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Seria irresponsabilidade manter a Fnac, diz presidente da Livraria Cultura

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SÉRGIO HERZ: Presidente da Livraria Cultura aposta em maior inserção no universo digital para conseguir retomar o rumo da empresa / Divulgação (Gabriel Rinaldi/Divulgação)

Sérgio Herz, que comprou operação da Fnac em 2017, diz que marca ficou inviável inclusive na internet e vai aproveitar base de clientes.

Mariana Desidério, na Exame

São Paulo – A Livraria Cultura fechou na semana passada a última loja da rede de livrarias Fnac no Brasil, e encerrou as vendas no site da marca francesa. Segundo o presidente da Cultura, Sérgio Herz, a manutenção das lojas tornou-se inviável.

A operação da Fnac foi comprada pela Cultura em julho do ano passado. A companhia brasileira recebeu 130 milhões de reais para assumir a rede francesa no Brasil, que acumulava prejuízos e estava comprometendo os resultados globais da Fnac Darty, companhia de capital aberto e dona da marca.

A Fnac Darty chegou a dizer em relatório que a Cultura tinha “um ambicioso plano para a Fnac” e iria “construir um nome forte, por meio de um combinação de dois grupos criando valor e sinergias”.

No entanto, com a crise do mercado, a manutenção das lojas seria uma “irresponsabilidade”, disse o presidente da Livraria Cultura.

“Com a deterioração do cenário econômico brasileiro e o encolhimento dramático do mercado editorial como um todo, encolhimento da ordem de 40%, ficou claro para mim que não seria mais possível manter lojas físicas com fraco desempenho, muito menos lojas que trouxessem prejuízos”, afirmou Herz por e-mail.

O empresário detalhou que, pelo acordo firmado na venda, a Cultura precisaria pagar royalties à rede francesa pelo uso da marca Fnac, mesmo com lojas deficitárias, o que também pesou na decisão de encerrar as operações.

“Julgamos que a melhor saída seria otimizar a base expandida de clientes com a vinda da Fnac e incluir, num futuro próximo, novas categorias de produtos nas lojas da Livraria Cultura”, disse.

A Fnac chegou ao Brasil nos anos 1990, e tinha 12 lojas em operação, todas com amplos espaços em pontos comerciais valorizados (e caros) – opção semelhante à da própria Livraria Cultura. A operação tinha necessidade de grande volume de capital de giro, já que, além dos livros, apostava na venda de eletrônicos.

A Fnac Darty reportou faturamento de 7,4 bilhões de euros em 2017, e lucro líquido ajustado de 54 milhões de euros. O Brasil representava menos de 2% do volume de vendas total da companhia.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista com Sérgio Herz, presidente da Livraria Cultura:

A Livraria Cultura fechou a última loja da Fnac no Brasil e também encerrou as operações do site. Quais os planos para a marca Fnac no Brasil? Há intenção de abrir novas lojas em outros locais no futuro?

Em 2017 compramos as posições da rede francesa no Brasil, algo que já vinha sendo discutido há muito tempo. Naquele momento, conseguimos fechar um negócio interessante: tivemos a possibilidade de ampliar bastante a nossa base de clientes e a nossa oferta de produtos. Com a deterioração do cenário econômico brasileiro e o encolhimento dramático do mercado editorial como um todo, encolhimento da ordem de 40%, ficou claro para mim que não seria mais possível manter lojas físicas com fraco desempenho, muito menos lojas que trouxessem prejuízos. Seria uma irresponsabilidade minha tentar manter isso no meio de uma recessão como a que vivemos.

Além disso tudo, a marca não nos pertence, ou seja, pelo acordo firmado na venda, em breve teríamos que começar a pagar royalties por uma rede de baixo desempenho. Julgamos que a melhor saída seria otimizar a base expandida de clientes com a vinda da Fnac e incluir, num futuro próximo, novas categorias de produtos nas lojas da Livraria Cultura. Tomadas essas decisões, encerramos não só as lojas físicas, mas o site da Fnac.

O que o fim das lojas Fnac expõe sobre o mercado de livrarias no Brasil e como a Livraria Cultura tem lidado com esse cenário?

Estamos, todos nós, profissionais do setor, atravessando um momento difícil. Além dessa crise econômica profunda, cercada de incertezas e sem diretrizes claras, temos também a mudança de comportamento bem visível da parte do cliente, que está comprando cada vez mais pela internet. Há também as mudanças no varejo como um todo. Cada vez mais as pessoas estão indo para ambientes de compra digitais, essa é a verdade.

O preço do livro no Brasil está defasado há muitos anos. De 2014 até o fim de 2017, a inflação acumulada foi de aproximadamente 32%, enquanto o preço do livro subiu somente 7%. Como se vê, houve um aumento claro de custos e uma forte queda nas receitas. Enfim, a soma de todos esses fatores traz muita insegurança não apenas para as livrarias, mas para toda a cadeia de produção do livro. Estamos todos implicados e precisamos encontrar soluções sensatas, negociadas.

Quais os planos da companhia para as lojas físicas da Livraria Cultura?

Quero trabalhar com poucas, mas ótima lojas. Estamos, atualmente, com 15 pontos físicos na Livraria Cultura. Me parece um bom tamanho para o momento. Iremos transformar a antiga Fnac Goiânia numa nova Livraria Cultura, no primeiro semestre de 2019. Assim estamos nos preparando para ser uma rede mais enxuta, mais dinâmica, mais atraente para os clientes.

A Cultura inovou ao criar teatros em suas livrarias, estimulando eventos e temporadas de qualidade. Levamos gastronomia para nossas lojas. Em 2015, abrimos o estrelado restaurante Manioca na nossa loja do Shopping Iguatemi, na capital paulista. Recentemente, inauguramos um laboratório de criatividade e inovação, numa parceria com a Faber Castell, dentro da nossa loja do Shopping Market Place, também São Paulo. Iremos inaugurar em novembro mais um restaurante na loja do shopping Bourbon de São Paulo, no bairro da Pompéia. Acreditamos nessa forma de atrair o cliente para o mundo físico, oferecendo a ele algo que é muito mais do que apenas passar pelo caixa e colocar um produto na sacola.

Nossos consumidores vão continuar a ter ótimos motivos para frequentar nossas lojas físicas: um acervo maravilhoso, um serviço ao cliente melhor ainda, uma programação cultural de alto nível, um ponto para um bom café ou um drink, uma mesa para uma refeição leve e transada, espaços divertidos para crianças, até porque leitores são formados desde pequeninos… enfim, estes são os nossos planos.

Quais os planos da Cultura para reforçar sua operação online?

Esperamos crescer em média 20% nos próximos anos. Estamos concentrando esforços para construir um site muito mais moderno, atraente, dinâmico, integrando operações com a Estante Virtual, que é o maior marketplace de livros usados da América Latina. A Estante Virtual, empresa hoje no nosso grupo, é o exemplo de que acreditamos muito no reuso de produtos e na economia compartilhada. Criamos um laboratório de inovação digital, o Eva Labs, sediado no Rio, dentro da Estante Virtual, cuja missão é exatamente a de construir novas soluções para os desafios do varejo na era do e-commerce. Nossos engenheiros estão trabalhando a todo vapor.

A Livraria Cultura tem atrasado pagamentos a editoras. Quais os planos da companhia para regularizar a situação?

Infelizmente, é verdade. Por sete décadas, a Livraria Cultura teve um histórico de honrar seus compromissos. Mas, ao navegar essa crise horrível, tivemos que atrasar pagamentos, sim. Tem sido uma situação muito dolorosa para a empresa, mas temos planos consistentes para voltar à situação normal.

Ex-funcionários da Fnac fizeram um protesto e reclamam que não receberam multa rescisória. O que a empresa diz sobre isso?

Entendo e respeito o protesto, mas, como já disse, estamos no caminho da normalização de todos os nossos compromissos com fornecedores e, claro, ex-funcionários. Serão indenizados.

A Saraiva, também em crise, iniciou um processo de reestruturação operacional. A Cultura pensa em fazer o mesmo?

Já fizemos nossa reestruturação com a ajuda da consultoria Heartman House. Agora estamos trabalhando na estrutura de capital para normalizar nossas operações.

Qual foi o faturamento da Cultura em 2017 e previsão para 2018? Qual o tamanho da dívida da companhia? E números de lucro/prejuízo?

Não informamos esses números.

A Cultura recentemente comprou a Estante Virtual. Há intenção de fazer novas aquisições?

A compra da Estante foi estratégica, pois estávamos querendo muito entrar no mercado do livro usado. É uma empresa enxuta, opera como uma plataforma, portanto, com custo operacional muito baixo, e é rentável. No momento, não temos intenção de novas aquisições. A hora é de arrumar a casa para os nossos clientes.

20 anos de Harry Potter: amigas fantasiam cães com a temática do bruxinho

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Pets também não poderiam deixar de comemorar os 20 anos de lançamento da saga Harry Potter

Pets também não poderiam deixar de comemorar os 20 anos de lançamento da saga Harry Potter

A Faculdade de Tecnologia da Universidade de Brasília (UnB), com seus tijolinhos expostos, virou cenário para um desfile de magos e magas de patas e focinhos

Paloma Oliveto no Correio Braziliense

Eles chegaram apressados à Plataforma 9 ¾. Afinal, não podiam perder o trem para Hogwarts. Mas, antes de embarcar rumo à mais famosa escola de magia do planeta, uma paradinha para a foto. Levados por seus trouxas — humanos desprovidos de poderes —, bruxinhos e bruxinhas arrasaram no visual. Tirando um rosnado ou outro, uma tentativa de fuga, e alguns xixis fora do lugar, tudo correu perfeitamente bem, e todos conseguiram se transportar para o mundo que, há 20 anos, encanta crianças, adultos e, por que não, cachorros.

Para comemorar as duas décadas do lançamento do primeiro livro da série Harry Potter, um grupo de “pottermaníacas” e “cachorreiras” teve ideia de fazer um ensaio diferente do bruxinho. No lugar de se vestirem como os personagens, elas resolveram que os cães encarnariam esse papel. Assim, na tarde de domingo, a Faculdade de Tecnologia da Universidade de Brasília (UnB), com seus tijolinhos expostos, virou cenário para um desfile de magos e magas de patas e focinhos.

Esse não foi o primeiro ensaio temático de um grupo que se conheceu graças às contas do Instagram de seus pets, e que se autointitula “Cachorrada de Brasília”. “Sempre gostei muito de brincar, tive uma infância muito lúdica. Dentro dos meus pacotes profissionais, principalmente para crianças, coloco sempre um ensaio temático, onde os pais escolhem um tema e eu vou atrás de cenário, fantasia… É um dos que mais gosto de fazer”, conta a fotógrafa Paula León, que clicou o ensaio de Harry Potter. No Natal passado, ela teve a ideia de levar esse mundo de faz-de-conta para outro público, o canino. “Tínhamos esse grupo de amigos, e resolvemos fazer um ensaio temático com os cachorros”, diz.

26/06/2017. Crédito: Paulinha Leon Fotografia/Divulgação. Fãs de Harry Potter fizeram ensaio temático, homenageando a série com fotos dos cães vestidos do personagem.

26/06/2017. Crédito: Paulinha Leon Fotografia/Divulgação. Fãs de Harry Potter fizeram ensaio temático, homenageando a série com fotos dos cães vestidos do personagem.

 

Desde então, a cachorrada já posou de rena, Papai Noel, coelho de Páscoa, caipira; fez ensaio de dia das mães e namorados… O próximo já está sendo animadamente discutido pelas integrantes da turma. Provavelmente, labradores, goldens, salsichas, vira-latas, pugs e shihtzus, entre outros, vão protagonizar cenas em uma galáxia muito distante… “Estamos pensando em fazer Star Wars”, conta Paula. Apesar de destacar que é um desafio manter os cães não adestrados quietinhos no cenário, quando segura a câmera, a fotógrafa parece incorporar o Harry Potter, fazendo mágica. As poses não duram mais que um minuto, e a cachorrada está liberdada para se desfazer dos personagens.

Grife de roupas

A consultora de órgão internacional Gerlânia Moraes, 31 anos, diz ter realizado um sonho, fazendo o ensaio com o labrador Vitão. Ela gosta tanto dos filmes e livros de Harry Potter, que fez questão de encomendar a roupa do bruxinho sob medida na grife de roupas pets Oh Dog. “Toda a história do Harry Potter me encanta. A questão da amizade, das diferenças, a questão paterna do Harry, que é tratada mais amplamente nos livros, sendo que as figuras paternas dele morrem. Mas, em especial, me encantam as criaturas mágicas, os feitiços, os fantasmas, os objetos mágicos… Eu queria todos eles em casa”, brinca. “O próximo sonho é um ensaio temático também do universo Harry Potter, mas com o meu filho e o Vitão. Aí, sim, será a realização completa do sonho”, revela Gerlânia, que espera engravidar em breve.

Também “fã número 1” do bruxinho, a militar Thayná Barbosa, 27 anos, vestiu, com orgulho, a shihtzu Mel e a spitz Cloé para o ensaio. “Conheci a série Harry Potter quando tinha uns 12 anos. Vi o primeiro filme, me apaixonei pela história, fiquei curiosa com o que viria depois, e aí comecei a ler os livros. Acredito que o que mais me faz gostar da série é o fato da maior parte da história se passar numa realidade paralela. Fora que os próprios personagens nos ensinam várias coisas ao longo dos livros. O próprio Harry, que cresceu sem receber nenhum tipo de amor ou afeto, mas ainda assim se tornou uma pessoa boa e honesta”, explica.
Pontos turísticos
Já a médica Thereza Racquel Mello Nogueira, 30 anos, começou a gostar da série graças aos livros, ainda na infância. Esse amor nunca se desfez. Na lua de mel, fez questão de conhecer dois pontos turísticos do bruxinho, no Reino Unido: a plataforma 9 ¾, em King’s Cross, e o passeio de trem pelo viaduto de Glenfinnan.

No ensaio, levou a SRD Sushi vestida da personagem Hermonie Granger. Acostumada aos cliques, a cachorrinha, que já participou de diversas sessões de fotos, não economizou nas poses. Enquanto isso, a pug Mafalda fazia sua estreia à frente das câmeras. “Quando soube que o tema da vez seria Harry Potter, não pude perder. Tenho uma irmã louca pelo tema, meu marido também ama, e, embora tenha resistido, hoje já virei fã também. A experiência de ver minha filha de quatro patas toda vestida foi muito divertida, adorei e já quero participar de todas as próximas”, derrete-se a psicóloga e empresária Júlia Hueb Perez, 29 anos.

Em rara entrevista, Elena Ferrante fala sobre a série baseada em seu livro ‘A Amiga Genial’

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Vida real. 'Não tem nada a ver com leitura. As crianças estão aqui para fazer parte do show business', diz Ferrante Foto: Nadia Shira Cohen/The New York Times

Vida real. ‘Não tem nada a ver com leitura. As crianças estão aqui para fazer parte do show business’, diz Ferrante Foto: Nadia Shira Cohen/The New York Times

 

Escritora demorou dias para conversar com a reportagem do ‘The New York Times’

Jason Horowitz, no Estadão [via New York Times]

Contatei a escritora Elena Ferrante, que prefere permanecer anônima e escrever sob pseudônimo, para uma reportagem que fiz para o NYT sobre a seleção de crianças de Nápoles para protagonistas de uma minissérie baseada em seu romance A Amiga Genial – no Brasil, acaba de sair o último volume da tetralogia napolitana, A História da Menina Perdida.

Elena demorou dias para falar comigo, mas o que ela disse compensou. Ela falou sobre o que significa para uma escritora ter sua principal obra adaptada para a tela, ver crianças comuns representando seus personagens, qual foi sua contribuição para a produção e se ela acha que a série vai decolar como Game of Thrones.

Como você se sente vendo essas crianças de Nápoles, muitas delas de bairros pobres, fazendo fila na esperança de ser Lila e Lenù? Ao ver seu trabalho entrar na vida de crianças não muito diferentes daquelas de que você fala?

Para mim, é uma mudança radical. Os personagens, seus bairros, foram criados em palavras, mas acabaram saindo da literatura para a tela. Deixam o mundo dos leitores para ingressar no mundo muito maior dos espectadores. Encontram pessoas que nunca leram sobre eles, e outras que nunca lerão. É um processo que me intriga. A substância dos livros é retrabalhada segundo outras regras e prioridades, e sua natureza muda. As crianças que aparecem para entrevistas são o primeiro indício disso. Elas sabem pouco, ou nada, de livros. São espectadores que esperam tornar-se atores, por diversão ou esperança de sucesso.

Você descreve com precisão os personagens, e assim o diretor de elenco, o diretor e os produtores do filme têm uma ideia clara do que procurar. E eles acham que meninos e meninas criados em ambientes hostis são mais aptos a captar o espírito dos personagens. E você, o que acha? Prefere crianças que nunca tenham atuado (há algum risco nisso!) ou crianças com alguma prática de atuação?

Crianças que atuam representam a imagem que adultos têm de crianças. As que nunca atuaram têm mais chances de fugir de estereótipos, especialmente se o diretor encontrar o equilíbrio entre verdade e ficção.

Muitas dessas crianças, vamos ser claros, nunca ouviram falar de Elena Ferrante ou de romances napolitanos. A maioria pensa em TV como estrelato. Você, que evita cuidadosamente o caminho do estrelato, está preocupada com que a histeria em torno da seleção de elenco possa alimentar essa obsessão por celebridade hoje comum a tantos jovens?

Elas são crianças que se espelham nos mitos do cinema, da televisão, não no mundo da escrita. Querem estar nas telas, no palco, ser estrelas. Não é culpa delas. É do ar que respiram do mundo adulto. Fazer parte da televisão é uma das maiores aspirações das massas. Qualquer um, pobre ou rico, culto ou inculto, vê numa seleção de elenco como essa uma oportunidade extraordinária.

E você, vê aí uma oportunidade de apresentar a essas crianças os prazeres da leitura? Não falo só de seus livros, mas de livros em geral.

Gostaria, claro, que isso acontecesse. Mas a oportunidade de que estamos falando tem pouco a ver com leitura, se é que tem alguma coisa. As crianças estão aqui para fazer parte do show business. Isso não significa que algumas não venham a descobrir que tudo começou com um livro, que por trás do mundo do show business, com seus meandros e seu dinheiro, sempre existe, embora em posição secundária, o poder da escrita e da leitura.

Qual será o impacto dessa produção sobre a imagem de Nápoles, depois da abordagem nada lisonjeira da cidade na popular série de TV Gomorra?

Cidades não têm energia própria. A energia deriva de sua história, do poder de sua literatura e arte, da riqueza emocional de eventos que nela ocorram. Espero que essa narrativa visual desperte emoções autênticas, sentimentos complexos e até contraditórios. São essas coisas que nos fazem amar as cidades.

Você pretende avaliar as crianças antes de elas entrarem oficialmente para o elenco? Assegurar que correspondam mesmo a seus personagens?

Não tenho essa aptidão. Gostaria, claro, de influenciar, mas teria de fazer isso com muito cuidado e sabendo que não adianta nada eu dizer que “Lila tem pouco ou nada a ver com esse corpo, esse rosto, esse jeito de movimentar-se”, etc. Nenhuma pessoa de verdade vai preencher exatamente a imagem que eu ou um leitor tenha na cabeça. Isso acontece porque o mundo do texto, embora defina as coisas, por sua própria natureza deixa muito para a imaginação do leitor. A imagem visual, ao contrário, diminui esse espaço de imaginação. Deixa sempre de fora alguma coisa que as palavras inspiram, alguma coisa que conta.

Qual foi seu envolvimento com a produção? O diretor e produtores me disseram que você acrescentou coisas ao roteiro e os ajudou a desenhar o cenário perto de Caserta. Como é esse cenário?

O bairro em questão é um amálgama de diferentes lugares de Nápoles que conheço bem. É sempre esse o caso quando escrevo sobre pessoas ou coisas. Não sei o que acontecerá na tela. Por enquanto, minha contribuição para o cenário limitou-se a algumas observações sobre a fidelidade do visual. Quanto à colaboração com o roteiro, não sei escrever roteiros, não tenho a técnica, mas leio tudo e mando notas detalhadas. Não sei se eles vão levar em conta. É muito mais provável que minhas notas sejam usadas mais tarde, na redação do texto final.

Eles também me disseram que você imagina visualmente a série como um conto de fadas, dando a entender que não precisam ter medo de ir além do livro e apresentar vilões como monstros, etc. Que grau de fidelidade você espera?

Não, não, trata-se de um conto realista. É a infância colorida por elementos fantásticos – Lila, seguramente, é mostrada assim. Quanto à fidelidade ao livro, espero que seja compatível com as necessidades da narrativa visual, que usa recursos diferentes daqueles da escrita para obter os mesmos efeitos.

A HBO está envolvida na produção. Você espera, ou teme, que a série se torne o próximo fenômeno global, um Game of Thrones italiano?

Infelizmente, A Amiga Genial não tem esse tipo de trama.

TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

Livros prometem fazer crianças dormirem em pouco tempo

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Recém-lançadas no Brasil, publicações fazem sucesso

dormir

Publicado em O Globo

“Vou contar uma história que vai fazer você ficar com bastante sono. Pode ser que ele chegue logo no começo, ou no meio, ou mais para o fim. Mas que vai chegar, vai. Se você fechar os olhinhos, ouvirá melhor o que vou contar”. Este é o início de “O coelhinho que queria dormir” (Companhia das Letrinhas), do psicólogo sueco Carl-Johan Forssén Ehrlin, que promete fazer as crianças relaxarem naquele que é considerado o momento mais crítico para muitos pais e mães: a hora de dormir. Recém-lançado no Brasil, o título já havia sido publicado como e-book pelo próprio autor na Amazon, tornado-se um dos mais vendidos da plataforma e ganhando traduções para inglês, espanhol, italiano e português.

 

A história escrita por Ehrlin não tem mistério: o coelho Roger está cansado, mas não consegue dormir; sua mãe resolve levá-lo ao Senhor Pestana, que sabe exatamente como resolver o problema. Um dos segredos estaria na entonação. Antes de começar a leitura com as crianças, os pais se deparam com algumas regras básicas nas primeiras páginas. Uma delas é que as palavras em negrito devem ser enfatizadas, e as que estão em itálico precisam ser lidas de forma mais calma e lenta. Quem lê o livro também recebe indicações para bocejar ao longo do texto e usar o nome da criança durante a história. As construções de frases e palavras, de acordo com o autor, foram escolhidas por seu efeito terapêutico.

O livro do sueco não está sozinho no mercado brasileiro. O também recém-lançado “A caminhada” (Coquetel), do americano Grant Maxwell, conta a história de Mason, um garotinho bastante ativo, e seus dois cachorrinhos, Rex e Totó, durante uma longa jornada. Pelo caminho, florestas, morros, animais e até escadas fazem com que ele embarque num mundo de sonhos.

— Tudo começou quando passamos a ter problemas para colocar o meu filho, na época com 2 anos, para dormir. Não é só uma coincidência o fato de ele também se chamar Mason e nós morarmos perto de uma floresta — brinca o autor. — A sinopse é simples, trata-se de um menino que vai caminhar pela floresta. Só que ele acaba indo para o subterrâneo, entrando cada vez mais fundo naquele cenário. Esse movimento de descida é uma maneira de fazer a criança se voltar para o seu inconsciente, relaxar. É como induzir a um estado de sonho.

Maxwell, que tem Ph.D em Língua Inglesa, acredita que o livro funcione com crianças dos 2 aos 8 anos. As mesmas indicações dadas por Ehrlin — bocejar, falar o nome da criança, usar um tom suave para certas palavras — estão lá.

— Quando você diz o nome da criança durante a história, faz com que ela se imagine dentro daquele cenário. Já a maneira como se lê o livro, as mudanças de voz, por exemplo, são tão importantes quanto o livro em si — afirma o autor.

 

Com a nutricionista Letícia Terra, que leu “A caminhada” com o filho Pedro, de 2 anos, a estratégia funcionou.

— Acho que não é nem a história em si, mas a maneira como ela é lida. Você vai falando devagarzinho em algumas partes, lê com calma, a criança relaxa naturalmente. Acredito que se você pegar outro livro e usar as mesmas técnicas, a criança também vai ficar menos agitada e conseguir ter bons sonhos — afirma.

A empresária Vanessa Santos testou “O coelhinho que queria dormir” com o filho Vicente, também de 2 anos, e tem tido bons resultados:

— Ele mesmo pede para ouvir, acho que gostou dos personagens. E não demora para pegar no sono.

A editora da Companhia das Letrinhas, Julia Schwarcz, endossa as falas das mães.

— Quando comecei a pesquisar na internet sobre o livro, fiquei impressionada com os comentários dos leitores. Eram todos na base do: “Mudou minha vida” ou “Funciona mesmo, recomendo para quem passa por esses problemas” — conta Julia. — É impressionante como as pessoas realmente sofrem com essa questão.

O sucesso parece ser garantido, mas ele não vem sem uma certa dose de polêmica. Questionado pelo “New York Times’’ se havia criado uma história chata para que as crianças logo se cansassem, o autor de “O coelhinho que queria dormir” afirmou que haveria um certo nível programado de chatice no livro. “(A história) não poderia ser muito interessante, mas também deveria ser interessante o suficiente a fim de evitar que as crianças se distraíssem com outras coisas durante sua leitura”, afirmou Ehrlin.

Para a educadora e escritora Andrea Ramal, a preocupação com a maneira como se lê, presente nos dois livros, é um aspecto bastante positivo.

De certa forma, fazer vozes ou falar alto e baixo durante a leitura ensina as crianças a interpretarem o texto. E os pais precisam exercitar isso, a atividade fica mais interessante — ressalta Andrea. — Por outro lado, não gosto da ideia do bocejo programado, ele não é real. Fazendo isso, o adulto acaba enganando a criança.

Outra questão abordada por Andrea é o cuidado necessário na hora de se escolher uma publicação para ler à noite.

— A leitura antes de as crianças dormirem tem um grande valor, que é o de ensiná-las a gostar dos livros, a ter apreço por eles. Se você se propõe a ler uma publicação que acha chata, é isso que a criança vai pensar sobre os livros em geral. Vale sempre ler vários tipos de história, variar a cada noite, não ficar apenas com um tipo de publicação — afirma.

MEC ressalta que incentiva formação, mas interesse de jovens pelo magistério cai

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Plano de carreira e valorização da profissão poderiam melhorar cenário, dizem especilistas

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Publicado em O Globo

Os baixos salários, a falta de reconhecimento social da profissão, as péssimas condições de trabalho e o cansaço são os fatores que mais contribuem para o desinteresse dos jovens pelo magistério, segundo especialistas. Os mesmos aspectos desestimulam os professores de longa data a permanecerem nas salas. Como reportagem do GLOBO mostrou ontem, ao longo dos próximos seis anos, cerca de 40% dos professores do ensino médio terão condições de se aposentar, de acordo com um relatório do Ministério da Educação (MEC). O quadro fica preocupante quando constata-se que o número de formandos em cursos de licenciatura de disciplinas da educação básica vem caindo — 16% entre 2010 e 2012.

— Este já é um problema sistêmico. A rede estadual de São Paulo perde, por semana, oito professores. A prefeitura perde três. O jovem que entra no magistério tem um duro choque de realidade. Isso gera um desestímulo que, quando não o faz desistir, vai se arrastando até a aposentadoria — diz Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, que defende uma melhor remuneração inicial e plano de carreira.

Pesquisadora da faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Paula Louzano sinaliza que, de acordo com os dados do Censo da Educação Superior de 2013, o maior problema é atrair profissionais formados em licenciatura para a carreira no magistério.

— Ser professor requer um saber específico, assim como para ser médico ou engenheiro. Mudar a percepção social de que qualquer um pode ser professor é essencial, além de uma valorização salarial e uma perspectiva de crescimento na carreira — comenta Paula.

O Ministério da Educação (MEC) ressalta que coordena estratégias voltadas à formação de professores, como o Parfor, que oferece cursos emergenciais presenciais de licenciatura; a Universidade Aberta do Brasil (UAB), com cursos de licenciatura e de formação inicial e continuada; e o Pibid, que visa a melhorar a educação básica fazendo uma ponte entre estudantes universitários e as salas de aula, mas cujos participantes chegaram a relatar atrasos no pagamento das bolsas este ano.

No estado do Rio, o subsecretário de Gestão de Pessoas da Secretaria de Educação, Antoine Lousao, garante que a pasta vem se resguardando para evitar gargalos com aposentadorias de professores. Segundo ele, a rede já chegou a ter carência de 12 mil profissionais em 2010. Hoje, são 500. A redução foi possível através de políticas de valorização salarial e aumento no número de concursos.

— Fazemos uma projeção de todas as possíveis aposentadorias no ano e, com base nisso, convocamos os aprovados em concursos. A falta que ainda temos se refere às áreas em que há carência de profissionais ou dificuldades geográficas — diz.

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