Sua Segunda Vida Começa Quando Você Descobre Que Só Tem Uma

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Obra favorita de Vladimir Nabokov, ‘O Dom’ chega às livrarias

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O escritor russo Vladimir Nabokov Foto: Yousuf Karsh

O escritor russo Vladimir Nabokov Foto: Yousuf Karsh

Melhor livro do autor escrito em russo rivaliza com ‘Lolita’ e ‘Fogo Pálido’ na obra de Nabokov

Paulo Nogueira, no Estadão

Vladimir Nabokov é um dos supremos avatares da mudança de paradigma que se operou na literatura do século 20 – aprofundada e consumada neste século. Ou seja: do autor não mais como configurador de uma identidade nacional, mas como saltimbanco de uma errância centrífuga, nem sempre voluntária, que gostamos de chamar de globalização.

No caso da Rússia, o buraco é ainda mais embaixo. Na terra de Tolstoi, a expressão “escritor russo” sempre teve um status menos comparável a “escritor brasileiro” do que a “profeta bíblico”. Boris Pasternak deu o nome aos bois: “Aqui, um livro é uma consciência fumegante, ou nada!” Quando perguntaram ao grande Valdimir Korolenko, meio ucraniano, qual era sua nacionalidade, ele cravou: “Minha pátria é a literatura russa”. Stevetlana Alexievich, em plena cerimônia do Nobel de 2015, indicou suas três matrizes: mãe ucraniana, pai bielorrusso e “a grande cultura russa, sem a qual não existo”. Por “grande cultura”, leia-se “literatura”.

Nabokov viveu uma infância e juventude idílicas nos arredores de São Petersburgo, onde nasceu em 1899. No café da manhã, a família falava russo, inglês e francês – daí que o escritor fosse trilíngue desde a chupeta. Com 17 anos, publicou o primeiro livro de poemas – e a poesia será um pilar estruturante na prosa de Nabokov, com sua paixão pela plástica e pela música do texto. Em 1920, já com os bolcheviques pintando e bordando, a família se mandou para Berlim – antes, Vladimir fez uma escala de dois anos na Universidade de Cambridge, Inglaterra.

Em Berlim, que jamais engoliu, Nabokov assobiou e chupou cana: ensinou idiomas, deu aulas de tênis e boxe, urdiu problemas de xadrez e palavras cruzadas para jornais e escreveu romances em russo – o nono e último deles, uma de suas obras-primas: O Dom. Em 1923, conheceu o grande amor de sua vida, uma russa-judia chamada Vera. Com Hitler já babando na gravata, a família deu no pé para Paris, depois para os EUA – menos o irmão de Vladimir, Sergei, que morreu num campo de concentração nazista.

Nos EUA, Nabokov borboleteou duplamente. Primeiro, pairando sobre seus romances. Segundo, como especialista em borboletas propriamente ditas. Lecionava literatura em Cornell e era o curador de lepidópteros do Museu de Zoologia em Harvard. Zanzou de leste a oeste dos EUA coletando borboletas, e descreveu centenas de espécimes, batizando alguns. Formulou até uma hipótese para um tipo (“Polyommatus azul”), e foi ridicularizado pelos pares científicos. Trinta anos depois, com os novos recursos tecnológicos, uma sessão solene da Royal Society proclamou em Londres que o escritor tinha razão postumamente – contritos, os cientistas foram caçar sapo de bodoque.

Nabokov escreveu seu best-seller Lolita precisamente quando trotava pelos EUA (que conheceu melhor que Kerouac, Steinbeck ou Fitzgerald) de rede de caçar borboleta em punho. Vera funcionava como secretária, datilógrafa, editora, revisora, tradutora, bibliógrafa, agente, assessora jurídica e motorista – sem falar nos cafunés, claro. Quando ele tentou queimar o manuscrito do romance, foi ela que o impediu.

Lolita, além de um prodígio literário, foi também um “sucèss de scandale”, sinônimo de grana preta. No Brasil, o primeiro crítico a saudar o romance foi Paulo Francis, num artigo intitulado O Prazer do Abominável, publicado em junho de 1959 na revista Senhor. Com os direitos autorais, Nabokov regressou a Europa de mala e cuia e se dedicou apenas à escrita e às borboletas, acampando no quarto andar do Montreux Palace Hotel, na Suíça.

Sartre acusou Nabokov de “não pertencer a nenhuma sociedade”, esquecendo que em boca fechada não entra mosquito. Nabokov respondeu com a luva de pelica da ironia: “Sou um escritor americano, nascido na Rússia e formado na Inglaterra, onde estudei literatura francesa antes de passar quinze anos na Alemanha.” Mas, a sério, ele já tinha dado o xeque-mate no prefácio de O Dom: “A heroína deste livro não é Zina, mas a literatura russa.” Nabokov, sendo universal, é tão russo quanto a vodca (e mais inebriante).

“Da”, “sim” em russo, era inicialmente o título de O Dom, uma obra sutil e prismática, em que cada linha tem três entrelinhas (para os esotéricos, não será coincidência que Shakespeare e Nabokov tenham nascido no mesmo dia, 23 de abril…). Narrada simultaneamente na primeira e na terceira pessoas, exige uma atenção de coruja. No inestimável Keys to The Gift: A Guide do Vladimir Nabokov, Yuri Leving, levanta a lebre de que o último dia do romance é 29 de junho. Ora, descontada a diferença de 13 dias entre os calendários Juliano e Gregoriano, estaríamos em 16 de junho, precisamente a data em que se desenrola o Ulísses de James Joyce. E, em O Dom, o último dia marca o fim da aprendizagem do protagonista Fyodor, que já pode dizer “sim” ao mundo e escrever o livro que acabamos de ler. Como as últimas palavras do Ulísses: “Sim, eu digo sim”.

O Dom retrata a comunidade de expatriados russos em Berlim e o amadurecimento criativo de Fyodor e de seu dom literário. A trama é ralinha, embora tenha sido escrita entre os anos 1936 e 1937, quando o terror stalinista bombava, e se ocupe do período em que o pai de Nabokov foi assassinado em Berlim por um monarquista. Mas rola metaficção aos borbotões (Nabokov é o padroeiro de pós-modernos como Pynchon, David Foster Wallace, Don DeLillo e William Gaddis). A própria primeira frase é interrompida para a citação de um crítico a respeito de… primeiras frases. E o protagonista está escrevendo uma biografia de Chernyshevsky, o autor favorito de Lenin. Uma proverbial paródia literária, na medida em que Nabokov reprovava o gênero biográfico, talvez pelo seu desdém glacial pela psicanálise (“Só os obtusos acreditam que suas aflições mentais são curáveis por uma aplicação diária de mitos gregos em suas partes genitais”).

O Dom era a obra predileta de Nabokov – hoje, seu pedigree crítico se acotovela no pódio nabokoviano com Lolita e Fogo Pálido. E o próprio autor integra a Santíssima Trindade literária da segunda metade do século 20, ao lado de Borges e Beckett (a primeira metade inclui Joyce, Proust e Kafka).

Quando perguntaram a Nabokov qual a língua mais bela, ele tascou: “Meu espírito responde: o inglês; meu ouvido, o francês; meu coração, o russo.” Era um nostálgico do pior tipo: aquele cuja saudade não pode ser saciada, pois o mundo do qual sente falta desapareceu para sempre. Daí o desprezo absoluto pelo emigrado que “odeia os vermelhos porque lhe roubaram o dinheiro”.

Por outro lado, o relicário do escritor – o seu imaginário subjetivo, a sua memória sensível – continuou intocável e tão acessível quanto os lepidópteros. O passado russo de Nabokov não existia mais, mas, em compensação, nunca deixaria de existir. “Tudo está como deveria ser, nada mudará, ninguém morrerá.” Muito menos ele, com seus romances que são belezas frágeis e aladas, como as borboletas: no ano passado, o Museu Nabokov em São Petersburgo foi vandalizado por fanáticos de Putin, que picharam nas paredes: “Libesrast” – um neologismo russo que mistura “liberal” e “pederasta”. Este Dom é, obviamente, uma dádiva literária – menos para o autor ou para seu protagonista do que para nós.

*Paulo Nogueira é autor de ‘O Amor é um Lugar Comum’ (editora Intermeios)

Fagner doa mais de dois mil livros para a Academia Brasileira de Letras

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Publicado em O Globo

Herdeiro da casa, em Copacabana, e de toda a biblioteca do casal de franceses Lydia e Jacques Libion, o cantor Fagner decidiu doar à Academia Brasileira de Letras os mais de 2 mil livros que recebeu. As obras reúnem o melhor da literatura francesa e inglesa, além de livros de arte, especialmente de pintura e de música. Jacques foi diretor da Livraria Hachette, no Rio, e acolheu em sua casa, a partir dos anos 60, muitos artistas em início de carreira. Elis Regina passou uma boa temporada por lá.

Aliás e a propósito

Fagner morou muito tempo com Jacques e Lydia e era considerado por eles como parte da família — os laços se fortaleceram ainda mais quando o casal, que perdeu um filho, soube que Fagner aniversariava no mesmo dia dele.

Fenômeno de vendas, Delphine de Vigan mistura autoficção e thriller psicológico

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SC A escritora francesa Delphine de Vigan, autora de "Baseados em fatos reais" - Delphine Jouandeau / Divulgação

SC A escritora francesa Delphine de Vigan, autora de “Baseados em fatos reais” – Delphine Jouandeau / Divulgação

 

‘Baseado em fatos reais’ é seu 1º romance lançado no Brasil

Leonardo Cazes, em O Globo

RIO – Delphine é uma escritora francesa que alcançou estrondoso sucesso ao contar a história da sua própria família em detalhes. Após virar best-seller, a autora passa a receber cartas ameaçadoras, que parecem ser escritas por um parente, acusando-a de não ter dito toda a verdade. Vivendo ainda uma crise em relação à escrita, Delphine conhece L., que ganha a vida como ghost-writer de celebridades e rapidamente se torna sua melhor amiga e confidente. Esse é o ponto de partida de “Baseado em fatos reais” (Intrínseca), o primeiro livro de Delphine de Vigan lançado no Brasil. Assim como a protagonista do seu romance, Delphine se transformou em um fenômeno na França ao contar a história da sua mãe, Lucile, em “Rien ne s’oppose à la nuit” (“Nada se opõe à noite”, em tradução livre), lançado em 2011 e que vendeu quase 1 milhão de exemplares.

As semelhanças entre a Delphine real e a de “Baseado em fatos reais”, que vendeu cerca de 500 mil exemplares na França e ganhou os prêmios Renaudot e Goncourt des Lycéens, não param por aí. A escritora nunca tinha demorado tanto tempo entre a escrita de um romance e outro. Em entrevista ao GLOBO, por Skype, Delphine admite que o sucesso se tornou intimidador e acabou por definir o tema do romance:

— Os dois livros estão ligados de alguma maneira. Talvez “Baseado em fatos reais” seja o único livro que eu poderia escrever depois de “Rien ne s’oppose à la nuit”. Tenho amigos escritores que, quando colocam a palavra “fim” ao terminar um romance, são capazes de começar outro. Eu não sou assim, preciso de um bom tempo de latência, um tempo para eu me voltar para a vida. Para mim, a escrita é muito solitária. No caso desse livro, precisei de mais tempo do que o normal. Provavelmente porque foi muito intimidador escrever depois de tamanho sucesso.

As aflições da protagonista se confundem com as da sua criadora, apesar desta garantir que se trata de uma obra de ficção. Em “Baseado em fatos reais”, L. se torna a única pessoa com quem Delphine (a da ficção) consegue conversar sobre o seu “bloqueio criativo”. As duas estabelecem uma relação de simbiose que, no desenrolar da história, se desdobra em dependência e manipulação. Como uma boa ghost-writer, L. parece à vontade para assumir as tarefas que Delphine se vê incapaz de fazer. Até chegar ao ponto de se passar pela própria em uma palestra numa escola no interior da França.

BUSCA PELA VERDADE

Um dos grandes dilemas que angustiam Delphine no livro é o tema do próximo livro, o primeiro após o enorme sucesso. No romance, ela busca manuscritos antigos, tramas começadas e nunca terminadas, mas é sempre desencorajada pela melhor amiga. L. afirma que Delphine precisa mergulhar ainda mais fundo na própria vida e na da família. É isso que os leitores querem, diz. Se a literatura não falar a verdade, perde a sua razão de existir. No entanto, as duas Delphines, a real e a da ficção, discordam. A autora queria explorar esse desejo de realidade do público.

— Eu não concordo com L., e Delphine também não. O que eu busquei, através da personagem L., era abordar algo que me parece muito importante hoje: a valorização das histórias verdadeiras. Como se uma trama se tornasse mais interessante por estar baseada em fatos reais. É a razão pela qual boa parte dos filmes hoje é lançada com a menção “baseado em fatos reais”, que funciona como um argumento comercial — afirma a escritora. — Na literatura, cada vez mais vejo escritores partindo de documentos reais para criar suas histórias. No exterior, a literatura francesa tem muito essa imagem de uma literatura um pouco narcísica, autocentrada. Eu queria brincar um pouco com isso.

“Isso é verdade? É tudo verdade?” foram as perguntas que Delphine mais ouviu após o lançamento de “Rien ne s’oppose à la nuit”. Os leitores encontraram e divulgaram na internet um documentário sobre a família de sua mãe, além de fotografias de Lucile em anúncios publicitários de quando ela era criança. Esses episódios são narrados no romance autobiográfico. A partir dessa experiência, Delphine resolveu jogar com o código da autoficção em “Baseado em fatos reais”.

— Eu conversei com alguns leitores e perguntei: por que isso é tão importante? Vocês gostaram do livro? Vocês riram? Vocês choraram? Então, obrigada. Mas é assim tão importante verificar se tudo nessa história é verdade? Esses questionamentos e essas trocas com os leitores fizeram nascer “Baseados em fatos reais”. Meu objetivo foi fazer o leitor se perder nessa confusão entre ficção e realidade.

Se o romance começa como uma obra de autoficção, aos poucos vai se transformando num thriller. Na abertura de cada uma das três partes do livro — “Sedução”, “Depressão” e “Traição” — há uma epígrafe de Stephen King, sendo duas de “Misery — Louca obsessão”. Delphine afirma que os textos são mesmo chaves de leitura de “Baseado em fatos reais”. A proposta de cruzar os dois gêneros no mesmo livro estava presente desde o início da arquitetura do romance. A autora francesa tem por hábito fazer um plano bastante detalhado da trama antes de começar a escrever propriamente e diz ser fã do escritor americano:

— O que eu gosto muito nos seus romances é que muitas vezes há uma reflexão sobre a escrita e a condição do escritor. Stephen King trabalhou muito sobre o duplo também, essa ideia de que talvez um outro escreva quando você escreve, de que alguém nos escreve também. Esse é um tema muito importante em “Baseado em fatos reais”.

Dois de seus romances anteriores já foram adaptados para o cinema (“No et moit”, lançado em 2010) e para a televisão (“Les heures souterraines”, de 2015). Agora, “Baseado em fatos reais” será levado para as telas sob a direção de Roman Polanski e com roteiro de Olivier Assayas. Delphine afirma que Polanski era o seu nome favorito, apesar de não ter influência na escolha nem na adaptação. Ela agora se dedica a um novo romance, e conta ter escrito as primeiras linhas na segunda-feira da semana passada, horas antes da entrevista ao GLOBO. Seu “período de latência” foi bem menor desta vez. Perguntada se L. realmente existiu, e se teve alguma coisa a ver com o longo tempo em que ficou sem escrever, Delphine desconversa:

— Eu não posso responder a essa questão. L. existe de uma forma ou de outra. Cabe a você descobrir que forma é essa.

LEIA UM TRECHO DE ‘BASEADO EM FATOS REAIS’

“L. continuava me impressionando com sua capacidade de captar os estados de espírito dos outros, em apenas um instante, e de se adaptar a eles. Ela sabia desarmar a contrariedade de um garçom em um café ou vencer o cansaço de uma vendedora de padaria como se percebesse o humor deles no instante em que entrava pela porta. Sempre estava um passo à frente. Em um lugar público, era capaz de começar uma conversa com qualquer pessoa e, em menos de três minutos, colher suspiros, suscitar confidências. Mostrava-se indulgente e tolerante, dava a sensação de poder entender tudo sem julgar.

L. sabia encontrar as palavras para consolar e acalmar.

L. fazia parte do grupo de pessoas para o qual, por instinto, nos viramos na rua para perguntar onde fica um lugar ou pedir informações.”

Biografia retrata o pai de Dumas, que inspirou ‘O Conde de Monte Cristo’

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Raquel Cozer, na Folha de S.Paulo

Em texto de 1857 sobre “O Conde de Monte Cristo”, romance que lançara com sucesso 13 anos antes, o francês Alexandre Dumas (1802-70) conta como lhe surgiu a ideia da trama, um processo que teria envolvido conversas com o príncipe Jerônimo Bonaparte e uma visita à ilha italiana de Monte Cristo, habitada por cabras selvagens.

Ao final do breve ensaio, Dumas faz uma provocação: “E agora todo mundo é livre para encontrar outra fonte para ‘O Conde de Monte Cristo’ que não esta que forneci aqui, mas apenas um homem muito sagaz irá encontrá-la”.

Poderia ser apenas referência irônica às dúvidas que circulavam sobre a autoria de suas obras, já que escrevia com uma equipe de colaboradores, mas, para o historiador americano Tom Reiss, 50, o francês jogava ali uma pista para “que um dia alguém pudesse conjecturar outra origem para seu herói injustiçado”.

Certo de ser o homem sagaz imaginado pelo romancista, Reiss dedicou-se a pesquisa e a escrever “Conde Negro – Glória, Revolução, Traição e o Verdadeiro Conde de Monte Cristo”, biografia que lhe rendeu um Prêmio Pulitzer e sai agora no Brasil pela Objetiva.

O biografado não é o Alexandre Dumas conhecido por romances como “Os Três Mosqueteiros”, tampouco o filho dele, o Alexandre Dumas dramaturgo, autor de “A Dama das Camélias”, mas o Alexandre Dumas cuja história acabou ofuscada pela do filho e do neto famosos.

O general Thomas-Alexandre Dumas lutando contra o Exército austríaco em 1797, em ilustração de 1912. Leemage

O general Thomas-Alexandre Dumas lutando contra o Exército austríaco em 1797, em ilustração de 1912. Leemage

E o motivo pelo qual esse primeiro Dumas –herói de guerra na Revolução Francesa, famoso em seu tempo como seria hoje nos EUA uma estrela do futebol americano– teria sido relegado a segundo plano não poderia ser mais controverso, a julgar pela opinião de Tom Reiss.

“Os franceses excluíram o general Dumas da história porque não podiam enfrentar a verdade de que o homem por trás dos maiores heróis de sua ficção era negro”, diz o biógrafo em entrevista por e-mail.

“O escritor Dumas tentou fazer com que o pai fosse reconhecido. Sempre que fez isso, foi rejeitado –embora fosse um dos mais famosos autores da França em seu tempo. Era simplesmente inaceitável que uma minoria racial ocupasse posição central na literatura francesa.”

O principal retrato contemporâneo do general Dumas anterior à biografia de Reiss foi publicado nos anos 1950 por Andrés Maurois –uma parte menor da biografia “Le Trois Dumas”, que contava a história das três gerações.

PENHORA

Thomas-Alexandre Davy de la Pailleterie nasceu em 1762, na colônia francesa de Saint-Domingue (atual Haiti), filho de um marquês branco e uma escrava negra.

Vendido temporariamente como escravo pelo pai na adolescência –o marquês o penhorou para pagar uma viagem à França, mas depois o resgatou–, Alex foi criado na elite parisiense antes de cortar laços com a família e passar a usar o sobrenome da mãe, Marie-Cessette Dumas.

Sem o título de nobreza, o jovem mestiço entrou para o Exército como soldado raso e, em poucos anos, tornou-se um general, no comando de mais de 50 mil homens.

Alguns de seus feitos, anotados por autores da época, lembram os do Barão de Munchausen, cujos relatos absurdos inspiraram o clássico de Rudolf Erich Raspe (1736-94) –num deles, Dumas aparece a cavalo agarrando uma viga no teto e se erguendo do chão com cavalo e tudo.

Relatos descrevem a ocasião em que Dumas venceu três duelos num dia –o que, para Reiss, foi “quase certamente a base para uma das cenas mais cômicas e bem conhecidas de ‘Os Três Mosqueteiros’, em que d’Artagnan desafia Porthos, Athos e Aramis para duelos numa tarde”.

Editoria de Arte/Folhapress

Editoria de Arte/Folhapress

A inspiração para “O Conde de Monte Cristo” seria mais óbvia –voltando à França após ajudar Napoleão Bonaparte a conquistar o Egito, o general quase naufragou e acabou numa masmorra numa ilha no Mediterrâneo.

A carreira meteórica do general foi interrompida depois do período no calabouço e de Dumas criticar a campanha de Napoleão no Egito, o que o tornaria desafeto do líder.

A escritora Heloisa Prieto, especialista na obra do romancista, diz que não há consenso sobre essas inspirações. Ela lembra que o principal colaborador de Dumas, Auguste Maquet, era quem fazia as pesquisas para ele.

Mas, diz, é inegável que “o general Dumas era uma figura onipresente para o filho, cujas obras tratam do sujeito excluído, que tem de lutar por um lugar, do resgate dos valores da cavalaria”.

No Brasil, onde apenas cerca de dez dos mais de 600 títulos de Dumas já foram publicados, pode ser mais difícil buscar outras referências. Para os próximos anos, estão previstas duas continuações de “Os Três Mosqueteiros”, “Vinte Anos Depois” (que retrata um retorno tardio do quarteto) e “O Visconde de Bragelonne”, pela Zahar, que vem publicando obras do francês desde 2004.

MEMÓRIAS

O romancista foi fonte central para Reiss, ao dedicar ao pai cerca de 200 páginas de suas memórias, mas o biógrafo teve de descontar os exageros do filho. “O general era bom demais para ser real. E todos os textos repetiam o que o filho disse sobre ele”, diz Reiss, que checou tudo em arquivos militares.

Entre os textos inéditos que pesquisou, estão os arquivos dos três Dumas mantido num cofre no museu da família em Villers-Cotterêt, onde o romancista nasceu.

Quando chegou à vila francesa, Reiss descobriu que ninguém sabia a combinação do cofre. Conseguiu anuência do vice-prefeito para arrombá-lo e fotografar o que conseguisse por duas horas –antes de a polícia chegar.

28 livros que são diamantes para o cérebro de crianças e adolescentes

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Euler de França Belém, no Jornal Opção

Bons livros para crianças e adolescentes — a chamada literatura infanto-juvenil — são eternos e, mais, podem ser lidos por adultos com igual prazer. Muitos livros, mesmo de qualidade mediana, se tornaram clássicos. As obras de Monteiro Lobato, Alexandre Dumas, Irmãos Grimm, Ruth Rocha, Lygia Bojunga, Ana Maria Machado, H. C. Andersen não morrem jamais. São para sempre. “Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Mólnar, para ficar num exemplo, é um clássico universal e atemporal.

“O que me diz, Louise?”, de Slade Morrison e Toni Morrison
O que me diz Louise

Nobel de Literatura, a americana Toni Morrison é uma escritora notável. O livrinho “O Que Me Diz, Louise?” é uma celebração da leitura, da cultura, do aprendizado. Sobretudo, do prazer e não da obrigação de ler. Mesmo num dia chuvoso, Louise sai de casa em busca de um refúgio quase secreto: a biblioteca, espécie de porta aberta para todas as coisas do mundo. A biblioteca, com seus vários livros, transforma os seres humanos e, daí, o mundo. Ah, o livro nada tem de chato. (Glo­binho, 32 páginas, tradução de José Rubens Siqueira, ilustração de Shadra Strickland)

 

“O Pequeno Nicolau”, de Sempé-Goscinny

O Pequeno NicolauCom ilustrações de Jean-Jacques Sempé, o livrinho aparentemente despretensioso escrito pelo francês René Gos­cin­ny, criador de Asterix, que viveu em Buenos Aires durante a infância e parte da juventude, narra em primeira pessoa as aventuras do menino Nicolau. Contando suas experiências na escola, em casa com os pais e com os amigos, Nicolau diverte e ao mesmo tempo apresenta uma narrativa de como uma criança percebe o mundo ao seu redor. Para os interessados pela língua francesa, vale a pena ler o livro no original. A prosa da obra é fluente, precisa e acessível (Mar­tins Fontes, 136 páginas).

 

“20 mil léguas submarinas”, de Júlio Verne

20 mil leguas submarinasA edição contém o tex­to integral e 30 ilustrações originais. Um dos criadores da ficção científica, Júlio (Jules) Verne é uma espécie de Nos­tradamus da literatura e, mesmo, da ciência. Invenções às quais não teve acesso, pois morreu em 1905, foram anunciadas em seus livros. Prisioneiro do capitão Nemo, o professor Aronnax e Ned Land vivem a bordo do submarino Náutilus. Sem o didatismo de alguns autores, privilegiando a imaginação, a sua e a dos leitores, Verne mostra a riqueza do mundo marinho. (Zahar, 472 páginas, tradução de André Telles)

 

“O Jardim Secreto”, de Frances Rodgson Burnett

O Jardim SecretoO romance “O Jardim Secreto”, de Frances Rodgson Burnett, é sobre o encontro entre uma menina e um menino, sobretudo é uma celebração da amizade entre dois seres e a descoberta, por assim dizer, do mundo. O garoto vive numa cama, mais morto do que vivo, até a chegada de uma menina esperta que injeta vida em seu ser e o retira do quarto. Juntos, descobrem um jardim secreto e uma história, que, como o belo jardim, não pode mas é devassada. (Há duas traduções de qualidade pela Editora 34, de Marcos Maffei, e pela Companhia das Letras/Penguin, de Sônia Moreira. Há uma bela edição, em pop art, da Publifolha)

 

“4 Contos”, de e. e. cummings

4 ContosNão estranhe: é assim mesmo — e. e. cummings. É como o poeta assinava seus livros, com minúsculas. Todos conhecem cummings como um poeta extra­or­dinário, traduzido no Brasil por Augusto de Campos. No seu único livro para crianças, o bardo mostra que tem a imaginação adequada. Os contos versam sobre nascimento, amor. Quem aprecia Tolkien não se espantará com o elfo criado pelo vate americano. Imagine um elefante que tem carinho por uma borboleta e uma casa, meio solitária, que se declara apaixonada por um passarinho. Há duas meninas, Eu e Você. Lúdico e inteligente. (Cosac Naify, 48 páginas, tradução de Cláudio Alves Marcondes, ilustrações de Eloar Guazzelli)

 

“Vozes no Parque”, de Anthony Browne

Vozes no ParqueAnthony Browne ganhou o prê­mio Hans Chris­­­tian An­dersen, o No­­bel da literatura infanto-juvenil. O li­vro convida o leitor para pensar sobre a diversidade do mundo, sobre a interpretação dos fatos. Um passeio, feito num parque, é relatado por quatro vozes diferentes, com suas nuances. Resulta que um passeio pode ser muitos passeios, ao incorporar vozes diversas. “Um convite para nos colocarmos no lugar do outro, para ampliarmos nosso horizonte e para pensarmos sobre algumas questões como o isolamento, a amizade e as coisas estranhas em meio ao familiar”, segundo a editora. Atente-se para as ilustrações. (Zahar, 32 páginas, tradução de Clarice Duque-Estrada)

 

“Huckleberry Finn”, de Mark Twain

Huckleberry FinnPense em Mark Twain como o Mon­teiro Lobato dos Estados Uni­dos, com uma pitada a mais de humor. O menino Huck Finn é esperto, inteligente e até malandrinho. Suas histórias divertidas sempre levam o leitor a sorrir. É quase um romance de formação, preciso e enxuto. O menino amadurece durante suas peripécias. Fica-se com a impressão, às vezes, de que Huck Finn é um menino-adulto ou um adulto-menino. É o mais importante livro da literatura juvenil (ou infanto-juvenil) dos Estados Unidos, inclusive adaptado para o cinema. (L&PM, 320 páginas, tradução de Rosaura Eichenberg. Há outra edição. A leitura em inglês talvez seja mais proveitosa)

 

“As aventuras de Robin Hood”, de Alexandre Dumas

As aventuras de Robin HoodRobin Hood é um clássico da literatura universal (poucas pessoas não sabem quem é). As histórias estabelecidas por Alexandre Dumas são as mais bem cuidadas e são ambientadas nos séculos 12 e 13, sob o reinado de Ricardo Coração de Leão. O criminoso que rouba dos ricos para doar aos pobres é admirador do rei Ricardo e batalha para que volte ao trono. Nas matas de Sherwood e Barnsdale, Robin Hood e seus aliados, como João Pequeno, lutam contra o xerife de Nottingham e os soldados do rei usurpador. Há também a bela Lady Marian, paixão de Robin Hood, e o frei Tuck, seu aliado. (Zahar, 472 páginas, tradução de Jorge Bastos)

 

“Os Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Molnár

os Meninos da Rua PauloO húngaro Ferenc Molnár escreveu um dos mais belos livros juvenis (que todo adulto lê com prazer). Paulo Rónai, húngaro que veio para o Brasil fugindo do nazismo, é o exímio tradutor desta obra-prima. Ele escreveu o prefácio e o poeta e tradutor Nelson Ascher é autor do posfácio e das notas. Brigas de meninos, nas ruas de Budapeste, no século 19, poderiam render uma reportagem de jornal. Nas mãos de Ferenc Molnár resultaram num romance delicioso, escrito com graça e grande compreensão do universo dos garotos. (Cosac Naify, 70 páginas)

 

“Os três mosqueteiros”, de Alexandre Dumas

Os três mosqueteirosUma das graças do livro do escritor francês Alexandre Dumas é saber que os três mosqueteiros são, na verdade, quatro — Athos, Por­thos, Aramis e D’Artagnan. O romance de capa e espada se tornou universal. A versão brasileira, integral, contém mais de 100 ilustrações originais. A editora disponibiliza duas edições — uma mais barata e outra mais sofisticada. Os quatro heróis permanecem encantando os leitores. Não só. A história, levada ao cinema, encanta os espectadores. (Zahar, 688 páginas, tradução de André Telles e Rodrigo Lacerda)

 

“O Pequeno Príncipe”, Saint-Exupéry

O Pequeno PrincipeHá um preconceito intelectual contra este belo livro, so­bretudo no Bra­sil. Crianças e adolescentes (se não tiverem ab­sorvido a ranzinzice dos adultos) podem lê-lo com proveito. As mensagens podem soar piegas, num mundo feito de racionalismo consumista e sempre apressado, mas a história, com suas frases (dizem que moralistas), é bonita. Vale ler a tradução, mais madura e precisa, de Ferreira Gullar. O livro, na pena do maior poeta brasileiro vivo, ficou mais adulto. (Agir, 96 páginas)

 

“Grande Sertão: Veredas”/graphic novel, de Guimarães Rosa

42749000“Grande Sertão: Veredas, dirão, não é romance para crianças e adolescentes. De fato, não é. Porém, “Grande Sertão: Ve­redas”/graphic novel, de tão bem adaptado e, até, facilitado, pode ser lido por jovens atentos. O roteiro é de Eloar Guazzelli e a arte, de Rodrigo Rosa. O livro de Guimarães Rosa é uma das obras realmente imperdíveis da literatura brasileira. (Globo Livros, 180 páginas. O único problema é o preço: 199,90 reais)

 

“Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato

cacadas de pedrinhoO Brasil está cada vez mais urbano, com espaço cada vez menor para a área rural. Crianças, adolescentes e mesmo adultos sabem cada vez menos sobre assuntos que tenham a ver com o campo. O belo “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, se torna, portanto, mais interessante do que nunca. Porque põe seus leitores em contato com a natureza, com um garoto que inventa coisas para se divertir. Hoje, tirar uma criança das teclas de computadores e smartphones não é fácil. Monteiro Lobato, com sua rica imaginação, às vezes pecando por certo didatismo, provavelmente ainda consegue encantar as crianças e, até, os adolescentes. (Globinho, 72 páginas)

 

“O Menino e o Tuim”, de Rubem Braga

O Menino e o TuimO cronista Rubem Braga prova que sabe escrever para crianças com a história “O Menino e o Tuim”. O livro mostra a relação de uma criança com um passarinho. “Além de todo encantamento e alegria de ter um bichinho, o menino é forçado a lidar com as obrigações, necessidades e dilemas que vêm junto com o animalzinho quando ele é domesticado. Com uma linguagem sensível e poética, Rubem Braga capta toda a emoção de uma amizade pura e sincera e outras experiências transformadoras da infância”, sintetiza a editora. (Galerinha Record, 24 páginas)

 

“Andira”, de Rachel de Queiroz

AndiraAndira é uma criança? Não, Andira é uma andorinha-criança, quer dizer, um filhote. Pequena, e como não sabe voar, as demais andorinhas, que se preparam para migrar no inverno, deixam-na para trás. Como muitas andorinhas, Andira nasceu numa igreja e, na ausência dos parentes, é criada por morcegos. Estes se tornam seus mestres. (José Olympio, 64 páginas, ilustrações de Cláudio Martins)

 

“Marcelo, Marmelo e Martelo”, de Ruth Rocha

Marcelo Marmelo e MarteloRuth Rocha conhece como poucos o que se passa pela cabeça das crianças e adolescentes. Ela escreve com uma clareza impressionante e não subestima seus leitores. Por isso seus livros são tão lidos e adorados. Em “Marcelo, Marmelo e Martelo”, a escritora explora a vida de meninos que moram na cidade. São garotos espertos e ativos. Marcelo é um criador de palavras novas. Nas livrarias podem ser encontradas as belas e precisas adaptações que Ruth Rocha fez para a “Ilíada” e a “Odisseia”, de Homero”, e “Tom Sawyer”, de Mark Twain. Crianças ganham, muito, se lerem as adaptações. (Salamandra, 64 páginas, ilustrações de Mariana Massarani)

 

“A História de Emília”, de Monteiro Lobato

42127738Talvez seja possível dizer que Monteiro Lobato inventou a literatura infantil e infanto-juvenil no Brasil. Suas histórias não perdem vitalidade e permanecem modernas, ou, diria Carlos Drummond de Andrade, eternas. O escritor era um homem sisudo, mas tinha uma capacidade de imaginação imensa e, principalmente, não menosprezava a capacidade de entendimento de crianças e adolescentes. A história de Emília, uma boneca falante, é uma de suas principais criações Mexe com a percepção criadora das crianças. O curioso é que a personagem, com sua irreverência, agrada tanto meninas quanto meninos. É tão moleca, esperta e divertida quanto qualquer criança. (Globinho, 32 páginas)

 

“Meu Pé de Laranja Lima”, de José Mauro de Vasconcelos

Meu Pé de Laranja LimaO romance “Meu Pé de Laranja Lima” não deixa de ser piegas e, em alguns momentos, até primário. A exploração do sentimentalismo ganharia se incluísse, de modo mais incisivo, o humor, o riso (o mundo infantil raramente é tão lamentoso). Mas uma coisa é certa: José Mauro de Vasconcelos sabe comover crianças, pelo menos as do meu tempo de menino (entre as décadas de 1960 e 1970). A história do menino e do Portuga tem um quê de Mark Twain? Um quê, no caso, significa uns 20%. (Melhoramentos, 192 páginas)

 

“O estribo de prata”, de Graciliano Ramos

O estribo de prata“Vidas Secas” é, cla­ro, um roman­ce adulto. Mas a história de Fabiano e da cachorra Baleia pode ser lida com proveito por jovens perceptivos. “O Estribo de Prata” é, ao contrário, um livro mesmo para garotos. Trata-se de um causo contado por Alexandre, um misto de caçador e vaqueiro. Simples, direto e muito bem escrito. Menos seco que a prosa tradicional de Graciliano Ramos. Há, por assim dizer, um pouco mais de emoção. (Galerinha Record, 24 páginas, ilustrações de Simone Matias)

 

“A Menina Cláudia e o Rinoceronte”, de Ferreira Gullar

A Menina Cláudia e o RinoceronteAo criar colagens, o poeta Ferreira Gullar decidiu escrever “A Menina Cláudia e o Rinoceronte”. A garota, brincando com papel picado, “cria um rinoceronte. Ela toma gosto e logo faz vários outros, um de cada cor, era muita alegria inventar todo aquele novo e fantástico universo. Até que sua própria criação a surpreende obrigando a menina a embarcar numa incrível jornada e tanto pelos recortes de papel. Toda a história é contada por Gullar através de poemas leves e divertidos. Um livro lindo, uma verdadeira obra de arte visual com texto sensível e envolvente”, anota a editora. (José Olympio, 48 páginas)

 

“Raul da Ferrugem Azul”, de Ana Maria Machado

Raul da Ferrugem AzulGanhadora do Prêmio Hans Chris­tian Andersen, Ana Maria Machado é autora de livros de alta qualidade, como “Raul da Ferrugem Azul”, “História Meio ao Contrário?” e “Bisa Bia Bisa Bel”. Raul aparece com manchas azuis em todo o corpo. Depois de se lavar, usando xampu, álcool e detergente, conclui que tem ferrugem azul. A escritora conta a história com graça e sempre levando em consideração que o leitor é inteligente e perspicaz. (Salamandra, 64 páginas, ilustrações de Rosana Faria)

 

“A Bolsa Amarela”, de Lygia Bojunga

A Bolsa AmarelaLygia Bo­junga é uma escritora de livros infanto-juvenis? Consagrou-se assim. Acima de tudo, é uma grande escritora. Em conflito com a família e consigo mesma, uma menina esconde na sua bolsa “três grandes vontades”: “a de crescer, a de ser garoto e a de se tornar escritora”. Afinal, criança tem vontade ou sua vontade é a dos adultos? A garota relata como é seu cotidiano, intercambiando o mundo real, no qual vive com a família, e seu próprio mundo, no terreno da imaginação. (Casa Lygia Bojunga, 134 páginas)

 

“Histórias da Velha Totônia”, de José Lins do Rego

Histórias da Velha TotôniaJosé Lins do Rego tem livros magníficos sobre a infância. “Me­nino de Enge­nho”, às vezes subestimado, é um belíssimo romance. O es­critor paraibano escreve muito bem sobre meninos. “Quisera que todos eles (os meninos) me ouvissem com a ansiedade e o prazer com que eu escutava a velha Totônia do meu engenho”, disse o autor paraibano. A linguagem coloquial, oralizada, torna o livro extremamente acessível, divertido e delicioso. (José Olympio, 120 páginas)

 

“17 É Tov!”, de Tatiana Belinky

17 e TovTatiana Belinky nasceu na Rússia e veio cedo para o Brasil. Traduziu para o português Gógol e Tchekhov, sempre com mestria. Ao mesmo tempo, escreveu belos livros no campo infanto-juvenil — com a percepção de que a criança e o adolescente são inteligentes e dispensam didatismos excessivos. “Em ‘17 É Tov!’ ela descreve os primeiros 17 anos em São Paulo, por meio de crônicas divertidas e bem-humoradas. Desde a chegada no bairro paulistano de Hi­gienópolis até o casamento de seu irmão com uma prima, a autora narra casos que marcaram sua vida e sua experiência em um novo país”. Suas memórias, escritas com leveza, são divertidas e atentas. (Cia das Letrinhas, 88 páginas, ilustrações de Maria Eugênia)

 

“A Árvore dos Desejos”, de William Faulkner

a-arvore-dos-desejos-william-faulkner-14710-MLB169456628_8539-OO escritor americano William Faulkner é mais conhecido por seus romances mais complexos, como “O Som e a Fúria”, “Luz em Agosto”, “Absalão, Absalão” e “Enquanto Agonizo”. “A Árvore dos Desejos”, ao contrário dos chamados livrões, é escrito numa prosa mais simples e acessível. O menino Maurice convida a garota Dulcie para saírem em busca da Árvore dos Desejos. Eles vão para a floresta, ao lado de outras crianças. O Nobel de Literatura manipula bem o entrelaçamento entre o real e o fantástico. (Cosac Naify, 56 páginas, tradução de Leonardo Fróes, ilustrações de Eloar Guazzelli)

 

“Os Gatos de Copenhague”, de James Joyce

os-gatos-de-copenhague-james-joyce-8573214112_200x200-PU6eb479c3_1O autor de “Ulysses”, James Joyce, escrevendo para crianças? Sim e, melhor, o faz muito bem. “Os Gatos de Copenhague”, com qualificada tradução de Dirce Waltrick do Amarante, é divertido. O autor de “Ulysses” envia, da Dinamarca, uma carta para seu neto Stephen Joyce, na qual conta a história de que não há gatos em Copenhague. Que o leitor não se assuste: a história é simples, sem as firulas experimentais dos outros textos do escritor irlandês. (Iluminuras, 24 páginas, ilustrações de Michaella Pivetti)

 

“Discurso do urso”, de Júlio Cortázar

discurso-de-urso-julio-cortazar-emilio-urberuaga-450O escritor argentino Julio Cor­tázar é mais conhecido por “O Jogo da Amarelinha”, romance para adultos. O conto poético “O Discurso do Urso”, seu primeiro texto infantil, versa “sobre a vida e os seres humanos, vistos através dos olhos de um ursinho que vive passeando pelos canos dos prédios. Neste vai e vem ele ouve conversa e explora” o “cotidiano” das pessoas — “e suas qualidade e imperfeições — com curiosidade, deslumbre e audácia”, ressalta a editora. (Galerinha Record, 28 páginas, tradução de Léo Cunha)

 

“Caninos Brancos”, de Jack London

CapaJack London é um escritor brilhante, porém, como pouco dado a firulas experimentais, às vezes é sugerido como do segundo time. O autor de “O Cha­mado Selvagem” é responsável, em larga medida, pela formação e ampliação do número de leitores. Sua prosa é de qualidade, densa e, ao mesmo tempo, simples. Pode ser lida, com igual prazer, por crianças, adolescentes e adultos. “Caninos Brancos” é um de seus mais belos romances. Um lobo do Yukon, aprisionado, é utilizado como puxador de trenó e como cão de rinha. Resgatado por um homem “não-selvagem”, readquire, por assim dizer, sua “dignidade” e, aos poucos, volta à natureza. As relações homem-natureza são mostradas com rara felicidade por Jack London. A história foi adaptada para o cinema, mas nada substitui a leveza contagiante do texto do escritor americano (há pelo menos duas traduções de qualidade. Sônia Moreira é responsável pela da Companha das Letras/Penguin, com 296 páginas, e Rosaura Eichenberg fez a da L&PM, com 232 páginas)

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