”’A Peste”’, de Albert Camus, vira best-seller em meio à pandemia de coronavírus

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Livros de ficção que se passam em situações de epidemias ou pandemias, como Ensaio Sobre a Cegueira 1995 , do português José Saramago, e de não-ficção que descrevem a disseminação de doenças no passado estão constantemente nas listas de mais vendido

Publicado no Folhago

Numa pequena cidade da costa argelina, na década de 1940, a vida dos habitantes segue sua rotina até que milhares de ratos começam a surgir do subterrâneo e morrer aos milhares. Logo as pessoas também começam a pegar a doença — e seu destino é, em muitos casos, o mesmo.

Essa narrativa, escrita em 1947 pelo franco-argelino Albert Camus, tem atraído muitos leitores em diversos países da Europa, em meio à pandemia de coronavírus.

Não só ela — livros de ficção que se passam em situações de epidemias ou pandemias, como “Ensaio Sobre a Cegueira” (1995), do português José Saramago, e de não-ficção que descrevem a disseminação de doenças no passado estão constantemente nas listas de mais vendidos.

No Brasil, isso ainda não está acontecendo. A editora Record, que publica a versão brasileira mais recente de “A Peste”, diz que ainda não viu aumento na procura. A Livraria da Vila, uma das principais de São Paulo, informou à BBC que, por enquanto, não notou aumento nas vendas ou na procura por títulos do gênero.

“Encaramos com naturalidade que os europeus estejam procurando se informar por meio de obras com a temática, uma vez que a Europa já passou por grandes epidemias ao longo dos séculos e é uma das regiões mais atingidas pelo coronavírus. No entanto, a situação no Brasil é distinta e não há como prever os próximos cenários”, disse a administração da livraria, por e-mail.

A livraria afirma que, por ser um fenômeno recente no Brasil, ainda não está preparando ações específicas, como pedidos às editoras de livros sobre o tema, mas pode recomendar alguns livros, como “História da Humanidade Contada Pelo Vírus”, de Stefan Cunha Ujvari; “Cidade Febril- Cortiços e epidemias na corte imperial”, de Sidney Chalahoub e “Peste e Cólera”, de Patrick Deville.

A BBC procurou outras grandes livrarias, como Cultura, Travessa e Martins Fontes, mas não teve resposta.

Se não no Brasil, esses livros estão vendendo mais? Do que tratam? O que têm a ver com a realidade do surto de coronavírus? Que lições nos oferecem sobre como lidar com o surto? Por que as pessoas buscam esses livros?

Na opinião do pesquisador de Camus Raphael Luiz de Araújo, doutor em letras pela Universidade de São Paulo e tradutor de Os primeiros Cadernos de Albert Camus, “diante da doença precisamos nos repensar — quem somos, o que estamos enfrentando. Por falarem da condição humana (esses livros ganham interesse)”.

Além disso, pensa ele, serve como um espelho e uma maneira de não nos sentirmos sozinhos em meio à incerteza da epidemia. “E é também uma forma de buscar esclarecimento, tem um potencial didático, que é pensar como foi para pessoas que viveram e pensaram nisso”, palpita Araújo.

“É uma busca por dar forma à experiência, o que o (crítico) Antonio Candido chamava de fabulação. A Peste e outros clássicos trazem explicações de princípios sem que a gente entre na religião, oferecem caminhos para a nossa busca ética”, resume ele.

A peste

O romance “A Peste” foi publicado em 1947, pouco após o fim da Segunda Guerra Mundial, e conta a história da chegada de uma epidemia à cidade argelina de Orã. O personagem principal é um médico, Rieux, que combate a doença até o momento em que ela se dissipa, depois de muitas mortes. O narrador descreve como a população reage, indo da apatia à ação, e como alguns se expõem a risco para enfrentar a disseminação da peste. Há aproveitadores, como um personagem que lucra com um mercado paralelo de produtos. Num primeiro momento, as autoridades hesitam em publicizar a doença, algo que Camus veria de forma crítica, diz Araújo — sua obra sempre volta ao tema da importância de nomear as coisas.

Nos anos 1940, diz Araújo, Camus vinha pesquisando sobre como se deram algumas epidemias na Argélia e na Europa. Ele próprio sofrera com doenças, a tuberculose, e privações, por ser de uma família argelina pobre.

Logo após sua publicação, o livro foi lido como uma analogia sobre a ocupação alemã em Paris durante a Segunda Guerra, em parte por causa da epígrafe do livro, uma frase do escritor Daniel Defoe: “É tão válido representar um modo de aprisionamento por outro quanto representar qualquer coisa que de fato existe por alguma coisa que não existe”. Araújo lembra que, numa carta a Roland Barthes de 1955, Camus afirma que a obra descreve “a luta da resistência europeia contra o nazismo”.

Araújo aponta alguns paralelos com o momento atual: “a questão do conhecimento. Vivemos um momento em que há desinformação, fatos vêm sendo contestados. Em “A Peste” há um cuidado de mostrar as coisas como são de fato. O livro fala que existe (na história) um problema de abstração. A desinformação, a abstração, geram histeria, comportamentos levianos ou xenofóbicos, como temos visto”, interpreta ele.

Outra coincidência é a questão de burocratização das informações sobre as mortes, que pode gerar certa desumanização dos casos, opina ele. Na ficção, o número de mortes é anunciado diariamente numa rádio. Por outro lado, o narrador descreve algumas das mortes, o que faz o leitor senti-las de uma forma mais direta.

Para Araújo, uma lição a ser tirada do romance é a do reconhecimento da coletividade. A cidade passa a se reconhecer como um grupo em sua luta contra a doença. “Neste momento em que temos divisões muito marcadas no Brasil, é um convite a pensar sobre nós como coletivo. O que atravessarmos vamos atravessar juntos. Não é ‘cada um que se salve’. Como diz o Camus, a peste vira assunto de todos. Os problemas que nos atingem são de todos, não é só de quem apoia um ou outro governo. Ninguém está acima de ninguém”, diz o acadêmico.

Livros que estão vendendo bem

Na França, as vendas de “A Peste” chegaram a mais que dobrar nas primeiras oito semanas de 2020, comparado ao mesmo período de 2019, segundo a publicação de estatísticas de mercado editorial Edistat. O país registrava 30 mortes pelo vírus até terça-feira.

Na Itália, o segundo país mais impactado pelo vírus depois da China, o aumento de vendas colocou o romance na lista dos dez mais vendidos, segundo a revista literária francesa Actuallité.

Todo o país está sob medidas de emergência, determinadas pelo governo, para conter a contaminação da população pelo vírus.

A Amazon italiana tem entre seus 100 livros mais vendidos diversos exemplos de narrativas de ficção e não-ficção sobre epidemias, como “Virus, La Grande Sfida” (Vírus, o grande desafio, em tradução livre), do virologista Roberto Burioni. O livro, segundo a sinopse, “descreve a natureza e o funcionamento dos vírus, sua transmissão de animais para seres humanos, a evolução de nosso conhecimento científico sobre ele, os efeitos devastadores das epidemias na história da humanidade e as batalhas travadas no último século contra elas”.

“Ensaio sobre a Cegueira”, do romancista português José Saramago, também anda nos altos postos da lista. O livro conta a história de uma “treva branca” que vai deixando cegos, um a um, os habitantes de uma cidade.

No Reino Unido, leitores também vêm procurando “A Peste”, que deve ser reimpresso pela editora Penguin, já que já quase não há mais exemplares em estoque na Amazon.

O livro “The Great Influenza: The Story of the Deadliest Pandemic in History” (A grande gripe: a história da pandemia mais mortal da história, em tradução livre) estava entre os 100 mais lidos na versão britânica do site.

A narrativa de não ficção fala sobre “o vírus da gripe mais letal da história”, segundo a sinopse. “No auge da Primeira Guerra Mundial, irrompeu em um acampamento do exército no Kansas, expandiu para o leste com tropas americanas e depois explodiu, matando até 100 milhões de pessoas em todo o mundo. Matou mais pessoas em 24 meses do que a AIDS matou em 24 anos, mais em um ano do que a Peste Negra matou em um século.”

“Como o autor sabia?”

“Não costumo ler esse tipo de livro, mas tive que lê-lo porque estamos 2020 e no meio do avanço do coronavírus. Como o autor sabia?”, se pergunta um leitor no site britânico da Amazon sobre o romance The Eyes of Darkness (Os olhos da escuridão, em tradução livre), de 1981, escrito pelo americano Dean Koontz.

Assim como ele, muitos se perguntaram, em redes sociais, se o autor havia “previsto” a expansão da doença. Koontz de fato descreve no livro um vírus fictício que se chama “Wuhan-400” e cujo nome refere-se à cidade chinesa onde começou o surto de coronavírus. No entanto, o vírus, no romance fictício, é uma arma biológica da China, desenvolvida em laboratório, e não um micróbio que se espalha espontaneamente pelo mundo. Além disso, o vírus do livro é mais letal e se espalha mais rapidamente.

Em sua primeira versão, publicada em 1981, o vírus fictício não vinha da China, mas sim da Rússia, e se chamava Gorki-400, segundo a agência de notícias Reuters. A segunda versão saiu em 1989.

Não apenas livros

O filme “Contágio” esteve entre os mais vistos nas plataformas iTunes e Google Play, algo que pode ser considerado um marco para um filme que não é estreia.

No enredo, Beth Emhoff (Gwyneth Paltrow) retorna ao Estado de Minnesota (Estados Unidos) após uma viagem de negócios em Hong Kong e começa a se sentir mal. Emhoff atribui seus sintomas ao fuso horário.

No entanto, dois dias depois ela morre, sem que os médicos encontrem a causa. Logo depois, outras pessoas começam a manifestar os mesmos sintomas e, logo, é desencadeada uma pandemia que as autoridades de saúde tentam conter.

Em menos de um mês, o número de mortos na história chega a 2,5 milhões nos EUA e 26 milhões em todo o mundo.

No momento de seu lançamento, alguns especialistas elogiaram a maneira como o filme refletia a situação de uma pandemia.

Mas o que a realidade do coronavírus chinês realmente tem em comum com a ficção do filme de Soderbergh?

Um tema comum é que ambos os vírus se originam na China e os morcegos parecem desempenhar um papel preponderante.

Especialistas da Organização Mundial da Saúde apontam que é muito provável que o novo coronavírus venha de morcegos. Eles estimam que ele teve que pular primeiro para um grupo de animais não identificado antes de poder infectar humanos.

O filme mostra imagens de cidades em quarentena, aeroportos fechados, profissionais de saúde com trajes especiais, pessoas com máscaras, cidades vazias, lojas fechadas… Essas cenas vêm se tornando mais comuns, com China e Itália sob medidas de emergência para conter a disseminação do vírus.

No filme, entretanto, a doença tem contágio mais rápido e é mais letal.

Na história, pesquisadores conseguem produzir e distribuir uma quantidade limitada de vacinas em apenas 90 dias.

A realidade do coronavírus é diferente, ainda que, diferentemente dos surtos de vírus anteriores em que as vacinas para proteger a população levavam anos para serem desenvolvidas, a busca por um medicamento para controlar a disseminação da pneumonia de Wuhan tenha começado poucas horas após a identificação do vírus.

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Feira do Livro de Paris é cancelada por surto de coronavírus

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Sindicato de editores seguiu proibição do governo de realizar eventos com mais de 5 mil pessoas em um espaço fechado.

Publicado na Folhago

A Feira do Livro de Paris, que deveria ocorrer neste mês, foi cancelada devido a medidas tomadas pelo governo francês para conter o surto de coronavírus, informou o sindicato de editores do país em um comunicado.

“Seguindo a decisão do governo de proibir qualquer reunião de mais de 5 mil pessoas em um espaço fechado, é com pesar que decidimos cancelar a edição de 2020 da Feira de Livros de Paris”, justificou o sindicato.

Até o momento, o coronavírus matou duas pessoas na França e infectou cerca de 130.

O Museu do Louvre não abriu para visitação no domingo (1º) e nesta segunda (2), depois dos funcionários decidirem em assembleia que não iria trabalhar.

Shows e gravações também foram cancelados

Não é só na França que atividades culturais foram canceladas por conta do vírus. As gravações do novo filme “Missão Impossível” foram interrompidas na Itália e o plano de filmar em Veneza foi adiado sem previsão de uma nova data.

A banda californiana Green Day estava com turnê marcada para Ásia em março, mas preferiu cancelar os shows que aconteceriam em Singapura, Tailândia, Filipinas, Taiwan, Hong Kong, Coreia do Sul e Japão.

O DJ brasileiro Alok também tinha um show marcado na China, mas cancelou a apresentação.

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Jude Law, Evanna Lynch e mais atores de Harry Potter participarão de primeiro audiolivro de Os Contos de Beedle, O Bardo

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Atores de Harry Potter participarão do primeiro audiolivro de Os Contos de Beedle, o Bardo, publicação derivada de Harry Potter – Divulgação/Warner Bros./Pottermore

 

Lançada em 2008, publicação faz parte do universo mágico da saga

Publicado no Exitoína

Quase doze anos após o seu lançamento, Os Contos de Beedle, o Bardo, livro de histórias que existe dentro da franquia Harry Potter, será lançado pela primeira vez em versão audiolivro.

A publicação foi introduzida em Harry Potter e as Relíquias da Morte e contém O Conto dos Três Irmãos, que deu origem à lenda dos três objetos pertencentes à Morte, responsável por todo o enredo do livro que encerrou a franquia.

Ao todo, o livro conta com cinco histórias, que são como os nossos contos de fada só que no mundo dos bruxos, e cada uma será lida por um ator da franquia mágica criada por J. K. Rowling.

Warwick Davis, que interpretou o professor de feitiços Fílio Flitwick, lerá O Bruxo e o Caldeirão Saltitante, onde um mago bondoso e amigo dos trouxas (as pessoas sem poderes mágicos), que usava o seu caldeirão mágico para fazer o bem, morre e deixa o artefato para o filho, que não é tão bom quanto o pai e acaba amaldiçoado.

A Fonte da Sorte será contado por Evanna Lynch, que deu vida à aluada Luna Lovegood, e revelará uma fonte mágica que atrai bruxos e trouxas de todo um reino a fim de superar os obstáculos até ela para conquistar a fortuna eterna.

Já O Coração Peludo do Mago, onde um bruxo atraente e poderoso despreza a “fraqueza” do amor e usa das artes das trevas para que nunca caia nessa falácia, ganhará a voz do vilão Lúcio Malfoy ou, melhor, do ator Jason Isaacs, que o interpretou na franquia.

A única filha do casal Molly e Arthur Weasley, Gina Weasley, foi interpretada por Bonnie Wright, que emprestará a sua voz ao conto Babbity, a Coelha e seu Toco Gargalhante, o mais longo de todo o livro, onde um rei decide manter toda a magia para si, mas acaba com dificuldades para que o seu desejo se conclua.

Por fim, O Conto dos Três Irmãos, a mais importante das histórias na publicação – e, até onde sabemos, a única real no mundos dos bruxo – será narrado por Noma Dumezweni, que não ficou conhecida pelos fãs dos filmes de Harry Potter, mas deu vida a Hermione Granger na peça Harry Potter e a Criança Amaldiçoada.

O livro ainda conta com uma introdução do professor Alvo Dumbledore, que será lida por Jude Law, o homem por trás do personagem na franquia Animais Fantásticos, derivada de Harry Potter. Confira o trailer do lançamento.

s Contos de Beedle, o Bardo foi escrito por J. K. Rowling em 2007 e apenas sete cópias foram disponibilizadas inicialmente, todas escritas à mão e com acabamento especial, que tiveram o objetivo de arrecadar fundos para instituições de caridade. Apenas no ano seguinte, em 2008, o livro foi publicado oficialmente.

O audiolivro estará disponível, em inglês, a partir do próximo dia 31 de março na Audible, plataforma de streaming de audiolivros da Amazon, pelo valor de 14,95 dólares.

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Novas edições de ‘Mulherzinhas’ chegam ao mercado editorial brasileiro

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Foto: Wilson Webb/Columbia Pictures

Publicado no Diário de Pernambuco

O romance Mulherzinhas tem muito mais do que as sete vidas do gato de Beth, é resistente igual à força de vontade de Jô em se tornar escritora, bonito igual os desenhos de Amy e instrutivo como os ensinamentos de Meg. Desde que foi publicada, em 1868, a história das quatro filhas do Dr. March criadas pela escritora Louisa May Alcott conheceu o topo das listas de vendas de livros. Foi assim no final do século 19 e em outros momentos, especialmente quando novas adaptações para filmes chegam aos cinemas. E já foram algumas. Em 1994, Winona Ryder interpretou Jô em longa de Gillian Armstrong e, em 1987, as irmãs deram vida a uma animação japonesa. As quatro irmãs, de 1933, tem Katharine Hepburn no papel de Jô e Elizabeth Taylor viveu Amy em Quatro destinos, de 1949. No Brasil, o livro virou série realizada pela TV Tupi em 1959. Agora, o romance chega novamente às listas de mais vendidos graças ao Adoráveis mulheres de Greta Gerwig.

O filme ajudou a arejar o livro, que está entre os mais vendidos dos sites e ganhou pelo menos quatro novas versões no mercado editorial brasileiro. Para quem não leu, é um bom momento para selecionar uma edição e mergulhar no texto delicado e cativante de Louisa May Alcott. Para quem já leu, vale dar uma olhada nos prefácios, análises e ilustrações que acompanham as novas edições.

Uma das mais bonitas é a da Martin Claret, editada em capa dura, embora a recém-lançada pela Penguin Companhia seja a mais completa. Nesta última, em um prefácio surpreendente, a compositora e poeta Patti Smith conta como o livro foi importante para ela. “Talvez nenhum outro livro tenha sido um maior guia para mim”, revela. “Muitos livros maravilhoso me fascinaram, mas, com Mulherzinhas, algo extraordinário aconteceu. Eu me reconheci, como num espelho, naquela menina comprida e teimosa que disputava corridas, rasgava as saias subindo nas árvores, falava gírias e denunciava as afetações sociais”, continua.

No livro, quatro irmãs de classe média baixa tentam se equilibrar entre a escassez, os perigos de uma guerra civil e a ausência do pai, convocado para trabalhar no campo de batalha. Cada uma tem personalidade muito própria e o grande segredo da convivência de temperamentos e aspirações tão diferentes é o amor e a admiração que cultivam entre elas. Amy, a mais nova, é sonhadora e talentosa com o bloco de desenho, enquanto Beth, frágil de saúde, se dedica ao piano e ao voluntariado. Meg, a mais velha, trabalha como professora e Jô é a força que se debruça sobre a escrita.

Mulherzinhas, em muitos aspectos, pode parecer um pouco antiquado hoje por pregar valores cristãos e um tanto maniqueístas, mas ainda é considerado um libelo feminista de uma escritora muito à frente de seu tempo. “A autora é uma feminista progressista numa sociedade ainda mais retrógrada e machista do que a nossa atual, e coloca suas mulheres como protagonistas absolutas de uma história com enorme força feminina, questionamento de liberdades e ternura. O livro é atemporal justamente por tratar de dores, desilusões, valores, angústias, amores, aprendizados, aventuras, desafios com os quais todos conseguem se identificar de certa maneira“, aponta Maryanne Linz, tradutora da edição da José Olympio.

Jô, vista por muitos como um alter ego de Louisa May Alcott, é o avanço em pessoa para aquele final de século 19: escreve para um jornal, não quer casar ou ter filhos, corta os longos cabelos para doar o dinheiro da venda aos necessitados e passa longe das convenções sociais. Louisa foi enfermeira durante a guerra civil dos Estados Unidos e evitou o casamento o quanto pôde. Filha de um educador intelectual cujo círculo de amizades incluía os autores e pensadores Henry David Thoreau, Nathaniel Hawthorne e Ralph Waldo Emerson, cresceu rodeada por ideias nada convencionais para a época. Mulherzinhas foi um sucesso quando publicado e estimulou a autora a escrever uma sequência, publicada originalmente como Good wives.

Boa parte das edições brasileiras trazem os dois volumes, ambos sob o título de Mulherzinhas. Julia Romeu, tradutora da edição da Penguin, vê na história das irmãs uma lição importante. “Ele (o romance) diz que nós precisamos lidar com as decepções da vida. Tem um capítulo no qual Jo, Meg, Beth, Amy e Laurie dizem quais são os seus castelos no ar. Nenhum deles consegue exatamente o que quer, mas eles aprendem a ser felizes com o que têm”, repara.

Para Julia, o maior desafio da tradução do romance consistiu em escolher cuidadosamente o vocabulário. Como o livro data do fim do século 19, não poderia ser moderno demais. “Tinha de ser equilibrado com o fato de que as meninas falam de maneira muito natural, nada empolada. Jô até é criticada pelas irmãs por usar várias gírias. O desafio foi encontrar esse equilíbrio”, explica. Maryanne Linz conta que encontrar o tom certo para um clássico responsável por arrebatar milhões de leitores pelo mundo foi bastante difícil. Todo trabalho de tradução, ela lembra, exige adequação ao tom do texto original e ao público ao qual se destina. “Mas, num clássico como esse é preciso ainda mais cuidado para que o original seja respeitado”, garante. O “desconfiômetro” do tradutor, ela diz, precisa estar afiado e pronto para a pesquisa porque, às vezes, ele vai se deparar com costumes, comportamentos e até mesmo objetos que sequer existem mais.

A escritora Carina Rissi, autora da série Perdida e sucesso entre adolescentes, descobriu o romance depois de assistir ao filme com Winona Ryder, nos anos 1990. Do filme, foi para o livro. “O grande brilho do livro é que é uma história atemporal. O mundo evoluiu tanto, mas, em certos aspectos, pelo menos na luta feminina, a gente parece patinar nas mesmas dificuldades. E acho tão lindo essa briga da Jô de querer ser escritora: uma mulher que tenta seguir um caminho diferente sempre encontra dificuldade. Acho muito legal isso de serem quatro mulheres com personalidades distintas. Não existe uma maneira certa de ser mulher”, diz a escritora, que assina a orelha do livro da edição da José Olympio.

O que há de tão atraente no romance?
Os personagens são muito reais, o que faz com que a gente consiga se identificar com eles. Além disso, é um livro que consegue fazer rir, fazer chorar e fazer refletir, ora sendo leve, ora profundo. Isso é muito raro e muito especial.

O que ainda é atual em Mulherzinhas para atrair os leitores no século 21?
O livro fala sobre o processo de amadurecimento de quatro meninas (e de um menino também, pois Laurie é um personagem quase tão importante quanto as irmãs). Esse amadurecimento envolve aprender a admitir erros, a lutar contra vícios, a fazer sacrifícios. Isso faz parte da vida de todo mundo e acho que nunca vai deixar de ser um tema relevante.

O que mais te chamou a atenção na maneira como Louisa May Alcott desenvolve a narrativa?
Acho que há uma diferença entre a primeira e a segunda partes do livro. Na primeira, os capítulos existem de maneira mais independente uns dos outros, com cada um relatando um episódio na vida das irmãs. Na segunda, os capítulos formam um todo mais coeso que desenvolve o tema do amadurecimento. Embora a segunda parte deixe uma impressão profunda, eu acho a primeira mais cativante, talvez por ser mais leve e ter tantas cenas memoráveis.

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Livro de terror escrito há 40 anos previu epidemia de coronavírus em Wuhan?

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No livro “The Eyes of Darkness”, lançado em 1981, o autor Dean Koontz relata como um vírus ficcional, o Wuhan-400, se propaga pelo mundo inteiro em 2020 com uma taxa de mortalidade de 100%

Maria Barbosa, no Observador

As coincidências entre o livro “The Eyes of Darkness” (Os olhos da Escuridão, em português) lançado em 1981 pelo escritor Dean Koontz, e a epidemia do coronavírus, que já matou quase duas mil e oitocentas pessoas na China, estão a intrigar os internautas. Um dos primeiros a dar-se conta das coincidência foi o utilizador @DarrenPlymouth. Desde que fez um post no Twitter com a página do livro de Koontz , a publicação recebeu, em poucas horas, quase dois mil gostos e inúmeros comentários.

No livro, o autor americano especializado em livros de terror, descreve uma arma biológica, a que deu o nome de “Wuhan-400”, e que segundo o guião, foi desenvolvida num laboratório secreto perto de Wuhan, justamente a cidade que apresentou os primeiros casos da epidemia que assola a China e já fez várias vítimas em outros países. Na historia ficcionada, a mortalidade do “Wuhan 400” ronda os 100%, provocando a morte dos infetados em menos de 24 horas. Na realidade, os números são bem diferentes: o novo coronavírus (Covid 19) tirou a vida a 2,3% dos infetados, e mesmo em pessoas com mais de 80 anos a taxa não ultrapassa os 14,8%, de acordo com um estudo realizado pelo Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenças, citado pela BBC.


Mas há mais coincidências. Li Chen, o nome do cientista que no livro parte para os Estados Unidos com o micro-organismo e uma disquete com informações sobre a “mais importante e perigosa arma biológica da China”, é também o nome de um “verdadeiro” cientista chinês que já publicou estudos sobre a epidemia do coronavírus.

Apesar do conteúdo intrigante, “Eyes of Darkness” é um livro de terror que conta a história de Tina Evans, uma mãe que tenta descobrir o que realmente aconteceu ao seu filho Danny, depois de receber uma misteriosa mensagem a dar conta de que a a sua morte não passará de uma mentira. Por enquanto, e apesar de já ter sido contactado por vários fãs nas redes sociais, o autor optou por não fazer qualquer comentário sobre as coincidências da sua obra com a realidade.

Dean Koontz já vendeu 355 milhões de exemplares dos seus livros, um valor que aumenta mais de 17 milhões de exemplares por ano. Catorze dos seus romances alcançaram o primeiro lugar de vendas na lista de bestsellers do New York Times.

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