Hidra, o refúgio grego de Leonard Cohen

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O escritor e compositor Leonard Cohen

O escritor e compositor Leonard Cohen

Carol Cunha, no Roteiros Literários

Localizada a duas horas de barco de Atenas, na Grécia, Hidra é uma pequena ilha rochosa que parece saída de um cartão-postal. Casinhas de pedra, ruas estreitas de paralelepípedo, um belo pôr-do-sol sob o mar Egeu despontam na linha do horizonte.

O nome Hidra significa “água” em grego. No século 17, o lugar era um importante entreposto comercial para Veneza, na Itália. Durante o Império Otomano e no século 19, a região tinha uma poderosa frota naval e, ali, as famílias de capitães da Marinha construíram mansões com uma arquitetura singular.

Hoje a ilha de dois mil habitantes mantém intacta a fama de ser a mais preservada da Grécia. Apesar de ser rota de verão para os europeus e atenienses, o lugar é menos agitado do que as badaladas ilhas de Santorini ou Míconos, sendo indicada para quem busca relaxar e aproveitar o ritmo mais lento da vida.

Uma das maiores experiências em Hidra é andar a pé. Isso porque os carros e bicicletas são proibidos em toda a ilha e as caminhadas são parte da rotina. Para quem não encara o sobe e desce das colinas com facilidade, o transporte pode ser feito na carona de jegues, um dos símbolos da cultura local.

Logo na entrada da baía em formato de ferradura, o turista encontra o Porto de Hidra, lugar central onde tudo acontece: o vaivém dos pescadores, táxis marítimos, turistas, cafés, lojinhas de joias, bares e tavernas onde se podem saborear pescados e mariscos frescos.

Vista da ilha de Hidra

Vista da ilha de Hidra

Nos últimos anos, Hidra se tornou um ponto de atração para galerias de arte contemporânea e sede de uma importante escola de Belas Artes. Antes de se tornar um destino para quem gosta de arte, a ilha já foi um refúgio para artistas em busca de isolamento e inspiração criativa.

Durantes os anos de 1930, os escritores Henry Miller, Lawrence Durrell e o poeta grego Giorgos Katsimbalis passaram temporadas na mansão do pintor Nikos Hadjikyriakos-Ghikas, importante nome da arte moderna grega. Na época, os moradores locais ainda viviam da pesca e do mergulho livre para a coleta de esponjas.

Henry Miller em Hidra, em 1939

Henry Miller em Hidra, em 1939

Miller cita Hidra no livro O Colosso de Marússia, escrito em 1941, onde relata suas viagens pela Grécia, a quem ele se referia como “um mundo de luz” onde havia apenas duas cores, o azul e o branco. Katsimbalis seria o “colosso” real que o escritor faz alusão no título.

A partir dos anos de 1950, a cidade abrigou uma comunidade de escritores e artistas plásticos, que a considerava o lugar ideal para se viver. O cenário cinematográfico também serviu como locação para diversos filmes do cinema europeu. Como em A Lenda da Estátua Nua (1957), onde uma jovem Sophia Loren emerge das suas águas, e Profanação (1962).

O cantor e poeta canadense Leonard Cohen, considerado um mestre da poesia cantada, foi um dos que se apaixonou por Hidra, lugar que fez sua criatividade fluir e foi fundamental para suas primeiras músicas.

De uma tradicional família judaica de Montreal, no Canadá, a primeira vez que Cohen escreveu foi após a morte do pai. Ele era um garoto de 9 anos que, poucos dias depois do enterro, vestiu uma gravata do patriarca e escreveu um verso no papel. Graduado em Letras em 1956, aos 22 anos Cohen publicou seu primeiro livro de poesias, Let Us Compare Mythologies, que o ajudou a ganhar uma bolsa de estudos em Londres.

Na Inglaterra, ele comprou uma máquina de escrever Olivetti 22 e se dedicou a escrever contos e poemas. Cohen já tinha começado as primeiras linhas do seu primeiro romance A Brincadeira Favorita, mas ainda não tinha se adaptado ao clima da cidade inglesa.

Em uma tarde chuvosa, caminhando pelo bairro londrino do East End, Cohen buscou abrigo no Bank of Greece e viu um bancário bronzeado e com óculos escuros. Ele perguntou ao funcionário como estava o tempo na Grécia. “Primavera”, respondeu ele. Em poucos dias Cohen estaria embarcando para Atenas.

Ao visitar Hidra, ele se encantou pelo lugar. Lá, foi bem recebido pela comunidade de artistas expatriados. Em 1960, aos 26 anos, Cohen ganhou uma herança e comprou uma casa do século 19, no bairro de Kala Pigadia. Em carta a um amigo, ele escreve com confiança sobre sua decisão de morar na ilha: “Os anos estão voando e nós gastamos muito tempo pensando se temos coragem ou não de fazer isso ou aquilo. É preciso dar uma chance”.

Quando o músico chegou na vila não havia eletricidade, esgoto ou telefone. A canção “Bird on the Wire” começou a ser escrita na Grécia, no dia em que o telefone chegou à ilha e ele avistou os primeiros postes. “Eu olhei para fora da janela e vi os fios e pensei em como a civilização me pegou e eu não teria como escapar dela de nenhum jeito”.

Imagem de Amostra do You Tube

Cohen passava os dias lendo, ouvindo vinis e tocando o violão. O cantor aprendeu a falar grego e se apaixonou pelo som do bouzouki, instrumento de cordas tradicional. Gostava de tocar para os amigos e beber o drink ouzo.

“Existe algo nessa luz que é honesto e filosófico”, ele diria a um jornalista em 1963 sobre a Grécia. Cohen escrevia de manhã até o meio-dia no terraço de casa. Ao final da tarde tomava um banho de mar e à noite tocava sob o pinheiro da Douskas Taverna.

Durante sua estada em Hidra, pessoas e artistas de todos os lugares apareciam na ilha. Cohen chegou a hospedar os poetas beatniks Allen Ginsberg e Gregory Corso, que estavam de passagem por Atenas. Nesta época, ele também experimentaria diversas drogas e entraria em contato com o I Ching e o budismo.

Os estrangeiros adotaram um “cantinho” como ponto favorito de encontros. A Katsikas era uma pequena mercearia ao lado do porto que tinha seis mesas onde eles costumavam conversar, beber vinho, declamar poesias e esperar as cartas que chegavam por navio.

Foi na Katsikas (que já não existe mais) que Cohen fez seu primeiro show oficial e conheceu Marianne Ihlen, sua maior musa e que aparece na contracapa do álbum Songs from a Room. A foto que mostra a norueguesa com a máquina de escrever de Cohen foi clicada na casa grega onde os dois moravam.

Recém-separada do marido, o escritor Axel Jensen, que voltou para a Noruega e a deixou com um bebê, Marianne engatou um romance com Cohen e os dois viveram juntos por 10 anos. Apaixonados, a presença dela trouxe mais tranquilidade para o poeta trabalhar. No poema Days of Kindness, Cohen escreve sobre o período:

Imagem de Amostra do You Tube

No final dos anos 60, sem dinheiro para se sustentar, Cohen precisou voltar para Montreal. A despedida do casal foi retratada na clássica canção “So Long, Marianne”.

Depois Cohen partiu para Nova York, onde começou a escrever músicas e a deslanchar na carreira de compositor. A temporada grega rendeu três livros de poesias, o mais famoso deles Flores para Hitler (1964), e dois romances, o de estreia, A Brincadeira Favorita (1963), e Beatiful Losers (1966), ainda sem edição no Brasil. Em 2011, ele ganhou o Prêmio Príncipe das Astúrias das Letras, um dos mais importantes do meio literário.

Ao longo dos anos Cohen sempre voltou para Hidra. Hoje, sua família ainda é dona da mesma casa que o cantor comprou em 1960. Agora, os filhos Adam e Lorca e os netos passam os verões olhando para a vista do mar grego.

Casa de Leonard Cohen em Hydra

Casa de Leonard Cohen em Hydra

No aniversário de 80 anos do cantor, em 2014, fãs fizeram uma campanha para instalar um banco de praça em sua homenagem. O projeto que já foi aprovado pelo prefeito será construído em 2015, na estrada entre a vila de Hidra e Kaminia, a praia de pescadores onde Cohen costumava nadar.

Local onde será construído um banco em homenagem a Cohen (Divulgação)

Local onde será construído um banco em homenagem a Cohen (Divulgação)

COMO CHEGAR
Pode-se chegar de ferry boat a partir do Porto de Pireus, próximo a Atenas. A viagem dura cerca de duas horas e a passagem custa 25,50 euros.

PASSEIOS
TAVERNA XERI ELIA-DOUSKOS

Aberta há mais de 200 anos, a Xeri Elia é reconhecida como a taverna mais antiga de Hidra. O restaurante é especializado em frutos do mar e pratos tradicionais gregos. As mesas ficam no charmoso pátio com árvores. À noite, o local promove shows de grupos tradicionais de música grega. Leonard Cohen frequentava o lugar e gostava de tocar no pátio.

ANTIGA BILL´S TAVERN

Localizado hoje no Bratsera Hotel, é o velho bar onde Leonard Cohen costumava beber

LAZAROS KOUNDOURIOTIS MANSION

Localizado no porto de Hidra, o museu funciona em uma construção de 1780 e mostra um pouco da história da ilha e da Guerra da Independência da Grécia. Entrada: 4 Euros.

DESTE FOUNDATION

O milionário colecionador de arte contemporânea Dakis Ioannou reformou um antigo açougue e o transformou em um anexo da Deste Foundation, sua fundação para a arte contemporânea em Atenas. O local funciona apenas no verão.

MONASTÉRIOS

A ilha possui seis monastérios históricos ligados à Igreja Ortodoxa. Localizado no topo de Hidra, o Monastério do Profeta Elias oferece uma vista panorâmica de todo o lugar. O templo da Igreja Ortodoxa foi fundado por monges em 1813 e durante a revolução de 1821 serviu de prisão e exílio para líderes revolucionários. A caminhada até o topo pode ser feita em até duas horas. O Convento Agia Eupraxia é feminino, foi construído em 1865 e situa-se próximo ao Profeta Elias.

PRAIAS

Apesar do terreno rochoso, Hidra possui pequenas praias de areia branca, que podem ser acessíveis a pé e de barco. Ao sul do porto, estão as praias de Kaminia, Molos e Vlychos. Ao norte encontra-se Mandraki. Hydronetta e Spillia são pontos próximos ao porto, onde é possível nadar. As praias de Bisti, Aghios Nickolas podem ser acessadas via táxi aquático.

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Concurso Cultural Literário (98)

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capa bom dia

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Participe! :-)

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Obra-prima de Tolstói ganha adaptação em quadrinhos

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Na solidão do seu quarto, à espera do fim, Ivan Ilitch se pergunta dos porques da vida e da morte

Na solidão do seu quarto, à espera do fim, Ivan Ilitch se pergunta dos porques da vida e da morte

Chico Castro Jr., no Portal A Tarde

Filão de mercado bastante rentável às editoras, as adaptações de clássicos da literatura para os quadrinhos não dão sinal de enfraquecimento, chegando com rara regularidade às livrarias. Uma das mais recentes é A Morte de Ivan Ilitch, uma das principais obras de Liev Tolstói.
Quem sabe qualquer coisinha de literatura russa tem consciência do peso, da dificuldade da tarefa. Literatura russa em geral – e Tolstói em particular – não são para principiantes.

Seus textos são densos, extensos e apontam para diversos níveis de leitura, além de, como no caso de A Morte de Ivan Ilitch, tratarem de temas da pesada. Neste caso, da morte.
Delegada ao quadrinista Caeto (paulista de Assis), a adaptação atinge resultados até melhores do que seria de se esperar, dada a dificuldade.

Considerada pelo cânone literário como a novela mais perfeita da literatura mundial, A Morte de Ivan Ilitch (1886) é obra de destaque em meio aos outros trabalhos de Liev Tolstói (1828-1910), um sujeito que escreveu “apenas” alguns monumentos da cultura universal, como Guerra e Paz (1869) e Anna Karenina (1877).

Em Ivan Ilitch, Tolstói narra a história do personagem título: um sujeito comum, juiz de instrução bem-sucedido, que cai enfermo e, de um dia para o outro, vê-se definhar e morrer aos poucos.

Enquanto agoniza, deitado em seu quarto, Ivan rapassa toda a sua vidinha medíocre de burocrata e se confronta com o fato de que vai morrer – e até com a própria ideia de morte. Como já se disse, uma leitura “leve” para o fim de semana.

Perturbadora, a narrativa de Tolstói se passa quase que inteiramente na mente de Ivan Ilitch, que, apesar de ser um homem de família, casado e com filho, vê-se solitário na escuridão do seu quarto, remoendo suas memórias e dando-se conta de sua insignificância.

Exercício vão
Nas mãos de Caeto, a obra de Tolstói ganha em certo dinamismo. O quadrinista, premiado pela sua obra autobiográfica Memória de Elefante (2010, Companhia das Letras), demonstra cancha na decupagem do fluxo de memória de Ivan Ilitch, com seu traço expressionista em preto & branco.
O problema da adaptação de A Morte de Ivan Ilitch em quadrinhos é a mesma de quase toda adaptação: até que ponto ela é válida como obra por si? Ela se sustenta?
Porque, vamos ser francos: uma coisa é adaptar uma rotina aventuresca, como A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, ou a ficção científica vintage de Julio Verne, obras cinemáticas desde o seu princípio, dadas a incendiar a imaginação do leitor em cenas de correria, lutas e buscas em cenários exóticos.

Já A Morte de Ivan Ilitch é algo inteiramente diferente. Traduzir em imagens sequenciais o mergulho memorialístico-filosófico de um homem que, em seu leito de morte, se dá conta de sua mediocridade, é como querer engarrafar a luz do sol: um exercício vão.

Apesar disso – e dos enormes blocos de texto que por vezes truncam a leitura -, Caeto está de parabéns. Ao menos, pelas suas mãos, muitos que jamais leriam uma obra de Liev Tolstói terão aqui seu primeiro contato com o gênio russo.

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Menina agredida em colégio estudará o resto do ano em casa, diz mãe

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Segundo Débora, estudante de Sorocaba vai trocar de escola.
Mãe diz que jovem foi autorizada pelos professores a encerrar ano em casa.

Ana Carolina Levorato, no G1

Júlia decidiu que não voltará para a escola este ano ( Encontro com Fátima Bernardes/TV Globo)

Júlia decidiu que não voltará para a escola este
ano ( Encontro com Fátima Bernardes/TV Globo)

A menina agredida dentro de uma escola estadual em Sorocaba (SP) não voltará para o colégio este ano. A estudante Júlia Apocalipse, de 13 anos, que sofreu várias lesões e perdeu dois dentes depois que apanhou de uma jovem de 16 anos na saída da escola estadual Hélio Del Cistia, no Jardim São Guilherme, Zona Norte da cidade, no dia 9 de setembro, pediu à família para estudar em outro lugar.

De acordo com a mãe da adolescente, Débora Apocalipse, Júlia vai mudar de colégio a partir do ano que vem. “Temos dois colégios em mente e agora ela vai decidir para onde quer ir. Já aconteceu tudo o que podia naquela escola, muita gente apoiou e outros riram dela. Ela não precisa mais passar por isso”, explica a mãe da menina, em entrevista ao G1.

Para não perder o semestre, a estudante foi autorizada pelos professores a encerrar todas as disciplinas com trabalhos escolares. “Ao invés de fazer provas, ela foi autorizada a elaborar trabalhos em casa para todas as matérias. Ela tem o prazo de 30 dias para entregar para a escola avaliar o semestre”, afirmou a mãe.

Segundo Débora, Júlia está bem e se recupera das lesões no rosto, principalmente na boca. A menina precisará fazer acompanhamento mensal no dentista em Atibaia (SP) e passará também por avaliações psicológicas. “Ela está evoluindo a cada dia, mas acreditamos que ela precisa de todo apoio possível depois de tudo o que passou. Evitamos que ela saia sozinha de casa, mesmo que seja em algum lugar perto. É o que conseguimos fazer para preservá-la”, diz.

Tentativa de homicídio
Em entrevista ao G1, o delegado da Delegacia da Infância e Juventude (Diju) Alexandre Cassola, responsável pelo caso, disse que não descarta a hipótese de tentativa de homicídio. “Inicialmente não foi do meu convencimento que se tratava de uma tentativa de homicídio, mas no laudo irá apontar a gravidade das lesões e, por isso, não descarto a possibilidade. O laudo é a materialização da intenção do crime”, explica.

Julia Apocalipse foi agredida na saída da escola em Sorocaba (Foto: Reprodução Facebook)

Julia Apocalipse foi agredida na saída da escola
em Sorocaba (Foto: Reprodução Facebook)

O exame de corpo de delito de Júlia foi feito no dia 15 de setembro no Instituto de Criminalística em São Paulo. O resultado deve ser entregue em até 30 dias.

O Procedimento de Polícia Judiciária – instaurado pela Diju para apurar o caso – foi baseado no registro de ato infracional de lesão corporal. Foram ouvidas as duas adolescentes envolvidas no caso, o pai de Júlia Apocalipse, os policiais militares que registraram a ocorrência e uma inspetora de alunos da escola. “A funcionária da escola nos trouxe o vídeo, mas as imagens estão ruins. Enviamos para o IML (Instituto Médico Legal) na tentativa de melhorar as imagens para avaliarmos a situação”, informa o delegado. Segundo ele, a inspetora garantiu que a briga ocorreu fora da unidade de ensino.

De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a internação na Fundação Casa é prevista se o menor for apreendido em flagrante ou se for avaliado que a conduta do adolescente mereça esta medida. “A agressora não tem histórico de atos infracionais, então, relatamos o procedimento à Vara da Infância e Juventude sem pedir sua apreensão”, explica o delegado.

O delegado comparou o caso ao da agressão de São Roque (SP), no qual Fernanda Regina Cézar Santiago sofreu traumatismo craniano após levar uma forte cotovelada no dia 16 de agosto, em São Roque (SP), de Anderson Lúcio de Oliveira.

“No caso de São Roque, a agressão resultou em trauma craniano com perda de massa encefálica. Já em Sorocaba, nota-se que as agressões foram direcionadas para região da boca, que não é uma área letal. Tem que partir do pressuposto de que o autor quer matar a vítima para falar-se em tentativa de homicídio”, esclarece Cassola.

Segundo o pai, Jairo Apocalipse, a jovem apanhou “por ser bonita”. “Me contaram que ela (a agressora) batia na minha filha e gritava: ‘Quero ver quem vai te querer agora, quero ver você ser bonita agora’”, disse o aposentado em entrevista ao G1, no dia 10 de setembro.

Em nota, a Secretaria da Educação do Estado negou que a agressão tenha ocorrido dentro da escola e informou que a agressora não está matriculada naquela instituição de ensino.

Agressora diz que vítima a mordeu no pé (Foto: Adriane Souza/G1)

Agressora diz que vítima a mordeu no pé
(Foto: Adriane Souza/G1)

Motivação
No dia 11 de setembro, a agressora esteve na Delegacia de Infância e Juventude com o tio, que é seu tutor legal, e disse que bateu na adolescente para defender uma amiga. “Ela chamou minha amiga de ‘macaca’“, afirmou na ocasião.

Após a suposta ofensa, segundo ela, as duas passaram a trocar mensagens com ameaças, até que Júlia a bloqueou. Ela decidiu, então, ir até a porta da escola para “tirar satisfações”. “Na escola continuamos a briga, ela caiu e mordeu meu pé. Depois, rolou pela escada e desmaiou”, disse.

A jovem também disse que não sabe o motivo pelo qual a vítima ficou tão machucada. “Não sei o que ela fez na boca para ficar daquele jeito. Dei alguns murros, mas não foram fortes.”

O delegado Carlos Marinho ouviu Júlia no dia seguinte. Segundo ele, a vítima afirmou que nunca havia conversado com a agressora, nem pelas redes sociais. A estudante negou ter feito ofensas racistas para qualquer amiga da agressora. “Nem a conheço, nem sei que são seus amigos e amigas”, disse.

Júlia já colocou as próteses no dente (Foto: Encontro com Fátima Bernardes/TV Globo)

Júlia já colocou as próteses no dente
(Foto: Encontro com Fátima Bernardes/TV Globo)

Sorriso de volta
Júlia Apocalipse passou por um tratamento dentário na quarta-feira (17), em uma clínica especializada em Atibaia (SP). Segundo Débora Apocalipse, a mãe da vítima, Júlia “está radiante” com seu novo sorriso. A jovem participou do programa Encontro com Fátima Bernardes, da Rede Globo, nesta quinta-feira (18), para falar do ocorrido e mostrar o novo visual.

O tratamento dentário, que foi oferecido à adolescente de forma gratuita, usou uma tecnologia considerada nova no Brasil, segundo a clínica. A boca da estudante foi escaneada e uma impressora 3D produziu os dois dentes perdidos com a agressão. “O tratamento é rápido e praticamente indolor”, explica a dentista Luciana Saraiva.

Apesar de um dos dentes da estudante ter sido arrancado pela raiz, a dentista explica que a máquina, que custa cerca de R$ 800 mil, consegue produzir a prótese independentemente da gravidade do caso.

A mãe de Júlia não conseguiu esconder a felicidade de, depois de tanto sofrimento, ver a filha podendo sorrir de novo. “Ela não consegue parar de se olhar no espelho”, afirma Débora sobre o implante da menina, que também recebeu um aparelho provisório na parte superior para ficar com o sorriso alinhado.

1Perdão à agressora
Em entrevista ao G1 no sábado (14), Júlia afirmou que perdoa a agressora (Veja vídeo), mas que jamais esquecerá o que passou. “Ela poderia ter chegado conversando, me conhecido, visto quem sou, daí tenho certeza que tudo isso não teria acontecido. Não desejo mal a ela [agressora], peço para que ninguém faça nada, pois a polícia está fazendo a parte dela. Peço que Deus abençoe a agressora, para que ela mude, ser assim violenta não vai levá-la a lugar nenhum”, diz.

A jovem conta que no dia 5 de setembro recebeu uma mensagem de texto por meio de um aplicativo para celulares de um número desconhecido. “Era a agressora dizendo que não gostava de mim e que era para eu ficar esperta que iria apanhar”. Ela diz que bloqueou a agressora do celular e deletou as mensagens.

Menina de 13 anos perdeu dois dentes e ficou com vários hematomas (Foto: Arquivo pessoal)

Menina de 13 anos perdeu dois dentes e ficou com
vários hematomas (Foto: Arquivo pessoal)

No dia da agressão, Júlia conta que saiu sozinha pelo portão e não encontrou o pai, mas sim um grupo grande de pessoas. “Vi a agressora caminhando na minha direção de braços cruzados. Ela me disse ‘Late aí então, não gosto de você, você é muito metida’, mas respondi: ‘Se sou metida o problema era meu’. Ela me mandou ajoelhar e pedir perdão, como me neguei levei o primeiro soco na boca”, descreveu. “A partir daí só me defendi. Empurrava e fazia de tudo para ela sair de cima de mim”, disse.

Depois a estudante caiu, conseguiu se levantar e correu para dentro da escola. “Apanhei mesmo foi dentro da escola, desci a rampa correndo, ela puxou meu cabelo, caí, rolei o lance de escadas e desmaiei”, conta. Algumas testemunhas disseram à família que mesmo desacordada, Júlia continuou apanhando.

Mãe mostra dente que a filha perdeu após apanhar na escola em Sorocaba (Foto: Jomar Bellini/G1)

Mãe mostra dente que a filha perdeu após apanhar na escola em Sorocaba (Foto: Jomar Bellini/G1)

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Cientista cria modelo para prever futuro em Game of Thrones

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Cientista cria modelo para prever futuro em Game of Thrones

Game of Thrones: a série de livros que inspira o seriado já teve 24 narradores .
Helen Sloan/ HBO

Estatístico cria modelo matemático capaz de prever quem vai narrar os próximos livros da série “As Crônicas de Gelo e Fogo”, que inspira “Game of Thrones”

Saulo Pereira Guimarães, na Exame

São Paulo – O seriado de TV “Game of Thrones” pode ter alguns de seus segredos desvendados com a ajuda da ciência. Tudo por conta de um modelo capaz de fazer previsões sobre os rumos da história criado por um especialista em estatística.

O especialista é Richard Vale, da Universidade de Canteburry, na Nova Zelândia. Em estudo publicado neste mês, ele apresentou um modelo matemático pensado para prever os acontecimentos dos dois livros ainda não publicados da série “As Crônicas de Gelo e Fogo”, de George R. R. Martin. A série de livros inspira o seriado de TV “Game of Thrones”.

Nos cinco livros publicados por Martin, os capítulos são narrados do ponto de vista dos personagens. Até o momento, cerca de 24 personagens já narraram capítulos na série. O que o modelo de Vale faz é prever quem vai narrar capítulos nos próximos volumes com base na distribuição de narradores presente nos livros já publicados.

Para isso, o modelo matemático se baseia na chamada distribuição de Poisson. Criado pelo matemático francês Siméon-Denis Poisson, esse modelo de distribuição é usado na estatística para calcular a chance de uma série de eventos ocorrer num curto espaço de tempo – considerando que esses eventos não dependam um do outro.

No modelo de Vale, um computador é usado para calcular que distribuição de narradores possível para os próximos dois livros da série mais combina com o padrão verificado nos livros anteriores. O cientista afirma que o modelo se tornará ainda mais preciso quando for lançado o sexto volume da série.

“Como estamos mais interessados em saber se o modelo funciona do que em divulgá-lo, não devemos fugir de identificar e criticar suas falhas”, afirmou o estatístico em entrevista a publicação online Physics arXiv.

Segundo ele, o modelo não considera eventos que podem acontecer – como a entrada de novos personagens na história, por exemplo. Além disso, Vale considera sua base de dados pequena.

No entanto, só a existência de um modelo como esse já mostra como o seriado “Game of Thrones” vem mexendo com a imaginação dos fãs ao redor do mundo, incluindo alguns matemáticos.

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