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Arno Wehling é eleito para a Academia Brasileira de Letras

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Arno Wehling, o novo imortal - Leo Martins / Agência O Globo

Arno Wehling, o novo imortal – Leo Martins / Agência O Globo

 

Historiador vai ocupar cadeira que pertenceu a Ferreira Gullar, morto em dezembro do ano passado

Publicado em O Globo

RIO – Foi uma semana agitadíssima para os padrões da instituição: no dia seguinte em que o ensaísta e escritor João Almino foi escolhido como imortal, uma nova eleição definiu o historiador Arno Wehling como integrante da Academia Brasileira de Letras. Mas se a escolha de Almino, único candidato à cadeira 22, que pertencia a Ivo Pitanguy, pareceu mais tranquila, a contenda da tarde de ontem na sede da instituição, no Centro do Rio, foi bastante apertada. Por 18 votos a 15, além de um voto em branco, o historiador e presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), venceu o poeta Antonio Cicero por 18 votos a 15 para a cadeira 37, que era de Ferreira Gullar. Houve um voto em branco. Votaram 23 acadêmicos presencialmente e 11 por cartas.

— Encaro esta notícia de duas maneiras. Além de ser uma valorização da instituição, e como historiador entendo que é fundamental para a constituição de um país a valorização das instituições, a entrada na ABL me permite o convívio com pessoas que admiro e respeito muitíssimo — declarou Wehling, que esperou o resultado da eleição em uma recepção na cobertura de um hotel em Ipanema, cercado de familiares e amigos, além dos imortais que surgiram depois da votação para prestigiá-lo. — As instituições culturais são as mais significativas de um país. Será uma oportunidade de colaborar com a vida cultural do país.

A eleição de Wehling dividiu duas espécies de alas não formais que existem na ABL. Uma é mais ligada aos poetas e romancistas, a chamada “ala literária”, reunida em favor do poeta carioca Antonio Cicero, que tentava a vaga pela segunda vez (a primeira, em que disputou com o sociólogo Francisco Weffort, terminou curiosamente empatada, o que é raro acontecer na Academia). A outra é a ala dos historiadores, da qual faz parte mais de uma dezena de imortais, todos integrantes do IHGB. Um deles é o historiador e africanista Alberto da Costa e Silva, um dos principais partidários da candidatura de Arno Wehling:

— A Academia ganha muito com a presença de um intelectual como ele — afirmou Costa e Silva assim que o resultado foi anunciado, tomando o telefone para parabenizar o amigo: “Fique tranquilo que estava ganho” — disse a Wehling.

“A ESPERA DE CiCERO NÃO SERÁ EM VÃO”

A acadêmica Nélida Piñon, amiga de Cicero, manifestou-se:

— Ele será muito bem-vindo. A presença dele reforça e enriquece a presença do IHGB na academia. Arno, sem duvida, é um notável. Os dois candidatos eram excelentes, e a espera de Cicero não será em vão. É o destino natural de um homem daquela envergadura ser parte da ABL — disse Nélida, que também compareceu à recepção de Arno.

Ex-presidente da ABL, Marco Antonio Villaça também frisou a aliança que formou-se entre o IHGB e a ABL:

— Arno é um escritor com obra importante, e que tem uma constância na relação com outros escritores, o que é muito importante para a Academia. O IHGB e a ABL mantêm o sentido antropológico de cultura, como sempre quis Machado de Assis.

Natural do Rio, Arno Wehling tem 70 anos e é formado em História pela antiga Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil e em Direito pela Universidade Santa Úrsula. É ainda Doutor em História pela Universidade de São Paulo, e tem pós-doutorado na Universidade do Porto, em Portugal. Especializado em teoria e metodologia da História, história do Brasil Colônia e história do Direito brasileiro, ele é professor da UFRJ e da UniRio. Integra o IHGB desde 1976, e tem mais de dez livros publicados na sua área de pesquisa.

— Será um prazer conviver e descobrir de que forma Arno contribuirá com a instituição — declarou a acadêmica Ana Maria Machado.

Os ocupantes anteriores da cadeira 37, que antecederam Arno Wehling, foram Silva Ramos, fundador, que escolheu como patrono da posição o escritor Tomás Antônio Gonzaga, Alcântara Machado, Getulio Vargas, Assis Chateaubriand, João Cabral de Mello Neto e Ivan Junqueira.

Divulgada a programação completa da Flip

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Evento literário em Paraty acontece entre 3 e 7 de julho
Edição deste ano terá mais convidados de fora do mundo literário, diz curador
O polêmico escritor francês Michel Houellebecq é um dos destaques

A programação da Flip foi divulgada na manhã desta quinta-feira Marcelo Piu - 23.09.2012 / O Globo

A programação da Flip foi divulgada na manhã desta quinta-feira Marcelo Piu – 23.09.2012 / O Globo

Mauricio Meirelles, em O Globo

RIO – Mais do que antes, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece entre os dias 3 e 7 de julho e vai homenagear os 60 anos de Graciliano Ramos, terá convidados de fora do mundo literário, anunciou nesta quinta-feira a organização do evento. A programação completa foi divulgada nesta manhã, em entrevista coletiva.

— Ter pessoas de fora da literatura não é uma novidade, mas acho que nesta edição essa característica fica mais marcada — disse Miguel Conde, curador da Flip. — Este ano, quisemos participantes que exploram os limites do discurso literário, seja em diálogo, por exemplo, com a poesia ou a pesquisa histórica. São os autores mais interessantes que li nos últimos anos.

É o caso do crítico de arquitetura da revista “New Yorker” Paul Goldberger, que vai debater com o arquiteto português Eduardo Souto de Moura, vencedor do Prêmio Pritzker em 2011, considerado o Nobel da área. Também da cantora Maria Bethânia, que participa de um recital em homenagem ao poeta português Fernando Pessoa, junto da professora Cleonice Berardinelli.

Na área do cinema, o destaque é o aniversário de 80 anos do documentarista Eduardo Coutinho, que participa sozinho de uma mesa no dia 6 de julho, sábado. A outra mesa sobre a sétima arte traz um velho conhecedor da obra de Graciliano Ramos: o cineasta e imortal da Academia Brasileira de Letras Nelson Pereira dos Santos, que dirigiu “Vidas secas”, baseado no livro do autor homenageado.

Outro nome forte fora da literatura é o historiador de arte T. J. Clark. Ele vai falar sobre o quadro “Guernica”, de Picasso.

Sábado é dia dos medalhões estrangeiros

Sábado, 6 de julho, promete ser um dos dias mais disputados da tenda dos autores da Flip. Nesse dia, está o polêmico autor francês Michel Houellebecq, autor de “O mapa e o território”, lançado no Brasil pela Record. Há duas edições, ele confirmou participação, mas cancelou em cima da hora.

No mesmo dia, está a autora americana Lydia Davis, que ganhou na última quarta-feira o Man Booker Prize, um dos principais prêmios literários do mundo. Ela divide a mesa com o inglês John Banville, autor de “Luz antiga”, que a Globo Livros lança dia 8 de junho. Banville era um velho convidado, mas nunca tinha vindo.

Depois do sucesso do poeta sírio Adonis ano passado, a Flip aposta em outro poeta árabe: Tamim Al-Barghouti, autor egípcio-palestino conhecido por sua atuação na Primavera Árabe. Ele participa de mesa no último dia, 7 de julho.

Novos nomes da poesia brasileira confirmados

Três dos nomes mais elogiados da poesia brasileira contemporânea consolidam seu reconhecimento com o convite para a Flip. É o caso da mineira Ana Martins Marques, autora de “A arte das armadilhas” (Companhia das Letras), que divide a mesa, no dia 4 de julho, quinta-feira, com as poetas Alice Sant’Anna e Bruna Beber.

Entres os nomes da nova geração, estão os romancistas Daniel Galera, José Luiz dos Passos e Paulo Scott. Daniel escreveu o livro “Barba ensopada de sangue” (Companhia das Letras) e José é autor de “O sonâmbulo amador” (Objetiva), ambos elogiados pela crítica ano passado. Paulo Scott é autor de “O habitante irreal” (Objetiva), lançado no final de 2011, que também foi bem recebido.

Diretor da Flip reclama dos preços abusivos dos hotéis

O diretor-geral do festival, Mauro Munhoz, reclamou dos preços abusivos dos hotéis na cidade durante o evento.

— Tentamos, desde a primeira edição, conscientizar os empresários locais para não cobrar tão caro. Se não tivéssemos esse trabalho, estaria muito pior a situação. Com os preços cobrados, não é como se eles matassem a galinha de ovos de ouro, mas a maltratassem — afirma Mauro. — Acho que seria o momento de o Ministério do Turismo e a secretaria estadual de turismo fazerem um trabalho.

Os hotéis caros não são a única causa da subida no orçamento da Flip ao longo dos últimos anos. Este ano, ele será R$ 8,6 milhões, quase o mesmo do ano passado (R$ 8,4 milhões) e maior que 2011 (R$ 6,8 milhões). Munhoz afirma que os equipamentos para eventos culturais, como tendas e equipamentos de som, subiram de preço acima da inflação nos últimos anos. Os ingressos para das tendas tiveram um reajuste.

Venda de ingressos começa em 10 de junho

Os ingressos para as conferências da Flip poderão ser adquiridos a partir das 10h do dia 10 de junho, pelo site Ingresso Rápido, em pontos de venda indicados no mesmo endereço e pelo telefone (4003-1212). A partir das 9h do dia 3 de julho, a venda acontece apenas na bilheteria oficial da Flip, em Paraty. As entradas para as mesas realizadas na tenda dos autores custarão R$ 46. Para assistir à transmissão na tenda do telão, R$ 12, e para o show de abertura R$ 22 (pista) e R$ 46 (cadeira). Há limite de dois ingressos por pessoa de acordo com o CPF do comprador.

Veja a programação completa:

Quarta 3 de julho

19h – conferência
de abertura com Milton Hatoum
Graciliano Ramos:
aspereza do mundo e
concisão da linguagem

21h30m – show de abertura
Gilberto Gil

Quinta 4 de julho

10h – mesa 1
O dia a dia debaixo d’água
Alice Sant’Anna
Ana Martins Marques
Bruna Beber

12h – mesa 2
As medidas da história
Paul Goldberger
Eduardo Souto de Moura

14h30m – mesa Zé Kléber
Culturas locais e globais
Marina de Mello e Souza
Gilberto Gil

17h15m – mesa 3
Formas da derrota
José Luiz Passos
Paulo Scott

19h30m – mesa 4
Olhando de novo para Guernica, de Picasso
T. J. Clark

Sexta-feira 5 de julho

10h – mesa 5
Graciliano Ramos:
ficha política
Randal Johnson
Sergio Miceli
Dênis de Moraes

12h – mesa 6
O prazer do texto
Lila Azam Zanganeh
Francisco Bosco

15h – mesa 7
A vida moderna em Kafka e Baudelaire
Roberto Calasso
Jeanne Marie Gagnebin

17h15m – mesa 8
Ficção e confissão
Tobias Wolff
Karl Ove Knausgård

19h30m – mesa 9
Lendo Pessoa à beira-mar
Maria Bethânia
Cleonice Berardinelli

21h30m – mesa 10
Uma vida no cinema
Nelson Pereira dos Santos
Miúcha

Sábado 6 de julho

10h – mesa 11
Maus hábitos
Nicolas Behr
Zuca Sardan

12h – mesa 12
Encontro com Eduardo Coutinho

15h – mesa 13
O espelho da história
Aleksandar Hemon
Laurent Binet

17h15m – mesa 14
Os limites da prosa
John Banville
Lydia Davis

19h30m – mesa 15
Encontro com Michel Houellebecq

Domingo 7 de julho

11h – mesa 16
Graciliano Ramos: políticas da escrita
Wander Melo Miranda
Lourival Holanda
Erwin Torralbo Gimenez

13h – mesa 17
Tragédias no microscópio
Daniel Galera
Jérôme Ferrari

15h – mesa 18
Literatura e revolução
Tamim Al-Barghouti
Mamede Mustafa Jarouche

17h – mesa 19
A arte do ensaio
Geoff Dyer
John Jeremiah Sullivan

18h45m – mesa 20
Livro de cabeceira

A imortal baiana do candomblé

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Mãe Stella é a primeira ialorixá na Academia de Letras da Bahia

Os artigos de Mãe Stella para o jornal A Tarde são escritos à mão (Edson Ruiz)

Os artigos de Mãe Stella para o jornal A Tarde são escritos à mão (Edson Ruiz)

Cynara Menezes, na Carta Capital

Não sem espanto a mãe de santo Stella de Oxóssi recebeu a notícia de sua eleição, na quinta-feira 25, para a cadeira 33 da Academia de Letras da Bahia, lugar ocupado no passado pelo poeta Castro Alves. Ao contrário do hábito dos candidatos nesta e em outras praças, Stella não tinha feito campanha. “Levei um choque, pois é uma coisa que não é comum”, diz a ialorixá do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, primeira mãe de santo acadêmica do País. “Depois vi que foi a comunidade que proporcionou isso e achei uma recompensa.” A posse será em setembro e ela confessa não saber exatamente qual seu papel na Academia.

O título não é meramente honorífico. Mãe Stella publicou seis livros, bem mais do que alguns imortais da Academia Brasileira. Nascida Maria Stella Azevedo dos Santos, formou-se em Enfermagem pela Escola Bahiana de Medicina. Foi enfermeira durante 30 anos até ser escolhida, em 1976, mãe de santo do Ilê Axé Opô Afonjá, uma das casas de candomblé mais importantes e tradicionais do estado, fundada em 1910. O último de seus livros é uma antologia dos artigos publicados quinzenalmente no jornal A Tarde. Escreve à mão e suas “filhas” digitam o texto. “Sou analfabeta em computador.”

Na quinta-feira 2, a ialorixá completou 88 anos. Ela desce as escadas do sobrado onde vive com certo esforço, mas sem o apoio de ninguém. Por causa da dificuldade de locomoção, passa a maior parte do tempo no andar de cima da casa. Só desce para acompanhar a cerimônia de culto a Xangô, orixá da Justiça, às quartas-feiras, ou para receber visitas. Seu cérebro continua, porém, afiado. “Envelhecer é uma briga constante entre o que a mente pode e o corpo não deixa.”

A ialorixá tem o costume de assistir ao noticiário na televisão, ler jornal e revistas. “Gosto de saber das coisas. Se a gente não se informa, vira inocente útil.” Em suas colunas de jornal, conta histórias antigas, fala de espiritualidade, do candomblé e da atualidade. Em um dos textos mais recentes, criticou os sacerdotes que confundem religiosidade com fanatismo e aqueles que utilizam a religião como meio de enriquecimento, inclusive no próprio candomblé. “Alguns acham que o barato da religião é ficar rico baseado na crença alheia”, provoca. “Mas religião não é meio de vida.”

Bem informada, ela acompanha as polêmicas entre líderes evangélicos e homossexuais. O candomblé não é contra os gays e nele não existe a palavra pecado, explica. “Se Deus consentiu que existisse, quem pode ser contra a homossexualidade? Se é um assunto que não prejudica o outro, temos a obrigação de ser felizes.” Ela desmente, com bom humor, a crença frequente entre gays de que o orixá Logun-Edé seria homossexual, por aparecer na tradição como meio homem, meio mulher. “Logun-Edé foi morar com a avó Iemanjá e, como era o único homem no pedaço, passou a se vestir como as mulheres de lá. É mito que seja gay. Mas é um bom mito.”

Na Bahia, os seguidores do candomblé sofrem com o preconceito disseminado por pastores evangélicos, mas esse não é assunto do seu interesse. “Não tenho tempo para perder falando desse tipo de gente, para fazer guerra santa”, diz. “Porém, até Jesus, se fosse deste tempo, iria procurar a defesa dele, não ia sofrer calado.” Se a líder espiritual não fala, outros integrantes do terreiro estão atentos e participam das articulações políticas contra a intolerância religiosa. Mãe Stella lembra de quando Mãe Aninha, a fundadora do Opô Afonjá, foi ao Rio de Janeiro, em 1934, se queixar a Getúlio Vargas da proibição ao candomblé, e conseguiu. O Decreto 1.202 instituiu a liberdade de culto no País.

Tombado como Patrimônio Histórico em 1999, o Ilê Axê Opô Afonjá foi fundado por Mãe Aninha em uma enorme fazenda, que ocupava quase todo o atual bairro. Chamava-se Roça de São Gonçalo. Mãe Aninha, com medo de o terreno ser confiscado pela polícia, prática comum na época, foi ao cartório registrar a propriedade. Quando o funcionário perguntou “Em nome de quem?”, a mãe de santo respondeu: “Xangô”. Como não era possível, Mãe Aninha criou a Sociedade Cruz Santa do Ilê Axé Opô Afonjá, com ata, presidente e tudo o mais, em nome da qual as terras acabaram registradas.

“Ela era uma mulher de visão. Costumava dizer que queria ver todos os filhos a serviço de Xangô com anel no dedo, ou seja, formados”, conta Mãe Stella. Em honra à matriarca, a escola Eugênia Anna dos Santos funciona desde 1986 no terreiro. Atualmente, 350 crianças cursam o ensino fundamental. Além das aulas de matemática, português e demais disciplinas, elas aprendem história e cultura afro-brasileira, com noções da língua iorubá. Com o tempo, o terreno de Mãe Aninha foi invadido e se transformou em bairro. Na parte interna do terreiro, murado para evitar novas invasões, vivem atualmente cerca de cem famílias.

Mãe Stella é a quinta sucessora de Aninha. Depois da fundadora vieram Mãe Bada, Mãe Senhora e Mãe Ondina – a tradição do Opô Afonjá é de vitaliciedade e matriarcado. Stella, cuja mãe morreu quando tinha 7 anos, foi criada por um casal de tios, uma família de bens, “abastada”, como descreve. Seu tio era tabelião e a menina negra estudou em boas escolas da capital baiana. Aos 13 anos, foi iniciada no candomblé a partir da sugestão de uma conhecida. Nas biografias postadas na internet, diz-se que Stella apresentava então um “comportamento não esperado”. Pergunto o que era exatamente. Mediunidade?

“Que nada, era traquinagem. Eu, ao contrário das meninas da minha época, gostava de jogar bola na rua, subir no bonde. Além disso, falava sozinha, tinha meus amiguinhos que ninguém via. Aí alguém comentou: ‘Ela tem de fazer orixá’.” A menina foi levada, primeiro, ao terreiro do Gantois, onde esperou muito tempo e não foi atendida. A tia, brava, acabou por levá-la para “fazer orixá” no Opô Afonjá, com Mãe Senhora. “Mãe Menininha costumava dizer: ‘Você só não fez santo aqui por causa de um recado mal dado’.”

Tanto o Gantois quanto o Opô Afonjá sempre foram frequentados por artistas e políticos. O escritor Jorge Amado, o antropólogo Pierre Verger e o artista plástico Carybé costumavam ir até lá para a cerimônia ou simplesmente para bater papo com Mãe Stella. De Carybé ela recorda o jeito brincalhão. “Era um molequinho.” Ao lado de Verger, a mãe de santo conheceu o Benin, mas se encantou mesmo foi com a Nigéria, terra de seus ancestrais.

“A Nigéria é Salvador, o clima, os costumes, as árvores. Uma vez dormiram uns nigerianos aqui em casa, depois de viajar muitas horas e um deles, ao acordar, olhou pela janela e disse: ‘Andei tanto para saltar no mesmo lugar’”, gargalha. Sobre os políticos, fala que recebeu todos, de Antonio Carlos Magalhães a Jaques Wagner, mas prefere não dizer o nome de seu predileto, para não provocar ciúmes. Filha de Oxóssi, orixá caçador, Mãe Stella diz ter incorporado deste o hábito de não falar muito. “Caçador fica atento, não fala. Quem fala muito se perde. Os antigos diziam que quem fala muito dá bom dia a cavalo.” Ela adora provérbios, tema de um de seus livros. “Sou uma menina tímida.”

Sobre a morte, Mãe Stella conta que, no candomblé, o espírito vira ancestral. “Não vou dizer que não me importo de morrer. Me importo, sim. Não gosto de morrer porque gosto de viver.” E a sabedoria conquistada com o tempo, Mãe Stella, é verdade? “É uma obrigação. Se Deus deu esse privilégio de viver tantos anos, como não aproveitar? Agora, a gente está sempre aprendendo, ninguém é completamente sabido”, ensina. “Aprendo muito com os jovens e com as crianças. Eles têm cada saque tão interessante.”

dica do Sidnei Carvalho de Souza

Irmão de Jimi Hendrix lança livro sobre o guitarrista lendário

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Publicado no Jornal A Tribuna

Créditos: DivulgaçãoO irmão mais novo de Jimi, Leon Hendrix, soube da morte do guitarrista, em 1970, enquanto cumpria pena em Seattle por roubar uma fábrica de anfetaminas. Na mesma hora tocava no rádio, a música If 6 Was 9, de seu irmão mais velho. Leon viveu um grande pedaço da vida do irmão e decidiu descrever a infância ao lado maior de um dos maiores guitarristas de todos os tempos.

Nem só de alegrias viveu essa família, Leon alega no livro Meu Irmão Jimi Hendrix que sofreu com os reveses do irmão, que completaria 70 anos em novembro deste ano. Mesmo com as revelações, Leon revela que, para ele, Jimi é imortal. “Gente como ele não é desse mundo. Jimi sabia tudo sem nunca ter lido um livro, levava tudo na alma. Dizia que tinha nascido das estrelas, que era meio humano, meio alienígena e mostrava isso no palco. Ele se transformava com a música, explodia.”

Pobres, os irmãos Hendrix ajudavam o pai alcoólatra em trabalhos de jardinagem para sustentar a casa e viram seus irmãos mais novos, um menino e duas meninas, serem entregues para adoção.

Mesmo depois da fama, conta Leon, Jimi Hendrix vivia só da diária de US$ 50 que seus empresários liberavam e teve boa parte da fortuna surrupiada. Ele também suspeita de que os executivos estejam envolvidos de alguma forma na morte do irmão (o contrato com a gravadora venceria na semana seguinte àquela em que morreu).

No livro, ele descreve as baladas ao lado do irmão durante uma turnê pela Califórnia. “Púnhamos cocaína na mesa como se fosse um aperitivo, carreiras grossas, intermináveis”, conta Leon. Mais da vida oculta de Jimi Hendrix pode ser conferido no livro lançado em comemoração aos 70 anos do guitarrista, no valor de aproximadamente R$45,00.

Quixadá inaugura estátua da escritora Rachel de Queiroz

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Gladson Martins, Hidário Matos e Clébio Viriato ao lado da estátua que homenageia a escritora que projetou a vida sertaneja pelo mundo da literatura, se tornando imortal da Academia Brasileira de Letras FOTO: ALEX PIMENTEL


Alex Pimentel, no Diário do Nordeste

Após uma semana de expectativa, admiradores da cultura e da literatura nacional participaram da festa de aniversário da escritora Rachel de Queiroz na Praça da Cultura, no Centro de Quixadá. Era o encerramento da I Semana Rachel de Queiroz. Na abertura da noite comemorativa, os presidentes da Associação de Cinema e Vídeo de Quixadá (ACVQ), Gladson Martins e da Rede de Atenção Cego Aderaldo (RACA), Hidário Matos, e ainda o idealizador e um dos produtores do projeto, o cineasta e escritor Clébio Viriato Ribeiro, entregaram à cidade a escultura de bronze da ilustre escritora.

Na solenidade, além de “vivas” para a aniversariante, uma chuva de papel laminado abrilhantou ainda mais o entrono do Chalé da Pedra, atualmente Memorial da “imortal” da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Sobrinhos e amigos pessoais de Rachel de Queiroz foram convidados a descerrar a estátua de bronze, sentada em banco de praça, obra do escultor Murilo Sá Toledo. O sobrinho da escritora, economista Manuel de Queiroz Salec, viajou do Rio de Janeiro a Quixadá para representar a família. Uma caravana de moradores partiu da Fazenda Não me deixes à Praça da Cultura para render homenagens.

Um deles foi o vaqueiro Francisco José Dias, hoje com 74 anos de idade. Ele disse ter convivido por mais de 30 anos com a escritora, no seu recanto predileto. “Uma patroa simpática e de vida simples. Ela adorava acordar com o canto da passarada e acompanhar o por do sol do alpendre da fazenda, sentadinha desse jeito aqui, com elegância”, recordou Dias apontado para a estátua da escritora.

Os três promotores da Semana Cultural pretendem incluir o evento no calendário cultural de Quixadá. O futuro prefeito, o comerciante João Hudson Bezerra, participou da festa e acenou para a continuidade da proposta cultural. No próximo ano, no mesmo período, todos já estarão familiarizados com o conjunto de obras da personagem histórica. Conforme o representante da RACA, Hidário Matos, a proposta inicial era acomodar a escultura de bronze no patamar de acesso ao Chalé, junto à escadaria, ao lado do benjamim, uma das flores prediletas da escritora.

Especial

Todavia, o escultor convenceu os organizadores a instalar a estátua no jardim, mais abaixo, com vista para a porta do Centro Cultural. “Seria apenas mais uma obra dentro do Chalé, mas fora, é um monumento, muito especial”, argumentou o escultor tendo seu pedido atendido.

No local onde foi instalado, em breve, o banquinho da escritora será uma das principais atrações turísticas da cidade. Receberá a mesma atenção da existente na Praça dos Leões, em Fortaleza. Hidário Matos disse ter acompanhado a reação do público ao lado da replica da escultura da escritora, na Capital.

“A reação das pessoas é interessante. Alguns fazem carinho, outros rezam, também aparece gente pra conversar e até para xingar, mas não é com Rachel de Queiroz não. A revolta é com quem se mete a ser escritor mas acaba com a gramática brasileira”, disse. E mal bastou a ilustre escritora “sentar” no banco da Praça da Cultura, em Quixadá, para o público começar a fazer fila para ficar ao lado dela. Alguns, para dar os parabéns.

A festa de aniversário dela continuou com o lançamento do livro “A filha do sertão”, de Clébio Ribeiro e Gladson Martins, também assinado por um leque de escritores, dentre eles a irmã Maria Luiza de Queiroz, Vania Dummar, Aurora Duarte, Francis Vale, Caio Quinderé, Cecília Cunha, Miriane Peregrino, Angélica Nogueira, ainda a jovem escritora Bruna Borges e o cordelista e poeta popular Miguel Peixoto, in memoria. O exemplar trás fragmentos do convívio e de homenagens, alguns em formato poético e de cordel. No texto é relembrada a data de nascimento, 17 de novembro. N último sábado, completaria 102 anos .

Os grupos culturais Xique-Xique, de Canindé, da Fundação Cultural Francisco Fonseca Lopes, de Caridade, e os shows “Aboios, o som do sertão” com a Mestre da Cultura Diná Martins e os Vaqueiros, de Canindé, ainda a banda Dona Zefinha, de Itapipoca, encararam a programação cultural. O público adorou. Queriam mais.

Conforme Clébio Ribeiro, se depender dos organizadores, na semana de aniversário de Rachel de Queiroz, mais uma vez serão realizados seminários, mesas redondas, mostra cinematográfica e espetáculos em tributo a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, quixadaense do coração.

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