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Como incentivar crianças a lerem mais e despertar o gosto pelos livros

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Fonte: Shutterstock

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Confira dicas para fazer com que as crianças leiam mais

Publicado no Universia Brasil

Muitas vezes, fazer uma criança ler se mostra uma tarefa quase impossível. Com a tecnologia presente cada vez mais cedo em nossas vidas, é comum que os pequenos ignorem os livros e queiram dedicar sua atenção aos eletrônicos. Confira algumas dicas de como incentivar as crianças a lerem mais e despertar nelas o gosto pela leitura:

Não adianta, se você quer que uma criança adquira determinado hábito, o primeiro passo é mostrar que esse é um hábito seu também. Sempre que possível, leia junto com os pequenos e mostre que ler faz parte do seu dia a dia. Quando for falar sobre livros, refira-se ao tema de modo divertido, de uma forma que desperte o interesse e a curiosidade da criança.

Faça com que os livros estejam sempre ao alcance das crianças. Busque deixá-los em locais da fácil acesso, que não sejam muito altos e estejam sempre à vista da criança. A intenção é que ela “encontre” algo para ler em seu caminho com facilidade e fique ao menos curiosa sobre o conteúdo. Para isso, é interessante investir também em obras com capas mais chamativas. Se possível, transforme algum espaço da casa em um cantinho da leitura.

Mais do que ler junto ler para a criança também é uma forma de interessá-la. Dramatize, coloque entonações diferentes para cada personagem, envolva-se. O objetivo é mostrar que a leitura é algo divertido e pode ser tão interessante quanto um filme ou um videogame.

Programe passeios que envolvam livros. Vale ir em uma livraria ou em uma biblioteca. A maioria delas possui áreas para crianças e algumas contam até mesmo com uma programação especial voltada aos pequenos. Se possível, visite um dia de contação de histórias. Além de ter uma apresentação mais lúdica, a presença de outras crianças também ajuda na hora de estimular o envolvimento com os livros.

Situações frequentes quando se tem um pequeno leitor em casa

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Fabio Mourão, no Dito pelo Maldito

Como a maioria das pessoas ligadas a literatura, eu fui um pequeno leitor. Aquele tipo de criança que vivia com a cara enfiada em um livro, enquanto os outros se divertiam em atividades externas. Para se ter uma ideia, até hoje a minha mãe não perde a oportunidade de contar a remota história do dia em que ela me perdeu na rodoviária lotada do Rio de Janeiro, quando sorrateiramente entrei em uma livraria quando ela estava distraída, e permaneci por lá horas a finco enquanto ela acionava as autoridades locais alegando que seu filho havia sido “sequestrado”.

E foi justamente revirando as minhas próprias memórias, que me ocorreu a ideia de compilar aqui algumas situações que você fatalmente enfrentará caso tenha uma criança ávida por leitura na sua casa.

Ele prefere ficar em casa lendo, do que brincar lá fora
Eu passei grande parte das minhas aulas de Educação Física fingindo alguma luxação para poder ler um livro sem distrações encostado em algum canto da quadra, e não necessariamente para fugir das atividades forçadas pelos professores. E também não é que eu fosse anti-social ou coisa do tipo, eu até que tinha bastante amigos, apenas preferia utilizar aquele tempo para fazer algo que realmente gostasse,… Como ler um livro.

O mesmo valia para o recreio, recessos, e nas aulas em que o professor ocasionalmente faltava (que não eram poucas), todo momento livre era uma oportunidade de mergulhar na leitura.

Ele provavelmente tentará ler enquanto anda
Ler e andar compõem os primeiros passos da vida de um pequeno leitor. Você pode reconhecer o hábito da leitura em uma criança conferindo as contusões em suas canelas, marcadas pelas topadas das tentativas frustradas de ler enquanto andam.

Alguns parentes alertavam a minha mãe sobre o que julgavam ser um ‘hábito perigoso’ para uma criança, e sua resposta sempre era: “O único perigo que ele corre é de ler um livro ruim.”

Ele pode sofrer danos em seu senso de direção
Quando tirei a minha habilitação, minha felicidade momentânea foi imediatamente abafada logo que percebi que não tinha a menor ideia de como chegar à lugar nenhum, já que sempre estava lendo um livro ou quadrinho toda vez que andava na carona de um carro e, por conta disso, nunca olhei pra frente e nem prestei atenção nos trajetos feitos.

Claro que isso foi numa época antes do GPS. Hoje confio minha vida no caminho indicado pela mulher do aplicativo.

As mochilas nunca duram até o fim do ano
Nenhuma dessas mochilas plásticas infantis foi preparada para levar o peso de uma dúzia de livros, e consequentemente eu sempre estava arrebentando o fundo, o fecho, ou as alças das minhas.

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Às vezes ele pode se isolar das outras crianças
Quando se lê muito, você acaba aprendendo um monte de coisas que ainda podem ser uma incógnita para as outras crianças, o que deixa o pequeno leitor à um nível acima da maioria.

Enquanto a leitura era introduzida para a minha sala do quinto ano, eu já lia títulos aconselhados para o primeiro ano do ensino médio. E enquanto os outros alunos faziam exercícios de interpretação de texto, eu já tentava interpretar a minha própria compreensão humana. Esse desnível causava um isolamento natural, que gerava longas discussões nos conselhos de classe do colégio.

Ele pode não se importar em ficar sozinho
Possuindo o hábito da leitura, realmente não me incomodava em passar longos períodos sozinho. E mesmo em ambientes tumultuados, eu costumava procurava lugares escondidos para que eu pudesse ler em paz.

A solidão é uma posição natural para as crianças que gostam de ler, já que, com um livro em mãos, elas nunca estão verdadeiramente sozinhas. Sempre estarão acompanhadas pelas personagens das suas histórias favoritas.

Ele pode falar coisas surpreendentes
Uma leitura voraz contribui muito para o nosso vocabulário, o que deixa as línguas dessas crianças tão afiadas quanto as suas mentes. Numa hora você terá que se acostumar com as crianças dizendo e sabendo coisas que até então você considerava precoce demais para a idade delas.
Ainda me lembro de ver a cara de espanto dos adultos quando me viam citar a cronologia da Segunda Guerra Mundial, quando muitos nem sabiam distinguir os países aliados e os do eixo.

A rotina básica do dia pode vir a ser um desafio
Mesmo quando eu não estava fisicamente lendo, a minha cabeça sempre estava parcialmente imersa na minha leitura atual. E digamos que esse fator costuma prejudicar a nossa concentração para as coisas simples do dia-a-dia, sendo natural esquecermos coisas e tarefas com uma frequência fora do comum. A todo instante eu esperava voltar para o meu livro em vez de prestar atenção nas coisas ao meu redor.

Você vai encontrá-lo lendo em horários estranhos
Toda criança leitora conhece o truque de ler com a lanterna sob as cobertas. E é provável que ela tenha muitas outras artimanhas para ler um pouco além do horário que lhe foi estipulado pelos pais.

É necessário compreender que nessa idade a leitura é uma descoberta eterna, e a oportunidade de absorver todo esse saber com a mente curiosa de uma criança, é uma experiência com prazo de validade bem definido. Deixa o pequeno aproveitar enquanto pode.

Livros de gênero infantil ganham mais espaço no mercado brasileiro

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Os livros infantis têm papel fundamental na formação das crianças e ajudam inclusive no processo de alfabetização - ELZA FIÚZA/AGÊNCIA BRASIL

Os livros infantis têm papel fundamental na formação das crianças e ajudam inclusive no processo de alfabetização – ELZA FIÚZA/AGÊNCIA BRASIL

 

Publicado no Jornal Cruzeiro do Sul

Dados do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel) mostram que o crescimento de vendas do gênero infantil em 2016, em relação a 2015, foi de 28%. Nesse mesmo período, o mercado geral de livros caiu 9,7%. Os dados tratam dos livros vendidos no varejo, em livrarias, e foram levantados a pedido da Agência Brasil. Nesta terça-feira (18) é comemorado o Dia Nacional do Livro Infantil, data escolhida em homenagem ao escritor brasileiro Monteiro Lobato, que nasceu neste dia, em 1882.

A empresária Flávia Oliveira, 31 anos, é uma das compradoras. Ela apresentou os livros à filha, Bruna, de 3 anos, desde cedo, antes mesmo de completar 1 ano. Eram livros de páginas mais duras e com imagens que faziam parte do cotidiano. “Como ela ia muito ao zoológico, comprávamos livros com ilustrações de animais, nos quais ela identificava coisas que faziam parte do universo dela”.

Segundo Flávia, após ouvir várias vezes a mesma história, Bruna se senta com as bonecas em círculo e conta para elas o que ouviu e o que criou a partir do livro. “Eu acho que se a gente quiser que ela tenha esse interesse por livros quando for maior, tem que criar hábito desde criança, para que seja algo prazeroso. Eu não tive isso. Quando entrei na escola, achava os livros muito maçantes. Eu queria que a leitura trouxesse algo prazeroso para ela”, diz.

Embora as vendas tenham aumentado, as obras infantis ainda representam fatia pequena do mercado nacional de livros, 2,8% em 2016 – um aumento em relação aos 2% registrados em 2015.

“É muito importante saber que esses livros tiveram um crescimento, pequeno, mas significativo”, diz a secretária-geral da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Elizabeth D’Angelo Serra. Para ela, os dados, que mostram os livros comprados em livraria, não refletem no entanto todo o acesso das crianças, que ocorre pela escola. As compras das escolas públicas, como não ocorrem no varejo, não entram no cálculo.

“Se pensarmos na maioria das crianças do país, sem dúvida o acesso a livros infantis se dá na escola. Muitas nunca tiveram isso nas próprias famílias, têm pais e mães analfabetos e semianalfabetos”.

Livros na escola

Nos lugares onde se tem acesso à literatura, os efeitos são positivos. Para Márcia Helena Gomes de Sousa Dias, professora do Centro de Educação Infantil (CEI) do Núcleo Bandeirante, região administrativa do Distrito Federal, os livros infantis têm papel fundamental na formação das crianças e ajudam inclusive no processo de alfabetização. A escola, além de ter momentos de leitura dos professores para os estudantes, incentiva as crianças e pegarem os livros, a inventarem histórias a partir das imagens. A intenção é que os livros estejam inseridos em todas as atividades, que se forem brincar, por exemplo, possam usá-los. E aprendam também a cuidar, a colocar no lugar depois de usar.

Os livros, de acordo com Márcia, servem para que as crianças se familiarizem com as letras: “As crianças têm primeiro o trabalho visual. Começam a perceber nos livros de história que algumas letras fazem parte do nome dela, dos pais ou de colegas. É uma pré-alfabetização. Fazem sempre essa conexão, de figuras com letras e depois de letras som, quando lemos para elas”.

Além de trabalhar a literatura na própria sala de aula, as escolas podem servir de incentivo para que a leitura chegue à casa dos estudantes.

Um estudo da Universidade de Nova York, em colaboração com o IDados e o Instituto Alfa e Beto, divulgado no ano passado, mostrou um aumento de 14% no vocabulário e de 27% na memória de trabalho de crianças cujos pais leem para elas pelo menos dois livros por semana.

O estudo revelou ainda que a leitura frequente para as crianças leva à maior estimulação fonológica, o que é importante para a alfabetização, à maior estimulação cognitiva e a um aumento de 25% de crianças sem problemas de comportamento.

O estudo foi feito com base na experiência de Boa Vista (Acre), com o programa Família que Acolhe, voltado para a primeira infância, que acompanha as crianças desde a gravidez até os 6 anos de idade.

A leitura é um dos carro-chefe do programa, segundo a gestora das Casas Mães no município – espécie de escolas de educação infantil de tempo integral – do Núcleo Senador Helio Campos, Maria de Lourdes Vieira dos Santos. Cada criança escolhe, na escola, dois livros para levar para casa e ficar com eles pelos próximos 15 dias. Nesse período, devem elas mesmas manuseá-los e pedir que pais ou responsáveis leiam para elas. “A leitura é importante porque, além de aproximar os pais da criança, que têm esse tempo proveitoso junto ao filho, ajuda a criança a desenvolver a oralidade, a mudar o repertório de palavras. Trabalha também o imaginário e a fantasia por meio das histórias que são contadas”, diz.

Faltam livros

Dados do último Censo Escolar, de 2016, mostram que 50,5% das escolas de educação básica têm biblioteca e/ou sala de leitura (esse percentual é de 53,7% para as que oferecem ensino fundamental e de 88,3% no ensino médio). O Brasil tem até 2020 para cumprir a meta de universalizar esses espaços, prevista na Lei 12.244. A legislação, sancionada em 24 de maio de 2010, obriga todos os gestores a providenciar um acervo de, no mínimo, um livro para cada aluno matriculado, tanto na rede pública quanto privada.

A realidade do ensino fundamental e médio se estende ao ensino infantil público, segundo a vice-presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Manuelina Martins da Silva Arantes Cabral, dirigente municipal de Costa Rica (MS). Ela estima que metade das escolas tenha pelo menos o mínimo de um livro por estudante. “E um livro ainda é pouco, porque os livros, se utilizados, vão se gastando. Além disso, para as escolas envolverem as famílias, precisam que os estudantes levem livros para casa, o que vai demandar mais de um livro”.

Segundo ela, muitos municípios não têm condições de investir em livros e dependem de parcerias com o Ministério da Educação (MEC). Essa parceria se dá, principalmente, pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola, que investiu, até 2014, R$ 50,5 milhões em mais de 12 milhões de livros para mais de 5 milhões de crianças da creche e pré-escola. Depois, o investimento passou a ser feito no âmbito do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), programa criado em 2013 para alfabetizar as crianças até os 8 anos de idade. “O Brasil é imenso, tem localidade que tem condição de fazer um investimento, mas ainda temos municípios que não têm condição, porque livro no Brasil ainda é caro. A gente precisa dessa parceria com o MEC”.

Atualmente, o Brasil tem 64,5 mil creches, sendo a maior parte pública, da rede municipal (58,8%), enquanto 41% são privadas e 105,3 mil unidades com pré-escola, sendo 72,8% municipais e 26,3%, privadas. São mais de 8 milhões de matrículas até os 5 anos de idade. (Agência Brasil)

Escola de São Paulo estimula contato com a escrita aos 3 anos

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As crianças conhecem o formato das letras por meio de jogos

As crianças conhecem o formato das letras por meio de jogos

 

Colégio defende iniciação lúdica; crianças conhecem formato das letras em jogos, veem seu nome escrito no material e têm livros à disposição para folhear

Publicado no Estadão

Já aos 3 anos, as crianças do Colégio Jardim Anália Franco, na zona leste da capital paulista, são estimuladas a compreender a linguagem escrita. Conhecem o formato das letras em jogos, veem seu nome escrito no material e têm livros à disposição para folhear e observar. Muitos aos 5 anos já conseguem ler e escrever pequenas frases. “Mostramos o mundo da escrita sempre de maneira lúdica e sem pressão e elas vão progressivamente se alfabetizando. E não há nenhum problema quando esse processo acontece mais tarde aos 6 ou 7 anos”, diz a diretora, Nevinka Tomasich.

Ela ressalta que, antes da alfabetização, é importante que a escola estimule com brincadeiras outras habilidades, como a psicomotricidade, o controle dos movimentos, a maturidade. “Não adianta querer ensinar a escrever se ela ainda não consegue segurar um lápis. É preciso respeitar as etapas de aprendizado e o tempo de cada uma.”

Apesar de sua escola iniciar o processo já aos 3 anos, Nevinka admite ter receio de que o documento possa apressar demais a alfabetização. “Uma coisa é fazer de forma leve e sem pressão, outra é ter uma obrigatoriedade e as escolas iniciarem uma competição para ver quem faz mais rápido – e os pais entrarem nessa pressão.”

Para ela, o essencial da educação infantil é o tempo de brincadeira. “Muitas vivem em apartamento, ficam muito tempo no mundo digital. A escola é onde aprendem a socializar, correr, pular.”

‘É hora de uma revolta coletiva pela educação no Brasil’, diz educador António Nóvoa

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António Nóvoa, reitor honorário da Universidade de Lisboa Foto: Divulgação

António Nóvoa, reitor honorário da Universidade de Lisboa Foto: Divulgação

 

Cristine Gerk, no Extra

“Quem não sai do lugar não se educa”. Inspirado nesse lema, António Nóvoa, reitor honorário da Universidade de Lisboa, viajou o mundo ensinando e aprendendo sobre a missão das escolas. Em visita ao Brasil para o lançamento do Prêmio Itaú-Unicef, Nóvoa, que é doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Genebra (Suíça) e em História pela Sorbonne (França), criticou a proposta de escolas sem partido, defendeu a discussão sobre gênero e sexualidade nas aulas e convidou a população a se engajar em uma revolta coletiva pela educação pública no Brasil. Na entrevista a seguir, o professor convidado em Colúmbia (EUA), Oxford (Inglaterra) e Paris 5 defende ainda a maior interação entre professores de diferentes escolas e uma reforma na relação com os alunos, com ajuda da tecnologia. A convite do reitor da UFRJ, ele está ajudando a montar um complexo de formação de professores no Fundão que vai agrupar todas as licenciaturas em parceria com escolas da rede pública.

Como fortalecer o papel social da educação em um contexto violento, como o do Rio?

A escola depende mais do ambiente em que está inserida do que é capaz de transformá-lo. Quando uma nação é boa, sua escola é boa. Quando a nação é má, a escola não vai transformá-la em boa. Não ponham expectativa exagerada. Achar que a escola vai transformar o mundo é meio caminho andado para que ela não faça nada. Agora, ela tem um poder extraordinário, que é a capacidade de educar as crianças. Se conseguirmos espaços onde haja cultura do diálogo, da tolerância, da capacidade de conviver, podemos ganhar ali uma geração que depois pode transformar grande parte da sociedade. Já dizia o pedagogo francês Philippe Meirieu: “A escola ou a guerra civil”.

A escola integral tem mais potência neste sentido?

Sou por princípio contra a ideia filosófica da escola integral. Integral é a vida. A ideia de manter essas crianças na escola, quanto mais horas melhor, não me é simpática. Quero que a educação esteja na sociedade, nas famílias. Defendo a ideia do espaço público da educação, que a cidade seja educadora e a criança tenha outros espaços culturais, sociais. Mas tenho que reconhecer que há realidades sociais tão violentas, como a do Rio, onde é preciso ter escola integral. Quero proteger as crianças, mantê-las o máximo de tempo possível ali. É como as cotas: horríveis, mas necessárias.

Como manter as crianças concentradas e interessadas no mundo de dispersão e informação abundante da internet?

Não faz sentido imaginar uma escola fora da sociedade. É tão absurdo quanto no século 16, quando se tentou impedir a entrada de livros porque os alunos tinham que memorizar. No século 20, baniram os filmes, porque iam acabar com a moral. Hoje a forma de pensar, de se relacionar, é diferente. Se não percebermos isso, não há educação. É claro que não quero celular em sala para a criança fazer outras atividades, mas tenho que ser capaz de integrá-lo no trabalho pedagógico. A escola não é onde se vai assistir a aulas, mas onde todos vão, em conjunto, descobrir como trabalhar. O professor deve recorrer ao apoio dos alunos para se organizar nas dimensões digitais. Para isso precisamos de uma formação que não seja só interessada em ver o “negócio”, em decidir sobre quantas disciplinas, aulas, teoria curricular. Um bom modelo é o da Escola de Medicina da Universidade de Harvard. Acabaram com as aulas expositivas, não precisa, está tudo na internet. Organizam-se em torno de grandes problemas, relacionam-se com os hospitais, com médicos mais antigos, e aprendem nessa lógica de teoria, prática, reflexão, trabalho em conjunto. Há menos acúmulo de conhecimentos enciclopédicos e mais capacidade de pensar em determinada disciplina.

No Brasil, há uma discussão sobre a escola sem partido. O que acha da iniciativa?

Em certos meios sociais, tipicamente classes médias ou altas, e com fortes componentes religiosos, há essa ideia de proteger as crianças das misérias do mundo, da violência, da sexualidade, das drogas. Essas ideias de fechamento em determinada cultura são o contrário do que eu quero na educação. Quem não sai do seu lugar cultural, territorial, religioso não se educa. Prefiro que as minhas crianças, que têm acesso a todas as informações, discutam isso com seus educadores, a serem deixadas soltas, sem capacidade de refletir. A educação é discutir sobre essas matérias. Não é ser doutrinário. Educar é tomar partido, sempre, e respeitar a diferença e a opinião do outro. É uma grande hipocrisia não se preocupar com as crianças que convivem com violência. A maneira de proteger as crianças é conversar com elas. Os professores têm direto às suas ideias, como os alunos, pais, isso é democracia. Escola é diversidade, liberdade, diálogo.

Como você vê os métodos atuais de avaliação das escolas?

Esses indicadores são pobres, mas são úteis, precisam ser usados para melhorias, não para fazer ranking e punir. Mas não posso deixar de me indignar ao ver os alunos brasileiros na situação em que estão. Tem que haver uma revolta coletiva, de todos os partidos, de uma geração que diga “não aceitamos mais que a escola pública brasileira continue assim”. A pessoa acha a escola pública ruim e leva o filho para a particular. Isto não basta. Os pais não se interessam, as crianças são pobres, há fome, tudo é verdade, mas são elementos para compreendermos e agirmos melhor, não para justificarmos. Precisamos das coisas básicas: que as escolas abram todo dia, que os prédios estejam bem cuidados, que os professores tenham salários dignos. Não vale a pena muita teoria sem o básico, que inclui leitura, escrita, interpretação do mundo, diálogo.

Qual o papel do professor na vida dos estudantes e como a formação deve direcioná-lo?

Estou construindo um complexo de formação de professores na UFRJ, a convite do reitor. A ideia é fazer o que se faz num hospital universitário. Naquele complexo se integrarão todas as licenciaturas, ligadas às escolas públicas, para que haja diálogo constante entre elas. Vamos falar com o município. Isso existe em poucos lugares do mundo, a UFRJ será referência. Há um espaço sendo construído no Fundão. Os professores precisam trabalhar em conjunto, conhecer o que se faz em outras escolas.

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