros, que começa com “O último desejo”, deu origem aos games e à série homônima com Henry Cavill. Eles acompanham Geralt, um feiticeiro cheio de astúcia. Um matador impiedoso. Um assassino de sangue-frio treinado, desde a infância, para caçar e eliminar monstros. Seu único objetivo: destruir as criaturas do mal que assolam o mundo. Um mundo fantástico criado por Sapkowski com claras influências da mitologia eslava. Um mundo em que nem todos os que parecem monstros são mas e nem todos os que parecem anjos são bons…⁣⁣

5 biografias sobre mulheres inspiradoras que você precisa conhecer

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Selecionamos 5 livros incríveis que todo mundo deveria ler

Publicado no Exitoína

Muitas das grandes conquistas e histórias ao redor do mundo envolvem mulheres extraordinárias, que fizeram (e ainda fazem) toda a diferença e provocaram grandes mudanças na nossa forma de pensar, agir e viver diariamente. No entanto, grande parte delas não tiveram o reconhecimento e sucesso merecido diante das outras pessoas, e muitas vezes são esquecidas nos livros.

Pensando nisso, selecionamos 5 biografias incríveis sobre mulheres reais e inspiradoras que revolucionaram o mundo – e você PRECISA conhecer! Dá uma olhada que você não vai se arrepender:

1. Frida: A biografia

Frida Kahlo tornou-se conhecida mundialmente pelo seu feminismo e também pelas suas famosas pinturas – que fazem sucesso até hoje. Mas, o que muita gente não sabe, é que Frida também passou por momentos muito difíceis ao longo de sua vida. Apesar disso, enfrentou toda a dor e tornou-se uma mulher extremamente forte e inspiradora, que merece ser lembrada para sempre.

2. Eu sou Malala

Quando o Talibã tomou controle do Vale do Swat, no Paquistão, Malala não teve medo e os enfrentou, lutando pelos direitos da educação feminina e da valorização da mulher em uma sociedade machista. Ela levou um tiro e quase morreu, ma não se calou. Aos dezesseis anos, tornou-se a candidata mais jovem da história a receber o Prêmio Nobel da Paz, e sua história foi eternizada nos livros.



3. Minha História

Ex-primeira dama dos Estados Unidos, Michelle Obama tem uma vida repleta de realizações significativas, sendo admirada por muitos e tornando-se uma figura icônica da atualidade. Neste livro, a própria Michelle narra sua história de vida e descreve suas vitórias e decepções – tanto as da vida pública, quanto as da vida privada.


4. Rita Lee: Uma autobiografia

Escrito com muita honestidade, nessa autobiografia você poderá conhecer a verdadeira Rita Lee, famosa cantora brasileira. Neste livro, ela conta histórias valiosas sobre a sua infância, os primeiros passos na vida artística, sua prisão em 1976, sua relação com Roberto de Carvalho, o nascimento de seus filhos e suas maiores vitórias e derrotas.



5. Histórias de Ninar Para Garotas Rebeldes

Este livro incrível traz 100 histórias de mulheres que mudaram o mundo e precisam ser reconhecidas. Com uma narrativa super simples e estimulante, “Histórias de Ninar Para Garotas Rebeldes” nos ensina com belos exemplos que as mulheres podem, sim, fazer e ser tudo o que quiserem!

Laurentino Gomes: “Infelizmente, a história da escravidão é contada por pessoas brancas”

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Autor do livro ‘Escravidão’, jornalista diz que depoimentos e biografias sobre o tema são raras. Passado escravocrata manteve os negros na pobreza no Brasil, e requer segunda abolição, ele defende

Guilherme Henrique e Naiara G. Cortázar, no El País

A escravidão existe desde o início da história humana, mas só atingiu uma escala industrial quando colonos europeus levaram à força 12,5 milhões de africanos para a América. O resultado desse processo é que, pela primeira vez, a cor negra da pele se torna sinônimo de sujeito escravizado. As duas constatações estão no livro Escravidão, de Laurentino Gomes, conhecido pelos best-sellers 1808, 1822 e 1889. Se na primeira trilogia o autor reconstituiu a construção institucional do Brasil nos anos que antecederam a proclamação da República, a nova pesquisa se debruçou sobre a formação social do país. “Se você quiser entender o Brasil em uma dimensão mais profunda, precisa estudar a escravidão. Tudo que fomos no passado, o que somos hoje e que nós gostaríamos de ser no futuro tem a ver com a escravidão”, afirmou ao EL PAÍS, em uma livraria em São Paulo.

O legado da escravidão, que perdurou por mais de 300 anos e trouxe ao país cerca de 5 milhões de negros e negras, deixou sequelas profundas. O autor afirma que o Brasil precisa de uma segunda abolição, “já que a maioria da população pobre é negra, sem acesso à educação, saúde e empregos decentes”, diz.

Laurentino também defende que países que utilizaram mão de obra escrava devam pedir perdão, ainda que a questão seja polêmica. “É uma questão de honestidade, algo simbólico, porque foi um massacre, uma tragédia humanitária de grandes proporções. Agora, tenho dúvida se seria possível pagar essa dívida. Hoje, na África, há uma elite que é herdeira militar beneficiada pelo tráfico de escravos, aliado aos europeus. O rei Ashanti, em Gana, era fornecedor de cativos para ingleses e holandeses. Quem vai indenizar quem?”, questiona.

Pergunta. Você aprendeu mais com a trilogia feita anteriormente ou com esse livro?

Resposta. Com essa trilogia. A trilogia anterior me ajudou a entender o Brasil do ponto de vista burocrático, institucional, legal, ou seja, como foi a construção do estado brasileiro durante o século XIX depois do rompimento dos vínculos com Portugal. São três datas ícones: 1808, que é a chegada da corte fugindo das tropas de Napoleão Bonaparte e o início o processo de independência do Brasil. O resultado é 1822, com a independência de fato. O Brasil se mantém como monarquia durante 67 anos, o que os historiadores chamam de uma “flor exótica da América”, já que estávamos cercados de repúblicas. E a terceira data é 1889. Essa três datas ajudam muito a entender o que nós temos em Brasília hoje, essa promiscuidade entre interesses públicos e privados. Mas, se você quiser entender o Brasil em uma dimensão mais profunda, precisa estudar a escravidão, que é o assunto mais importante da história do país.

P. De que forma?

R. Tudo que fomos no passado, o que somos hoje e que nós gostaríamos de ser no futuro tem a ver com a escravidão. Primeiro por uma razão estatística: o Brasil foi o maior território escravista da América, com quase 5 milhões de cativos africanos. Isso dá 40% do total de africanos escravizados que embarcaram para o Novo Mundo, estimado em 12,5 milhões. Foi o país que mais tempo demorou para acabar com o tráfico negreiro, com a Lei Eusébio de Queirós, em 1850, e o último a acabar com a própria escravidão, em 1888. O Brasil foi construído por escravos, em todos os ciclos econômicos, passando pelo açúcar, ouro, diamante, café. A escravidão não é um assunto acabado, tema de museu ou livro de história. Ela está presente na realidade brasileira. Os abolicionistas do século XIX, como Joaquim Nabuco, Luiz Gama, André Rebouças e José do Patrocínio, defendiam que o Brasil precisava fazer duas abolições. A primeira era parar de comercializar gente como mercado, algo ocorrido com a Lei Áurea. A segunda era incorporar os ex-escravos na sociedade brasileira como cidadãos, dando terra, emprego, educação, e isso o Brasil jamais fez. O país abandonou sua população afrodescedente à própria sorte.

P. Por que o Brasil os abandonou ?

R. Quando você olha a história da abolição no Brasil, há uma história branca. O Brasil, no final do século XIX, tornou-se um pária no cenário internacional, como foi a África do Sul na época do Apartheid. A elite brasileira se deu conta de que a escravidão comprometia a imagem do país perante o mundo supostamente desenvolvido. Havia uma nobreza aqui, como se fosse Versailles ou a Corte Espanhola, de um país que se julgava europeu, monárquico, com uma imagem imperial. Mas a realidade nas ruas era de escravidão, pobreza e anafalbetismo. A Lei Áurea procura livrar o país dessa nódoa, mas o Brasil nunca fez nenhum esforço para incorporar sua população, porque isso significava abrir mão dos privilégios, riquezas, redirecionar os recursos do Estado para pessoas que não tinham oportunidade. O resultado disso é que hoje nós somos um dos países mais segregados do mundo, embora não tenhamos leis de segregação racial como houve nos EUA até a luta pelos direitos civis. Mas somos um país segregado na geografia, basta ir ao Rio de Janeiro e ver quem mora nos bairros violentos e dominados pelo crime organizado e quem vive em Copacabana ou no Leblon, na zona sul. Também é um país segregado nos números, indicadores sociais. Por qualquer critério que você queira medir o Brasil, seja renda, emprego, segurança pública, existe um abismo entre oportunidades para a população branca e negra. Um homem negro aqui tem oito vezes mais chances de morrer em um homicídio do que um homem branco. Nós somos um país profundamente preconceituoso. No passado, desenvolvemos alguns mitos de que seríamos uma grande democracia racial, de que a convivência era cordial e amigável. Se você entrar numa rede social agora vai ver as manifestações de racismo explícitas, cruas, inclusive no discurso do presidente da República.

P. Qual a maior diferença da escravidão ocorrida nas Américas para a escravidão na história?

R. É como se a escravidão fizesse parte do código genético humano. Houve no Egito Antigo, na Babilônia, na Grécia Antiga e na África antes da chegada dos europeus. A própria etimologia da palavra escravo, slave em inglês, vem de “slavo”, do povo branco que era escravizado no leste da Europa pelo Império Romano. A africana tem duas novidades: a primeira é a escala industrial, com 12,5 milhões de pessoas embarcadas em cerca de 35 mil viagens de navios negreiros para trabalhar em atividades no Novo Mundo que podem ser consideradas pré-industriais. A divisão dos trabalhos, os turnos, a hierarquia, a maneira de funcionamento de um engenho de açúcar no Nordeste brasileiro, ou de uma mina de diamante, se assemelhavam muito às futuras fábricas da revolução industrial na Inglaterra. A segunda característica está no nascimento do racismo: é a primeira vez na história da humanidade que há a associação entre a escravidão e a cor negra da pele. Há toda uma ideologia construída, inclusive de fundo religioso, para dizer que os africanos eram selvagens, bárbaros, pagãos, praticantes de religiões demoníacas, e que portanto a melhor coisa que poderia acontecer com o africano era ser escravizado para se incorporar a suposta civilização europeia que se instalava nos trópicos. Era muito comum nas discussões do parlamento brasileiro a ideia de que a escravidão era a redenção dos escravos. O Padre Antônio Vieira, no final do século 17, defendia a ideia de que era uma graça divina que os escravos tivessem tido a oportunidade de serem escravizados para se incorporar a Igreja Católica.

P. A Igreja Católica fez uma distinção entre índios e africanos, certo?

R. Há uma discussão filosófica e teológica sobre a conveniência ou não de escravizar índios. Mas a realidade é que os índios foram massacrados. Portugueses e espanhóis, quando chegaram à América, tentaram de todas as formas escravizar os índios. A primeira carga de escravos que cruza o oceano atlântico não foi da África para o Brasil, mas foi daqui para Portugal, em 1511. Uma nau chamada “Bretoa”, de um senhor chamado Fernando de Noronha, que hoje dá o nome ao nosso arquipélago no nordeste, levando uma carga de pau-brasil, peles de onça pintada, papagaios e 35 indígenas que seriam leiloados em Portugal. Nos três séculos seguintes o Brasil matou um milhão de indígenas a cada 100 anos de diversas maneiras: expulsão de terras, guerras, extermínio e, principalmente, pelas doenças, como gripe, sarampo e varíola. A inviabilidade prática da escravidão, todo esse massacre indígena, coincide com a discussão filosófica dos jesuítas que afirmavam que eles não deveriam ser escravizados. Mas o fato é que os portugueses e espanhóis não conseguiram realizar seu projeto inicial que era escravizar os índios. Se eles tivessem conseguido, talvez não tivéssemos a escravidão africana, porque tínhamos 5 milhões de índios aqui, que foi o número aproximado de africanos trazidos para o Brasil. Há também uma justificativa bíblica para se voltar à África. No livro do Gênesis, Noé, após dilúvio, se torna produtor de vinho. Em uma determinada ocasião, ele bebe demais, se embriaga e dorme completamente nu dentro de casa. Os três filhos chegam e um deles, ao ver o pai daquele jeito, ridiculariza-o. É o Cam. Ao acordar, Noé teria lançado a “Maldição de Cam”, dizendo que os descendentes dele seriam escravos. Os padres jesuítas diziam que os descendentes de Cam seriam os negros africanos e, portanto, candidatos naturais a escravidão. Isso era repetido de forma exaustiva.

P. Alguns pensadores do século XVIII e XIX, defensores da liberdade, eram a favor da escravidão?

R. Sim, David Hume [filósofo e escritor britânico] por exemplo. Ele era acionista de uma companhia de tráfico de escravos. Thomas Jefferson, que escreveu a declaração de independência dos EUA dizendo que todo ser humano nasce com direitos iguais, era dono de um plantel enorme de escravos. Tiradentes, herói da Inconfidência Mineira, era dono de meia dúzia de escravos no ano que foi morto, no Rio de Janeiro.

P. Os países precisam pedir perdão pela escravidão?

R. Creio que sim. É uma questão de honestidade, algo simbólico, porque foi um massacre, uma tragédia humanitária de grandes proporções. Agora, tenho dúvida se seria possível pagar essa dívida. Hoje, na África, há uma elite que é herdeira militar beneficiada pelo tráfico de escravos, aliado aos europeus. O rei Ashanti, em Gana, era fornecedor de cativos para ingleses e holandeses. Quem vai indenizar quem? É difícil. Acho que uma atitude política de pedir perdão é importante. O Papa João Paulo II fez isso ao visitar a ilha de Goreia, em Senegal. Não foi pela Igreja como um todo, mas pelos católicos que se envolveram no tráfico de escravos. É algo importante para ir diminuindo essa ferida. As cotas preferenciais para afrodescentes em escolas e postos da administração pública. Mas o simbólico também ajuda. Há uma dívida histórica que precisa ser enfrentada por palavras e gestos concretos.

P. O livro diz que para cada 100 habitantes do Brasil durante a escravidão, 86 eram escravos e 14 colonos brancos. Por que não houve uma rebelião, por exemplo? O que sustentava essa sociedade?

R. Havia manuais que aconselhavam fazendeiros a não manter plantéis de mesma origem, cultura, língua ou região geográfica. Isso impedia que eles se rebelassem. Existia, também, um sistema de premiação e punição. Se o escravizado fosse rebelde, era chicoteado. Se fosse cooperativo, ganhava folga semanal, o direito de cultivar uma horta, de ir à missa e de ganhar sua própria alforria. O Brasil teve um altíssimo número de alforrias. Um historiador norte-americano, Donald Ramos, afirma que a alforria foi um dos sistemas de controle mais eficientes do sistema escravista, porque ele oferecia ao cativo uma oportunidade de conquistar a liberdade e de escapar da escravidão. Há um estudo do historiador Manolo Florentino que diz que apenas 5% dos escravos brasileiros se rebelaram, fugiram e formaram quilombos. A principal forma de resistência era tentar ocupar os espaços que a sociedade escravista dava para o escravo se aproximar do universo dos brancos. Participar das irmandades religiosas, como a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Ifigênia, dava um “status social” para o escravo, com um papel simbólico. Existia um branqueamento cultural: quanto mais rápido ele se distanciasse da cultura africana, mais “vantajoso” seria.

P. Você escreve que existia uma briga entre negros nascidos no Brasil e os crioulos. Como era isso?

R. O crioulo era o escravo de primeira geração nascido no Brasil. O negro boçal era o recém-chegado, também chamado de “preto novo”. O sujeito nascido no Brasil se julgava superior, porque ele havia migrado para o universo dos brancos. Ele já tinha constituído família, falava a língua portuguesa, participava das irmandades religiosas e possuía o código da sociedade colonial portuguesa. O escravo chegado da África, não. As rebeliões aconteceram justamente nesse universos dos escravos recém-chegados. Palmares, por exemplo, era formado por negros Jagas de Angola, que se rebelaram no final do século 16, e fugiram para a Serra da Barriga, em Alagoas. A Revolta do Malês, de 1835, foi feita por negros muçulmanos, na Bahia, oriundos da Nigéria. As revoltas, fugas e quilombos ocorreram quase sempre por duas razões principais: crise na sociedade branca, como no caso de Palmares, ocorrida durante guerra contra os holandeses, ou em decorrência da homogeneidade étnica e a concentração de africanos que falavam a mesma língua e possuíam afinidade cultural.

P. Você consultou fontes de testemunhos de escravos para fazer o livro?

R. Pouco. Infelizmente, a história da escravidão é contada por pessoas brancas. Capitães de navios negreiros, viajantes europeus que visitaram o Brasil ou a África no período. Existem alguns depoimentos e biografias relativamente raras. Outra fonte preciosa para ouvir os escravos são inquéritos policiais quando eles eram acusados de crimes. Tem inquéritos da Inquisição Católica que relatam escravos presos e levados para Portugal acusadas de feitiçaria e de contrariar a doutrina da Igreja. O principal quilombo do Brasil, Palmares, não tem nenhuma fonte a partir dos quilombolas. Tudo que se sabe de Palmares são de relatórios e de expedições militares enviadas ao local.

P. Sobre esse tema, você questiona a figura de Zumbi e sua luta contra a escravidão. Não é uma contradição refutar a história do principal líder negro usando relatórios utilizados pelo Exército, que era majoritariamente branco?

R. De certa forma, sim. A história da escravidão é um assunto sensível, porque há uma guerra de narrativas. E não é por acaso que abro este capítulo falando do calendário cívico brasileiro, com o 13 de maio e a Lei Áurea, e o 20 de novembro, da Consciência Negra, com a morte de Zumbi. É uma guerra em andamento pela memória da escravidão. Não tomo partido se o Zumbi era abolicionista ou um grande general comparado a Napoleão Bonaparte ou Alexandre o Grande, como alguns historiadores negros tentaram fazer. O que eu mostro é a construção do Zumbi como herói nacional. Chego a conclusão que o verdadeiro Zumbi não está nos documentos e que há pouquíssima coisa. O que se sabe é a partir da história branca. O verdade Zumbi está na cabeça das pessoas, é um herói mítico. Agora, sem dúvida, se trata de um herói negro brasileiro, que se contrapõe à Princesa Isabel. Coloco no livro coisas curiosas que dificultam a construção desse herói, como a história do Luiz Mott [antropólogo], que levantou a hipótese de que Zumbi fosse gay. Ninguém incorporou esse herói gay, porque vivemos em um país homofóbico, misógino. Claro que tive muito cuidado para construir esse capítulo, porque ele mexe com um personagem muito importante para a identidade negra, mas eu não poderia fugir da raia e comprar uma história que não existe nos documentos. Quis mostrar diferentes narrativas e versões para que o leitor entenda que a história não se faz apenas de personagens reais e concretos, mas também de projeção mitológica.

P. Quando você terminou o livro, alguém negro leu?

R. Não. Passei para dois africanistas: o embaixador Alberto da Costa Silva e Irene Vida Gala. Eles me deram contribuições muito importantes. A Irene me chamou a atenção para algo que tento deixar evidente: os diferentes olhares sobre a escravidão. Existe o olhar negro, o olhar branco e olhar atento, que é onde me enquadro. Mas não tentei preencher cotas. Seria hipocrisia da minha parte tomar esse tipo de atitude, porque não fiz isso nos meus outros livros. Seria apenas relações públicas. Ao falar da proclamação da República, não chamei um republicanista e um monarquista para dar diferentes opiniões.

P. O que poderia ser uma segunda abolição no Brasil?

R. Acho que é o nosso principal desafio no século XXI. Se você imaginar que a riqueza das nações não está mais nos recursos naturais, mas no capital humano, o Brasil nunca será um país decente, digno dos nossos sonhos, enquanto a imensa maioria da população não tiver educação, saúde e empregos decentes. Enfrentar a desigualdade social no Brasil é sinônimo de uma segunda abolição, porque a maioria dos pobres são negros. Por isso digo que não é só uma reparação histórica, mas um investimento no futuro. Essa é a principal agenda política daqui para frente, ainda que tenhamos um governo hostil. Isso é um tema represado do século XIX. Qualquer governo, partido político ou campanha eleitoral vai se defrontar com esse legado.

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